- Rukia-san! – Hanatarou chamou, tomando-lhe as duas mãos.

Azuis se fitando profundamente quando ele tentava lhe transmitir confiança.

- Diga, Rukia-san... – Hanatarou corou mais que um tomate antes de prosseguir. - Você e o Ichigo-san não já... fizeram...

- É CLARO QUE NÃO! – Rukia respondeu em um ímpeto, fazendo Hanatarou selar seus lábios com as mãos. Tanta discrição ia por água abaixo depois do grito da shinigami.

Aquela frase sem conclusão de Hanatarou fez Rukia corar. Ela estava desconcertada igualmente a Hanatarou que se curvou.

- Me desculpe, Rukia-san! – pediu o rapaz extremamente envergonhado. – É que... isso que tem sentido... é bastante comum... quando... err...

O chão sob os pés de Rukia se abriu. Sentiu o coração palpitar. Não era possível. Já tinha pensado naquela hipótese antes, mas não podia crer que aquilo aconteceria.

Mas quando Ichigo e ela tinham sequer pensado em se prevenir quanto aquilo? Nunca. A probabilidade era muito mais alta do que ela podia pensar em ignorar. Levou as mãos ao centro do peito encarando o amigo. Aquele pavor no rosto da shinigami era a resposta que Hanatarou precisava.

- Rukia-san... se você estiver grávida, você tem que se cuidar. – ele advertiu sussurrando.

Aquela palavra fez o coração de Rukia se perder mais uma vez no ritmo. Grávida? De Ichigo? Claro, porque só poderia ser dele, afinal, ele era o único a quem havia se entregado. Mas aquelas informações eram demais para ela processar. E seu irmão? Como reagiria ao saber? Não poderia esconder caso fosse verdade. O que aconteceria?

- Não, Hanatarou... Eu tenho certeza. – ela disse com firmeza entre um engolir seco e outro. – É só um mal-estar passageiro. – riu sem graça.

- Pense bem, Rukia-san. Melhor você confirmar isso. Pelo seu bem e desse bebê também.

Rukia olhou para o próprio ventre. As palavras de Hanatarou só serviram para reafirmar de vez aquilo que tanto negava até mesmo desconfiar. E se fosse verdade, será que Ichigo gostaria? Era tão imaturo ainda, tão jovem. Será que ele aceitaria? Ou ficaria chateado? O que seria deles? Tantas perguntas povoaram sua mente em um instante como se já houvesse dentro de si a certeza de que geraria uma vida. E no meio da preocupação ela abriu um sorriso. Pensando por um lado positivo, quão maravilhoso seria ter um filho de Ichigo?

- O que está acontecendo aqui, Rukia?

O devaneio tão especial havia sido interrompido pela voz imponente de quem havia chegado sem apresentações. A morena se virou para trás e deu de cara com o gélido par de olhos acinzentados de seu irmão adotivo.

- Niisama...

E imediatamente as safiras azuis fitaram o que ele trazia em suas mãos. Uma foto que não se lembrava de ter visto. Ichigo e ela abraçados. Rukia com uma expressão de choro e ele parecendo consola-la. Seu irmão tinha ouvido tudo, tinha certeza. Ele obtivera a prova final da hipótese que trazia naquela imagem. Um arrepio cruzara seu corpo e sua alma. E Rukia podia não ter percebido, mas uma chuva fina, porém gélida, começava a cair.

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N.A.: E eis que chegamos aos capítulos que eu esperava escrever desde muito tempo quando retomei a escrever a fic! ^^ Muito obrigada pelas reviews dos antigos e agora dos novos leitores! *_* Estou feliz que estejam gostando. Estamos chegando a uma conclusão e fechando uma parte da fic para iniciarmos uma nova fase que já começa nesse capítulo. Muitas coisas e situações diferentes vão acontecer para que Ichigo e Rukia realmente decidam se vale ou não a pena abandonar a razão em nome do sentimento deles. Muito obrigada a todos que estão acompanhando! Tenho me esforçado para toda semana postar aqui! E um agradecimento mega especial a quem deixou reviews muito fofas no último cap: JJDani, Ana Paula, Mela-cham, Nanda, Pamila, Dalila e Zaites! ^_^ Fiquei muito feliz! \o\ Agora vamos ao que interessa, né? XD Curtam!

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Entre o Amor e a Razão

Capítulo 21: Renuncia

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- Nii-sama...

O chão sob Rukia ruía, ela podia sentir isso pelo tremor de suas pernas que se refletia na voz falha que gaguejava.

- Perguntei o que está acontecendo aqui. – a voz grave, porém gélida reforçava.

- Nada. – respondeu de uma maneira direta. - Eu... estava saindo... – e os olhos azuis fitaram a foto nas mãos do irmão mais velho.

- Como está o Kurosaki Ichigo? – interrompeu em um murmúrio.

- Ah, ele... Está muito melhor. – explicou Rukia tentando conter o gaguejar. – A Isane-fukutaichou disse que provavelmente ele receberá alta amanhã. Só não poderá voltar ao serviço por pelo menos uma semana. Precisa de repouso enquanto convalesce.

- Entendo. – foi tudo que Byakuya disse. Então fitou o rapazinho ao lado de Rukia, aquele que tremia mais que ela. – Será que podemos conversar... a sós?

- Ah! Com licença, Kuchiki-taichou! – curvou-se Hanatarou.

Ele trocou um breve olhar com Rukia, reforçando a cumplicidade dos dois quando partiu.

Assim que se viu a sós com a caçula adotiva, Byakuya começou.

- Rukia... – pausou para lhe entregar a foto. – Recebi isso.

Rukia engoliu seco. Se já se sentia enjoada desde que desmaiara no quarto de Ichigo, agora sentia que ia colocar seu estômago pela boca afora. A mão trêmula segurou a foto, a imagem bonita de Ichigo lhe afagando. Pena que estava chorando. Não. Talvez aquele detalhe conveniente transformasse a situação ideal. Foi quando se lembrou de Keigo tirando fotos aquele dia. Mas como havia chegado às mãos de Byakuya?

- Q... Quem lhe entregou isso, nii-sama?

- Não vem ao caso. – ele foi direto. – Achei estranha sua posição com Kurosaki Ichigo. – cruzou os braços.

- É... uma situação normal. Eu... estava triste esse dia e o Ichigo que sempre é muito cuidadoso ficou preocupado e me abraçou. – sorriu ela timidamente. – Mas por que, nii-sama?

Byakuya permaneceu em silencio um instante. Rukia sentia cada detalhe, cada trejeito, cada deslize seu ser analisado minuciosamente pelo capitão do rokubantai. O homem de poucas palavras tinha olhos miúdos tão perspicazes que notavam o mínimo que fosse.

- Um oficial... de minha confiança... – pausou, a feição repleta de desconforto – afirmou que há rumores por toda Seireitei de que você, Rukia, mantém um relacionamento que não se adequa ao que deve haver entre capitão e tenente com Kurosaki Ichigo.

Rukia, estática, não sabia o que dizer. Seu coração disparava e sentia a tontura lhe acometer novamente. Os olhos acinzentados de Byakuya lhe fitavam de cima para baixo com uma frieza que gelava sua espinha.

- Nii-sama... – Rukia balançou a cabeça. – São... meras intrigas. Eu e o Ichigo somos amigos. Além de capitão e tenente, claro. Mas eu... não posso me misturar, afinal, ele não é um nobre e mesmo sendo um capitão agora... – os olhos dela pairaram entristecidos ao lembrar-se do detalhe incômodo. - um humano, não é?

Byakuya analisava as palavras de Rukia. Eram disparadas, quase cuspidas entre um arfar e outro. Ela estava à beira de um colapso e aquilo não passou despercebido aos olhos dele.

- Fico feliz que saiba sua posição e quais seriam as consequências de atos impensados.

- É claro, Nii-sama. – ela se curvou. – Não se preocupe.

- Você tem certeza do que diz, não é?

Byakuya parecia ter certeza de que Rukia lhe omitia a verdade. Oferecia-lhe a oportunidade de revelar tudo, de abrir-se. Ela não o fazia.

- S-Sim... – gaguejou Rukia.

- Entendo. – suspirou e olhou ao longe do corredor. – Kurosaki Ichigo está acordado ainda?

- E-Está. Ele... – e desviou os olhos entristecidos ao lembrar-se das palavras de Ichigo na discussão que haviam tido há pouco. – deve estar comendo umas frutas que trouxe para ele...

- Vou vê-lo por um instante. Já está indo para casa? – perguntou.

- Ah... na verdade eu ainda tenho que ir ajeitar algumas coisas no esquadrão. – pausou. – Ajeitar as roupas do Ichigo para ele sair daqui amanhã. As que ele estava quando chegou aqui agora são trapos. E o haori também preciso ir buscar. – explicou.

- Então nos vemos em casa. - avisou.

Rukia viu o irmão virar-se, balançando o longo cachecol junto dos cabelos negros. Suspirou aliviada quando voltou a fitar a foto. Um sorriso triste cruzou seus lábios. Byakuya não havia escutado sua conversa com Hanatarou e aquilo era o mais importante. Porém o motivo daquela conversa, caso existisse, não seria escondido por muito tempo. Lembrou-se das palavras de Hanatarou e suspirou. O cerco estava se fechando.

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Cantarolando Inoue trazia dois pratos cheios com a mistura de missô com feijão doce e salada de repolho com batatas fritas e geleia de framboesa. A tenente do juubantai havia cometido a loucura de permiti-la cozinhar, mas aquela garota que chegara tão tristinha no dia anterior estava com um sorriso emoldurado em seus lábios de uma forma tão graciosa. Com muito gosto a loira exuberante assistia a pequena. Estava tão animada que não havia como negar quando ela pedira para fazer o jantar.

- Vamos comer, Rangiku-san! – Inoue espalmou as mãos, limpando-as quando se sentou a pequena mesinha.

- Me diga, Orihime! O que aconteceu que está tão alegre, hein?

E dando uma piscadela, perguntou a tenente que fazia as unhas dos pés com os esmaltes que Inoue havia lhe trazido do mundo dos vivos.

- Comigo? – apontou a si mesma. – Nada, Rangiku-san. – riu.

- Ah, me conta, vai. Pela sua carinha... – ela decidiu ousar. - O Ichigo te deu mole, é? – insinuou.

- O Kurosaki-kun? – ruborizou e então se recompôs. – Não, não... – e agitou a mão tentando desconversar.

- Hmm... Tá bom, você não quer me contar. – e fechou o vidro do esmalte vinho que usava. – Mas também não te conto com quem eu marquei de sair amanhã! – chantageou.

- Tudo bem! – riu Inoue. – Mesmo que não me conte, Rangiku-san, eu sei que vai chegar louquinha pra me contar quando voltar. – e abocanhou a mistura bizarra que tinha entre os hashis que levou aos lábios, lambendo-os em seguida. – Hmmm, está uma delicia!

- Imagino... – disse Rangiku com um suspiro enquanto observava meio torto a comida que borbulhava nos pratos, perguntando-se se aquilo tinha vida própria.

Ela tinha o plano perfeito. Assim que Matsumoto dormisse, ela sairia. Àquela noite teria o Kurosaki-kun só para ela.

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Rukia chegou até a sala do capitão do gobantai e surpreendeu-se quando do corredor já via as luzes acesas. Mais surpresa ainda ficou quando deu de cara com Ishida. O jovem parecia tímido quando a viu. Ele fechou o denreishinki que segurava entre os joelhos quando a viu.

- Kuchiki-san! – exclamou Ishida com um sorriso.

- Ishida! – sorriu Rukia reciprocamente. – Que faz aqui? Quer ficar essa noite por aqui?

Rukia aproveitava para checar o conjunto de hakama, shihakushou e kimono que estavam sobre a mesa, dobrados perfeitamente envoltos pelo obi branco e ao seu lado o haori branco impecável do gobantai. Havia preparado aquilo durante a manhã quando havia ido a uma reunião. Era só levar no dia seguinte para Ichigo.

- Não, Kuchiki-san. – e desviou o olhar. – Na verdade... me desculpe estar aqui a essa hora, mas é que acho que temos que conversar sobre a situação que falamos mais cedo e tomarmos uma... uma atitude.

Rukia apenas suspirou e assentiu. Estava arrasada. Ishida logo notou a palidez da pele da morena e, preocupado, levantou-se tocando em seus ombros.

- Que aconteceu, Kuchiki-san? Está tão abatida...

De inicio, Rukia apenas balançou a cabeça negativamente. O quincy a conduziu até a cadeira do capitão e se agachando segurou as mãos da amiga ao notar as lágrimas que ela tentava conter.

- Kuchiki-san... – ele chamou preocupado.

- Ah, me desculpa, Ishida... – Rukia ergueu a cabeça, encarando o amigo. – Eu... tive uma briga séria com o Ichigo agora...

- Com o Kurosaki? – indagou Ishida. – Por que, Kuchiki-san? Ele ainda está convalescendo...

- Adivinha?

- A Inoue-san estava lá?

- Pior. Ela fez muito pior. – ela recostou-se a cadeira, e com a mão que não estava em seu colo junto com a de Ishida, passou o dorso pela fronte, afastando a mecha do rosto. – Ela mentiu para o Ichigo que eu havia contado que ele havia lutado com Renji.

- Mas você mesma me pediu porque não podia contar. – Ishida complementou.

- Pois é. E quando cheguei... Ichigo me tratou... de uma forma horrível. – e algumas lágrimas ousaram a cair. – Cheguei a estapeá-lo. Depois... eu desmaiei e a discussão parou por ali.

- Kuchiki-san... – Ishida estalou a língua, consternado pelo relato da shinigami. - Você precisa descansar. – e afagou as mãos da amiga. – Se ficar assim vai ter um colapso a qualquer momento. – advertiu ele preocupado. – Temos que falar com Kurosaki. Ele tem que se afastar da Inoue-san... Tenho medo do que ela possa fazer, sinceramente. – e suspirou. – Ela pode causar qualquer mal a vocês por causa dessa obsessão. – pausou o rapaz desolado. - Eu não sei o que faço também, Kuchiki-san.

- Eu sei, Ishida... Você já faz muito por ela. Pena que ela não reconhece. – e sorriu com tristeza ao quincy que assentia.

- Acho que temos que falar a verdade para o Kurosaki. – ele agiu calculadamente. – Se o deixarmos com a Inoue-san ou o Abarai por perto... Não sei o que vai acontecer. E se ele agir com essa inocência, cairá nas mãos deles, cedo ou tarde.

- Concordo com você. – Rukia suspirou levando uma mão ao queixo. – Eu ainda não acredito no que eles foram capazes de fazer...

- Nem eu, Kuchiki-san. Inoue-san sempre foi uma pessoa tão boa... – refletiu Ishida. – Mas não podemos contar com isso se queremos a segurança do Kurosaki.

- Tem razão. – Rukia assentiu. – Mas ele acha que tenho ciúmes... Não crê em mim.

- Kuchiki-san! – Ishida chamou, seus olhos decididos. – Se ele não vai ouvir você... a mim ele vai ouvir!

- Ishida! – Rukia exclamou, admirada pela determinação dele. – Obrigada. Você é um grande amigo! Não só do Ichigo... Mas meu também. – declarou, fazendo o quincy corar.

- Conte comigo, Kuchiki-san! – ele ajeitou os óculos, acanhado.

- Digo o mesmo. – Rukia sorriu. – Amanhã, aliás, eu vou levar as roupas para o Ichigo. Ele vai receber alta. Podemos falar com ele. – explicou.

- Ótimo. Estarei aqui! – afirmou. - Aliás... Kuchiki-san, mudando de assunto... Queria perguntar uma coisa. – pausou hesitante. – Tem algo errado com sua reiatsu ultimamente? - indagou Ishida.

- Minha reiatsu? – piscou Rukia confusa. – Não... Não tem nada. – sorriu Rukia tentando tranquilizar o rapaz que parecia intrigado.

- É que... faz um tempo que... quando você está por perto sinto mais uma reiatsu além da sua.

Rukia arregalou os olhos. Chegou a estremecer e aquele movimento foi notado pelo quincy.

- Me desculpe perguntar é que... fiquei curioso. Inclusive agora quando chegou... senti que estava próxima e pensei que estava com outra pessoa. Mas é uma reiatsu muito fraca... Quase imperceptível. – e ajeitou os óculos com um riso. – Acho que sou cismado com isso de sentir reiatsu! – desconversou.

- Ishida...

Rukia chamou e o quincy encarou a morena que tinha um olhar repleto de seriedade.

- Aonde você sente exatamente essa reiatsu? – perguntou Rukia, temerosa.

- Hm... Não sei direito, Kuchiki-san. – disse ele meneando a cabeça para um lado e para outro enquanto a observava. – Parece vir do seu interior e se mistura com a sua. É engraçado.

Rukia lançou a cabeça para trás levando uma mão aos lábios. Era coincidência demais. Era impossível não ser o que pensava. Era evidente demais. Foi então que reunindo forças, ela voltou a fita-lo. O rapaz parecia confuso.

- Ishida! – Rukia o chamou, os olhos azuis se fitando. - Eu acho que...

A morena se conteve, as safiras marejadas enquanto ela baixava a cabeça.

- Kuchiki-san... – Ishida chamou preocupado. – Me diga.

- Acho que eu... o Ichigo e eu fizemos algo... muito errado. – pausou Rukia, angustiada.

- Me conte, Kuchiki-san. Pode confiar.

Ela encarou os olhos azuis dele e então baixou a cabeça novamente.

Respirou fundo antes, sentindo o rosto umedecer pelas lágrimas.

- Ishida... – pausou. – eu vou ter um filho... do Ichigo!

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Inoue chegava ao gobantai com o sol já nascendo. Apesar de ainda escuro, ela só conseguiu chegar àquela hora da manhã, passando das cinco, devido ao toque de recolher instaurado desde a rebelião de Aizen.

Após comer do jantar de Inoue, Matsumoto acabou passando mal e ficou acordada a noite inteira. Infelizmente ela não se contentava em ficar quieta e, falante como sempre, a tenente aproveitou para passar todas as horas sem sono para conversar com Inoue sobre seus amores no passado, fofocas da Seireitei, quem havia saído com quem, etc. Enfim, quando finalmente a tenente caiu no sono esperou até conseguir sair e se dirigir até o gobantai.

- Espero que o Kurosaki-kun não esteja acordado quando eu chegar...

Assim que chegou ela notou a sala aberta. Uma pequena fresta na porta que dava para o jardim de inverno abria caminho para a garota que entrou sem fazer barulho, deixando as sapatilhas vermelhas na grama antes de subir no assoalho de madeira.

Ao adentrar, receosa, caminhou pela sala e percorreu com os olhos ao redor. Achou a zangetsu de Ichigo encostada a parede próxima a sua mesa e ali encontrou as vestes já arrumadas de seu amado. Repleta de perversidade, um sorriso que transbordava malicia cruzou o belo rosto de Orihime.

- Ah... a Kuchiki-san deixou tudo prontinho...

E aquele sorriso logo se converteu em uma risadinha quando ela tomou as vestes em seus braços, aspirando ao aroma de seu Kurosaki-kun.

Correu para o Yonbantai. O sol raiava e com ele, um novo dia nascia para Orihime. Um dia em que mais uma vez declarava sua vitória sobre Rukia.

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- Kurosaki-kun, tem certeza que não quer ajuda?

A dona da voz preocupada observava o esforço do shinigami que, sentado sobre o leito, em um esforço penoso tentava vestir o kimono branco.

- Não! – resmungou Ichigo com o rosto contorcido em dor.

Mesmo ainda não estando completamente curado, Ichigo tentava se recompor para aquela tarde na qual receberia alta do yonbantai. Vestir o hakama havia sido a pior parte, a qual teve de realizar sozinho. Ainda não conseguia se curvar, e se colocar de pé sem apoio ainda era sinônimo de martírio ao jovem capitão. Quem havia o auxiliado a colocar suas meias e sandálias havia sido Inoue Orihime. E como estava agradecido a garota! Logo cedo ela tinha ido ao Gobantai buscar as vestes arrumadas do capitão para sua saída do leito que ocupara desde seu confronto com Renji. E pensar que Rukia não conseguira fazê-lo a tempo e teria deixado a tarefa para a visitante... Ichigo então se levantou, mudando a estratégia para algo que não fizesse sua espinha se partir de novo.

- Espere, Kurosaki-kun!

A voz melodiosa chamou e quando deu por si a garota tomara a veste branca das mãos de Ichigo. O rapaz, confuso, assistiu quando ela cuidadosamente depositou o braço esquerdo dele na manga e em seguida o direito. Tudo com bastante cautela para não incomodar algum ferimento. Enquanto isso, uma onda de calor intensa cruzava a espinha de Inoue e preenchia seu ser. Tocava o peito bem definido de Ichigo que estava à mostra, apesar de em muitas partes estar enfaixado pelo curativo recém-feito por Hanatarou.

- I... Inoue? – Ichigo gaguejou.

E antes que pudesse prosseguir, ela pegou o shihakushou que estava devidamente dobrado sobre a cama e abriu a larga veste negra, fazendo o mesmo procedimento que havia realizado com o kimono branco. Enquanto percorria seus braços, as pontas dos dedos de Inoue aproveitavam para dedilhar a macia pele do jovem, tocar um pouco os músculos do braço que eram tão firmes.

Ichigo estava corado e aquele toque de Inoue só serviu para lhe aumentar o rubor na face. Estava embaraçado.

Foi quando Inoue então lhe puxou a aba frontal do hakama para adentrar as pontas da veste que remanesciam pendendo para fora. Encabulada e corada tanto quanto ele, Inoue ergueu o rosto, as mãos ainda suspendendo a aba. Ichigo engoliu seco ao encarar os olhos de tons acinzentados que pareciam dominados por uma espécie de poder. O encantamento que ela tinha por Ichigo a tirava de si. Estava ali, tocando-lhe de uma forma tão intima.

Contrastando com aquele encantamento, incomodado com a atmosfera densa que havia se instaurado, Ichigo limpou a garganta e se pronunciou:

- Deixa que eu faço essa parte! – anunciou ele, a mão tocando na dela sutilmente a retirando.

Ichigo virou-se de costas, suspirando. Estava tenso. Ajeitou o shihakushou por dentro do hakama. Inoue admirava com desejo a graciosidade dos movimentos dele. Ichigo sutilmente se curvou levando a mão ao peito ao sentir a dor lhe atormentar, pegou o obi que estava aberto sobre a cama e envolveu sua cintura com a faixa alva, levando as pontas para trás e quando tentou alcança-las para realizar a segunda volta, sentiu que alguém as havia pegado. Olhou por cima do ombro para ver a garota lhe sorrir com as duas pontas em mãos.

- Deixe comigo, Kurosaki-kun!

Animada e sorridente, Inoue cruzou novamente a faixa em sua cintura, esgueirando-se pelo corpo de seu amado, aspirando o perfume masculino que ele exalava e, além disso, mais profundamente, o aroma de sua pele.

Chegou a sua frente e começou a dar o nó e o laço. Ichigo observou incomodado. Sentia-se sufocado e envergonhado da garota estar lhe ajudando, ainda mais porque eram nítidas demais as intenções de Inoue que já não eram mais segundas. Elas iam muito além disso.

Mas Inoue havia lhe ajudado até agora. Havia ficado com ele durante toda a noite, segundo ela relatou quando ele acordou e fora cedo ao seu esquadrão pegar suas roupas. Inoue havia lhe contado também que a baixinha havia pedido que as levasse para Ichigo, estaria ocupada e não teria tempo. Não podia maltrata-la. Se fizesse aquilo, estava concordando com aquele ciúme bobo que Rukia sentia. Rukia... Ela não havia vindo visita-lo desde ontem à noite. Será que estava tão magoada que não acompanharia quando saísse dali? Ele pensava quando sentiu o nó do laço apertar e olhou para baixo.

Inoue levantou os olhos com os lábios entreabertos, atordoada e sem ação pela proximidade com seu amado Kurosaki-kun. As mãos não soltaram o obi e Ichigo chegou a erguer um pouco mais o rosto, tentando evitar um contato maior. Ela estava praticamente colada nele.

- I... Inoue... O quê...

Ichigo gaguejava, tentando dar um passo para trás. A respiração de Inoue em contato com seu pescoço.

- Ku... Ku...rosaki-kun... – balbuciou Inoue parecendo estar enfeitiçada pelo castanho dos olhos de seu amado.

Com um estrondo a porta se abriu. Ichigo, defronte a ela, pôde visualizar quem pairava assistindo-os, mas a pessoa não entrou. Os azuis dos olhos de Rukia cintilaram avidamente quando os arregalou em choque. Ao notar o entreabrir dos lábios de Ichigo que ficou sem voz naquele movimento, Inoue virou-se para trás ainda segurando o obi do shinigami.

- Kuchiki-san! – ela chamou, um sorriso repleto de perversidade em seus lábios e uma mão mais ousada escorregou pelo obi, encorajada pela provocativa, deslizando com sensualidade pela cintura do rapaz.

Ichigo estava mais concentrado na amada que não tinha a mínima reação. Nem ao menos reagiu a investida de Inoue. Rukia acabara de ver Inoue dependurada em Ichigo, os dois em uma distância ridícula para não definir uma situação amorosa. O mundo dela girou quando se virou para trás em um único movimento e correu.

- Rukia! – Ichigo gritou, afastando Inoue sem cerimônia.

Ele havia a empurrado com tanta força que Inoue chegou a perder o equilíbrio, mas antes que ela pudesse sequer resmungar, Ichigo também tombou para o lado quando tentou correr atrás de sua tenente.

- Merda! – Ichigo xingou, irado.

- Kurosaki-kun!

Ichigo virou-se para trás e viu a garota com aquele olhar inocente, mas de inocente... ela nada tinha. Ele semicerrou os olhos castanhos que cintilaram vermelho, ardendo em raiva da armação que parecia calculada de Inoue. A garota chegou a se retrair temendo a reação do shinigami.

Ichigo estalou a língua e se reergueu. Foi até a parede onde havia duas muletas e se apoiou nelas. Ao vê-lo de forma tão miserável se equilibrando nelas e deixando o quarto, o coração de Inoue se apertou quando correu até Ichigo, estendendo uma mão para segura-lo.

- Kurosaki-kun, você ainda não...

- Cala a boca, Inoue! – vociferou Ichigo ao voltar-se para ela.

Inoue se encolheu levando a mão que era estendida em direção ao amado aos lábios. Estava chocada. Ichigo jamais havia se dirigido a ela com tanta agressividade. "Será que fui atrevida?" - perguntou-se. Ali Orihime ficou assistindo o jovem partir, obstinado em encontrar ela. Sempre ela. Não adiantava ficar ao seu lado, não adiantava fazer de tudo por ele. Tinha que eliminar Rukia de seu caminho. Melhor, da vida de Ichigo.

- Rukia!

Os gritos de Ichigo eram acompanhados pela corrida que ele tentava realizar se equilibrando nas muletas. Atravessou os corredores e nada. Não a encontrava.

- Rukia!

Foi quando finalmente a encontrou, quase na porta de saída do alojamento do yonbantai. Ao ouvir sua voz, a pequena olhou para trás. De inicio pensou em ignora-lo, mas vendo seu estado, não o deixaria ali. Rukia apenas parou, voltando a ficar de costas sem encara-lo.

- Rukia! – Ichigo chamou quando tocou em seu braço.

- Afaste-se, Ichigo! – ordenou Rukia ao girar o braço para se desvencilhar do toque dele.

- Rukia, não é nada do que está pensando! – explicou-se.

- Não estou pensando em nada, Ichigo! – e Rukia o encarou, os olhos azuis marejados porém firmes. – É o que eu vi! Só isso!

- Rukia... – Ichigo chamou. – A Inoue estava ajudando a me vestir...

- Ah... – Rukia assentia, sorrindo de forma irônica. – Sim, ela estava te vestindo... Que coisa boa, não é, Ichigo? Então não precisa de mim aqui se ela está te ajudando tanto!

Rukia deu-lhe as costas, mas Ichigo segurou com firmeza o pulso da pequena. Ele gemeu baixinho quando sentiu a dor de seus ferimentos se intensificar, o que fez Rukia contorcer o rosto angustiada ao vê-lo sofrer, mas ao mesmo tempo não podia fraquejar. Permaneceu em seu lugar.

- Rukia, a Inoue veio me ajudar. É só. Ela estava sim agindo estranha agora... Foi muito vergonhoso, mas não tinha como maltrata-la agora... Me entenda, por favor. Você é quem eu amo.

Rukia permanecia com os braços cruzados apesar de Ichigo a segura-la. Ela se balançava tentando espantar a raiva que lhe preenchia. Mordiscou o lábio inferior, a lembrança do beijo ainda avida em sua mente.

- Rukia...

A voz grossa, porém suave de Ichigo voltou a lhe chamar. E como resistir aquele chamado dele? Ela engoliu as lágrimas, a mão de Ichigo pressionando suavemente o seu braço.

- A Inoue... – Rukia sussurrava. - te beijou.

- QUÊ? – Ichigo exclamou espantado.

- É isso mesmo. – explicou. – Eu não havia dito antes porque não queria te colocar contra ela. Mas quando ela veio aqui te curar, eu saí por um instante do quarto e quando voltei ela estava lhe beijando.

- Rukia...

Culpa preencheu o âmago de Ichigo. Lembrou-se do mal-estar de Rukia que havia sido causado porque havia lhe ofendido para defender Inoue... Ichigo nem sabia o que ela estava passando. Ele bufou, levando a mão a testa enquanto tentava processar tudo aquilo. Soltou então as muletas e a abraçou firmemente. Rukia, surpresa com o gesto súbito do substituto, apenas se aconchegou naquele calor que o peito dele emanava. Aquele calor que há tanto não sentia. Ichigo afagou seus cabelos enquanto a pressionava em seus braços.

- Me desculpa, Rukia. – pausou, estalando a língua. – Tenho feito você passar por momentos difíceis. Deve estar sendo demais para você... Mas eu te prometo. – e se afastou, pousando as mãos uma em cada maçã do rosto de porcelana enquanto os olhos castanhos penetravam profundamente nos azuis. – Eu te amo mais que tudo, Rukia. Não duvide disso! – sussurrou.

E os lábios do rapaz tocaram a fronte de Rukia em um beijo repleto de ternura. A shinigami deixou uma teimosa lágrima verter, mas assim que ela o fez, Ichigo que ainda tinha as mãos em seu rosto dedilhou o pequeno córrego e o secou.

- Kurosaki!

Ichigo ergueu o rosto para ver quem se aproximava. Era Ishida, que vinha correndo, parecia atrasado.

- Me desculpe o atraso, Kuchiki-san. – ofegante ele ajeitou os óculos sobre o nariz ao se aproximar.

- Tudo bem, Ishida. Ao menos isso serviu para o Ichigo ver o que está acontecendo.

- O quê? – o quincy arqueou uma sobrancelha, confuso.

- É... – Ichigo corou, sabia que Ishida e Inoue estavam namorando. – Me desculpe, Ishida. Não sei o que se passa com a Inoue.

Ishida suspirou, sentindo-se feliz pelo apoio do amigo que infelizmente tinha que ver como rival.

Rukia aproveitou para ajudar Ichigo a se sentar no beiral de madeira da varanda do lugar e se sentou ao seu lado.

- Não se preocupe. – Ishida respondeu. – O que importa agora, Kurosaki, é que você fique distante da Inoue-san e do Abarai. – explicou.

- Distante? Mas por quê? – contestou Ichigo confuso.

- Do Renji acho que nem tem porque perguntar, não é? – Rukia se inclinou para frente. – Mas isso vale também para a Inoue.

- Por quê? Descobriram alguma coisa? – o jovem piscou.

Uryuu e Rukia se entreolharam, então a garota assentiu ao quincy que estalou a língua e retirou do bolso da calça algo que chamou a atenção de Ichigo.

- Denreishinki? – exclamou ele. – Ah, já sei. Ishida, quer ser shinigami também, não é? – orgulhoso, Ichigo cruzou os braços. – Não adianta. Não posso te...

E antes que continuasse a se vangloriar, Rukia deu-lhe um cascudo, forçando-o a retomar o foco. Ele massageou a cabeça no lugar atingido quando então Ishida abriu o aparelho e mexendo um pouco o estendeu para o jovem que estava sentado.

Ichigo tomou de suas mãos e a expressão antes tranquila modificou-se completamente. As mensagens no exato dia em que havia sido atacado por Renji e o aviso que havia recebido do tenente para vir lhe curar... Boquiaberto, o shinigami não tinha palavras para se expressar.

- É isso que está acontecendo, Ichigo. – Rukia quebrou o silêncio.

- Essa mensagem... – e apontou a eles. – foi no mesmo dia em que o Renji me encontrou e armou aquela cilada... – Ichigo balançou a cabeça negativamente.

Rukia piscou, confusa enquanto observava a data de recebimento, quando então tudo parecia surgir mais claramente.

- É verdade! – Rukia cobriu os lábios, incrédula.

- Então é pior que pensamos. – comentou Uryuu ao fechar o aparelho. – Inoue-san havia combinado com Abarai que quando o ferisse, ela viria curar o Kurosaki.

O olhar de Ichigo estava perdido no nada. Os lábios entreabertos tentando ainda encontrar uma resposta para aquilo. A mente trabalhando a mil. Por que Inoue não havia lhe curado totalmente? Será que seria capaz disso? Não. Inoue era... uma boa garota.

- Não... Não é verdade. – Ichigo balançou a cabeça e a expressão de espanto se dissolveu em um riso. – É mera coincidência. Inoue jamais faria isso! – e riu.

- Ichigo! – Rukia chamou, não acreditando na inocência do rapaz.

- Vocês estão loucos! A Inoue veio aqui me ajudar. É isso! – afirmou Ichigo decidido. – Aliás, eu deixei que ela ficasse aqui na Soul Society até eu me recuperar.

- O quê? – indignada, Rukia exclamou.

Rukia sentiu as lágrimas voltaram a brotar. Estava tão angustiada já e vê-lo cego daquela maneira lhe frustrava. Ishida, ao ver seu estado, apenas apertou de leve seu ombro num afago e passando pela menina, chegou até o substituto. Sem cerimônias ele puxou Ichigo pelo shihakushou, levando seu rosto a ficar colado com o dele. Ichigo arregalou os olhos, assustado.

- Escuta aqui, Kurosaki! – e intensificou o aperto. – Estamos aqui porque estamos preocupados com o seu bem! – exclamou. – Quer se matar? Porque é isso o que a Inoue-san e o Abarai vão fazer com você se continuar agindo assim! QUER? – e o sacudiu.

- Ishida... – Ichigo gaguejou, assustado com a atitude do rapaz.

Ishida então o soltou e ajeitou suas roupas. O quincy suspirou encabulado de agir daquela forma.

- A Kuchiki-san está toda preocupada aqui! – apontou a garota.

Rukia arregalou os olhos quando se lembrou da revelação que fizera na noite anterior. Suplicara para que o quincy nada dissesse e o amigo, solícito como sempre, aceitou a confissão da shinigami, com a condição de que não demoraria a revelar isso a Ichigo.

Ichigo penalizou-se novamente ao vê-la. Rukia estava diferente... Havia um brilho nos seus olhos que lhe transmitia tanta fragilidade e mesmo assim tanta ternura. Parecia mais feminina, seus trejeitos eram graciosos. Chegou a ruborizar ao encara-la por um instante em que pareceu estar fora de si apenas a admira-la.

- Vocês tem razão. – ele suspirou. – Mas eu não... consigo acreditar nisso! – e cerrou os punhos nos joelhos.

- Ishida-kun?

Os dois shinigami e o quincy se viraram para assistir a humana que aparecia do interior do alojamento do yonbantai. Ichigo que rangia os dentes ainda indignado chegou a, em um ímpeto, tentar se reerguer mas foi impedido por Ishida. Inoue tremeu um pouco quando viu o olhar ainda raivoso do shinigami.

- Que faz aqui? – ela indagou curiosa.

- O mesmo que você. – respondeu. – Vim ver o Kurosaki. Aliás, já está quase na hora de sua alta, não é? Acho que é melhor a Inoue-san e eu irmos. – anunciou Ishida quando tocou o braço da namorada.

- Irmos? – e a Orihime contorceu o rosto em desagrado. – A lugar algum! O Kurosaki-kun me deixou ficar aqui o tempo que eu quiser! Disse que posso ver o trabalho dele como capitão e...

- Inoue. – foi a vez de Ichigo se pronunciar quando se levantou auxiliado por Rukia que o amparou.

Ao ouvir seu nome, os olhos dela voltaram somente a ele. O rapaz ergueu o rosto e serenamente disse.

- Não quero que fique aqui.

- Anh? – ela piscou confusa. – Mas você disse que... – e foi só nesse momento que ela processou a verdadeira frase que ele havia dito. – Não... Não me quer aqui?

- Não. – Ichigo respondeu. – Inoue, vá com o Ishida.

- Mas por quê? – ela exclamou virando-se para Rukia. – O que eu fiz, Kuchiki-san? – clamou.

Rukia nada respondeu. Ela permaneceu calada apenas a apoiar o rapaz.

- Kurosaki-kun...

- Muito obrigado por ter me curado... – agradeceu Ichigo de maneira falsa. Sabia que ela não havia gasto nem um pingo da reiatsu para cura-lo.

- Mas você ainda não está bem, Kurosaki-kun! Mal consegue andar. – explicou ela. – Ao seu lado posso sempre estar...

- Não, Inoue! – ele interrompeu em um brado. – Eu não vou ficar servindo de saco de pancadas pro Renji enquanto você brinca que me cura. – explicou.

Lágrimas vieram aos olhos de uma ofendida Orihime. A princesa se encolheu, mordiscando os lábios não crendo no que ouvia.

- Do que está falando, Kurosaki-kun? – Inoue soluçou e então fitou o denreishinki nas mãos de Rukia. Gelou. – Eu... Como assim?

- Eu já sei de tudo. – ele revelou. – Nunca esperei isso de você, Inoue. Sempre a vi como uma boa garota. – pausou. – Enquanto estiver armando intrigas entre a Rukia e eu, ou tentando fazer algo contra nós, Inoue, fique longe, por favor. Não quero ter que erguer minha espada contra você.

A ameaça de Ichigo transformou o clima denso em algo mais pesado ainda. Ishida apenas ajeitou os óculos, abstendo-se de comentar qualquer coisa. Rukia, por sua vez, permaneceu calada, nem ao menos ousando encarar a menina que se afogava em lágrimas diante de seu amado.

- Kurosaki-kun! Isso são mentiras! Eu juro! Eu te curei!

- Não, Inoue. Por favor. Vá embora. Estou te pedindo. – e virou-se para Ishida. – Ishida, pode levar a Inoue com você?

- C-Claro. – o rapaz que estava sem graça pela situação assentiu.

Ichigo chegou a menear a cabeça para agradecer mas logo sentiu a dor forte cruzar sua espinha. Se não fosse o amparo de Rukia, provavelmente teria ido ao chão.

- Ichigo! – Rukia chamou preocupada. – Já estamos tempo demais aqui, Ichigo. Melhor voltar a se deitar até a hora de sairmos. – avisou a shinigami.

- Kurosaki-kun! – e levando as mãos na altura das presilhas, Inoue correu até ele. – Eu te cur...

- Afaste-se! – bradou o substituto, ignorando a dor que lhe atingira com a agitação. – Inoue, não faça nada. – ele fitou furioso os olhos cianeto da menina. - Apenas vá embora, eu te peço.

- Kurosaki-kun... – ela chamou chorosa.

- Vamos, Inoue-san. – Ishida, entristecido pela situação que surgira entre os nakamas, apoiou a mão ao ombro da namorada. – Kuchiki-san, cuide do Kurosaki. – pediu, fazendo a shinigami assentir. – E daquilo... também, ok?

Rukia gelou mas assentiu. Sentiu-se acalentada pela preocupação de Ishida. Sabia muito bem ao que ele se referia. Ela amparou Ichigo até o interior do alojamento enquanto Ishida levava a chorosa Orihime consigo. Como haviam descoberto?

- Kurosaki-kun... – ela resmungou entre um soluço e outro.

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Na sala do capitão do rokubantai encontrava-se agora sentado na mesa diante de Kuchiki Byakuya, Abarai Renji. O tenente que havia sido libertado após três dias de prisão voltava a se apresentar a seu superior, sendo que o nobre não parecia estar muito feliz com a alforria do ruivo.

- Taichou! Soube que o Ichigo está saindo do Yonbantai hoje. – afirmou animado.

- Sim. – ele assentiu sem encarar o ruivo. Organizava alguns documentos. – A Rukia está com ele.

O comentário de Byakuya atravessava a alma de Renji que engoliu a seco.

– Espero que assim ela consiga se acalmar um pouco. Não come nem dorme há dias direito... Me lembra até... – e Byakuya, comedido, suspirou, interrompendo sua própria fala ao ter a lembrança da esposa em sua mente.

- Anh? – o ruivo indagou arqueando a sobrancelha.

- Esqueça. – e terminou lhe entregando uma pequena resma de folhas. – Leve para o juusanbantai por favor. São alguns documentos da transferência da Rukia que ainda estão comigo.

- Sim, senhor. – Renji assentiu quando recebeu os papéis.

Byakuya assistiu ao tenente se levantar e caminhar até a porta quando este voltou para trás parecendo ter esquecido algo.

- Que houve?

- Taichou... – e se curvou. – Se me dá licença, posso ir visitar o... Kurosaki-taichou?

Byakuya contorceu o rosto confuso. Aquilo soava estranho demais aos ouvidos do nobre.

- Acho que ele não gostaria de receber sua visita. E aliás, Kurosaki Ichigo não voltará ao serviço tão cedo. – avisou.

- Mas quero... pedir desculpas!

Byakuya sentia sinceridade nas palavras de Renji. Parecia tão obstinado...

- Faça o que quiser.

Foi tudo que o capitão disse. Renji voltou a se curvar, desta vez em agradecimento e partiu.

Ele pediria desculpas a Ichigo... e ganharia um presente em troca.

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- Ahhh! Quanto tempo!

Ichigo lançou-se a cadeira de sua mesa assim que Rukia que o amparava lhe soltou. Ele abriu um largo sorriso quando procurou a foto que havia sobre a mesa, mas quando deu por si, o porta-retratos não estava lá.

- Ei, Rukia! – chamou a garota que abria as janelas dos aposentos do capitão.

- Diga! – ela gritou para que Ichigo a ouvisse.

- Onde está o porta-retratos da minha mesa? – indagou ele curioso.

- Ué, na sua mesa! Aonde mais? – respondeu Rukia quando sentiu algo fino como uma agulha perfurar os pés que estavam descalços.

Ela soltou um grito agudo quando Ichigo ouviu um baque surdo.

- Rukia? – ele exclamou ao ouvi-la.

Apoiando-se a parede, Ichigo caminhou o mais rápido que pôde até o quarto para encontrar a pequena shinigami sentada ao chão, o pé esvaindo sangue com o caco de vidro fincado na pele.

- Droga! – ela reclamou.

- Rukia! – Ichigo chamou, preocupado. – Mas... que foi isso?

Foi quando Ichigo fitou o chão e viu os cacos do porta-retratos espalhados no chão junto da foto.

- Mas... como isso veio parar aqui dentro? – e estalou a língua angustiado ao fita-la tentando retirar o pedaço fincado na sola do pé. – Calma, Rukia, já vou ver isso! Eu vou buscar uma gaze e vou tirar isso daí!

Ichigo foi até a sala ao lado buscar algo para fazer o curativo da shinigami que após um pouco de custo e uma dor lancinante, conseguiu tirar o caco preso ao pé. Não havia dúvidas de quem havia feito aquilo e aquela certeza lhe trazia muito mais dor que o próprio ferimento.

- Droga... – ela resmungou tentando se reerguer. – Ichigo! Já consegui! Pode...

Os olhos azuis estatizaram ao ver uma sombra se projetar no assoalho de madeira encobrindo a sua. Ela chegou a tentar se virar para ver quem era, mas antes que pudesse, uma mão envolta com um pano encobriu seu nariz e lábios. Chegou a tentar dizer algo, mas sua voz abafada por alguém que presumia ser um homem pela força e pelo tamanho de sua mão não conseguiram chamar Ichigo. Tudo tinha sido muito rápido e uma sensação de intenso torpor dominou seu corpo. A vista escureceu e tudo que ela pôde ver foi um par de olhos cor-de-mel.

- Agora acabou para você, Rukia. Você é minha agora. E nunca mais vai ver o Ichigo!

Era sua última cartada e ele tinha certeza que desta viria sua vitória.

Continua...