Chapter XX
- Karl, eu sei que você não gosta dele, mas eu realmente preciso ver Matteo, Aro pode mandar matá-lo por ter falhado em seu dever. – Disse devagar, medindo as palavras, ele já me provara que não gostava sequer um pouco de Matteo e eu definitivamente não queria colocar tudo a perder, não agora que estávamos juntos deitados em seu sofá, seu rosto afundado em meu peito, minhas mãos em seu cabelo. – Eu juro que volto assim que der.
- Você não precisa voltar. – Ele disse me surpreendendo completamente. Não fora ele quem desistiu primeiro?
- Karl, por favor, não estrague isso, acabou, não dá mais, eu cansei de fingir que sei viver sem você. – Ele se sentou e eu me sentei ao seu lado, seus olhos fugindo de mim. Minha voz saiu dura, a verdade saindo de mim como quem arranca um espinho da pele.
- Você não vê Elle? Eu arrumei outra maneira de te magoar, não só emocionalmente como fisicamente. Olha para seu corpo, eu te machuquei, todo seu corpo está cheio de marcas das minhas mãos. – Quando ele acabou de dizer meus olhos caíram sobre a minha pele, roxos e mais roxos estampavam meus braços, pernas, barriga, tudo. Em alguns lugares eu podia contar cada dedo dele. – Eu não posso mais fingir que sei me controlar ao seu lado. – Culpa dominou sua língua, ele não podia estar falando sério. Eu sou uma mestiça. Daqui a três horas nem existiram mais marcas para contar história e ele não me machucou, não de verdade, eu sequer senti dor alguma, eu só o sentia em todos os cantos do meu corpo e gritava por mais.
- Eu não me importo, não mais. – Declarei, desespero tingindo minha visão, eu podia sentir ele escapando de minhas mãos novamente, escorregando pelos dedos.
- Eu não quero mais te ver assim Elle e se pra isso é necessário que você fuja de mim toda vez que eu cruzar seu caminho. Eu aceito. – Ele disse duramente, forçadamente, se enganando, fingindo, mentindo descaradamente, seu dedo contornou a marca de sua mão em meu ombro e eu entendi de a que dor ele se referia, não era a física, era a dor dentro de mim, os insultos, as mentiras, a farsa, ele não conseguia mais fingir que não cairia no mesmo erro.
- Você está desistindo de mim? – Eu quase sorri, me lembrando dele dizendo que nunca desistiria de mim, nunca, eu sabia que esse dia chegaria, só não sabia que seria sobre tais circunstâncias tão difíceis e complicadas.
- Não, eu estou lhe dando a oportunidade de fingir que nós dois nunca existiu. – Minha sombra de sorriso desapareceu no mesmo instante. Fingir que nós dois nunca existiu? Senti vontade de gritar, assim como ele fez. Vontade de lhe dizer que aquilo não fazia sentido, vontade lhe beijar e lhe mostrar que isso não podia ser apagado.
Me levantei e comecei a procura pelas minhas roupas, nervosismo em minhas mãos, meus olhos varrendo o chão, me ocupando em fugir de seu olhar. O que eu podia fazer? Brigar mais? Me magoar mais? Ele pediu para eu não voltar, assim eu faria, estava cansada disso, cansada dessas nossas batalhas travadas dentro de nós mesmos, não queria lutar mais, eu só queria me trancar em meu quarto e dormir com a cabeça escondida pelo travesseiro, eu só queria sumir. Eu não estava encontrando minha blusa em canto algum, somente achava uns restos de pano, ah sim, essa era minha blusa, suspirei cansada, e agora? Com o que eu sairia daqui? Vi sua sombra se mover, se levantar, derrepente ele estava a minha frente, sua camisa em suas mãos, a passou epla minha cabeça e braçoz, a vestindo em mim. Precisei levantar meus olhos e vê-lo mais uma vez, ele encarava meu rosto em um misto de culpa e vergonha.
- Acho que podíamos ter um ultimo beijo, um de despedida. –Sua voz soou aflita, cansada também. Assenti levemente antes de me aproximar mais e selar seus lábios com os meus. Foi um beijo devagar, doce, quente, aquele meu beijo errado, ele nunca me pareceu tão certo, tão bem utilizado como agora. Era como nosso ultimo soneto de amor, uma despedida oficial, finalizada, encerrada.
- Eu sempre vou te amar. – Sussurrei, meus dedos contornando a linha de seus lábios instintivamente, gravando cada curva em minha memória.
- Sempre. – Ele sentenciou. Minha mão caiu ao lado de meu corpo como uma ancora pesada, uma lágrima discreta escorreu pelo canto direito de meu rosto, disfarcei, escondi, ele não precisava disso.
Dei as costas e sai, o deixando sozinho, me deixando sozinha, não parei de andar até estar longe o suficiente para poder me deixar escorregar por uma parede, abraçar meus joelhos e chorar. Chorar. Porque eu ainda chorava? Eu já não estava acostumada a isso? A perde-lo? Quase ri só de lembrar que a dez minutos atrás eu acreditava que essa dor em meu peito havia se extinguido. Eu queria sair daqui, eu queria ir para algum lugar deserto e morrer sozinha, eu queria, mas não podia, não sem antes tirar minha mãe desse inferno, depois que ela estivesse fora, eu pensaria o que fazer com essa minha vida medíocre, quem sabe cometer algum crime? Aro adoraria arrancar minha cabeça fora com as próprias mãos.
- Electra, o que aconteceu? – Matteo disse chocado, suas mãos quase tocando minha pele, seus olhos preocupados.
- Me deixa em paz. – Gritei. Um ódio desconhecido governando minha voz. – Eu não quero uma sombra. – Ele me encarou culpado.
Me levantei mais que depressa e corri para o único lugar que eu ainda tinha sob meu controle, meu quarto, é meu quarto, talvez ainda estivesse com o perfume de Karl nos lençóis ou mais alguma peça de roupa. Entrei e me joguei sobre a cama, seu perfume estava lá, em todo o lugar, fresco, ele devia ter vindo ali por esses dias, abracei o travesseiro e continuei com meu choro aturdido. Não demorou muito para Matteo me achar, ele não se aproximou de mim, se sentou na poltrona e parecia estar completamente sem ação.
- Alguém te machucou? Você está cheia de hematomas. – Ele perguntou cauteloso, curioso, assim que minhas lagrimas secaram.
- Ninguém me machucou. – Minha voz saiu dura, mas que o habitual.
- Esses hematomas não podem ter simplesmente aparecido em sua pele, o que aconteceu? – Curiosidade idiota, eu era assim tão irritante?
- O que aconteceu? – Eu quase ri com escárnio, ele me encarava hipnotizado. – Sexo, foi isso que aconteceu. – Ri de uma vez, o riso hipócrita de Aro.
- Karl fez isso com você? – Ele perguntou chocado. Assenti, o sorriso ainda em meu rosto. – Como você pode continuar com ele?
- Como eu posso continuar com ele? Você já amou Matteo? Você sabe o que é não ter controle sobre suas ações, sentimentos ou sequer pensamentos? Tudo em você é a outra pessoa, tudo que você faz durante o dia é para a outra pessoa, você vive por ela. – Cada palavra saiu de meus lábios com uma nota singular de irônia.
- Eu poderia saber o que é amar se você me permitisse. – Ele disse mais para si mesmo, se eu não estive tão silenciosa como uma tumba, talvez não tivesse escutado.
- Você não me ama. Me querer nua em seus braços não é amor. – Sarcasmo. Eu era a única que não me reconhecia mais?
- Eu não quero só isso de você, eu quero muito mais. – Ele disse quase como um pedido de desculpa. Eu ri deliciosamente.
- Você me ama? – Me levantei da cama e segui para a poltrona. – Então me mostre esse seu amor Matteo. – Eu estava sentada em seu colo, meu nariz colado no seu, seus olhos me encaravam tão surpresos que chegavam a quase se tornarem negros. – Eu não gosto de esperar demais por um beijo garoto.
Ele fechou seus olhos e tocou minha boca com a sua, se movimentando devagar, sua mão subindo pelo meu cabelo, eu não conseguia me movimentar, não conseguia sequer fingir que ele era Karl, eu só sentia um instinto de empurrá-lo que estava me sendo dificil de controlar, decidi somente esperar ele acabar. Coisa que parecia nunca acontecer, ele brincava com meu cabelo, contornava a linha do meu rosto, em movimentos alternados que estavam me cansando. Ele não era Karl, não chegava nem perto.
- Acabou? – Perguntei assim que seu rosto se afastou do meu, seus olhos estavam duros. – É isso que você chama de amor?
- Elle... Você não quer me amar, eu nunca serei ele para você. – Sua mão desceu pela maça de meu rosto. – Você não quer seguir em frente. – Ele sentenciou, seus olhos pareciam tão mais velhos que sua idade, que seu rosto de criança, ele parecia um homem, que sabia muito de tudo e pouco do nada, um homem.
O abracei, afundando meu rosto em seu ombro, me aconchegando em seu corpo, eu estava tão sozinha sem ele, era como ser presa em um espaço de um por um, claustrofobia me atingia, me pressionava, me esmagava, me matava. Mas estar ali com Matteo era como ter um buraco nesse pequeno espaço por onde a luz do sol entrava. Ele me esquentava me dava a promessa de esperança.
- Me desculpa Matteo... Eu estou cansada... Disso tudo... De não ter mais ele. – Disse encontrando dificuldade em juntar todas as palavras.
- Eu sei. Eu sei. – Ele acariciava minhas costas. Subindo e descendo, nunca parando, até eu finalmente cair no sono.
Não demorou para aquele meu sonho familiar tomar minha consciência, o fogo, o calor, seus olhos, a morte, tudo passando rotineiramente, me torturando lentamente. Consumindo o pouco que sobrava de minha alma. O final é que me surpreendeu, me chocou.
Eu me encontrava em um corredor escuro, o fogo subindo pelas paredes, queimando a tapeçaria, lá longe eu o vi, uma criança, um bebe de olhos castanhos mel me encarou, estava sozinho, encurralado pelas labaredas de chamas.
E a sensação dentro de mim era como se ele estivesse me pedindo algo, me gritando, socorro, ajuda, eu arfei, eu tinha que ajudá-lo, ele era indefeso demais, pequeno, mínimo, eu tinha que tirá-lo dali. Me joguei em direção as chamas, faíscas tilintando em minha pele, não me importava, tudo se tratava agora somente daquela criança. Eu a queria segura. Em meus braços.
Acordei, meu peito subia e descia insandecidamente, reparei que estava chorando, a região em volta de meus olhos úmida pelas lágrimas, Matteo não estava no quarto, devia estar tendo seu encontro com Aro, seu encontro... Essa vez ele não escaparia. Me levantei correndo e abri a porta, como eu esperava lá estava Karl, capturando meu talento.
- Bom dia. – Ele disse inseguro.
- Vamos esquecer a noite de ontem? Por que esquecer nós dois simplesmente não dá. – Coloquei as cartas na mesa, ele mordeu seu lábio, encarou o chão.
- Elle... – Eu sabia que ele iria começar mais um falso discurso de como eu devia viver sem ele.
- Cala a boca. Por favor. Entra. – Eu não sei se foi meu tom autoritário, decidido, ou a cena montada a sua frente, mas ele se calou e entrou, eu fechei a porta. Ele se sentou na cama, fui até seu lado, entrelacei minha mão na sua. Segura, salva, casa.
- Você ia esconder sua mente de Aro de novo? Quer perder a outra perna? – Eu ri, de verdade, um sorriso que eu gostaria que Matteo estivesse por perto só para ver.
- Na verdade eu estava criando coragem para bater na porta. – Ele também sorriu, ele também havia visto que aquela loucura não podia durar mas muito tempo.
- Você precisa conhecer minha mãe, ela é tão engraçada e doce... Eu acho que ela gosta de mim. – Soltei sem pensar, somente deixando acontecer, como se toda aquela dor nunca tivesse acontecido.
- E quem não gosta de você? Até Aro tem uma quedinha... – Ele me empurrou com seu ombro, rimos juntos de uma maneira que eu pensei que jamais se repetiria. Era como se estivéssemos em Seattle novamente. Felizes só por estarmos juntos.
Matteo abriu a porta e nos viu rindo, seu rosto endureceu, me lembrei de nosso beijo na noite anterior, não sei onde estava com a cabeça, de onde tirei aquela ideia, Karl apertou mais sua mão a minha. Eu precisava contar para ele sobre o ocorrido, só não sabia como nem por onde.
- Você... Você quer seu... Café da manhã? – Ele perguntou encontrando dificuldades para juntar tudo em uma só pergunta. Assenti e ele sumiu do quarto o mais rápido que pode. Culpa tingiu minha mente.
- Você não parou de usar o colar. – Karl notou, meus olhos caíram sobre o coração de rubi.
- É o nosso coração... Ele bate por nós dois. – Sorri timidamente. Ele retribuiu o sorriso, um sorriso sincero.
Acabou, essas nossas pequenas batalhas, acabou. Cansamos, desistimos, abrimos mão de nossa razão e certezas. Ficar junto era bom, era fácil, doce, era nós. Seu braço livre passou por de trás de minhas costas e me aconchegou em seu tronco. Quieto, calmo, minha felicidade era tão grande que não podia ser só minha, não podia ser nem de nós dois, era algo maior que nós que nos envolvia nesse momento, como se a lua batesse palmas ou o sol pedisse bis. Aqueles olhos indefesos de meu sonho voltaram para meus olhos, mas que sonho mais triste para se ter. Quem era essa criança? O que ela estava fazendo em meu sonho se nunca a vi? E por que ela continuava sendo assim... Tão familiar?
