Sonserinos

'Então, você voltou.' Disse sr. Malfoy dando um sorriso torto e cruzando os braços quando me viu entrar na sala de trabalho dele sem qualquer cerimônia. Sei que deveria bater antes de entrar, mas depois da conversa que tive com ele no outro dia, parecia que Draco Malfoy e eu criamos uma simpatia um com outro que me permitia entrar na sala dele sem nem mesmo bater na porta. Era como uma afinidade silenciosa.

Eu levantei os ombros. 'Sim, mamãe disse que eu poderia vir pelo resto da semana.'

'Ah sim? E por que você quer vir pelo resto da semana?' Ele perguntou curioso levantando uma das sobrancelhas finas.

'Estou em dúvida para que aulas fazer para os N.I.E.M's. Daí ela disse que eu poderia vir aqui no Ministério saber o que cada profissão faz pra ver se encontro alguma do meu interesse.' Respondi andando pela sala e sentando sobre a mesa de escritório dele. Eu dei um sorriso pomposo pra ele e só o que ele fez foi respirar fundo. Não demorou muito e ele deu uma volta e encostou-se na mesa, ao meu lado. Ainda tinha os braços cruzados.

'Ah é? E por quê parece que você está usando o seu tempo para conversar comigo do que realmente ver o que cada profissão faz por aqui?' Ele perguntou interessado. Abaixei os olhos e deixei escapar uma risada.

'A sua profissão é a que mais me interessa'. Menti.

'Mentirosa.' Ele reclamou me empurrando com os ombros. Eu ri mais uma vez.

'Como sabe que eu não estou falando a verdade?'

'Essa é a profissão mais tediosa que tem.' Ele respondeu de cara dura. 'Principalmente para um Sonserino.' Levantei os olhos pra ele e ele deu um sorriso torto.

'E por que está aqui?' Perguntei curiosa. Ele piscou os olhos.

'Kingsley me pôs no posto depois que sua mãe pediu demissão.'

'E por que você disse sim?'

'Por que diria não?' Indagou levantando as sobrancelhas.

'É a profissão mais tediosa que tem. Principalmente para um Sonserino.' Completei levantando o rosto para ele. Malfoy riu divertido. Era a primeira vez que o vira rir daquele jeito. Já vira Scorpius rir, mas nunca Draco Malfoy. Ele parecia ser sempre o tipo de cara sério e carrancudo que não riria nem do sketch do Papagaio Morto do Monty Python. Mas ele achara meu comentário engraçado e rira de como quem rir de uma boa piada. Eu me senti alegre por dentro.

'Sabe...' Ele começou levantando o rosto, deixando a risada esvairecer aos poucos. 'Sempre me perguntei porque você foi para Sonserina...Você, sendo filha de quem é... achei que você seria o Grifinório Perfeito.'

'Nãm.' Neguei com uma careta como se aquilo fosse uma ofensa. 'James Sirius é o Perfeito Grifinório... Talvez por isso ele seja tão irritante.' Comentei piscando os olhos. Malfoy soltou outro riso. Eu desviei meus olhos pro chão. 'Mas eu queria ser.' Terminei com a voz baixa.

Senti ele me olhar com atenção e o riso que até então tinha no rosto, se desfez. Pisquei os olhos. 'Quando era menor, antes de ir para Hogwarts... Eu queria ser da Grifinória. Era a casa dos meus pais. E naquela época, meus pais eram... meus heróis. Cresci com eles me contando as histórias de como eles enfrentaram o Trasgo no Primeiro Ano; como mamãe fora petrificada no segundo...'

'Eu lembro disso.'

'Lupin e o Lobisomem no Terceiro; Como eles mamãe enganou Umbridge e invadiram o Ministério no Quinto; como eles destruíram o medalhão e a taça, ajudando a destruir Voldemort.' Senti meus olhos arderem. Um sentimento de saudade e nostalgia me cobriu por inteira. 'Meus pais eram pra mim, os melhores bruxos do mundo. Inteligentes, poderosos, famosos... mamãe e papai tiveram suas histórias contadas nas figurinhas de sapos de chocolate e nos livros de História. Até em Hogwarts, Uma História, eles estão presentes.'

'Sério?' Ele perguntou sem acreditar. Eu afirmei.

'Mamãe que escreveu a batalha final em Hogwarts, Uma História... embora nem mesmo isso fizera com que Harry e Ron tenha se interessado em ler.' Comentei rindo. Ele me acompanhou na risada também. 'Eu os admirava. Eles mudaram o mundo. Queria ser como eles. Queria passar pelas aventuras que passaram. E sempre quando alguém vinha me perguntar qual casa eu iria em Hogwarts, eu sempre dizia: Grifinória.'

'Deve ter sido um choque e tanto ir pra Sonserina.'

'Foi.' Confirmei com a cabeça. 'Mas nem tanto para alguns. Hugo disse que achava que eu nunca iria para Grifinória... Al também. E mamãe... parece que ela sempre soube. Quando nós fomos ao Beco Diagonal comprar minhas coisas, mamãe e eu fomos para a loja da Madame Malkins comprar as roupas enquanto Papai havia ido com Hugo comprar os livros. A velha da loja me perguntou qual casa eu seria sorteada e eu disse 'Espero que não seja Lufa-Lufa.' Mamãe riu, mas a velha ficou ofendida, acho que ela era da Lufa-Lufa.' Malfoy riu de leve do meu último comentário. 'Então mamãe disse que eu não iria para Lufa-Lufa e eu respondi 'Claro que não, não sou idiota.' Aí ela me disse que o Chapéu Seletor não sorteava as pessoas pelo nível de estupidez de alguém, e por isso, havia idiotas em todas as casas. Dai eu perguntei: 'Você acha que eu vou pra Grifinória?' 'Talvez o Chapéu Seletor fique em dúvida. Ele ficou em dúvida se me colocava na Grifinória ou na Corvinal. Talvez aconteça o mesmo com você.' Eu olhei para mamãe e perguntei: 'Então vou ser da Corvinal ou da Grifinória?' Eu não me importava de ser da Corvinal. Mamãe respondeu: 'Ou uma outra casa.'

'Outra casa?' Ele indagou mesmo sabendo o que aquilo dizia.

Eu confirmei levantando os olhos. 'Ela sabia. Sabe como dizem, as mães conhecem a cria. Hermione sabia que não ia para Grifinória e ela tentou por várias vezes, fazer a cabeça de Ron para que ele não ligasse com que Casa eu iria quando acontecesse. Dizia que não era certo papai incentivar a rivalidade das casas quando nem havíamos chegado em Hogwarts ainda.' Malfoy se permaneceu calado, apenas se deixando escutar. 'Quando Chapéu Seletor me sorteou, ele realmente tinha ficado em dúvida entre Sonserina e Corvinal. E que, em todos os Weasleys de que ele se lembrava, eu havia sido a primeira a não ir para Grifinória. Eu fiquei assustada e devastada. Era pra eu ir para Grifinória. Era pra eu ser como mamãe e papai... enfrentar Trasgos, Basiliscos, Lobisomens e Comensais...Mudar o mundo... ' Fiz um movimento negativo com a cabeça. 'Não. Só o que tive em todos esses anos em Hogwarts foi ter que estudar para provas e exames. Até mesmo a cadeira de Defesa Contra as Artes das Trevas continuava com o mesmo professor todos os anos.'

'Parece chato.'

'Não tanto. Mas no final do primeiro ano, eu percebi que Chapéu Seletor tinha feito a escolha certa. Eu não era Grifinória. Daí, eu cresci. Meus pais deixaram de ser meus heróis e acabei tendo uma personalidade chata de ficar julgando tudo e observando todo mundo.' Falei sem se preocupar em dizer verdades de mim mesma para aquele homem solitário do meu lado. 'Achava que estava certo o tempo todo. Mas não estava. Ao contrário, na maioria das vezes eu estava muito errada. E no tempo que demorei para descobrir isso, eu já tinha errado tanto que pensei que mesmo o certo era o errado a se fazer.' Meu olhos perderam o foco por um instante. Malfoy soltou um suspiro forte. 'Não sei como o Chapéu Seletor sorteia as pessoas, mas acho que Sonserinos parece ter isso em comum.'

'Julgam tudo e observam todo mundo?' Ele franziu a testa confuso.

'Não. Erram tanto que mesmo o certo parece o errado a se fazer.' Respondi levantando os olhos para ele. Malfoy ainda tinha os braços cruzados e ele me olhava querendo entender o que eu havia insinuado. Ele pareceu entender, mas se fez de não, e afastou-se de mim.

'Você ainda está usando ele, não está?' Perguntei me referindo ao Yarmulkah. Mesmo depois da conversa que tivemos, ele não se libertara daquele troço. Ele não saíra de sua dor e de seus anseios porque achava que era errado. Malfoy errou tanto na vida quanto eu. Mas enquanto os meus erros fora por uma personalidade inócua e ainda em formação, os erros deles foram por escolha. Malfoy não chegava a Renascença porque ele escolhia ficar na Idade Média. 'Sr. Malfoy...'

'O que está fazendo aqui?' Sr. Malfoy perguntou ignorando a conversa que estávamos tendo sem aparente razão. Parecia com raiva.

Engoli em seco. Eu não queria que ele ficasse só. Que ele se afogasse nos próprios anseios de seus erros sem nem perceber o que estava fazendo. 'Pensei em acompanhá-lo... para o almoço.' Respondi me oferecendo como companion para aquele homem solitário.

'Por quê?' Ele insistiu em perguntar, sem entender.

'Ah... achei que seria chato você almoçar sozinho... então pensei...'

'Por que acha que eu almoçaria sozinho?' Ele perguntou franzindo a testa. Eu me calei por um instante. Bom, eu pensava que ele almoçava sozinho porque ele era solitário. E pensei em dizer isso a ele, mas quando eu escutei alguém bater na porta, eu me calei. Meus olhos se dilataram e eu me senti burra.

'O que está fazendo aqui, Weasley?' Perguntou Astoria Malfoy á minha frente. Eu abri a boca tentando responder a pergunta, mas nada saiu. Um certo incômodo me atingiu na região do estômago.

'Ela veio me fazer companhia para o almoço.' Disse Malfoy rindo, como se estivesse contando uma piada. Astoria franziu a testa um pouco irritada.

'Por quê?'

'Segundo ela, não seria legal que eu almoçasse sozinho.' Ele continuou respondendo numa suposta diversão. Eu continuava calada, tentando entender o que havia acontecido.

'E por que você almoçaria sozinho?' Ela perguntou para o marido confusa.

'Eu esqueci.' Respondi por fim. Os olhos de Astoria caíram sobre os meus. Como aquilo aconteceu? Por um momento eu esqueci.

'Esqueceu o quê?'

'Que vocês são casados.' Disse confusa. Eu havia esquecido. Eu havia esquecido que Malfoy era casado. Como eu poderia esquecer isso? Como eu poderia esquecer que aqueles dois eram casados? Eram os pais do meu melhor amigo. Soltei uma risada frouxa. 'Como fui me esquecer disso?' Me indaguei sem acreditar. 'Wow... vocês são... casados.' Repeti sem jeito tentando entender o que havia dito.

Malfoy e Astoria pareciam surpresos com a minha estatação. Astoria apenas se deixou dizer:

'Sim, somos. É bom que lembre que somos casados e que nós almoçamos juntos.'

Eu concordei com a cabeça. Consegui perceber na voz de Astoria a ênfase que ela deu na palavra 'juntos'. Ela não me queria ali. Ela não me queria perto do marido dela. E bom, eu não era a maior fã de Astoria, então ela nem precisaria dizer isso para que eu desistisse da ideia de almoçar com Malfoy.

'Sim, claro...Faz sentido.' Concordei ainda assustada com aquilo. Olhei para Malfoy mais uma vez e a suposta diversão que ele estava tendo até pouco tempo, pareceu ir embora. Eles eram casados. Mas almoçam sós. Estariam lado a lado, ou frente a frente, comendo suas refeições prediletas, mas almoçavam sós. Talvez nem eles sabiam disso.

Depois fechei o sorriso quando lembrei do que Scorpius havia me contado uma vez. Ele havia me dito que Draco e Astoria não pareciam casados. Que tudo que faziam juntos eram assistir peças de Shakespeare. E que passavam toda a peça calados. Eu até achava que ele estava exagerando sobre o relacionamento dos pais, mas ali, eu fiquei pensando se ele não tinha razão.

Talvez fosse pelo fato de Malfoy não ter falado uma vez sequer em Astoria. Ou talvez pelo fato de eu não ter visto Astoria no Ministério. Talvez uma outra opção fora a que me fez esquecer daquilo. Ter tido a lembrança que os dois eram marido e mulher me causou um choque.

Havia coversado com mamãe e ela me deixou vir ao Ministério pelo resto da semana para fazer companhia a Malfoy. Em minha cabeça, eu passaria todos os dias almoçando com ele, dizendo como era a minha vida e ele a dele, e nós nos ajudaríamos a enfrentar qualquer tipo de problema. Em minha cabeça, jamais passou a sequer lembrança de que Astoria, sua mulher, estaria por ali também.

'É melhor ir embora, Weasley.' Pediu sr. Malfoy fazendo um movimento com a cabeça. Astoria levantou a mão direita me fazendo estancar.

'Talvez devêssemos conversar, Weasley.' Ela sugeriu levantando as sobrancelhas. Na verdade era mais do que uma sugestão. Era uma ordem. Senti meu coração bater forte. 'A sós.' Ela acrescentou ainda olhando para mim.

Draco Malfoy acenou e deu as costas, dizendo um 'tchau' baixinho e saiu dali. Eu olhei pro chão nervosa e preocupada. Embora eu tivesse a sensação de uma afinidade silenciosa e uma simpatia sem voz com Draco Malfoy, eu tinha medo e apreensão com Astoria. E acabei percebendo que era o mesmo que eu sentia por Scorpius antes de conhecê-lo. Talvez ele tenha puxado aquilo da mãe.

'O que está querendo com Draco?' Ela perguntou séria, sem fazer rodeios.

'Nada.' Respondi sem jeito. E aquilo me fez pensar. O que eu queria com Draco Malfoy realmente? Por que eu havia decidido visitá-lo pelo resto da semana? Só para acompanhá-lo? Só por que ele era solitário? Eu engoli em seco. Eu me desencostei da mesa que estava sentada, ficando em pé e encarei Astoria Malfoy. 'Eu quero que ele faça o certo.'

'O certo?' Perguntou sem entender. Seus olhos verdes encaravam os meus com secura.

'Sim. Eu quero que ele seja capaz de se livrar daquele Yarmulkah.' Respondi, por fim. Astoria franziu as sobrancelhas finas. 'Quero que ele entenda que não tem nada de errado em aceitar o que ele está querendo negar por tanto tempo.'

'O que ele está querendo negar por tanto tempo?'

'Que ele ainda se importa com a sua educação. Que ele ainda segue os que os pais dele lhe ensinaram porque foi a primeira verdade que conheceu. Por seguir essa verdade, ele errou, se machucou e se isolou. E agora, mesmo vendo que essas verdades se transformaram em mentiras, ele não tem forças para se desfazer de seus erros e desse Yarmulkah. Vive do erro e da ânsia do não-errar. Vive do errado virando o certo sem se dar conta de que nem ele mesmo sabe o que é certo. Vive por breves momentos de Vontades Irracionais.'

Astoria olhou para mim sem dizer uma palavra. Os olhos claros dela eram fortes e vorazes e me olhava tão friamente que eu sentia que ela poderia cortar minha alma apenas com eles.

'Você acha que entende tudo, não é mesmo? Que está sempre certa e que todas as pessoas deveriam fazer o que diz só porque é filha de seus pais.'

'Não.' Neguei sem rodeios. 'Não mais.' Respondi abrindo um sorriso. 'Eu errei por muitos anos, pensando desta forma. Troquei os pés pelas mãos e me fiz errar com todo mundo, até comigo mesmo. Mas me livrei dos meus abismos e dos monstros que me encaravam de lá. Minhas vontades já não são irracionais. Ás vezes, agora, elas são inventadas, mas não mais irracionais. Estou conseguindo me equilibrar entre o que sou agora e o que sempre fui. E... Eu quero que Malfoy consiga fazer o mesmo.' Terminei baixinho, percebendo que encontrara a razão pelo que estava querendo com Malfoy. Era isso que eu queria. Que ele fosse ele mesmo. Sem mácaras, sem Yarmulkah, sem abismos e sem monstros.

Astoria me olhou com cautela, como se estivesse procurando alguma mentira dentro de mim. 'Por isso quer almoçar com ele?' Ela perguntou.

'Não.' Neguei mais uma vez. Pisquei os olhos. 'Quis almoçar com ele porque achei que ele almoçaria só. Não queria que ele ficasse só.'

'Ele não fica só. Ele tem a mim.' Respondeu com uma ira controlada.

'É, vocês se têm tão bem que chega esqueci que são casados.' Disse irônica e percebi Astoria respirar com raiva. 'Quantas pessoas aqui esquecem que vocês são casados, sra Malfoy? Embora carregue o nome dele... Parece que nem mesmo o nome dele e o almoço que supostamente vocês tem juntos são o suficiente para fazer as pessoas se lembrarem de que são casados.'

'Minha relação com Draco não é para ser mostrada aos outros, Weasley.'

'Nem a vocês mesmos, pelo que vejo. Malfoy não fala muito de você e você não parece falar muito dele. Acham que almoçar juntos, ter o mesmo nome e ter uma aliança, faz de vocês casados e com um relacionamento estável e duradouro. Meus pais divorciados possuem um relacionamento mais estável e duradouro do que vocês.' Falei sem querer esfregar na cara. Estava tendo uma conversa honesta com a mãe de meu melhor amigo. E eu estava querendo ter uma conversa honesta sobre Astoria e Malfoy há muito tempo.

'Eles são amigos desde o tempo de escola.' Ela reiterou.

'Não é porque eles são amigos. É porque eles respeitaram seus erros e acertos e se equilibram no que são. Você diz que Malfoy não fica só, mas vocês dois são mais sós quando juntos do que separados.' Vi Astoria piscar os olhos e perder um pouco de foco. 'Vocês tem um acordo protocolar silencioso que chamam de casamento. E só chamam de casamento porque os dois dividem o mesmo nome e a mesma casa. E só continuam com o acordo silencioso porque tiveram Scorps.' Levantei o rosto para cima e senti minha garganta arder ao lembrar de Scorpius.

'Não é verdade.'

'Pode ser que não'. Considerei. 'Mas negar que seja mentira também não é verdade. Existe um comodismo entre você e Malfoy. E esse comodismo sem nome é o que faz estar casada com ele. Esse comodismo sem nome é o que faz as pessoas esquecerem que são casados. Você nega isso. Porque é o que se espera que faça. Mas não adianta fingir que seu casamento com Malfoy é o que quer. Ninguém quer a mornidão da servidão silenciosa. Ninguém quer ser castrado.'

Percebi Astoria engolir em seco. Seus dentes se fecharam e ela piscou os olhos claros. Ela não quis me responder - ou não tinha o que responder. Ela virou-se de costas para mim, caminhando para a porta. Seus dedos tamborilaram na maçaneta e ela pareceu pensar bem por um instante. Continuei calada, esperando o que havia de se seguir. No entanto o que se seguiu eu não estava realmente esperando.

'Você poderia visitar Scorp?' Arregalei os olhos e vi Astoria virar o rosto pra mim. 'Acho... que ele ia gostar de falar com você…'

Se um dia pensei que pudesse escutar aquilo vindo de Astoria, com certeza não fora naquelas condições. Ela não falou mais nada, apenas saiu da sala, dando-me as costas e indo acompanhar Malfoy no almoço.

Fiquei sem reação, apenas considerando o que havia acabado de escutar. Fazia algum tempo que não via nem falava com Scorpius. A última vez havia sido no fatídico dia que traímos Gabrielle. Naquele dia, Scorp tinha me dito que Astoria havia o proibido de andar e falar comigo. E não sei se depois do beijo ele obedecera ou respeitara meu espaço de querer ficar sozinha para me erguer inteira. Talvez tenha sido a segunda opção. Embora não parecesse, Scorpius Malfoy sabia respeitar o tempo e o espaço dos outros. Não sei de quem ele puxara aquilo, embora algo me dissesse que tinha sido de Astoria. Respeitar o tempo e espaço de alguém era um pudor feminino. E assim como eu, Astoria Malfoy sempre pareceu ser alguém que respeitava seus pudores.

E pensando naquilo, me pareceu descobrir o porquê de Astoria e Malfoy estarem casados.

Os dois estavam seguindo seus pudores. E assim como eu, eles não conseguiam ir contra eles. Assim como eu, os dois trocavam os pés pelas mãos e erravam sobre os fatos da vida. Assim como eu, os dois achavam que estavam certos o tempo todo.

E me descobri mais sonserina do que nunca na vida. Talvez fosse aquilo que nós, sonserinos, tivéssemos em comum.

A inocente e errada certeza que sabíamos tudo sobre a vida.

Não sabíamos nada.

E por não saber nada, aos trancos e barrancos, nós seguíamos incertos do que somos e o que queremos ser. E na corda bamba, tentávamos encontrar nosso equilibrio. Não queríamos mudar o mundo.

A gente só queria... sermos nós mesmos.