Capítulo Vinte e Um

Sirius jogou o esfregão de volta no balde com raiva.

- Que parte você ainda não entendeu, Lily? Nós estávamos dando uns amassos num armário de vassouras e eu disse a ela "eu quero você pra mim"!

- Não foi a maneira mais romântica do mundo, convenhamos, né? – a ruiva não conseguiu esconder o sarcasmo na voz.

Ela arregalou os olhos quando ele foi a passos decididos em sua direção, parando a centímetros dela.

- Eu sei ser um cara romântico, eu faço isso a minha vida inteira, praticamente todo dia, toda hora, sempre galanteador. Mas a coisa mais sincera que eu já disse pra uma garota em toda a minha vida não saiu da "maneira mais romântica do mundo". Mas ela entendeu, ela entendeu muito bem, tanto que respondeu "Sirius, querido, – ele colocou a mão da cintura e imitou o tom de voz superior que ela usava – não vamos namorar, contente-se com nossas saídas furtivas!".

Lily engoliu em seco, sem saber o que responder para aqueles olhos negros enfurecidos diante dela. Sirius então se virou, voltou ao balde e pegou o esfregão novamente.

A garota ficou ali parada por um tempo, pensativa, tentando juntar os quebra-cabeças da mente confusa de Anne e arrumar um jeito de ajudar os dois.

- Ela sabe disso? – perguntou, de repente, completando em seguida ao ver a expressão confusa do outro – Que foi a coisa mais sincera que você já disse a uma garota?

- Claro que sabe. – Sirius deu de ombros, como quem acha algo óbvio.

- Pode ser algo óbvio pra você, mas uma garota precisa ouvir esse tipo de coisa pra ter certeza. Você precisa dizer isso pra ela.

O maroto parou e se apoiou no esfregão.

- Eu acho que ela já deixou bem claro, várias vezes, que não quer nada sério comigo.

- Apenas porque ela acha que nunca daria certo.

- E por que diabos não daria certo?? – perguntou um revoltado Sirius, deixando o esfregão cair e bater sonoramente contra o chão.

- Isso você tem de perguntar a ela... e explicar que daria certo sim.

- Eu não vou me humilhar de novo. – respondeu ele, decidido.

- Dizer o que você sente não é se humilhar.

- Então vai lá falar com o James e me deixa em paz!

Lily riu, observando enquanto ele pegava o esfregão e voltava a trabalhar como se nada tivesse acontecido. Ela sabia que ele tinha razão, dizer o que se sente é algo realmente difícil de fazer, principalmente quando já houve uma rejeição anterior. Pelo que tinha entendido Anne já deixara claro que não queria nada publicamente e já tinha rejeitado um pedido de namoro. Como proceder em uma situação dessas? Ele corria o risco de ser rejeitado mais uma vez.

Rejeição. De repente Lily entendeu. Anne rejeitava tanto exatamente por medo de ser ela própria rejeitada. Com medo de que o mulherengo maroto se cansasse dela e a largasse, o que seria uma rejeição comentada por todo o castelo. E Lily entendia muito bem desse medo, pois ela mesma o sentia em relação ao outro maroto. Afinal eles sempre foram assim e oportunidade para voltar a essa vida promíscua é o que não vai faltar, pois sempre haverá garotas atrás deles.

- Certo, vamos lá. Eu vou te ajudar. – disse Lily, fazendo Sirius parar o trabalho mais uma vez e revirar os olhos.

- Por acaso você tem um plano mágico?

- Quase isso. – Lily tinha um sorriso orgulhoso no rosto – Vamos passo a passo e eu vou te dando dicas de como prosseguir com ela, do mesmo jeito que você fez comigo quando eu precisava convencer o James a namorar comigo no final do ano passado.

Sirius respirou fundo.

- E vai fazer eu me arrepender de ter te ajudado, não é mesmo?

Lily riu.

- Não vai ser tão ruim, pelo menos você não me odeia. Receber ordens de você me irritava profundamente!

O maroto riu também.

- Eu adorava aquilo.

- E eu vou adorar isso. – rebateu Lily, sorrindo triunfante.

- Certo. – Sirius revirou os olhos – O que eu tenho de fazer?

- O Passo 1 será conversar com ela, dizendo que tudo bem, vai pedir desculpas por tê-la beijado no salão principal quando você sabia que ela não queria isso e dizer que tudo bem, se ela prefere encontros furtivos, é isso que vocês vão ter.

- Passo 1: jogar o jogo dela. Saquei. – então foi a vez de Sirius abrir um sorriso triunfante.


Lily procurou Anne para tentar falar com ela antes do jantar, mas só a encontrou na mesa da grifinória. Afinal, estava tentando ajudá-la, ela era sua amiga, mas nada disso a impedia de sentir-se como se sentia: traída. Sentou-se ao lado dela e falou o mais baixo possível.

- Por que diabos você não me contou que o Sirius te pediu em namoro??

A reação de Anne foi como quem reage a uma informação sobre o tempo. Nada de olhos arregalados, sobrancelhas levantadas ou músculos tensos, ela continuou sua refeição como se nada tivesse acontecido.

- Ora, Lil, porque não achei relevante. Eu nem aceitei. Eu disse que não e pronto, não mudou nada.

- Como assim não mudou nada? Ele está furioso contigo!

- Está? – perguntou Anne, expressando um mínimo de reação ao parar o garfo no ar, a meio caminho de sua boca.

- Claro!

- Hum... puro orgulho. Esse cara é movido por ego. – concluiu ela, levando finalmente o garfo à boca.

- E você acha que é por ego que ele quer namorar você? – Lily revirou os olhos, impaciente.

- Talvez... a escola está acabando e ele nunca teve uma namorada por mais de uma semana! Vai ver ele quer ostentar uma...

- Claro, muito mais possível ser por isso do que ser por ele gostar de você! – ironizou a ruiva.

- Lil, você está aqui pra brigar comigo ou pra fugir de novo do James?

A ruiva arregalou os olhos.

- Eu já disse que não estou fugindo dele!!

- Certo, qual foi a última vez que você conversou com ele?

Lily desviou o olhar, pensativa, tentando se lembrar. Havia falado coisas rápidas e irrelevantes com ele apenas, conversar mesmo havia sido apenas durante o encontro no teto do castelo na noite anterior.

- Não mude de assunto, Anne!

- Não mude você!

- Você que mudou, eu só voltei ao assunto!

- Certo, Lil, vamos fazer assim: hoje depois do treino você fala com o James e eu falo com o Sirius. Depois no quarto a gente conversa. Fechado?

- Fechado.

"Perfeito", pensou Lily. Ela já estava pensando em dar uma passada no treino mesmo, além do que isso ajudaria no plano com o Sirius.


James largou a pena em cima da pilha de pergaminhos e recostou-se em sua cadeira, jogando a cabeça para trás, os olhos no teto. Parecia que dias haviam se passado desde que saíra pela primeira vez em um encontro de verdade com Lily Evans, o que acontecera apenas na noite anterior. O engraçado é que ainda não havia conseguido falar com ela direito.

Essas detenções do Sirius estavam começando a irritá-lo, estava fazendo com que ele e Lily se desencontrassem na monitoria. Depois do jantar ele teria treino e quando voltasse ela já teria ido.

Como conseguiria conversar com ela?

Olhou para o relógio e percebeu que já estava na hora do jantar. Levantou-se de um pulo, pegou o suéter, o jogou no ombro e saiu, enquanto ajeitava a gravata. Essa coisa de ser monitor-chefe às vezes era um saco.

James parou em frente à mesa da grifinória, notou que os outros já estavam lá e que Lily parecia cochichar alguma coisa com Anne no final da longa mesa. Tentou ignorar o fato de que a ruiva mais uma vez estava se sentando bem longe dele e sentou-se no lugar vago ao lado de Sirius.

James ajeitou os óculos no nariz, notando que os outros três estavam muito calados na mesa. Abriu um sorriso zombeteiro, tendo uma boa idéia.

- Mooney, esse lugar não tava reservado pra você, não? Se quiser eu posso trocar... pra você ficar do ladinho do Sirius...

Remus, do outro lado da mesa, franziu a testa e o metralhou com seus olhos cor-de-mel. Sirius apenas deu um belo soco no braço de James.

- Ora, é que vocês ficam tão bonitinhos de mãos dadas! – disse James, entre risos.

- Cara, tu tá abusando da sorte... – ameaçou Sirius.

- Eu só queria dizer – James agora tinha o semblante sério, um olhar compreensivo e um sorriso incentivador – que eu entendo como é ter de passar pelo estágio do "namoro de aparências" pra se acostumar com a idéia antes de finalmente aceitar o que sente... deu muito certo isso com a Lily, acho que pode dar certo pra vocês também!

- CHEGA! – gritou Sirius, batendo o punho na mesa, fazendo um estrondoso barulho.

James gargalhava em seu assento descontroladamente. Todas as cabeças próximas já estavam viradas para eles. Peter também gargalhava, até Remus ria, apenas Sirius mantinha-se furioso.

Após o jantar, James e Sirius estavam no quarto trocando o uniforme da escola pelo uniforme do time.

- Padfoot, você conversou com a Lily hoje, ela falou ou perguntou algo sobre mim?

- Nem uma palavra, Prongs, sinto muito.

James puxou a cotoveleira do pulso para o cotovelo com força. Fez o mesmo com o outro braço.

- Eu acho que ela está me evitando.

- Ah, Prongos, de repente não é isso... a Anne está me evitando e a Lily anda tendo muito o que conversar com ela... – Sirius deu uma risada rápida – Eu tenho certeza de que hoje no jantar a Lily estava perguntando furiosa pra amiguinha-

James estreitou os olhos quando Sirius parou de fazer abruptamente.

- Perguntando o quê?

- Sobre mim. – Sirius respondeu evasivamente.

- Sobre você o quê, Padfoot?

Sirius bufou, parecia estar arrependido de ter começado o assunto.

- Perguntando por que a Anne não tinha contado pra ela que eu a pedi em namoro semana passada. Pronto, contei.

O maxilar de James despencou, depois se recuperou em um sorriso.

- Cara, você pediu alguém em namoro!!

- É, e ela não aceitou.

O sorriso de James se desfez instantaneamente.

- Claro, por isso você não me contou.

- É, é... mas enfim, a Lily tá tentando me ajudar em como agir com a Anne...

- Então ela não está fugindo de mim?

- Ah, pode ser isso também. – Sirius riu, logo levando um soco de James no braço – Como eu posso saber o que se passa na cabeça dessas mulheres??

James sentou-se na cama para calçar os sapatos. Quando se levantou percebeu que Sirius ainda estava parado, parecia raciocinar algo que lhe era engraçado, posto que ria.

- Prongs, se você e a Lily já estavam oficialmente namorando, você não precisa pedi-la em namoro, certo? É só não terminar!

- Sirius, você é brilhante. – ironizou James – Mas é por aí que eu vou começar.

Sirius deu um sorriso sacana para o amigo. James revirou os olhos e se dirigiu para a porta.

- Prongs, você não era de revirar os olhos até conhecer a Lily, sabia? – disse Sirius, seguindo o outro pela escada abaixo.

- E você não era tão inconveniente antes de conhecer a Anne. – respondeu Anne, parando no degrau para olhar para o outro, rindo – Ahhhh, já era sim, sempre foi!

Sirius deu-lhe um empurrão e James pulou uns quatro degraus para não cair. Os dois seguiram para o campo enumerando esse tipo de qualidades um do outro.

O treino passou normalmente, sem muitas alterações, principalmente para James, que trabalha mais sozinho do que com o resto do grupo. Ele dependia apenas dos batedores para livrá-lo de um eventual balaço que lhe tiraria da mira do pomo, mas mesmo assim era não era freqüente, pois os balaços geralmente tinham os atacantes como alvos. Ao final James estava todo coberto de areia, devido a uma tentativa de pegar o pomo que dera errado e ele acabara dando cambalhotas na areia do campo, por isso seu cabelo, além de bagunçado, estava recheado.

James saiu do campo com sua vassoura pendurada no ombro, sacudindo o cabelo com a outra mão para diminuir a quantidade de areia em seu cabelo. Parecia que havia levado vários caixotes numa praia.

- Gracioso. – disse Sirius, surgindo ao seu lado, saindo do campo também – Sempre gracioso depois dos treinos. – Sirius deu uma gargalhada sonora – Tinha faltado esse na lista.

- Pior do que você rolando na floresta proibida com seus pêlos caninos cheios de terra eu nunca fico. – disse James, fazendo uma careta – E importunante, amolador e irritante já estavam na sua lista, então não tenho nada a acrescentar.

- Eu sei que eu sou admirável, magnífico! E por isso mesmo eu vou te deixar sozinho agora. – dito isto, Sirius sorriu e, piscando o olho, se afastou.

James não entendeu de imediato o que o outro queria dizer, apenas alguns passos a frente que viu o motivo: uma bela garota vinha com aquele andar rebolado em sua direção, uma grifinória do sexto ano, muito bonita e com um belo decote. James nem reparou que seu maxilar havia meio que despencado.

- Oi, homem-areia. – disse ela sorrindo, parando na sua frente – Assistir seus treinos é sempre divertido.

- Bom saber que somos um entretenimento. – respondeu ele, sorridente, passando a mão pelos cabelos de novo.

- James – começou ela, se aproximando mais – eu quero muito te fazer uma pergunta.

- Claro. – respondeu, engolindo em seco.

- Quanto tempo mais você vai continuar namorando? Ou sendo fiel?

James sentiu que prendera a respiração. Ou estava faltando ar ou ele havia esquecido como funciona seu sistema respiratório, embora seu coração bombeasse o sangue na velocidade máxima.

Para piorar a situação, que já era embaraçosa o suficiente, ele notou que Lily estava entrando no campo de quadribol naquele exato momento. Observou que a ruiva parou ao vê-los, estreitando os olhos e cruzando os braços. James não pôde conter um sorriso de lábios fechados, estava gostando de ver a outra com ciúmes dele.

- Por que não damos uma volta agora, aproveitando que a sua namorada não está aqui? – a garota deu mais um passo, fazendo com que a distancia entre os dois ficasse a mínima possível em um local público.

- Dar uma volta? – repetiu James apenas para ganhar tempo, passando a mão pelos cabelos mais para arrepiá-los do que para tirara a areia.

Deu uma rápida olhada por cima da garota novamente e sorriu ao ver que Lily se aproximava a passos largos e furiosos.

- Sim. – respondeu a garota, com um sorriso insinuante – Onde está ela?

- A namorada dele? Bem aqui. – respondeu Lily, parando de braços cruzados atrás da garota, que se afastou de James em um pulo.

- Oi, Lily! – disse a grifinória de uma maneira embaraçosa – Estava perguntando a ele por você.

- Eu ouvi. – a voz da ruiva era seca e ríspida.

- Mas eu já nem lembro mais o porquê! – a menina deu um riso falso – Então eu já vou indo, vou deixar vocês sozinhos, até mais.

A outra se afastou em passos ligeiros. Lily se manteve de braços cruzados e olhos estreitos na direção do maroto, que sorria abertamente.

- Você não ia dar um fora nela. – disse Lily, em um tom que não era questionador.

- Não, eu estava enrolando ela pra ver o que você faria.

James notou chocado que a raiva na expressão da garota aumentou.

- Ora, Lils, o que você achou que eu fosse fazer? Pegar a mão dela e levá-lo pra trás da arquibancada?

- Se eu não chegasse naquela hora parecia que sim.

James se sentiu insultado. Como ela podia pensar isso dele? Depois de todo esse tempo. Estava boquiaberto. Largou a vassoura no chão.

- Lily, eu saí com você ontem! Você acha que eu já estaria com outra? Mesmo depois de tudo o que eu fiz por você esse tempo todo? Eu pensei que já tivesse deixado bem claro eu o que eu sentia por você.

- Sei lá! Eu achei que talvez você pudesse não querer mais ficar comigo depois de finalmente ter conseguido sair comigo!

Ele revirou os olhos, mal podendo acreditar no que tinha acabado de ouvir.

- LILY EVANS, eu te disse ontem que eu não sei mais viver sem você! Você é surda ou totalmente ignorou o que eu d-

James não conseguiu terminar a frase porque Lily deu um rápido impulso em sua direção e segurou o seu rosto para lhe beijar. Quando os lábios dela se afastaram dos seus, estes se transformaram em um sorriso.

- Então você ouviu agora ou acreditou agora? – perguntou ele.

- Acreditei. – ela sorriu timidamente, o abraçando.

Ele balançou a cabeça, fazendo uma grande quantidade de areia cair sobre ela. Lily se afastou imediatamente, tirando a areia dela. Eles riram e ela voltou a abraçá-lo.

- Adorei quando você disse que era a minha namorada, com toda aquela certeza.

James sentiu que ela iria se afastar dele e a abraçou com mais força, não a deixando se soltar.

- Ela está com sorte que eu não dei uma boa surra nela! Ou ao menos uma detenção!

James riu.

- Então – começou ele, meio incerto – agora o namoro é de verdade?

Lily se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dele e sorriu.

- Sim, agora é.


N/A: ainda tem mais.

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