Aqui está o penúltimo capítulo desta história... Como foi escrito depois do último capítulo, algumas das referências só fazem completo sentido depois de se ler esse e é também por isso que vou postar os dois ao mesmo tempo.


Conversas entre Malfoys

Desde o incidente no jogo de Quidditch e a consequente descoberta, que Scorpius não tinha notícias de casa. Por isso, ao desembarcar do comboio naquela noite de Junho, estava receoso de não encontrar ninguém à sua espera.

Rose e Albus caminhavam a seu lado quando alcançaram os Weasleys e os Potters, que os esperavam. Afastando-se do rapaz, Albus abraçou os pais, com uma relutante Rose a segui-lo. Scorpius podia ver como esta fixava o chão, em vez dos olhos dos pais.

- Rosie! - exclamou subitamente Ron, ao ver algo brilhante cair pela face da filha. Rodeando-lhe o corpo com dois braços fortes, puxou-a contra si. A rapariga enterrou o rosto no peito do pai e agarrou-o com força.

- Shh... - murmurava Ron, enquanto lhe fazia festas no cabelo - Desculpa ter reagido daquela forma, mas por favor, pára de chorar. Sabes que se o papá te vê a chorar não aguenta - Hermione teve uma vontade súbita de rir ao ver Ron derreter-se totalmente. E dizia ele que quando a visse lhe diria das boas. Ele simplesmente amava-a demasiado para alguma se zangar seriamente com a filha, mesmo que esta lhe desse netinhos Malfoy.

- Pai, eu amo-o - murmurou Rose, contra o casaco do pai, fazendo o som sair abafado. Ron afastou-a, um pouco, para lhe observar a expressão. Os seus olhos brilhavam com um fogo que Ron nunca lhe tinha visto, as lágrimas estavam esquecidas e agora determinação era tudo o que brilhava na face da filha. Por momentos ficou sem ar, já não era a sua filhinha que chorava quando via um dos primos mais velhos a soltar um gnomo pelo ar, ou que caminhava pela casa com o nariz enfiado no velho livro de Hermione de Beedle, o Bardo. Não, a pessoa que estava à sua frente era simultaneamente uma estranha e uma pessoa muito amada, não era mais uma criança e sim uma mulher que queria ser independente de escolher o seu caminho e naquele momento nunca mãe e filha foram tão semelhantes.

- Rose... - começou Ron, olhando fixamente para ela - Convida o Malfoy para passar uma semana na casa dos avós...

Os olhos de Rose iluminaram-se e dando um rápido abraço ao pai, afastou-se a correr na direcção do loiro solitário encostado a uma parede perto dali.

- Vamos lá ver de que estofo ele é feito... - disse Ron, para si mesmo, mas não teve tempo de fazer qualquer comentário em voz alta, quando a boca de Hermione se colou à sua.

- Ugh! - reagiu Hugo, olhando ultrajado para os pais - Arranjem um quarto.

Hermione afastou-se do marido, corada, mas encostando os lábios ao seu ouvido, sussurrou-lhe " é por isso que te amo". Ron olhou-a de forma sonhadora e por uma vez, quando os seus olhos cairam sobre o par de cabeças de cor contrastante, não se enrugaram de frustração e raiva.


- Que bom, Rose... - murmurou Scorpius, sem verdadeiro entusiasmo, quando a namorada o informou sobre o convite feito. Esta notou pelo seu tom de voz que ele não estava bem e colocando-lhe uma mão acolhedora sobre o braço, sorriu-lhe solidariamente.

- Eu só queria que eles não se sentissem desiludidos comigo... - confessou Scorpius, apos alguns momentos em silêncio.

- Se forem racionais isso será algo impossivel de acontecer - afirmou Rose, peremptoriamente, agarrando-lhe a mão e apertando-a com força.

- Eu nem sei se eles me vêm buscar... - retorquiu Scorpius, agitado.

- Algo me diz que não precisas de te preocupar com isso...

- O quê...

- Scorpius! - chamou uma voz feminina e o rapaz virou-se instantaneamente.

- Boa noite, Rose - cumprimentou Astoria, dando-lhe um delicado abraço, que deixou a rapariga congelada.

- B-boa noite, Mrs. Malfoy - gaguejou Rose, olhando para a mulher com os olhos arregalados.

- Vamos, Scorpius? - inquiriu a mulher mais velha, com naturalidade.

O rapaz abanou a cabeca que sim e virando-se viu Rose formar com a boca as palavras "Boa sorte" e "escreve-me!", sem no entanto libertar qualquer som. Scorpius piscou-lhe o olho e apressou-se a seguir a mãe.

Ao chegar à zona de aparição, o jovem Malfoy deparou-se com o seu pai, num longo manto negro e com o seu tradicional aspecto distante. Os seus olhos cairam sobre o filho e por momentos uma ruga formou-se ao canto da sua boca, como se este estivesse a morder o seu interior para evitar proferir qualquer som.

Astoria suspirou ao lado de Scorpius e colocando-lhe uma mão no ombro, ambos desapareceram em conjunto.

A mansão Malfoy erguia-se imponente, tal como Scorpius se recordava, mas nunca tinha tido memória de se sentir tão desconfortável como naquele momento, em que seguia as passadas do pai. Atrás de si, Astoria ia dando ordens aos elfos domésticos para prepararem o jantar, todos eles com elegantes toalhas de chá com o brasão dos Malfoy. Scorpius reparou neste pormenor e lembrando-se do que Rose lhe explicara recentemente sobre o trabalho da mãe enquanto chefe de Departamento da Lei Mágica e criadora da Secção de Defesa e Regulação dos Direitos dos Elfos, não pôde deixar de sorrir ao de leve.

Draco Malfoy olhou para trás e semicerrou os olhos ao ver o filho a sorrir do nada. Quando o rapaz reparou no seu olhar apressou-se a adquirir uma expressão que se esperava de alguém à beira de um moribundo. Fazendo-lhe um gesto para o seguir, dirigiu-se à biblioteca, de onde teve de espantar a filha que lia, entretida, um enorme livro sobre criaturas mágicas. Escusado será dizer que os protestos de Elise ecoaram por toda a casa, até o pai lhe lançar um olhar sério e lhe fechar a porta na cara. Scorpius engoliu em seco: nunca vira o pai tão mal disposto, nem mesmo quando este afirmara que Albus Potter era o seu melhor amigo ou quando tentara alimentar a irmã com a comida do gato.

- Scorpius, senta-te por favor - pediu Draco, indicando uma cadeira em frente à lareira vazia e escura.

- Pai... - comecou Scorpius, mas este fez-lhe um sinal com a mão para se calar.

- Scorpius - disse Draco, numa voz grave - porque é que mentiste e nos enganaste desta forma? Pensava que a nossa família merecia o teu respeito...

O rapaz ficou a olhar para o pai sem saber bem o que dizer. Demorou alguns momentos a organizar os pensamentos, até que se levantou da cadeira e começou a marchar pela sala.

- Começou tudo na primeira semana... - iniciou Scorpius a sua narrativa, que iria ocupar o tempo do pai durante as 2 horas seguintes, concluindo no momento da descoberta, após o jogo.

- Percebes agora, pai, que eu não posso simplesmente escolher entre a minha família e a Rose? Ela também é parte de mim, da minha família! Ela faz-me querer ser melhor para merecer tudo o que ela me dá! A Rose consegue aguentar o meu mau feitio e arrogância e eu adoro quando ela é sabichona, nós conseguimos equilibrar-nos! Por amor a Merlin, ela enfrentou toda a equipa dos Slytherin, para não falar de toda a escola! E se não consegues compreender porque não consigo viver sem ela, então é melhor nem desfazer as malas! - rematou Scorpius, num tom ofegante e com o rosto afogueado.

Draco usava uma expressão pensativa no rosto, enquanto observava o filho através dos seus olhos cinzentos.

- Scorpius, acho que é tarde demais para tomares qualquer decisão precipitada. É melhor irmos jantar e amanhã, quando tiver pensado sobre o assunto falaremos... - e com um gesto de cabeça, indicou ao filho que este deveria sair.

Scorpius aguentou o olhar firme do pai durante v´srios momentos, mas sabendo que não tiraria qualquer beneficio disso, acabou por baixar o rosto e sair da biblioteca. Alguns momentos depois, a porta reabriu e Draco nem teve de levantar os olhos do chão para saber quem era.

- Ouviste a conversa toda? - perguntou ele.

- Indubitavelmente - respondeu Astoria, por sua vez.

Draco suspirou e apoiando a cabeça nas mãos e os cotovelos nos joelhos, começou a falar.

- Não sei o lhe ensinámos para ele se ter comportado assim...

- Draco, estás a falar do seu comportamento por nos ter escondido um namoro, o que num jovem de 17 anos é totalmente normal, ou por ele ter-se apaixonado pela filha do teu pior inimigo? - perguntou Astoria, sem preâmbulos.

Draco olhou para ela e voltando a suspirar, murmurou "Apanhas-te-me".

- Já te disse milhares de vezes desde o dia em que regressámos do jogo que não podes transferir os teus ódios de estimação para os teus filhos! Qual é o problema do Scorpius estar apaixonado pela Rose? Ela gosta dele e aceita-o, com todos os seus defeitos e qualidades, e cá para mim, neste momento, o maior defeito do Scorpius é ter-te como pai! - e com esta tirada, Astoria rodou nos seus saltos altos e saiu da biblioteca, deixando um Draco aparvalhado, atrás de si.

O jantar estava a tornar-se um momento incomodativo, quando Elise, sentindo a tensão que pairava no ar, se virou para o irmão.

- Mano, o que é que fizeste de mal? - perguntou ela, na sua inocente voz de criança.

- Ise... - advertiu a mãe.

- O mano apaixonou-se pela Rose Weasley - respondeu Scorpius, num tom sorumbático.

A boca de Elise adquiriu uma forma arredondada e então, a menina deu um salto e lançou os braços ao pescoço do irmão.

- Ela é tão bonita! - exclamou Elise, rindo, o que acabou por contagiar Scorpius e o fez soltar uma risada. No entanto, ao ver o olhar do pai, apressou-se a baixar os olhos. Sentia dentro de si a crescer uma raiva que podia adivinhar ir explodir a qualquer momento.

Ao ouvir o pai admoestar a irmã para se sentar e se comportar, bateu com os punhos na mesa e afastou a cadeira com um estrondo. Apanhou o olhar surpreendido do elfo doméstico, antes deste sair rapidamente da sala.

- Scorpiu, volta a sentar-te. Ainda não acabámos a refeição! - ordenou Draco, olhando fixamente para o filho.

- Não! - exclamou Scorpius. Todo ele tremia e uma cor rosada ia-se insurgindo nas suas faces.

- Estou farto de ser tratado como uma criança! Tenho direito a fazer as minhas escolhas e se quando disse que saíria de casa, o pai me impediu, então agora nem sequer tente! Não consigo passar mais um momento a imaginar os comentários que está a pensar em dizer ou como irá criticar a Rose! Caraças, até o Ron Weasley deixou de lado o preconceito para ver a filha feliz! No entanto, isso deve ser um traço dos traidores de sangue, tal como o pai diria com nojo, não é verdade? Pois bem, sabe o que lhe respondo? Preferia mil vezes ser um desses traidores de sangue do que filho de um homem que coloca os seus ódios pessoais à frente da felicidade dos filhos! - e com isto, Scorpius saiu da sala de jantar, com passadas pesadas. Correu para o quarto e pegando na sua velha mala, enfiou ao calhas um monte de roupas para la. Escrevinhou à pressa um bilhete para a mãe e desapareceu.


- Mãe, onde está o meu equipamento de Quidditch? - a voz de Albus Potter flutuava pelo ar de Verão, quando uma campainha começou a soar pelo edificio.

- Albus, vai ver quem Apareceu, por favor - pediu Ginny, enquanto o filho barafustava.

- Mas continuo sem saber do meu equipamento! Aposto que foi o... - e abrindo a porta, Albus estacou - Scorpius!

- O Scorpius roubou-te o equipamento? Isso é mais do género do Ja...

- Não, mãe, foi o Scorpius que Apareceu - disse Al, virando-se para encarar a mãe. Tornou a encaminhar-se para a sua anterior posição, no meio da cozinha, em busca do equipamento, quando de repente, reparou que o amigo não o seguira.

- Scorp, passa-se alguma coisa? - perguntou ele, observando a forma como o amigo se posicionava e de repente os seus olhos cairam na mala que este transportava - O que... Oh! - algo na expressão ferida do Malfoy tornou a pergunta desnecessária.

- Mãe, posso ir mandar preparar o quarto de hóspedes para o Scorpius? - berrou Al, pelo que Ginny apareceu com uma expressão zangada, na cozinha.

- Não grites comigo, meu menino! E já agora, não sabia que o Scorpius vinha. Não era para ir passar um tempo a casa, antes de irmos à Toca? - inquiriu Ginny, confusa.

- Hum... pois... - começou Scorpius, enquanto arrastava os pés sem sair do lugar - Eu e o meu pai tivemos um desentendimento quanto à minha vida pessoal e achei melhor que por uns tempos não estivéssemos nas proximidades um do outro... Mas se houver problema em ficar, eu posso arranjar outro sítio, não há problema, aliás, eu posso ir ter já com o Charles e...

- Scorpius - interrompeu Ginny, colocando-lhe a mão no ombro - Que diria a Rose se soubesse que eu colocara na rua o seu futuro marido? - Scorpius corou e Albus riu-se à gargalhada, dando uma palmadinha conspiratória na mãe.

- Hum, obrigado Mrs. Potter - retorquiu Scorpius, atrapalhado. Ainda com um sorriso, Albus indicou ao amigo, onde ficava o seu quarto, sem antes este olhar para Ginny, muito sério e pedir-lhe - Por favor, ãconte à Rose o motivo de eu estar cá... Não quero que ela se sinta culpada...

Ginny anuiu e foi com um peso no peito, que viu os dois rapazes desaparecerem para lá das escadas.


- Achas mesmo que não nos devemos intrometer? - perguntou Ginny.

- Sim - respondeu Hermione, com uma expressão circunspecta - Eu bem sei o que tive de ouvir do Ron e é ele um derretido pela filha, por isso posso imaginar o que o altivo Draco Malfoy deve estar neste momento a dizer.

Hermione passara, era quase meia-noite, pela casa dos Potter, para ir buscar alguns documentos do departamento de lei mágica com que Harry ficara, quando se deparara com a expressão séria dos amigos.

- Sim, mas aposto que mesmo o Malfoy se deve sentir mal por o filho ter saído de casa... - comentou Harry, lembrando a reunião que tivera com McGonagall após o fatidico passeio a Hogsmeade.

- O que eu sei é que o melhor é não dizer nada à Rose, por enquanto, senão o mais provável é ela própria ir até à casa dos Malfoy para pedir satisfações - afirmou Hermione e apesar dos Potter se rirem, ela estava deveras a falar a sério: conhecendo a filha como a conhecia, ela era, sem dúvida, capaz de tal proeza.

- Boa noite Mrs. Weasley - disse subitamente uma voz por detrás dos adultos. Virando-se, viram Scorpius no meio da sala, com uma expressão desconfortável.

- Boa noite Scorpius - retorquiu Hermione e levantando-se devagar, começou a juntar as suas coisas. Aproximou-se de Scorpius, que viera buscar a mala que ficara no andar abaixo do seu quarto, e deu-lhe subitamente um abraço, que deixou o rapaz petrificado.

"Vai-se tudo resolver e não te preocupes, que eu não digo à Rose o que se passou. Estás a ver, sempre soube que eras tu!" - murmurou ela, enquanto o abraço durou.

Atrás de si, ouviu Mr. Potter rir e comentar "Os abraços da Hermione até faziam o Voldemort encolher-se!"


O dia amanheceu claro e com uma leve aragem que fazia palpitar o relvado em frente à mansão Malfoy. No entanto, o humor na casa não podia ser mais contrastante: Elise chorara ao descobrir que o irmão saíra de casa e só nas primeiras horas da madrugada finalmente adormecera, com a mãe firmemente a seu lado; Astoria recusava-se a falar com o marido e este resumira-se a ficar sentado na biblioteca, em frente à sua secretária e com um olhar pesado, durante toda a noite.

- Mr. Malfoy, senhor - guinchou a voz de um dos elfos domésticos à porta da biblioteca.

- Que foi? - perguntou ele, subitamente, pensando que pudesse ser o seu filho, que regressava.

- Mr. Zabini está aqui para falar com o amo...

Draco suspirou e dando ordem para permitirem a entrada, caiu pesadamente sobre a cadeira.

- Bom dia, Malfoy! - cumprimentou um homem corpulento, com uma barba rala castanha. Atrás de si vinha um jovem de cabelo castanho e ar travesso.

- Oh, Zabini e o jovem Charles! - exclamou Malfoy, fingindo alegria.

- Mr. Malfoy - retorquiu Charles - O Scorpius está em casa?

- Não, lamento, ele saiu bem cedo - respondeu Draco, não querendo que estranhos à casa tivessem conhecimento do que acontecera.

- Aposto que foi ver a namorada! - afirmou Mr. Zabini, com um ar entendido - O meu Charles contou-me o que aconteceu... Namorado da filha do vice-chefe do departamento dos Aurors e muito rico, por sinal. Bela apanha que o jovem Scorpius fez!

- Mas aposto que o Scorpius não pensou em nada disso... - apressou-se a acrescentar - E pelo que o Charles me contou, a rapariga também tem genica, com aquele discurso e tudo...

- Discurso? - retorquiu Draco, confuso.

- Sim, o Scorpius não lhe contou o que a Weasley fez durante o almoço a seguir ao jogo? - perguntou Charles.

- Não, apenas me disse que ela fez frente à vossa equipa e à escola, mas supus que se devesse a ter começado uma relação com o meu filho... - disse Draco, pensativo.

- Não, ela levantou-se da mesa dela, veio até à nossa beijou o Scorpius e começou este mega discurso, a dizer que ele era um magnífico capitão e que deixara de comer e dormir a pensar no jogo... Ah, e que deviamos parar de julgar os outros porque era o que tinha originado as duas guerras e que era possível eles os dois colocarem isso de lado e serem felizes. E então a velha McGonagall levantou-se e começou a bater palmas e a partir daí foi contagioso... A verdade é que mesmo sendo uma meio-sangue, aquela miúda tem algo de cativante... - concluiu Charles. Ele não era idiota ao ponto de não perceber que muito provavelmente o amigo saíra de casa e estava a acalmar-se na casa dos Potter ou dos Weasley, então, porque não favorecer as coisas para o lado do seu companheiro de infância? Afinal, ele podia ser um Slytherin, mas concordava com tudo o que Rose defendera. Talvez fosse realmente tempo de se ultrapassar as velhas quezílias...

Draco fixava o olhar em Charles, enquanto a sua mente ia absorvendo as informações. Se a rapariga dissera mesmo aquilo, então não podia ser assim tão má... E o seu filho amava-a, disso ele não tinha dúvidas... Conseguiria ele ultrapassar também os velhos ódios? Bom, ser amigo do Weasley nunca, no máximo dos máximos poderia tolerá-lo, desde que este mantivesse a distância... Sim, talvez tentasse ver a situação por outro prisma...

- Malfoy! Estás a ouvir? - insurgiu-se de repente a voz de Mr. Zabini, nos seus pensamentos.

- Desculpa, mas tenho de tratar de um assunto urgente! - desculpou-se Malfoy e saindo a correr da biblioteca, deixou dois Zabinis muito surpreendidos atrás de si.


Scorpius não pregara olho em toda a noite, por isso, quando às nove da manhã, Mrs. Potter o foi avisar de que tinha uma visita, encontrou-o completamente vestido e sentado numa cadeira ao lado da janela.

O rapaz levantou-se e esperando encontrar Rose, à sua espera, ficou deveras surpreendido ao deparar-se com o pai. Este estava de braços cruzados, no exterior da casa, parecendo incrivelmente desconfortável. Mr. Potter estava indolentemente encostado à bancada da cozinha e por vezes lançava um olhar ao pai de Scorpius, por entre dentadas na sua pilha de torradas.

- Pai? - chamou Scorpius, fazendo o olhar deste recair sobre si - Que faz aqui?

- Scorpius! - exclamou ele, ficando aliviado ao ver que o filho se encontrava bem - Precisamos de falar!

O rapaz enrijeceu os ombros e endireitou as costas, mostrando a altura superior à do pai e não pôde deixar de reparar no riso sufocado que veio da zona onde Mr. Potter estava.

Ao saírem para o exterior, Scorpius conduziu o pai para o mais longe possível da casa. Não queria que caso voltassem a discutir os Potter assistissem. Finalmente, chegando ao portão de saída da propriedade, parou.

- Scorpius, eu...

- Não, pai, agora é a minha vez de falar. Sei que foi errado sair de casa, que vos magoei ao fazê-lo, mas se não saísse acabaria por dizer ou fazer algo por não estar a pensar racionalmente. Mas, algo lhe garanto, não é por ter acedido a falar consigo que tudo o que lhe disse na biblioteca deixou de ser verdade... A Rose e eu pertencemos juntos! Se lhe desse uma oportunidade… ela é brilhante e gosta de expor as suas ideias, tenho a certeza que teriam conversas que me deixariam sem palavras... Por favor, não me obrigue a escolher entre as duas coisas que mais amo no mundo! - Scorpius sentia os olhos a picar, mas ele era um Malfoy e por isso, controlando as suas emoções, sentiu os olhos a normalizar.

- Sabes, Scorpius, esta manha recebi a visita do Liam e do Charles Zabini, e o rapaz contou-me uma historia sobre um discurso em que eras apontado como uma pessoa realmente extraordinária...

Scorpius corou ao leve, ao lembrar-se de Rose, e não pode deixar de reparar que parte da tensão que se acumulara ao nível dos seus ombros parecia desaparecer só por isso.

- Filho - disse Draco, colocando a mão sobre o ombro do rapaz - eu pensei muito sobre o que ouvi e realmente o que a rapariga disse é verdade, eu tenho um filho extraordinário, que me deixa muito orgulhoso enquanto pai, ainda que tenha escolhido uma Weasley como rapariga de eleição...

Scorpius preparou-se para abrir a boca e retorquir, mas o pai interrompeu-o.

- Eu sei que não sou o melhor exemplo de tolerância, mas tentarei ser civilizado para com a família dela.

O filho encolheu os ombros, sabendo que era provavelmente a melhor resposta que o seu pai lhe daria.

- Mas promete-me uma coisa - apressou-se a acrescentar - Nada de ela manter o nome Weasley quando se casarem, quero esfregar na cara do Ron Weasley que a filha dele tem o apelido Malfoy - disse Draco, com um ar de vencedor, sem reparar que o filho estava com um ataque de tosse a seu lado.


Uma gargalhada fez-se ouvir dentro da casa dos Potter e quando Lily apareceu para ver o que passava encontrou o irmão Albus e o pai com finos fios cor de pele a sairem-lhes dos ouvidos.

- Quem é que estão a espiar? - perguntou ela, com uma expressão entre divertida e exasperada.

- Não estamos a espiar, é mais um seguro... - retorquiu Al, trocando um olhar conspirador com Harry.

- Sim, um seguro de saúde... Algo me diz que o teu tio Ron precisará de um, muito em breve - acrescentou Harry, assobiando, enquanto se afastava, de manto de viagem na mão, na direcção da lareira - Adeus miúdos, não arreliem a vossa mãe!

Os dois jovens Potter viram o pai desaparecer por entre chamas verdes, e então Lily virou-se para o irmão, com uma expressão curiosa. Este quase podia adivinhar qual a pergunta que ela lhe ia fazer. Adquirindo uma expressão saudosa, disse-lhe:

- Querida irmã, irá chegar um dia em que tudo fará sentido. Não é hoje e para bem desta família também não espero que seja amanhã, mas um dia a verdade irá revelar-se...

- A sério? Estás mesmo falar a sério? - retorquiu Lily, numa voz desesperada - Meu Merlin, esta família é louca! - e virou-se para tornar a subir as escadas.

- E quando tivermos um Malfoy vai virar uma selva! - riu-se Al, atrás de si, fazendo-a estacar no primeiro degrau. Ao virar-se, o irmão já lá não se encontrava, mas a verdade do que ele e o seu pai disseram assentara finalmente...

"Oh oh", pensou Lily, " O tio Ron vai ter um ataque cardíaco..."

- Mãe! - berrou Lily, subitamente.

- Que é? - respondeu a voz da mãe, dos andares superiores.

- Gostas muito do tio Ron?

- Porquê? - perguntou a mãe, surgindo com uma enorme jarra nas mãos.

- O Scorpius vai pedir a Rose em casamento - retorquiu rapidamente Lily.

Fosse o que fosse que Ginny estivesse à espera, não era certamente aquilo. A jarra caiu-lhe das mãos e despedaçou-se ao fundo das escadas.

- Em alguns anos - apressou-se Lily a completar, com um sorriso malandro - Bolas, mãe, seria loucura ele pedir agora! Os adultos têm tanta imaginação...

Durante momentos, Ginny ficou sem reacção e a filha aproveitou-se para escapar, mas então...

- LILY LUNA POTTER!