Disclamer: Saint Seyia e seus personagens não me pertencem, diretos reservados aos detentores da obra. Músicas incidentais, Pai – Fábio Jr. e Love in Afternoon – Legião Urbana, direitos reservados aos autores e interpretes.

Agradecimentos: Agradecimentos especiais. minha beta querida Shiryuforever94, que, apesar do tempo restrito, fez um belo trabalho em me ajudar com esse capítulo. Agradecimentos também a todos aqueles que acompanham esta fic, apesar da irregularidade dos capítulos. Agradecimentos também a Keiko Maxwell pelos comentários e por acompanhar esse trabalho.

Comentários da Autora: Este é um dos maiores capítulos, se não for o maior, que eu já escrevi em uma fic. Normalmente ele estaria dividido em dois, mas não quis quebrar a interação dos personagens. Não gosto de suplicar por comentário, creio que o leitor é livre para comentar ou não, mas gostaria de pedir um incentivo para continuar a escrever essa história, que é difícil, um tanto sofrida em certas horas, mas que eu adoro apesar de muitas vezes perder a vontade de escrever por achar que não estou agradando. Abraços a todos que lêem, Athenas...


Camus ficou completamente chocado e sem reação. Aquele garoto belo e forte ali parado era o seu filho perdido. Era um soldado. Tudo que ele sempre temera e odiara aconteceu. Seu amado e seu filho eram soldados envolvidos naquela guerra torpe. Aproximou-se do rapaz em dúvida de como agir, sem saber o que falar. Queria chorar, gritar, mas seu rosto não expressava nenhuma emoção. Manteve todo o caleidoscópio de sentimentos firmemente enterrado em si.

Pai!
Pode ser que daqui a algum tempo
Haja tempo prá gente ser mais
Muito mais que dois grandes amigos
Pai e filho talvez...

Hyoga estendeu os braços e tocou o pai em um abraço leve. Admirava-o, era verdade, mas no fundo não tinha muitas lembranças dele. O homem que conhecera como "pai" era Cristal e agora, ele estava morto. Mas o que dizer?

- Meu filho! Passei tanto tempo a te procurar e agora simplesmente não sei o que falar.

- Talvez não tenha nada a ser dito.

- Ou talvez existam coisas demais que não sabemos nem mesmo por onde começar. Como Cristal deixou que você entrasse nesse exército? E, mais ainda sob o comando deste homem?

- Cristal está morto. De qualquer forma, ele me treinou para isso desde a mais tenra infância. Minos é estranho, mas é um bom comandante.

- Espera! Acho melhor começarmos de novo. Esse não é um bom caminho. Tenho meus motivos para odiar este homem que você chama de "bom comandante" como também tenho os meus motivos para odiar Cristal e, aparentemente são pessoas a quem você admira. Não quero discutir agora que te encontrei. Não agora. Esta guerra é terrível, este ataque a faculdade é inominável, mas ter te encontrado agora foi a maior dádiva que eu pude receber em minha vida. Não quero estragar isso.

- Eu entendo os motivos que você tem para odiar Cristal, se é que eu realmente sempre importei alguma coisa para você, mas não entendo o porquê de odiar Minos.

- Importar para mim? Você é a pessoa mais importante do mundo para mim. Na época da morte de sua mãe, eu cheguei ao acampamento apenas pouco tempo depois de você ter saído de lá.

- Você esteve no acampamento?

- Ela morreu em meus braços.

- Por que você nunca me disse nada? Por que Cristal nunca me disse nada?

- Não posso saber os motivos dele, mas posso dizer os meus... Quando cheguei ao acampamento, sua mãe estava quase morta, você era pouco mais que um bebê. Não o encontrei, nem ao capitão. Levei meses buscando até que finalmente os localizei. Provavelmente você não se lembra disso.

- Obviamente.

- Eu contei o que presenciara ao Cristal, nós discutimos, eu queria trazer você para morar comigo, ele não permitiu. Eu não passava de um garoto, não era muito mais velho do que você é hoje, não fui páreo para ele. Não tive a força necessária, nem qualquer tipo de ajuda. Ele já era um oficial graduado. Não estou pedindo desculpas por não ter feito o que sabia ser certo, mas expondo as coisas como elas aconteceram pra mim.

- Se eu estivesse em seu lugar...

- O que você faria?

- Simplesmente esqueceria a minha existência, coisa que você não fez. Não o culpo por ter me deixado com ele. Não poderia ser diferente. Talvez minha mãe não tenha sido justa.

- O que você sabe de sua mãe?

- Que ela te odiava por ser gay e se odiava por não ter conseguido mudar isso.

- X -

- Onde está Camus? Ele já devia ter voltado! Eu tinha certeza que não deveria ter permitido que ele enfrentasse aquele crápula sozinho. - Milo andava claudicante, de um lado para o outro, dentro do camarim, como uma fera enjaulada e ferida.

- Milo, quieto, agora! - Saga endureceu o tom de voz. Era um comandante por natureza e mérito próprio.

Antes que começasse uma discussão entre os dois homens presentes, Afrodite entrou no camarim com notícias.

- Onde está o Camus?

- Ele está bem, Milo. Você sabia que não deixaríamos que nada acontecesse a ele, mas não foi preciso nossa intervenção, aparentemente ele soube exatamente como colocar Minos no seu devido lugar. Agora está conversando com um dos soldados que chegaram. Parece uma conversa tensa, mas o soldado não passa de um menino.

- Um menino? Foi isso que nos mandaram?

- Sim, Milo, recebemos um bando de crianças comandadas por Ele. Pelo que pude observar, este garoto em especial representa alguma coisa para o Reitor. Eles se abraçaram levemente e agora, ambos os rostos parecem feitos de gelo. Pensando bem, são até um pouco parecidos, apesar da cor de cabelo diferente.

- O filho dele. Camus deve ter encontrado o filho.

- O Reitor tem um filho adolescente? Não é possível! O amor de vocês não é de longa data? E como só o reencontrou agora? E...?

- Afrodite, pelamordetodososdeuses! Está parecendo uma velha índia das florestas! Uma pergunta de cada vez. Sente-se que a história é longa.

Afrodite sentou-se e Milo começou a narrar os fatos. Absteve-se de comentar sobre sentimentos e opiniões. Apenas fatos e pronto. Aquela conversa evitaria que ele ficasse maluco e ao mesmo tempo daria ao ruivo a privacidade necessária à conversa que deveria estar tendo com seu filho.

- X -

Pai!
Pode ser que daí você sinta
Qualquer coisa entre
Esses vinte ou trinta
Longos anos em busca de paz...

Camus ficou completamente pasmo com a declaração feita por Hyoga e mais ainda a calma e a simplicidade do tom utilizado pelo garoto. Ele falou sobre sua opção sexual e o ódio que a mãe sentia disso, como se estivesse falando que iria chover na noite seguinte.

- Como você pode ter certeza dos sentimentos de sua mãe? Quando ela morreu você ainda era muito jovem, mais do que deveria ser. Não é certo uma criança perder a mãe em tão tenra idade.

- Ela deixou um diário. Depois da última vez que te vi, quando tinha mais ou menos dez anos, Cristal me deu o diário. Ele viu que eu estava crescendo, que sentia um afeto natural por você, mesmo o tendo visto duas ou três vezes na vida e ele queria destruir isso. Nada melhor que o diário de minha mãe, pelo menos na cabeça dele.

- E na sua?

- É verdade o que estava escrito?

- Não posso responder a essa pergunta sem saber o conteúdo do diário. Quanto ao fato de ser gay, sim, é verdade. Quanto ao fato de ter tentado me fazer mudar "de opinião", sua mãe me feriu mais do que alguém tinha o direito de fazer. Ela me ajudou, me apoiou emocionalmente no momento mais complicado de minha vida até então. Tivemos um caso, ela morava em nossa casa, junto à minha irmã e meus pais. Quando soube que ela estava grávida, propus-lhe casamento. Eu tinha muito carinho por sua mãe, desejava seu corpo, mas eu amava outra pessoa, um homem, é verdade, mas era um amor impossível, proibido. Uma bela noite ela fugiu, me deixou um bilhete e foi embora. Levou você com ela, dentro de sua barriga. Eu não sei se existem palavras que possam definir a dor de uma pessoa que perde tudo, ao mesmo tempo, eu não sei definir como foram os dias subsequentes. Eu mesmo não me lembro deles. São borrões em minha memória. Tentei ficar com você e não consegui, passei a viver como um autômato até cerca de um mês atrás, quando o homem que eu sempre amei veio trabalhar neste lugar, como professor.

- Ele está aqui, agora?

- Sim. E ele é o motivo pelo qual odeio a Minos.

- Então ele é do Exército.

- Ele foi. Os demais o chamam de "Escorpião".

- Por todos os Deuses, quem manda nesta merda de força militar só pode ser um saco de bosta animado.

Camus ficou chocado com o palavreado do filho. Abriu a boca para comentar e lembrou-se que apesar da pouca idade, seu garoto era um homem, um soldado e que o vocabulário condizia com a situação.

- O que você quer dizer com isso?

- O Escorpião se tornou uma lenda entre os recrutas e toda a força militar por batalhas que ocorreram quando eu ainda usava fraldas, e é sabido de todo o mundo que ele e Minos são inimigos jurados. Colocar os dois juntos é como jogar um fósforo em um paiol de pólvora.

- Seguindo a sua analogia, eu diria que dispararam um lança-chamas em um paiol de pólvora. Saga também está aqui, bem como seu irmão gêmeo. Creio que eles são tão ou mais famosos que o Escorpião entre os meios militares.

- Sim, são. São conhecidos como "Os Cavaleiros de Ouro", homens experientes que sobreviveram acima de qualquer expectativa. Alguns acreditam que eles possuem poderes sobrenaturais. Eu creio que apenas são muito bons naquilo que fazem.

- Venha comigo. Não o quero perto de Minos.

- Não posso. Ele nos mata se qualquer um de nós abandonar as fileiras ou descumprir as suas ordens.

- Somente sobre o meu cadáver e de todos aqueles que vocês chamam de "Cavaleiros de Ouro".

- Estão todos aqui?

- Sim. E todos querendo apenas um pequeno pretexto para servir Minos fatiado ao molho pardo de jantar.

Pai!
Pode crer, eu tô bem
Eu vou indo
Tô tentando, vivendo e pedindo
Com loucura prá você renascer...

Hyoga estava cético quanto a presença de homens tão famosos ali. Se fosse esse o caso, porque então foram enviados? E a verdade, ou pelo menos aquela que ele acreditava ser a verdade, caiu como uma bomba em sua cabeça.

- Não nos mandaram para ajudá-los e sim para gerar um conflito interno. O governo não está preocupado com esta Universidade e sim em se livrar de uma série de pedras no sapato e entregar a tecnologia ao mesmo tempo. Esvaziaria a guerra, ou seria o segundo grande pretexto para uma invasão maciça. O filho da rainha Athena, Alberich, sempre foi conhecido por suas grandes estratégias.

Camus parou de andar o olhou firmemente para o filho. O garoto tinha toda razão. Agora as peças começavam a se encaixar. Tantos homens de elite ali, juntos para proteger um pequeno punhado de civis. Apesar de boa parte dos motivos para aquela guerra estarem dentro daquelas paredes, não justificaria reunir todos ali. Se porventura fossem mortos... Será que era isso que o, agora rei, Alberich desejava? Todos precisavam ouvir a teoria de Hyoga.

- Creio que todos precisam ouvir o que pensa.

- É uma teoria louca.

- Tão louca quanto a teoria da relatividade de Einstein e faz todo o sentido.

Pai!
Eu não faço questão de ser tudo
Só não quero e não vou ficar mudo
Prá falar de amor
Prá você...

- Será que esse é o momento de discutir política imperial? - Hyoga parecia cético quanto às suas conjecturas e ao mesmo tempo gostaria de poder passar mais algum tempo ao lado do pai. Conhecer aquele homem, ouvir a sua história bem como contar a o que acontecera consigo durante todo o tempo em que passaram separados. Partilhavam o mesmo sangue, mas não eram mais que estranhos.

- Eu sei que precisamos conversar, mas eu quero que tenhamos todo o tempo do mundo para isso. Antes de mais nada, deveremos sair vivos desse atoleiro de lixo no qual estamos afogados até o pescoço. Me desculpe, meu filho, se é que me permite que o chame assim, mas creio que temos primeiro que nos enfurnar em política imperial e depois então nos preocupar com nosso próprios sentimentos.

- Fico honrado que me chame "meu filho". Nunca fui chamado assim. Cristal me chamava de Hyoga, "garoto", "moleque"... nunca de filho. Sempre deixou claro que eu era o contrapeso para ter minha mãe.

- E porque ele não deixou que viesse morar comigo quando eu tentei te buscar?

- Simples. Além de mim, ninguém mais sabia que eu não era filho dele. Ele nunca assumiria perante todos que casou com uma mulher prenha.

- Eu pensei que ele amava você.

- Amor? O que quer dizer essa palavra? Eu nunca aprendi o real significado do amor. Sempre achei que o que eu sentia por você era amor. Eu sempre senti vontade de estar com você. Admiração pelo que representava, principalmente depois que o vi aqui, em seu ambiente. Imaginava como seria um abraço, um afago e acreditava que você poderia me dar isso. E pra mim, esses sentimentos são amor. É algo além disso?

Talvez se tivesse levado uma rajada de tiros de fuzil ou se fosse atropelado por um tanque de guerra, Camus não tivesse ficado tão destroçado quanto ficara com as palavras do filho. Se culpava acima de tudo por ter sido tão fraco ao ponto de acreditar que o melhor para Hyoga era ficar com Cristal e não consigo. Puxou Hyoga para um abraço, dessa vez apertado e beijou levemente os seus cabelos louros.

- Não sei se tenho condições de te ensinar o que é o amor, porque não se ensina, se sente. Creio que nunca serei aquele que você imagina ou precisa. A única coisa que posso afirmar é que, apesar da distância, eu te amo e o que posso prometer é dar a você tudo que estiver ao meu alcance. Estou longe de ser perfeito, estou longe de ser uma pessoa amorosa, ou que demonstra o que sente, mas eu sinto, por mais que a maioria das pessoas não acreditem. Você seria capaz de confiar em mim?

Pai!
Senta aqui que o jantar tá na mesa
Fala um pouco tua voz tá tão presa
Nos ensine esse jogo da vida
Onde a vida só paga prá ver...

- Confiança não é algo que se tenha de graça. Acredito que saiba isso melhor do que eu, que não passo de um moleque. O que posso prometer é não fazer prejulgamentos. É o suficiente para você?

- É mais do que eu poderia pedir. Está pronto, ou prefere voltar a seu batalhão?

- Só poderei te conhecer se estiver ao seu lado, não é?

- Não tem medo?

- Como qualquer pessoa eu morro de medo do desconhecido. Você é um desconhecido, os "Cavaleiros de Ouro" são desconhecidos, por outro lado, você é meu pai, e eles são as lendas. Ser acolhido e protegido por meu pai e pelos "Cavaleiros de Ouro" é tudo aquilo que eu sempre almejei como humano e soldado. Se isso não for verdade, de que vale cada treinamento, cada surra, cada noite ao frio, cada prato de comida que desejei e não tive? Eu lutei por esse momento a cada dia de minha vida. Faça valer a pena.

Nesse momento Camus teve a nítida noção da responsabilidade jogada sobre seus ombros. Apesar de tudo que passou na sua vida, nada o preparara para isso. Mesmo Simone, sua doença e sua morte. No fundo, o que acontecera com sua irmã fora responsabilidade de seus pais, da cegueira de ambos perante o estado emocional da filha. Agora era diferente. Hyoga era fruto de seus atos e de suas escolhas e o que seria dali pra frente, também.

- Eu só te peço uma coisa, se me der o direito de pedir algo...

- O quê?

- Não me deixe ser cego frente às suas necessidades. Um dia, se os Deuses assim o permitirem, aprenderei a ser pai, por enquanto quero aprender a ser amigo.

Pai!
Me perdoa essa insegurança
Que eu não sou mais
Aquela criança
Que um dia morrendo de medo
Nos teus braços você fez segredo
Nos teus passos você foi mais eu...

- Não posso prever o futuro. Pensei que nunca mais o veria em minha vida. Quando soube que viríamos para essa Universidade quis acreditar que você não estaria aqui. Que o Reitor não teria sido feito refém, ou que já tivesse escapado pelo mesmo caminho que viemos.

- Queria que eu fosse um covarde que abandona àqueles que dirige?

- Gostaria que estivesse em segurança e ao mesmo tempo, tinha medo de encontrá-lo e ver que não é nada daquilo que sempre imaginei.

- Certamente não o sou, mas nunca poria a minha segurança a frente daqueles que sempre confiaram em mim.

- Essas pessoas confiam em você ou o temem?

- Será que confiança e temor não andam juntos? Você teme o seu inimigo porque confia na verdade que ele o irá trair. Teme o seu governante porque confia que poderá ser punido se não o fizer. No fundo Hyoga, confiança não é algo que depositamos em alguém ou em alguma coisa, é algo que depositamos em nosso próprio julgamento. Quem não acredita em si mesmo e em sua capacidade de separar o joio do trigo não é capaz de confiar em absolutamente nada e também não é capaz de temer nada.

Hyoga não soube o que falar. Pensou no que ouvira de Camus. Talvez ele tivesse razão. Talvez confiança estivesse realmente ligada a autoconfiança e não o contrário. Observou mais uma vez aquele homem estoico que era o seu progenitor e o seguiu. Era óbvio que temia o futuro, mas em seu íntimo sabia que estava diretamente ligado àquele homem.

- X -

Milo observou Camus entrar no camarim acompanhado do garoto louro. Não precisou de apresentações para saber que estava certo ao crer que o Reitor encontrara seu filho. Talvez não fossem tão parecidos fisicamente, mas a postura e o olhar torturado eram iguais, bem como os lábios finos crispados.

O ruivo fez as apresentações formais mesmo desconfiando que todos ali sabiam exatamente quem era o garoto que o acompanhava. Hyoga olhava para aqueles homens admirado. Pareciam tão normais e ao mesmo tempo tinham uma aura de força. Eram completamente diferentes de seu comandante mas agora, depois de os ver com os próprios olhos, teve a certeza de que seriam fortes o suficiente para vencer. Camus então contou a todos a teoria de Hyoga. Saga coçou o queixo pensativo.

- Faz todo o sentido do mundo. Essa guerra já se alongou através de décadas, mais precisamente 3. Ninguém mais lembra o motivo do início das animosidades armadas. Por outro lado... somos todos lendas. Não nos seria difícil, com os recursos corretos, sair dessa situação que nos encontramos e tudo continuaria como está. Seria apenas mais uma batalha dentre tantas outras, entretanto, se nossas forças enfraquecerem de dentro para fora, facilmente isso aqui se tornaria um massacre de proporções lendárias e seria motivo para uma invasão maciça ao inimigo ou negociação de rendição, dependendo das ambições e dos acordos de gaveta de Alberich. Não passamos de peões, isso eu sempre soube, mas nunca supus que pudessem jogar com vidas dessa maneira.

- Saga, o que eles têm feito ao longo dos anos, a não ser jogar com vidas, tanto civis quanto militares?

- Vocês acreditam realmente que eu posso ter razão? - Hyoga perguntou um pouco inseguro.

- Garoto...

- Hyoga, por favor...

- Desculpe-me. Hyoga... tempos atrás um moleque de 15 anos de idade me deu um soco no queixo e me ensinou que não é a idade que determina o valor do cérebro de um homem.

- Quer dizer que ainda lembra daquele soco, Saga?

- E você me deixa esquecer?

- Se você esquecer terei prazer em relembrar.

- Você não tem mais 15 anos, Milo...

- Nem você, 25...

Afrodite bateu palmas, chamando a atenção de todos para si.

- A brincadeira está muito interessante, mas o que vamos fazer, senhores "sabem-tudo-de-estratégia"?

- Afrodite, por favor, reúna todos aqui. Precisamos decidir como agir, supondo que Hyoga esteja certo.

- Mesmo que ele não esteja correto, não podemos nos deixar levar pelos sentimentos de revolta. Devemos a priori lutar por nossa sobrevivência e vitória, depois pensamos naquele crápula. - Aioros, agora com a cabeça mais fria, conseguiu colocar em palavras o que todos sabiam ser o correto a fazer.

Afrodite saiu rapidamente para seguir as ordens de Saga, que se encolheu no abraço acolhedor do namorado. Hyoga, apesar de estar acostumado a ver casais entre os companheiros de armas, sentiu uma certa estranheza com o abraço do moreno, não pelo fato de serem dois homens, mas sim pelo carinho do ato. Em seu íntimo desejava ardentemente ser alvo de tal carinho. Milo leu as emoções do garoto como lia as de Camus. Sorriu.

- Alguém quer água? Vou pegar uma garrafa com Aiória.

- X -

Pai!
Eu cresci e não houve outro jeito
Quero só recostar no teu peito
Prá pedir prá você ir lá em casa
E brincar de vovô com meu filho
No tapete da sala de estar
Ah! Ah! Ah!...

Camus estava completamente confuso, mas tinha a impressão que este era o seu estado natural nos últimos tempos. Tudo acontecendo ao mesmo tempo. Sentou-se a frente de Hyoga e começou a falar. Contou como foi sua vida, da maneira mais clara e objetiva que conseguiu. Uma lágrima furtiva escorreu no rosto lívido quando falou sobre a morte de Natássia e as tentativas frustradas de encontrar Cristal.

- Então você sempre me quis? Eu não estava errado ao pensar em fugir e vir encontrá-lo?

- Se você tivesse feito isso, eu tentaria protegê-lo, com minha vida se fosse necessário, mas por que você pensou em fugir, em me procurar?

Hyoga recostou-se na parede, as pernas estiradas no chão, deu um suspiro cansado e começou a contar como fora sua vida.

Pai!
Você foi meu herói meu bandido
Hoje é mais
Muito mais que um amigo
Nem você nem ninguém tá sozinho
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz
Pai! Paz!...

- Não me recordo muito bem da minha infância. Não tenho absolutamente nenhuma lembrança de minha mãe, além das fotos e do diário que Cristal me deu. Não sei o que sinto por ela, creio que indiferença seja a palavra mais adequada. Natássia foi apenas a mulher que me colocou no mundo. Durante algum tempo eu idealizei uma mulher doce e suave, que se pudesse me acalentaria durante toda a noite, não me deixaria passar frio, fome, sofrimento. Uma mulher que não deixaria Cristal me espancar, afirmando que era isso que me faria um homem, que meu pai biológico era maricas por falta de pancada...

- Sua mãe era uma mulher doce, ela faria isso se tivesse possibilidade. - Camus acreditava nisso, a prima que ele conhecera era realmente uma mulher doce e delicada.

- Não precisa tentar defendê-la para mim. Eu não tenho mais nenhuma ilusão romântica acerca da pessoa que me pariu. Ela nunca foi assim.

- Você está errado...

- Não, pai, não estou. Um dia hei de te mostrar as palavras escritas por ela mesma, quem era a verdadeira Natássia. Até que eu chegasse a ver isso, eu diria que os pesadelos eram piores. Ao menos eu fazia alguma diferença para Cristal. Ele era elogiado pelas pessoas pela coragem de criar um filho sozinho dentro da guerra, de luto pela perda da esposa querida. Durante o dia, ou melhor, na frente de outras pessoas ele me tratava com uma gentileza estudada, que passava a impressão de um pai zeloso e amoroso.

- Foi essa a imagem que ele passou para mim.

- Era essa a imagem que ele passava para todos. Não o culpo por acreditar nela. A única pessoa que poderia contar a verdade era eu mesmo, e não possuía coragem suficiente para desmascará-lo. Eu tinha medo das ameaças dele... Eu comia com os outros aprendizes durante os treinamentos, em casa, toda a alimentação ficava trancada nos aposentos dele. Se eu tivesse sorte, encontrava alguma sobra na lixeira.

- Que ameaças ele fazia a você para manter o seu silêncio? - a maneira como Hyoga desconversou e mudou o rumo da narrativa após falar das ameaças fez com que o reitor percebesse que talvez as ameaças pudessem ser dirigidas à sua pessoa.

- Desde que eu entrei para o exército, mesmo antes dele morrer, elas não tinham mais importância. Eu fui dobrado na tenra infância, moldado como o soldado eficiente e frio que deveria ser. Não importavam mais as ameaças. Eu não tinha mais sentimentos, ele atingira o seu objetivo. Se ele o matasse, eu não me importaria mais, todavia, ao mesmo tempo, não sentia mais a necessidade de fugir e me rebelar. Objetivo, estratégia, organização, eficiência. Este foi o plano traçado na minha educação, este foi o plano atingido. Este sou eu, Camus.

- Neste ponto, em específico você está errado. Este que é insensível hoje não é você. É a imagem que foi projetada em você. Aceitou se submeter a um tratamento desumano para proteger alguém que sequer conhecia. Apesar da forma como Minos trata os seus subordinados – que você descreveu – o classifica como "bom comandante", mesmo sendo educado com brutalidade, não tem ódio por Cristal, esse é você Hyoga. Tem mais misericórdia em seu coração do que acredita. Não é aceitação, é perdão. Eu gostaria de poder perdoar, mas não sou capaz de tanto. Se Cristal não estivesse morto, pode ter certeza que eu o mataria. Como? Não faço ideia, mas o faria. Não sou capaz de perdoar o que ele fez com você, o que ele fez comigo. Eu sei que não adianta chorar sobre o leite derramado, mas esse sou eu. Trago em mim muitas cicatrizes por não ser capaz de perdoar e seguir em frente. Eu me obrigo a prosseguir, mas apenas por não poder fazer diferente.

Hyoga tomou uma lágrima do rosto do pai em seu dedo e ficou observando a gota de cristal em sua mão, intrigado.

- Eu não sei mais chorar. Alivia o peso?

- Por que não tenta? - o ruivo abriu os braços timidamente, em um convite mudo para um abraço.

Hyoga aceitou o convite e afundou-se nos braços abertos para ele. Algumas lágrimas chegaram a seus olhos e logo se tornaram um pranto sofrido, há muito tempo represado.

Quando Milo retornou, encontrou pai e filho abraçados e chorando. Queria se aproximar, queria fazer parte daquela família, mas não sabia se seria aceito. Levou a garrafa de água à boca e sorveu um longo gole. Camus percebeu a sua presença e esticou a mão convidando-o a unir-se a eles. O Escorpião ajoelhou-se e olhou para Hyoga.

- Posso?

- Você o ama?

- Mais que a mim mesmo.

- Vai afastá-lo de mim?

- Você é parte dele, é impossível amar a ele sem estender esse sentimento a você, bem como, agora que ele está completo novamente, com todas as suas partes reunidas, tentar dividi-lo novamente.

- Você também é parte dele.

- Será que eu posso expressar a minha opinião? - Camus interrompeu o diálogo dos dois e continuou sem esperar resposta à sua pergunta retórica – Vocês dois são parte de mim. Eu não estou completo sem que estejamos juntos. Espero que consigam uma convivência pacífica ou terão que me aturar de péssimo humor e garanto aos dois que isso não é nada agradável.

Hyoga sorriu, pela primeira vez em muito tempo. Aquela certamente era uma família estranha, mas sentiu que era uma família, e que fazia parte dela.

- Meu pai é o reitor da Universidade e meu padastro um dos maiores guerreiros que esse exército já conheceu, quem sou eu para discutir com ambos?

- Camus, seu filho está se mostrando um homem de muito bom senso. Não sei a quem puxou...

Milo deu um leve beijo nos lábios de Camus e na testa de Hyoga, que ficou petrificado com o afeto que estava recebendo. Lembrou-se de uma pessoa, um amigo, e seu olhar novamente ficou nublado. O pai percebeu que algo estava errado.

- O que aconteceu?

- Nada.

- Não posso e não vou exigir que me conte tudo, mas eu sei que tem algo que o incomoda, se quiser falar, quero apenas que saiba que existem pessoas que estão dispostas a te ouvir e principalmente, não julgar.

É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais.

Foi o bastante para Hyoga se atrever a contar o que lhe ia em mente.

- Logo que eu fui treinar no quartel, passei a morar lá, junto com outras crianças que também estavam sendo preparadas para a guerra. Os treinamentos são duros e muitos não resistem, acabamos por fazer alianças entre nós para que tenhamos algumas chances de sobrevivência. Sem elas é quase impossível chegar ao fim do treinamento.

- Eu cheguei, mas por ter sobrevivido, sei exatamente do que está falando. Fome, frio, dor, sede, calor, doenças... eles acreditam que é isso que nos fortalece.- Milo complementou.

- Exato. O Escorpião sabe do que eu estou falando. Nessa época conheci Isaak. Ele era um pouco mais velho que eu e bem mais forte. Me tomou como seu protegido, dividia comigo a comida extra que conseguia, dormíamos abraçados para usar o calor de nossos corpos a nos aquecer. Apesar de tudo trago lembranças dessa época que poderia classificar como boas.

- Se a vida nos dá limões só nos resta fazer uma bela limonada.

- Limonada, Camus? Que coisa mais careta! Se a vida nos dá limões, acrescente aguardente e fique de porre!

- Milo!

- Não precisa ser puritano por causa de seu filho. Ele é um homem, Camus. Ele viveu coisas que fico feliz por você sequer imaginar. Não estou menosprezando o que passou em sua vida. Foi tão ou mais difícil que a nossa, apenas estou dizendo que não deve tratá-lo como o garoto que deveria ser e sim como o homem que é.

Hyoga admirou a rápida compreensão que Milo tivera de sua pessoa. Camus era seu pai, estava agindo como tal e percebia que poderia ter no Escorpião um amigo, descobriu qual era a sensação de felicidade e se embriagou dela. Realmente, com limões era melhor acrescentar a aguardente.

Quando eu lhe dizia:
"- Me apaixono todo dia
E é sempre a pessoa errada."
Você sorriu e disse:
"- Eu gosto de você também."

Só que você foi embora cedo demais

- Como eu ia dizendo... com o tempo, Isaak se tornou a pessoa mais importante do mundo pra mim. Minha vida girava em torno da dele. Eu ainda acreditava em amor, amizade, fidelidade, tentava dar estes sentimentos às pessoas a minha volta e invariavelmente era traído ou humilhado. Ele foi a única pessoa que aceitou o que eu tinha a oferecer e se deu a mim também.

- O que aconteceu? Onde está Isaak?

- Está morto, pai. Como eu disse, eu ainda acreditava nas pessoas. Minha mãe tinha um medalhão, com uma foto dela e sua.

- Eu me lembro desse medalhão. Eu dei a ela quando soube que ela estava grávida.

- E ele sempre esteve comigo. Um dia, depois de uma discussão séria com Cristal, quando ele fora destacado para nos dar treinamento, ele arrancou o medalhão de meu pescoço e o jogou no rio próximo. Isaak esmurrou Cristal e pulou na água para tentar recuperar a joia. Ele nunca retornou. Foi a última vez que chorei em minha vida antes de hoje.

Eu continuo aqui,
Com meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você em dias assim
Um dia de chuva, um dia de sol
E o que sinto não sei dizer.

- Eu sinto muito.

- Não sinta, é passado. Com o tempo eu acabei por me esquecer dele, mas estar aqui, ter reencontrado você, a amizade que une a todos os "Golden" me fez lembrar dele e me deu uma sensação de melancolia, de aperto no peito.

- Você o amava?

- Acho que sim. Era um irmão pra mim. Foi a única pessoa que se preocupou comigo, que me deu algo parecido com afeto. É, eu o amava.

- É duro perder um irmão. Isso eu sei o que é. Temos de seguir em frente, e se permitir, sigamos em frente juntos. - Camus tentou consolar o filho.

Vai com os anjos! vai em paz.
Era assim todo dia de tarde
A descoberta da amizade
Até a próxima vez.

- Talvez essa seja uma boa definição. Isaak era como um irmão para mim. Muitas vezes nos acusaram de ser mais que isso, mas eu creio que não.

- E seria um problema se fosse? - Milo perguntou, precisava saber, mesmo que indiretamente, o que Hyoga pensava do relacionamento homossexual.

Não, não seria um problema. Se quer saber se relacionamentos entre homens me desagradam, a resposta é, não tenho nenhum tipo de preconceito quanto a isso, apenas não era o meu caso com Isaak.

- Desculpe-me, eu não tenho o direito de me intrometer em sua vida e muito menos na relação que você e Camus precisam construir. Em minha defesa, apenas posso dizer que eu o amo demais e que nós sofremos demais com o preconceito, principalmente por parte de minha família. Eu sei o que é perder amigos. Nessa guerra muitos se foram. - Milo falou sentindo-se melhor ao notar que Hyoga não parecia de jeito algum ter preconceitos.

É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais

- Mas todos os "Golden" estão vivos, não?

- Se, por vivos, você entende como respirando, falando, comendo e lutando, sim, estamos todos vivos, mas existem mais mortes que a morte física, e, mais do que isso... Fomos uma grande divisão, perdemos muitos homens bons no decorrer do tempo que estamos juntos.

- Não conheço outra forma de vida além da sobrevivência. Mas entendo o que quis dizer. Acho que eu morri no dia que Isaak morreu.

- Nunca diga isso, Hyoga. Eu estou aqui.

- Quem sabe você possa fazê-lo ressuscitar, Camus, mas Hyoga tem razão em parte. A cada amigo que perdemos, uma parte de nós vai ao túmulo com ele. Eu não creio que tenha morrido, mas creio que perdeu uma parte importante de você mesmo. Todos nós passamos por isso, mais cedo ou mais tarde, nos deixe ajudá-lo a resgatar o que sobrou.

E cedo demais
Eu aprendi a ter tudo o que sempre quis
Só não aprendi a perder
E eu, que tive um começo feliz
Do resto não sei dizer.

- Será que um dia eu vou ser feliz? - Hyoga perguntou diretamente a Camus.

- Ser feliz, em parte, depende de como encaramos as coisas. Eu fui infeliz por muito tempo por ficar me lamentando do que eu tive e perdi... Milo, você, meus pais, Simone... por outro lado, não fui capaz de ver as coisas boas. Eu tive amor, eu tive essa faculdade, eu tenho os alunos e professores... tantas coisas que não vivi por apenas ficar a lamber as minhas feridas. Nesse tempo que estamos enclausurados aqui, alguém me ensinou a ser feliz novamente, me ensinou a sorrir e principalmente a lutar pelo que quero e considero justo.

- Talvez seja a hora de enterrar Isaak. - Hyoga complementou, consciente da razão encerrada nas palavras do pai.

Lembro das tardes que passamos juntos
Não é sempre mais eu sei
Que você está bem agora
Só que este ano
O verão acabou
Cedo demais.

- Talvez. É necessário seguir em frente. As lembranças boas devem sempre estar com você, mas deixe-o seguir seu caminho junto aos Deuses, assim como seguiremos nosso caminho aqui, até que seja a hora de irmos embora. - Camus afastou uma mexa de cabelo que cobria os olhos do filho, precisava do contato com o olhar cristalino.

- Você é um grande homem, Camus. Tenho orgulho em chamá-lo de pai.

Camus agradeceu e mais uma vez, chorou. Sabia que ainda existiriam muitas pedras pelo caminho, mas entendia também que estava conseguindo trilhá-lo e chegaria ao pote de ouro.