N/A: Aqui vai mais um capítulo! Aproveitem que eu estou no embalo de postar os capítulos XD Agora falta bem pouco para o final, gente, não deixem de perder! Agradeço desde já aos que vem acompanhando essa história e aos que a acompanharão.
Enjoy e aguardo reviews, gente!
Preparation
Faltava pouco mais de uma semana para o término das aulas, e Marcus Flint já sabia que não entraria em faculdade alguma naquele ano. Sem interesse por seu destino, ele abdicou das chances que teve para tentar as faculdades que podia entrar, sendo deixado pelo tempo. Fez questão de ter um bom desempenho nos exames finais, principalmente pelo fato de mostrar para a mãe, se ela ainda estivesse vendo-o, que ele era capaz de se superar quando estava só, que sabia se cuidar. Mesmo sendo o renegado, ele se sobressaiu na sala, causando um espanto geral, mas pouco se importava com essa parte.
Quanto a Oliver, eles eram forçados a se verem nos ensaios da formatura. Com a proximidade das férias, a escola começou um intensivo curso para ensinar aos alunos como se portar enquanto recebiam seus diplomas, treinar discursos e ver os lugares de cada um. Por ser em ordem alfabética, Marcus e Oliver ficavam na mesma fileira, e vez ou outra, na hora de se posicionarem, se esbarravam.
Então, o que falar? Aparentemente, o rancor no olhar de Oliver havia desaparecido, mas mal eram capazes de trocar um olhares àquela altura. Para Flint, era tudo muito dolorido e intenso: cada troca de olhares mal sucedida, cada toque não correspondido, tudo colaborava para seu estado depressivo. Em contrapartida, a postura do goleiro reforçava a necessidade de cumprir com a promessa, de ser forte para sua mãe e se dedicar à sua esposa como um homem descente – como o homem que seu pai não conseguiu ser. Assim se seguiram os dias até a grande noite chegar.
Poucos segundos antes da música de abertura começar, Marcus lançou um olhar furtivo para Oliver. Algo tinha de ser feito e, como sempre, seria ele quem tomaria o primeiro passo.
Era uma noite muito bonita que marcava o início do verão. Estrelas brilhavam assim como as famílias que ali estavam, contemplando seus filhos com todo o seu orgulho e prestígio. O tapete vermelho recebia a todos os convidados com uma pompa sem igual, o que fez Pansy e as duas tias de Marcus delirarem – adoravam luxo, afinal. A família Wood se sentia deslocada naquilo tudo, dispensando celebrações exageradas assim, mas não deixou de se portar tal qual nobres fariam.
Assim a comemoração teve início, e a qüinquagésima oitava turma daquele colégio se formava com um ar refinado, típico da elite. Tiveram alguns discursos marcantes de professores excelentes, que prezavam os alunos acima deles mesmos, assim também como palavras duras e ultrapassadas de conservadores, que só aplicavam o método e nunca burlaram nenhuma das regras. Por fim, começaram a chamar os nomes. Havia uma longa caminhada pela frente antes que Marcus fosse chamado, o que dava tempo para este definir os momentos seguintes: assim que os alunos recebiam seus diplomas, podiam se retirar para ter com suas famílias da forma que bem entendessem. Como seria chamado primeiro, Flint concluiu que seu plano de interceptar Oliver não seria difícil, e a forma com que batia os pés deixava claro sua ansiedade.
"Marcus Flint!", chamou a voz de McGonagall no microfone. Enquanto o moreno se dirigia, um tanto travado, para seu diploma, o gigante da recepção, Hagrid, empunhava o papel com um sorriso caloroso no rosto. Marcus lamentou o fato de nunca ter dado atenção ao funcionário, já que ele sempre se mostrava prestativo e simpático, mas era tarde para lamentar algo assim. Agora, ele só se preocupava em descer do palco em que estava bem devagar, controlando a vontade de gritar "Acabou essa porra, finalmente" com todas as suas forças.
Ficou esperando na parte de baixo do lado esquerdo do palco até chamarem o nome de Oliver, certo de que este desceria por ali. Foi quando se deu conta que o goleiro estava se dirigindo ao lado direito, indicando que desceria por ali. Com pressa e fúria, Marcus começou a se desvencilhar dos estudantes que estavam entre ele e Oliver, já que a frente do palco estava repleta de formandos e seus parentes, que os abraçavam. O moreno podia jurar que ouvira gritarem seu nome, mas eram vozes tão distantes que ele nem se deu ao trabalho de largar sua perseguição. Esgueirou-se por várias pessoas até finalmente atingir seu objetivo, Oliver Wood, que aparentemente aguardava o momento que sua família conseguiria emergir daquela bagunça toda.
- Vem aqui – o moreno sussurrou, puxando o goleiro pelo braço. Enfiou os dois numa saleta que ficava ali na lateral, onde previamente os formandos tiraram suas fotos para o anuário.
Sem ter tempo nem fôlego de reagir a tempo de escapar, Oliver se limitou a largar do braço de Flint bruscamente, olhando indignado. Já não tinha sofrido o bastante?
- Eu não tenho mais nada com você! O que você tem na cabe-
- Cala boca – Marcus se afastou, tentando demonstrar que não queria assumir uma postura hostil ali. Encarava os adereços da sala com desinteresse, somente para não forçar um contato visual direto com o outro – Eu quero te pedir uma coisa...
- O quê?! Você... Você ficou louco? – Oliver estava agitado com aquilo, andando de um lado para outro e gesticulando com os braços sem parar – Depois de tudo isso, o que mais você quer me pedir?
Marcus engoliu seco, prendendo o olhar nas tabuas de madeira do chão. Era agora ou nunca, e a segunda opção estava fora de seu horizonte.
- No meu casamento... – o moreno ergueu a cabeça gradualmente, ganhando confiança para falar, até que conseguisse olhar para Oliver. Seus olhos azuis estavam mais límpidos que o normal – Seja meu padrinho.
Wood franziu o cenho, estupefato.
- Como assim? Você... Você não se cansa de fazer isso comigo, não é? – ele se virou para a porta daquele lugar, irritado – Você não tem limites...
- Por favor. Eu preciso de você lá, Oliver...
A súplica amargurada de Marcus fez o goleiro estacar. Já ouvira aquele tom de voz antes, já sentira aquela aura pesada entre os dois. Oliver sabia que o moreno tentava esconder os sentimentos com todas as forças, mas acabava sendo muito franco mesmo assim. Era perceptível que havia algo de errado naquilo tudo, que seu noivado não era algo feliz, e o fato de Marcus não ter prestado justificativas o preocupou mais ainda. Fechou os olhos com força e respirou fundo, repleto de dilemas para resolver.
- Eu – continuou o moreno, a voz relutante. Tinha medo de falar menos do que devia, mais do que podia – Eu não vou casar sem ter você como padrinho...
Oliver apertou mais os olhos, cerrando os punhos.
- Você, Marcus – ele começou a falar, sem convicção na voz – É um bastardo.
Dizendo isso, sumiu pela porta, deixando o moreno desamparado. Um aperto no peito de Marcus fez com que sentisse um enorme tumor ali, algo maligno que ele incubava há muito, que drenava diariamente suas energias. Ele era desprezível, mas se deu ao direito de fazer aquele último desejo.
Saindo da saleta, Marcus se deparou com Pansy. A garota trajava um vestido vermelho um tanto ousado para a ocasião, salientando o que seu corpo tinha de melhor, e prendeu os cabelos louros num coque impecável, fazendo seu rosto reluzir com graça e charme. Marcus tinha certeza de que, se fosse heterossexual, teria apreciado saber que aquela musa seria sua mulher, mas tudo o que ele via eram as disparidades entre o corpo dela e o de Oliver, e a forma como teria de se martirizar quando fossem para a cama. Ela era um novo mapa para ele desbravar, com pontos fracos ocultos que ele não tinha vontade alguma de encontrar, mas sabia que era sua obrigação se esforçar para tal. Ele seria o marido perfeito.
- Amor! – a garota gritou, pulando nele. Era incrível o gosto que ela tinha em se esfregar nele – Fiquei preocupada! Agora mesmo um cara saiu dessa sala meio ranzinza... Aconteceu alguma coisa entre vocês?
Marcus olhou vagamente para as pessoas ao redor, procurando em vão a figura de Oliver. Abraçou a Pansy com força, procurando um amparo maternal – era o tempo que precisava para se recompor.
- Acho que perdi um grande amigo – ele sussurrou, sorrindo por ter chamado a relação que eles tinham de amizade. De fato, o mais marcante entre eles nunca fora o sexo, as carícias, os momentos no chuveiro, mas a cumplicidade que existia entre eles, o sentimento recíproco de estima, preocupação.
- Ah, amor – a loura usou um tom de voz meigo, como se Marcus fosse só uma criança – Não fica assim. Eu estou aqui...
É, esse era o problema. Era ela quem estava ali. Era ela que o acompanharia até o altar dali a duas semanas, era ela quem dormiria com ele na noite de núpcias, era ela quem carregaria uma aliança igual à dele, era ela quem seria aceita por sua família. Era ela, uma mulher, uma pessoa qualquer, um utensílio que surgiu para que ele cumprisse a promessa. Nada além de um sentimento vazio surgia quando ele pensava nela, o que só aumentava o descontentamento do moreno.
- Eu sei, Pansy, eu sei...
Ele odiava saber.
Os preparativos para o casamento andavam muito bem, já que a família Parkinson se solidarizara com a situação triste de Marcus e decidira bancar quase tudo referente à cerimônia, desde a igreja e sua decoração até o salão onde ocorreria a festa e as comidas a serem servidas. A Marcus cabia apenas seu próprio traje, o que não era nada perto dos demais gastos. Buscando melhorar o futuro dos dois, os Parkinson também utilizaram de seu nome para conseguir uma vaga no curso de administração de Cambridge para o jovem Flint, propondo a este que assumisse um cargo importante na empresa da família logo que começasse a cursar a universidade.
Sua vida parecia estar, finalmente, entrando nos eixos: sua família o apoiava sem rancores, orgulhosa de como ele havia conseguido uma noiva tão bela e poderosa; seu sogro o estimava por parecer forte e decidido, enquanto a sogra encontrava nele um certo charme curioso, incomum; ele logo venderia a casa que morava para conseguir comprar um apartamento perto de sua universidade, já que Pansy também cursaria Cambridge. O dinheiro restante, juntamente com sua herança, seria aplicado em ações, previamente selecionadas e avaliadas pelo sogro. Mas havia algo de errado naquilo tudo.
Desde a formatura, não teve notícia alguma de Oliver, o que era uma constante aflição para Marcus. Naquela noite, ele não havia acreditado nas palavras do garoto de cabelos castanhos. Algo em sua feição, em sua voz talvez, o fez desconfiar daquilo, como se Oliver estivesse tentando esconder algo. Porém, faltando um dia para o grande dia, ele começava a abandonar essa hipótese. Talvez Wood o odiasse àquela altura, a ponto de nunca mais desejar vê-lo. Talvez tivesse seguido em frente, se encontrado com Harry e transado com ele para superar a mágoa. Flint tentava a todo custo afastar esses pensamentos da cabeça, já que de nada adiantariam para ele, mas ficava cada dia mais difícil se conter, e ele escondia aquilo dizendo aos demais que estava ansioso para o casamento. De fato, estava ansioso para aquele dia – para o dia, não para o casamento.
Após uma noite mal dormida, finalmente era chegada a hora. Marcus Flint acordou cedo naquele sábado de verão, precisando de um tempo para se acalmar. Aquele era o fim da linha: se decidisse fugir, seria tarde demais. Ele estaria se arriscando demais, e sabia que não conseguiria nada com Oliver enquanto o peso da mãe ainda estivesse em seus ombros. Respirava fundo diversas vezes enquanto encarava a cafeteira. Estava sem fome – tomaria um café e nada mais.
- Bom dia, noivo – disse uma voz feminina, provocando-o. Uma de suas tias, que se mudara para sua casa temporariamente, havia acordado – Pronto para virar um homem completo?
"Estou longe disso", pensou o jovem consigo, pegando uma xícara para a tia acompanhá-lo.
- O café já vai sair – ele disse, sem idéia de como responder à pergunta – Só mais um pouco.
Ele só precisava de mais um tempo para engolir aquilo, parar de olhar para trás, apagar suas lembranças e começar do zero. Só mais um pouco...
- Tudo bem – a tia sorriu, sentando-se na mesa.
A sorte do moreno é que, por questões de tradição, não veria sua noiva até a hora da cerimônia, o que dava a ele certo sossego. Podia remoer suas inquietudes em paz, sem os olhos inquisidores que a garota tinha, muito menos sua voz fina, que só piorava a ordem de seus pensamentos. Ele já estava acostumado a lidar com a família, então podia considerar que tinha algumas horas finais para si.
Tomou o café tranqüilamente, encarando a janela da cozinha: não havia planta alguma ali. Certa vez, ele pensou em colocar rosas brancas, mas achou que seria um tanto quanto melancólico e decidiu deixar a idéia de lado. Aquilo era um hábito de sua mãe afinal, não seu.
Café tomado, ele foi tomar um longo banho, esvaziando-se nas gotas pesadas de água fria. Demorou um pouco para sair, perdido em seu reflexo no espelho: era incrível como ele nunca teve problemas com olheiras, e todos os seus traços pareciam perfeitos naquele dia. Deixando a barba feita e os cabelos impecáveis, ele se sentiu bem com a imagem que teve de si, mesmo que estivesse podre por dentro.
As roupas já estavam passadas e ajeitadas pelas tias, bastando a ele vesti-las e se ajeitar, passar um perfume e calçar os sapatos, o que fez sem muito animo, mas depressa. Queria chegar na igreja antes, ver se Oliver estaria ali para vê-lo, embora já suspeitasse que este não daria as caras. Por um tempo, ficou pensando se não deveria, de última hora, pedir o goleiro em casamento ali, na frente de todos, mas seria cruel demais. Pansy não era responsável por nenhum dos desencontros de sua vida, muito menos merecia tal humilhação – seria como passar seu legado maldito à uma inocente, e ele não era capaz de tal ato.
Pegou um táxi um pouco depois do almoço, já que o casamento seria no fim da tarde, e partiu para a igreja. Era estranho pensar que não voltaria mais para a escola, que não ficaria encarando os gêmeos Weasley ou mesmo praticando dança sozinho. Vendo as árvores no caminho, ele podia sentir saudade dos momentos que teve na escola, e em como o Sol de verão parecia brilhar muito mais naquele bosque do que na cidade.
A igreja tinha um estilo gótico que agradava Marcus, tirando o fato de que, naquele dia, boa parte de sua beleza fora ocultada por milhares de arranjos florais exóticos e fitas coloridas. Ao que parecia, só o seu casamento era esperado para aquela noite. Cumprimentou o padre quando o avistou, que aparentemente estava revisando seu discurso numa saleta atrás do altar, e seguiu para o outro lado, sentando-se num dos bancos da frente.
Juntou as mãos e recostou a testa sobre elas, os olhos bem apertados. Ficou um tempo assim, gritando para dentro de si, sufocando suas injúrias da forma mais solitária que podia e desejando, mais do que tudo, a presença de Oliver ali.
Horas se passaram, pessoas chegaram, uma série o cumprimentou sorridente e começou a falar sobre trivialidades, mas ele não estava naquele plano, e só acenava com a cabeça mecanicamente por educação. Estava se sentindo vazio demais para ouvir algo que não seu eco interior. Pediu licença e se retirou para uma outra saleta da igreja, com a desculpa de que queria treinar seu discurso mais um pouco no espelho, ver se o nervosismo passava.
Fechando-se na saleta, ele desabou na primeira cadeira que viu e ficou ali, derrotado.
