SAVE ME
Capítulo 21. Frustração
Nervoso, o rapaz alto entrou no banheiro, batendo a porta sem qualquer cuidado.
Estava irritado. Irritado demais, a ponto de explodir. Pior era saber que tudo era previsível. Sabia desde o início que aquela conversa a portas fechadas ia terminar assim. Sabia, mas não teve como evitar.
Nem tudo que era previsível podia ser evitado. Eram coisas que simplesmente aconteciam.
As perguntas, as conversas, a preocupação que vinha dos outros... preocupações previsíveis, motivos justos... mas nada que estivesse precisando.
Sabia que ia acontecer, mas não podia permitir que fosse assim.
– Ishihara, você está bem?
Era a pergunta mais comum naqueles tempos, e vinha na voz de qualquer um que o conhecesse. Tão frequente quanto a resposta, que era sempre a mesma.
– Hai. – foi tudo o que disse. Sequer precisava pensar. Era uma resposta automática. Não importava que fosse o seu chefe quem estivesse falando. Sua concordância era bastante democrática para se adequar a qualquer um.
– Não parece. Já se olhou no espelho?
– Faço isso quase todos os dias e não vejo nenhuma diferença.
– Já se acostumou tanto às suas olheiras que nem as percebe mais. Há quanto tempo você não dorme?
De que ia adiantar dizer que não dormia há meses? Que bastava fechar os olhos para surgir em seus sonhos a imagem do corpo de Kai? Ou que passava as noites em claro, lendo e relendo os laudos da morte de seu namorado?
Não ia servir para nada. Apenas para que fosse encaminhado a uma terapia. E não fazia parte do seu planejamento ser afastado do seu trabalho. A troco de quê? De ficar batendo papo?
Não... queria ficar. Queria continuar na mesma função. Tinha muitos planos. Não abriria mão disso.
– A quantidade de horas que eu durmo tem sido o suficiente.
A resposta teve má recepção de seu superior, que o olhou com ares de reprovação. Miyavi não se importou. Já estava acostumado e, francamente, aquilo não fazia a menor diferença.
– Você passou por muita coisa nos últimos tempos. Deveria tirar férias e viajar, descansar de tudo isso.
– Agradeço a preocupação, senhor, mas estou bem. Trabalhar é o que me mantém são. Além disso, tenho casos a resolver. Não poderia me afastar agora nem se eu quisesse.
– Ishihara, nós dois sabemos que esse trabalho não mantém a sanidade de ninguém. Esse caso, principalmente. Não vai encontrar sanidade nele. Deveria se afastar.
– O quê? Me afastar?! – indagou, espantado. – Não há razões para isso!
– Não mesmo? Não vejo dessa forma: sobram razões. Você tem ligações pessoais com esses crimes.
– Isso não é impedimento, e sim uma razão a mais para que eu me dedique.
– É uma razão para que coloque tudo a perder. Você nunca teve envolvimentos, Takamasa. Nunca conheceu ninguém envolvido e nunca teve ligações e não é mais o caso. Você perdeu alguém e isso muda tudo. Eu sei que você o amava e é por isso que eu me preocupo.
– Eu o amo, e é por isso que eu quero continuar. Não ouse me tirar disso.
– Continuar só vai te fazer mal.
– Está errado. Nada mais pode me fazer mal. Onegai, deixe-me fazer o que tem de ser feito.
Mas não adiantou. Era uma conversa com rumo certo onde todos os argumentos contrários tinham como destino a negação na voz baixa de seu chefe, por mais que seu desespero em passar por aquilo fosse exposto em voz alta para que todos ouvissem.
As lágrimas que vieram aos seus olhos foram por raiva. Tinha acabado de perder muito. A proximidade daquele caso, a proximidade de sua vingança. Justamente o caso onde estava a sua chance de revanche.
Chance mínima, porque não havia qualquer compensação, pois a gangue que estava investigando havia lhe tirado o que tinha de mais precioso.
É claro que não ia deixar barato. Jurou a si mesmo e a Kai que isso não ia ficar impune. Certo, não havia vingança que bastasse, mas fazia questão. Seu moreno não ficaria no esquecimento.
Miyavi não abria mão disso, mesmo que seus planos tivessem sido frustrados. Porém, não seria o seu afastamento um obstáculo para fazer justiça. Nada e nem ninguém iria pará-lo.
Nada, nem ninguém.
Era nisso que estava pensando quando deu um soco na mesa e saiu furioso, a passos largos e sob os olhares de todos, ouvindo a voz ecoando atrás de si.
– Aproveite o resto do dia para pensar!
Abriu a torneira, abaixando-se para lavar o rosto, esfregando a pele com força. Quando olhou novamente para o espelho, viu o seu reflexo. No lugar do rapaz forte, enérgico e corajoso, viu um homem com olhos vermelhos e inchados, e que envelhecera décadas em dias.
Não via mais em si mesmo o que Kai dizia sobre ele. Na verdade esse homem talvez não existisse sem o seu namorado por perto.
Nada existia sem ele.
ooOOoo
Naquela noite, Miyavi não dormiu. Nada que fosse inédito, já que há tempos o sono não era o seu amigo. Quando o cansaço era muito e dormir parecia vital, engolia comprimidos e dormia um sono sem benefícios, sem sonhos ou descanso.
Mas, não seria dessa vez que tomaria os remédios. Também não seria a ocasião onde leria e releria os laudos para alimentar o desejo de vingança. Não era ocasião para pensamentos mórbidos, embora isso não significasse uma noite de paz. Essas simplesmente não existiam mais.
Até mesmo suas recordações, as suas melhores lembranças lhe tiravam o sono, dando a sensação inevitável de nostalgia, de saudade.
Saudade não era bom. Seria, se a pessoa ainda estivesse ali, por perto, ou caso estivesse longe, pelo menos tivesse uma data pra voltar. Kai não ia voltar.
Abraçou o travesseiro como se fosse ele. Quase podia sentir o calor daquele corpo menor que se encaixava perfeitamente ao seu, fosse num beijo, um abraço ou nas carícias mais íntimas. Já fazia pouco mais de três meses que tudo acontecera, mas o moreno ainda parecia estar tão perto...
Perto demais.
Sua mão deslizou pelo travesseiro como se fosse a pele de Kai. Com cuidado, carinho e contemplação. De uma forma quase pueril, com ares de proteção como se ele estivesse ali, dormindo ao seu lado, assim como nas noites que passavam juntos.
Em certas noites ainda era capaz de sentir a respiração quente dele contra a sua. Havia momentos em que as lembranças vinham com tanta força que eram capazes de montar tudo a sua frente, com num piscar de olhos. Tudo com os mínimos detalhes: olhares, sensações, dores e prazeres. Pequenos e grandes gestos, atitudes e palavras.
Kai estava dormindo, aconchegado em seu peito depois da "primeira vez". Miyavi ainda tinha em mente o peso de cada palavra dita pelo moreno pouco antes de adormecer. Tinha as palavras em sua mente da mesma forma como suas expressões e gemidos de prazer.
Lembrava perfeitamente de como ele parecia amuado, de como lhe falara em abandono, fazendo parecer o curso normal de qualquer coisa que o envolvia. Miyavi lembrou de seu próprio susto ao ouvir aquilo e de seu esforço para fazê–lo acreditar no óbvio.
Ainda pensava nisso, surpreendendo-se em como Kai poderia crer nas coisas que dizia. Abandono? Como Yutaka podia pensar nisso?
Pelo que seu namorado já havia passado para acreditar que a felicidade não era algo que merecesse?
Não sabia dizer, ele nunca lhe explicara. Sabia apenas o que percebia pela convivência. Yutaka era tímido, solitário. Falava pouco, agia como uma criança desconfiada da bondade alheia. Tinha poucos amigos, e o mais próximo dele era Yune. Os dois se conheciam desde a adolescência. Um vínculo muito forte e justo.
Eram amigos que tinham plena confiança um no outro e se davam muito bem. Pareciam irmãos. Yune o protegia, como bom amigo que era, como se tivessem apenas um ao outro.
Superproteção. Era o que lhe parecia às vezes. Não que Kai lhe dissesse algo a respeito, mas a forma com que o outro demonstrava sua preocupação eram evidente. Porém, nada com que Miyavi realmente se preocupasse. Uma vez até chegou a pensar que havia algum interesse, mas chegou a conclusão de que o sentimento entre eles era o de amor incondicional.
Um dia, perguntou a Yune o que Kai quis dizer sobre estar acostumado ao abandono. Como resposta não teve muito, mas foi o suficiente.
– Não sei o que acontece, mas as pessoas sempre se afastam. Ele não está exagerando. Eu mesmo vi acontecer várias vezes, e não consigo entender.
Se Yune que era um amigo de infância não entendia, o que poderia se dizer de Miyavi? E compreendia menos a cada dia que viveu ao seu lado, desde os dias de amizade até os de amor.
– Se você realmente o ama, cuide bem dele. Yutaka já sofreu muito, e não merece passar por isso de novo.
Kai tinha bom temperamento, boa índole e assunto pra qualquer conversa. Era paciente e atencioso, nunca invadia a sua privacidade e nem fazia perguntas demais. Tinha poucos defeitos, percebidos apenas pela convivência. Poucos mesmo, quase inexistentes.
Era quieto demais... quantas vezes não tinha lhe feito perguntas banais simplesmente para ouvir sua voz?
Era esquecido. Um cabecinha-de-vento. Celular, chaves, carteira, documentos, mochila... tudo parecia ser dispensável e poderia ser facilmente esquecido. Às vezes, Kai parecia longe, no mundo da lua. Pensamentos que deveriam ser torturantes, pelo menos era isso o que pensava ao se deparar com seu namorado, amuadinho e quieto em um canto, tentando passar despercebido, como se não quisesse incomodar ou dar trabalho a alguém.
Talvez fossem resquícios dos momentos de solidão, ou medo de ficar sozinho novamente. Yune uma vez falara sobre isso, quando conversavam sobre Kai.
Miyavi sempre se preocupava quando o via assim, mesmo que estivesse em seus piores dias dependendo de como fora o seu trabalho na polícia. Descobriu isso no dia da primeira discussão séria, causada exclusivamente por seu mau humor e impaciência. O olhar triste de Kai lhe feriu profundamente, assim como o pedido de desculpas sussurrado, que assumia uma culpa que não era sua, de forma alguma.
Naquele dia o abraçou pedindo perdão, enchendo-o de carinho como forma de compensar as más palavras, tentando tirar aquela tristeza dos olhos dele. Foi naquele momento que jurou nunca mais magoá-lo, e manteve sua promessa até o último dia.
Se antes havia culpa por tê-lo magoado, agora sua culpa era por não tê-lo protegido.
Culpa...
Uma noite longa pela frente.
ooOOoo
Passou mais uma vez por aquele corredor feito de mesas e computadores, daquela delegacia, sendo seguido por olhares diversos.
Miyavi não deu importância à isso. De uma forma ou outra já estava acostumado com os olhares alheios. Antes, era por sua aparência ou por suas proezas no trabalho, os impropérios distribuídos em alto e bom som ou seu mau-humor. Eram olhares de respeito, temor e até mesmo de admiração.
Agora, os olhares eram por sua tragédia. Eram de compaixão, pena.
"Que mudança..."
Respirou fundo e sentou-se na sua mesa. Seu novo local de trabalho pelo menos por enquanto. Soltou um muxoxo, concentrando-se em pensar na pergunta que gritava em sua mente: como um trabalho burocrático poderia mantê-lo são?
Ligou o computador e tentou se concentrar, esperando pela bomba do dia. Bomba essa que não demorou a chegar. Chegou até ele junto com o seu oficial superior, do mesmo jeito como quase tudo de ruim que acontecia naquela delegacia.
Uma presença azarenta por si só, sem sombra de dúvidas, mas com alguém mais atiracolo, tornava o panorama ainda pior.
Ainda assim, fosse qual fosse a bomba da vez, isso não afetaria mais o seu estado de espírito. Nada mais poderia abalá–lo. Perder Kai fora uma tragédia sem volta, perder a chance de acompanhar o caso de perto fora um baque, embora contornável. Então, não havia mais más notícias.
A perda o embrutecera, tornando-o mais inflexível que antes. Então que viesse a desgraça do dia.
– Bom dia, Ishihara – ouviu a voz cumprimentando-o.
Como resposta, ofereceu um grunhido que tanto poderia ser um cumprimento quanto um palavrão. Um simples resmungo, sem tirar os olhos da tela, em uma pequena represália pelo seu afastamento do caso das gangues.
– Quero te apresentar uma pessoa. – ele continuou a falar, como se não houvesse percebido nada. – Esse aqui é Murai Naoyuki, o seu novo parceiro.
Parceiro. Essa foi a palavra que chamou a sua atenção, e o fez parar com suas tarefas entediantes. O que viu foi o que parecia ser um garoto com expressão séria, mas infantil, de cabelos desfiados, e bochechas proeminentes... visíveis o bastante para serem uma marca registrada.
– Desde quando preciso de um parceiro pra trabalhar com burocracia? – perguntou, mordaz.
– Não vai ficar na burocracia a vida toda.
– Não preciso de um parceiro. Sempre trabalhei sozinho e é assim que quero continuar.
– Não é isto que a corporação acha.
– Desde quando me importo com a opinião dessa corporação?
– Isso não será discutido, Ishihara. Tente parecer sociável pelo menos uma vez na vida. – advertiu, para em seguida mudar seu tom e se dirigir ao outro rapaz – Tenha um pouco de paciência com ele e tudo vai ficar bem. E seja bem vindo ao trabalho.
Miyavi viu o rapaz curvar-se em reverência ao chefe, que retribuiu e saiu dali, deixando-os a sós. O garoto lhe olhava com uma expressão meio assustada. E esse tipo de coisa soou infantil para alguém tão calejado como Ishihara, que resolveu terminar logo com aquilo.
– Vai ficar aí parado olhando pra minha cara? Sei que devo ser um tipo muito diferente para as crianças do jardim de infância, como você, mas contenha-se. Ok? Senta aí.
O rapaz obedeceu, sem mudar a expressão séria. Parecia pouco à vontade. Miyavi notou, mas não fez nenhuma questão de mudar isso.
– Temos muito trabalho a ser feito. Tome. – jogou a sua frente um grosso volume de pastas. Não a metade ou um pouco mais do que estava em sua própria mesa. E sim tudo.
E como se não bastasse, levantou-se, colocando a cadeira no lugar, como se não pretendesse voltar tão cedo.
– Não me olhe com essa cara. É a ordem natural das coisas. – disse, e se afastando logo depois, certamente seguido por olhares fulminantes e pragas milenares.
Não que se importasse. Era o seu parceiro, não era?
– Ah, sim e seja bem vindo ao inferno! – disse em voz alta quando estava pouco mais distante. Era o mais educado que poderia parecer.
ooOOoo
