Ano 8 p 4
Havia quatro filas de checagem no Ministério da Magia. Cada uma era coordenada por três agentes, para que o ritmo fosse relativamente rápido. Grupos de dez funcionários eram checados a cada vez, para que ninguém com identidade fraudulenta entrasse. Netunus Black chegou ao saguão do ministério com uma expressão diferente no rosto. Era como se ele estivesse determinado. Um funcionário de médio escalão, sem ambições, desestimulado, nunca entrara no local de trabalho tão certo de que deveria fazer.
Antes de entrar na fila, o funcionário público aparatou num local onde isso supostamente era impossível. Ele desaparatou logo após a barreira de checagem. Um movimento tão rápido, tão discreto, que sequer foi notado por alguém mais. Afinal: quem iria prestar atenção em Netunus Black? Ele era um sujeito que chegou a declarar no passado que simpatizava com Santana Lopez "por ela ser uma boa companheira de time". Por causa disso, quase foi demitido.
Netunus Black entrou no escritório no departamento de Serviços de Informação Pública, no segundo nível do Ministério da Magia, e logo encontrou Mary Greenward se abanando e com cara de choque. Normalmente, ele teria revirado os olhos e passado direto pela colega. Não tinha a menor paciência com a dramaticidade forçada que a senhora de meia idade fazia sempre que tinha uma fofoca a contar. Mesmo assim, Mary sempre contava a fofoca do dia. Naquela ocasião, excepcionalmente, Nenutus dispensou atenção. Ele franziu a sobrancelha e se aproximou.
"Está tudo bem?"
Mary estranhou a súbita atenção do colega, mas até que não achou o gesto ruim. Sorriu meio abobalhada, deixando transparecer a certa carência que sentia. Recobrou a postura e fez cara de séria.
"Clarice foi demitida."
"Clarice? Por quê?"
"Flagraram ela em atividades sociais e sexuais com um muggle! Parece que era um amante."
"Isso é... perturbador." Netunus parecia calcular cada palavra, cada gesto.
"Essas meninas agem como se não houvesse bons bruxos disponíveis. Que estupidez gastar tempo com meros muggles."
"Estou de acordo. Foi uma demissão justa."
"Ainda bem que você vê dessa forma, Black. Achei que ficaria chateado por ser obrigado a fazer o dobro do serviço agora que Clarice foi demitida."
"Não me importo. Posso ficar até mais tarde por hoje, se for necessário."
Mary estranhou pela segunda vez no dia. Ficou admirada por um funcionário preguiçoso como Netunus Black não tivesse reclamado.
"Tem certeza?"
"Tenho." Netunus piscou e abriu um pequeno sorriso a colega.
Demorou-se um pouco entre as mesas do escritório até por sentar-se na mesa que ocupava. Passou o olho do volume de trabalho que estava acumulado. Netunus começou a checar os protocolos e ofícios que chegavam voando até a mesa dele. Conferiu a correspondência. Nada além de burocracia que chegava a um funcionário médio do Ministério da Magia. Tudo lhe parecia uma incrível perda de tempo. Ficou aborrecido e saiu do escritório sob o olhar indignado de Mary Greenward.
"Onde pensa que vai?"
"Preciso resolver um problema no departamento pessoal."
"Agora? Por que não envia um ofício voador? Estamos atolados!"
"Tenho certeza que inserir um monte de propaganda aprovada e revisada no Profeta Diário pode ser feito perfeitamente por alguém com a sua capacidade e dedicação, Mary. Até mais."
Ao entrar no elevador, encontrou-se com Priscila Lestrange. A jovem mulher usava um vestido justo suficiente para revelar o corpo curvilíneo e atiçar imaginários. Mistérios estes desvendados por Netunus ainda enquanto estudante em Hogwarts.
"Está bem hoje, Lestrange."
"Obrigada, Black."
"Gostaria de tomar um chá?"
"Vá sonhando Black."
"Mas a gente costumava tomar um chá juntos."
"Isso foi antes." Lestrange respondeu com arrogância e sem o menor sinal de constrangimento sobre o breve envolvimento que tiveram quando adolescentes.
"Sem chances para revivermos?"
"Por que eu daria bola para um fracassado como você?" Lestrange soltou um gritinho quando Netunus puxou o cabelo dela e a puxou para trás de um jeito possessivo. "O que está fazendo, idiota?"
"Te fazendo relembrar da minha pegada."
"Nunca teve pegada, Black. Não é como o seu primo."
De qual primo ela estaria falando? De Aramis Black?
"Posso te fazer mudar de opinião. Eu melhorei."
Priscila levou Netunus até a sala dela, como coordenadora em Floo Network Authority. A sala no nível seis era bem decorada, embora fosse pequena. Priscila pediu a sua secretária que não deveria ser incomodada e entrou com Netunus. Sim, ele mostrou a ela o quanto tinha "melhorado". Não foi uma mera "rapidinha". Netunus mostrou a Priscila um truque ou dois "de cortesia".
"Então?" Ele perguntou com um sorriso cínico no rosto após o coito.
"Eu não sei... talvez a gente precise repetir para que eu possa ter certeza." Ela disse com o sorriso igualmente cínico, mas a linguagem corporal denunciava que o sexo havia sido plenamente satisfatório.
"Claro! Talvez amanhã!" Netunus recolocou as calças e deixou o escritório de Priscila Lestrange sem olhar para trás.
Netunus passou pelo refeitório e entrou no banheiro. Dentro do box do sanitário, abriu a mão, pegou os fios dos cabelos negros de Priscila e os depositou cuidadosamente num frasco. Sentiu as mãos formigando, o que o lembrou que era momento de tomar a dose de reforço. Pegou a frasqueira que levava no bolso interno do casaco e bebeu uma golada. O corpo se acalmou. Decidiu visitar a sala de redação, um departamento ao lado de onde trabalhava.
Via as máquinas de escrever trabalhando a toque de mágica insensatamente, o que era uma imagem interessante, apesar de que algumas delas redigiam cartas de censura e de advertência.
"Está perdido, Black?"
Netunus foi surpreendido por Amber Nox, ex-madrastra de Santana Lopez e que atualmente coordenava todo o departamento de Serviços de Informação Pública. Ele forçou um sorriso para a mulher, quando, na verdade, estava quase enojado de estar na presença dela.
"Eu vim atrás dos jornais para checar a publicação de um informe nosso."
"Estão no arquivo, não aqui."
"Sim senhora." Netunus sorriu e encaminhou-se para a sala de arquivo seguido de olhares suspeitos.
A sala de arquivo era sim interessante. Reunia as edições dos principais jornais do mundo. Ali era o único lugar de todo Reino Unido em que os jornais chegavam ser ter sofrido o processo de censura. Manchetes como "Governo Americano estuda novas sanções a Europa" jamais seriam levados às bancas. Netunus deu uma rápida lida pelas manchetes e início de algumas matérias e notou que Santana, Harry Potter e Hermione Granger ocuparam os noticiários internacionais com alguma frequência nos últimos dias. A imprensa estrangeira tratava a causa dos refugiados com simpatia, embora fossem cautelosos quanto as intenções políticas de Potter e Granger.
"Black?" Netunus foi surpreendido por Mary. "O que há contigo hoje? Sabe qual é a política, não me force a denunciá-lo."
"Desculpe, Mary." Netunus balançou a cabeça para a colega. "É que ontem recebi péssimas notícias sobre minha saúde e estou ainda muito abalado. Terei de extrair um pedaço do meu fígado."
"Oh, isso é um infortúnio, Black. Não é à toa que esteja tão distraído."
"Sim, estou um pouco tenso. Mas claro que isso não é desculpa para deixa-la na mão. Vamos ao trabalho, sim?"
Netunos retomou o trabalho burocrático que consistia em revisar e despachar informes e propagandas já aprovadas para a publicação nos jornais, na impressão de panfletos e cartazes, além do despacho de informes internos aos funcionários do Ministério da Magia. Nenhuma informação confidencial chegava às mãos daqueles funcionários. Ao final do dia, despediu-se dos colegas de trabalho e usou a rede de floo para chegar a Vila de Salazar, que era um conjunto habitacional completamente bruxo, recém-criado para abrigar as famílias tradicionais que moravam em bairros muggles. Encaminhou-se ao apartamento no quarto andar e chutou a porta antes de abri-la com a chave. Encontrou o apartamento com dois homens que seriam aliados, mas não necessariamente amigos. Netunus cumprimentou os dois. Sentiu novamente o formigamento pelo corpo e, desta vez, deixou que o processo de mudança acontecesse. Em dois minutos, Netunus tomou a forma de Juan Lopez.
"Como foi?" Terry Boot perguntou.
"O anel funciona." Juan abriu um pequeno sorriso. "Em pouco tempo vamos conseguir reunir informações e amostras suficientes para fazer o nosso movimento."
"Ataque direto." Michael Corner reforçou, animado com os planos estarem indo de acordo.
"Isso aqui foi só uma pequena amostra." Juan mostrou o frasco aos companheiros. "É de Priscila Lestrange."
"A vagabunda da nova geração. Só tem 23 anos e dizem que a boceta já é larga." Terry Boot disse sem medo de revelar o lado machista.
"Não é muito apertada, mas ainda é uma boa boceta." Juan disse com meio sorriso no rosto, também revelando que existe nele um lado escroto e machista.
"Oh, você não..." Boot gargalhou.
"A fama lhe convém." Juan voltou a analisar as amostras biológicas de Priscila Lestrange. "Vamos precisar de uma equipe maior."
"Mas quem? Conheço poucas pessoas que topariam um ataque suicida. Os melhores agentes estão na França e não conseguiriam entrar facilmente em Londres. Além disso, nem todo mundo está disposto a quebrar as ordens de Harry Potter e de Hermione Granger."
"Eu conheço algumas pessoas que se arriscariam." Juan afirmou aos companheiros.
Ele apontou a varinha para a pena e para o pergaminho, e começou a escrever uma lista de nomes. Entre eles: Quinn Fabray.
...
Santana levou a mão ao rosto ainda sem acreditar no descontrole que aconteceu depois da divulgação da existência do campo de refugiados. O que era para recepcionar apenas mais dez integrantes, de repente, lá estava ela fazendo o primeiro contato com 223 novos moradores, sendo que uma boa parte tinha aparência surrada e mendiga. Santana reparou também que na pequena multidão recém-chegada havia uma incidência maior de pessoas de diferentes etnias. O aumento progressivo de moradores era difícil, porém administrável. Mas receber tal quantidade no espaço apenas de duas semanas era pedir a instalação do caos, sobretudo porque as doações permaneciam as mesmas e já não estava sendo possível administrar os recursos e manter a distribuição de forma digna.
"Não podemos receber tanta gente." Marley disse apavorada, mesmo que baixinho.
"Não podemos manda-los de volta." Albus ponderou.
Santana puxou os dois amigos para uma breve conversa em privado.
"Marley, você vai na frente de vassoura. Diga a situação e monte cinco mesas para pegarmos os dados dessas pessoas. Diga a Lily que ela está dentro porque não há melhor entrevistadora do que ela. Quero que Drimi mobilize alguns voluntários para revistar os novatos. Peça a Padma que mobilize todos os voluntários para fazer uma triagem das pessoas que apresentarem ferimentos. Elas precisam ser atendidas. Albus e Charles, vocês vão conduzir os recém-chegados até o campo e, Albus, envie uma mensagem urgente para os velhos. Eu vou ficar aqui para tentar marcar uma audiência com o chanceler porque vamos precisar de recursos urgentemente. Quero tudo para ontem."
"Acha que tudo isso é necessário?" Albus questionou.
"Acho. O seu irmão é um imbecil, mas ele sabe fazer uma triagem bem-feita. Você mesmo me disse que nunca tiveram problemas até agora. Se chegou tanta gente de uma vez, é porque o velho esquema foi para o espaço."
"Ou porque eles sabem que está aqui." Charles Danvers comentou, chamando os olhares para si. "Tem que admitir, Lopez. Essas pessoas não estão aqui para se refugiar. Elas querem você e também uma resposta."
"Eu não vim para transformar isso aqui num campo de treinamento de guerrilha." Santana esbravejou.
"Não. Você veio porque está mais do que na hora de você assumir o comando. Como fez agora mesmo ao dividir as tarefas. E você o fez naturalmente." Charles insistiu.
"Apenas faça o que eu mandei." Santana desconversou, incomodada com as expectativas que as pessoas depositavam nela.
Santana encerrou a pequena reunião com os companheiros e voltou-se aos recém-chegados. Ela subiu no banco da plataforma para servir de palanque e encostou a ponta da varinha no pescoço para amplificar a própria voz.
"Boa tarde, senhoras e senhores. Meu nome é Santana..."
"Nós sabemos quem você é!" Interrompeu um homem negro de meia idade e forte sotaque francês que tinha o casaco rasgado e nenhuma sacola de bagagem em mãos.
"Isso poupa uma frase de apresentações." Santana acenou. "Eu sei que vocês vieram de longe e enfrentaram coisas horríveis até chegar aqui..."
"Por que não está lá?" O mesmo homem continuou a interromper. Santana pensou ignorar, mas não conseguiu.
"Desculpe senhor. Por que eu não estou onde?"
"Lutando? Por que não está lutando? Por que está aqui na África quando deveria estar lá na Europa? Você foi embora e eles tomaram conta, nos expulsaram das nossas casas, tomaram nossos bens, tiraram nossa cidadania porque não tínhamos sangue puro. Agora eles estão caçando qualquer pessoa que eles não gostam ou que simplesmente esboce a mínima simpatia pela causa. E você não está lá para lutar."
"Você por um acaso lutou?" Albus perguntou asperamente.
"Somos da armada azul." Outro homem com forte sotaque francês tomou a palavra. "Nós tentamos tomar o parlamento e perdemos. Eles mataram nossos companheiros, mas ao menos nós tentamos."
"Lutar não significa sair duelando." Santana argumentou. "Tentamos fazer de um jeito que minimize a perda de vidas."
"Diga isso para os lobisomens, para os centauros e para os gigantes. Eles estão praticamente extintos agora." Outro gritou.
"A causa tentou protege-los." Santana rebateu.
"Como, se você está aqui? Você é a destinada a lutar por nós. Você é a nossa campeã! Mas aqui, você é campeã de nada! É só uma criança acuada e assustada." O francês rebateu.
As palavras vindas dos recém-chegados eram como facas que atingiram Santana e a deixou paralisada. Ela sabia da situação na Europa, sabia dos massacres porque a notícia chegou pela equipe avançada liderada por Teddy Lupin. Mas o que ela poderia fazer? Enfrentar Evans e o exército de supremacistas promovendo um banho de sangue? Será que não haveria mesmo outra solução que não o embate direto? Não poderia existir outra revolução a lá Gandhi no mundo?
Por outro lado, Santana sentia que política e diplomacia não ajudavam a mudar a situação. Pelo contrário. Era como se os atuais líderes europeus não dessem a mínima para a péssima publicidade estrangeira. Por que teriam? Toda a imprensa estava controlada e censurada. Não havia como a população na Europa acompanhar as discussões. E, com tanta propaganda e medo, quem iria ter opinião contrária?
Santana sabia que se aproximava o momento em que teria de sair da relativa proteção africana, e isso a angustiava. Especialmente porque seria mãe em breve, e tudo que ela gostaria era poder conhecer a filha.
"Tudo dentro do tempo." Santana disse roboticamente antes de descer do banco. "Albus Potter e Charles Danvers vão acompanhar vocês até o campo."
Virou as costas e precisou ouvir o som de protestos de homens que clamavam por uma decisão. Eles clamavam pela guerra direta, pois não viam outro caminho. Talvez não houvesse outro. Santana andou depressa até a praça central e parou diante do palácio do governo. A ideia era conversar sobre a precarização do campo, mas como negociar um assunto político e humanitário importante se ela mesma estava desolada? Santana deu dois passos para trás, correu pela praça e saltou. As pessoas que ali estavam, inclusive muitos dos recém-chegados, testemunharam algo que há muito tempo não se via. Mais precisamente, desde Voldemort e Severus Snape: um bruxo que voava sem ser animago e sem vassoura.
Não era a primeira vez que voava. Era algo que começou a treinar em Bomdeling. Suas primeiras tentativas foram aos pés das montanhas do Himalaia, sob orientação do monge e professor Nangyel Ungyen. Ainda não havia tentado voar desde que chegou à África, mas a frustração e a pressão a motivou fazê-lo depois de meses. Não era um voo complexo. Estava mais para pulos realmente grandes e altos, mas em linha reta. Mesmo Santana ainda descobrindo como controlar essa capacidade, não deixava de ser impressionante.
Como todos os outros, ela tinha ouvido falar nos feitos dos grandes bruxos da história, como a habilidade sem-igual do último mestre da morte, Albus Dumbledore, da capacidade de Grindewald em ficar invisível sem uma capa, e de "roubar" a identidade de alguém sem precisar de polissuco. Voldemort e Snape voavam sem vassoura, e Slughorn era um mestre na legilimência e na oclumência sem ter dons da telepatia. Santana tinha o desejo de ir além de ser uma duelista formidável, por isso começou a tentar voar. O fato de ter uma ligação espiritual com um hipogrifo também ajudou. Nangyel Ungyen, que tinha a capacidade da dobra da mente, ou seja, ele conseguia visitar lugares com a força do pensamento enquanto o corpo dele está numa situação de meditação profunda. Nangyel Ungyen poderia ser o espião perfeito, mas a filosofia de vida o colocava longe de qualquer guerra. Ainda assim, ele ensinou Santana a desenvolver uma habilidade especial, como a dele.
Santana começou com pulos dignos de um atleta olímpico e, aos poucos, foi conseguindo melhorar o feito. Mas até aquela ocasião de confusão, jamais tinha arriscado em fazer algo tão ostensivo. Voou, mais ou menos, como um hipogrifo.
Pousou perto do campo, antes dos limites das barreiras de proteção. Andou entre as barracas e encontrou uma também recém-chegada Marley começando a mobilização que lhe coube. Santana foi direto em Lily, sob os olhares questionadores dos demais.
"Podemos conversar em particular?" Santana perguntou falando baixinho, quase chorando.
"Claro."
Lily pegou a mão da namorada e a levou para longe do pequeno grupo, até ao quarto que dividiam. Abraçou a namorada e a deixou sentir por alguns minutos o conforto de seus braços. Beijou Santana nos lábios e a encarou.
"O que aconteceu?"
"Marley não..."
"Marley disse que estava chegando um grupo maior que o esperado."
"Eu não sei o que fazer, Lil. Eu não sei o que estou fazendo aqui."
"Está fazendo o seu melhor."
"Não estou... eu não sei bem o que preciso fazer aqui... não acho que faço diferença alguma... e agora você está grávida... e tudo que eu quero é voltar a viajar pelo mundo contigo e com o nosso bebê."
Aquelas palavras apertaram o coração de Lily. Ela sabia melhor que ninguém que Santana, por mais poderosa que fosse, não passava de uma garota que tinha fragilidades como qualquer outra. Era alguém que, assim como a própria Lily, precisava de um colo de vez em quando.
"Escuta aqui!" Lily segurou o rosto da escolhida. "Você acha que o trabalho que fazemos aqui é fácil?"
"Nenhum pouco."
"Ótimo! Agora enxugue essas lágrimas e mostre para essa gente que não estamos aqui brincando de acampar."
Santana acenou. Enxugou as lágrimas e beijou a noiva. Lily se transformou no principal alicerce dela ao longo dos anos, a ponto de não saber mais o que faria sem ela. Além disso, a jovem Potter tinha razão: havia um trabalho duro a fazer. As duas tinham.
...
O falcão atravessou a cidade de Londres com o seu voo leve e veloz. Não foi fácil chegar até a grande metrópole. Precisou pegar 'carona' em um navio que ia de Dunkirk, na França, a Dover, na Inglaterra. Pode-se dizer que o coração do animal bateu forte quando ele sobrevoou a terra natal pela primeira vez após três anos de exílio. Voou com cautela até conseguir alcançar a velha Londres. Sob a forma humana, o falcão certamente dispararia alarmes instalados em partes da cidade, em especial as que concentravam bruxos. Mas o trânsito era livre como animal. Precisava apenas tomar cuidado com predadores e caçadores ocasionais que poderia atingi-la com um tiro de espingarda.
Mas o falcão pousou na janela apropriada após cinco dias de viagem e procura. Um homem de cinquenta e poucos anos, pele escura e traços latinos se aproximou. Ele sorriu, acariciou brevemente o pescoço do animal e ergueu o braço para que o falcão pousasse ali e o conduzisse para o interior do imóvel. O homem levou o animal para um quarto, e indicou que havia roupas em cima da cadeira. Deixou o animal no cômodo e saiu.
O falcão se transformou em Quinn Fabray em alguns segundos. A bela mulher estava exausta, mas feliz por estar "em casa". Ela pegou a roupa oferecida para esconder a nudez. Era um vestido com comprimento abaixo dos joelhos, marrom, um número maior do manequim que usava. Também não era nada bonito, como se tivesse sido feito para a avó. Mas quem se importava? Ela, certamente, não estava ali para um concurso de beleza e moda.
Quinn saiu do quarto e deparou-se com sete pessoas. Sete malucos com um plano absurdo, mas que, justamente por isso, poderia dar certo. Também eram sete pessoas que tinham total interesse para que o plano funcionasse. Juan Lopez queria salvar a filha que logo seria mãe. Terry Boot queria vingança pelo filho assassinada pelo governo. Michael Corner precisava fazer as pazes consigo mesmo após inúmeras falhas. Linda Kress havia perdido tudo, inclusive a família. Roger Davies tinha dívidas a paga com a própria consciência. Heidi Macavoy tinha assuntos particulares a tratar com Zabini. Quinn encarou um rosto conhecido, porém maltratado, que não via há mais de três anos.
"Hummel?" Quinn foi até o velho colega de Hogwarts. Os dois nunca conversaram em Hogwarts, mas Quinn lembrava-se que Kurt Hummel e Mercedes Jones eram como unha e carne, e que os dois eram membros ativos do fracassado coral organizado por Rachel Berry. Até onde ela sabia, Kurt Hummel estava em Azkaban e não tinha feito parte da causa.
"Olá Fabray, faz algum tempo."
"Sim. Desde..."
"Desde a queda de Hogwarts." Kurt disse com a voz endurecida, puro reflexo daquilo que o próprio havia se tornado. "Como tem passado?"
"Servindo à causa desde a queda de Hogwarts. Você não estava morto?"
"As notícias sobre a minha morte foram exageradas. Estava preso na maior parte do tempo."
"Oh... e o que aconteceu com a sua amiga?"
"Mercedes Jones?"
"Sim."
"Morreu em Azkaban. Meu namorado morreu em Hogwarts. Meus pais estão exilados. Juan disse que Finn se casou com Rachel Berry e se exilou na América."
"Estranho, não é mesmo? Finn e Rachel juntos."
"Há coisas mais estranhas nesse mundo." Quinn franziu a testa, ainda sem entender as reais motivações para que Kurt estivesse exatamente ali.
"Encontrei Hummel perambulando pela cidade. Estava completamente perdido" Heidi Macavoy explicou. "Eu... nós lhe demos uma causa para viver."
Quinn ergueu uma sobrancelha. Não estava tão convencida, mas aceitou. Podia ser muita coincidência. Por outro lado, a comunidade era pequena demais para não haver algumas. Juan agradeceu por Quinn ter aceitado a convocação que nem ela própria sabia dizer porque aceitou algo que já havia recusado em primeiro lugar. Aliás, ela sabia muito bem. Mas não poderia jamais admitir em voz alta para não soar tão patético. A equipe se reuniu em torno da mesa, e Juan assumiu a liderança, explicando em detalhes o plano.
"Como garantir que isso pode dar certo?" Quinn questionou depois de ouvir atentamente o que Juan tinha a dizer. "E se eles aparecerem?"
"Não vão." Juan assegurou.
"Como pode ter certeza?"
"Porque nós passamos as últimas semanas tirando todos eles de circulação." Juan acenou para que Quinn o seguisse. Eles desceram as escadas e Quinn arregalou os olhos com o que se deparou.
...
Quinn sempre ouvia histórias a respeito das reuniões com Voldemort. Havia uma cúpula dos líderes death eaters formada por gente como Bellatrix Lestrange, Lucius e Narcissa Malfoy, Antonin Dolohov, Dolores Umbridge e Severus Snape (que era um agente duplo). Cada um desse grupo de elite comandava grupos menores, com funções específicas. Russell Fabray tinha 21 anos quando a guerra aconteceu. Ele não se envolveu diretamente com os duelos, mas ele e o pai foram financiadores e proveram aos death eaters parte da logística que necessitavam. Russell costumava dizer que os encontros eram sempre tensos, na surdina. As reuniões com Voldemort costumavam acontecer em locais com iluminação parca, mesmo que se tratasse de palacetes. Havia um boato de que Voldemort havia ficado fotossensível depois do retorno, por isso só andava em locais abertos no entardecer e à noite.
O governo de Samuel Evans parecia ser muito diferente. A começar pela luz. A festa era muito bem iluminada, o efeito mágico que decorava o teto do palacete dava, inclusive, uma atmosfera otimista ao evento. Tratava-se de um encontro de alguns dos líderes europeus, e o baile era a ocasião social do encontro para "inglês ver", ou melhor, a imprensa noticiar o clima de otimismo. Tudo que os jornais europeus publicavam eram manchetes sobre falsos progressos e promessas, de como a sociedade estava tão melhor sem mestiços e sangue-ruins. Desde que a imprensa estrangeira noticiou o campo de refugiados, os governos locais passaram a reescrever as notícias para passar a impressão de que Santana Lopez comandava um lugar de miseráveis mestiços e sangue-ruins porque eram justos esses tipos de pessoas que traziam miséria e violência.
O que era mais irônico era que uma boa parte dos convidados no evento de gala sabiam a respeito da manipulação e da censura do que era noticiado: que a Europa passava por uma grave crise socioeconômica devido ao isolamento, e que chegaria um ponto que seria improvável manter as aparências, especialmente quando os produtos fabricados e importados de outros países começarem a faltar nas prateleiras.
Netunus Black, ou melhor, Juan Lopez, passeava de braços dados com uma imponente Priscila Lestrange, ou melhor, Quinn Fabray. Priscila era a convidada ao evento. Normalmente Netunus Black, por mais que pertencesse a tradicional família Black, jamais passaria dos portões se não estivesse como acompanhante de uma das mais proeminentes funcionárias públicas do mundo bruxo. O departamento de transportes era estratégico, e Priscila tinha fama de ser implacável nas negociações. Ela também tinha fama de só se envolver com bruxos do alto escalão do governo ou ricos. Daí a surpresa geral quando ela apareceu acompanhada de um funcionário burocrata do baixo-escalão.
"Odeio isso aqui." Quinn sussurrou no ouvido de Juan.
"Somos dois." Ele olhou para as laterais do salão e viu um dos garçons de olho no casal inusitado. Era Roger Davies infiltrado, sob efeito da poção de polissuco de um bruxo qualquer. Andou até ele e sorriu.
"Canapés?" Davies perguntou ao suposto casal.
Quinn pegou um salgado e experimentou. Estava divino. Juan fez o mesmo enquanto passava ao aliado a varinha que lhe pertencia.
"Nervosa, babe?" Juan provocou Quinn, tentando trazer um pouco de humor a garota que também estava ansiosa.
"Meus pais estão aqui." Quinn sussurrou, indicando a direção ao casal de cabelos quase tão louros quanto os de uma veela. Ela não via os pais há anos, desde quando testemunhou contra Russell no dia do julgamento que o levou a Azkaban. Ela não queria sentir-se de certa maneira intimidada com a presença do homem que detestava, mas que ainda era pai dela.
"Vai dar tudo certo. Se mantenha dentro do plano. Não beba álcool e nenhuma substância suspeita, ok?" Davies reforçou a recomendação, uma vez que a poção de polissuco perdia o tempo de efeito com a ingestão de álcool e outras drogas.
Quinn pegou uma taça de champanhe. Ela precisaria fingir que bebia, afinal, Priscila Lestrange bebia consideravelmente em eventos sociais, tal como foi averiguado na pesquisa preliminar antes de atocaiarem a própria a caminho do Ministério da Magia. Olhou o relógio no pulso de Juan. Tinham aproximadamente mais meia hora antes de precisarem tomar o reforço da poção. Quinn conseguia reproduzir os trejeitos de Priscila Lestrange graças ao que ela lembrava da colega Slytherin da época em que ambas estiveram em Hogwarts. Era o que a salvava, pois a sensação de estar num copo que não era o seu lhe incomodava muito.
"Vamos circular um pouco." Juan sugeriu. "Tente parecer casual. Ele deve aparecer em breve."
"É fácil para você dizer, já que está vivendo como Netunus Black há semanas."
"Acredite que essa é a pior parte."
Na medida que iam circulando e encontrando aliados, varinhas iam sendo passadas de forma clandestina para Heidi Macavoy, Terry Boot, Michael Corner e Linda Kress. Kurt Hummel havia ficado para trás, vigiando os bruxos cuja identidades foram roubadas: todos foram sequestrados e trancados num porão.
Juan sentiu na pele a falta de importância dispensada a Netunus Black. Mesmo em companhia da ilustre "Priscila Lestrange" parecia ter a força para mudar tal ideia. Por outro lado, o menosprezo dos demais parecia lhe dar certa liberdade para circular e observar sem ser incomodado.
O falso casal passou próximo aos pais de Quinn Fabray. Judy fazia o usual papel da esposa comprometida com o casamento enquanto o marido sorria e bebia com futuros parceiros nos negócios. Russell recebia apoio para recuperar os Tornados de Tutshill. Já havia conseguido reaver a mansão na pequena cidade e estava próximo de conseguir anular o processo de compra do time. O movimento não fazia sentido algum nas leis trouxas, mas era preciso ter em mente que a sociedade bruxa do Reino Unido tinha as próprias leis, por mais que existisse um vínculo administrativo com a coral Britânica. Quinn teve sentimentos mistos quanto a isso. Ela amava a equipe que há um século era administrada pelos Fabray. Havia uma certa tradição ali. Por outro lado, Russell Fabray era um corrupto e estuprador de vulnerável.
Circulando um pouco mais, o falso casal se deparou com o grupinho de capangas favoritos de Samuel Evans. Era um bom sinal de que o convidado principal apareceria. Quinn colocou a taça que segurava em cima de uma mesa e andou casualmente em direção a Heidi Macavoy, que gargalhava de modo afetado, numa representação muito pobre de Lohanne Stone: a jovem mulher era mais impetuosa, decidida e menos afetada.
"Baixe o tom, seja mais petulante e menos deslumbrada." Juan sussurrou casualmente no ouvido da aliada, mas as mulheres que testemunharam a interação ficaram com a impressão de que aquilo era um gesto de sedução. Um movimento ousado para alguém que estaria acompanhado da altiva Priscila Lestrange.
"Alguém tirou a sorte grande." Uma das mulheres comentou com malícia. Netunus podia ser um burocrata do baixo clero, mas tinha atributos físicos bonitos. Se 'ele' estava li com 'Lestrange', deveria ser porque tais atributos se estendiam em habilidades sexuais. Que pensassem dessa maneira.
"Esse alguém foi Priscila." Sorriu esbanjando charme discreto que não era sequer próprio do verdadeiro Netunus. Era puro Juan Lopez do modo como ele próprio encarava o jogo de sedução.
Permaneceu numa posição em que dava a impressão de acompanhar a amante mais importante no circuito social, mas que poderia prestar atenção na conversa dos amigos de Evans. Ali estavam Noah Puckerman, os irmãos Goyle, Gail Travis e mais dois homens mais velhos que eram estrangeiros. O teor da conversa era de baixo calão e não demorou para Juan perceber que integrar-se significaria ficar enojado. Aproximou-se mais um pouco e depois fez um gesto petulante pouco discreto, chamando atenção de Noah Puckeman. O bruxo voltou-se para o suposto Netunus Black.
"Algum problema, Black?"
"Quer dizer que você traçou três garotas que estavam implorando para te chupar? Por favor!" Juan riu zombeteiro. "Sabendo quem você é, é mais fácil ter usado imperius para as garotas fazerem isso."
"E o que você sabe a respeito de garotas, Black? Acha que traçar Lestrange é algum feito? Todos nós já estivemos lá."
"Não é sobre quem esteve lá, Puckerman. É sobre quem teve importância. Você não teve alguma."
Puckerman segurou "Netunus" pelo colarinho, pronto para lhe dar um soco. Juan sabia que deveria fazer amizade com aquela gente e não provocar. Ele sabia que não era um homem de moral irretocável, que ele próprio tinha vícios, demônios e péssimos hábitos para vencer. Mas Juan nunca foi um estuprador ou um pedófilo. Odiava esse tipo de gente. Detestava tanto tipos como aqueles sujeitos que não conseguiu se segurar. Esperou pela agressão, mas com os olhos bem abertos, encarando, para não deixar barato. Foi quando sentiu um empurrão mágico.
"Querido!" Quinn segurou o braço de Juan. "Eu permiti que você me acompanhasse foi porque jamais teria a capacidade de roubar a atenção de mim." Sorriu de maneira dissimulada para Puckerman. "Não é bom irritar o capanga."
"Ótima piada, Lestrange." Puckerman disse sem humor algum. Era vaidoso suficiente para rejeitar a todo custo a pecha de capanga de Samuel Evans. A realidade era que Puck não passava de um gorila que efetuava trabalhos sujos sob ordens tanto de Zabini quanto de Samuel.
Embora o pequeno tumulto tivesse chamado atenção das pessoas que estavam ali próximas da recepção, logo elas se voltaram para outro ponto do salão, quando Samuel Evans entrou na companhia quase recorrente de Kitty Wilde. O líder entrou sorridente e esbanjando o carisma juvenil. Diferente de Voldemort, que liderava pelo medo, estava claro que Samuel sequer liderava alguma coisa. Era como um chefe de estado, como se fosse realeza que deixava o trabalho de governo para Blaise Zabini. Samuel estava ali pelo show pela diversão, para gozar do prestígio de ser a pessoa mais importante do salão. Juan, Quinn e companhia sabiam que nada disso significava que eles deveriam subestimar Samuel.
Havia muitas dúvidas e mitos em relação a varinha que ele usava, mas era ponto pacífico o fato de que o bruxo das trevas era extremamente perigoso e mortal com ela. Havia muitos relatos de que ele venceu todos os duelos que enfrentou, exceto um: em Hogwarts, quando Santana o desarmou, o encurralou, mas não conseguiu matá-lo. Esse era o grande calcanhar de Aquiles de Samuel.
Samuel Evans começou a circular entre os presentes, falando apenas com quem lhe interessava. Até mesmo alguns diplomatas e chefes estrangeiros eram ignorados. Foi até Puckerman e o cumprimentou com entusiasmo, mostrando que, apesar de toda aquela gente importante, ele continuava fiel aos primeiros e fiéis amigos.
"O que vemos aqui?" Samuel se aproximou de Juan. "Eis um rosto que não vejo faz algum tempo."
"Como vai, comandante?"
"É estranho ver um simpatizante dos rebeldes na minha festa."
"Nunca fui simpatizante de Santana Lopez. Apenas jogávamos quadribol juntos."
O rosto de Samuel era difícil de ler. Juan começou a ficar inquieto, com receio de que o bruxo das trevas estivesse desconfiando de algo. Todo mundo sabia o que uma mera desconfiança era capaz de fazer naquela época. Azkaban estava repleta de gente presa por ter feito uma mera piada ou crítica aos novos tempos.
"Perdão, meu senhor." Quinn interferiu e postou-se ao lado de Juan. "Eu convidei Black para me acompanhar nesta recepção. Achei que seria divertido." Tentou sorrir insinuante, mas a tensão ali instalada.
"Que estranho, Lestrange. Estamos acostumados de ver você acompanhada dos seus amantes ocasionais." Samuel insistiu. "Mas eu não imaginava que você poderia transar com alguém como Netunus."
"Perdi uma aposta."
"Oh!" Samuel amenizou a expressão. "Deve ter sido uma baita aposta."
"Coisas que o pós-orgasmo é capaz de fazer."
Samuel sorriu, ergueu a taça de champanhe e virou as costas. Juan pegou a mão de Quinn e discretamente a puxou para longe.
"Precisamos agir agora." Juan sussurrou no ouvido de Quinn. "Agora ou nunca."
Quinn começou sentir o formigamento típico e parou em meio ao salão. Pegou a frasqueira dentro da bolsa, e bebeu um gole. Com a transfiguração estabilizada, olhou ao redor e não percebeu anormalidades no comportamento dos presentes, afinal, Priscila Lestrange era conhecida pelo grande apreço a uma bebida alcoólica.
"Se a gente ir atrás de Samuel, vamos chamar atenção." Quinn alertou.
"Vamos chamar atenção de qualquer maneira." Juan sinalizou para os pares que estavam espalhados na festa. Era hora de atacar.
Juan andou decidido para o lado em que Samuel se encontrava. Seus olhos estavam fixados na presa. Sabia que tinha uma chance, uma única chance. Precisava ser rápido, preciso e rezar para que os demais colegas lhe dessem cobertura para o escape. Lógico que estava nervoso, afinal, tinha planejado uma missão suicida que poderia terminar com uma guerra ali mesmo. Pelo menos, era o que ele acreditava fielmente.
Juan aproximou-se de Samuel, que estava de costas para ele, conversando amigavelmente com Zabini e outro homem que ele não reconhecia. Aquela era a chance de uma vida. Estava nervoso, suas mãos suavam, mas ele seguiu adiante. Teoricamente, nenhum convidado portava uma varinha na festa. Era uma medida de segurança para que todos os convidados deixassem suas respectivas varinhas na porta de entrada. Mas Juan portava o anel real dos centauros que Quinn conseguiu para ele à duras penas. O objeto dava a ele alguns poderes especiais, como aparatar em locais protegidos. Foi assim que Juan burlou a segurança e conseguiu entrar com as varinhas.
Juan não era ingênuo. Sabia que tais regras jamais se aplicariam ao próprio Samuel, nem a Zabini ou a guarda de proteção. Haveria retaliação. Por isso precisava ser perfeito. Sinalizou aos aliados, retirou a varinha de dentro do paletó do terno quando encurtou a distância para Samuel e disse as palavras que a filha dele nunca tivera coragem de proferir.
"Avada Kedrava!"
O golpe atingiu Samuel, mas não como o esperado. A maldição imperdoável de tonalidade verde circulou o corpo de Samuel, sem realmente tocá-lo, e dispersou-se.
"Avada Kedrava!" Quinn e os demais tentaram igualmente sem sorte. O efeito foi exatamente o mesmo. A maldição imperdoável circulava em torno do corpo do bruxo das trevas e se dissipava.
Samuel estava protegido o tempo todo pela própria varinha que ele construiu às custas da vida de Brittany Pierce, entre outros processos das artes escuras. Juan não esperava por isso. Ninguém esperava por isso. Como poderiam? Samuel rapidamente voltou-se ao homem que pensava ser Netunus Black.
Quinn gritou e empurrou as pessoas próximas, começou a correr, assim como todos os outros, provocando a confusão e a histeria que supostamente faria com que Juan ganhasse tempo. Mas não seria fácil. Os homens de segurança de Samuel começaram a persegui-los pelo salão.
Nem todo pandemônio fez com que Samuel e Zabini tirassem os olhos do falso Netunus Black. Samuel sacou a temida varinha construída com a força das trevas. Juan atacou novamente antes que Samuel tivesse a oportunidade de usá-la contra ele. Sabia que perderia. Era uma certeza e ele estava em paz em morrer tentando proteger a filha. Se o plano A não funcionou, havia o plano B, que por um acaso estava logo ali, ao alcance.
"Avada Kedrava." Juan pronunciou com tudo que tinha.
A luz verde foi disparada e, dessa vez, foi direcionada a pessoa que estava imediatamente ao lado de Samuel Evans: Blaise Zabini. Juan tinha uma teoria de que se o próprio Samuel não morresse, talvez o governo dele pudesse ruir com a morte do mentor e governador de fato daquele Reino Unido opressor. Samuel viu o mestre ser atingido e caindo logo ao lado. Juan foi segurado pelos capangas, havia o caos naquela festa, pessoas corriam para salvar a própria pele, inclusive os aliados da resistência. Horrorizado ao ver o corpo de Zabini sem vida, Samuel apontou a varinha para Juan.
"O hipogrifo vencerá."
Essas foram as últimas palavras do medibruxo.
...
Blaise Zabine estava morto. Juan Lopez também. Todo resto era o caos.
Quinn derrubou dois perseguidores, mas num movimento imprevisto, esbarrou em um desesperado qualquer e a varinha escapuliu das mãos. Ela não conseguiu encontrá-la a tempo e precisou correr em meio ao caos. Quinn correu para a saída. Não pensava em mais nada, em mais ninguém, a não ser escapar. Juan executou o plano B. A missão foi bem-sucedida sobre certa ótica. Se o lorde das trevas não caiu, ao menos o homem forte do governo, a pessoa que mais tinha capacidade de articulação, o grande arquiteto do golpe contra Hermione Granger, estava morto. Como o rei poderia sobreviver sem o fiel primeiro-ministro? Pode ser que sim, mas não antes de uma temporária desorganização e reestruturação no governo. Isso poderia provocar a abertura da janela para Harry Potter e Hermione Granger agir. Mais do que isso: poderia ser a abertura que Santana Lopez precisava para retornar.
Havia tal conforto no coração de Quinn, mas como uma slytherin, o instinto de sobrevivência dela era forte. Era em sair viva que ela precisava se preocupar naquele exato momento. Podia se transformar em uma animago e fugir com mais facilidade. Infelizmente ela não era Santana Lopez e precisava necessariamente de uma varinha.
As pessoas corriam sem direção, mais desesperadas em sair dali do que em recuperar os próprios pertences. Quinn estava em meio a multidão enquanto era perseguida. Precisava de uma varinha. Um toque seria suficiente para que ela conseguir canalizar a transformação num falcão. Animagos experientes e poderosos podiam transfigurar a própria varinha e mudar em qualquer lugar. Ela não tinha tal controle e poder ainda. Precisava de uma varinha. Qualquer uma. A saída estava perto, mas havia pessoas correndo atrás dela. Só precisaria de uma varinha, ou quem sabe até do anel dos centauros.
Quinn tentou correr em meio a confusão, aos esbarrões que fazia com que algumas pessoas caíssem ao chão. Ela estava determinada. Viu o balcão adiante com o armário em que o empregado guardava as varinhas dos convidados. Havia muita gritaria, muita confusão. Os outros colegas haviam ficado para trás. Juan estava morto e Quinn não poderia ter o mesmo destino. Estava quase, quase...
...
A sala era fria e úmida e lembrava muito as masmorras de Hogwarts. Mas não estava na lendária escola de bruxaria do Reino Unido. Antes fosse. Pelo menos ela saberia para onde ir caso tivesse chances de escapar. Estava sentada numa cadeira de madeira com as mãos e os pés amarrados. Ainda usava o vestido da festa, que agora lhe apertava, já que Priscila Lestrange era menor e mais magra.
"Quinn Fabray!" Ouviu a voz conhecida. Era o próprio Samuel Evans. "Não tem ideia da minha felicidade em estar diante de você. Finalmente."
Quinn estava ciente da obsessão que Samuel sentia por ela. Sabia de todos os riscos que implicavam a estada dela ali. Mas o que poderia fazer? Só lhe restava aguentar até a cavalaria chegar. Isto é, se um dia ela chegar. Havia, portanto, a grande possibilidade de ela morrer nas mãos do inimigo. Esse era um risco que todos corriam há anos.
"Olha só para esse rosto." Samuel tocou delicadamente no rosto de Quinn, que virou bruscamente. O gesto apenas parecia excitar o bruxo das trevas. "Tão corajosa! Bem diferente da Quinn Fabray dissimulada que fugiu estar ao meu lado para salvar a amiga na primeira oportunidade. Me responda uma coisa: Santana Lopez está aqui para retribuir a gentileza? Ou ela foi covarde suficiente para sacrificar o próprio pai?"
Quinn permaneceu calada, encarando Samuel e cuidando da movimentação dos outros que estavam por perto, entre eles Puckerman e Aramis Black, para o desgosto dela.
"Santana não está aqui." Samuel continuou dissimulado. "Ela está na África brincando de casinha com Lily Potter enquanto você faz o trabalho sujo." Brincou com o cacho loiro do cabelo de Quinn. O toque a enojava e ela começou a ficar com a respiração ofegante. "Não vai dizer nada sobre isso?" Continuou acariciando a prisioneira com toques leves, ainda não tão invasivos. Quinn sabia que não ficaria assim por muito tempo.
"Você pode me torturar como quiser, Evans. Eu não tenho nada a dizer."
"Nem para salvar a própria pele? Você mudou. Cadê o senso de autopreservação de um Slytherin?"
"Eu sou uma Slytherin, uma cobra, não um rato."
Samuel gargalhou alto, fazendo Quinn ficar ainda mais tensa. Era o palco dele, a situação toda favorável a ele.
"Me diga uma coisa: o que você pensa sobre a corajosa Santana Lopez brincar de casinha escondida num campo de refugiados na Angola enquanto você está aqui?"
"Santana não está brincando de casinha. E se eu fosse você, torceria para ela ficar mais tempo possível na África. Porque, quando ela vir, será para acabar contigo de uma vez por todas."
"Isso é, se ela conseguir sair viva de lá." Voltou-se para Aramis Black. "Diga a Dolohov para prosseguir o plano." Depois voltou-se para Quinn, apoiando as duas mãos nas coxas dela, aproximando o rosto de maneira verdadeiramente invasiva. "E você vai assistir a queda da casinha da sua amiga de camarote. Santana Lopez morre amanhã e não há nada que você possa fazer."
"Você está blefando."
"Por que eu blefaria para você?" Samuel gargalhou. "Está presa e completamente a minha mercê. Santana vai morrer amanhã e eu vou comemorar fazendo o que sempre sonhei." Forçou uma das mãos entre as pernas de Quinn, ainda que por cima das roupas.
Quinn tentou lutar, mexeu tanto o corpo que a cadeira tombou para o lado. O ombro sofreu o maior impacto, seguida da lateral da cabeça. Do chão, viu Samuel em sua visão periférica.
"Nos vemos muito em breve, Quinn."
...
Heidi estava sentada no sofá com as mãos no rosto. Os olhos ardiam do choro de frustração e raiva. Sentia-se culpada por não ter voltado pelos companheiros, e sabia que esse sentimento lhe corroeria. Enquanto ela estava desolada, o movimento no apartamento era quase morto. Havia sobrado apenas Kurt, que tinha ficado para trás para vigiar os prisioneiros. Ele levantou-se e tocou no ombro da mulher mais velha. Precisavam ir embora, pois era só uma questão de tempo até os agentes invadirem o local.
"Netunus é só um funcionário menor do Ministério da Magia. É completamente descartável." Heidi especulou balbuciando. "Mas podemos tentar trocar Priscila por Quinn. Ela é uma alta funcionária, afinal."
"Não vai acontecer." Kurt procurava raciocinar friamente. "Nós temos uma funcionária do Ministério da Magia entre tantos outros. Eles têm a melhor amiga de Santana Lopez."
"O que vamos fazer, então?"
"Ir embora e não falar nada."
"De jeito nenhum!" Heidi protestou. "Juan está morto, mas os outros e os outros estão nas mãos do inimigo, e vamos manter isso em segredo? Eu não posso concordar com esse tipo de coisa."
"Vai fazer o quê? Essa foi uma operação independente em que todos sabiam do risco que correram. Todos aceitaram que talvez fosse uma viagem sem volta. Juan matou Zabini e isso foi incrível. Só que a operação acabou e a gente precisa sobreviver para lutar outro dia."
"Como você pode ser tão jovem e tão frio?"
Kurt se considerava um meio-morto. Aquele tipo de confronto não lhe afetava mais.
"Faça como você quiser. Eu vou embora. Deixe que os prisioneiros sejam encontrados pelos agentes."
"Nosso plano deveria ser resgatá-los." Heidi insistiu.
"Eu sinto muito." Kurt pegou as coisas dele e fugiu, deixando uma arrasada Heidi para trás.
No fundo, Kurt sentia-se um covarde. Ele queria mesmo que o plano desse certo, que Samuel estivesse morto e enterrado. Mas Kurt também era um ex-presidiário que sabe muito bem o que aquele regime era capaz. A coisa que ele melhor aprendeu a fazer em Azkaban foi a sobreviver.
...
Santana acordou ao lado da noiva. Lily parecia que dormia em paz após uma noite de amor. Puxou a coberta de Lily um pouco para baixo, para expor o ventre dela. Sorriu ao ver a barriga que crescia discretamente.
"Oi Jyn." Sussurrou. "Está tudo tranquilo aí dentro? Espero que esteja quentinha e feliz."
"Jyn?" Lily disse ainda sem abrir os olhos. "Você não vai chamar a nossa filha de Jyn, e essa sua obsessão com Star Wars vai ter que acabar."
"Jyn Potter-Lopez soa muito bem."
"Soa como se a gente tivesse batizado nossa filha com nome de bebida!" Lily virou o rosto para encarar a noiva e, assim, dar mais peso a crítica.
"Não soa nada."
"Nada de nomes de Star Wars, Santana Lopez! Nada de Padmé, Leia, Rey, Jyn, Shimi, Ahsoka ou Sabini... ou aquele ser alaranjado cujo nome eu esqueci."
"Maz Kanata?"
"Essa."
"Você não tem graça."
"É um absurdo pensar que alguém tão forte, que já viajou o mundo, a grande escolhida de nossa geração, seja uma baita de uma nerd!"
"Arya então?"
"Santana!"
Santana gargalhou e beijou Lily. Era divertido simplesmente irritar a noiva naquele pequeno mundo de oito metros quadrado que servia como lar das duas há alguns meses. Mas era ali, no quarto espartano, que Santana se permitia sorrir e chorar, mostrar toda fragilidade que tinha de esconder da porta para fora. Eram naqueles oito metros quadrados que ela se permitia ser apenas uma jovem mulher. Ela começou a provocar Lily com cosquinhas marotas, a fazendo gargalhar e implorar para que parasse. Conhecia cada ponto sensível daquele corpo e sabia que cosquinhas aplicadas no lado interno das coxas costumavam culminar em uma rapidinha. Mudou de posição, ficando sobre a noiva, dosando o peso do corpo para não machucá-la ou ao bebê. Acariciou os seios de Lily enquanto as duas se beijavam com paixão. A mão desceu para sul, chegando ao sexo. Estimulou Lily, que rapidamente ficou molhada, e a penetrou com dois dedos.
"Katniss?"
"Não..." Lily respondeu ofegante.
"Buffy?"
"Fora de cogitação."
"Kara?"
"Você não vai me convencer... enquanto me fode."
"E se eu parar?"
"Se você parar agora... eu te mato."
Santana sorriu, beijou Lily rapidamente enquanto continuava a trabalhar com os dois dedos dentro e fora enquanto o polegar fazia a pressão providencial na molhada região do clitóris. O ritmo era perfeito, fazendo com que Lily sentisse as ondas de prazer percorrendo o corpo. Ela e Santana faziam sexo com regularidade e nunca passavam mais de uma semana sem trocar carícias, a não ser na ocasião em que Lily ficou seriamente doente na Índia.
Naquela fase da gravidez, já no segundo trimestre, em que o enjoo já tinha passado e o apetite sexual aumentava devido aos hormônios, Lily estava muito mais receptiva as carícias, inclusive era quem passou a tomar a iniciativa na maior parte das vezes. Não que Santana estivesse reclamando. Lily gozou soltando um urro contido e depois deixou o corpo relaxar enquanto Santana desacelerava o ritmo até parar os movimentos.
"Preciso de cinco minutos antes de te comer." Lily disse para Santana, que deitava ao seu lado.
"Não precisa Lil. Estou bem."
"Duvido que não esteja excitada depois disso."
"Estou, mas já amanheceu e você desprezou todas as minhas sugestões."
"Não vai me dizer que você não deixar que eu te toque até que eu aceite uma de suas sugestões de nerd?"
"Não... estou dizendo que minha missão de hoje falhou e que temos que ir trabalhar."
Santana beijou o rosto de Lily antes de se levantar. Vestiu a roupa, sendo observada pela noiva, pegou a toalha e a escova de dente, saiu do quarto e se dirigiu aos banheiros. Resmungou pelo fato de não ser mais possível manter os banheiros tão limpos quanto antes. Era impossível para a equipe de limpeza manter os doze toaletes e chuveiros impecáveis para quase 700 mulheres dos quase 1.300 habitantes do campo de refugiados. Já havia mais bruxos ali do que a população total de alguns países. Havia mais bruxos concentrados no campo de refugiados do que a população da Grécia, por exemplo, ou de Portugal. Proporcionalmente falando, era como se o campo de refugiados tivesse atingido a população do campo de Dadaab, no Quênia, que chegou a ter, no auge, meio milhão de somalis muggles, até começarem a serem expulsos de maneira nada ética ou humana pelo governo queniano.
Voltou ao quarto e encontrou a noiva já vestida e se preparando ela própria para a rotina matinal. De repente, o seu olhar ficou perdido, pensativo.
"O que foi?" Lily perguntou.
"Estava pensando sobre aquela nossa velha conversa recorrente..."
"Não está na hora de eu ir embora, San. Eu estou grávida, não inutilizada. Ainda posso ajudar no trabalho aqui."
"Eu sei, babe. Não é isso que quis dizer. É só que as coisas fugiram do controle nessas últimas semanas e eu sinto que o clima está mais tenso que o normal. Eu não gostaria que você corresse riscos desnecessários."
"Não vou discutir contigo. Já disse que quando a minha gestação estiver no fim, eu faço a sua vontade e vou pros Estados Unidos, embora seja quase uma ofensa nossa filha não nascer em solo britânico."
"Lil..."
Lily não respondeu. Saiu do quarto e tinha a intensão de repetir a rotina feita pela noiva minutos antes, com a diferença que precisava de uma chuveirada. Cumprimentou as mulheres e meninas que cruzou pelo caminho e esperou um box de chuveiro desocupar. Devido a quantidade de gente e a água limitada, os chuveiros foram programados para funcionarem apenas três minutos, controlados por uma espécie de temporizador mágico e alguns encantamentos adicionais. O chuveiro gritava para expulsar que insistisse. Lily ligou o chuveiro e se ensaboou praticamente no mesmo instante que a água caiu no corpo. Enxaguou-se bem a tempo. Enxugou-se rapidamente e vestiu-se para desocupar o boxe. Voltou ao quarto já pensando nas rotinas do dia. Checaria as escalas do pessoal da limpeza e faria o controle do depósito, depois pensava em ir voando de vassoura a Bungu para comprar alguns suprimentos particulares. Ela precisava de roupas novas e de comprar alguns ingredientes para fazer poções para hidratar a pele (era mais barato fazer do que comprar pronto). Ia procurar sapinhos de chocolates na única loja de doces de Bungu. Estava com desejo de comê-los com um pouco de suco de limão. Pensou também em procurar um arco para os cabelos de Santana. Achava tão bonito quando a noiva usava os longos e negros cabelos soltos em vez do usual rabo-de-cavalo.
Cruzou com o primo e depois com o irmão. Cumprimentou ambos com um tapinha nas costas amigável. Comeu o café da manhã que era igual para todos. O café era uma das duas refeições oferecidas no campo. Quem quisesse mais comida, teria de comprar com os próprios recursos em Bungu ou em alguma cidade muggle, como Luanda (havia uma rede de floo a partir de Bungu para chegar até lá). A questão é que apenas as pessoas que conseguiam emprego ou comercializavam alguma coisa nas cidades é que tinham tais recursos. Todo resto (a maioria) sobrevivia com o que o campo era capaz de oferecer. Lily tinha algum dinheiro que era enviado de tempos em tempos pelos pais. Conferiu as escalas das equipes de limpeza formada por voluntários. Parecia que estava tudo em ordem naquele dia. Ela própria deveria trabalhar no recolhimento do lixo orgânico daquele dia e leva-lo até a lavoura do "tio" Neville, que transformaria tudo em adubo, num processo que levava algumas semanas com a aceleração mágica. Não era um trabalho tão penoso assim quando realizado ao toque de mágica da varinha.
Observou a noiva já se preparando para dar os treinamentos de defesa contra arte das trevas. Passou para o prédio do depósito para começar o controle semanal de estoque. A comida estava chegando ao fim antes do prazo previsto, o que poderia significar um racionamento forçado por um dia ou dois. Significava também que em vez de duas refeições, só poderia ser fornecida apenas uma e esta seria peixe ou carne de sol com pão. Lily sempre ouviu o ditado que sempre se está a uma refeição da anarquia. Por mais que existisse a política de deixar as pessoas tentarem seguir adiante e reencontrar a independência, havia se criado dentro do acampamento uma espécie de estado regulador, um ministério da magia que gerenciava um microcosmo, com característica sócio-tribal, que estava se tornando difícil de administrar.
Lily fazia a lista do que seria necessário para o campo e depois enviaria para a confederação africana e aos órgãos internacionais. Enquanto anotava, ouviu um ruído. Parou e prestou atenção. Silêncio. Voltou ao trabalho, desta vez pegando a varinha e controlando a caneta por um encantamento. Caneta e papel flutuavam enquanto Lily ditava a lista. Ouviu mais uma vez um ruído atípico e viu um movimento pela visão periférica.
"Protego horribilis." Ela conjurou bem a tempo de se defender de um ataque.
O agressor se revelou e avançou contra ela, que fez o melhor para se defender e contra-atacar. Mas havia dois deles. O segundo não a atingiu por muito pouco. Lily precisou se defender dos estilhaços de sementes e das prateleiras de madeira. Conjurou protego mais uma vez enquanto tentava escapar. Derrubou uma das prateleiras sobre um dos agressores que não lhe dava trégua e ganhou tempo para ficar frente a frente com o outro. Conjurou expelliarmus sem verbalizar e, em seguida, o estupefaça. Menos um. O outro bruxo tinha se livrado da estante e a atingiu. Lily sentiu o seu corpo voar contra uma das estantes e pensou sinceramente que poderia ser o fim.
"Estupefaça." Um terceiro elemento conjurou.
Eram Marley e Finn que nocautearam o segundo agressor.
"O que aconteceu aqui?" Finn estava assustado.
"Nos descobriram, é óbvio." Lily disse irritada, ainda no chão.
"Amarre os dois." Marley ordenou Finn enquanto correu para ajudar Lily. Ela tentou levantá-la pelo braço, mas Lily se recusou.
"Espere." Disse sentindo a dor da pancada nas costas. Ela imediatamente levou a mão ao ventre e foi se movimentando aos poucos, para assegurar de que nada estava errado, apesar do duelo.
Nesse meio tempo, chegaram também Albus e Drimi.
"Lil!" Ele ficou assustado ao ver a irmã grávida sentada no chão em meio a prateleiras caídas, grãos espalhados, fumaça de farinha e estilhaços.
"Calma! Eu estou bem!" Lily gesticulou para que o irmão não fosse para cima dela. "Marley, agora eu quero a sua ajuda, se puder."
Marley estendeu as duas mãos e Lily finalmente ficou de pé novamente. Lily se aproximou de um dos agressores já amarrados com correntes conjuradas.
"Não reconheço nenhum desses caras."
Nesse meio tempo, Santana chegou acompanhada de Charles Danvers. Ficou pálida e meio enjoada quando viu o cenário.
"O que aconteceu?"
"O campo foi comprometido." Lily respondeu. "Eles me atacaram."
Santana sentiu-se ainda pior. Ficou ainda mais nervosa e apreensiva do que a noiva, que havia sofrido o ataque.
"Você..."
"Eu estou bem, Lopez." Lily a cortou, impedindo que o dramalhão se estabelecesse. Ela só chamava a noiva pelo sobrenome quando estava realmente irritada ou nervosa. "Não consigo reconhecer nenhum desses caras. Sou boa fisionomista e não sei quem são."
"Eles devem ser a linha de frente de Evans." Albus ponderou. "Devem ter chegado junto com os refugiados mais recentes."
"São só os dois?" Finn questionou.
"Quero uma força tarefa agora." Santana ordenou. "Albus, leve Finn, Danvers e Drimi contigo, pegue mais alguns do time de policiamento. Quero todos que chegaram na última leva reunidos e isolados, vasculhem todos os pertences. Pente fino! Marley, por favor acompanhe Lily até Padma."
"Não precisa!" Lily esbravejou.
"Acompanhe Lily para que Padma faça uma checagem nela. Esses dois ficam..."
Todos abaixaram as cabeças ao ouvir um estrondo muito próximo. Correram para fora e ficaram chocados ao ver que o prédio dos dormitórios estava em chamas. Santana ficou atônita. Ouviu uma terceira explosão que derrubou a torre de observação. Em meio ao pânico generalizado, entre pessoas correndo para todos os lados, Santana também ficou perdida por um segundo. O prédio do refeitório foi o próximo a explodir.
"Fiquem aqui!" Santana ordenou.
Ela fez um movimento com a varinha de núcleo de grifo e, de repente, artefatos foram descolados das paredes do prédio do depósito e vieram em direção ao grupo. Com outro movimento com a varinha, Santana arremessou os artefatos para cima, bem a tempo de explodirem 40 metros acima de onde estavam. O impacto levou todos ao chão.
"Lily!" Santana gritou.
"Estou bem!" A noiva respondeu.
"Voltem para o depósito!" Santana ordenou quando o prédio dos sanitários e a enfermaria também explodiram. Tudo foi pelos ares. Entre gritos e o caos, a fumaça e o fogo resultantes da explosão das estruturas fixas do campo foram sendo modelados ao formato da marca negra, que só havia sido vista pela última vez há décadas durante a segunda guerra bruxo. Quase que imediatamente após a marca negra fixada, death eaters tomaram os céus em voos rasantes com vassouras, atacando o campo de forma indiscriminada, incendiando as tendas.
Santana se levantou em meio a poeira e a fumaça. Era tanta informação, que sua mente passou a trabalhar mais por instinto e menos com a racionalização. Viu um dos death eaters se aproximarem rápido e não pensou duas vezes. Com um sutil toque de varinha, uma vassoura que estava no depósito poupado veio até a sua mão. Se ela era o hipogrifo, estava na hora de voar.
"Confringo!" Santana conjurou com a varinha antes da ação do death eater e conseguiu derrubá-lo.
Restavam mais duas vassouras, que foram pegas por Drimi e por Danvers. O trio fez a primeira resistência, usando a habilidade diferenciada adquirida no quadribol para voar melhor e atacar com eficiência. Enquanto isso, os demais no solo se organizavam.
"Vocês fiquem com Lily." Albus ordenou a Finn e Marley. Como viu todos desorganizados, colocou a varinha na ponta da garganta para amplificar a voz e correu acampamento adentro. "Formação de emergência! Formação de emergência!"
Os refugiados, especialmente os mais antigos, recebiam pequenos treinamentos e orientações em caso de ataque. O ataque surpresa fez com que aquela população ficasse desorientada, mas bastou ouvir a voz conhecida de comando de Albus para muitos voltarem a realidade. As pessoas que tinham um pouco de liderança naquela esfera hierárquica passaram a agir conforme o treinado e a organizar os demais. Algumas pessoas se encarregaram de correr com as crianças em direção a floresta, outras controlavam magicamente o incêndio, enquanto outro grupo auxiliava no combate.
Santana e os companheiros, já recebendo o auxílio por terra, derrubavam Death eater por death eater em combates acrobáticos em cima das vassouras. Santana não estava se segurando. Não usava a maldição imperdoável da morte, mas também não estava preocupada se iria ferir mortalmente os adversários com o repertório de feitiços de duelos que conhecia. E a lista era vasta. Santana atacava ora destruindo as vassouras, ora derrubando o oponente, ora o atingindo com um feitiço de ataque certeiro. Drimi e Danvers também faziam o que podiam, sendo que Danvers, vendo a fúria com que Santana eliminava os death eaters, achou que seria mais eficiente se ele acompanhasse a líder e conjurasse as proteções para que ela não fosse atingida.
Um dos death eaters voou em alta velocidade em direção a Marley, Finn e Lily. Finn segurou Lily e a puxou para fora do caminho, enquanto Marley se encarregou do feitiço de proteção, formando uma barreira provisória ao redor dos três. O death eater insistiu. Marley defendeu os três mais uma vez. Foi Lily, ainda nos braços de Finn, quem atacou.
"Confringo!"
O death eater voou da vassoura e caiu rolando no chão próximo de onde o trio estava. Finn foi até o agressor desmaiado e retirou a máscara. Ficou surpreso em ver que aquele death eater era um dos refugiados que chegou há duas semanas. Finn ficou encarregado em instalar e mostrar o campo ao grupo. Lembrou-se que ficou entusiasmado quando soube que aquele homem era torcedor Appleby Arrows, assim como ele.
"O que vamos fazer com ele?" Finn perguntou para Marley e Lily, que se aproximaram.
"Conjure a corrente para amarrá-lo." Lily ordenou. "Algo me diz que não vão sobrar muito deles para fazermos perguntas depois."
Lily olhou para o céu a tempo de testemunhar os últimos death eaters serem derrubados. Dois por conta da ação do ataque de Santana e outro que foi derrubado por um ataque feito em terra. O céu ficou limpo, exceto pela marca negra que ainda persistia entre o fogo e a fumaça. Lily apontou a varinha para a imagem da caveira e a furou. Marley entendeu o gesto e reforçou. As duas trabalharam juntas para remover o símbolo abominável dos céus.
Santana pousou nesse meio tempo. Largou a vassoura para trás e procurou abraçar a noiva.
"Vocês estão bem?" Disse se referindo a Lily e a filha no ventre.
"Estamos. Você está bem?"
Santana apenas balançou a cabeça negativamente. As duas se abraçaram.
...
O reparo mágico era possível quando o objeto foi quebrado por força de algum impacto. A garrafa que caiu no chão era reparável. O muro destruído pelo impacto de alguma magia podia ser reparado também com magia. Mas coisas destruídas pelo fogo não podiam ser recuperadas. O campo de refugiados fazia a contabilidade do prejuízo horas depois do ataque. Foram 68 mortes causadas pelo ataque de 18 death eaters que se infiltraram no campo. Dois foram mortos em consequência dos ferimentos e da queda no combate aéreo com Santana. Dezessete foram mortos pela raiva popular. Dois sobreviveram para serem interrogados.
Entre os mortos, houve muita dor e comoção quando descobriram que o jovial e talentoso Hugo Granger-Weasley estava entre as fatalidades. Ele estava dentro dos dormitórios, o primeiro prédio a explodir, e pereceu embaixo dos escombros. Marley, a namorada, estava inconsolável, tal como os primos Albus e Lily, além dos amigos próximos, em especial Lysander.
O número de feridos chegava a 240: a maioria apresentava cortes, queimaduras e quadros de intoxicação pela fumaça. Padma estava apurada. O prédio sobrevivente transformou-se numa enfermaria inadequada. Ela tinha a ajuda dos medibruxos que chegaram de Bungu, porém, por mais que a população da cidade tenha ficado comovida com o ataque ao incômodo campo de refugiados, ainda pesava a questão da cidade não dispor recursos para atender tanta gente ferida. Padma e os medibruxos moveram os sete feridos mais graves para o hospital da cidade, outros que mereciam mais cuidados estavam de forma improvisada no prédio sobrevivente. O restante estava deitado em lonas e lençóis a céu aberto, esperando que medibruxos e voluntários pudessem fazer o melhor trabalho possível.
Nenhum prédio pode ser reparado com magia. Foram detonados com bombas-relógio de fabricação muggle. Viraram escombros permanentes. Também foram queimadas 27 tendas, fazendo famílias inteiras perderem em definitivo todas as lembranças e bens materiais que lhes restavam.
Santana estava em uma das tendas, participando das com o presidente da Angola e o chanceler dos países do sul da África. Falavam de remover o campo para algum lugar na África do Sul, perto de da fronteira com Lesoto. Havia a possibilidade até mesmo de dividi-lo, sendo que um segundo campo seria instalado na Namíbia. Ela saiu da tenda quando pensou que a reunião estivesse encerrada, sem ouvir dos líderes uma resposta definitiva para o problema imediato. Política era frustrante. Mesmo se levantando em silêncio e sem alarde, chamou a atenção dos outros líderes a ponto de fazê-los parar para saudá-la.
Santana andou entre os refugiados, passou rapidamente perto do espaço improvisado em que os feridos estavam em tratamento. Tudo aquilo lhe cortava o coração.
"Lopez!" Uma voz masculina chamou a atenção dela. Foi quando Santana se deu conta que quase todos os refugiados restantes a cercavam. "Lopez! O que vai fazer agora?"
Santana olhou para o rosto daquelas pessoas. Era gente que estava suja de poeira e de fuligem e que, acima de tudo, tinha uma fúria no olhar apesar do luto.
"Eu vou voltar para a Europa, vou acertar as contas com aquele filho de uma puta e vou retomar o que é nosso. É isso que eu vou fazer. Chega de ficarmos acuados, aceitando as monstruosidades desses usurpadores."
"Isso parece muito irresponsável, San." Finn deu um passo a frente e ficou diante da colega.
"Deixa eu adivinhar: você me dizer que eu não posso me expor e todas essas besteiras."
"Não... o que quero dizer é que isso parece muito irresponsável, é quase um suicídio. Mas eu estou do seu lado e vou te acompanhar até o fim. É para isso que eu vim."
Adila Amandi conjurou uma imagem de um hipogrifo em cima da fumaça que ainda saía do campo. Era pálido, mas cheio de simbolismos. Santana olhou para cima e viu a imagem frágil do hipogrifo. Não estava certo. Um animal imponente e nobre, cujo simbolismo era lealdade e bravura, não poderia parecer assim. Pensou em Lily. Pensou não numa lembrança feliz, mas imaginou uma desejada situação futura de ela com a filha nos braços ao lado da noiva. O coração dela encheu-se de amor.
"Expecto Patronum!"
Uma fortíssima luz prateada saiu da ponta da varinha de ébano e núcleo de grifo. Um hipogrifo imenso foi formado e o patrono começou a voar majestoso sob o campo, como se fosse real.
Lily olhava para o céu. Viu o magnífico hipogrifo cavalgar entre as nuvens, mas ela não ficou impressionada. Estava sentada sob uma maca improvisada, sendo observada atentamente por Padma, que estava preocupada se o estresse colocou a gravidez de Lily em risco. Lily não conseguia se impressionar com nada, estava vazia. Ela observava Marley chorar sozinha principalmente por causa da morte do namorado. Hugo era uma luz no mundo, um talento destinado ao grande público, e aquela maldita guerra interrompeu a trajetória dele. Pensou no que iriam dizer a Hermione, Rose e ao tio Ron?
Santana sentou-se ao seu lado. Não disse uma palavra. Apenas ficou ao lado da noiva e permitiu que Lily se apoiasse. Santana a abraçou, ainda em silêncio, sentindo a destruição, as mortes e os feridos.
"Lily precisa ir embora o mais rápido possível." O casal foi surpreendido por Neville, que estava acompanhado de Albus, Adila e Ebo.
"Para onde?" Santana perguntou.
"Estados Unidos. Harry vai entrar com um acordo de exílio político e proteção para Lily."
"É o melhor a ser feito. Minha mãe e Rachel podem ficar com você." Santana concordou sem hesitar.
"Você não vai comigo?" Lily perguntou chorosa.
"Eu não posso. Eu preciso acabar com essa guerra. Adila e Ebo, vocês precisam nos ajudar a reconduzir as pessoas para um novo campo. Albus e Neville, vocês vão me ajudar a recrutar aqueles que quiserem me acompanhar para lutar."
"Sobre isso, Albus e eu tivemos uma ideia que pode facilitar a sua entrada na Europa." Neville especulou.
"Qual?" Santana perguntou.
"Vamos declarar que você morreu no ataque."
"Essa mentira não pode ir muito longe, Longbottom. Há mil testemunhas aqui que podem dizer que eu estou viva." Santana ponderou.
"Eu sei disso, mas essa mentira vai permitir que a gente consiga fazer o primeiro movimento ofensivo com mais facilidade. É a brecha e a oportunidade que precisamos."
"Por esse ângulo, até que não parece ser uma ideia terrível." Santana aprovou o plano. Depois, virou-se para Lily e a beijou na bochecha.
"Tudo vai ficar bem, babe. Você e a nossa menina ficarão bem."
...
Quinn tinha perdido a noção do tempo. Estava numa cela fria que não tinha nada além de um prato de plástico com comida e um copo de água. Estava se sentindo terrivelmente só, abandonada, fracassada. Samuel entrou e ficou diante dela com uma garrafa de champanhe e duas taças. Sorriu.
"Como prometido, vim comemorar."
"Você não a matou."
"Veja por você mesma."
Samuel entregou a Quinn uma foto em movimento de alguém que se parecia muito com Santana morta no chão de terra batido. Ela estava ao lado de uma garota que parecia ser Marley, mas não era possível ter certeza. Mas Lily chorando ao lado do suposto corpo de Santana era reconhecível. Tratava-se de uma foto "oficial" fabricada pelo governo Angolano especialmente para tentar ludibriar as organizações europeias. Afinal: a Confederação Africana não poderia mentir sobre uma informação daquelas ou, indiretamente, estaria declarando guerra à Europa.
"Não é verdade."
"Santana Lopez morreu na África, e a sua luta perdeu o fundamento. É hora de comemorar. Você pode vir livremente, pode escolher estar sob a maldição de império, ou podemos fazer do jeito em que eu te machuco. De qualquer maneira, eu vou ter exatamente o que quero."
Quinn fechou os olhos e realmente ponderou as opções que tinha. Sobreviver ou ser corajosa, eis a questão. Quis chorar, mas jurou que jamais daria esse prazer ao lorde das trevas. Encarou Samuel e fez a escolha.
