Capítulo 21 - O que é Amor?
O frio permanecia preso à noite, como se não tivesse mais nada a se apegar.
Enquanto isso, eu permanecia parada na frente da casa de Lira, como uma estátua.
-Melhor entrarmos, ou vamos congelar.
E Lira conseguia sorrir.
Enquanto me virava para ela, notava a Lua cheia ao fundo da casa de dois andares, pintada de branco. Via apenas duas janelas no andar superior, ambas apagadas.
Entrei logo depois dela, que parecia estar um tanto cansada da noite.
Estávamos na grande sala de sua casa, pela escada descia alguém apressado, um tanto familiar.
-Olá, meninas, sinto muito, mas tenho um chamado urgente pra atender... - Ele parecia apreensivo.
Ele pegava o agasalho que se encontrava no sofá.
Sim, reconheci aquele rosto. Era mesmo o homem que interrogou meus pais.
Mas como era mesmo seu nome?
-Lira, se precisar de algo, já sabe, é só me ligar.
-Sim, pai.
O homem já estava próximo da porta quando parou, repentinamente.
De sua boca saíram palavras tímidas, um tom completamente diferente do que ele havia usado antes.
-Quem a trouxe até em casa? - Ele encarava a porta, com uma das mãos na maçaneta.
-Meu namorado.
-Heiro, não é? - Ele mantinha o tom tímido e baixo.
-Sim.
E posso jurar que vi o homem sair cabisbaixo.
-Mary, acho que tem Pizza na geladeira. Que acha?
-Estou com mais sono do que fome. - Respondi, ainda olhando para a porta.
-Sobre meu pai, pode ficar tranquila, ele sabe se cuidar bem.
Pouco tempo depois, Lira e eu já estávamos na cozinha, comendo Pizza requentada no microondas.
-Existem muitas coisas que não entendo, Lira.
-Ãh?
Ela estava com um pedaço gigante na boca, não consegui conter o riso.
-Isso aí, dá risada mesmo. - Dizia ela, de boca cheia.
-Por que me disse pra me afastar do Heiro?
E Lira estava em silêncio, olhando para o chão.
-Por favor, me diz.
Os olhos verdes de Lira voltaram-se para mim.
-Você não nota?
-Não noto o que?
-Você não o viu naquela cama de hospital? - Ela parecia triste, olhava para a sala, sem fixar-se em nada.
-Desculpa.
-Tudo bem. - Ela colocava Catchup em outro pedaço - Ele está tudo bem agora, não é? - E sorria.
Também podia notar pelo homem que apareceu naquela noite, estava armado, parecia mesmo ser alguém perigoso.
Mas eu só queria ver as coisas por outro lado, como se quisesse que Lira fosse uma traidora...
Talvez eu não seja uma boa amiga.
Meu pedaço de Pizza ficou intocado por tempo suficiente para esfriar, mesmo assim, o terminei.
Subimos as escadas por onde o senhor Foster descera, sim, podia me lembrar de seu nome agora, estávamos no quarto de Lira.
Um quarto grande como o resto da casa, uma cama grande, uma cômoda grande...
Então dividimos a mesma cama.
-Lira...
-Eu! - Ela dizia levantando os dois braços.
-Você realmente... - Hesitei.
-Eu realmente...?! - Ela parecia muito feliz.
-Ama o Heiro?
Ela continuou com os braços levantados, olhando para as prórpias mãos.
Ficou assim por um tempo.
Em um tom de carinho, finalmente respondeu.
-Sim.
-Por que?
-Por ele ter me mostrado como ser forte, por admirar o modo como ele suporta a dor... - Ela ia abaixando os braços à medida que falava.
E fiquei presa em um surpreendente silêncio.
-Sabe, Mary... Ele me ajudou durante muito tempo, enquanto isso, não havia nada que eu fizesse por ele.
-Como assim?
-A gente trocava e-mails, bem, eu comecei com isso... Já o achava interessante e bonito, e um dia, enquanto mexia nos trabalhos da classe de sociologia, vi que ele tinha deixado o dele na capa.
-E como foi o primeiro e-mail?
-Ah! Eu estava tímida, disse que gostaria de conversar com ele, mandei um oi... Nada demais.
Tímida estava ela, só de falar aquelas coisas tão simples.
-E as coisas foram evoluindo, certo?
-De certo modo, sim. Eu fazia muitas perguntas, ele apenas respondia... Heiro nunca se deu conta de como me ajudava, de como achava a solução pros meus problemas.
-Ele se tornou uma espécie de melhor amigo?
-Bem mais, se eu já o achava interessante... Passei a amá-lo pelo bem que ele me fazia.
E sorri, pois entendia que Lira estava sendo sincera.
Ela o amava, não podia, não queria... Fazer nada para que Heiro ficasse longe dela.
-O que seu pai acha disso?
-Ele não aprova, mas sempre optou pela minha felicidade.
-Seu pai parece ser um bom homem...
-Sim... Mas Mary, me responde uma coisa?
-Claro.
-O que é o amor pra você?
E simplesmente me apeguei ao que sentia a Heiro para dar a resposta.
-É um sentimento forte e incontrolável, vontade de estar perto da outra pessoa o mais rápido possível. É sentir-se mal com o que faz mal a outra pessoa, é buscar o amor do outro... Acho que é isso.
-Engraçado, você fala como se estivesse em uma novela. - Debochou.
-Como assim?! - E bati o travesseiro nela, que riu ainda mais.
E a noite nos observou, calmamente, enquanto Lira ficava séria.
-Amor é algo construído aos poucos, e não um sentimento forte que vem do nada. Esse sentimento do qual você fala é paixão.
E eu continuava prestando atenção nas palavras de minha amiga, que de repente, pareceu ser ainda mais experiente do que de costume.
-Amor é construído a cada palavra trocada, a cada gesto de carinho, a cada crítica sincera. E foi isso que o Heiro fez comigo... Ela não ficou dizendo que me achava linda, que me achava perfeita, na verdade, ele sempre apontou alguns defeitos em mim, sempre me fazendo ser alguém melhor...
-Ele foi tão conselheiro assim?
-Ainda é...
-Se você diz...
-Ainda temos uma festa amanhã. - Ela cortou o assunto.-Melhor dormirmos então.
-Boa noite, Mary. - Disse Lira, jogando devolta o travesseiro na minha cara.
-Boa noite, bobona.
E meio a sonhos com camelos que viviam em amizade com sapos e coelhos, a beira de um rio enorme que ficava perto de uma pirâmide muito bonita, dormi serenamente.
