Cap 16. Um fim e outro começo I
Sua vontade de gritar e mandá-lo embora ficou presa na garganta e várias perguntas se formaram em sua cabeça, mas ela sequer tinha a intenção de pronunciá-las. Encarou Naruto por breves minutos, mas não tinha certeza da expressão que seu próprio rosto demonstrava.
- Não sabia que estavam dando uma festa sem mim – o loiro gracejou se aproximando do centro do grupo.
Orochimaru fez um aceno com a mão e no mesmo instante e a mulher começou a revistá-lo. O homem magro próximo a ela apagou o cigarro com uma expressão triste e foi ajudá-la. Logo eles encontraram a arma escondida sob a blusa de Naruto e a retiraram.
O loiro suspirou vendo sua última chance de salvação sendo tirada dele.
- Você é mesmo imprevisível – Orochimaru sentenciou – Imaginei que você já estivesse longe, muito longe daqui.
- Já me disseram isso – ele pareceu pensar e deu de ombros – Mas como você vê, eu estou bem aqui.
- E por que voltou?
- Eu não sou covarde, sabia. Além do mais, eu seria facilmente preso se fugisse sem ajuda.
- Então por que só apareceu agora? – Kabuto interrompeu.
- Estava esperando para ter certeza de que eu não era vigiado.
- Nesse caso, bem vindo de volta! – Orochimaru abriu os braços solenemente – Chegou bem na hora.
Mais um aceno de mão veio dele e imediatamente Kabuto e o casal derrubaram litros de um líquido de cheiro forte e cor levemente amarelada, que Naruto supôs ser gasolina, por todo o local e em volta de Hinata.
Orochimaru se aproximou e lhe estendeu uma arma.
- Sabe, vamos ter que fugir um pouco às pressas graças à sua amiguinha – ele deu um sorriso sinistro que fez Naruto se arrepiar mais do que todo o frio que estava sentindo – e, você sabe, protocolos são protocolos... Temos que apagar todo e qualquer vestígio...
Naruto pegou a arma espantado. Sentiu a mão fria de Orochimaru sobre a sua, fechando seus dedos em volta da pistola e posicionando-a na direção de Hinata.
- Por favor, seja breve.
Orochimaru deu uns passos para trás, olhando da morena para o loiro com profunda expectativa.
Naruto respirou fundo várias vezes tentando se concentrar e fazer a mão parar de tremer, mas foi em vão. E de repente, ele esticou a mão e com a cabeça vazia de pensamentos, mirou entre as sobrancelhas do homem pálido e de sorriso debochado a sua frente. E foi com uma coragem desconhecida subindo-lhe pelas veias que ele apertou o gatilho.
No mesmo instante a arma fez um "click" e Naruto sentiu uma gota de suor descer pelo rosto. Encarou o homem a sua frente num misto de medo, surpresa e raiva e percebeu que tudo havia sido uma brincadeira desde o início. Haviam lhe entregado uma arma descarregada de propósito.
- Você é imprevisível, mas sua burrice não.
- Adoro lidar com traidores – o gordo o olhou ameaçadoramente e o empurrou para que ele caísse ao lado da Hyuuga.
- Não temos tempo – Kabuto disse urgente – temos que sair logo daqui.
- Odeio sair e deixar meus convidados assim – Orochimaru fez uma cara de pesar – mas vocês me entendem, certo? Está na minha hora de partir.
O homem loiro acendeu mais um cigarro e se aproximou, ajoelhando em frente ao casal. Ele encarou um paralisado Naruto antes de jogar algumas cinzas no chão, onde, claramente, não havia gasolina. Ele repetiu o ato mais duas vezes antes de soltar uma baforada e aproximar a mão com o cigarro aceso.
E tudo aconteceu rápido demais para que os cérebros em pânico pudessem processar.
Naruto investiu instintivamente contra o homem e o cigarro voou para longe, barulhos de tiros encheram o local, Hinata jogou-se no chão e começou a rastejar o mais rápido possível para longe da poça de gasolina. Vultos corriam por todo o cômodo, escondendo entre as pilastras e de repente houve um barulho, um grande "vup" e uma cortina de fogo se abriu atrás de si.
Pessoas passaram correndo e gritando, mas ela não sabia dizer quem eram. Viu o fogo começar a se espalhar, tomando toda a madeira do local. Tossiu tentando eliminar a fumaça que começava a tomar seus pulmões, quando sentiu alguém lhe puxar para cima e uma coisa fria encostar em sua têmpora esquerda.
- SE AFASTEM OU EU ATIRO! – Orochimaru gritou atrás de si.
No mesmo instante ela viu os invasores, seus companheiros da polícia, darem passos para trás em direção a saída do esconderijo e Orochimaru empurrar seu corpo para frente. Antes de passar completamente pela soleira da porta, hinata viu Naruto caído no chão, respirando pesadamente, com a mão postada no abdômen e um rastro de sangue sobre sua roupa.
Chegaram ao galpão de entrada e os policiais dispersaram. Orochimaru parecia apreensivo quando parou no limite entre o galpão e o lado de fora. Olhou para trás repetidas vezes, parecendo calcular quanto tempo o fogo levaria para chegar ali e obrigá-lo a sair.
- ENTREGUE-SE OROCHIMARU – a voz de Tsunade soou através de um alto-falante.
Hinata olhou em volta e sentiu uma leve vertigem antes de se recompor e ver as viaturas paradas na rua em frente ao bar. A voz de Tsunade continuava a soar pelo alto-falante, tentando uma negociação, que era sempre rebatida pelo homem atrás de si. Ele sabia que enquanto tivesse Hinata como refém, ninguém tentaria nada.
- Então é isso – a morena começou a dizer, sentindo cada vez mais as forças irem embora – vamos os dois morrer queimados aqui.
Ele respondeu qualquer coisa, mas a Hyuuga não prestou atenção. Sua vista embaçou e seus joelhos cederam. Orochimaru a apertou mais forte e rosnou entre os dentes.
- Recomponha-se, garota, ou eu atiro em você aqui mesmo. Preciso de você até chegar ali.
Hinata olhou para a esquerda, para ver o local a que ele se referia e viu um jardim muito mal cuidado. A grama alta e as plantas de pequeno porte não aparadas davam ao lugar uma aparência de abandono, mas algo entre aquela bagunça lhe chamou a atenção. Um carro preto, provavelmente blindado, parado entre grandes arbustos.
O plano dele era usá-la como escudo até o carro e então fugir. Mas na condição em que estava não conseguia gritar nem avisar ninguém. E a polícia estava concentrada em um ponto, a muitos metros de distância deles.
Ele começou a caminhar, prendendo-a fortemente. Dava pequenos passos e olhava alucinadamente em todas as direções. Quando de repente ele parou e Hinata pode ouvir o barulho da arma sendo destravada ao lado de sua cabeça.
Iria morrer agora, ela sabia.
Seu coração acelerou doloridamente dentro do peito, sentiu uma ardência por todos seus músculos e a adrenalina fluir por suas veias, seus olhos que a pouco embaçaram, dilataram numa expressão ferina. Com uma força vinda ela não sabe de onde, ela agarrou a mão que Orochimaru segurava a pistola.
O movimento o pegou desprevenido e fez com que o tiro que era direcionado a Hyuuga fosse dado para o alto, a esmo. O barulho fez com que o ouvido da jovem doesse e zumbisse, mas ela não cedeu, continuou segurando a mão de Orochimaru com força. Seu instinto a obrigava a continuar lutando pela vida mesmo que sua mente gritasse que tudo estava perdido.
Ouviu um baque atrás de si ao mesmo tempo em que sentia a mão de Orochimaru ceder sob a sua e no instante seguinte o corpo de Orochimaru jazia próximo a seus pés.
Hinata se virou assustada, a arma tremendo entre suas mãos. Quando seus olhos encontraram Naruto, um alívio percorreu todo seu corpo, fazendo com que suas mãos soltassem a arma e seu joelho cedesse.
Hinata dava uma risada débil e baixa e algumas lágrimas saíram de seus olhos.
- Eu... Eu tive medo... – ela dizia entre as risadas, apenas para si mesma – Muito medo.
Naruto se ajoelhou a sua frente e colocou a cabeça dela apoiada em seu ombro.
- Vai ficar tudo bem – ele disse num sorriso frouxo.
Hinata apertou os olhos com força, sentindo a respiração acelerada de Naruto em seu pescoço. Não queria sair dali, de perto dele. Queria que ele continuasse a lhe abraçar e sussurrar que tudo ficaria bem. Ela se sentia perdida no escuro, sem forças para buscar uma luz, e a voz de Naruto lhe servia como um farol.
Mas de repente, Hinata repassou mentalmente os últimos acontecimentos e a imagem de Naruto ferido lhe veio à cabeça. A última vez que o vira, ele pressionava o abdômen e uma mancha de sangue sujava sua blusa.
Ela abriu os olhos com força e viu que uma das mãos dele ainda estava postada sobre o abdômen.
- Você está ferido!
- Foi só de raspão. – ele fez uma careta de dor – O importante agora é cuidar de você ou vai acabar tendo uma hipotermia.
- Eu estou bem... – Hinata protestou.
A Hyuuga continuou protestando até perceber que sua respiração diminuía cada vez mais rápido e suas próprias palavras pareciam confusas aos seus ouvidos. E de repente, emitir qualquer tipo de som parecia exaustivo e impossível.
A última coisa que viu antes de desmaiar foi Tsunade e os policias se aproximarem gritando ordens que ela era incapaz de processar.
Xxx
Hinata encarou o teto do hospital sentindo o sedativo perder o efeito aos poucos. Sentia-se dolorida em diferentes partes do corpo e uma sensação incômoda revirar o estômago, mas sentia-se bem. Acordara há quase três horas e tudo o que queria era ir para casa se aconchegar entre os lençóis e não pensar em nada. Imaginar que o dia anterior nunca houvesse acontecido.
Mas era impossível. Quase tão impossível quanto parar de especular se Naruto estaria bem. Ninguém parecia disposto a lhe dar essa informação.
Seus pensamentos foram interrompidos por Tsunade, que entrou no quarto parecendo mais séria que nunca. Ela entrou rapidamente e sem olhar para os lados, sentou-se na beirada da cama, olhando todo o corpo da pequena Hyuuga.
Hinata fingiu se interessar em algo do outro lado da janela para esconder seu incômodo.
- Eu estou bem – comentou num tom casual.
- Poderia estar melhor – a loira respondeu, com a preocupação ressoando em cada palavra – Sinto que falhei com você.
- Não se preocupe com isso. A culpa é minha por querer fazer tudo sozinha.
Hinata passou as mãos pelo rosto e braços sentindo cada machucado que ainda ardia em sua pele. Quando as pontas do dedo tocaram a cicatriz no antebraço, ela sentiu um arrepio eriçando seus pêlos e a imagem do ferro em brasa veio-lhe a mente. Seus dedos se demoraram em sua cicatriz e mesmo diante a dor que o toque causava, a jovem policial não o desfez.
Sua mente vagou e algumas vozes preencheram seus pensamentos. Algumas risadas sinistras, algumas conversas. E involuntariamente, começou a se lembrar do seqüestro. Tudo o que ela queria era trancar esses acontecimentos em algum canto escuro de sua mente, mas seu subconsciente tornava isso impraticável.
- Eu queria que você descansasse mais antes de tocar no assunto, mas infelizmente não vai ser possível – a voz de Tsunade soou, fazendo-a acordar de seu torpor – Eu tenho que interrogá-la. Poderia me contar como tudo aconteceu? Tudo, por favor, não me esconda nada.
Hinata então começou seu relato. Contando tudo o que acontecera, tudo que ouvira. Era incômodo falar sobre o assunto, mas não tinha motivos para não fazê-lo, sua mente parecia disposta a reviver todos esses momentos por conta própria.
Sua voz estremeceu quando contara sobre o pai e a ameaça. Seu pai já estava sob investigação desde quando Naruto levantou a suspeita e seu relato apenas confirmaria isso. Mas Hinata tinha um dever a cumprir. Pediu desculpas mentalmente ao pai e ao resto da família. Todos seriam expostos e sofreriam e o nome Hyuuga perderia o prestígio, sem contar o escândalo que o assunto causaria, mas a justiça precisava ser feita.
Tsunade ouvia seriamente e eventualmente fazia perguntas e quando Hinata terminou de falar, ela desapertou o botão do pequeno gravador que tinha em mãos.
- Você não sabe nada mesmo sobre a fuga do Naruto? – a loira ponderou, depois de longos minutos e diante da negação da mais nova, continuou – Ninguém comentou absolutamente nada no grupo?
- Não. Eles também pareceram surpresos com a aparição dele, todos achavam que ele havia fugido.
A chefe levantou e caminhou até a janela, encostou à janela e apertou a ponte do nariz com os dedos, parecendo muito cansada e só então Hinata percebeu as enormes olheiras sob os olhos dela.
- E pensar que por causa dele você está viva.
- E o que vai acontecer com ele?
Era uma pergunta desnecessária. Ela já sabia o que aconteceria. Mas precisava ouvir a verdade de outra pessoa, só assim havia alguma chance de calar a esperança que ardia fracamente em seu peito, teimosa demais para se apagar sozinha.
- Ele vai ser julgado... E preso, sem dúvida.
Hinata baixou a cabeça e apertou o lençol entre os dedos, numa súplica silenciosa.
- Não quero saber o que houve entre vocês além do estritamente necessário – Tsunade parou de falar e fixou os olhos castanhos na pequena figura encolhida em cima da cama de hospital – Mas seja o que for, ficou para trás. Você está proibida de vê-lo novamente.
Hinata sentiu um aperto no peito e as lágrimas se formarem em seus olhos e antes que pudesse pensar em algo para protestar, ela percebeu que as lágrimas rolavam pelo seu rosto, silenciosas e quentes. As palavras presas em sua garganta pareciam querer lhe sufocar, mas ao mesmo tempo pareciam impossíveis de serem ditas.
Ouviu o som da porta sendo batida e então ela teve certeza de que fora deixada sozinha com sua dor e seus soluços.
Xxx
Naruto sorriu quando foi empurrado novamente para aquele lugar embora a felicidade fosse alheia a ele ultimamente. Mas ainda sim fez questão de mostrar os dentes ao companheiro.
- Achei que nunca mais fosse ver você por aqui – o ruivo disse, abrindo um dos olhos para ver o outro.
- Achei que você se sentiria muito solitário sem mim, Gaara – respondeu, dando de ombros.
O ruivo apenas fez uma careta em resposta e em seguida fechou o olho novamente. Com as costas encostadas a parede, as mãos atrás da nuca e o semblante calmo, o ruivo pareceu voltar à sua meditação silenciosa, por mais estranho que fosse relacionar Gaara e serenidade.
Naruto se sentou e começou a observar a paisagem por entre as grades da pequena janela. O céu nublado, parecendo refletir o próprio estado de espírito. Sentia-se em tons de cinza, que roubava a graça e harmonia de todas outras cores, denso, sufocado e, principalmente, solitário.
A saudade fez o peito apertar. Fazia quase cinco semanas desde que libertara Hinata do domínio de Orochimaru, quase cinco semanas que recebera a notícia de que não a veria mais, quase cinco semanas que a esperança o abandonou por completo.
- É melhor se acostumar com a minha presença novamente, amigo. Vamos passar os próximos quatro anos juntos – desviou o olhar da paisagem apenas o bastante para dar um sorriso forçado a Gaara.
- Quatro anos? Só isso? Odeio quem tem privilégios...
- Isso não faz muita diferença, você já não gosta de mim mesmo – gracejou, sentindo graça pela primeira vez desde que chegara. Ruivo também deu um pequeno sorriso – Mas desbancar um esquema e salvar a vida de um policial pode te dar... uhn... uma certa ajuda.
- Isso quer dizer que a menina vai continuar trazendo comida boa para gente – Gaara coçou o queixo e se ajeitou melhor na cama de ferro, que fez um barulho irritante a medida que ele se movimentava.
- Não exatamente.
Naruto se jogou na cama, fazendo as molas da mesma rangerem sob seu peso e encarou a parte de baixo do beliche desocupado acima dele. Sua mente pareceu voar, reviver as antigas lembranças que tinha de Hinata e seu semblante entristeceu antes mesmo que ele percebesse. Pensar nela doía, mas era impossível não fazê-lo.
- No início eu pensei que ela não queria me ver agora que a missão dela havia terminado, mas então, a assistente dela me confidenciou que a proibiram de me ver.
- O que é óbvio. Ela é uma policial e você, um presidiário – Gaara interrompeu querendo que o loiro encerrasse o assunto. Conhecia Naruto há pouco tempo, mas pode perceber que falar sobre a garota o entristecia e, por mais que ele fosse irritante e nem tinham nada nem próximo de uma amizade, Gaara, por algum motivo, não queria ver o companheiro de cela magoado.
Naruto suspirou e concordou. O coração parecia pesado e com as batidas fracas, como se um bolha de ar o impedisse de bater.
- Não sei se isso é o certo de lhe dizer, mas bem-vindo de volta – Gaara esticou a mão e Naruto a apertou firmemente.
Com certeza os anos seguintes não seriam os melhores, mas, de alguma forma, talvez, os próximos quatro anos não fossem o piores. Afinal, como um órfão pertencente a uma perigosa facção criminosa já passara por maus bocados nessa vida. Nessa altura, ter algo próximo a um amigo ajudaria bastante, por mais que os dois rapazes presos naquela cela não estivessem dispostos a admitir.
...
N.a – Último capítulo chegando, gente! Vou tentar postar mês que vem. Meu horário está meio maluco, mas tudo vai dar certo xD
Desculpem os erros, mas postei sem revisão.
Espero que esse capítulos tenha agradado vocês ^^ e obrigada mesmo por lerem e comentarem (isso faz uma diferença gigante pra mim)
Kissu, glr!
