(Cap. 21) O Tempo Não Para

O Tempo Não Para

"Disparo contra o sol

Sou forte, sou por acaso

Minha metralhadora cheia de mágoas

Eu sou um cara

Cansado de correr

Na direção contrária

Sem pódio de chegada ou beijo de namorada

Eu sou mais um cara

Mas se você achar

Que eu tô derrotado

Saiba que ainda estão rolando os dados

Porque o tempo, o tempo não para

Dias sim, dias não

Eu vou sobrevivendo sem um arranhão

Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos

Tuas ideias não correspondem aos fatos

O tempo não para

Eu vejo o futuro repetir o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades

O tempo não para

Não para, não, não para

Eu não tenho data pra comemorar

Às vezes os meus dias são de par em par

Procurando agulha num palheiro

Nas noites de frio é melhor nem nascer

Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer

E assim nos tornamos brasileiros

Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro

Transformam o país inteiro num puteiro

Pois assim se ganha mais dinheiro

A tua piscina tá cheia de ratos

Tuas ideias não correspondem aos fatos

O tempo não para

Eu vejo o futuro repetir o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades

O tempo não para

Não para, não, não para

Dias sim, dias não

Eu vou sobrevivendo sem um arranhão

Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos

Tuas ideias não correspondem aos fatos

O tempo não para

Eu vejo o futuro repetir o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades

O tempo não para

Não para, não, não para"

Cazuza/Arnaldo Brandão

– Kent? Onde você ouviu esse nome? - eu estava irritada, mas falei baixo apenas para Lyra ouvir

– Você disse enquanto dormia. Quem é ele? - ela continuou insistindo

– Não é ninguém.

– Não foi isso que pareceu... -Lyra ficou pensativa – Espera um pouco, um dos seus mentores, tem esse nome, não é? Kent ... Wayne. È esse o nome dele!

– Sim, Kent é meu mentor. Tá satisfeita?

– Não. Você tem algo a mais com ele? Ele é seu namorado?

– Isso é coisa que se pergunte? Por que eu teria algo com ele?- me esforçava para não aumentar o tom, não queria ser escutada pelas câmeras, mas meu rosto podia demonstrar o que eu sentia, e era raiva, mas Lyra não se abalava

– Bem, porque você gemia e suspirava enquanto falava o nome dele.

– E o que você sabe sobre isso? Está muita assanhada para sua idade, não? Assuntos de gemidos e suspiros não deveriam ser de conhecimento de uma garota de 13 anos! E só por que eu sonho com ele, quer dizer que temos um relacionamento?

– Não é certeza, mas me pareceu suspeito.

– Lyra... Eu tenho controle absoluto dos meus sonhos, é? Se eu tivesse dito o nome do presidente, quer dizer que ela era o meu amante? Tenha paciência! Vou dormir- falei andando para o quarto e ainda ouvi o comentário de Lyra

– Mas não foi o nome do presidente que você falou. - ela riu e andou atrás de mim

Parecia que Lyra não ia continuar com o assunto. Eu sabia que ela ainda estava desconfiada, mas não queria falar sobre isso. Não era falta de confiança, o problema era que eu não me sentia confortável em falar sobre Kent. Ainda era muito complicado para mim, e eu não entendia tudo, meus sentimentos e minhas ações. Só de pensar nisso, eu ficava desconfortável. Não, eu não podia falar com Lyra.

Voltei a cama e fingi dormir. Mas eu não conseguia. O sonho e aquela conversa me incomodavam. Cheguei a entrar num estado de torpor, aquele que antecede o sono, mas não consegui dormir profundamente. Também quando estava nesse estado inerte. Ouvi um tiro de canhão. Levantei assustada. E olhei em volta.

Todos estavam bem, e acordavam. Entretanto, o tiro de canhão nos incomodara. Era mais uma morte na arena. Restavam 15, considerando que no grupo dos carreiristas tinham 5, e no nosso também, havia apenas mais 5 que representava uma concorrência entre nós e os carreiristas. A menos que esse tiro representasse a morte de um profissional, o que eu não acreditava. A situação começava a ficar complicada. Eu realmente tinha medo de um contexto em que ficasse somente a gente e os carreiristas. Nós seríamos obrigados a enfrentá-los e o que seria da gente? E depois? Eu não gostava de pensar naquilo. Mas sabia de uma algo, deveria estar preparada para o confronto.

Já que todos estavam acordados, resolvi abordar o assunto. A gente tinha que se preparar. Expus as minhas idéias, e foi uma confusão enorme. Todos queriam falar ao mesmo tempo. Então eles acabaram se contendo e eu pude escutar Bishop:

– Precisamos de mais armas.

– Sim, é verdade. E quem tem armas aqui?

– Os carreiristas. – falou Lyra- Você não está pensando...- ela me olhava e eu sorri com um quê diabólico

– Você quer roubar as armas dos carreiristas? – perguntou Lisbeth- eu movi minha cabeça em sinal de sim

– Isso é loucura! – falou Asriel – Eles vão nos esfolar.

– Por ser uma loucura é que pode dar certo. – falei

– È verdade, eles não vão esperar por isso. – falou Bishop

– Não vão mesmo – completou Lyra com seu ar sapeca, mas os outros não estavam convencidos, e eu resolvi continuar

– Que arma você quer, Bishop?

– Eu era lenhador, então me viro bem com um machado.

– Um machado... E você, Asriel?

– Eu? Vocês vão pegar uma arma para mim? – falou o garoto surpreso

– Você faz parte do grupo, não? Como alguém que cresceu no distrito 4 você deve ter uma arma que é a sua especialidade, qual era?

– Uma zarabatana.

– O que? O que é isso? – perguntou Lyra curiosa

– È uma espécie de cano, onde se coloca agulhas, espinhos, dados ou algo do tipo. A pessoa sopra e acerta o adversário. Ela era usada por índios – respondi, é, eu entendia sobre armas, e Asriel ficou admirado com a resposta

– Sim, é isso.

– È uma arma estranha. – falou Lisbeth

– Os carreiristas também achavam isso, mas pode ser fatal – respondeu Asriel de forma orgulhosa

– Você não deve ser muito bom, já que sua nota, não foi tão boa – falou Bishop provocando

– Também não foi um desastre, né? Na verdade, eu fiquei nervoso e tremi na minha apresentação. Mas sou muito bom. – Asriel falou firme

– É o que veremos – eu disse- E você, garotinha? – me virei para Lyra

– Minha arma é minha mente- ela respondeu astuta, eu ri

– E a menininha? – encarei Lisbeth

– A mesma coisa, minha arma é minha mente e ahhh... meu corpo, meus braços, minhas pernas.- ela falou firme

– Tá bom, a gente arruma algo para vocês. Vou pegar mais facas e ensinar as duas a não se cortar com elas – eu ri- Então estamos combinados? – Machado, zarabatana e facas!

Nós comemos. Lisbeth, Asriel e Bishop ficaram incumbidos de arrumar mais suprimentos. Eu e Lyra iríamos bolar um plano. Na verdade, acho que alguns deles até estranharam o fato de eu escolher Lyra para me ajudar na estratégia. È que não sabiam o quanto nossa mente se completava, e que juntas que chegaríamos à melhor estratégia.

Lyra e eu fomos até um lugar aonde podíamos avistar a Cornucópia e o galpão que estavam os carreiristas. O víamos de longe. Os 5 estavam lá. Eles escutaram um barulho e todos saíram do galpão. Encontraram Lotus do distrito 12. Eu sabia o que ia acontecer. A garota já era.

Gaiman usou sua machadinha e atingiu a cabeça de Lotus. Ouvimos um tiro de canhão. Lyra queria se mexer, tentar alguma coisa, mas não adiantava. Já havia acabado. Ficamos escondidas. Presenciamos aquele assassinato, mas tínhamos entendido como as coisas funcionavam. A gente não podia perder tempo, os acontecimentos estavam contra nós. Só restavam mais 14 tributos na arena.

Enquanto voltávamos a casa. Fizemos o nosso plano, agiríamos pela noite. Quando chegamos, passamos os passos com todos. Eles também seriam usados na estratégia. Pouco antes de sairmos, um pára-quedas apareceu ao meu lado. Eu nem sabia de onde tinha vindo, mas era para mim. O abri, vi um bilhete e não pude conter o meu sorriso, lá estava escrito:

"Para tornar seu corpo mais belo (se possível) e seus movimentos ainda mais ágeis. Te espero com muita saudade,

Do seu Kent."

Havia também um pacote e quando o abri, vi uma roupa maleável preta, era propícia para acrobacias, só que tinha vários bolsos. Havia uns que ficavam na parte da frente, que era ideal para colocar facas. Além disso, notei também uma espécie de sapatilha de um tecido reforçado.

Vesti tudo e coloquei minhas facas nos bolsos da frente. Me sentia uma espiã. Aquela roupa não deveria ter saído barato, Kent realmente estava lutando por mim. Novamente guardei o seu bilhete em minha mochila, eu não conseguia rasgá-lo.

Já havia anoitecido quando chegamos próximo a Cornucópia. As imagens dos mortos do dia apareceram. Primeiro Gen, o companheiro de distrito de Lisbeth. Até olhei para menina para ver se ela ficou triste, mas o seu companheiro não devia ser muito amigo dela. E depois apareceu Lotus.

Esse era o sinal para agirmos. Eu e Lisbeth havíamos ficado juntas, nós éramos as mais rápidas. Bishop ficara sozinho, um pouco atrás da gente, ele era o maior e o mais forte e com seu pedaço de madeira, poderia nos auxiliar caso tivéssemos problemas enquanto pegávamos as armas. Mais longe estavam Lyra e Asriel, eles seriam a isca e deveriam chamar a atenção dos carreiristas. E dessa forma, escutamos vozes:

– Vocês estão aí? Vem nos pegar.- gritou Asriel

– É, vem!- gritou Lyra

Todos os carreiristas correram em direção as vozes. Eu tinha medo que os dois fossem alcançados, mas não teria como roubar as armas sem risco. Eu havia deixado uma faca com Lyra e a espada de Vaughn com Asriel, e com isso esperava que eles fossem capazes de defender se o pior acontecesse.

Agora era a minha vez e de Lisbeth. Ela deveria conseguir as facas, eu o machado e zarabatana. Nos movemos bem rápido. Vi o machado e o peguei. Agora restava a zarabatana. Eu estava carregando aquele machado pesado e havia me tornado mais lenta. E mesmo com os óculos de visão noturna, eu não conseguia ver a arma de Asriel. Eu começava a ficar apreensiva. Deixei o machado no chão e me ajoelhei para procurar melhor. Olhava para todos os lados.

Vi a zarabatana longe e separada das outras armas. Saltei até ela, a peguei, voltei e segurei o machado. Parecia que alguns carreiristas já voltavam, então corri de lá com Lisbeth. Ela também já tinha conseguido as facas. Encontramos com Bishop e dei o machado a ele. Foi bom me aliviar daquele peso. E ele ficou satisfeito com a arma.

Corremos até a casa. Ao chegarmos a porta, não vi Asriel ou Lyra. Já era para eles terem voltado. Entramos na casa, e nada deles. O tempo passava e meu medo aumentava. Será que havia acontecido algo com eles? Eu não ouvira tiros de canhão, então eles ainda estavam vivos. Mas o meu receio não passava.

Fui para fora da casa e meus companheiros me acompanharam. Estávamos ansiosos. Depois de um tempo, notei um barulho e consegui vê-los correndo em nossa direção. Quando eles estavam próximos a nós, houve uma explosão de felicidade. Tínhamos conseguido. Enganamos os carreiristas e estamos a salvo. Nos abraçamos, pulamos, comemoramos e até gritamos um pouco. E de repente uma "chuva" de pára-quedas começou a cair em cima da gente. Era a nossa recompensa pela ação bem sucedida do dia.