Capítulo 21

Bem que poderia ser um pesadelo. Foi o que Ana-Lucia pensou ao ouvir a voz de sua mãe irrompendo no quarto de manhã cedo. Raquel Cortez não deveria estar ali. Não quando Ana estava nua abraçada intimamente a um homem também nu.

- Não posso acreditar que fez isso!- Raquel gritou e Sawyer despertou de súbito, assustado. Seu rosto ainda mostrava claramente as marcas da surra que levara na noite anterior.

- Oh, Deus!- ele exclamou ao ver a mãe de Ana-Lucia parada no meio do quarto olhando para eles. Sawyer tratou de puxar o lençol para cima o máximo que pôde tentando se cobrir, mas o movimento não ajudava Ana em nada que teve que puxar o lençol de volta para cobrir as próprias pernas ou Raquel veria mais do que deveria.

- Madre, sai já do meu quarto!- Ana gritou visivelmente embaraçada, mas Raquel não se moveu do lugar, pelo contrário, tirou o tamanco de madeira dos pés, e começou a usá-lo contra Sawyer, batendo nele, querendo expulsá-lo da cama de sua filha.

- Calma, senhora!- pediu ele se defendendo com os braços. – Já estou machucado o suficiente.

- Para, madre!- Ana gritou cobrindo os seios com as mãos, seus olhos estavam cheios de lágrimas de aborrecimento e vergonha. Saia do meu quarto!

- Eu quero que esse homem saia da sua cama!- Raquel esbravejou. – O que estava pensando, niña?- ela fez menção de bater em Ana que segurou com força a mão da mãe, impedindo-a de fazê-lo enquanto com o outro braço continuou a cobrir os seios.

- Yo no soy una niña hace mucho tiempo, madre! (Eu já não sou uma menina há muito tempo, mamãe). Agora saia do meu quarto!- disse Ana com firmeza e Raquel finalmente saiu.

Quando se viram sozinhos, Sawyer levantou-se da cama depressa e começou a procurar por suas roupas. Ana fez o mesmo pegando sua camisola no chão e passando-a por cima da cabeça.

- Eu não acredito que isso ta acontecendo... – murmurou Sawyer já vestido com sua boxer, começando a vestir as calças. – Eu não queria causar problemas pra você, Ana, eu...

Ana-Lucia colocou as mãos no rosto e disse:

- Não, a culpa é minha. Esqueci de trancar a porta. Dios! Minha mãe não devia ter nos visto desse jeito.

- Nós podemos resolver isso Ana.

- È?- Ana retrucou. – Como? Você não conhece a minha mãe, Sawyer. Ela é uma pessoa extremamente conservadora.

- Sei como lidar com mães conservadoras, confie em mim.

Ana suspirou. Poucos minutos depois, ela e Sawyer saíram do quarto. Vestidos e prontos para encarar Raquel. Ela havia mandado Tony ir comprar algo no mercado levando Vincent para que ele não presenciasse a conversa que teriam naquele momento.

- Saia daqui!- Raquel gritou para Sawyer fitando-o dos pés à cabeça e vendo o quanto ele estava machucado, provavelmente fruto de alguma briga de bar ou pior uma briga por posse de drogas. Ela não queria nem pensar. – Ana-Lucia, além de você cometer o disparate de trazer um homem para dentro da nossa casa e para a sua cama, você ainda traz um viciado...

- Eu não sou nenhum viciado, senhora!

- Cale-se! Não estou falando com você.- disse Raquel com rispidez. – Aliás, eu já não o mandei sair? Por que ainda está aqui?

- Mama, pare de falar assim com ele!- Ana ordenou. – Sawyer não é um viciado. Ele é meu namorado.

- Que belo namorado arranjou!- debochou Raquel. – Se não é um viciado, é um bêbado e saiu de alguma briga de bar ou então não estaria com os lábios estourados e o olho roxo.

- Ele está assim porque a gangue do Gabriel deu uma surra nele quando vinha me visitar ontem à noite. – Ana explicou.

- E suponho que esse era um bom motivo para levá-lo para sua cama e abrir as pernas para ele. O que foi que eu disse a você, Ana-Lucia?

- Senhora, não é nada disso.- Sawyer tentou explicar. – Eu e a Ana estamos apaixonados. Eu quero me casar com ela, assumir a responsabilidade...

Raquel deu uma risada amarga e disse:

- Isso é o que todos dizem! Mas você vai sumir quando se cansar de usar a minha filha ou então quando deixá-la grávida e pelo que eu acabei de ver, isso não vai demorar muito a acontecer.

- Eu nunca faria isso!- Sawyer se defendeu.

- Mama, pare por favor!- implorou Ana, mais uma vez.

- Oh Ana, por que fez isso? Eu te alertei tantas vezes.- os olhos de Raquel estavam cheios de lágrimas. – Não se lembra do que sua avó dizia? È preciso comprar a vaca para ter o leite.

Ana-Lucia estava morrendo de vergonha de toda aquela situação. Sabia que sua mãe reagiria assim quando descobrisse tudo, mas não achou que ela fosse descobrir daquela maneira.

- Sawyer, eu acho que é melhor você ir embora agora, nos falamos depois.- disse Ana-Lucia com pesar. O melhor naquele momento era que ela conversasse a sós com sua mãe.

- Meu amor, não vou deixá-la passar por isso sozinha.- ele insistiu.

- Não se preocupe, nos falaremos depois. Agora por favor, vá!

Sawyer ficou parado olhando para ela, não podia sair dali daquele jeito. Odiava assuntos mal resolvidos. Se a mãe de Ana-Lucia quisesse ele poderia oficializar o noivado no dia seguinte.

- Mama, eu vou levá-lo à porta e logo voltarei para conversarmos.

- Tudo bem, pode ir.- disse Raquel com amargor. – Ele já tirou sua inocência, o que mais pode acontecer?

Ana revirou os olhos e puxou Sawyer pela mão até a porta. Ela odiava o fato de sua mãe ser tão conservadora.

Trilha sonora: You and me/ Lifehouse

- Minha mãe é uma pessoa difícil, mas aceitará tudo depois que eu conversar com ela.- Ana disse a ele.

- Ana, eu quero me casar com você. Diga à sua mãe que virei amanhã com um anel.

- Estás loco, hombre?(Está louco, homem?)- ela indagou surpresa.

- Não, nunca estive tão são em minha vida, Ana-Lucia. Eu te amo e quero passar a minha vida inteira com você. Sei que a situação agora não é das mais apropriadas para um pedido de casamento, mas... – ele se ajoelhou diante dela.

Ana-Lucia não podia acreditar que ele estava fazendo aquilo.

- Então você estava falando sério no hospital ontem?- ela indagou.

- Sim, eu estava falando sério e ainda estou.

- Mas e quanto ao que aconteceu esta tarde? Você me disse que...

- O que aconteceu foi um engano e te peço mil vezes perdão, eu jamais voltarei a duvidar de você.- ele disse com sinceridade, beijando a mão dela.

Ana fez com que ele se erguesse e o beijou na boca, rapidamente, para que sua mãe não a visse.

- Vai se casar comigo, anjo?- ele perguntou, ansioso.

- Preciso pensar sobre isso, baby.- respondeu ela. – Não acho que sua mãe seria muito favorável e tem a Shannon...

- A opinião de ninguém me importa a não ser a sua, Ana-Lucia.

- Me deixe pensar.- disse ela. – Preciso conversar com minha mãe agora...

- Está bem, eu irei, mas, por favor, me ligue mais tarde para dizer se está tudo bem.- ele pediu.

Ana-Lucia assentiu e o beijou mais uma vez.

- Cuide desses ferimentos.

- Eu vou ficar bem.- ele disse e deixou a casa.

Ela fechou a porta quando ele se foi e voltou para a sala para encontrar sua mãe ainda parada no mesmo lugar, com a mesma expressão furiosa e decepcionada.

- Que cena romântica!- Raquel comentou com amargor. – O seu namoradinho de joelhos pedindo a você que se case com ele.

- A senhora estava nos espionando?- Ana bradou.

- Não necessariamente. Eu fui ver o motivo da sua demora em despachar aquele homem e então vi a cena. Não mais do que isso porque eu não precisava ver mais para saber que tipo de homem esse sujeito é.

Ana explodiu:

- Chega madre, pare de falar dele desse jeito!

- E como você quer que eu fale? Conheço bem esse tipo. Bonito e sedutor que promete o céu e as estrelas só para levar ingênuas como você para cama. Exatamente como o seu pai fez comigo!

- Sim, como ele fez com a senhora e apesar disso, a senhora ainda voltou com ele e engravidou de novo do Tony.

- E veja só o que eu consegui com isso?- Raquel retrucou.

- A senhora não tem o direito de me fazer cobranças.- disse Ana. – Eu sou adulta e trabalho duro para sustentar essa casa enquanto a senhora bebe e joga com suas amigas. Eu já estou cansada disso!

- Bem, minha filha, lamento que eu e seu irmão sejamos um estorvo para você, mas acha que esse homem vai mesmo cumprir o que disse? Se casar com você? Ele está apenas te usando Ana, não consegue ver?

- Ele não está me usando, madre. Ele me ama e eu também o amo.

Raquel respirou fundo e se sentou no sofá tentando buscar algo de bom naquela revelação. Mas não conseguia ver nada mais do que sua filha ficando grávida daquele homem e sozinha.

- Ele foi seu primeiro?- Raquel perguntou, de repente.

- Sim.- Ana respondeu. Já que Raquel os tinha pegado juntos na cama, ela não tinha porque mentir.

- Onde se conheceram?

- Ele é meu chefe na fábrica.- Ana despejou de uma vez. – Mas não foi lá que nos conhecemos.

Raquel quase teve um ataque cardíaco com aquela revelação.

- Oh Deus, isso torna as coisas ainda piores. Ele é seu chefe? Supervisor? Algo assim?

Ana baixou os olhos antes de responder:

- Na verdade ele é o dono da fábrica Ford.

- Oh não! O homem que acabou de sair daqui é James Ford? Eu sabia que já o tinha visto em algum lugar, acho que na TV ou nas revistas. Ana-Lucia, você enlouqueceu, menina? Como é que pôde estar dormindo com seu próprio chefe? Um homem tão rico como James Ford. Agora tenho certeza absoluta de que ele está usando você. Não vê? Ele deve estar acostumado a levar operárias jovens e bonitas para a cama para depois deixá-las para trás. Ana-Lucia, eu sonhei um futuro tão diferente para você, esperava que se tornasse uma grande dançarina, que ganhasse troféus...

- E vou ser uma grande dançarina, madre! Estou me esforçando muito pra isso, a competição em Las Vegas será muito em breve e...

- Você já estará grávida até lá se continuar dormindo com o seu chefe, escute o que estou lhe dizendo.

Ana suspirou, estava cansada daquela conversa que não levaria a lugar nenhum.

- Preciso me vestir e sair.- disse Ana. – Tenho que ir pra academia ensaiar, o Paulo está me esperando...

- Faça o que tem de fazer.- disse Raquel magoada.

Ana deu as costas à sua mãe e já estava indo para o quarto quando ouviu Raquel perguntar:

- Me responda Ana-Lucia, ao menos tem se prevenido? Você sabe...na minha época era mais difícil, mas agora...

Ana-Lucia ficou embaraçada com a pergunta da mãe, já era demais ter sido flagrada na cama com o namorado e agora a mãe perguntava se ela estava usando camisinha, principalmente porque a resposta era quase sempre. Eles usavam camisinha na maioria das vezes, mas Ana se lembrava bem de não terem se prevenido na primeira vez quando fizeram amor na academia, ou quando transaram no carro dele no estacionamento do prédio e dessa vez na casa dela quando o próprio Sawyer mencionara a possibilidade de terem feito um bebê.

Mas era óbvio que não podia contar nada disso para sua mãe. Raquel já estava desesperada o suficiente com a possibilidade de Ana-Lucia engravidar. Por isso, a melhor saída foi mentir.

- Sim, mama, sempre. Não se preocupe.

Raquel olhou para a filha de um jeito desconfiado, mas quando ela ia dizer alguma coisa, Tony voltou do mercado trazendo Vincent pela coleira. Ana-Lucia aproveitou a chegada dele para correr para o quarto.

Uma vez lá dentro permitiu-se relaxar um pouco depois do flagra que sua mãe dera nela e em Sawyer. Não era justo. Tinham tido uma noite maravilhosa juntos, de total sintonia amorosa e o desfecho terminava daquele jeito. Isso fora o fato de Sawyer tê-la pedido em casamento duas vezes. A cabeça de Ana ainda estava girando com isso.

Casar com Sawyer, um dos homens mais ricos e influentes de Los Angeles parecia completa loucura para uma simples garota cubana que imigrara para os Estados Unidos com a família buscando melhores condições de vida. Parecia um sonho impossível. Sim, estavam apaixonados, mas não era tão simples assim. Pertenciam a mundos diferentes e Ana-Lucia tinha certeza que se tentassem ficar juntos de verdade teriam que enfrentar muitos obstáculos e ela não sabia se estava preparada para isso. Tinha sua família para cuidar e não podia abandonar a mãe e o irmão por causa de um homem. Definitivamente, Ana-Lucia tinha muito o que pensar antes de dizer sim ou não para Sawyer.

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- Certo, Sabrina, pois é, eu precisava muito falar com a Shannon. Pena que ela não está em casa. Liguei pra ela, mas ela não atende o celular.- dizia Sawyer para a mãe de Shannon ao telefone. Ele mal chegou ao seu apartamento e resolveu telefonar para a ex-noiva, pretendia conversar seriamente com ela sobre o bebê. Queria dizer a Shannon que pretendia se casar com Ana, mas que assumiria sua responsabilidade como pai, não só financeiramente como afetivamente. Que ele gostaria de participar de todas as consultas e exames se ela permitisse.

- Shannon anda deprimida, você sabe, depois que vocês terminaram.- disse Sabrina tentando comover Sawyer. Mas nada disso era verdade, pois desde o dia anterior Shannon mal parara em casa. Ela só ouvira a filha comentar com o pai que iria a uma festa árabe na sexta-feira. Portanto, não havia nenhum traço de depressão nela pela separação de Sawyer, muito pelo contrário.

- Eu sinto muito que ela esteja se sentindo assim, Sabrina.- disse Sawyer. – E é por isso mesmo que preciso falar com ela. Poderia dar o meu recado?

- Sim, com certeza. Obrigada por ligar, James.

- De nada, Sabrina. Até logo.

Sawyer desligou o telefone e afundou no sofá. Estava cheio de dores pelo corpo por causa da surra que levara e o esforço físico que fizera com Ana-Lucia na noite passada. Mas não se sentia infeliz, de maneira nenhuma. Era como se finalmente as coisas tivessem ficado claras para ele. Casar com Ana-Lucia parecia tão certo. Sua mãe tinha razão quando dissera que chegara a hora dele tomar um rumo na própria vida. Só faltava encontrar a mulher certa e agora que tinha encontrado, ele não a deixaria escapar jamais.

Quanto a Gabriel, ele pensara seriamente em denunciar o abusado e sua gangue para a polícia, mas depois mudou de idéia porque não estava interessado em entrar num cansativo processo judicial contra um homem que obviamente perderia. Mas daria o troco no latino, ah isso com certeza. Gabriel iria pagar por tê-lo agredido e nunca mais em sua vida ousaria se aproximar de Sawyer. Falaria com Jack sobre isso o quanto antes.

A Sra. Adams entrou na sala nesse momento segurando um envelope branco endereçado para Sawyer, mas quando viu o patrão com a cabeça apoiada no espaldar do sofá, a velha senhora ficou pálida de susto.

- Oh, meu Deus, Sr. Ford, o que houve com o seu rosto? O senhor se machucou? Temos que chamar um médico agora mesmo.

- Não, Sra. Adams. Nem pensar nisso! Foi só um acidente à toa, não preciso de médico. E não ouse dizer uma palavra sobre isso para a minha mãe, entendeu?

- Mas o senhor está tão machucado.

- Pegue uma bolsa de gelo e aspirinas que vou ficar nova em folha. Eu devia voltar para a fábrica hoje, mas não quero aparecer por lá com o rosto desse jeito, portanto, por favor, ligue para a Sra. Henderson e diga que vou tirar mais um dia de folga.

- Está bem, senhor. – concordou a Sra. Adams. – Mas tem certeza de que não quer que eu chame um médico?

- Absolutamente não.

- Tudo bem.- ela concordou finalmente. Mas antes de sair, entregou-lhe o envelope. – Isso aqui chegou pro senhor esta manhã. È da sua noiva.

- Obrigado, Sra. Adams.

Quando ela deixou a sala, Sawyer pôs o envelope de lado por alguns instantes enquanto telefonava para Jack. Queria chamar o amigo para almoçar com ele em seu apartamento e então discutiriam qual seria a melhor forma de dar um grande susto em Gabriel.

Ele ligou para Jack que não demorou a atender o telefone.

- Hey!- disse ele.

- E aí, Jack?

- Como você está, cara? Liguei ontem pro seu celular mas você não atendeu.

- Eu tô bem, mas preciso muito falar com você. Dá pra dar uma passada aqui agora de manhã? Podemos almoçar juntos aqui mesmo.

- Certo, tô passando aí em uma hora.

Sawyer desligou o telefone, mas antes de olhar o envelope de Shannon, ele fez outra ligação.

- Joalherias H. Stern?- indagou uma voz feminina educada do outro lado da linha.

- Bom dia.- disse ele. – Aqui quem fala é James Ford.

- Oh bom dia, Sr. Ford.- disse a moça assumindo um tom de voz ainda mais educado e interessado. – Como está o senhor?

- Eu estou ótimo.

- Em que posso ajudá-lo, Sr. Ford?

- Quero fazer uma encomenda especial. Como se chama?

- Lila, senhor e estou aqui para ajudá-lo no que precisar.

- Lila, eu gostaria de encomendar uma jóia feita sob medida.

- Poderia me descrever o que tem em mente, senhor?

- Quero um par de presilhas de diamante em formato de coração. E não economizem nos quilates.

- Presilhas douradas, senhor?

- Sim, presilhas delicadas e douradas para se sobressaírem em lindos cabelos negros.

- Para quando deseja, senhor?

- O mais breve possível.- respondeu Sawyer. – E quando eu for buscar as presilhas quero ver os melhores anéis que tiverem, pois levarei minha noiva para escolher o anel de noivado.

- Sim, senhor.- disse a vendedora contente com as vendas que tinha acabado de efetuar. – O senhor gostaria que eu fizesse um orçamento das presilhas de diamante?

- Não precisa.- respondeu ele. – Não importa o preço, só quero que sejam perfeitas para minha noiva.

- Tudo bem senhor.

Ele se despediu da vendedora e desligou o telefone. Presilhas de diamante seriam perfeitas para as madeixas negras de Ana. Já estava ansioso para ver como a jóia ficaria nela. O próximo passo seria mandar flores para a mãe dela. Precisava conquistar sua futura sogra e apagar a imagem de cafajeste que ela tivera dele ao vê-lo na cama de sua filha.

Mas Raquel logo logo seria convencida de que ele tinha boas intenções com Ana-Lucia. Sawyer queria fazer as coisas direito dessa vez. Um jantar de noivado para toda a família, um anel, um casamento convencional. Tudo o que a mãe dele sempre quis, exceto que levaria algum tempo para Mary se convencer de que Ana-Lucia era a mulher perfeita para ele, mas sua mãe logo se renderia aos encantos da cubaninha, como ele mesmo já se rendera.

Sawyer finalmente resolveu abrir o envelope que Shannon lhe deixara e ficou muito surpreso quando viu que o anel de noivado que ele lhe presenteara estava ali dentro junto com uma carta muito curta que dizia:

"Fiz um exame de sangue para confirmar a gravidez e deu negativo. Não tem mais com o que se preocupar. Também estou devolvendo o anel de noivado, não teria sentido ficar com ele. Sem ressentimentos. Shannon."

Um alívio enorme percorreu o corpo de Sawyer naquele momento. Shannon não estava grávida e ele poderia se casar com Ana e ter seus próprios filhos com ela sem ter que se preocupar sobre dividir a guarda de uma criança com a ex. Ana ficaria feliz quando soubesse que o caminho estava livre para eles. Agora nada mais poderia separá-los.

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Gabriel batia papo com seus comparsas em frente ao açougue quando Ana passou com sua bicicleta na frente deles. Sentiu uma raiva incontrolável dentro de si e desceu da bicicleta. Gabriel tinha que pagar pelo que tinha feito com Sawyer e ela não duvidada nada de que tinha sido ele quem armara para eles dois no dia anterior causando a terrível briga que tiveram.

- Caramba Gabriel, mira tu chica!(Gabriel, olha a tua garota!) Ela está vindo pra cá e não está com uma cara boa.- debochou um dos comparsas de Gabriel.

- Buenos dias, Ana.- disse ele com a expressão cínica no rosto, mas não pôde dizer mais nada porque levou um sonoro tapa na face.

- Seu imbecil!- ela gritou. – O que pensou que estava fazendo quando chamou sua gangue para surrar o meu namorado?

Os amigos de Gabriel fizeram deboche.

- Que bonitinho! O maricón (fresquinho) mandou a namorada vir aqui dar uma surra na gente?

- Ele não me mandou fazer nada!- Ana retrucou. – Vim aqui bater em vocês por conta própria e vou convencer meu namorado ir até a polícia denunciar vocês. Com a ficha enfeitada que vocês tem na delegacia não será difícil que vocês sejam transferidos para uma daquelas penitenciárias horríveis e cumpram pena por mais de cinco anos!

- Calma aí, Ana-Lucia.- disse Gabriel esfregando o lado do rosto onde tinha apanhado. – Foi o seu namoradinho quem pediu aquela surra. Ele sabe muito bem que não é bem vindo em Los Canales.

- Ah é? E quem você pensa que é Gabriel? O presidente de Los Canales? Pois fique sabendo que vai pagar pelo que fez, de um jeito ou de outro.

Ela virou às costas á gangue e voltou para sua bicicleta, mas antes que ela fosse embora, Gabriel disse:

- Hey, Ana-Lucia! Não era comigo que deveria se preocupar. Tem gente que não quer o seu namoro com o iankee muito mais do que eu.

Ana montou na bicicleta e foi embora, mas as palavras de Gabriel ficaram em sua mente. Alguém tinha armado para cima deles com o intuito de separá-los usando Gabriel. Mas quem poderia ser? Sua mãe não seria capaz de uma coisa dessas, além do mais, ela acabara de descobrir sobre Sawyer. Mas havia outra pessoa e Ana-Lucia tinha suas próprias desconfianças.

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Hellen Locke chegou do shopping center carregada de sacolas. Pretendia passar na fábrica Ford e pegar o marido para almoçar. Mas antes quis passar em casa para guardar as compras. Ela tinha deixado o filho Marvin na casa de um amigo e aproveitaria o resto da tarde livre para ir ao salão de beleza.

Ela colocou as compras sobre a cama e já estava quase saindo de casa novamente quando o telefone tocou:

- Alô?

- Boa tarde.- disse uma voz feminina com um sotaque diferente. – John Locke está?

- Meu marido não está.- respondeu Hellen. – Ele está na fábrica trabalhando. Posso perguntar do que se trata?

- È somente com ele.- respondeu a mulher. – Poderia dar um recado a ele?

- Pois não?- disse Hellen.

- Diga que Raquel Cortez precisa falar com ele.

Hellen quase deixou o telefone cair no chão quando ouviu aquele nome. Não era possível que estivesse falando com Raquel Cortez.

- Alô? Alô?- dizia Hellen, mas Raquel já tinha desligado.

Hellen respirou fundo. Teria muita coisa a perguntar à seu marido durante o almoço.

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Kate chegou com cara de poucos amigos na academia naquela manhã, pouco depois das dez. Ela atirou as chaves sob o balcão quase acertando Nikki que digitava ao computador.

- Desculpe.- foi tudo o que disse para a assustada recepcionista antes de se dirigir ao salão de dança onde Ana e Paulo estavam ensaiando.

- Bom dia, Kate.- disse Ana-Lucia.

- E o que tem de bom?- retrucou Kate.

- Nossa! O que houve com você?- indagou Paulo.

Kate fechou ainda mais a cara.

- Ah ta, desculpa. Não pergunto mais.- disse Paulo. – Analulu, vou tomar uma água.

Ana-Lucia assentiu, mas disse:

- Não beba água demais! Ainda não terminamos o ensaio.

Ele fez um sinal positivo para ela e seguiu para o bebedouro.

- A nova professora de balé acabou de sair. As crianças gostaram muito dela, fez uma boa escolha, Kate.

- Pelo menos nisso fiz uma boa escolha.- ela olhou para o anel de noivado com ar de enfado.

- O que está acontecendo, Kate?- Ana indagou. – Por que está tão zangada?

- Ai, Ana!- Kate resmungou. – Tive uma manhã terrível com minha futura sogra. Ela me levou às compras do meu enxoval de casamento. Acredita nisso? Que coisa mais antiquada!

- Minha mãe não acharia.- disse Ana. – Raquel Cortez adora coisas antiquadas.

- Mas a Sra. Shephard Ana, ela é terrível! Pergunta a minha opinião, mas quando vou responder ela vem e diz: Oh não Kate, acho que cor de rosa cai bem melhor em você do que amarelo. Ana, eu odeio cor de rosa, não quero a decoração do casamento dessa cor. Se eu me casar em um ambiente cor de rosa, a pantera cor de rosa vai estar se casando, menos eu.

- Eu entendo você. Já conversou com o Jack?

- Ah, ontem, quando ele trouxe a mãe aqui para falar comigo, eu prometi a ele que colaboraria com tudo, mas agora estou me arrependendo amargamente de ter dito isso. Tudo o que eu queria era um casamento simples, podia até ser no cartório mesmo. Mas a Sra. Shephard quer o casamento no rancho da família no Arizona. Uma cerimônia ao vivo na piscina com mil e tantos convidados.

- Mas não ia ser aqui mesmo em Los Angeles naquela igreja chique, como é mesmo o nome?

- Bem Ana, aparentemente minha futura sogra muda de idéia a cada cinco minutos. Eu não agüento mais tudo isso! Ela quer vestir as damas de honra baseada nos vestidos de Mary Poppins. Ana-Lucia, não quero damas de honra com guarda-chuvas negros no meu casamento.

Ana deu uma gargalhada.

- Oh, me desculpe Kate, mas é que você falando assim parece até engraçado.

- Ela marcou o chá de panela para sábado e já convidou as pessoas. Isso para compensar o jantar de noivado íntimo. Ana, eu não sei nem quem serão os convidados.

- Kate, se está tão angustiada assim, deveria conversar novamente com o Jack.

- Ana tudo isso me faz pensar se quero realmente me casar com o Jack.

- O quê?- Ana ficou espantada. – Mas amiga...

- È tanta coisa!

- Kate, amiga, vai dar tudo certo. Me diz, com toda a sinceridade do mundo, você ama o Jack? Quer mesmo passar sua vida com ele? Sei que se conhecem há tão pouco tempo mas...

- O Jack foi o único homem que me inspirou confiança de verdade, Ana-Lucia. Eu não poderia me casar com outro.

- Se é assim amiga, não ligue para a mãe dele. Será apenas esse momento, depois voc~e e Jack terão a vida inteira para viverem como quiserem.

Kate sorriu.

- Você tem razão.

- Eu tenho uma coisa pra te contar.- disse Ana-Lucia.

- O que é?- Kate indagou com a sobrancelha erguida.

- Sawyer me pediu em casamento.

- Oh Deus!- Kate exclamou surpresa.

- A primeira vez, ele me pediu em casamento no hospital e eu não acreditei. Achei que ele estivesse fazendo isso porque se sentia fragilizado, mas depois de ontem à noite...

- O que aconteceu ontem à noite?

- Muita coisa. Se lembra que eu recebi flores dele e um bilhete pedindo pra gente se encontrar em Malibu porque ele já tinha saído do hospital?

- Lembro sim.

- Não sei o que aconteceu, mas quando cheguei lá encontrei o Gabriel e ele veio com uma conversa furada, até me beijou.

Kate fez cara de espanto.

- Só que o Sawyer apareceu nesse exato momento e nós brigamos. Ele ficou louco de ciúmes e tivemos uma briga terrível, senti que tudo terminara.

- Meu Deus!- exclamou Kate. – Mas vocês terminaram mesmo?

- Não.- respondeu Ana. – Ele se arrependeu do que disse pra mim e foi me pedir desculpas lá em casa. Só que quando ele estava chegando lá, a gangue do Gabriel pegou ele e o Sawyer foi surrado.

- Eu não acredito! Ele está bem?- Kate estava cada vez mais surpresa com a história de Ana.

- Ele está bem sim, embora com luxações no rosto, algumas no corpo. Ele apareceu lá em casa desse jeito, imagina só o meu desespero. Cuidei do meu amor, é claro e o convidei pra dormir em casa. Só que a minha mãe estava lá. Nós passamos a noite juntos e pela manhã minha mãe entrou no quarto...

- Ana-Lucia, tem como essa história ficar ainda mais cabeluda?- perguntou Kate atônita.

- Minha mãe ficou uma fera, gritou comigo, disse coisas terríveis. Quase bateu no Sawyer e quase me bateu também depois que soube que ele era o meu chefe na fábrica. Ela tem medo que eu engravide e o Sawyer me largue como meu pai fez com ela. Mas Kate, o Sawyer jamais faria isso. Eu tive certeza quando ele me pediu em casamento de novo, à porta da minha casa. Foi tão romântico.

- E você disse sim?

- Eu disse que precisava pensar. È um passo muito grande e ele ainda tem que resolver as coisas com a Shannon e a gravidez dela.

- È verdade.- concordou Kate. – Mas saiba amiga que não importa a decisão que tomar, eu sempre apoiarei você.

- Hey, suas tagarelas, que tal mais trabalho e menos conversa?- Paulo debochou. – Eu e Analulu já terminamos a coreografia principal pra competição em Las Vegas.

- Mesmo?- indagou Kate, animada. – Eu preciso ver isso! Estou tão ansiosa!

- Nós vamos mostrar agora!- disse Paulo entregando o controle remoto do som para Kate. – È só dar o play chefa!

Paulo e Ana-Lucia se posicionaram na pista de dança. Eles estavam de frente um para o outro. Ana com os braços erguidos para cima, uma das pernas apoiadas no quadril de Paulo. Ele a segurando pela cintura com ambas as mãos. Kate acionou o play.

Trilha sonora: Sway me/ The pussycat dolls

O casal se movimentou de acordo com a evolução da música até que Paulo rodopiou Ana e eles deram início à complexa coreografia. Eles deslizavam pelo salão, graciosos, postura de bailarinos, ao mesmo tempo em quem mostravam sensualidade.

Kate adorou quando por várias vezes Paulo carregou Ana no colo e rodopiou com ela pelo salão. Ana-Lucia usava o cabelo para fazer charme ao mesmo tempo em que fazia bom uso das pernas ao executar os passos. Em um determinado passo, ela passou as pernas por dentre as pernas de Paulo e ele escorregou com ela para o chão se erguendo quase que de imediato. Kate bateu palmas.

Ao finalzinho da música, Ana escorregou para o chão sozinha e Paulo lhe segurou os braços. O casal parou em uma posição clássica, como uma estátua grega.

- Maravilhoso! Adorei!- elogiou Kate. – Ficou perfeito!

- Então, acha que temos chance de ganhar em Las Vegas?- indagou Paulo enxugando o suor da testa com as costas das mãos.

- O prêmio já é nosso!- Kate falou com entusiasmo. – Mas sabem o que eu estava pensando?

Paulo e Ana prestaram atenção a ela.

- Que nós devíamos incluir o tango em nossa performance, o que acham?

Os dois se entreolharam.

- Bem, Kate, você sabe que tango não é o meu forte.- declarou Paulo.

- Eu poderia criar uma coreografia de tango, sem problemas.- disse Ana-Lucia. – Mas precisaria de outro parceiro já que o Paulo não iria topar.

- Mas eu tenho o parceiro perfeito pra você.- disse Kate.

- Quem?- indagou Ana.

Paulo sorriu, pois já sabia a resposta.

- Sawyer.- respondeu Kate. – O Sawyer é um excelente dançarino e tem uma ótima postura, não demoraria muito tempo para ele pegar os passos de tango. E sei que você ensinaria ele muito bem.

Ana balançou a cabeça.

- Não sei não, Kate. O Sawyer adora dançar, mas competir...

- Tenho certeza de que se você pedir com jeitinho, ele aceita.- disse Kate com ar maroto, piscando para ela.

Ana ficou vermelha com a brincadeira de Kate e Paulo provocou-a:

- È isso aí, Analulu. È melhor você usar o jeitinho logo, não temos muito tempo para a competição.

Ana ignorou a malícia e voltou a música para que eles dançassem mais uma vez.

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- Mama, mama!- Tony entrou na cozinha todo agitado segurando um enorme buquê de flores do campo.

- O que é isso, menino?- indagou Raquel que preparava o almoço, limpando as mãos sujas de trigo no avental.

- Um entregador acabou de trazer. São para a senhora.

- Para mim?- Raquel retrucou.

- Sim, madre. Acho que foi papa quem enviou.

- Seu pai me mandando flores?- disse Raquel com incredulidade. – Mais fácil vaca botar ovo. Não vejo aquele traste há tanto tempo que um simples buquê de flores não me convenceria a aceitá-lo de volta.

Raquel checou o cartão e seu rosto adquiriu um tom furioso.

- Tony, leva isso daqui!- ela devolveu as flores ao filho.

- De quem são, madre?

- Daquele homem a quem sua irmã chama de namorado.- respondeu Raquel.

- O Sawyer? A senhora não gosta dele?

- Isso não importa, Tony! Fala o que eu estou mandando agora!

Tony ficou cabisbaixo e disse:

- O Sawyer é o melhor namorado que a Ana já teve. Ele até já me levou para ver o jogo dos Knicks.

- Melhor namorado?- questionou Raquel. – E quantos namorados sua irmã já teve?

- A senhora saberia se prestasse mais atenção a ela.- respondeu Tony dando de ombros.

- Òtimo! Pode falar comigo desse jeito. Quer ficar de castigo sem televisão?

- Desculpa, madre.- disse o menino humildemente. – O que faço mesmo com as flores?

- Se livre delas.- respondeu Raquel ficando apenas com o cartão de Sawyer nas mãos.

Quando Tony saiu da cozinha, ela leu:

-"Sra. Cortez, minhas intenções com sua filha são as melhores do mundo. Eu a amo e vou me casar com ela. Espero podermos contar com sua benção."

Raquel rasgou o papel em duas partes e jogou-as no lixo.

- Boas intenções, sei!- Raquel resmungou. – De boas intenções o inferno está cheio!

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Locke descansou os talheres sobre o prato de porcelana e encarou sua esposa no restaurante, ela quase não havia falado desde que eles começaram a comer e ele estava achando isso muito estranho, pois Hellen costumava ser uma tagarela.

- O que houve, querida? Aconteceu alguma coisa? O Marvin está bem?

Hellen encarou o marido com olhos acusadores e não fez rodeios ao perguntar:

- Está se encontrando com Raquel Cortez?

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- Estava tudo delicioso, Sra. Adams. Muito obrigado.- disse Jack quando a governanta tirou os pratos de sobremesa da mesa.

- De nada, Sr. Shephard.- disse ela, deixando a sala de jantar.

Sawyer tomou mais um gole de suco de fruta e encarou o amigo.

- Quer dizer então que esse tal Gabriel e sua gangue quebraram a sua cara desse jeito?- indagou Jack.

- Eles eram vários Jack, foi só por isso que me pegaram. Se aquele imbecil tivesse lutado comigo mano a mano...

- Você teria arrebentado ele.- concluiu Jack.

- Exato, e é por isso mesmo que vou precisar da sua ajuda pra gente dar uma lição hoje à noite naquele idiota. Andei fazendo umas ligações e descobri que ele freqüenta o Espelho.

- Bom saber.- disse Jack. – A gente pode chamar uns caras e dar um susto neles.

- Vai fazer mais efeito do que eu entrar com uma ação.

- Concordo totalmente.- disse Jack. – Mas agora me diz, vai mover uma ação contra a sua futura sogra também por ela ter te batido com o tamanco?- Jack debochou.

- Eu sabia que você ia me encarnar, mas tudo bem, eu mereço. Desafiei a mulher. Dormi com a filha dela na casa dela, eu devia ter sido mais cuidadoso. Na verdade, eu tentei ser, mas a morena insistiu pra eu passar a noite lá e você sabe Jacko o poder de persuasão que essa mulher tem sobre mim, não sabe?

- Você é o cachorrinho babão dela.

- Exatamente.- disse Sawyer rindo. – Jack, nunca amei uma mulher assim na minha vida. Eu sinto que se ela me deixasse eu morreria.

- Nossa, cara! Nunca ouvi você falar desse jeito. Isso me faz lembrar nossas primeiras conversas sobre Ana-Lucia. Você dizendo que ela era só um capricho...

- É Jack e você me dizendo o contrário e eu achando que o meu desejo por ela acabaria quando a gente transasse pela primeira vez, mas foi justamente o contrário. A cada dia eu a quero mais.

- Que romântico!- Jack debochou.

- Ah tá, agora eu sou o romântico?- Sawyer retrucou. – E como vão as coisas com a sardenta?

- Estão indo bem eu acho. Hoje ela saiu com a minha mãe pra começar a comprar o enxoval de casamento.

- Enxoval? E ainda tem gente que usa essa palavra, cara?

- A minha mãe usa.- Jack respondeu rindo. – Bem, e mudamos de idéia quanto à realização da cerimônia, não será mais aqui em LA, mas no rancho da minha família no Arkansas.

- Sério isso? Nossa! Faz tanto que não vou pra lá. Vai ser divertido.

- E eu mal posso esperar para me casar com a Kate. Sawyer, tô no meu limite, homem, sonho com ela todas as noites. Preciso muito dela!

- Hum, você tem insistido o suficiente? Será que ela vai ficar regulando mesmo pra você até estarem casados?

- Não importa, Sawyer! Eu sei esperar! Vou respeitar a decisão dela até o fim!

- Boa sorte, amigo, vai precisar!

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Sun se olhou diante do espelho e destampou o batom cor de rosa, escorregando a superfície macia sobre sua boca. Seus filhos já estavam prontos, esperando-a na sala. Ela pegaria o turno da noite na fábrica e deixaria as crianças na casa de uma vizinha próxima.

Ela terminou com o batom e passou os dedos sob os cabelos se lembrando do que acontecera no dia anterior quando Jin, o novo supervisor de máquinas do setor onde ela trabalhava lhe convidou para tomar um café e ela acabou aceitando.

Conversaram por cerca de meia hora e Sun nunca tinha se sentido tão feliz. Jin era um homem maravilhoso e a tratava como uma princesa, com todo o respeito que ela merecia. Ela sabia que ele estava interessado, mas não tinha tentado nada contra ela porque era casada e também fora educado em não perguntar muito sobre o último olho roxo dela.

Como Sun gostaria de ter um homem como Jin em sua vida, um pai melhor para seus filhos.

- Acorda, Sun!- ela disse para si mesma deixando o banheiro, mas tomou um grande susto ao dar de cara com Jae Lee.

- Ah, aí está você!- resmungou ele. Estava bêbado como sempre. – Pra onde está indo?

- Eu estou indo trabalhar.- ela se desvencilhou dele. – Vou levar as crianças para a casa da Taylor.

- Não vai não!- disse ele, imprensando-a contra a parede do banheiro. – Hoje você vai ficar aqui comigo e fazer o que eu quiser!

- Não!- Sun gritou, mas ele a segurou com força.

- Volte aqui, vagabunda!

- Mamãe! Mamãe!- as crianças gritavam da sala.

Pela primeira vez na vida Sun criou coragem para realmente se defender e tirando forças não soube de onde, ela o atingiu no rosto, deixando-o tonto por alguns momentos que ela aproveitou para fugir.

- Vamos crianças! Vamos!

Os filhos correram com ela para a rua. Correram o mais rápido que podiam até dobrarem a esquina. Sun ainda pôde ouvir os gritos do marido ao longe, mas decidiu que já era hora de um dar basta àquela situação de uma vez por todas. Pediria ajuda.

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Trilha sonora: I turn to you/ Melanie Chisholm

Ana-Lucia tinha acabado de chegar da fábrica. Não via Sawyer desde de manhã em sua casa. Quando seu celular tocou na hora em que ela procurava algo para comer na cozinha, ela desconfiou que fosse ele e seu coração acelerou. Apenas algumas horas e já estava com saudades.

Raquel viu a filha correr para atender o telefone e franziu o cenho. Naquele noite ela não saiu para beber. Queria ficar vigiando a filha para ver o que ela ia fazer. Não ia permitir Sawyer passando mais uma noite na casa dela na cama de sua filha.

Ana foi atender ao telefone no quarto, tendo o cuidado de trancar a porta atrás de si dessa vez. Ela se jogou na cama e atendeu o aparelho com a voz melodiosa:

- Oi, meu amor.

- Oi, anjo.- disse ele. – Eu não ia agüentar esperar pra ouvir a sua voz só amanhã.

Ana sorriu.

- Já está com saudades, baby?

- Sempre.- ele respondeu. – Como estão as coisas?

- Indo.- ela respondeu. – Minha mãe ainda está zangada e provavelmente ficará por muito tempo.

- Eu mandei flores pra ela hoje.

- Mesmo? Ela não me disse.

- Então ela está mesmo zangada, mas baby, o que eu posso fazer se sou tão louco por você? Ninguém pode nos separar, você sabe não é?

- Eu sei.- ela disse com um suspiro. Era tão bom estar apaixonada.

- Eu tenho uma boa notícia pra você.

- Que notícia, amor?

- Shannon não está grávida. Ela me deixou um bilhete contando tudo, sem ressentimentos.

- Sério isso?

- Muito sério, Ana. Agora podemos fazer tudo direitinho sem nos preocupar com nada. Você é única pra mim, sabia?

- Queria que você estivesse aqui...

- Pense que eu estou abraçando você agora, sentindo o seu calor...

Ana fechou os olhos.

- Estou sentindo...

- Sinta agora um beijo nos seus lábios, um beijo gostoso...

Ela sorriu.

- Eu te amo, Sawyer.

- Também te amo muito, bebê.

- Amanhã quero falar com você sobre algo importante.

- Hum, agora fiquei curioso. Vai me dizer sim amanhã?

- Seu bobo! Ainda preciso pensar. Mas não é sobre isso que quero falar amanhã. Você vai saber. Agora sou eu que estou beijando você...

- E eu posso sentir a sua boca macia e molhada na minha...

- Ò Sawyer, dá pra ser ou ta difícil?- Ana ouviu a voz de Jack do outro lado da linha.

- Desculpe amor, mas o Jack está me esperando, a gente vai dar uma saída.

- Tá bom. Nos vemos amanhã.- ela fez barulho de beijo ao telefone.

Quando Sawyer desligou, Jack fez deboche.

- Oh Sawyer, sinta meus lábios nos seus...

- Sabia que falta de educação ficar escutando a conversa dos outros.- resmungou Sawyer.

- Vamos logo! Chuck e os caras já estão aqui! Vamos dar um bom susto nesse tal de Gabriel!

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Depois de falar com Sawyer, Ana retornou à cozinha, tomou um copo de leite e foi ler um pouco em sua cama. Estava tão concentrada em seu livro de ficção que pegou um susto quando ouviu batidas na porta. O coração acelerou. Seria Sawyer?

Ela se ergueu rápido da cama e ouviu a voz de Raquel atrás de si.

- Se for aquele seu namorado diga para ele ir embora!

Ana não ligou para a mãe e abriu a porta. Sun estava na rua com a filha pequena nos braços e o menino mais velho seguro pela mão. Os olhos cheios de lágrimas e uma pequena mochila nas costas.

- Ana, me ajuda por favor...eu não tenho pra onde ir.

- Oh Deus, Sub! Entre! Está tão frio aí fora.- disse Ana-Lucia ajudando Sun com as crianças.

Continua...

Continua...