Capítulo 21 – Quebrando as amarras: Parte 2

Lily e Sirius estavam sentados na escada perto do Salão Principal, cansados e sem nenhuma etiqueta depois de serem os últimos, junto com Alice e Frank, a deixarem as masmorras. Ambos não estavam nem um pouco a fim de dormir, até porque ainda sentiam uma forte energia percorrer as suas veias. Sirius estava escorado em uma pilastra, os cabelos meio compridos sendo afastados dos olhos com uma sequência de sopros, o traje a rigor completamente desalinhado enquanto Lily massageava os pés sobre a meia, sentindo a brisa fria bater em suas bochechas quentes. Por mais que estivesse distraída, conseguia sentir os olhos de Sirius fixos nela, o que a atraiu para ele. Ambos trocaram um sorrisinho cúmplice por saberem que estavam revivendo mentalmente as palhaçadas que fizeram juntos na pista de dança da festa do Slugue.

- Não acredito que você consegue ser bizarra sem estar bêbada, Lilica. - Sirius comentou. Explodiu em risos e foi um pouco difícil ele recuperar o fôlego, pois a imagem da ruiva e da dança da girafa brotou na sua mente.

- Por que você está dizendo isso? - perguntou ela, com uma sobrancelha alteada. - Quem vê pensa que o Sr. Black estava muito comportado, todo antiquado, sendo que achei que você era um stripper ou algo do tipo.

- Garoto de programa?

O pescoço de Lily foi para trás, abobalhada com a informação de Sirius.

- De onde você aprendeu esse termo trouxa?

- Remus. - Sirius respondeu ao se recuperar do ataque de riso causado pela expressão de choque de Lily. - E tenho certeza que se eu rebolasse mais um pouco, você contrataria meus serviços.

A mão de Lily o tocou no joelho, dando um leve empurrão. Ela ria baixo, vencida pelo cansaço, mas sua mente ainda estava muito alerta.

- Ainda dá tempo. - Sirius continuou. - As badaladas da meia-noite já se cessaram e isso quer dizer que todo mundo foi dormir. Há apenas nós dois nesse amplo corredor para fazermos o que quisermos.

Sirius tocou a ponta do nariz de Lily e levou o tapa de sempre, o que o fez rir. Ele voltou a se recostar, observando as madeixas vermelhas dela caírem sobre seus ombros nus, em ondas. Agora o cabelo dela estava totalmente solto, pois a ruiva tinha retirado a presilha que segurava parte dele. Era impossível não querer tocá-lo para sentir novamente a maciez.

- Dança da girafa? Sério?

Eles gargalharam, tocando o ombro um do outro com gentileza.

- Eu não sei de onde tirei aquilo. Simplesmente surgiu na minha cabeça. - Lily tocou a própria testa com gentileza. - Você me contagia de maneira negativa, Sis.

- Vou encarar isso como um tremendo elogio, pois tenho sido uma ótima companhia para você, a garota ranzinza. - Sirius sorriu de canto. - Se eu soubesse antes que você era legal, teria insistido na nossa amizade antes.

- Mas, olha, Sirius Black sabe dizer coisas boas sem teor sexual.

- Não me provoque, Lilica - Ele ergueu o dedo em riste. - Sabemos que você está se segurando há muito tempo. Sinto que se eu triscar em você no lugar certo, vamos ter que lutar para nos desenrolarmos.

Lily não conseguia mais ficar envergonhada com o falatório insinuante de Sirius. Antes, era meio complicado lidar com os trocadilhos, especialmente quando o fato deles terem dormido juntos vinha à tona. Sim, era bem verdade que se ele a tocasse do jeito certo as coisas sairiam do controle, pois passou os últimos dias contornando cada aproximação dele. Ele ali, todo bagunçado e largado, olhando para ela, conseguia lhe fazer perder um pouco do juízo. Mas lutou até o fim contra o desejo e lidar com as indiretas e os comentários que muitas garotas considerariam impertinentes tinha sido o primeiro passo. O segredo era rebater com o mesmo nível de safadeza, algo que ela pegou o jeito por causa dele.

- Você foi o que se deu melhor na dança da girafa, Sis.

- Eu arraso em qualquer dança - disse Sirius cheio de orgulho. - Estou mentindo?

- Não, você realmente arrasa.

Lily concordou com um aceno de cabeça. Soltou um suspiro ao ver os primeiros flocos de neve caírem nos jardins de Hogwarts, pois achava aquela época do ano simplesmente muito mágica. Internamente, começou a contar os segundos em que começaria a sentir frio. Iria bater os dentes, de certo, ainda mais estando de vestido que não revelava muito do seu corpo. Mesmo assim, era um pedaço de pano fino, inútil para proteger alguém do inverno.

- O que foi? - perguntou Sirius ficando mais perto dela. Começou a observar os flocos também, apoiando os cotovelos nos joelhos.

- Estou cansada! - murmurou Lily sem olhá-lo.

- Do drama do James em cima da gente?

A afirmação chamou a atenção dela.

- De onde o Potter veio para fazer parte desta conversa?

- Foi meio difícil ter que fingir que estava tudo bem enquanto estávamos curtindo a festa. - Sirius começou a cutucar o botão aberto da manga da camisa. - A maneira como ele te olhava me deixou meio perturbado.

- Olhando de uma maneira que queria me matar?

Sirius deu um riso abafado.

- Não - Ele negou, seus olhos cinza vigiando a neve que começava a ganhar um pouco mais de força. - De uma maneira que te queria muito.

Fazia dias que James Potter não entrava como um assunto a ser discutido pelos dois. Sirius continuava a agir como se nunca tivesse tido um melhor amigo e Lily externou todo o drama, deixando algumas calúnias de James como um borrão desagradável na sua memória. Só o fato de Sirius tê-lo citado, um efeito negativo se apoderou do seu corpo, ao ponto de fazê-la engolir em seco. Não queria trocar a alegria da festa do Slugue pelo dramatismo de um mimado Potter. Literalmente, estava tudo muito bom para ser verdade.

- E o que isso tem a ver com este momento, Sis? - Ela virou o rosto para olhá-lo, notando como o rosto dele estava impassível. - Eu estava muito contente até você estragar tudo mencionando esse serzinho de quinta.

- Desculpe - um sorriso fraco brotou nos lábios de Sirius. - Foi mais forte que eu e eu tinha que comentar isso.

- Pois não comente mais.

Lily viu a testa de Sirius enrugar, os olhos dele fechados no formato de duas fendas. O tom de cinza escureceu e a ruiva sabia que ele estava começando a ficar irritado.

- Tudo bem. Desculpe por ter causado o seu belíssimo desconforto.

- Sirius.

- Eu já disse que está tudo bem.

Lily ficou quieta ao ver a irritação de Sirius bem mais nítida. Os pés dele começaram a batucar no soalho e ela teve que respirar fundo para não ser contaminada com a súbita inquietação dele.

- Não ligue para ele - disse Sirius, muito sério. - Ele está com ciúmes de nós dois, mas não admite. Eu acho que ele está usando a Marlene para tentar provocar alguma coisa em você.

Era óbvio que, uma vez que a pauta James e Marlene entrava em cena, dificilmente saía. Eles pouco falavam dos dois desde o episódio que presenciaram em Hogsmeade, o novo casal se abraçando e se beijando, na frente de todo mundo que passeava pelo vilarejo. Lily nunca comediu o quanto a visão lhe machucou até aquele momento. Era impossível fugir do olhar petrificado de Sirius. Um olhar de acusação que lhe dava calafrios.

- Você acha?

Sirius não queria entrar naquela conversa, mas a maneira como James olhava Lily parecia a única coisa que conseguiu reter da festa do Slugue. E isso o incomodou. Incomodou tanto que ele começou a beber escondido. Pouco, mas o suficiente para fazê-lo dançar como um stripper. Tinha quebrado a promessa de ficar sóbrio e, por ter sido um pouco inteligente em se conter, ficou consciente do que acontecia ao redor de um jeito mais alegre que o normal.

- Nada justifica o fato deles se agarrarem publicamente pela escola. É meio ridículo!

O silêncio sobre James e Marlene foi o que eles declararam de fase de aceitação, dias complicados, pois os sentimentos ruins sobre o ocorrido afloravam em momentos inoportunos. Geralmente, isso acontecia quando estavam calados, mas nunca tiveram a pachorra de tocar no assunto. Lily e Sirius tinham em comum não só o gosto pela música trouxa e bruxa da década de 70, mas sabiam ser ótimas muralhas para esconderem os próprios sentimentos.

Claro que isso viria com uma queda e eles não poderiam deixar de sentir que aquele era o momento para despejar o que sentiam, especialmente Lily que tinha que cumprir o trato feito com Marlene. Tinha que dar adeus ao Sirius, mesmo que fosse uma medida temporária.

- Isso quer dizer que você tem ciúmes da Marlene. - Lily afirmou, olhando-o com firmeza. - Minto?

- Eu não sou tão ciumento. - Sirius esticou as pernas. - Lilica, eu não sei lidar com sentimentos.

- E como você sabe que gosta da minha amiga? - Ela indagou. - Todos falam que você gosta dela, até mesmo Remus. E no Remus eu confio.

Sirius se moveu no degrau procurando uma resposta que fosse suficiente para a pergunta de Lily. Realmente não sabia lidar com sentimentos, pois sua família se incumbiu de destruir boa parte deles.

- Ela me atrai de uma maneira diferente - explicou Sirius, se sentindo tosco. - Por mais que brinque, não consigo me imaginar tratando-a que nem as demais.

- Sirius, você tem potencial para ser um bom namorado. Basta acreditar nisso! - pronunciou Lily, com firmeza.

Isso fez Sirius rir, o que deixou Lily sem jeito por ter captado o que ela jamais viu com tanta clareza nele: insegurança e amargura. Jamais tinha acreditado que Sirius fosse uma pessoa quebrada ao meio. Tudo bem que escutava muitas coisas sobre ele, especialmente no que condizia ao descaso da família Black. A vontade de tomar a mão dele foi tão grande que ela teve que se segurar, unindo-as sobre o tecido do vestido. Ainda tinha noção que qualquer aproximação dele era um perigo e ela queria continuar dentro da sua redoma de proteção.

- Você acha? - perguntou Sirius, depois de se recompor. - Sério mesmo, Lilica, que você acha isso de mim?

- Eu acho! - reafirmou Lily, oferecendo um sorriso a Sirius. Tentou ser compassiva, mas em vão. Algo dentro dela relacionado a ele começou a fazê-la se sentir sufocada e ela não sabia bem o quê.

- Você não faz ideia do quanto é um cara legal, Sirius - Ela queria que ele se sentisse melhor e nada mais justo do que dizer a verdade. Ao menos, do ponto de vista dela. - Você gosta de ficar se automutilando, achando que nada está certo ou que você não é suficientemente bom para conquistar algo. Eu sei que você possui uma autoconfiança extrema, mas deveria usá-la para outros assuntos, como para conversar dignamente com seu melhor amigo.

Sirius riu debochado.

- Isso nunca vai acontecer.

- Por que não?

- Porque ele teoricamente me odeia.

- Ele só te odeia porque passo muito tempo com você. Por isso, eu acho que devemos nos separar um pouco Sirius.

Ele foi pego de surpresa com a afirmação direta da ruiva.

- Não quer mais brincar de ser minha amiguinha? Não quer mais compartilhar seu lanche comigo?

Lily riu e lhe deu um tapa no ombro, balançando a cabeça negativamente, se perguntando o que fez para merecer a companhia de alguém como Sirius, que fazia beicinho para reforçar o peso da chantagem.

- Sis, isso é sério. - Lily tocou o joelho dele, fazendo-o mudar a expressão facial de novo. - Potter pode ter me desejado a noite inteira, mas o tesão dele é você.

- Socorro, Lilica, você soou como eu.

Eles riram, se cutucando como duas crianças insolentes.

- Ainda podemos ser amigos, mas só depois dessa situação insuportável ir embora. Assim, para sempre. - Lily falou com veemência. - Potter não vai voltar a falar com você por minha causa e isso não está certo. Diga-me, onde você vai dormir quando Hogwarts acabar? Na casa da família Black que não é.

Sirius soltou um suspiro, quase arrependido de ter compartilhado muitas coisas da sua vida com Lily. Claro que tinha sido ótimo dividir o dilema que lhe consumia todos os dias, pois deixou de ser bem quisto pela família e foi convidado a se retirar por ondem da sua odiosa mãe. Desde então, vinha morando na casa dos Potter, mas, durante toda aquela confusão, não cogitou a parte de ficar desabrigado. Agora que a realidade bateu de frente, percebeu que não se importava, pois sabia que era bom na arte de se virar. Tudo bem que ele encontrou em Lily um apoio que lhe ajudou a compreender muitas coisas, especialmente da sua realidade, o que o fez encarar a súbita necessidade de parar de reviver o passado. Os amigos e as mulheres eram praticamente uma válvula de escape da trágica realidade que se encontrava e Lily tinha se tornado um ponto fixo, o ponto que o fazia colocar os pés no chão.

- Lily, eu não ligo pra ideia de ficar desabrigado. Meu tio Alphard me deu uma grana e eu posso me virar com ela. Eu sempre me virei, na verdade. Nunca fui coroado como filho exemplar como James.

Lily se lembrou de fragmentos da conversa de Emmeline na festa. James era o garoto de ouro, que todas as pessoas queriam por perto. Estudando o rosto de Sirius, podia entender um pouco mais da atitude dele usar, literalmente, a beleza a seu favor. Mas ele precisava entender que essa atitude o desvalorizava.

- Eu fiquei entre vocês dois, de supetão. Sis, - Ela não resistiu e pegou a mão dele. - Vocês têm uma longa história que não pode ser finalizada desse jeito. Vocês sempre precisaram um do outro. Por mais que tenha sido muito divertido estar ao seu lado, eu não gosto de vê-lo magoado com o Potter, ainda mais sabendo que você sente falta dele. Ainda mais sabendo que aquele trasgo também sente a sua falta. Ainda mais por saber que vocês são dois espécimes orgulhosos que me deixam nos nervos.

- Lily, o discurso tá lindo, mas eu não sinto falta dele. - Sirius afirmou, sem muita certeza, revirando os olhos.

- Sirius! - Lily enfatizou o nome dele, olhando-o emburrada.

- Ok! Talvez, um pouco!

Lily riu baixo, ainda com a mão de Sirius enlaçada na sua.

- E, além da amizade, eu não admito ser uma Sra. Black. Não está nos meus planos. - Lily disse com um sorriso afável. O toque da mão dele contra a sua era bom, lhe dava uma sensação incrível de que pelo menos alguém gostava dela nem que fosse um pouco. - E sua família odeia sangues-ruins, então, estaríamos fadados a dar errado.

- Aí que você se engana. Minha prima mais querida está se agarrando com um sangue-ruim e ela disse que ele é bom de cama. Não poderia concordar mais.

Lá estava ele, desviando a atenção dele para ela.

- Obrigada pelo elogio, mas não mude o rumo da conversa.

Sirius suspirou, cansado.

- Antes de voltarmos a esse assunto, eu tenho que lhe dizer para parar de se sentir inferior por ser sangue-ruim. - Sirius ficou muito sério. - Snape é um verme que não sabia de nada do que estava falando quando as cuecas dele foi uma exposição gratuita aos alunos de Hogwarts. E que cueca horrorosa, vamos combinar.

Lily não queria rir, pois ainda respeitava Snape simbolicamente, mas cair na gargalhada foi inevitável.

- Ok! - Ela se recuperou segundos depois, com a mão livre repousando na barriga. - Não vamos entrar neste assunto, ok?

Ele captou mágoa nos olhos dela.

- Lily, você é incrível. Abrace esse lado sangue-ruim e cuspa na cara dessa sociedade preconceituosa. Eu adoraria que você fosse a minha Sra. Black, justamente para gerar polêmica. Adoro polêmica. E, claro, para ajudar a derrubar essa visão estúpida contra os nascidos trouxas. Ao menos, parte dessa missão pertence a minha prima Andrômeda. Sei que ela honrará isso.

A mão de Lily apertou mais a de Sirius e ele tomou coragem para enlaçar os dedos.

- Voltando ao assunto atual, quer dizer que você está gamada em mim? - perguntou Sirius tentando animar aquela conversa, mas estava complicado. O clima estava pesado depois que a pauta sangue-ruim entrou em cena e Lily ficou muito cabisbaixa, o que o fez se sentir culpado.

- Não, mas posso chegar lá. Ando meio carente. - Lily deu um riso abafado.

- Podemos curar isso já. - brincou ele meneando a cabeça positivamente.

- Você só pensa em sexo - Ela soltou a mão dele com certa dificuldade. Percebeu que tinha que ficar um pouco afastada de Sirius ou perderia a cabeça mesmo estando sóbria.

- Sexo é minha válvula de escape - afirmou Sirius alisando os cabelos negros. - Você pode não se lembrar, mas eu adoraria um momento nostalgia para você saber de fato o quanto mando bem.

Lily deu um sorriso enviesado. Ela sabia que ele mandava bem, pois lembrava perfeitamente do que tinha acontecido. Porém, não seria agora que daria uma de louca e afirmaria que se lembrava. Arruinaria tudo.

- O que aconteceria se eu ficasse gamada em você? - perguntou Lily por curiosidade.

- Eu acho que você sofreria, pois seria honesto contigo.

- Honesto em que sentido?

Sirius virou o corpo, apoiando as costas na parede fria. Vislumbrou o rosto de Lily, as bochechas ainda vermelhas.

- Eu não conseguiria ser um bom namorado para você, Lily. - Sirius cruzou os braços, atraindo a atenção dela. - Você é muito boa para mim. Eu me sentiria constrangido só em tentar circular de mãos dadas com você no meio da escola. Eu seria péssimo com cantadas, elogios... Eu ficaria travado.

- Teria vergonha de mim, é isso? - Lily perguntou encarando-o divertida.

- Jamais teria vergonha de você, Lily - afirmou Sirius com veemência. - Você escutou algo sobre eu lhe dizer que você é incrível? Ah! - ele riu ao ver a cabeça dela balançar. - Esse é o máximo de elogio que você tirará de mim. O próximo só daqui 1 ano.

Eles se encararam em silêncio.

- Me sinto aliviada - disse Lily em um tom lisonjeiro. - Mas eu faria de você um bom namorado.

- Lily, você é a única pessoa que confiou em mim, algo que nenhuma garota normal faria.

A ruiva se virou para ficar frente a frente com Sirius. Ajeitou o vestido e afastou os cabelos do rosto.

- Você me protegeu depois do que aconteceu entre nós dois. Isso foi incrível, Sirius. Não sei como você pode afirmar que não é bom com sentimentos ou com a ideia de ser um bom namorado. Você é excepcional e acredito que deveria esquecer as coisas do passado e construir sua vida. Ela pode ser repleta de bebês com a Marlene.

Lily ergueu as duas sobrancelhas rapidamente em uma expressão sapeca.

- Só você mesmo para me dizer essas coisas.

Sirius tirou as costas da parede e diminuiu a distância entre Lily e ele. Podia ouvir a respiração calma e compassada dela e contar as sardas que agora estavam em evidência por causa da falta de maquiagem. Em poucos minutos em que ficou admirando aqueles olhos verdes e intensos presos nos dele, imaginou se tivesse sido ele o primeiro a gostar dela. Antes de James. Não teria que fechar uma porta que simplesmente se abriu para voltar ao seu posto de pegador da escola. Lily foi a primeira a tratá-lo como um ser humano de respeito, acreditando em seu potencial. Isso era bom demais para ser verdade.

- Eu acho que gamei em você por breves dias, Lilica.

As bochechas de Lily ficaram mais vermelhas e ela levou à mão a boca, abafando um riso.

- Eu sou irresistível - pronunciou ela cheia de si.

- É, você é mesmo.

Ela cessou o riso voltando a mergulhar naqueles olhos acinzentados que pareciam um buraco negro naquele quase breu. A tristeza de ter que se afastar da única pessoa que esteve ao lado dela, surpreendentemente depois de um incidente que poderia torná-la mais amarga, era o mesmo que arrancar um bom pedaço do seu coração que, naquele momento, parecia uma batedeira no seu peito. Sirius se tornou especial de uma maneira que ele jamais saberia e guardaria esse sentimento com ela.

- Acho que vou para o dormitório. - Sirius se levantou e pegou seu casaco do chão. Gentilmente, cobriu os ombros de Lily. Nem precisou esperar por agradecimento, pois ela puxou o pedaço do pano para mais junto do corpo, ficando encolhida.

- Mais já? - perguntou Lily, desacreditada. - Você está livre para pegar quem você quiser, Black.

- Vai me tratar assim agora, é?

Ela riu, colocando-se em pé com dificuldade por causa do vestido. Aproveitou para colocar os sapatos, quase caindo do degrau.

- Estou brincando, Sis - disse Lily rindo.

- Acho bom mesmo ou vou te infernizar para o resto da vida. - Sirius tocou a ponta do nariz da ruiva fazendo-a fechar os olhos por alguns segundos.

- Eu não reclamaria. - Lily deu de ombros e pigarreou. - Acho que também vou me redimir aos meus aposentos.

- Certo! - Sirius colocou as mãos nos bolsos e deu um meio sorriso. - Boa noite, Lilica.

- Boa noite, Sis!

Lily ergueu a mão, acenando. Ficou parada, esperando ele sumir de vista para poder seguir o mesmo caminho. Poderia ter ido com ele, mas precisava liberar seus pulmões do excesso de ar que a impedia de respirar direito. Agora que se via sozinha, foi meio difícil não sentir o peso daquela decisão, sendo que havia mais uma coisa para dizer a Sirius. No final das contas, percebeu que nada do que falaria mudaria alguma coisa. Sirius precisava de James e essa era a decisão final.

Quando fez menção de caminhar, ouviu passos que pareciam vir na sua direção. Reconheceu Sirius na penumbra e o olhou desentendida.

- Vai querer o casaco? - perguntou Lily, torcendo para que ele negasse, pois não estava gostando daquele vento nas suas costas.

- Não! - ele continuou a caminhar apressado, vendo os olhos dela se arregalarem devagar. - Eu preciso saber se uma coisa que aconteceu entre nós dois foi real.

- O quê? - Lily o olhou aturdida.

A resposta não veio. Sirius a segurou pela cintura e arrematou seus lábios quentes e ágeis na boca dela. Ele a segurava com força, impedindo-a de se desequilibrar. Não fazia ideia de onde tinha vindo aquela coragem, mas simplesmente não podia ir dormir sem fazer aquilo. Sem sentir os lábios de Lily nos seus de novo, sem sentir o perfume sempre doce que vinha dos cabelos ruivos. Sem sentir os dedos dela percorrendo seu corpo com delicadeza. Simplesmente a agarrou, possessivo, e começou a beijá-la com urgência.

Quando se deu conta do que acontecia, a mente de Lily foi dominada pelas lembranças da noite em que dormiu com Sirius, emendadas a outras que vivenciou nos últimos dias com ele. Isso a fez despertar para o que realmente acontecia e, quando sentiu a língua dele tocar a sua, cedeu, correspondendo lentamente, respirando vagarosamente, enquanto o ajudava a intensificar aquele gesto que era muito mais verdadeiro que todos aqueles que compartilharam na Sala Precisa sob o estupor do firewhisky.

Lily teve que tomar cuidado para não cair, pois estava perto da escada. Sem saída, segurou Sirius pela gola da camisa e sentiu o braço dele abraçá-la pela cintura, com força. Ela se viu sendo arrastada às cegas pelo corredor, suas costas sendo coladas na parede, o corpo de Sirius a pressionando. Os corpos se chocaram em uma urgência que ambos conheciam. Eles não estavam bêbados para saber que queriam um ao outro e a situação se tornou mais complicada quando os lábios foram incapazes de se despregarem.

Foi impossível conter um suspiro quando Sirius ergueu uma das suas pernas e a enlaçou na cintura dele. Lily se contraiu quando as mãos dele começaram a passear pelo seu corpo. Sua mente trabalhava a mil por hora e ela não conseguia pensar em algo racional que a fizesse empurrá-lo. Por mais que um lado da sua mente avisasse que aquilo era errado, Lily sabia que era gostoso e queria mais.

Depois de semanas ao lado dela, Sirius se admirou por ter se segurado toda vez que a tinha por perto, toda vez que via seu sorriso e escutava suas lamúrias. Queria que aquele momento fosse real, já que ela não se lembrava de tudo que compartilharam quando estavam na Sala Precisa. Conforme a tocava, queria que o tempo parasse, pois eles dois, daquele jeito, era como uma bebida de uma única dose. Era quente, impetuoso, perigoso como o firewhisky. Queria parar, jurava que queria, mas quando os dedos dela se emaranharam em seus cabelos, ele já não tinha mais condições de interromper.

Mas algo lhe ocorreu: estavam no corredor. Não podia passar dos limites ali por mais que quisesse. Era Lily Evans que estava em seus braços.

Ela tinha encerrado a amizade deles. Uma pausa. Uma pausa que faria James entrar com tudo, sem pedir licença. Que desejo era aquele entre eles, afinal? Uma boa dose de ilusão, pensou, se separando duramente de Lily, ofegando. Para não cair em tentação de novo, apoiou as duas mãos na parede, com força, sentindo a pedra rasgar a pele. Lily estava sem fôlego também, o peito arfando, enquadrada e sem saída. Sirius olhou bem o rosto afogueado dela e lhe tocou o nariz, recebendo como resposta o beijo final da ruiva que o puxou para mais perto, sinalizando que não queria que ele fosse embora.

Foi simples agora. Eles se soltaram e se fitaram, estudando um ao outro. Lily viu um brilho fugaz nos olhos cinza dele, as narinas infladas, indicando a dificuldade de respirar. Sirius permaneceu quieto, observando os lábios vermelhos e agora inchados da ruiva que, mesmo com a interrupção, ainda estava agarrada a ele.

Sirius foi surpreendido pelos braços de Lily em torno da sua nuca. Achou que ela o beijaria, mas ela o trouxe para o conforto de seus braços. Novas sensações o agitaram por dentro e ele fechou os olhos pedindo para que todas elas fossem embora.

Repentinamente, deu alguns passos para trás, deixando-a.

Não precisava que nenhum dos dois dissesse algo para anunciar o fim.


N/A: Capítulo novo, um presentinho para o final de semana. Acho que quem gosta de Sirius e Lily deve ter gostado da dinâmica final deles - ou não Hahahaha. Agora, caí na real de que a pegação acabou e que daqui por diante os quatro terão que correr atrás dos cacos que deixaram no caminho. Acredito que será interessante.

Devo dizer que fiquei tão contente com os últimos reviews, pois sempre acho que ninguém lê. Mas isso não tem nada a ver com a demora em postar, mas é uma questão de cronograma apertado. Confesso que tudo está pertinho de terminar e, enquanto isso, vou pensando em alguma nova fic na Era dos Marotos para matar o tempo. Ainda penso na continuação, pois não dá para Lily e James se gostarem de um capítulo para outro. O processo com esses dois é bemmmmm lento hahahah

Então, eis aqui meus agradecimentos:

Samara: Em certos momentos, até eu sinto vontade de dar umas porradas no James, mas as coisas melhorarão daqui pra frente. Ah! Que alegria vc ter encontrado a fic de novo. Fico feliz por isso e pelo review tbm. Obrigada.

DryMartini: Se é uma coisa que tenho certeza é que em Hogwarts dá para fazer mta safadeza oculta Hahahahahaha. Há muitos lugares para se brincar e os marotos deveriam saber de TODOS. Sério que você curte James e Marlene? Acho que das pessoas que deixam reviews vc é a única junto com uma amiga minha que ama os dois juntos. Se não me falha a memória, a conversa entre Sirius e James acontecerá no próximo capítulo, como tbm uma entre Marlene e Lily. A entrega dos presentes terá aquela cara de amigo Páscoa, pq eu tinha pensado em terminar esta fic no Natal de 2012 HAHAHAHAHA. Beijos, Dry, obrigada pelo comentário.

Larii: Seja bem-vinda a este universo de safadeza oculta Hahahaha. Obrigada pelo elogio e pelo comentário de coração aberto. Quando comecei esta fic, ela tinha uma ideia totalmente diferente e fui me guiando. Acabei em um caminho que não esperava, pois, confesso, não sou grande fã do Sirius e sempre deixei o personagem para escanteio na maioria das minhas fics dos marotos. Eu até fiquei surpresa comigo mesma em tentar arriscá-lo em interações nada puras com a Lily e eu acabei gostando. A fic nasceu com o propósito James e Lily, mas os empecilhos para que eles ficassem juntos surgiram dessa forma meio estranha. Há bastante sobrancelha alteada sim, pois afirmar que sou Jily de coração possa soar impossível por eu ter tirado a Lily do James, mas eu nunca imaginei nenhum personagem da Rowling como um perfeito santo. Não é pq a Lily é inteligente e mandona que ela era incapaz de namorar ou ficar com outros caras. Pra mim, ela nunca foi intocável. As coisas agora vão seguir um fluxo de finalização. Como disse na minha N/A deste capítulo, penso em estender a fic, pois não dá pra fazer Lily e James se gostarem de uma hora pra outra. É algo que precisa crescer. A fic inteira foi um desafio, pois nunca tinha causado um "estrago" deste tipo entre os marotos Hahahahha. Adorei seu comentário, mto obrigada mais uma vez, e espero que continue a ler a fic.

7Miss7Butterfly7: Vc é aquele tipo de pessoa que me deixa embaraçada Hahahaha mas de um jeito positivo, claro. Eu gostaria de fazer capítulos eternos, mas tem que segurar o drama, oras Hahahha. Espero que tenha gostado deste capítulo, pois foi um amorzinho escrevê-lo. Vc mereceu todos meus presentinhos online de aniversário.

Jacke: Só pra dizer que morro com seus tweets, especialmente qdo posto capítulo novo. Eu adoro fangirling na TL Hahahahaha. Espero que tenha gostado de Blevans.

Beijos suas lindas. Até a próxima.