Estiquei minhas pernas na poltrona e vi Bella se mexer no outro sofá. Zoe estava dormindo calmamente no berço. Ela acordou várias vezes durante a madrugada, mas deu para dormir bem. Eu estava mais descansado e menos nervoso. Bella estava surtando, então eu tive que deitar com ela para que dormisse. Sei que tomamos uma decisão muito rápida, mas o resultado tinha que ser esse devido as nossas opções e eu estava determinado a não deixar essa criança sofrer mais do que já sofreu em sua pouca vida. Ela poderia encontrar uma boa família ou não. E nós poderemos ser essa boa família. Ela merece ter a vida que podemos proporcionar. Bella iria se arrepender para sempre, porque se fosse filho de Rosalie ou o próprio Mason, ela não pensaria duas vezes antes de acolher. Quando essa tempestade passasse, ela iria se arrepender.

Voltei minha atenção para a tela do computador, corrigi a última página do meu relatório semanal e enviei para administração para que fosse impresso e entregue a Carlisle. Desliguei meu computador, eu tinha que sair com Bella daqui a pouco e informei ao meu tio assim que recebi as instruções de Jared sobre o velório de James e Victória. Parecia terrorismo e até mesmo uma tortura passar por isso, mas não há outra forma dela entender que finalmente acabou a não ser passando por isso. Guardei minhas coisas na pasta e Bella se espreguiçou, jogando o cobertor para o lado e tirou o celular do bolso.

- Sua mãe está me ligando. – sussurrou do outro lado do quarto. – Conte a ela antes que me sinta culpada e comece a chorar. – espreguiçou-se e levantou, andando com cuidado e sentou no meu colo. – Eu entendo o esgotamento de todas as mães que ficam aqui. Uma noite e eu estou completamente acabada.

- Estamos vivendo uma maratona.

- Eu acho que vou ter que pedir licença maternidade a Carlisle. – gemeu e escondeu o rosto no meu pescoço. – Como vou fazer isso? Não quero deixar a minha carreira, tenho tantos planos e uma agenda tão apertada.

- Calma, vamos pensar. Acho que podemos lidar enquanto ela estiver internada e depois podemos ver como funciona a creche, o hospital não tem uma, mas sei que a maioria aqui coloca seus filhos em uma próxima. Nós ficaremos bem. – disse e me deu um beijo, mas seu telefone continuou vibrando. – Minha mãe.

Contei a minha mãe o que aconteceu depois que nos falamos e ela soltou diversos gritos, seja de alegria, seja de raiva, seja de surpresa, Tia Esme falou junto e Alice também gritava. Bella riu, mas se afastou quando Zoe chorou do berço. Pedi que minha mãe não viesse agora porque tínhamos um compromisso por toda manhã.

- Eu não queria que ela ficasse sozinha, então, pedi para Rosalie passar a manhã com ela. Ela está de folga e disse que vinha sem problemas. Ela não entendeu nada, mas aceitou vir mesmo assim. – Bella disse e ficou parada. Zoe estava choramingando e ela me impediu de segurá-la. – Não. Deixe-a tomar seu tempo para acordar. – disse suavemente.

- O quê? Por quê?

- Tocá-la pode assustá-la. Ela está choramingando, pode estar sonhando ou em processo de acordar. É um processo cognitivo. Se a tocarmos, iremos interromper o funcionamento do seu cérebro. Ele coloca o coração para descansar e trabalha. É por isso que a nossa pulsação pela manhã é tão fraca. Quando eu te acordo no susto, você demora a conectar, certo? Com crianças, é com mais intensidade. – sussurrou e eu parei observando. Zoe rolou para o lado e choramingou mais uma vez, ficando quietinha. – Talvez ela não acorde agora.

- Tem certeza que está com medo?

- Muito.

- Você é boa nisso, amor.

- Eu sou uma pediatra, eu entendo crianças, mas eu não entendo sobre ser mãe.

- Você não nasceu pediatra. Você vai aprender a ser mãe.

Zoe abriu os olhos e soltou o bocejo mais fofo que vi na vida. Ela esticou o bracinho e as duas pernas e se encolheu todinha, olhando para gente.

- Sua vez com as fraldas, eu vou pedir para a enfermeira trazer o café da manhã dela. – Bella me deu um tapinha no braço e se afastou.

Zoe ficou olhando Bella ir e fez menção de chorar.

- Está tudo bem, ela volta. – disse gentilmente e puxei a calça do seu pijama. Eu não sabia definir se a fralda estava cheia ou não. Peguei o trocador de plástico que Bella trouxe da rua ontem, fralda, lenços e pomada. Eu ia deixar o restante para ela. Troquei a fralda só de xixi e coloquei sua fralda novamente. – Você dormiu bem? Eu dormi, apesar da poltrona, mas consigo dormir em qualquer lugar. – disse e ela virou a cabecinha para o lado. – Bella saiu para encontrar algo para que possamos engordar essas perninhas.

- Posso entrar? – Carlisle bateu na porta. Eu sorri. – Então essa é a pequena coisinha que deixou toda família agitada em menos de meia hora. – disse e eu ri. – Sua tia me ligou aos gritos. – completou e tirou um ursinho da bolsa que segurava. – Comprei na lojinha aqui de baixo, com calma compro algo melhor. – sorriu para Zoe. – Eu sou seu Vovô Carlisle.

- Tio...

- Tio é muito impessoal. Alice vai demorar anos para me dar netos, me deixe curtir isso. – reclamou e me afastei. Bella voltou com uma papinha laranja.

- Essa criança tem mais avós que pais. – sussurrei e ela riu, olhando para Carlisle brincar com Zoe, que parecia estar se divertindo, mesmo sem rir. – Ela não deu uma risada até agora, não é?

- Só aquela com você. Acho que não era uma criança que recebia brincadeiras.

- Ela vai ser sufocada.

- As gêmeas devem estar loucas. Suas tias. Sua avó, meu Deus. Eles vão invadir lá em casa quando ela receber alta, temos que ter vinho e comida. – disse meio desesperada.

- Calma. Ela não vai receber alta agora e quando receber, faremos compras. Não desenvolva outro TOC, estou tentando lidar com os que você já tem. – retruquei segurando seus ombros. Ela fez uma careta e entrou no quarto. Zoe fez uma carinha fofa quando a viu.

- Bella, você está de folga.

- O quê? Por quê? Ainda estou no horário de começar a trabalhar.

- Por lei, eu sou obrigado a te dar quinze dias, mas se você quiser fazer a rotina administrativa e o controle clínico enquanto estiver aqui tudo bem, e você sai o horário que for preciso e a gente conversa sobre esses dias ou a licença maternidade quando for a hora. – Carlisle foi mais rápido que eu em aplacar o desespero dela. – Você não vai perder seu emprego ou deixar de ser uma ótima cirurgiã pediátrica se tirar um tempo para família.

- Esme vai adorar ouvir isso. – Bella cantou com um sorriso.

- Continua jogando pesado, não é? Eu posso te obrigar a tirar quinze dias agora e ficar de licença maternidade depois. O que acha? – perguntou com um tom jocoso.

- Esme não vai ouvir nada da minha boca. – Bella resmungou meio contrariada.

- Combinado. E você, está de folga hoje e amanhã conforme a sua agenda. Depois, de volta ao trabalho, quando Zoe sair da internação, poderemos combinar com York para que tire seus quinze dias de licença paternidade. – disse pra mim e me olhou. – Boa sorte, vocês dois vão se sair muito bem. Volto aqui mais tarde para brincar com ela.

Bella deu a papinha e Zoe aceitou na primeira colher.

- Caramba, ela não cuspiu. – disse surpresa, trocamos um olhar e sorrimos. – Não é mito. Crianças adoram doces.

- É papinha de quê?

- De abobora, rica em vitamina A e possui betacaroteno que tem ação antioxidante. Quando escolhi esse cardápio para as crianças, nunca imaginei que teria que usá-lo pessoalmente. A Dra. Huilen é ótima. Abobora é um estimulante imunológico e inibe mutações celulares. Também contém licopeno. Possui também vitaminas do complexo B, sais minerais como o cálcio e fósforos – disse e ofereceu outra colher. Ela pegou tudo. – Muito bem. – disse animada. – A enfermeira me disse que é bom elogiar as crianças a cada colherada. Engraçado é que eu sabia disso, mas não pensei. – murmurou e balancei a cabeça. – E cravo da índia para dar gostinho, chá de coco pelo ácido láurico que atua como antiviral, combate fungos e melhoram a resposta imunológica.

- E protegem o coração. Eu achei que você estava brincando quando disse que estudou nutrição.

- Foram só dois anos, eu queria entender mais sobre comida. Na época, meu pai ficou doente, eu tinha vinte anos e inventei de fazer um curso de culinária com Charlotte para cuidarmos dele. Eu não entendi porque tal coisa tinha que ser com tal coisa. Sou curiosa e costumo querer saber o porquê das coisas, eu estava no terceiro ano da pré-medicina e encontrei um tempinho livre.

- Cabeçuda. Eu, no terceiro ano da pré-medicina, não sabia nem o meu nome. Não tinha tempo para dormir. – retruquei e ela riu, raspando o que sobrou no prato. – Você montou o cardápio com a Dra. Huilen? Ela não deixa que ninguém chegue perto dos seus cardápios.

- Cheguei com jeitinho. Fui falando sobre os pratos, o que ela queria mudar, dei umas sugestões e convenci a Carlisle dar-lhe um consultório maior. Aí ela me deixou opinar em tudo.

- Você não tem seu próprio departamento para cuidar não? Já se meteu na nutrição, enfermagem e na obstetrícia.

- Vou passar na plástica e neurologia antes de chegar em você. – piscou e eu ri. Ela se mete em tudo. – Benjamin? Vou deixar por último, ele é muito ranzinza com mudanças.

- Não é engraçado. – disse e ela riu mais ainda. Era bom vê-la bem. Sei que ainda não está bem, mas a sua risada nesse momento é música para meus ouvidos. Bella limpou a boquinha de Zoe e ela ficou sentadinha, mexendo nos seus próprios pés. – E agora?

- E agora? – repetiu e ficamos pensando. Bella levantou e tentou soar a mais animada possível. – Vamos trocar de roupa! Você trocou a fralda dela? – assenti e ela abriu o armário. – Bem, Zoe. Suas novas avós irão te conhecer hoje. Você tem duas de um lado, porque Esme não vai aceitar ser tia, então, tem a Vovó Elizabeth, ela vai ser um pouquinho surtada, mas é gente boa. E tem a Vovó Esme. Ela é tão surtada quanto à outra. – disse pegando uma calça rosa, um par de meias brancas e me apontou duas blusas. Uma rosinha e outra Azul. Apontei para a azul com algumas coisas que não sei descrever. – Você tem o Vovô Carlisle, o cara de bobo que ficou balançando o urso na sua frente e o seu especial e incrível Vovô Edward. É. São dois. Vai se acostumando. – murmurou e eu ri, cruzando meus braços e deixando-a falar. É melhor quando ela dispara a falar do que quando surta e se esconde em si mesma.

- Amor eu não sei se azul combina com rosa. – disse.

- Combina. – sorriu e esticou a blusa melhor. – Temos que compra mais roupas.

Ela usa qualquer desculpa para fazer compras. E depois diz que não gosta de fazer compras porque sua mãe a traumatizou. Se ela é traumatizada, tento imaginar uma pessoa viciada.

- Ai meu Deus. Nós não sabemos a sua data de nascimento! Será que tem algo no prontuário? Olha lá. – disse e eu percebi que era verdade. Saí rápido do quarto, procurei o prontuário dela e olhei a data. Ela está fazendo oito meses hoje. Os pais devem ter arredondado a data pela proximidade ou o sistema. Voltei para o quarto. – E aí?

- Oito meses hoje. Temos que cantar parabéns?

- Eu não sei. – disse encolhendo os ombros. – Continuando. Você tem a Tia Alice, ela é pequena, engraçada e muito chorona. Ela namora o Tio Jasper, que é legal e implicante. Tem o Tio Emmett, ele é pai do seu futuro amiguinho, o Mason. E também é namorado da Tia Rosalie que vai tomar conta de você hoje. – sorriu e deitou Zoe gentilmente. – Isso aí, você sujou a fralda com ele aqui, de novo. É a vez dele.

- Toda vez é a minha vez?

- Claro. Quero ver as suas habilidades de trocar uma fralda. – sorriu e eu peguei tudo de novo, troquei a fralda dela. – Até que foi bom.

- Certo. Especialista.

Bella começou a trocar a roupa dela e me ensinou o esquema de passar a blusa pela cabeça e depois colocar os bracinhos. O segundo era apenas fechado com o um botão. Com a escova, penteou o cabelo, mas parecia que Zoe estava mais acordada agora, porque ela estava para todo lado, quase arrebentou o seu scalp.

- Alguém está com mais energia hoje. – comentei segurando-a no lugar para Bella colocar suas meias. – Parece que a comida está fazendo efeito.

- Ou a medicação que fizeram as enfermeiras entrarem aqui centenas de vezes na madrugada. É o primeiro dia e eu quero dar um prêmio para a mãe do Richard que está esperando um coração há sessenta dias. Eu quero ir lá e dar um abraço nela. Dar uma noite dormida em casa e eu só passei por uma noite. – sussurrou e eu tive que concordar. Mas eu durmo. Ela que tem o sono leve. Com um lacinho na cabeça, roupas novas e limpas, Zoe parecia outra criança.

Dr. Banner entrou com Ângela, os residentes do terceiro ano para baixo e os novos internos da pediatria. Bella trocou um olhar com Ângela e com Banner. Eu capitei alguma mensagem perigosa.

- Vocês me conhecem. E conhecem o Dr. Masen. E provavelmente ouviram milhões de rumores pelo hospital. Este bebê agora é nosso. Zoe é nossa filha e hoje vou agir como mãe de um paciente e irei avaliá-los da mesma forma, mas não vou corrigi-los.

- E se um de nós estiver errado?

- Ângela ou Banner irão conversar com vocês. – sorriu e parei atrás dela, de braços cruzados. – Ok. Estou no meu papel de mãe e vou encher vocês de perguntas, provavelmente muitas mães não vão fazer essas perguntas, eu aprendi isso da pior forma, porque um dia, uma mãe me encheu delas. Preparados?

Os internos estavam prontos para vomitar e alguns residentes estavam mais confiantes. Ângela limpou a garganta e um deles começou a visita, relatando o estado clínico que Zoe entrou, os primeiros exames, sua melhora e o tratamento clínico. Bella foi nada além de cruel. Perfeitamente malvada. Ela fez perguntas que eu tinha certeza que nunca saberia responder quando era um interno. Assim que eles saíram, ela, Ângela e Banner riram. Cruel. E eu achei que Jéssica fosse o diabo. A pediatria parecia um pedacinho do céu, mas os médicos eram a encarnação do diabo.

- Ok. Cheguei. – Rosalie entrou no quarto e abraçou Bella bem apertado. – Uma hora de atraso, mas Mason dormiu lá em casa hoje e a coisa do dente não nos deixou dormir, mas consegui fazer Emmett confessar que estava nervoso também.

- Um picolé de leite materno ajuda. – Bella murmurou no abraço.

- Sério? Por que não me disse antes? – Rosalie se afastou.

- Eu? Você é uma médica, se vira. – Bella respondeu.

Elas são tão carinhosas.

- Enfim, sei que não estão com tempo, mas Alice já me contou tudo então, parabéns! – bateu palminhas e ficamos olhando-a. – Tudo bem que não é o momento para fazer festa, mas vocês decidiram casar e conversaram sobre bebês, veio um mais cedo, fora da barriga, nada de resguardo, as vantagens só aumentam.

- Rose? Cala a boca. – Bella suspirou e pegou sua bolsa. – Ela tem que mamar daqui à uma hora e meia. É o seu suplemento, então, dê tudo. Segure-a no colo ou eu acho que ela não vai beber. Funcionou comigo ontem.

- Sei cuidar de um bebê. – Rosalie tapou a boca da Bella.

- O Mason pode responder a isso melhor. – Bella murmurou e mordeu a mão da Rosalie. Eu apontei para o relógio. – Ela gosta quando o patinho faz quack e não sei mais nada sobre ela. – encolheu os ombros e começou a chorar. De novo. – Sinto muito.

- Sua menstruação está atrasada? – Rosalie perguntou e eu sentei, porque eu não queria cair com a resposta.

- Não, idiota. Você quer que eu comece a listar os motivos porque estou chorando?

- Não seja uma vaca comigo, estou cuidando de você.

Elas estavam prontas para discutir.

- Ok! Chega vocês duas. – disse mais alto e elas pararam. – Obrigado por vir cuidar dela, em algum momento pagaremos com Mason, não tão cedo, ok? – disse a Rosalie que assentiu. – E você, vamos tomar café e sair.

Peguei nossas bolsas e nos despedimos de Zoe. Ela ficou parada olhando, provavelmente sem entender e saímos. Tomamos café na rua, parei em uma cafeteria, comprei café e bolinhos, comemos no carro a caminho de um cemitério em Nova Jérsei onde Jared e Charlie estariam nos aguardando para o sepultamento. Bella comeu em silêncio, observando o caminho, oferecia-me alguns pedaços e segurava meu copo de café. Estacionei na área central do cemitério e ela embalou nosso lixo, saindo do carro e jogando em um lixo próximo. Ficamos parados olhando o caminho. Segurei sua mão e segui até onde Jared disse que seria o local.

Não havia ninguém além de Jared e Charlie. Não havia flores. Cadeiras. Nada. Apenas dois caixões e dois buracos na grama. Bella apertou meus dedos.

- Você quer dizer alguma coisa? – perguntei baixinho.

Ela ficou em silêncio por quase uma hora, parada, olhando para frente, mas os meus dedos estavam bem apertados na sua mão. Depois de mais vinte minutos, dei um passo para frente.

- Não sei quem você é, James. Nunca soube. – sussurrou passando a mão no caixão. – E eu acho que nunca prestei atenção em quem você foi.

Virando para o caixão de Victória, ficou parada. Ela deitou a cabeça na madeira.

- Eu só quero me lembrar de você como meu bebê. Aquela garotinha tagarela que vestia meus saltos e andava atrás de mim. Eu não sei como você se tornou aquela pessoa, mas eu te amei muito. Foi o meu bebê. Quero sempre me lembrar da minha irmãzinha. – sussurrou e se afastou, voltando e abri meus braços. Jared fez o sinal e dois rapazes apareceram para descer os caixões. Charlie afagou as costas dela, mas ela olhou. Eu a conhecia. Eu sabia que ela iria olhar para ter certeza que acabou.

Logo que os caixões desceram, voltamos de mãos dadas. Não havia muito o quê dizer. Ela se despediu de Charlie e ele prometeu aparecer no hospital na hora da visita, então, entramos no carro e seguimos para o apartamento que Victória e James haviam alugado, em um lugar bem perigoso, mas Jared estava nos seguindo e eu não me senti inseguro. Parei em frente ao prédio, peguei as chaves do saco e ela quis ir comigo, para olhar. O locatário nos recebeu na porta e subimos a estreia escada até o último andar.

Não havia muita coisa dentro, apenas comida pobre, nenhum brinquedo, nada que pudéssemos recuperar para Zoe. Roupas espalhadas. A mobília era do apartamento. Jared disse que encontraria alguém para tirar tudo ou ele mesmo faria, liberando ainda hoje para o dono. Acertei o que eles estavam devendo em dinheiro. Bella pegou uma foto que estava em cima de uma televisão velha. Era de uma mulher loira com um bebê no colo.

- Minha mãe e Zoe. – disse baixinho.

- Sua mãe era uma mulher linda. – respondi e ela assentiu. – Não há nada aqui. Pronta para ir?

- Sim. Eu achei que fosse ser mais difícil. Você tinha razão. Eu tinha que deixá-los ir para me sentir livre.

- Nem sempre tenho razão, mas quando se trata de conhecer você, tento estar certo. – sorri e ganhei um abraço muito gostoso.

- Estou com medo. Apavorada. Nervosa sobre termos dado um passo que não podemos. De ser uma decisão que pode acabar com o que temos. Medo de destruir tudo que construí até agora. Eu tenho uma carreira, como vou dar conta de tudo? Como sei que não vou estragar tudo?

- Não é uma decisão sua, Bella. Foi minha também. Vamos passar em casa e conversar sobre isso.

A viagem de volta para casa foi feita em silêncio, mesmo no trânsito caótico que enfrentamos apenas para entrar em nossa garagem. Bella saiu, dizendo que iria aproveitar para tomar banho, comermos alguma coisa e levar roupas para o hospital. Ela disse que eu tinha que aproveitar e ficar em casa para dormir, mas eu não faria isso. Quero mostrar a ela que seu medo é infundado. Não estou pulando fora. Não vou sair correndo porque é um momento difícil. Ela não vai criar Zoe sozinha. Ainda quero as mesmas coisas que antes, os planos de casamento e filhos continuam de pé.

Ela foi para o chuveiro e eu tirei da minha gaveta o anel da minha avó. Peguei um colarzinho na sua caixa de joias, passei pela aliança e pendurei um botão da cabeceira da cama. Bem no centro. Bella saiu do chuveiro enrolada no seu roupão, com cabelo molhado e vestiu sua calcinha, puxou o sutiã e colocou uma calça de moletom, meia, tênis e foi para o closet procurar alguma coisa. Voltou com outras roupas e uma bolsa. Aproveitei para pegar roupas também.

- Podemos almoçar depois? Quero ter certeza que Zoe almoçou caso ela tenha rejeitado a mamadeira. E ver os resultados dos exames dessa manhã.

- Sem problemas.

Ela respirou fundo e parou.

- O que é aquilo?

- Sua aliança de noivado.

- Eu sei, vi na gaveta. O que ela está fazendo pendurada na nossa cama?

- Esse é o meu pedido de casamento. – disse e ela se virou, completamente chocada. – Eu te amo. Não estou pulando fora. Adotamos uma criança e estamos começando a nossa família. Não me interessa de quem ela é filha biológica, acabou essa história, ela é nossa filha agora. Conversamos sobre casamento e filhos, planejamos casar no começo do ano que vem e ter bebês no outro. Falamos sobre viajar nas férias desse ano e esquiar em Aspen no inverno. Fizemos planos, mas você me disse que a vida muda. Podemos continuar com os mesmos planos, faremos minha mãe de babá e viajaremos ou a levaremos conosco. Pessoas fazem isso o tempo todo, Bella. Não vou desistir de você, da minha carreira, da minha vida porque agora temos um bebê. Esse é o começo da nossa vida juntos. Eu quero casar com você, mas você está com medo e eu entendo.

- Como você pode não estar?

- Nós somos diferentes nisso. Você surta com suas emoções e é racional. Eu sou só emoção. – brinquei e ela riu suavemente. – Essa é a minha prova de que estou com você.

- Então por que diabos você não está de joelhos?

- Você vai colocar essa aliança quando deixar de sentir medo ou pelo menos acreditar em mim que vamos fazer isso perfeitamente com muitas brigas no caminho, desentendimentos, mas vamos estar juntos. O dia que sentir que está pronta, coloque a aliança e venha falar comigo. Ok?

- Ok. Eu te amo. – sorriu e se jogou em cima de mim. Ela bateu com sua mão machucada na cama e gemeu de dor, mas depois sorriu. – Te amo tanto!

- Confia em mim, não estou prometendo o impossível.

- Eu prometo, que quando toda essa confusão sentimental passar, eu vou aparecer com a data do casamento e as cores. E ah, os convites das madrinhas. Também se vamos ter...

- Ok. Cala a boca. Deixa essa parte para depois que você colocar aliança, eu já estou enlouquecendo com Ângela correndo atrás de mim com tecidos de cores diferentes pra ver se combina com meus olhos. – disse e ela riu. – Nossa prioridade agora é Zoe.

Bella foi terminar de arrumar as coisas e eu tomei um banho rápido, também arrumando as minhas. Chegamos ao hospital, Rosalie estava do lado de fora conversando com Emmett e o quarto da Zoe parecia uma... Festa.

- Quem encheu o quarto de balões? – Bella perguntou. Zoe estava dormindo.

- Eu os coloquei lá dentro porque não tinha mais espaço nos meus braços para segurar todos os presentes e balões que o pessoal do hospital está entregando. Todos possuem um cartão e vocês se virem agradecendo depois. – Rosalie respondeu. – Aquele urso gigante, que está ocupando o sofá, foi o sem noção do meu namorado.

- Ela vai adorar. – Emmett sorriu. – E como você está? Foi bem?

- Eu achei que fosse pior, mas estou me sentindo melhor. – respondeu e ela olhou pra mim, sorrindo. – E como foi aqui?

- Ela chorou muito depois que vocês saíram, tipo, muito. Ficou no colo mexendo nos meus dedos, dormiu, não mamou muito, só enrolou e empurrou a mamadeira. Ela deve acordar com fome. Eu troquei sua fralda. E as gêmeas do mal estão chegando, já sinto o chão tremendo.

- Ah, droga. Esqueci-me de comprar a banheira. – Bella resmungou. – Peguei a da UTI emprestada.

- Tem mais alguma coisa? Eu compro e volto aqui. Tenho que ir ao shopping.

- Vou fazer uma lista.

Bella entrou e os dois me olharam.

- Ela está tentando. Chorou o Rio Hudson inteiro novamente, mas está tentando. Pelo menos se despediu. Deem uma chance e não fiquem olhando como se ela fosse surtar novamente.

- Aqui está. São só umas coisinhas. – Bella deu a lista junto com seu cartão de crédito. Rosalie devolveu o cartão e guardou a lista. – Eu vou ver o almoço dela e já volto.

- Ela realmente está tentando. – Emmett disse ao observá-la sair pelo corredor. – Vai dar tudo certo, nós vamos ao shopping e voltamos.

Rosalie e Emmett saíram por um elevador, no outro, Elizabeth e Esme saíram com sacolas nos braços. Muitas sacolas e havia um rapaz atrás dela carregando mais sacolas. Alice, vestida com seu uniforme do hospital, também segurava algumas. Não vai caber tudo aqui. Parei na porta do quarto, impedindo-as.

- Vamos com calma. – sorri e elas estavam olhando sobre meu ombro. – O que é exatamente isso tudo?

- Roupas, brinquedos, fraldas, chupetas, presilhas de cabelo, lindos vestidinhos e sapatinhos. – Elizabeth sorriu animada. – Sou uma avó. Eu não esperava dormir e acordar avó. Incrível, certo?

- Mãe. As circunstâncias...

- Danem-se as circunstâncias. Vocês adotaram um bebê e eu sou sua mãe, significa que essa criança é minha neta. Sai da minha frente.

Zoe chorou e sentou no berço. Entrei com calma e a peguei no colo, acalmando, mas ela não parava de chorar e olhar ao redor. Tia Esme e minha mãe pararam ao meu lado, não avançaram feito loucas. Bella voltou com uma bandeja e ficou sem entender nada.

- Não sei fazê-la parar.

- São os balões. Tem muitos. – disse e a pegou de mim. – Tira todos os balões daqui, agradeça as pessoas e tira. Ela é muito pequena para entender eles. – completou e assenti, recolhendo os balões. Abri a porta da sala da frente e coloquei todos lá. – Oi vocês. Zoe, essa é a Vovó Elizabeth que te falei mais cedo e a Vovó Esme. Cadê Alice?

- Emmett está de folga e o residente da neurologia pega no pé. – Elizabeth respondeu. – Volto depois. Posso?

- Ainda não. O que é isso tudo? – Bella perguntou e Tia Esme passou a abrir todas as sacolas, tirando cada roupinha. – Vamos continuar com isso depois, ela precisa comer. Hoje começou um novo antibiótico, é capaz de ficar um pouco irritada. – disse e virou para minha tia. – Ela tem a rosácea sensível, comprei bephantol, mas existe alguma coisa que precise fazer?

- Ela é muito clarinha e sua pele é muito fina, provavelmente terá sardas. Tem que hidratar bastante.

Sentei com Zoe e arrumei seu scalp, é provável que tenha hidratado o suficiente no momento, para nas próximas horas continuar com o soro. Seus exames devem ter voltado positivos para que Banner reduza o tratamento, porém, ele deu o antibiótico. Bella estava olhando para o bracinho dela e provavelmente pensando a mesma coisa. Ela puxou a bandeja para mais perto e ofereceu o suco na mamadeira. Zoe olhou desconfiada, bateu e virou o rosto. Bella ficou insistindo até que ela provou o suco de laranja e deu um longo gole.

- Você estava com sede? – perguntou e ofereceu uma colher. Como era salgada, ela cuspiu. Tudo. Provavelmente umas cem vezes antes de aceitar comer. – Ela realmente gosta de doce.

- O que é isso com a cor peculiar? – perguntei curioso. A cor era bem estranha. Verde meio marrom se fosse possível ter essa combinação.

- Frango para anemia, bastante ferro e complexo B, alface com vitamina K, um relaxante natural e batata doce como anti-inflamatório, potássio e mineral para fortalecer esses bracinhos. – sorriu e eu pensei que não devia ter um gosto muito bom tudo misturado assim. - E ah, cenoura. Betacaroteno.

Um flash e nós viramos. Tia Esme estava tirando fotos.

- Registrar todos os momentos. – sorriu e eu ri. Bella deu outra colher a Zoe, que acabou comendo tudo, se ela não mamou, estava com fome. – Agora nós podemos?

Deixar minha mãe e minha tia com Zoe foi o momento do dia. Charlie chegou com presentes, dessa vez ele veio com Charlotte. Jared também entrou um pouco e deu-lhe uma girafinha, que Zoe pegou e não soltou, mordendo as orelhas o tempo todo. Nós abrimos todos os presentes, muitos brinquedos e entreguei a Charlie para que ele pudesse deixar lá em casa e desocupar o quarto do hospital. Bella separou as roupinhas que as gêmeas trouxeram e mandou com o pai dela o que não iriamos usar aqui e era grande demais.

O quarto teve muitas idas e vindas durante todo dia. Muitos presentes. E eu já nem sabia a quem agradecer. Emmett deu a ideia de fazer uma mensagem padrão e eu o coloquei para ficar sentado e digitar para quem mandou presentes.

- Ontem ela não tinha ninguém. – Bella sussurrou. – Agora ela tem tanta gente.

- E ainda não veio a família inteira. – brinquei e ela sorriu ainda mais, porém, seu olhar caiu um pouco.

- Minha mãe e agora Victória. Será mesmo o fim? O que mais pode acontecer?

- Muitas coisas.

À noite, Banner nos deu a boa notícia que todos os seus exames estavam melhorando, incluindo os da sua função hepática. Ela foi pesada e ganhou um quilo em dois dias de tratamento. Devido ao seu baixo peso, o hospital só poderia liberá-la se ganhasse mais três e assim seria um bebê saudável, dentro da sua faixa. Bella insistiu que eu fosse para casa descansar, porque nós dois trabalharíamos amanhã, mas ela faria rondas, visitas, pós-ops e todo administrativo que pudesse no quarto com Zoe. Já eu me dividiria em quantos pudesse, porém, eu sabia que se eu fosse para casa, não iria dormir. Quando Bella está de plantão de madrugada e eu estou em casa, não durmo.

É a merda de uma dependência.

Tivemos a mesma rotina que ontem à noite, exceto que dessa vez, eu dei o banho, coloquei a fralda e tentei pará-la o suficiente para pentear seu cabelo. Devido ao longo sono no colo da minha mãe durante a tarde, ela ficou acordada o suficiente para aceitar uma mamadeira de suplemento morninha e provavelmente muito cheia, começou a reclamar de sono. Sentei na poltrona e observei Bella cantar a mesma canção que ontem, mas dessa vez, sem chorar. E eu senti muito orgulho da mulher que amo.