A OUTRA FACE DO DESTINO

Capítulo 21

Quando finalmente chegaram à mansão, Shiryu tocou de leve no ombro do amigo que despertou assim que percebeu esse contato de leve. Os olhos azuis abriram-se devagar, sem pressa. Não havia pressa para voltar a uma realidade em que não sentia qualquer vontade de viver ou de fazer parte.

Sem dizer palavra, Ikki olhou por alguns instantes ao redor, como se estivesse dando-se conta de onde estava. Reconheceu os jardins da mansão e uma vaga lembrança de Shiryu lhe dizendo que o levaria para lá veio à tona. Sem qualquer expressão em seu rosto, abriu a porta do carro e desceu do veículo.

Shiryu também não dizia nada. Apenas observava o amigo. E, apesar de não haver qualquer sentimento estampado naquela face sempre tão dura, o chinês percebia, com facilidade, a dor que ocupava todo o ser do cavaleiro de Fênix.

Entraram assim na mansão. Ikki, que caminhava como se o simples ato de andar lhe pesasse imensamente, dirigiu-se à sala de TV. Mecanicamente, sentou-se no confortável e amplo sofá e ficou olhando para o aparelho à sua frente, que permanecia desligado.

- Quer que ligue a TV? – perguntou o Dragão, que acabava de pegar o controle remoto e o apontava para o aparelho.

- Tanto faz. – respondeu com os olhos ainda voltados para a TV, mas vendo sem enxergar. Não havia brilho, não havia vida naqueles olhos azuis, que agora pareciam tão mortos. Ikki estava ali, mas sequer parecia perceber onde estava. Seu corpo afundava-se no sofá e ele simplesmente se deixava estar daquele jeito.

O rapaz de longos cabelos negros pareceu hesitar um instante. Depois, acabou ligando o aparelho e sentou-se em uma poltrona, que ficava ao lado do sofá. Mantinha seus olhos verdes sobre a pessoa do amigo, que continuava com o olhar perdido no vazio. Parecia nem ter se dado conta de que a TV estava ligada agora.

Shiryu refletiu um pouco. Queria conversar sobre algumas coisas com Ikki. Ainda pensava no que poderiam fazer, em como poderiam se livrar da ameaça daquele Destino. Ora; já haviam enfrentado inimigos poderosos antes. E, mesmo contra todas as expectativas, foram capazes de vencê-los. Não iria ser diferente dessa vez.

Entretanto, pensava se agora seria um bom momento de travar essa discussão com o amigo. O cavaleiro de Fênix estava realmente esgotado. Percebia isso com mais força porque, pelo visto, Ikki não se preocupava mais em ocultar o estado lastimável em que se via. Suspirou triste, imaginando como devia estar sendo difícil para o antigo companheiro de batalhas ter enfrentado isso sozinho até esse momento. Sim; Ikki sempre fora muito independente e sempre soubera cuidar-se bem por conta própria. Contudo, dessa vez, tinha certeza... mais que nunca, Ikki precisava de apoio.

E se era de apoio que ele precisava, era apoio que Shiryu lhe ofereceria. Pelo que entendera, Hyoga estava a salvo no momento. Enquanto o moreno estivesse afastado, o russo não correria qualquer perigo. Portanto, tinha primeiro que ajudar o moreno a se recuperar. Não sabia ainda que espécie de batalha teriam à frente, mas entendia que teriam de estar fortes, não apenas fisicamente, mas principalmente, em espírito. O corpo do Amamiya mais velho já estava fraco, devido às noites mal-dormidas e porque não estava se alimentando direito. E o espírito de Ikki estava dilacerado. Então, antes de tudo, era preciso ajudá-lo a se reerguer. A ave fênix precisava ressurgir das cinzas, mais uma vez.

Estavam sentados os dois cavaleiros na sala, apenas com o barulho da televisão preenchendo aquele espaço. Shiryu ainda fazendo algumas conjecturas, perdido em seus próprios pensamentos, e Ikki... era possível que nada estivesse se passando em sua mente tão cansada. Ao menos, era o que aqueles olhos escuros sem vida denunciavam.

Subitamente, no entanto, aqueles olhos azuis assumiram um brilho sombrio. E, tão rápido como em um piscar de olhos, o cavaleiro de Fênix levantou-se do sofá, violentamente. Shiryu, que não entendera como a postura do amigo mudara tão rapidamente, apenas olhava para ele com algum assombro, como se percebesse, intuitivamente, que algo mau acontecera.

Os olhos azuis tinham agora o brilho do desespero. Ikki olhou para os lados, nervoso, tenso, como se quisesse descobrir onde estava. Como se tentasse assegurar-se de que aquele lugar era real. Se ele teve essa confirmação, não se pode dizer. O moreno, antes que qualquer de suas atitudes pudesse ter algum sentido, começou a caminhar a passos largos, apressados e, ao mesmo tempo, temerosos, para fora da mansão.

Shiryu, a essa altura, já se recuperava da estranha sensação que se apoderara dele há pouco. Havia tido a certeza, diante do modo como Ikki ficara, que algo errado acontecia. E agora, compreendendo que devia estar mesmo certo, levantou-se logo em seguida e foi atrás do amigo, alcançando-o no jardim.

- Ikki! Aonde você está indo? – viu que o moreno tinha pegado a chave do carro da Fundação, que havia deixado em um aparador perto da porta, e aproximava-se do veículo nesse momento.

- Tem alguma coisa errada, Shiryu. Tem alguma coisa muito errada. – respondeu o moreno, com a voz em um tom que deixou o chinês ainda mais preocupado. Ikki não olhava para o amigo, seus olhos estavam perdidos e voltados para algum pensamento obscuro, enquanto sua mão tremia.

- Você não está em condição de dirigir. – tomou a chave da mão de Ikki – Eu te levo pra onde você quer ir. – abriu a porta do carro e entrou, vendo que o amigo permanecia parado do lado de fora – E então, Ikki? Para onde você quer ir? – indagou tenso.

- Eu... não sei exatamente... – passou a mão pelos cabelos azulados – Você sabe onde o Hyoga está?

- Por que quer saber isso? Está pensando em ir atrás dele, Ikki? – perguntou sem conseguir esconder um tom de reproche.

- Estou, mas é porque... tem alguma coisa errada, Shiryu. É uma sensação estranha... que eu não posso ignorar. Tem algo errado. Eu sei que tem. Preciso vê-lo. Se for o caso, nem falo com ele, mas preciso ver se ele está bem. Só isso. – os olhos azuis suplicavam que o amigo não fizesse mais perguntas; não saberia como responder a elas. Necessitava o quanto antes ver o loiro e assegurar-se de que ele estava bem. Apenas isso.

- Está certo. – respondeu o chinês, por fim. Parecia ter lido os pensamentos do outro, porque em seus olhos verdes estava claro que ele precisava de algo mais como resposta, mas pareceu resignado em se contentar somente com isso, ao menos por agora. Tirou seu celular do bolso do blazer que vestia e ligou para um número – Alô, Camus? Aqui é o Shiryu. – mantinha os olhos verdes e firmes na pessoa de Ikki, que estava à sua frente, rígido, tenso – Estou ligando para saber se Hyoga está no hotel com vocês. Não? Então ele deve estar no apartamento dele. Obrigado. – desligou o aparelho e olhou para o amigo, que já se sentava no banco do passageiro. Rápido, colocou o carro em movimento e logo estavam a caminho do prédio do loiro.


- Quem era?

- Shiryu.

- E o que ele queria?

- Saber se Hyoga estava aqui.

- Por quê?

- Não sei. Não perguntei.

- Camus, vai continuar desse jeito?

O aquariano não se deu ao trabalho de responder. Estivera frio com o cavaleiro de Escorpião durante todo aquele dia. Mal haviam se falado e o orgulhoso Milo, julgando que nada fizera de errado, não se esforçou em ir atrás para entender o que se passava. Se Camus tinha algum problema, ele que iniciasse a discussão que, sabia bem, era iminente.

- Olha, eu realmente não sei o que te deu, mas para tudo tem um limite. Se está com algum problema comigo, muito bem. Resolveremos isso entre nós dois. Mas se a situação envolve o Hyoga, não acha que deveria deixar seus problemas comigo de lado para nos preocuparmos com o garoto?

- Interessante, Milo. Você não teve o menor interesse em discutir absolutamente nada comigo o dia inteiro. E só agora resolveu se preocupar? Só porque agora o problema parece envolver o Hyoga? – replicou com uma frieza que se fazia sentir em cada uma de suas palavras.

- Não estou entendendo, Camus. E não é o Hyoga o motivo de tudo desde que chegamos? Viemos para o aniversário dele, descobrimos que ele estava com problemas e você até chamou o Isaac para tentar ajudar... e aí, o Shun sofreu esse acidente e estamos aqui desde então para nos assegurar de que o Hyoga vai ficar bem. Então não entendo o que está te dando agora! – respondeu Milo, de forma sincera e talvez um pouco agressiva. Estava já muito além do que sua paciência lhe permitia aguentar.

- Milo, eu não gosto quando se faz de desentendido. – a voz do cavaleiro de Aquário permanecia em um tom inalterado – Ontem, antes de deixar o hospital, você me disse que não era mais capaz de enxergar em mim a pessoa por quem se apaixonou. E isso, para mim, é claramente uma forma de você dizer que não me ama mais. – sentenciou o aquariano.

- Camus, não distorça as coisas. O que eu estava querendo dizer...

- Eu entendi bem o que quis dizer, Milo. E não preciso de explicações quanto a isso. O que, no entanto, eu não aceitei bem e nem pretendo aceitar, é o que disse em relação ao Hyoga.

O escorpiano, que até então estivera sentado na cama, com as costas apoiadas na cabeceira e uma revista no colo, assumiu uma posição que demonstrava uma tensão maior. Ergueu mais o corpo, sentando-se de forma ereta e franzindo a testa, enquanto jogava a revista sobre o criado-mudo que ficava ao seu lado:

- O que está querendo dizer, Camus? – a voz demonstrava preocupação, receio.

Camus havia se sentado a uma pequena mesa que ficava próxima a uma ampla janela. Olhava para Milo, mas seus olhos nada diziam. Eram frios e distantes:

- Estou dizendo que, depois de pensar muito e de pesar suas atitudes, inclusive a que acabou de tomar, eu me decidi. Está claro que já não há entre nós o que uma vez houve. E tudo bem; eu irei sobreviver. – falou com algum sarcasmo – Mas quanto ao Hyoga, algumas coisas devem ficar claras. Você não irá se intrometer em absolutamente nada que diga respeito a ele. Já tinha pedido isso a você. E agora que nossa relação chega a um fim, faço desse pedido uma exigência. Não quero mais você influenciando o meu pupilo. – enfatizou a palavra "meu".

- E eu já disse uma vez que não vou permitir que estrague a vida desse garoto. E não pretendo voltar atrás. – Milo sentia uma mistura de sensações. A afirmação de que estava tudo acabado entre eles o destruía por dentro, mas diante da frieza aparentada pelo outro, o orgulhoso escorpiano não quis demonstrar essa fragilidade. Por isso, preferiu atacar o outro, buscando com algum desespero transformar a dor em ódio.

- Estragar a vida dele? Ora, escute bem o que está falando, Milo. – Camus não modificava seu tom de voz nem a elegante posição em que se via sentado. Tão altivo, tão controlado. Seria impossível perceber que, também dentro daquele homem, que parecia uma estátua de gelo, o coração sangrava dolorosamente. Mas se havia algo que o aquariano sabia como fazer, era ocultar seus sentimentos, enterrando-os de um modo que nem mesmo ele seria capaz de encontrá-los depois – Hyoga está se destruindo por ter dado ouvidos a você. Ele está fraco, débil, mal parece o cavaleiro que conquistou a sagrada armadura de Cisne. Naquela época, estando sob minha tutoria, ele era forte. Ele era um grande homem, que não se deixaria abalar por qualquer coisa. Mas agora, veja em que ele se tornou. E isso é graças a você. – nesse momento, apesar do imenso controle que exercia sobre si mesmo, Camus deixou transparecer alguma revolta. Era apenas difícil definir exatamente contra quem ele direcionava essa revolta.

- Pois eu não me arrependo de nada, Camus. – Milo levantou-se de cama e caminhou a passos firmes até ficar em frente ao outro, que continuava sentado, impassivelmente – Fiz o que julgava certo, o que continuo julgando certo. O garoto é sensível demais para se esconder atrás de uma armadura de gelo como você. Você quis destruir isso nele e eu não permiti. Aliás, vou continuar não permitindo. Como eu disse ontem... não vou deixar que Hyoga fique como você. – nenhum dos dois lados media mais suas palavras e ambos procuravam, em todas as frases que proferiam, magoar o outro.

- Que ele não fique como eu? – Camus esboçou um sorriso mínimo, irônico – Ele tem mais de mim que de você, Milo. Eu o criei e não importa o que faça ou diga, minha influência sobre ele sempre será maior que a sua.

- Dane-se a minha ou a sua influência sobre ele! Que droga, Camus! Eu não estou aqui querendo disputar para ver quem manda mais no garoto! Eu quero o melhor para ele! Quero que ele seja feliz! Quero...

- ... Quer ficar com ele para você, Milo? Acha mesmo que essa é a forma de recuperar o garoto que você amava em mim e que diz não existir mais? Só porque consegue vislumbrar em Hyoga algo que um dia eu fui? – a voz de Camus agora foi assaltada por uma comoção maior, deixando entrever em sua fala uma profunda mágoa.

- O quê? – Milo estreitou os olhos na direção de Camus, confuso – Do que você está falando?

Camus virou o rosto na direção da janela. Estava um pouco embaraçado com o que acabava de falar em voz alta. Apesar de estar com essas ideias rodeando-lhe a cabeça desde que Isaac lhe fizera questionar certas coisas, pronunciar esses pensamentos em voz alta permitiu-lhe perceber o quanto aquele ciúme que começava a sentir era infantil.

- Você não pode estar falando sério! – Milo passava a mão nervosamente pelos seus longos e ondulados cabelos – Camus, como pôde pensar que... – bufou – Olha, quer saber? Eu amo o Hyoga, sim. Amo aquele garoto porque ele é uma parte sua! Porque você o ama, então eu aprendi a amá-lo. E amei o garoto com mais intensidade ao descobri-lo tão parecido com você em vários aspectos. Mas que droga, Camus... – passou a mão pelo rosto, com a voz frustrada – O que eu disse ontem... eu estava querendo te lembrar que um dia você já foi um garoto mais feliz, menos rígido com a vida e com as pessoas que o rodeiam. Eu não disse aquilo querendo te ameaçar; eu disse como quem tenta alertar. Realmente não quero que Hyoga mude, porque se isso acontecer, vou sentir que falhei... e pela segunda vez. Porque, de alguma forma, eu deixei que você ficasse assim. – percebeu que Camus talvez fosse dizer algo, e adiantou-se – Não me venha dizer que é feliz, assim. Os nossos melhores momentos sempre foram quando você deixou de lado essa pessoa fria e seca. Pensei que estivéssemos progredindo, mas nos últimos dias, eu vi ressurgir com tanta força o Camus que pensei que tínhamos deixado para trás... – Milo falava com a voz fraca, frágil - ... e isso... isso me fez ver que eu falhei com você...

Camus tinha mesmo algo a dizer, mas o que quer que fosse, ficou entalado em sua garganta. A imagem de Milo, tão vulnerável e tão sincera ao dizer, com aquela dolorosa expressão em seu rosto, que sentia muito por ter falhado com o aquariano, impediram o cavaleiro da 11ª casa zodiacal a dizer qualquer coisa.

Os dois dourados permaneceram nesse pesado silêncio até que, de repente, ambos abriram muito os olhos e, sem que precisassem dizer ao outro o porquê de sua preocupação, seguiram para a porta do quarto, apressados e com o coração ainda mais aflito.


- Ikki, você... Você sentiu isso? – perguntou Shiryu, que havia precisado até mesmo segurar o volante com mais força, diante da terrível sensação que o acometera nesse instante.

O cavaleiro de Fênix não respondeu. Estavam quase chegando ao prédio de Hyoga, mas havia alguns carros que, devido à chuva que tinha acabado de começar, formavam um mini-engarrafamento. Sem paciência e tomado por uma crescente angústia, o moreno abriu a porta do carro e desceu ali mesmo, disposto a percorrer o restante do caminho a pé. Essa atitude, para o Dragão, era uma resposta afirmativa para a pergunta que fizera.

Ikki também sentira o que Shiryu acabara de perceber. Mas a verdade é que muito antes, lá na mansão, já tinha sentido algo. Mas parecera uma coisa à toa, quis acreditar que não era nada sério, apesar de ter feito questão de irem lá para checar se estava tudo bem. E agora, essa nova e temível sensação... Isso só vinha confirmar seus piores pensamentos. Por isso, correu o quanto pôde, debaixo da chuva que ia se tornando mais pesada, até o prédio do Hyoga. Não estava longe, mas aquela curta distância pareceu-lhe comprida demais. Alguns carros buzinaram pelo modo como corria entre eles, mas não ouvia nada. Seu coração batia aceleradamente e era como se ouvisse apenas essas batidas incessantes, e cada vez mais rápidas, em seu peito. Quando finalmente chegou à entrada do prédio, o porteiro insistiu que teria de interfonar para o apartamento do russo, mas Ikki não queria esperar e era visível que ninguém seria capaz de segurá-lo naquele momento. Deixando o pobre porteiro com o fone na mão, que se viu desesperado por não conseguir impedir esse homem de entrar, Ikki abriu caminho e subiu as escadas com pressa.

Chegando em frente ao apartamento de Hyoga, bateu na porta com força. Bateu, tocou a campainha e gritou o nome do loiro uma vez. Não se demorou muito nessas tentativas. Não estava disposto a perder mais tempo. Arrombou a porta com violência, deixando o porteiro, que o seguira até ali, perplexo. O velho homem falava algumas coisas, reclamava e ameaçava, mas Ikki sequer o ouvia. Seus olhos azuis apenas percorriam o local com rapidez. Não encontrando o loiro na sala, rumou com pressa para o quarto. Caminhou a passos largos pelo corredor de paredes cor de creme e, ao final deste, viu a porta do quarto principal apenas encostada. Em um gesto cheio de ansiedade, abriu-a de supetão, de uma vez, escancarando-a de modo que a visão de todo o quarto lhe inundasse a vista de uma única vez.

E o que viu o fez sentir que perdia o chão sob seus pés.

Não queria acreditar.

Não podia ser.

Não de novo.

Correu para a cama tão rápido que o porteiro nem foi capaz de se dar conta desse gesto. Assombrado com o que via, o velho homem tratou de deixar o local com pressa, retirando um celular do bolso e chamando uma ambulância, enquanto ia ver se encontrava ajuda lá fora.

- Hyoga...? – Ikki estava sobre a cama, tentando tomar Hyoga em seus braços, com o máximo de cuidado. O russo parecia tão frágil, tão desprotegido... Delicadamente, envolveu-o em seus braços, com medo de machucá-lo – Hyoga, está me ouvindo? – falava com a voz em um tom baixo e suave, como se qualquer gesto mais brusco pudesse piorar a situação em que o loiro estava. Desacordado sobre a cama, o loiro via-se extremamente pálido e seu corpo anunciava que a vida ia abandonando-o com rapidez. Todo ele estava frio como mármore e até seus cabelos dourados pareciam ter perdido o brilho. Ikki segurava o corpo desfalecido com um braço, sacudindo-o de leve, enquanto a outra mão retirava a franja loira dos olhos cerrados – Hyoga, acorda. Por favor... – os olhos quebravam em lágrimas que irrompiam em grande quantidade.

E então, um breve movimento daquele corpo fez Ikki sobressaltar-se. Sim, ele ainda estava ali! E não iria deixá-lo partir, não dessa vez:

- Hyoga! Hyoga, está me ouvindo? Aguente firme, o socorro já está chegando! Você está me ouvindo? Por favor, diga que está me ouvindo... – a voz era tão fraca que falhava a toda hora. Desesperado, impotente, mergulhou o rosto molhado de lágrimas nas madeixas loiras.

- Ikki... – a voz quase sumida soou como música para os ouvidos do moreno. O Fênix rapidamente afastou o rosto daquele recôndito e olhou para Hyoga, bebendo daquela imagem como se disso dependesse sua própria existência. Os olhos azuis claros, que sempre tiveram aquele maravilhoso brilho, estavam opacos. O corpo fraco do russo impedia que ele abrisse os olhos mais que apenas um pouco. E assim, com os olhos parcialmente abertos, o loiro sorriu:

- Já estou sonhando... – falou, em um último suspiro. Então, os olhos claros voltaram a se fechar. E o moreno entendeu que agora se fechavam para sempre, pois o cosmo do Cisne, que até o momento, sentira que ia se despedindo de todos que amava, agora desaparecia de vez. Percebendo isso, a respiração do moreno tornou-se descontrolada, enquanto os olhos escuros continuavam fixos no corpo inerte de Hyoga, como se ainda processassem o que acabava de acontecer. Ficou uns fragmentos de segundo assim, até que seu corpo pareceu entender o que seu cérebro lhe dizia. Foi então que soltou um grito grave, doloroso, machucado, abraçando o corpo já sem vida de Hyoga com força, com desespero, com angústia, derramando lágrimas que achava não possuir mais, sentindo uma dor que julgara não ser mais capaz de abarcar. Chorava chamando por Hyoga, chamando em vão, enquanto em seu abraço tentava de todas as formas envolvê-lo, como se dessa forma pudesse ainda mantê-lo consigo, apesar de sentir claramente que ele já tinha partido.

Foi diante dessa imagem que Shiryu se viu quando finalmente chegou ao apartamento de Hyoga. Entrou no quarto e encontrou Ikki agarrado ao corpo de Hyoga, chorando dolorosamente, chamando pelo loiro, pedindo que voltasse para ele. O Dragão engoliu em seco; não conseguia entender o que acontecera. Hyoga deveria estar a salvo, no entanto... havia... morrido? Sentira claramente quando o cosmo do Cisne começara a se despedir e quando desaparecera em absoluto. Agora, não conseguia raciocinar. Lágrimas silenciosas começaram a deslizar também pela sua face.

Repentinamente, irromperam no quarto os dois dourados. Camus e Milo pararam abruptamente ao compreender o que acontecia. Shiryu apenas olhou para o lado e viu os dois, mas não disse nada. Estava abalado demais para dizer ou fazer qualquer coisa.

Milo ficou assombrado diante do que via. Mal conseguiu respirar e instintivamente levou sua mão à do cavaleiro de Aquário, em um gesto que buscava dar e receber apoio do outro, mas mal sua mão tocou na de Camus, o aquariano soltou-a e deu dois passos à frente, exasperado:

- O que você fez? O que você fez com ele, Fênix? – perguntou com os olhos, que começavam a derramar lágrimas, presos à figura do loiro.

- Camus, o que está dizendo? – Milo adiantou-se até onde estava o aquariano, colocando sua mão forte sobre o braço do outro, que continuava com um olhar cheio de angústia, como era raro de se ver em Camus, ainda fixo em Hyoga – É claro que Ikki não fez nada com Hyoga; ele nunca faria isso e...

- O que é isso na mão dele? – Camus, mais uma vez, parecia não dar ouvidos a Milo e soltou-se do agarre em seu braço, aproximando-se de vez daquela cama, em que Ikki, parecendo alheio a tudo que ocorria a seu redor, continuava agarrado ao corpo de Hyoga, como se não pudesse largá-lo, como se o ato de abandonar aquele corpo já sem vida representasse sua própria morte. Chorava ainda, mas agora era um choro mudo, e sem tantas lágrimas; mas nem por isso, menos dolorido. Seus olhos, apagados, dirigiam-se apenas ao russo, ignorando solenemente todos os outros presentes naquele quarto.

Milo, entretanto, ouvia a tudo que Camus dizia, e especialmente, como ele dizia. O mestre de Hyoga ignorava-o, como se a única pessoa que sofresse a perda do cavaleiro de Cisne fosse o aquariano – Camus, você está me ouvindo? – viu o homem de longos e lisos cabelos azulados pegar com brusquidão a mão de Hyoga e apenas diante desse ato, Ikki pareceu despertar para o que se passava, erguendo os olhos e encontrando um nervoso Camus diante de si – Camus, o que está fazendo? – Milo continuava tentando se fazer ouvir pelo outro, em vão, enquanto o mestre de Hyoga descobria um frasco de comprimidos na mão do jovem loiro. O cavaleiro de Aquário arregalou os olhos diante disso – Camus, dá pra me responder? O que está acontecendo? – Milo impacientava-se enquanto Ikki baixava o rosto, fechando os olhos tristemente, voltando a derramar mais umas poucas lágrimas. Shiryu, que acompanhava tudo aquilo, aproximou-se mais para tentar entender o que Camus havia encontrado.

- Ele se matou. Ele se matou tomando isso. – observava o frasco vazio com frieza. A voz, que até então expressava a dor e a comoção de encontrar seu pupilo naquele estado, era agora substituída por um tom que se aproximava da decepção – Ele se matou, covardemente. – jogou o frasco vazio no chão, com violência.

Shiryu abaixou-se para pegar o frasco que rolava pelo chão do quarto. Examinou o rótulo e viu que eram pílulas para dormir. Havia prescrição médica e, pelo visto, já havia mais de dois meses que vinha tomando esses comprimidos. Coincidia com o período da depressão do russo.

- Espero que estejam satisfeitos. Vejam no que o transformaram. – Olhou para Ikki e depois para Milo – Transformaram o meu pupilo em um covarde! Em um fraco! – bradou contra os dois – O Hyoga que eu criei jamais seria capaz de algo assim! Jamais entregaria a própria vida de forma tão vergonhosa, tão egoísta, tão... tão... – lágrimas voltavam a correr pelos olhos de Camus. Lágrimas de raiva.

- HYOGA! – uma voz vinda da porta do quarto chamou a atenção de todos, interrompendo o que Camus dizia – Céus, Hyoga, o que você fez? – Isaac correu até a cama, pulando sobre ela e já estendendo os braços para abraçar o russo.

- NÃO SE APROXIME DELE! – a voz de Ikki era imperiosa e o olhar do moreno parecia um aviso de morte para o finlandês, caso ele se aproximasse mais.

Isaac viu Ikki trazer o corpo do loiro para si, com certa possessividade. Estreitou os olhos na direção do outro, devolvendo a ameaça – Largue-o, Fênix. Você já fez muito mal a ele! – disse, demonstrando em sua voz que não tinha medo dele.

- EU? – fogo voltou a queimar naqueles olhos azuis. Mas não era o fogo da vida, que Hyoga fora responsável por dar a ele. Era o fogo da morte, que luzira naqueles olhos, pela primeira vez, quando o cavaleiro de Fênix abandonou a ilha da Rainha da Morte – EU FIZ MAL A ELE? – a voz vinha carregada de um ódio tão profundo que o ambiente do quarto ficou pesado, carregado – SEU DESGRAÇADO, COMO TEM CORAGEM DE DIZER ISSO? – abraçava Hyoga como se o protegesse de Isaac – SUMA DAQUI AGORA; É O MÍNIMO QUE PODE FAZER POR ELE!

- Você não devia falar assim comigo, Fênix! – Isaac mantinha um tom de voz entre agressivo e ameaçador. E seu olhar não fugia dos olhos incandescentes de Ikki.

- EU NÃO TENHO MAIS O QUE TEMER! NÃO ENTENDE? EU JÁ PERDI TUDO! TUDO...! – a voz se quebrou nessa última palavra e então, como se todo o mundo desaparecesse naquele momento para ele, o moreno dirigiu novamente um olhar carinhoso e triste para Hyoga, que jazia em seus braços trêmulos – Eu já perdi tudo... Eu perdi tudo... de novo... – fez uma carícia no rosto branco – Me perdoa, meu amor... – uma lágrima desprendeu-se de seus olhos e pousou sobre a face fria e pálida - ... Eu não consegui... não pude salvar você... – o rosto moreno estava tão próximo do loiro, o qual parecia apenas adormecido, que seu impulso foi mais forte do que pôde controlar. Acabou com o espaço mínimo que ainda separava seus rostos e deitou um beijo cheio de dor naqueles lábios tão frios, com sua boca trêmula, sentindo ali apenas o gosto salgado de suas próprias lágrimas. Era a prova final de que Hyoga já não estava mais lá. Não conseguiu sentir o gosto do beijo do loiro e, sem desprender seus lábios do outro, cuja boca permanecia imóvel, voltou a chorar mais lágrimas que ardiam em seus olhos, apoiando sua testa na do jovem russo.

- Afaste-se dele! – gritou Isaac, tomado pelo ciúme – Esqueceu que você não pode? Esqueceu que...

- Cale-se, senhor Isaac. Já falou demais. – disse uma voz que, no mesmo instante, chamou soberanamente a atenção de Ikki para si.

Shiryu reconheceu de imediato o homem de cabelos prateados e não soube que dizer. O que significava a aparição dele ali? A morte de Hyoga era o fim do trato... não era? Então, o que o Destino iria querer ali, agora? Porque, de uma coisa, o Dragão tinha certeza. O homem de olhos de prata não se daria ao trabalho de aparecer ali apenas para dizer o óbvio.

Os dois dourados, por sua vez, estavam acompanhando a tudo como meros espectadores. Milo sabia do sentimento de Hyoga por Ikki, uma vez que o próprio Cisne lhe confidenciara tudo isso. Mas via agora a intensidade dos sentimentos do cavaleiro de Fênix, e estava tocado pela força de um amor que parecia ter sido abreviado cruelmente.

Camus, por sua vez, estava atônito. Tinha compreendido que Hyoga guardava sentimentos por Ikki, imaginava que ele pudesse ser correspondido, mas sempre achara que esse tipo de amor seria nocivo. Contudo, diante do que presenciara, ficara sem razão, sem voz, sem ação. O sentimento de Ikki parecia tão forte que algo começou a surgir em seu peito, oprimindo seu coração. Ainda não havia se dado conta, mas logo perceberia. Eram o remorso e o arrependimento que começavam a despontar.

Os cavaleiros de ouro, entretanto, começaram a entender que havia mais do que imaginavam quando Ikki e Isaac passaram a travar uma estranha conversa que culminou com a aparição de um homem de cabelos prateados, que vinha vestindo um elegante sobretudo preto.

- O que você quer? Por que veio aqui? – indagou Ikki, com a voz fria, passando toda sua fúria pelo olhar.

- O que vim fazer aqui? Mas que pergunta descabida, senhor Ikki. – replicou o homem de cabelos de prata, com um sorriso sarcástico, mantendo-se em pé, a alguma distância da cama, com os braços cruzados atrás – Se todos vocês vieram aqui porque foram capazes de sentir o cosmo do cavaleiro de Cisne dissipar-se até desaparecer inteiramente, como eu poderia não perceber esse evento? – deu alguns passos para se aproximar mais da cama, observando atentamente o corpo de Hyoga, que continuava nos braços de Ikki. O moreno fulminava o Destino com seus olhos, de forma ameaçadora.

- Pois já viu o resultado do seu jogo. Agora desapareça e nos deixe em paz. – falou de uma vez, desejando que aquele homem sumisse de modo que nunca mais precisasse tornar a vê-lo.

- Ah, não. Não posso ir ainda. Não no momento mais divertido. – abriu um amplo sorriso – Fico feliz em ver que temos espectadores. – dirigiu um olhar afetado para Camus e Milo – Faz a minha vitória ser ainda mais saborosa. – falava em um tom que deixava visível sua satisfação.

- Vitória? Como assim? – foi Shiryu quem se pronunciou – Pensei que você queria que seu trato com Ikki perdurasse pelo máximo de tempo possível... assim você poderia se divertir com as consequências de uma situação engendrada por você.

- Ikki lhe explicou tudo muito bem, meu caro Dragão. – o homem falava de modo que o sorriso em seu rosto não diminuía – Mas a verdade é que ele não lhe contou tudo. E ele não lhe contou tudo porque ele também não sabia de tudo... – fez uma pausa dramática.

- Do que eu não sabia? – perguntou Ikki, franzindo o cenho.

- Ah! – levantou o dedo indicador, como quem é subitamente iluminado por uma ideia – Você não sabia da melhor parte, Fênix. Mas eu não podia revelar essa parte antes da hora, porque isso estragaria tudo. Mas agora que eu venci a aposta... já não há mais o que esconder. – deu um sorriso triunfal para o moreno.

- Aposta? Mas do que você está...

- Não, não, senhor Ikki. – interrompeu o Destino – Que falta de modos! Temos aqui convidados que não sabem ainda de que se trata tudo isso. – apontou para Camus e Milo, que estavam perdidos com tudo aquilo – Vamos esclarecer os fatos de forma que todos possam compreender o que passou, está certo? – e, sem esperar resposta, apontou para a porta do quarto – Muito bem, caríssimo... pode aparecer! Não se acanhe; o fato de ter perdido a aposta não deve fazer com que se sinta tão... humilhado. – sorria ironicamente.

Pela porta, entrou um outro homem, que surgiu sabe-se lá de onde. Se fosse realmente humano, teria uma idade aproximada a de Camus. Os longos cabelos vermelhos, muito lisos, vinham soltos, e desciam em cascatas pelas costas. Os olhos eram verdes, em um tom claro, e olhavam friamente para o homem de cabelos prateados. Vestia também um sobretudo; mas este era branco.

- Ei! – Shiryu logo se deu conta – Você... é aquele colega do Hyoga...? – falava apontando para o ruivo. Eram realmente parecidos, com o único detalhe de que Haruo parecia ser bem mais jovem.

- Não. – respondeu a entidade que acabava de entrar e de se posicionar ao lado do homem de cabelos prateados – Não sou quem está pensando. Haruo é apenas... – pareceu refletir por um segundo - ... um representante terreno meu. A semelhança física se deve tão somente a esse fato. Nada mais.

- Representante terreno? Como assim...? – Ikki se via muito confuso e não gostava nada daquilo.

- Muito bem; vamos por partes. – o homem de olhos de prata tomou novamente a dianteira – Creio que o melhor seja começar pelas apresentações. O senhor Ikki, o meu caro Dragão e o meu bravo peão de tabuleiro, Isaac, já estão a par de quem sou. Mas como vocês – olhou para Milo e Camus – não fazem ideia do que se passa, deixem que me apresente. – fez um gesto afetado, bem ao seu gosto, curvando-se para os dois dourados – Eu sou Moros*. Mais conhecido como Destino...

Camus e Milo não puderam ocultar sua surpresa. Ikki, Shiryu e Isaac, por sua vez, não demonstravam mais qualquer impacto diante daquilo. Queriam mesmo saber quem era a outra entidade.

- ... E este aqui é meu irmão. Eros*. Mais conhecido como Amor. – apontou para o ruivo – Somos filhos de Nyx, a noite, e do Caos. Somos deuses primordiais, portanto estamos acima até mesmo de deuses olímpicos, como Zeus ou sua tão querida Athena. E isso porque estamos na origem de tudo. Não pretendo me alongar por demais nessas explicações, até porque vocês possuem uma mente limitada e jamais entenderiam a real grandeza de tudo que somos e representamos...

- Não os subestime, Moros. – interrompeu o ruivo – Você sabe que os humanos estão sempre nos surpreendendo. Em especial estes que temos diante de nós. Eles foram capazes de vencer deuses olímpicos. – disse com calma, com os braços cruzados sobre o peito.

- Cale-se, Eros! – bradou o Destino, abandonando aquela posição tão elegante que vinha mantendo até então – Você agora não deve mais me questionar! Eu venci a aposta! – os olhos prateados fulguravam.

Os cavaleiros perceberam que havia alguma situação pendente entre aqueles deuses. E apesar de desejarem fazer inúmeras perguntas, aquelas duas presenças eram tão soberanas que preferiram esperar pelas explicações que, pelo visto, viriam a seguir:

- Como podem perceber, fizemos uma aposta. – o Destino voltou a dirigir-se para os cavaleiros, recompondo-se – Basicamente, essa aposta foi feita porque... desde algum tempo, venho sendo questionado por alguns de meus irmãos. E não apreciei isso. Sempre fui o mais forte, o mais imponente, o mais poderoso. Ora, eu sou Moros, o Destino! Todos os seres deveriam estar submetidos a mim! Todos; e isso incluía até mesmo esses ridículos deuses olímpicos! Entretanto... as coisas começaram a mudar por culpa de vocês, humanos. – essa última frase foi pronunciada por entre os dentes, e vinha carregada de desdém – O Destino era soberano, imutável. Nem os deuses, nem mesmo Zeus ousava questionar-me. Contudo, vejo que os homens se acham maiores que os deuses. Vocês, certamente, pensam assim, considerando que já levantaram a mão contra os deuses por mais de uma vez. Enfim, isso agora não vem ao caso... – fez um gesto com a mão, como quem diz que sequer se importava com as duras batalhas de vida ou morte protagonizadas por esses cavaleiros – O fato é que os homens começaram a questionar seus destinos. Começaram a não mais obedecer o caminho que lhes era traçado. Diziam que, para o destino ser modificado, bastava estar vivo para fazê-lo. Um ultraje! Uma afronta! Os homens não mais respeitavam as leis de Moros e ousaram crer que podiam mais...!

- E eles realmente podiam, Moros. Tanto é que conseguiram... – alfinetou Eros, com um discreto sorriso de canto.

- Eros, pare de me interromper! Estou já cansado de suas intromissões. Fizemos uma aposta e deve honrar sua palavra, parando de me questionar. – os olhos prateados desferiram um brilho ameaçador que foi compreendido pela entidade ruiva.

- Conforme ia dizendo... a humanidade não mais me respeitava. Desobedecia-me e eu não conseguia compreender o porquê. Isso vinha me enlouquecendo; eu sempre trabalhei com uma ciência tão exata, tão lógica... para cada pessoa, havia seu Destino. Diante de seu histórico, de sua história de vida, o homem deveria seguir um destino traçado a partir de seu tipo de conduta. Era assim que eu agia, foi sempre assim que agi. Contudo, sempre houve alguns casos que me fugiam desse controle. Mas eram raras exceções. O problema surgiu de fato quando as exceções pareceram tornar-se regra. Foi quando resolvi atentar mais diretamente para essa questão, visando a encontrar a causa dessa revolta generalizada contra o Destino que lhes era imposto. E, ao fazer isso, descobri que meu próprio irmão é quem lhes dava força para me combater. – olhou zangado para Eros, que nada mais dizia.

- Eros, o Amor, usava a força avassaladora da paixão para dar ao homem coragem de combater o seu Destino. Descobri que o combustível para tanta energia, capaz até mesmo de ameaçar aos seus deuses, era o amor. O ser humano é movido por paixões e eu me refiro aqui a todo tipo de amor. Amor de um homem por uma mulher; amor pelo conhecimento, amor pelos entes queridos, amor por uma causa... há diversos tipos de amor. – disse em um tom quase derrotado – Era injusto comigo. Todo esse amor fez do homem um ser intensamente apaixonado pela vida e tudo piorou quando o ser humano quis tomar as rédeas da situação, relegando-me, a mim, ao Destino, a um segundo plano! Um absurdo! Comecei a virar motivo de piada entre meus irmãos e o único que ainda me obedecia e respeitava era o mais novo de nós, Chronos, ou como vocês o conhecem, o Tempo. Talvez por ele estar muito ligado a mim, por ter sempre me acompanhado, por ter visto quão poderoso eu havia sido outrora, ele ainda se submetia ao meu poder. Porém... – precisou respirar fundo. Jogou os cabelos prateados para trás dos ombros e prosseguiu - ...Comecei a correr o risco de perder também o apoio de Chronos. Pelas minhas costas, mais uma vez, meu irmão Eros buscava apunhalar-me! – olhou ferinamente para o ruivo, que permanecia com um semblante inabalável – Eros começou a levar Chronos para seu lado, mostrando que o Amor e o Tempo poderiam trabalhar muito bem juntos! E Chronos se deixou levar, apesar de ainda se manter a meu lado. Contudo, se Eros já era forte antes, com a força do Tempo, estava fazendo do homem um ser quase indestrutível! Um homem apaixonado, e com o tempo a seu lado, jamais poderia temer seu destino! Esse foi o golpe final para me destruir! Para me subjugar! Para me humilhar! Foi então que decidi que era hora de me reerguer! Era hora de mostrar que eu ainda possuía algumas cartas na manga.

A entidade ruiva colocou as mãos nos bolsos de seu sobretudo branco nesse momento e então levou um olhar que parecia triste para Ikki. O Destino, por sua vez, envolvido demais em seu discurso, sequer percebeu e continuou:

- Eros é orgulhoso; eu o conheço bem. Ele estava maravilhado com a atenção que repentinamente era toda dada a ele. Atenção que antes pertencia a MIM! Mas por ser orgulhoso, era fraco. Eu sabia bem que ele não suportaria que eu colocasse em jogo seu poder contra o meu. Sabia que, se eu apostasse ser mais poderoso que ele, o Amor cairia nessa tão fácil armadilha. Foi o que fiz: apostamos que, se eu fosse capaz de destruir um amor tão forte quanto o próprio Eros, isso significaria que eu era superior a ele. – sorriu cheio de contentamento – Entendem o que isso quer dizer? Se o Destino pode vencer o Amor, então Moros ainda é maior que Eros! – regozijou-se com essas palavras - Por isso, a aposta se fez. Eros poderia escolher o exemplar de amor que bem desejasse, porque eu tinha plena certeza de que poderia destruir qualquer forma de amor que ele quisesse empunhar contra mim.

- Irmão. – interrompeu Eros, com uma voz suave – Eu posso explicar essa parte da aposta?

Moros olhou para a entidade ruiva sem entender. Mas depois pensou que havia vencido a aposta, que Eros estava humilhado, e que isso talvez fosse a única coisa que lhe restasse. Talvez o fraco de seu irmão quisesse justificar sua derrota para não parecer tão mal diante de seus preciosos humanos. Resolveu aceder – Vá em frente. – disse com autoridade.

- Há tantas formas de amor... – começou a falar o ruivo, aproximando-se da cama, e com os olhos fixos em Hyoga – Eu sabia que deveria escolher bem e que, apesar de todo amor ter uma grande força em potencial, eu precisava escolher aquele amor que me daria a vitória soberana, para que não restasse ao meu irmão qualquer dúvida sobre quem seria o vencedor dessa aposta. Por isso, escolhi esses dois. – ergueu o braço direito e apontou para Ikki, que continuava com Hyoga em seus braços. Nem por um instante sequer, abandonara o loiro – O amor deles havia me comovido. A mim; que já presenciei tantas histórias de amor...! – sorriu para Ikki – Foi um amor tão sofrido, tão cheio de altos e baixos, tão difícil e, ao mesmo tempo, tão certo... Era um amor que lutava também contra outros tipos de amor; o amor de irmão, o amor de amigo... e ainda assim, resistia. Ora; para mim, apenas o amor seria páreo para o amor. E, se mesmo indo contra os sentimentos afetivos tão fortes que esses dois nutriam por aquele rapaz, o Andrômeda, essa história se desenrolou... se mesmo assim, o amor entre eles prevaleceu... é porque esse seria o amor que resistiria à toda prova. Assim pensei, por isso os escolhi. Vocês representariam o Amor nessa batalha contra o Destino.

- Esperem um pouco! Estão me dizendo que armaram tudo isso? Que por conta da aposta de vocês, Hyoga está morto? – precipitou-se Milo, que achava já ter ficado calado por tempo demais.

- Não, meu caro Milo. Não fomos os causadores da morte de Hyoga. Bom, ao menos, não nessa realidade. – explicou a entidade ruiva. E antes que dissesse mais qualquer coisa, o homem de cabelos de prata voltou a falar:

- Está bem, Eros. Já se explicou. Que bonito da sua parte acreditar tanto no amor deles e tudo o mais. Mas agora, pode deixar que eu sigo com a história. Já que o final dela tanto me agrada, deixe que eu conte o que sucedeu. – sorria abertamente – Meu caro Escorpião, permita que esclareça as coisas para você. Estamos vivendo uma nova realidade. Sabe, tudo que aconteceu nesses últimos três dias já havia ocorrido antes. Quero dizer... de uma forma bastante distinta, mas já tinha acontecido. – vendo que os cavaleiros de ouro pareciam não compreender, emendou – Em nossa aposta, Eros teve o direito de escolher quem quisesse para representar o amor na Terra. Quanto a mim, eu teria o direito de interferir diretamente nessa história. Poderia usar de todos os meus poderes, e isso incluía a ajuda de Chronos, para destruir o amor escolhido por Eros. Não precisei fazer muito. Usei de minha inteligência para manipular os fatos em meu favor. Assim, na primeira vez em que essa suposta realidade aconteceu, Hyoga morreu devido a um acidente de carro. Ele e Ikki haviam vivido uma belíssima história de amor, que infelizmente terminou de forma tão... trágica. Mas Eros sempre dizia que as mais belas histórias de amor eram as trágicas... – deu de ombros – Enfim, quem se importa? O fato é que ele ter escolhido o amor deles dois facilitou as coisas para mim. Meu irmão devia estar achando que eu tentaria destruir o amor de vocês, senhor Ikki, apenas buscando convencê-lo de que o sentimento que nutriu por Hyoga, enquanto vivo, não fosse tão forte assim...

- Espere um pouco. – pronunciou-se Shiryu – Vocês fizeram a aposta após a morte de Hyoga? Mas se Hyoga já estava morto, como você poderia destruir o amor deles?

- Aí é que está, Dragão. O amor não morre apenas porque uma das partes morreu. Muitas vezes, esse amor fica ainda mais forte. – respondeu Eros.

- Exato! – cortou o Destino – E você realmente achava que eu cairia numa armadilha tão óbvia, meu irmão? – o homem de olhos de prata ria divertido para o ruivo – Achava mesmo que eu tentaria destruir um amor que acabava de se imortalizar com a morte do jovem Cisne? Você realmente me acreditava tão ingênuo a esse ponto? Pelo visto, sim... e esse foi seu erro. Não devia ter me subjugado.

- E como pensava em acabar com esse amor, então? – questionou Milo, tentando assimilar tudo que ouvia.

- O amor acaba quando uma das partes deixa de amar. – tornou a responder Eros, o que não incomodava tanto ao Destino, já que essa não era sua área.

- Se uma das partes morre, ela não deixa automaticamente de amar? – continuou a perguntar o cavaleiro de Escorpião.

- Não. O corpo físico morre, mas não seu espírito. Mesmo quando uma pessoa morre fisicamente, ela pode perfeitamente continuar amando, e esse sentimento é tão forte que pode ser sentido por ambas as partes, ligando-as mesmo após a morte, mesmo separadas por planos de existência distintos. – o ruivo continuava a explicar, serenamente – Contudo, quando uma das partes deixa de amar, o amor deixa de existir, de fato... – percebeu o semblante confuso no rosto dos cavaleiros – Compreendam: existem vários tipos de amor. Há o amor de mãe e filho, amor de amigo, amor entre parentes, amor a uma causa por que se luta... E, nesse caso em especial, em se tratando do amor que seus amigos sentiam um pelo outro... Bem, nesse caso, o amor necessita de duas partes para existir. Ele tem de ser recíproco para ser pleno, do contrário, ele se encaixaria em uma outra categoria de amor. Mas não vem ao caso especificar a vocês os quantos tipos de amor existem e quais são eles. Melhor que elencá-los aqui é dizer a vocês que o amor que eu elegi para representar todos os outros é o que necessita de reciprocidade para existir. E Moros sabe que, para cada forma de amor, há um modo específico de destruí-lo. No caso em questão, seria destruindo, pelo menos, o amor de uma das partes.

- E como se faz isso? – perguntou Shiryu, por fim. Camus não dizia nada, parecia em um estado absorto, como se ainda quisesse se recusar a aceitar que tudo aquilo era real. E Ikki... ouvia a tudo, mas era impossível definir o que se passava em seu interior naquele momento.

O ruivo olhou para o homem de cabelos prateados, como se perguntasse com seus olhos verdes se poderia continuar com a explanação. Os olhos prateados assentiram e Eros prosseguiu:

- Podemos perceber que o amor de uma das partes foi destruído quando essa parte deixa de lutar por esse sentimento. Quando ela deixa de lutar, deixa de amar. Isso representa o fim do amor. Afinal, uma palavra que não combina com Amor, sendo praticamente antagônica a ela, é resignação...

- Isso mesmo. – o Destino voltava a chamar a atenção para si – E, como eu disse... meu pobre irmão me julgava tão ingênuo a ponto de achar que minha estratégia seria a de convencer o senhor Ikki de que seu amor não fora tão valioso. Eros acreditava que eu procuraria induzi-lo a crer que seu sentimento apenas traria dor e que seria melhor esquecer seu amor por Hyoga, resignando-se a viver sem amar uma lembrança que só traria sofrimento a sua vida. Só que eu nunca conseguiria convencê-lo disso! Porque, mesmo após a morte do Cisne, o Fênix ainda o amava. E ele provavelmente lutaria até o fim de sua vida para que a chama desse amor permanecesse acesa. Mesmo que ele encontrasse um outro alguém que talvez também pudesse amar... a chama do amor por Hyoga nunca se extinguiria. Essa é uma luta que ele jamais abandonaria. E o Cisne, em espírito, também manteria essa chama acesa até que pudessem se reencontrar. Ora, não sou estúpido. Eu sabia que, se quisesse vencer essa aposta, teria de usar uma outra estratégia, bem mais inteligente. Felizmente, inteligência é o que não me falta.

- Foi por isso que...

- Sim, meu caro Dragão. Foi por isso que tive a mirabolante ideia de propor um trato ao senhor Ikki. – voltou um olhar cruel para Ikki, que olhava, mas era difícil dizer se ele via algo, de tão vazio que se faziam aqueles olhos – Eu surgi para o Fênix no cemitério, depois que todos foram embora, após o enterro do rapaz russo. Aproveitei-me da vulnerabilidade dele e prometi-lhe a chance de refazer sua história. Dei a ele a oportunidade de salvar Hyoga da morte certa, de impedir que ele morresse naquele acidente... em troca de uma coisa que, para mim, seria crucial para minha vitória. Ele teria de abrir mão de seu amor. Eu usaria o poder de Chronos para fazer o tempo voltar e dar ao senhor Ikki a chance de salvar a vida de Hyoga, mas ele teria de me prometer que não se aproximaria do Cisne.

- Você fez isso porque se Ikki se negasse a amar Hyoga, Hyoga terminaria por deixar de amá-lo... terminaria desistindo... e assim você venceria a aposta! – os olhos verdes do Dragão abriram-se mais frente a essa descoberta.

- Sim, exatamente. Mas eu não podia dizer isso ao senhor Ikki. Era parte da aposta não revelá-la a ninguém. Portanto, contei a ele que estava enfadado, que queria uma diversão, que buscava meios de me divertir à custa dos homens que, cada vez mais senhores de seus destinos, me faziam sentir... desnecessário.

- E isso não era, de certa forma... verdade? – perguntou Milo.

- Era. – respondeu secamente – Mas já não é mais. Porque eu venci a aposta. E sabem como? Sua conclusão foi sábia, Shiryu. Entretanto, eu tinha pressa. Havia um prazo dentro dessa aposta. O prazo de um ano, que foi o período em que, na outra realidade, o amor desses dois floresceu. Pensam que é muito tempo? Como se enganam! Apesar de o prazo oficial ser de um ano, eu sabia que dispunha de bem menos que isso, se realmente quisesse alcançar meus intentos. Se não conseguisse dissuadir Hyoga desse amor no começo desse prazo, não teria sucesso. Apesar de ainda se submeter a mim, Chronos também continuava sua parceria com Eros. Desconhecendo nossa aposta, ele continuava trabalhando com nós dois. E Tempo e Amor formam uma parceria deveras forte. Por isso, se não conseguisse fazer com que Hyoga desistisse desse amor nos primeiros meses, não conseguiria fazê-lo ao cabo de um ano. Por isso, me foi dada a possibilidade de usar um ser humano como minha peça de tabuleiro. Nada mais justo. Já que o Amor os influenciava diretamente, eu merecia um ser humano a minha mercê nesse jogo. Escolhi você, meu caro Isaac, porque servia bem aos meus propósitos. Ikki iria se recusar a aceitar o amor de Hyoga, e isso era crucial para meus planos darem certo. Mas para que eles se concretizassem mais rápido, nada melhor que enfraquecer Hyoga. Isso faria com que as certezas dele se tornassem fracas... iria deixá-lo mais confuso... mais propenso a desistir de lutar. E a pessoa que faria todo esse mal a ele era você. Você; a pessoa responsável pela depressão em que ele se encontrava, responsável pelo aumento do fardo que ele sempre carregou por se julgar indigno de ser feliz. – o Destino sorriu maldoso – Enquanto Ikki era o responsável por aliviar esse fardo e deixar o jovem russo mais tranquilo e feliz, você representava exatamente o contrário, meu rapaz. – viu como nas feições de Isaac desenhou-se rápido a expressão de desespero que tomava conta do finlandês, por se ver usado de forma tão vil, para prejudicar quem tanto amava – E, nessa realidade em que as coisas aconteceram como eu desejava... Ikki não pôde ser o bálsamo que trazia conforto e alento ao Cisne. E você, meu peão de tabuleiro... Você catalisou a dor que já havia nele. Ponto para mim! – o sorriso estampado na face do Destino era vitorioso.

- VOCÊ ME ENGANOU! – explodiu Isaac – Você disse que Hyoga havia morrido na outra realidade por culpa do Ikki! Você me disse que se eu permitisse que eles ficassem juntos aqui, Hyoga terminaria morrendo novamente! Você me disse que ele morreu porque Ikki o magoou! Você... seu desgraçado... você me usou para matar o Hyoga aqui! – o ex-marina falava com lágrimas arrebentando furiosamente de seu olhar cheio de ódio e dor.

- Eu não menti. O que falei era verdade. Ikki e Hyoga se desentenderam, o rapaz russo ficou imensamente magoado e isso o levou a morrer naquele acidente. – replicou o homem de cabelos de prata, cinicamente.

- E... da mesma forma que você pôde contar com Isaac, seu irmão Eros tinha o apoio de Haruo? – quis saber Shiryu.

- Não. – Eros tomou a explicação para si, e Moros permitiu – Haruo, como eu disse, é apenas um representante terreno meu. Eventualmente, permitimos que venha à Terra um representante nosso, como forma de conhecer a realidade dos homens mais a fundo. Mas entenda, Dragão... Haruo não é um deus ou uma entidade divina. Ele é humano; mortal como vocês. Ele nem ao menos sabe de minha existência. Mas ele sente, em seu íntimo, que há coisas que ele deve fazer. Não entende como e, na verdade, ele não se preocupa com o porquê. Apenas segue o que manda seu coração. Haruo foi responsável por ajudar muitos casais a se entenderem, famílias a se unirem mais, amigos a se reaproximarem... com sábios conselhos, ele consegue impulsionar grandes homens a alcançarem seus sonhos... Resumindo; ele é minha ligação mais concreta com o mundo terreno. Foi por meio dele que senti e me comovi mais fortemente com sua história, senhor Ikki. Afinal, Haruo trabalha na mesma escola que Hyoga.

- Se Haruo é seu representante aqui na Terra, quem é o representante terreno do Destino? E por que ele não o usou, em vez de Isaac? – perguntou Milo.

- Como eu disse, eventualmente permitimos o surgimento de um representante terreno. Isso não ocorre sempre. Digo; eu gosto de sempre ter um representante meu entre os homens. Mas nem todos os deuses primordiais agem assim. O Destino, por exemplo, passou a nutrir tanta raiva pelos homens que, desde a Grécia Antiga, ele não manda um representante seu à Terra. A última vez em que ele fez isso, foi quando na Terra surgiu Ananke*, a bela mulher que deu à luz as três moiras*, também conhecidas como parcas, que eram as leitoras do oráculo na Antiguidade. Depois disso, meu irmão Moros começou a ter tanto ódio dos homens que não enviou mais representante algum.

- Não havia necessidade. Os homens não me respeitavam adequadamente; porque eu enviaria um representante meu para se misturar a essa corja? – falou o homem, arrumando os cabelos prateados sobre os ombros, altivamente.

- E o que... o que ganhou com tudo isso? O que ganhou com essa aposta? – finalmente, Camus se pronunciava. Sua voz era um misto de vergonha, tristeza, arrependimento, dor...

- Ah, sim! Essa é a melhor parte, senhor Camus. – um alegre sorriso brincava nos lábios do Destino – Se Eros vencesse, as coisas continuariam como estavam, pois isso era do agrado dele. Mas, com a minha vitória... Eros terá de parar de alimentar as paixões dos homens. O Amor continuará existindo, é claro... – falou com algum deboche - Mas sem que ele fique inflamando esse sentimento. Dessa forma, sem paixões avassaladoras servindo de combustível para a humanidade, o ser humano voltará a se comportar como reles mortal que é, deixando de ousar contra os deuses, deixando de zombar do Destino, voltando a respeitar-me e temer-me como deve ser!

- É isso que vai acontecer? O Amor deixará de queimar intensamente no coração dos homens? – uma voz feminina chamou a atenção dos presentes para a porta do quarto, mais uma vez. E lá, perceberam não apenas a presença de Saori, como também a de Seiya e Shun, que se mantinha em pé com algum esforço, apoiado no rapaz de cabelos castanhos – Você me disse que daria tudo certo, Eros. – a voz da deusa era forte e imponente e seu olhar, normalmente doce e gentil, era duro – Você me prometeu que este mundo não sofreria com essa aposta. Disse que se eu me mantivesse à parte, tudo ficaria bem. – a deusa caminhou sem medo na direção da entidade ruiva, enquanto Shun e Seiya continuavam parados à porta do quarto.

- Athena, agora não é o momento para discutirmos isso...

- Como não? – parou em frente a Eros, demonstrando grande revolta em seu belo rosto – Você me disse que, em uma outra realidade, meu cavaleiro de Cisne morreu por uma infelicidade do destino! Mas que, em uma aposta feita com Moros, isso poderia ser consertado! Você me prometeu o que nem eu mais poderia fazer! Prometeu trazer Hyoga de volta para nós! E eu acreditei; mas agora percebo que fomos apenas joguetes em suas mãos! Como pôde colocar tanto em risco? Agora, toda a humanidade pagará pelo capricho de uma aposta? Por uma vaidade de sua parte?

- Sim; é exatamente o que vai acontecer. E agora, cale-se, Athena. Não quero ouvir as reclamações de uma deusa olímpica. – interveio o Destino – O que está feito, está feito. A aposta era válida e eu venci. E não fique me olhando dessa maneira, minha cara... acha que é páreo para mim? Seu pai, Zeus, sempre me teve respeito. Siga o exemplo dele e recolha-se à sua mediocridade! Eu sou o ser supremo agora! O único que poderia competir comigo foi derrotado! – sorriu desdenhosamente para Eros – Portanto, cale-se! Mesmo que meu irmão não lhe tivesse ocultado certas coisas, como o verdadeiro motivo dessa aposta... Pensa mesmo que poderia ter feito algo para nos impedir? Faz-me rir!

- Talvez eu não seja páreo para vocês, mas eu teria tentado... eu teria lutado com todo meu ser para impedir que jogassem com a humanidade como fizeram. – a voz da jovem era triste e cheia de angústia – E mesmo que me diga que não tenho chances... eu já entrei em outras batalhas nas quais também me diziam que eu não teria chances de vencer. E vou repetir o feito dessa vez. Não permitirei que...

Saori interrompeu sua fala quando percebeu que Shun havia adentrado o amplo quarto, abandonando o apoio que Seiya lhe dera até então. O cavaleiro de Andrômeda caminhava vagarosamente na direção da cama e seus olhos esmeraldas estavam presos aos olhos azuis de Ikki, que o encarava sem dizer palavra. Todos permaneceram em silêncio diante disso e Seiya, entrando também no quarto, pôs-se logo ao lado de Shiryu.

- Então, tudo que eu vi naquele sonho... foi real? – indagou Shun, ao se ver próximo da cama, e deixando os olhos do irmão para encontrar a figura de Hyoga, nos braços de Ikki.

- Que sonho? – Ikki franziu a testa, sem saber o que mais dizer.

- Você e Hyoga... em uma cafeteria... depois debaixo da cerejeira...depois no seu apartamento... escondendo tudo de mim. – a voz do mais jovem soava com uma calma desconcertante e seus olhos verdes não abandonavam a imagem do loiro. Parecia que ele queria levantar seu braço e tocar o russo, mas talvez pela fraqueza de seu corpo, talvez por sentir que não devesse, esse gesto nunca se concretizou – E depois... todo o seu esforço em destruir o que Hyoga sentia por você. Eu te vi, irmão... eu te vi naquele deserto frio, chorando por ele... – voltou a levantar os olhos para encontrar o irmão, mas agora era Ikki quem lhe fugia com o olhar – Quando acordei, no hospital, fiquei confuso, não consegui entender, senti-me sufocado com tudo isso. Mas agora as coisas parecem fazer sentido... – suspirou.

- Há quanto tempo vocês estão aqui? – perguntou Shiryu, olhando para Seiya.

- Tempo o bastante. Ouvimos tudo, creio eu. Pelo menos, o suficiente para que tudo começasse a fazer sentido. – respondeu o cavaleiro de Pégaso – Shun estava muito agitado no hospital depois desse sonho e eu fiquei tentando acalmá-lo, mas depois sentimos algo estranho, como se o cosmo de Hyoga estivesse se despedindo de nós... então tivemos que vir para cá. Eu não queria trazer o Shun, pelo estado em que ele se encontrava, mas se Hyoga estava mesmo se despedindo da vida, como eu poderia me negar a trazê-lo? E aí, quando chegamos, encontramos Saori aqui e foi ela quem nos impediu de dizer qualquer coisa. Ela estava ouvindo a conversa atentamente e fizemos o mesmo.

- E onde você estava, Saori? – Shiryu agora olhava para a deusa.

- Depois que Haruo apareceu no quarto para visitar Shun, eu percebi que havia mais nessa história do que Eros tinha me falado. Por isso, fui atrás dele. Precisava de um local mais privado em que pudesse convocá-lo para conversar. Mas ele não me atendeu. Não respondeu ao meu chamado e só parei de tentar chamá-lo quando também senti o cosmo de Hyoga desaparecendo. Então, vim o mais rápido que pude para cá, tendo a certeza de que me tinham enganado... – respondeu Athena, com a voz cheia de remorso por entender que devia ter feito bem mais para ajudar seus cavaleiros, mesmo sabendo-se impotente em vários aspectos diante de tudo aquilo.

- Shun, eu... sinto muito. – de repente, a voz de Ikki ecoou pelo quarto, calando todos os outros, apesar de esta nem de longe lembrar a imponente voz do poderoso cavaleiro de Fênix – Eu nunca quis prejudicar você... nunca quis roubar de você a pessoa que tanto amava... Eu lutei contra; eu realmente tentei... - a voz fraquejou - ...e Hyoga também; ele também não queria magoá-lo... mas não pudemos, não fomos capazes... Me perdoa, irmão... – o moreno falava sem coragem de levantar os olhos e encontrar o olhar do cavaleiro de Andrômeda.

Shun fez menção de que diria algo, mas foi interrompido por um movimento do Destino, que demonstrava abertamente estar cansado de toda essa conversa, da qual não era mais o centro das atenções – Digam e façam o que quiserem. Como eu já disse, o que está feito; está feito. Não tenho mais o que fazer aqui, então me despeço. – curvou-se para os presentes e depois sorriu para Ikki – Muito obrigado por tudo, Fênix. Sem você, nada disso teria sido possível. – falou de forma cruel, como se parte dele desejasse ver uma vez mais a dor estampada no rosto do moreno. Em vez disso, no entanto, viu Ikki olhar com ternura para Hyoga:

- Pelo menos, ele não foi para aquele lugar terrível... E quando minha hora chegar, poderemos nos encontrar novamente... – fez um carinho nos cabelos loiros.

- Ah, não. Não, senhor Ikki... – sorriu o Destino, ao compreender que poderia trazer mais um pouco de dor ao cansado coração do Amamiya mais velho – Vocês não irão se reencontrar. Mas será que não prestou atenção ao que Eros acabou de explicar? Não entendeu ainda o que se passou? – falava em tom de galhofa – Senhor Ikki, eu venci a aposta! Sabe o que isso significa? Que Hyoga deixou de lutar! Aliás, a forma como ele demonstrou isso é bastante evidente... o suicídio é a forma mais clara de demonstrar a desistência. E se ele deixou de lutar, é porque o amor de vocês morreu. Não há mais esse sentimento forte unindo vocês; o que significa que quando você morrer, não haverá esse elo ligando-os para ajudá-lo a encontrar o Cisne na eternidade.

- Eu o encontro. – respondeu Ikki, sem modificar o tom de sua voz.

- Hoje é dia de ouvir incoerências! Primeiro, tenho de ouvir Athena se achando forte o bastante para me ameaçar! Depois, sou obrigado a escutar um reles mortal julgar que poderá encontrar a pessoa que ama após morrer, sendo que o elo que os ligava foi cortado! Está bem; pode sonhar...! – o Destino falava de modo a ridicularizar bastante o sentimento de Ikki.

- Na verdade... – começou a falar a entidade ruiva – É impossível que você encontre Hyoga. Em primeiro lugar, porque o elo entre vocês foi quebrado, já que Hyoga desistiu de lutar por esse amor... e segundo porque o modo como ele escolheu para desistir foi o pior possível. Consideramos que o suicídio é o gesto que mais se afasta do amor, uma vez que a pessoa que o comete deve estar se sentindo em um estado de total ausência de amor, de qualquer tipo ou forma de amor, para cometer esse crime contra si mesmo. Por isso, dizem que o suicídio é um ato egoísta. De fato, para a pessoa agir assim, ela não olhou ao redor, olhou apenas para si própria, sendo incapaz de ver o amor que ainda poderia rodeá-la. E esse ato, tão egoísta, tão ausente de amor, é punido com um terrível castigo...

- Que tipo de castigo? – a pergunta saiu em um fio de voz e Ikki olhava cheio de temor para o ruivo.

- Ah, é verdade! – riu o homem de cabelos prateados – O vale dos suicidas. É para lá que ele foi. – dirigiu seus olhos de prata para Ikki – O vale dos suicidas não é tão terrível quanto aquele lugar que lhe apresentei naquele galpão abandonado, senhor Ikki... Mas definitivamente não é um local agradável para se passar a eternidade. Lá, a pessoa enlouquece e o espírito fraqueja, seus piores temores tomam conta de sua mente e a alma é flagelada com constantes recordações que trarão sofrimento eterno...

- E você diz que isso não é terrível? – Shun manifestou-se, demonstrando uma comoção mais forte do que suportava, e teria caído ao chão se Seiya e Shiryu não corressem a ampará-lo.

- Acredite, Andrômeda... o lugar para onde eu teria mandado o Cisne, caso seu irmão não houvesse sacrificado esse amor, era muito pior que isso. Ademais... no vale dos suicidas, a pessoa perde completamente a consciência de quem é, ou era... Ela se perde no vazio de sua mente, em meio a recordações tristonhas. Talvez a pessoa nem sofra de fato, uma vez que perde noção de quem é e de onde está... Enfim. O fato é que nenhum de vocês irá reencontrar o jovem russo novamente. – voltou a olhar para Ikki – Como eu disse... venci. – sorriu ferinamente.

Ikki, que não parecia se importar o mínimo com as provocações do Destino, olhava agora com profunda amargura para Hyoga. Então, não havia conseguido nem ao menos um destino menos cruel para o loiro? Mesmo depois de tudo isso, Hyoga estava condenando a sofrer eternamente? Quem se importava se esse sofrimento era menor que o da outra ameaça? Ele estaria sofrendo, mesmo que não tivesse plena consciência disso. E nunca mais tornaria a vê-lo para ajudá-lo, para confortá-lo, porque seu Cisne estava no vale dos suicidas...

Súbito, uma fagulha de esperança brilhou naqueles olhos azuis escuros. Piscou os olhos algumas vezes, rápido, e levantou o olhar, encontrando seu irmão amparado pelos amigos. Aquela imagem parecia a resposta que buscava. Shun ficaria bem. Ele era forte. Ele tinha amigos.

- Shun. – chamou a atenção do irmão, que se via cansado demais e precisava urgentemente repousar – Vai ficar tudo bem. Me perdoa. Por favor. – a voz de Ikki era forte e segura e sua expressão, quase serena.

- Irmão, pare de me pedir perdão... olha, nós precisamos conversar... eu... acho que eu preciso pedir desculpas por ter...

- Não precisamos conversar, Shun. Eu te amo, sempre vou te amar, está me ouvindo? E Hyoga também te amou muito, como seu amigo. Falo por mim e por ele que desejamos que você seja feliz, porque você nos fez feliz. Nunca pense diferente disso. Se o meu destino, junto ao dele, não foi como desejamos, a culpa foi inteiramente nossa. Pagamos pelos nossos erros. Você nunca fez nada de errado, meu irmão. – e desde que chegara àquele apartamento, foi a primeira vez que sorriu. Um sorriso débil, mas um sorriso – Eu te amo, Shun... e preciso que me perdoe por isso...

Shun havia entendido que o que Ikki dizia, e principalmente pelo modo como dizia, era uma despedida. Teve um péssimo pressentimento e ia falar algo, mas o cavaleiro de Fênix foi mais rápido que qualquer pensamento ou ação do Andrômeda. Sobre a mesinha de cabeceira, ao seu lado, estava um abridor de cartas sobre alguns envelopes que Hyoga devia ter aberto e deixado lá. Muito rápido, Ikki tomou esse abridor em suas mãos e cravou a peça de ferro, tão afiada, em seu peito, enterrando-a fundo em seu coração. Conseguiu ouvir o grito de desespero de seu irmão, e vozes alvoroçadas ao seu redor. Mas logo não ouvia mais nada. Tudo se fazia escuridão e o último movimento de que se recordava foi o de deixar seu corpo cair sobre o de Hyoga, mantendo-se abraçado a ele.


Abriu os olhos e tentou reconhecer onde estava. Sentia frio, muito frio. Que lugar era aquele? Os olhos azuis escuros precisavam tentar se acostumar com aquela escuridão. Sentia um vazio em seu peito. Parecia que algo lhe escapava. Sacudiu a cabeça; estava quase esquecendo. Sabia que estava prestes a esquecer algo importante. Mas o que estava quase esquecendo? Respirou fundo, buscando acalmar o espírito. E então, uma imagem surgiu nítida em sua mente:

- Hyoga.

Recordou-se. Estava ali por um motivo. De alguma forma, de algum modo... iria salvá-lo. Sequer sabia como, nem se isso era possível. Queria desesperadamente encontrá-lo e tirá-lo daquele lugar. Mas como? E para onde o levaria? Não importava. Uma coisa de cada vez. Estava decidido. Salvaria Hyoga. De algum modo, o salvaria. Só precisava encontrá-lo. Eros e Moros lhe disseram que o elo entre eles estava quebrado, que o amor entre eles não mais poderia existir porque ele precisava ser recíproco. Bufou, enquanto abraçava o próprio corpo para se proteger do frio intenso. Não acreditava que seu amor tinha de ser recíproco. O amor que sentia por Hyoga era tão forte, que por si só poderia servir de elo entre eles. Acreditava nisso com todo seu ser.

Começou a caminhar e sua vista já se acostumava com aquele breu. Parecia estar em uma espécie de pântano. Isso explicava o chão pegajoso pelo qual andava. Não sabia que caminho tomar. E para onde estava indo? Aonde ia? O que estava fazendo mesmo? Que lugar era aquele?

Respirou fundo, mais uma vez. Acalmou sua mente agitada e conseguiu, mais uma vez, ver a imagem de Hyoga. Era para ele que estava indo. E conhecia o caminho. Bastava seguir seu coração e o encontraria. Sabia que o encontraria assim. Não tinha dúvidas.

Andou por algum tempo, sempre respirando profundamente, acalmando a mente que insistia em se agitar, e mantendo o mais nítido possível a imagem de Hyoga para si. Não podia perder de vista o porquê de estar ali. Estava no vale dos suicidas, mas não se permitiria enlouquecer. Não sem antes salvar o seu Cisne.

Finalmente, depois de sabe-se lá quanto tempo, avistou um local parcamente iluminado. Recoberto por uma espessa relva, parecia um local abandonado. Ikki caminhou para lá o mais rápido que pôde. O mais rápido que aquele frio intenso lhe permitira. E, aproximando-se mais, aquele lugar pareceu-lhe familiar.

Que lugar era aquele? Ficava repetindo o nome de Hyoga para si mesmo, a todo momento, a fim de não esquecer. A fim de não se perder. E olhava para aquele lugar, a porta meio aberta, parecendo arrombada. Um lugar abandonado. E então, uma lembrança... ele se recordava de algo. Esse lugar fazia parte de sua história. Mas, em sua história, ele não era assim. Era um lugar agradável...

Súbito, o local veio à sua mente! Era a cafeteria!

Abriu a porta devagar, sem dificuldades, já que ela estava caindo aos pedaços. Lá dentro, apesar de haver um facho de luz vindo não sabia de onde, parecia estar ainda mais sombrio que o pântano lá fora. Andava cuidadosamente, pois não enxergava onde pisava. Olhava para os lados, tentando ver, mas era impossível. Por isso, apenas seguia na direção do fraco facho de luz.

Seguiu-o e acabou indo parar em uma mesa, empoeirada como tudo no local, que ficava perto de uma janela, de onde surgia a mínima claridade que dava origem ao facho de luz que o guiara até ali. Fazendo um imenso esforço, lembrou-se. Tinham se sentado àquela mesa. Ali tiveram aquela primeira e significativa conversa. Foi quando tudo começou de fato. Sorriu de leve com a vaga lembrança. Depois olhou pela janela e viu aquele pântano terrível. Sentia que a solidão daquele lugar começava a ferir-lhe os ouvidos. Era como se o silêncio se tornasse um zumbido insuportável. Pôs a mão sobre as orelhas, como se isso pudesse impedir qualquer coisa. Mas o zumbido parecia estar dentro de sua própria mente.

- Faça parar, faça parar! – gritava, implorando não sabia exatamente para quem. Mas aquilo era insuportável. Contudo, repentinamente, o zumbido parou. Os olhos, que estavam fechados, voltaram a se abrir. E seu coração quase parou quando viu que não estava mais só.

- Quem é você?

- Hyoga! – piscou os olhos várias vezes e tomou as mãos do loiro entre as suas. O russo estava sentado à sua frente, segurando um copo sujo de café, com os cabelos sem brilho, sujos daquele pântano. As roupas estavam em farrapos, encardidas. O cavaleiro de Cisne parecia ter regressado de uma batalha, a julgar pelo estado em que se encontrava – Eu te encontrei! Meu amor, eu te encontrei!

O loiro recuou, levantando-se da cadeira em que estava e tirando abruptamente suas mãos daquele agarre:

- Não fale assim comigo! Ninguém pode me chamar assim! Só ele! – falava com os olhos nervosos, dando dois passos para trás.

- De quem... de quem você está falando, Hyoga?

O loiro olhava para os lados, como se buscasse com desespero algo ou alguém:

- Quem é Hyoga?

- Você é Hyoga! Meu amor, me escute, está tudo bem! Eu estou aqui... – Ikki também havia se levantado de sua cadeira e tentava se aproximar do loiro, que continuava recuando.

- Já disse para não me chamar assim! – gritou ele, enquanto recuava até bater de costas na parede recoberta de musgos – Só ele pode me chamar assim!

- Ele quem, Hyoga? – Ikki ia se sentindo desesperado com aquela conversa.

- Ele! – repetiu Hyoga, apertando o copo de café mais forte entre suas mãos – Esse café é para ele... eu estou esperando por ele... ele vai voltar... – olhava fixo para o copo sujo que segurava com força.

Ikki olhava também para aquele copo e tentava entender. Hyoga levantou os olhos e dirigiu um olhar angustiado pela janela da cafeteria abandonada – Ele vai voltar. Tem um mês... tem um mês que ele partiu. Mas ele vai voltar. Vamos viajar. Vamos juntos para a Europa...

Ikki sentiu um aperto no peito. Lembrou-se do que o Destino dissera. As recordações mais dolorosas ficariam assombrando Hyoga eternamente. E via com os próprios olhos que as recordações mais dolorosas do loiro tinham a ver com ele:

This time, this place,
Misused, mistakes
Too long, too late
Who was I to make you wait?
Just one chance, just one breath
Just in case there's just one left
'Cause you know, you know, you know...

Este tempo, este lugar

Desperdícios , erros

Tanto tempo, tão tarde

Quem era eu para te fazer esperar?

Só mais uma chance, só mais um suspiro

Caso reste apenas um

Porque você sabe, você sabe, você sabe...

- Me perdoa, meu amor… Eu não devia ter deixado você... – levou suas mão às de Hyoga e percebeu que elas tremiam. Mas o loiro não olhava para si; não tirava os olhos da janela cujo vidro estava parcialmente quebrado – Eu não devia ter feito você me esperar tanto tempo...

- Não estou esperando por você! – soltou-se novamente das mãos do moreno e andou rápido até a janela – Ele está ali, não vê? Ele está chegando! – Hyoga apontava para fora da janela, mas Ikki não via nada ali além de árvores sombrias com galhos retorcidos – Mas ele já está caminhando há tanto tempo... – o russo falava como se realmente estivesse vendo algo lá fora – Por que ele nunca chega? – a voz veio carregada de uma dor tão palpável que Ikki decidiu que não ficaria ali tentando conversar. Aquele local era enlouquecedor, a toda hora precisava se lembrar de respirar fundo e não perder a razão:

- Vem comigo, Hyoga. Eu vou tirar nós dois desse lugar. – saiu puxando o outro com força, sem dar a ele muita escolha.

- NÃO! NÃO! NÃO, me solta! – Hyoga gritou com tanto desespero que Ikki achou estar machucando-o por apertar seu pulso com força. Mas foi só abrandar o agarre que Hyoga lhe fugiu de novo, correndo para trás do balcão da cafeteria – Se eu for e ele chegar, ele vai achar que eu não esperei por ele! Ele vai achar que eu não o amo! Mas eu amo! Eu o amo mais que tudo! – falava com ardor, medo, paixão e loucura. Hyoga estava muito agitado, agitado demais... E quando o loiro ficava desse jeito, Ikki só conhecia um jeito de acalmá-lo:

That I love you
I have loved you all along
And I miss you
Been far away for far too long
I keep dreaming you'll be with me
And you'll never go
Stop breathing if I don't see you anymore

Que eu te amo

Eu sempre te amei

E eu sinto sua falta

Estive afastado por tempo demais

Eu continuo sonhando que você estará comigo

E você nunca irá embora

Paro de respirar se eu não te vir mais

Foi até onde o loiro estava, atrás do balcão, e o abraçou com força, prendendo-o em seus braços. Sentiu Hyoga resistir, debater-se, tentar a todo custo livrar-se daqueles braços, mas sem sucesso. Ikki empregava toda sua força em segurá-lo ali, junto a si. E enquanto ouvia o loiro gritar que o soltasse, começou a falar em seu ouvido, com a voz terna e suave:

- Eu te amo, Hyoga. Eu sempre te amei; por todo esse tempo, desde sempre... E eu sinto a sua falta, eu já não suporto mais ficar sem você. – sentiu que o loiro parava de se debater e parava também de gritar – Eu fiquei longe de você por tempo demais... eu não devia ter me afastado tanto, mas... Mas agora estou aqui, meu amor. – repousou a cabeça na curva do pescoço do loiro, como sempre amara fazer – Eu ainda tenho esperanças de que isso tudo seja um pesadelo... Eu sonho que nós vamos despertar e você estará comigo e tudo estará bem... – sentiu que algumas lágrimas começavam a molhar seu rosto – Eu não vou conseguir continuar sem você, Hyoga...

- Por que... por que você está falando isso? – a voz de Hyoga era mais controlada agora. Ikki abriu um sorriso aliviado ao ouvi-lo falar assim. Libertou o Cisne do abraço que o prendia e então o encarou, contente em perceber que ele não lhe fugia mais. O russo estava parado, olhando confuso para ele.

On my knees, I'll ask
Last chance for one last dance
'Cause with you, I'd withstand
All of hell to hold your hand
I'd give it all
I'd give for us
Give anything but I won't give up
'Cause you know, you know, you know

De joelhos, eu pedirei

Uma última chance para uma última dança

Porque com você, eu enfrentaria

Todo o inferno para segurar sua mão

Eu daria tudo

Eu daria por nós

Dou qualquer coisa, mas não desistirei

Porque você sabe, você sabe, você sabe...

Ikki ajoelhou-se e estendeu a mão para o loiro:

- Era isso que faríamos na Europa. Eu convidaria você para dançar. – viu como o loiro o olhava receoso – Dança comigo? É nossa última chance. – sentia a própria mão tremer. Sentia que aquela situação era delicada, e era tão difícil permanecer lúcido. Precisava que Hyoga o ajudasse. Mantinha a mão erguida, esperando pela reação do loiro.

Hyoga ficou olhando para aquela mão por algum tempo. Depois voltou a olhar para o rosto angustiado de Ikki. Seus olhos claros ainda demonstravam confusão, mas acabou entregando sua mão a Ikki, que abriu um sorriso imenso e ergueu-se, enlaçando o russo pela cintura, delicadamente, enquanto começavam a dançar:

- Por você, eu enfrentaria tudo... até mesmo o inferno; só para poder pegar na sua mão mais uma vez. Eu seria capaz de tudo, porque eu nunca mais vou desistir de nós dois. Agora não há o que temer. Somos só eu e você e eu vou cuidar de você... – sussurrava no ouvido do russo, enquanto o guiava nessa dança que seu Cisne acompanhava timidamente.

Ficaram assim algum tempo, até que Ikki, envolvido pelo momento, e sentindo que o loiro parecia mais calmo, parou por um momento, no que foi imitado por Hyoga. Afastou um pouco o rosto do outro e lhe sorriu. O loiro não sorria, apenas olhava de volta para ele, demonstrando ainda alguma confusão nos olhos claros. O moreno acariciou de leve a face de Hyoga e aproximou-se para beijá-lo.

O Cisne não reagiu num primeiro momento, mas quando Ikki estava prestes a colar seus lábios nos dele, Hyoga arregalou os olhos e recuou apressado:

- Não! Não! Eu tenho que esperar por ele! Ele vai chegar! – voltou a olhar para a janela – Ele está chegando, não vê? Ele partiu há um mês, mas está voltando!

- Hyoga, pare com isso! – o cavaleiro de Fênix se via cansado. Esgotado. E esse afastamento abrupto do loiro o fez perder um pouco as esperanças – Sou eu, Hyoga! Sou eu, o Ikki! Eu já voltei, sou eu quem você está esperando! Eu já pedi desculpas. Por favor, olha pra mim... – falava em tom de súplica, vendo que o russo mantinha o seu olhar fixo na janela – HYOGA, OLHA PRA MIM! – gritou a plenos pulmões, com todo o seu desespero, usando as últimas forças que possuía. Por isso, acabou caindo sobre aquele chão frio, de joelhos, vencido, rendido...

Hyoga pareceu perceber o pedido de Ikki, talvez pela intensidade com que ele pediu. Olhou para o moreno ajoelhado no chão. Ficou olhando, mas sem emoção alguma em sua face pálida. Ikki percebeu isso. E estava fraco. Estava cada vez mais difícil respirar ali:

I wanted
I wanted you to stay
Cause I needed
I need to hear you say:
"That I love you
I have loved you all along
And I forgive you
For been away for far too long
So keep breathing
Cause I'm not leaving you anymore
Believe and hold on to me and, never let me go
Keep breathing
Cause I'm not leaving you anymore
Believe it, hold on to me and never let me go
(Keep breathing) Hold on to me and never let me go
(Keep breathing) Hold on to me and never let me go"

Eu queria

Eu queria que você ficasse

Porque eu precisava

Eu preciso escutar você dizer:

"Que eu te amo

Que eu te amei todo o tempo

Que eu te perdoo

Por ter ficado longe por tempo demais

Então continue respirando

Porque eu não vou mais te deixar

Acredite, segure-se em mim e nunca me deixe ir

Continue respirando

Porque eu não vou mais te deixar

Acredite, segure-se em mim e nunca me deixe ir

Continue respirando, segure-se em mim e nunca me deixe ir

Continue respirando, segure-se em mim e nunca me deixe ir"

- Eu só queria que você ficasse comigo, Hyoga… eu só queria que ficássemos juntos... – começou a tossir devido ao frio imenso que sentia – Eu precisava tanto ouvir você dizer que me amava... que sempre me amou... – a voz ia se enfraquecendo a cada palavra – Eu precisava que você me dissesse que me perdoava por ter ficado longe tanto tempo. – tossiu mais forte – Eu queria que me pedisse para continuar respirando... que me dissesse que ficaríamos juntos... que me pedisse para abraçá-lo, para nunca mais deixá-lo ir...

Hyoga apenas olhava, imóvel, enquanto ouvia o que Ikki dizia. Quando este terminou de falar, o loiro piscou os olhos algumas vezes. E seu olhar novamente assumiu um ar confuso. Mas não a confusão causada pela loucura, e sim a confusão de quem parece querer compreender. Então o russo bagunçou os cabelos loiros, como sempre fazia, quando se via perdido. E Ikki sorriu fraco, recordando-se do que costumava dizer quando via Hyoga nesse estado:

- Eu disse que nunca abandonaria você. Que se você se perdesse, eu faria de tudo para ajudá-lo a se encontrar. E que se não conseguisse... eu preferiria me perder com você. – tossiu alto e a garganta lhe doía demais – Acho que não vou conseguir nos tirar daqui, Pato... – sorriu de leve – Então... eu fico... e me perco nesse lugar com você... Porque prefiro enlouquecer junto a você, para sempre... que passar a eternidade, lúcido, sem te ter ao meu lado.

Dito isso, abraçou mais o próprio corpo, encolhendo-se ainda mais. Sentia muito frio.

Hyoga, que bagunçava e desalinhava ainda mais seus cabelos loiros, ouviu as últimas frases de Ikki e manteve um olhar confuso na direção dele.

De repente, seus olhos luziram um brilho diferente. Olhou para sua mão que ainda segurava o copo com café:

- Mas... o que estou fazendo? – perguntou para si mesmo, e então ouviu o moreno tossir, despertando sua atenção para ele – Ikki? – franziu a testa, como se acordasse agora para uma realidade que mal compreendia. Mas rápido deu-se conta de que Ikki estava lá e correu até ele – Ikki! Você está bem? – viu como ele tremia e o abraçou, tentando aquecê-lo – Ikki, o que você tem? Onde estamos? – perguntava abraçado ao moreno, e olhando ao redor.

- Ele morreu... por minha culpa... eu o matei... – Ikki falava em meio à tosse – A culpa é minha, toda minha... – lamentava-se dolorosamente. Hyoga então ergueu com cuidado o rosto do moreno para encará-lo – Quem é você? – perguntou o Fênix – Que lugar é esse? – o moreno olhou apavorado ao redor.

Hyoga não sabia o que responder. Estava ainda confuso, também não sabia dizer onde estavam. Lembrava-se apenas de ter tomado todos aqueles comprimidos, em uma atitude impensada... E agora sentia que despertava em um lugar que não compreendia. Abraçou Ikki com mais força, em um gesto que buscava aquecê-lo, ao mesmo tempo em que tentava se confortar. Estava assustado com tudo aquilo. Que lugar era aquele?

Ficou passando os olhos por ali, tentando encontrar uma resposta. Esforçou-se e, finalmente, parecia começar a se lembrar. Fez um esforço supremo e então lhe veio à lembrança de ter ficado ali, sentado àquela mesa, com aquele copo sujo de café, olhando pela janela durante não sabia quanto tempo. Havia enlouquecido? Aquele lugar o enlouquecera? Mas que lugar era aquele?

- Ikki... como chegamos aqui? – perguntou ao moreno, que apenas derramava lágrimas silenciosas – Que lugar é esse? – angustiava-se e voltava a abraçar o outro, olhando nervosamente para aquelas paredes tenebrosas.

Subitamente, recordou-se de mais. Recordou-se de Ikki falando consigo nesse lugar. Lembrou-se dele abraçando-o, chamando-o para dançar...

... Dizendo que o amava.

Passou as mãos pelos cabelos azulados e fez com que Ikki o encarasse:

- Ikki? Você me ama? Você disse que me ama, não disse?

O moreno tinha o olhar vago, de quem vê, mas não enxerga.

- Ikki! Me responde! – sacudia o outro, de leve – Você me ama, não é? Foi o que você disse!

- Eu... Eu o amava... Eu o amava tanto... Mas ele se foi... para sempre... – falava para o vazio.

Hyoga compreendeu que Ikki não lhe responderia. Não quando ele parecia nem ao menos escutá-lo. Ficou olhando para aquele homem, tão fragilizado, a sua frente. Estivera perdido entre sonhos e realidades, e já não era capaz de distinguir mais nada. Apenas sabia que estava ali com Ikki. E aquilo era real. No entanto, sentia que o estava perdendo. Ele estava ali, mas ao mesmo tempo parecia estar sumindo.

- Eu não vou perder você. Não vou deixar que vá embora. Está me ouvindo? Eu não vou deixar você ir, Ikki! Eu não sei onde estamos, eu não sei como chegamos aqui! Mas eu sei que você está aqui por um motivo e só isso me importa! Estamos juntos! Ouviu Ikki?– falou com convicção, olhando naqueles olhos vazios.

E foi nesse instante que os olhos de Ikki ficaram menos opacos. Hyoga percebeu e, parecendo que o moreno lhe enxergava enfim, foi tomado por uma felicidade tão grande que não quis se controlar; agarrou o outro com força e colou sua boca na dele, com sede, com paixão, com vontade, com amor.

Ikki assustou-se com aquele beijo, que num primeiro momento, sentiu como algo tão distante que mais parecia um sonho. Mas o sonho ia ficando mais forte e mais concreto até que, finalmente, aquele beijo parecia ser a única coisa que existia. Entregou-se ao beijo; e agora sabia quem era, sabia com quem estava. Não sabia onde, não conseguia se recordar dessa parte, mas isso parecia não importar quando tinha, em seus braços, a pessoa que mais amava.

Beijaram-se com furor, as bocas colando-se e permitindo que as línguas explorassem um recanto que pareciam conhecer de longa data. Beijavam-se como quem descobre o que já conhece. Beijavam-se como se com isso tudo passasse a fazer sentido, apesar de racionalmente não conseguirem ainda processar o que se passava. Mas isso não se fazia necessário. Estavam juntos. Unidos para sempre. Era só do que precisavam saber...

Depois de um bom tempo assim, cobrando de volta o amor que haviam perdido, ambos precisaram se separar para recuperar o fôlego. E foi quando perceberam que estavam vestidos elegantemente. Os dois estavam vestidos para uma festa...

... A festa de aniversário de Hyoga.

E perceberam onde estavam. Debaixo da cerejeira. Um céu estrelado emoldurava o belo quadro em que pareciam estar. Estavam de mãos dadas apreciando aquela visão. Então voltaram a se encarar, trocando um olhar que dizia mais que mil palavras. Um olhar que sempre preencheu os espaços entre eles. Um olhar que sempre disse tudo por eles. E o amor, tão forte e palpável entre os dois, fez com que os corpos voltassem a se aproximar. Os olhos pertenciam-se e mergulhavam um no outro. Estavam completamente envolvidos e entorpecidos por esse momento quando viram uma presença sair, subitamente, de trás da frondosa cerejeira:

-Muito bem... Vocês conseguiram.

Os dois, pegos de surpresa, olharam juntos na direção do homem que aparecia ali.

- Eros...? – perguntou Ikki, começando a relembrar.

- Sim. Sou eu. – sorriu para os dois – Vocês conseguiram. E me fizeram vencer a aposta.

- Mas... como...?

- Senhor Ikki, meu irmão Moros achou mesmo que eu não tinha uma estratégia decente em mente. Pobre coitado. Ele está acostumado a lidar com destinos lógicos. E eu estou acostumado a lidar com atitudes extremas, tomadas em nome de um verdadeiro amor. Eu esperava por tudo isso. Esperava que Hyoga desse um fim abrupto à sua vida e esperava que você o fosse resgatar. Porque, se conseguissem se encontrar no vale dos suicidas, reatando o elo de amor entre vocês... é porque o Amor realmente venceu. Eu venci. Moros não mais poderá exigir que o amor deixe de queimar no coração dos homens. Sinto muito tê-los feito passar por tudo isso. Mas foi necessário. Apenas vocês poderiam realizar tudo isso.

Hyoga não compreendia direito o que se passava, mas Ikki abraçou-o gentilmente, confortando-o com esse gesto, que era uma forma de dizer que logo ele lhe explicaria tudo. E, como duas peças que se completavam perfeitamente, os dois entendiam-se sem ter de usar palavras. Hyoga não perguntou nada; esperaria que Ikki lhe contasse tudo quando o momento chegasse.

- E onde nós estamos agora? Ainda estamos no vale dos suicidas? – perguntou Ikki.

- Mais ou menos. Mas a mente de vocês está agora refugiada em boas lembranças... - sorriu - De todo modo, pretendo levar vocês dois de volta. É o mínimo que posso fazer depois de tudo por que os obriguei a passar.

- E você pode fazer isso? Pode nos levar de volta? – Ikki estava ansioso.

- Posso. Mas... Moros pode me causar alguns problemas. Sabe, meu irmão não está muito contente com o novo desfecho dessa história. Então, senhor Ikki... será que posso contar uma vez mais com sua ajuda? Porque, para levá-los de volta, precisarei que me ajude com algo. Há uma coisa que o Destino precisa compreender... e precisarei de você para ensinar a ele essa lição.

- Tudo bem. Faço qualquer coisa para tirar Hyoga daqui.

O loiro apertou a mão de Ikki e o olhou com uma expressão preocupada. Não gostou da forma como Ikki falou, parecendo que algo muito mais sério aconteceria. E como não estava ciente do que se passava, não sabia nem ao menos dizer o que esperar:

- Eu só saio daqui com você, Ikki. – falou com firmeza, a única certeza que tinha.

- Não se preocupe, Hyoga. Vocês dois sairão daqui. Ikki só terá de me ajudar com algo. E logo estaremos de volta. – sorriu a entidade ruiva, que para Hyoga, lembrava muito seu colega Haruo. E, da mesma forma que seu colega, essa entidade lhe transmitia alguma segurança. Acabou acedendo em um gesto com sua cabeça. E antes que qualquer um dos dois pudesse dizer mais alguma coisa, Eros estalou os dedos e uma névoa de fumaça os encobriu, carregando os dois para longe dali...

Continua...


*Moros, Eros, Ananke, moiras... todas essas figuras mitológicas existem; não foram invenção da minha cabeça. Claro que existem diferentes versões e eu escolhi a versão que mais se encaixava à minha história. Sei que muitos conhecem Eros como filho de Afrodite, porque essa é a versão mais famosa desse mito. Mas eu preferi fazer uso de uma versão bem mais antiga, em que Eros é filho do Caos... E realmente segui, dentro do possível, o que diz a mitologia sobre essas figuras, mas juntei a essas definições boa parte da minha imaginação altamente fértil e criei uma mitologia à parte. Eu me dei liberdade criativa, está bem? O Kurumada também não fez isso? Não estou me equiparando a ele; estou apenas mostrando que podemos ser flexíveis com essa coisa de mitologia... =P


N/A: Capítulo com muitas revelações! E ainda tem muitas emoções pela frente! Penso que essa fic deve terminar em dois ou três capítulos. Vamos ver!

No próximo capítulo, não percam! O ajuste de contas final com o Destino! E tudo começará a se encaminhar, em definitivo, para o fim dessa longa história...

Caso alguém tenha reparado a semelhança desse capítulo com o filme "Amor além da vida", fique sabendo que isso não foi mera coincidência. Realmente me inspirei nesse filme para fazer esse capítulo.

A música que aparece nesse capítulo chama-se Far Away, do Nickelback.

Beijos!

Lua Prateada.