Postagem 21. Hellboy
(Hellboy, 2004, EUA)
Eu andava com Hélène, pra cima e pra baixo...
Supermercado...
Feiras de artesanato e mobílias...
Lojas das mais diversas...
Tudo que ela comprava, podia deixar comigo: eu carregava!
Exceto as mobílias, lógico...
A gente tava sempre juntas...
Onde ela ia, eu ia... e com a minha nova guia, feita de sementes nas cores da Minha Mãe Oxum Pandá!
Não vou negar... foi mega difícil no começo...
Suportar alguns olhares de desprezo...
Suportar alguns sorrisos sarcásticos...
Parecia que eu ia ser esmagada por vezes, sabe?
Mas enquanto eu tava com Hélène, nunca um devoto do Deus Único veio me doutrinar, me xingar ou querer me "converter".
Aquela velhinha?
Tinha uma energia, uma aura de Respeito e Firmeza tão grande que acho que afugentava qualquer um que tivesse algum ousadia de aproximar-se com a munição do desrespeito!
E se alguém ousasse... coitado!
Como certa vez, num dia chuvoso, uma caixa do supermercado, ao doce "Bom dia" de Hélène, assim respondeu, mega ríspida, estúpida:
- O que é que tem de bom? Olha lá pra fora!
Com aquele sorriso, num tom incrivelmente meigo e firme, ela assim respondeu:
- Tem razão! Que dia horrível pra você, que se sente uma desgraçada... sempre tem trovoadas aí dentro de você, não é? Mas eu carrego meu Sol comigo! Por isso acho tão adorável a Chuva lá fora... lamento por você, sabe?"
A caixa? Não soube o que fazer!
A guria chegou a engolir o seco, sabe?
E atendeu Hélène mega direitinho a partir desse momento...
Velhinha terrível! Eu adorava ela!
Coitado de quem viesse ser desrespeitoso com aquela dama.
Pois uma dama imersa no Respeito pelo outro e por si age sobre o desrespeito como o Sol perante a geada de inverno: simplesmente o derrete!
Pobre de quem viesse converter aquela velhinha...
Sua aura era incrível! Esse tipo de gente nem se aproximava!
"Converter"... bela bosta!
Na real, a tal "conversão" não passava apenas dum processo de Opressão e Controle...
Pois eis a Regra n° 1, extraída do Manual do Controle do Opressor sobre o Oprimido (copyright Happy Harbor inc.: todos os direitos reservados!): humilhe o outro... mostre ao outro o quanto ele é inferior... introjete isso nele de todas as formas possíveis... e quando isso tiver introjetado, vai passar a ser a própria carne e sangue do Oprimido. Neste momento o Opressor pode descansar: até ir pra casa, assistir televisão... Porque agora o Oprimido vai repetir pra sempre o que o Opressor queria dele. O Opressor viverá pra sempre dentro do Oprimido!
Foi observando isso que acabei descobrindo algo mega interessante!
Na real, não eram tantas assim as pessoas que sorriam sarcasticamente pra mim – ou que me olhavam feio, torto – quando viam a minha Guia de Oxum...
Então, porque eu sentia tão intensamente aquela sensação se ser esmagada?
Com o tempo eu passei a descobrir qual era a causa daquilo: o Opressor morava dentro de mim! Há muito tempo!
Quando eu descobri isso, passei a vigiar meus pensamentos...
Cada vez que surgia um pensamento como:
"Você tá louca, Sê? Andando com essa guia, pra todo mundo ver? Você quer arranjar confusão?"
"O que os outros vão pensar de você, garota? Acorda!"
"Vão te agredir!"
"Nunca vão amar você se souberem o que você é!"
"Portas vão se fechar pra você, Sê! Não estrague suas chances de ser grande!"
"Por que você tá se expondo desse jeito, garota? Não mostre-se, esconda-se!"
Eram tantos os pensamentos que acabei fazendo uma lista!
E quando qualquer porcaria dessas, da lista, surgia na minha cabeça, eu me dava conta:
Putz, não sou eu... este é o Discurso do Opressor, me negando! Discurso que foi tão introjetado dentro de mim que não precisava nem mais Opressor algum tá declamando ele: eu mesma já tava declamando ele pra mim! O Opressor já tava na casa dele, vendo televisão, há anos!
Ah, foi a partir daí que eu negava todas essas frases que rodavam na CPU da minha cabeça!
Segurava firme a guia da Minha Mãe Oxum e dizia essa frase, em pensamento ou em voz baixa, porém mega firme:
"Eu nego o que me nega! Eu afirmo o que me afirma!"
E fiz isso tantas e tantas vezes, muitas delas ao lado de Hélène – que dava um sorriso lindo quando me via fazer isso, sustentando as minhas forças com aquele sorriso! – que acabei superando a dificuldade de andar com minhas guias visíveis!
Mas não sem antes ter muitas e muitas recaídas...
Foi assim que o "Eu nego o que me nega! Eu afirmo o que me afirma!" se tornou no primeiro dos muitos mantras libertadores que eu aprendi naquele Casarão!
Puxa, aquele Casarão!
Já que falei nele...
Cara, como era incrível trabalhar lá dentro!
Principalmente com o que eu mais adorava: a conservação daquelas antiguidades!
Claro que numa casa enorme como aquela, havia bastante trabalho de manutenção bem prosaico, como a limpeza, varrição, retirar o pó, limpar vidraças... aquelas coisas que toda mulher adora tanto fazer... ai, que saco...
Nada mais divertido do que encerar um assoalho... ai, ai, era tão empolgante!
Doce sarcasmo...
Mas fora essa manutenção prosaica, a manutenção das antiguidades, dos artefatos de Arte – daquelas relíquias de museu que deixariam qualquer historiadora babando! – putz, aquilo era uma delícia!
Hélène me ensinou como se conservava cada tipo de objeto de Arte e relíquia do Casarão: como tratar o mármore, o ouro, a prata, o bronze, o cobre, o ferro, a cerâmica, as telas de pintura... enfim!
Bah, tinha de tudo lá! Esculturas, armas antigas, espadas, vasos antigos, pinturas antiquíssimas – telas que pareciam que tinham saído do Louvre de Paris! – até um gramofone do início do século XX havia!
E muito mais do que aqueles cuidados físicos Hélène me ensinava!
Cada objeto, quando eu demonstrava algum interesse sobre ele, ela me dava uma verdadeira "aula" sobre ele... e vinha da Biblioteca, trazendo algum material que falava sobre o objeto em questão!
Eu, é lógico – como traça e besoura de livros! – devorava rapidamente no meu quarto, nas minhas horas de folga!
A Biblioteca... o que será que havia nela, alem daqueles livros preciosos, heim?
Era uma condição de Álex pra mim poder morar lá... mas notei que Hélène acatou a contragosto...
Haviam três cômodos daquele Casarão que eu jamais poderia entrar, de jeito nenhum: no quarto dele, no quarto de Leilene – este é que eu nunca ia querer entrar, mesmo! – e a Biblioteca... saco!
Falando em Biblioteca, livros e meus estudos nos livros que Hélène me recomendava – fora meus estudos sobre tudo o que eu encontrava por conta própria sobre Orixá, Inkinse, Bakuro e tudo que é Divindade da Mãe África e da Mãe América – acabou surgindo um assunto...
Estudos formais...
Eu havia desistido de terminar meus estudos do Ensino Médio naquele ano...
Nunca mais pus o pés no Becker...
Quando Hélène soube disso, me perguntou:
- E você, gostaria de um dia cursar alguma faculdade? Haveria algum curso que você gostasse?
Eu?
Disse, meio que suspirando, desanimada:
- Um dia eu tive... mas nunca vai dar pra fazer... deixa pra lá...
A velhinha? Não deixou barato:
- E o que era tão impossível de se fazer, que você desistiu assim tão fácil?
Como é que é?
Desistir assim fácil?
Eu nem tinha o meu diploma de Ensino Médio! E como eu ia pagar uma faculdade, mesmo que eu tivesse um diploma?
Claro que eu ganhava mega bem trabalhando ali, mas se eu pagasse uma faculdade – cada vez mais caras e pra menos pessoas! – não ia sobrar muita coisa! Eu queria poupar! Guardar uma boa grana. Porque nunca mais eu ia passar fome de novo na minha vida: isso é que não!
E depois que eu me formasse, onde eu ia trabalhar? O que eu gostava de fazer, tava cada vez mais virando raridade, no meio da Grande Depressão da Economia espancada pela Crise Climática!
Eu não desisti fácil não! Por isso eu respondi:
- Queria ser historiadora... e me especializar em Arqueologia e Antropologia...
Hélène apenas disse:
- Hum... hum...
Continuamos as nossas lidas... nossas tarefas...
Até que ela disse:
- Pois é... eu conheço vários Doutores da National University, que andam me devendo alguns favores... eu poderia te recomendar a um deles... pedir que realizasse com você um Teste de Proficiência... se você passasse, e um Professor Doutor te conseguisse uma bolsa integral de estudos, eu poderia considerar o favor pago, sabe?
Eu?
Nem soube o que responder...
Fiquei... sem reação!
Velhinha terrível! Eu adorava ela!
Naquela noite eu já tava com o nariz enfiado numa pilha de livros... um telefonema de Hélène, um fax, e tava nas minhas mãos uma lista de livros recomendados pelo Prof. Dr. Bombessour, da National University, pra mim realizar dentro de seis meses um Teste de Proficiência, época em que sairiam as cotas de bolsas de estudos...
E pasmem! A ampla maioria dos livros daquela lista, Hélène já havia me emprestado! Haviam na Biblioteca do Casarão!
Mas que coisa... eu morava e trabalhava num Solar ou numa... Universidade, heim? Hahaha!
Hélène!
Que delícia era trabalhar, conviver, estar ao lado dela!
Leilene?
A gente quase nunca se via... ela passava reto por mim, toda dura, e ia direto pro quarto dela... e ela raramente dormia no Casarão... o que mais se ouvia era o ronco possante da pick-up dela, ganhando a estrada!
Já quanto ao Álex... eu não tava entendendo mais nada...
Nos primeiros tempos em que eu tava no Casarão, eu via Álex sair incrivelmente emburrado do seu quarto!
Ele quase não falava comigo e com Hélène...
Acho que ele tava emburrado com Hélène, e eu tinha certeza que era por minha causa!
Eu cheguei a pedir desculpas pra Hélène:
- Por favor, me perdoa... eu não imaginava que eu ia causar esse transtorno pra você...
A velhinha?
Sorriu pra mim, mega amável:
- Que nada! Não é transtorno nenhum, Selene!
- Mas olha como Álex tá! Ele nem nos cumprimenta, e eu sei que é por minha causa...
Hélène deu uma gostosa risada!
Como aquela velhinha era alegre e bem humorada! E me disse:
- Nem "esquente" com isso, menina! Sabe o que eu descobri ao longo de todos esses anos, convivendo com um Orixá Pessoal, e justo um desses bem bravos, ainda mais com um especializado em Justiça Kármica?
Arregalei meus olhos, curiosa:
- O quê?
Ela deu um sorriso bem arteiro, de cantinho de boca, e me olhando com aqueles olhos incrivelmente lúcidos, cheios de vida, falou:
- Eu descobri que o Elemento Masculino é tudo igual... seja humano, seja Orixá, por baixo das máscaras, é tudo igual! Homem não tem mistério, seja Orixá Pessoal ou não! Eles são bem simples de entender... Eles até se emburram conosco, as damas, mas é só você lançar sobre eles o nosso típico Dom Feminino, e logo eles se desemburram... nós, as damas, somos o antídoto do mau-humor dos cavalheiros: é simples!
Eu?
Fiquei chocada!
Não esperava, de forma alguma, aquela tirada hilária dela!
E começamos a rir juntas!
Que danada que aquela velhinha era!
Naquele noite, entretanto, aconteceu algo diferente...
Álex não saiu do seu quarto, mas sim da Biblioteca!
E ele saiu como se tivesse pronto pra uma guerra! A forma como ele tava era... incrível!
Álex tava com seu longo sobretudo de couro negro.
Tava todo vestido de negro, como eu o havia visto no Becker e no Cemitério de New Bethlehen.
Calçava seus coturnos militares negros.
Mas me espantei com o que vi pendurado em suas costas: ele tava com duas espadas – com uma suave e sensual curvatura nas lâminas – dentro de bainhas ricamente adornadas em metal, acho que era prata!
Quando ele me viu... deu um sorriso meio arteiro!
E sacou as espadas, das bainhas de prata em suas costas, bem ali na minha frente, como que fazendo uma verificação final!
Foi que aí que percebi uma coisa muito interessante: que uma das espadas tava quebrada bem no meio!
Ele? Fez alguns movimentos mega rápidos com as duas espadas – nem um samurai daqueles do filme do Akira Kurosawa conseguiria fazer algo parecido!
Era incrível a agilidade com que ele movia aquelas espadas: por entre seus dedos, por entre suas mãos, trocando-as de mãos enquanto se movia, ou lançando-as pra cima e agarrando-as perfeitamente novamente – putz, e aquelas lâminas deviam ser afiadíssimas! – e, por fim, a elegância com que ele as colocou de volta nas bainhas, que tavam presas às suas costas por duas tiras de couro negro!
Eu? Fiquei de queixo caído!
Babando, sabe?
Mas ele? Não parou por aí! Não!
Quando ele puxou o sobretudo pra trás, eu vi que havia um coldre na sua cintura, como os dos pistoleiros do velho oeste americano!
No coldre, descansava uma pistola enorme! Ele a retirou e, putz, ela era colossal! Parecia até com o revólver do Hellboy, só quecom o cabobranco, como marfim, e o cano vermelho como aço em brasa!
Ele a verificou: abriu seu tambor de balas, girou-o, fechou-o e a colocou de volta no coldre!
Por fim ele retirou, de dentro do bolso interno do seu sobretudo de couro negro, os seus famosos óculos escuros! E os colocou, tranquilamente, como um lord sorvendo seu chá das dezessete horas!
Putz grila!
Eu olhei, assustada e admirada pra ele, quando ele passou por mim e exclamei:
- Sagrados Orixás! Aonde você vai, Álex?
Ele arrumou os óculos escuros em cima do seu nariz, deu um sorriso – mega sacana! – pra mim, e falou:
- Vou fazer esporte essa noite...
Ele passou por mim, como se fosse uma muralha negra!
Como se fosse um Cavaleiro Negro indo pra guerra!
Hélène cruzou com ele próximo à porta do Casarão:
- Vai fazer trabalho de campo hoje, querido?
Ele?
Respondeu, mas dessa vez mega gentil:
- Sim, minha gotinha de orvalho... aqueles que se divertiram com Laura Valmer, exatamente nesta noite vão transgredir os limites de seus karmas... Finalmente: chegou a hora de conversarmos bem de pertinho! Voltarei tarde, por isso pode dormir bem tranquila, está bem, minha flor de lótus?
E ele deu um beijo meigo na testa de Hélène!
A cena era... hilária!
Era mega engraçado ver aquele cara enorme – armado como se fosse ir pra uma terrível guerra, à primeira vista uma figura assustadora! – ser tão gentil, amável e meigo!
Ele cruzou a porta e sumiu na escuridão.
Pude só ouvir o ronco possante de sua Harley!
Olhei pra fora e vi a luz da iluminação pública em cima dele.
Putz grila! Ele lembrava o T101, o Terminator, montado naquela Harley! Mas com aquele coldre, ele também lembrava o Hellboy!
Seria um mix de Hellboy com o Exterminador do Futuro? Um Hellboy Terminator?!
Ele acelerou absurdamente e, em alguns instantes, não se ouvia mais o ronco possante da Oxossi!
Eu não aguentei e bombardeei Hélène de perguntas:
- O que ele quis dizer com "aqueles que se divertiram com Laura Valmer"?
Hélène sorriu, e foi apenas misteriosa:
- Assuntos de Álex...
Valmer... Valmer... aquele nome me era familiar...
Putz... de onde eu ouvi?
Lembrei!
Na mídia! Na TV!
Laura Valmer! Era o nome daquela guria que foi acampar com o namorado e foi atacada por um puma!
Hei! Ela morreu atacada por um puma! Como assim "aqueles que se divertiram com Laura Valmer"? Um puma não é "aqueles"!
- Hélène, não foi um puma! Foram pessoas que mataram aquela guria!
Ela fez uma expressão, ainda misteriosa...
Putz, só agora que eu me dei conta: Laura Valmer estudava no Becker! Eu me lembro de ouvir isso, na TV, mas nunca dei bola! Quando me transferi pro Becker, jamais percebi isso!
Putz grila! Agora tudo fazia sentido!
Por isso Álex tava no Cemitério de New Bethlehen naquele crepúsculo, quando nos vimos pela primeira vez!
Por isso! Ele tava investigando algo no túmulo da guria!
Ele chegou a subir no túmulo dela, colocar a mão sobre ele! Ele não tava rezando, lógico! Lembro que ele balbuciava alguma coisa lá! Como se tivesse conversando com... alguém!?
O que será que ele tava dizendo?
Ou será que só tava pensando em voz alta?
Ou arquitetando algo, algum plano em sua mente, pra solucionar aquele mistério?
Sim, era um mistério, porque ninguém encontrou pegadas de puma próximo ao local do ataque!
Eu crivei Hélène de perguntas... mas a velhinha?
Nada de me contar bulhufas!
Droga!
Curiosidade mata mesmo! Eu ia enfartar, qualquer hora: tava me remoendo de curiosidade!
Hélène, educada e polidamente, se afastou... ficou na sala, perto da lareira... lendo um livro enorme...
Fui pro meu quarto... tentei até ler, mas...
Droga! Concentração zero!
O que taria fazendo o Hellboy Terminator, heim?
Que espadas incríveis... e o jeito que ele as manejava... como se fossem meras extensões dos dedos dele! Que show aquilo, cara!
Eu nem tentei dormir!
Conforme a madrugada avançou, resolvi descer até a cozinha, fazer um lanchinho...
Foi quando notei que, diferentemente das outras noites, em que Hélène ia cedo pra cama, hoje ela ainda tava na sala, lendo ao lado da lareira: não tinha ido dormir!
Eu perguntei se ela iria se deitar e ela me respondeu:
- Não, querida... quando Álex sai para seu trabalho de campo eu sempre fico acordada, esperando-o chegar... sempre gosto de acolhê-lo no seu retorno!
Eu resolvi ficar na sala com ela, lhe fazendo companhia.
E, lógico, também porque eu tava muito curiosa: queria ver ele chegar de um "esporte"!
O tempo passou...
Até que por volta de umas três e meia da manhã, ouvimos a Harley de Álex roncando!
Em alguns instantes, Álex abria a porta do Casarão.
Minha Mãezinha Oxum! Quando ele entrou, eu mal o reconheci!
Ele tava todo sujo de lama!
Parecia que tinha andado em um pântano!
E tava com as roupas com rasgões enormes!
O seu sobretudo negro tava todo com marcas enormes de garras!
Garras gigantescas!
Nem um urso polar, o maior de todos, seria capaz de ter garras tão grandes pra abrir fendas tão enormes naquele couro grosso!
Eu tava tão assustada em vê-lo assim que nem consegui me mover!
Nem falar nada! Eu queria saber se ele tava machucado – e certamente deveria estar! Mas meu espanto era grande demais!
Hélène foi quem falou:
- Oh, querido! O que houve desta vez? Raramente o vi chegar assim antes!
Ele tava com um ar cansado... foi até a sala, onde távamos, e sentou-se numa poltrona.
Ele então falou, mega cansado mesmo:
- Foi uma merde hoje... eu estava muito desatento... estava com muita dificuldade de me concentrar... mas consegui pegar os dois: o médium e a sua entidade das Trevas!
Hélène? Fez um carinho nos cabelos dele e disse:
- Desatento, é?
Dito isso, ela olhou pra mim... e deu um sorriso matreiro, de cantinho de boca... como se tivesse apontando pra mim!
Eu não entendi porque ela fez aquilo...
Hei! Será que ela tava botando a culpa em mim por alguma coisa?
Esquece, velhinha!
Eu não tenho culpa de nada não! Seja lá o que for!
E eu?
Só consegui dizer isso, mega preocupada:
- Álex, você tá machucado?
Foi a vez dele sorrir pra mim:
- Não...
Eu não acreditei! E fui apalpar o peito dele – que tava com um rasgão enorme na camiseta negra, com as marcas daquelas garras gigantescas! – e quando toquei em sua pele fria, não havia um único arranhão em sua pele!
Nenhum!
Sagrados Orixás! Do que Álex era feito, heim?
Seu sobretudo e suas roupas tavam em farrapos, mas ele tava sem um arranhãozinho sequer!
Álex pegou a barra de seu sobretudo – completamente enlameada e esfarrapada – e exclamou:
- Merde... aquele pulguento, metido a professor de francês do Becker, danificou a minha roupa predileta!
Eu não pude acreditar!
Ele deveria tá em pedaços, após ter lutado contra uma fera de garras enormes, mas tava preocupado com o sobretudo?!
Hei!
Espera aí!
Como assim "metido à professor de francês do Becker"?
- De quem você tá falando, Álex?
- De quem matou Laura e seu namorado...
- Putz grila! O assassino era professor no Becker?
- Um deles, sim... e você o conhecia...
Gelei! Por essa eu não esperava! Minha língua coçava:
- E quem é?
Álex falou, na maior tranquilidade:
- Seu professor de francês, Mr. Antony Caputo: que as fossas do Abismo o tenham, seu filho duma puta fascista!
Dito isso, Álex retirou do coldre a sua enorme pistola vermelha e branco e a largou sobre a mesinha: o cano tava fumegando!
- Álex! Você atirou no professor Caputo?!
Ele? Respondeu, com um largo sorriso:
- E bem no meio da testa dele... Que disparo!
Eu? Quase gritei!
Mas o grito morreu preso na minha garganta! Porém acho que meus olhos expressaram todo o meu horror!
Álex deve ter percebido isso... pois ele fez uma carranca pra mim, meteu a mão no bolso externo do seu sobretudo e retirou uma coisa apavorante:
Uma garra, enorme, afiada!
Foi então que ele me disse, duro e seco:
- Eu não matei seu "professor Mr. Caputo"... eu matei foi o médium que evocava, incorporava e permitia a materialização do dono desta garra de 17 cm de comprimento, pesando quando materializado 920 kg e medindo três metros de altura! Eis a garra de quem despedaçou, num sacrifício ritualístico de magia das Trevas, aquele casal de garotos!
Ele soltou aquela garra sobre a mesinha. Ela era imensa! Só a unha daquela coisa tinha o tamanho de minhas duas mãos!
- Aquele médium, um mago e médium das Trevas, era um serial killer... havia se instalado no Becker para conseguir um acervo fresco de adolescentes, repletos de ectoplasma, bom sangue e vísceras, para nutrir a sua entidade em assassinatos ritualísticos... nesses rituais, a entidade das Trevas se materializava através de seu médium, o mago fora-da-Lei Mr. Caputo... mas agora, o médium: mandei-o pro Abismo! E a entidade: transformei-a num Ovóide Mental... nada mais de materializações feitas por estes dois vermes! Vamos, toque nesta garra! Ainda está concreta!
Suas últimas palavras soaram tão firmes que eu obedeci!
Minha Mãezinha Oxum!
Toquei na garra e era sólida mesmo! Era dura, duríssima! E era afiada como uma faca!
Mas foi eu tocar nela e pouco depois ela começou a se desfazer... como gelo derretendo no fogão!
E desapareceu, completamente, bem ali, na minha frente!
Evaporou!
Eu tava incrivelmente espantada! Nisso Álex me encarou, mega sério:
- Ouça bem, pirralha! Eu nunca mato inocentes! Portanto nunca mais ouse me julgar com esse seu olhar! Você é uma pirralha de dezenove anos que não sabe nada do que se passa, não sabe nada!
Eu nem cheguei a me chocar com as suas palavras tão ásperas!
Porque o tamanho daquela coisa monstruosa – que Mr. Caputo trazia ao mundo dos encarnados! – aquilo sim é que era chocante!
Eu tive aulas com um degenerado!
Ele poderia ter pego qualquer pessoa lá do Becker, até mesmo eu!
Um degenerado que evocava um monstro do Plano Astral Inferior e lhe dava os meios pra se materializar por algum tempo, nutrir-se de forma horrível, e ficar ainda mais poderoso!
Foram aquelas garras que despedaçaram a garota, sepultada em New Bethlehen!
Foram aquelas garras que fizeram aqueles rasgões nas roupas de Álex... aquelas garras que o agrediram!
Ele?
Pegou calmamente sua arma, esfriada, e a pôs de volta no coldre...
Parecia um caçador britânico, do século XIX, incrivelmente satisfeito com sua caçada na Floresta Equatorial das Colônias!
Finalmente, Álex suspirou fundo... arrumou seus óculos, completamente sujos de lama, sobre o nariz – como se fosse um lord de Sua Majestade! – se levantou e disse pra nós, com incrível elegância:
- Com a licença das damas, eu vou me recolher... Estou ligeiramente dolorido, sabem?
Hélène sorriu, e lhe disse:
- Boa noite querido! Tenha um bom descanso!
Eu?
Tava incrivelmente espantada:
- Ele enfrentou esse monstro horrível e... tá sem um arranhão!
- Claro, Selene! Pena que a entidade das Trevas estragou seu sobretudo preferido... deixou-o em andrajos! Mas hoje mesmo ele o consertará e estará novo em folha...
Eu dei uma leve risada de descrença... uma risada mega tensa, pois a última coisa pra se pensar numa hora dessas era num sobretudo:
- Capaz! Não tem como costurar de jeito nenhum! Sobrou só farrapos, Hélène!
A velhinha sorriu pra mim:
- Aposto com você um pão caseiro e um bolo de cenoura que, ainda hoje, o sobretudo dele estará perfeito!
Eu sorri, um pouquinho aliviada, com a inesperada observação tão espirituosa da velhinha. Respondi, tentando ser agradável numa hora tão tensa... mas com a voz meio abobalhada:
- A...pos... tado...
A velhinha? Assim me respondeu, como se aquela garra – gigantesca, que se evaporou bem na minha frente! – e aquela besta-fera, que Álex abateu, fossem mera... rotina:
- Então eu vou me deitar agora... Te ensinarei a lidar com o forno da nossa cozinha, para que você possa prepará-los. Mas só depois eu te ensinarei as minhas velhas receitas do pão caseiro e do bolo de cenoura... elas são muito especiais, por isso você já deve estar acostumada antes com algumas outras artes... Combinado?
Eu? Balbuciei, ainda estupefata:
- Com... bi.. nado...
- Então boa Noite, Selene!
A velhinha foi dormir... bem tranquila...
Mas você acha que eu pude dormir, depois de tudo aquilo?!
