Marcado

Kaline Bogard

Capítulo 21 – Família

A voz de Kuroko soou em suas mentes. "Já terminaram, Aomine kun, Kagami kun? Podemos entrar?". Aomine rosnou. Mas é lógico que os Betas iriam querer se aproximar agora que eram um Pack completo. Merda. Ele realmente queria dormir ali, daquele jeito, com seu Ômega.

"Sim, vocês podem entrar, já terminamos", Daiki respondeu pelo elo mental, relutantemente retirando-se do caloroso abraço que era o corpo do Ômega envolta do seu, ouvindo o mesmo grunhido reprovador de Taiga. Precisavam se vestir.

— Eu devia achar isso bizarro... — o ruivo resmungou. Um frio inesperado o envolvendo assim que deixou de sentir Daiki sobre si — Nós acabamos de fazer e esses caras estão entrando na minha casa como se fosse normal.

— Mas você não tá estranhando, tá? — Aomine olhou em volta, procurando as roupas de ambos jogadas pelo chão — É o laço de um Pack. Agora você é mais do que um membro do grupo, você é o companheiro do Alpha.

Desceu da cama e começou a pegar as peças, sendo assistido por Taiga, que fez nada mais do que olhar. Sensações desconhecidas espalhavam-se por seu corpo, todas boas. Mas além de tudo, havia uma estranha letargia. Sua mente dizia para se mover, porém não o conseguia.

— Oe, aho! O que tá acontecendo comigo?

— Hn? — Aomine equilibrou-se em um pé para vestir a calça, sem se preocupar em por a cueca. Depois alternou para colocar a outra perna — Tá doendo muito?

— Não é isso! — Kagami sentiu o rosto esquentar de leve, praticamente esquecera da dor. Envergonhava-se um pouco do seu comportamento, mas só um pouco!

Daiki vestiu a blusa e pairou o olhar sobre seu companheiro. As sobrancelhas franzidas suavemente. Admirava a marca no pescoço dele, a pele delicada estava toda avermelhada, os sulcos causados pelos dentes do Alpha foram profundos a ponto de tirar sangue. Ficaria bem feio no dia seguinte. Previu um surto do seu companheiro cheio de frescuras. Agora Kagami já tinha um fator de cura acelerado, por harmonizar com o Tigre. Mas aquela não era uma injúria qualquer...

— Sim, você está estranho. Eu devia ter sido mais claro a esse respeito, não se assuste — sentou-se na cama, sem mencionar o ferimento — O que nós fizemos não foi apenas sexo, Taiga. A Marca muda tudo, em todos os sentidos. Eu te avisei: sua essência se transformou e isso reflete na parte física. Acho que não vai sair dessa cama tão cedo. Não por conta própria.

Terminou de falar passando os dedos de leve pela franja ruiva, grudada no suor da testa de Kagami, um gesto carinhoso que encontrava reflexo nas íris cobalto e surpreendeu o Ômega. De vez em quando, Aomine expunha esse lado afável e quebrava todas as suas barreiras.

Então o Alpha deslizou a mão e o segurou com cuidado pelo queixo, analisando-lhe o rosto com atenção.

— Oe! — Kagami protestou por ser fitado com tanta intensidade.

O outro ergueu as sobrancelhas, subitamente animado.

— Até que a sua boca é grande — sorriu feliz — Da próxima vez quero tentar um oral...

— DAIKI! — o rosto de Taiga esquentou e ele soube que corava até as orelhas. Aquela naturalidade de Aomine era uma rasteira constante em sua personalidade mais recatada em um assunto tão íntimo — Oral é o caralho!

— "Oral é no caralho", você quer dizer né? — corrigiu, dando uma risadinha — Nem pense em consertar a porta. Não vai se trancar no quarto e dar um show cada vez que a gente for fazer, né...?

—... não — o ruivo respondeu baixinho, desviando os olhos. O sexo com Daiki tinha sido tudo, menos ruim ou desagradável. Começaram desajeitados, por todos os fatores que os envolviam, eram adolescentes e inexperientes. Um deles ansioso demais pela consumação, o outro assustado além da conta. Mas no fim dera certo, muito certo. Kagami sabia que podia repetir aquilo sem problemas. Não tão cedo, claro. E talvez nem com... oral!

Aomine ia comentar algo, todavia as presenças dos outros membros do Pack se tornaram mais fortes. Eles acabavam de chegar na sala, aguardando que o Alpha e o Ômega fossem até lá.

— Hora de dizer um "oi" pra família, Bakagami.

— Me ajuda a me vestir, aho — ele resmungou. E foi obedecido. Daiki recolheu as roupas do companheiro e o vestiu. A pior parte foi colocar a calça, momento em que Kagami sentiu o sêmen do parceiro, agora já mais frio, escorrendo para fora de seu corpo. Foi embaraçoso. Piorou quando se deu conta de que os demais não apenas sabiam o que tinham feito, mas sentiriam o cheiro. Ele fedia a porra de Alpha. Que maravilha!

Aomine captou aquelas sensações todas, mas não disse nada, continuando sua tarefa de vestir o Ômega. Sim, seu aroma impregnava o quarto e o parceiro, sentia-se orgulhoso. Normalmente não era um shifter territorialista, pelo menos não até conhecer seu companheiro destinado. Kagami conseguia despertar um lado possessivo em si tão forte que o surpreendia. Talvez fosse fruto do laço que os unia, intensificado pela condição Ômega do rapaz. As vezes, nem Daiki compreendia todos os mistérios que envolviam shifters, e ele nascera e fora educado dentro dos costumes da comunidade!

Enfim, terminou de vestir o ruivo e foi até o guarda-roupa pegar uma manta leve com a qual pudesse envolver Kagami e diminuir aquele ar de fragilidade que ele apresentava. A Marca avermelhada contrastava forte contra a pele pálida. Ele parecia cansado, apesar de os olhos vermelhos estarem alertas.

Assim que concluiu a tarefa de proteger seu companheiro, Daiki o pegou nos braços e juntos saíram do quarto. Taiga não reclamou, sabia que não poderia ir com as próprias pernas.

Ainda que tivesse confortável com a idéia de ir até o Pack, encará-los não foi tão fácil. Estavam todos ali, na sala do seu apartamento. E os Betas olhavam fixamente para a Marca em seu pescoço, atraídos por ela como pólos opostos de um imã.

A forma de sentir os shifters se intensificara. Os vínculos e o jeito que os captava também se alterara. Kagami era capaz de perceber os poderosos laços de respeito e reconhecimento entre eles. Mesmo entre Kuroko e Midorima, dois shifters que nunca seriam amigos, compreendia agora, mas conviviam bem graças à consideração pela força um do outro. Lia muito mais claramente o intrincado emaranhado que eram os sentimentos entre Kise, Kuroko e Momoi. Leu a tristeza que o sorriso de Ryota tentava esconder, mas seus olhos traiam. Soube que Kuroko sequer tentava esconder essa desesperança, ao ponto que Satsuki apoiava-se no otimismo para sustentar sua postura animada. E teve, com toda certeza do mundo, a confiança de que poderia mudar a situação daquele trio no tempo certo. Não sabia como, nem mesmo de onde vinha tal certeza. Mas a tinha. Captava um vislumbre por trás da postura de Murasakibara, uma faísca que não conseguia identificar bem, mantida sob o controle da fria máscara de indiferença, porém pronta para vir a tona a qualquer momento. Viu, mais do que tudo, a forma como Akashi se conectava ao Pack, com correntes autoritárias que não sentia nem mesmo em Daiki, sentiu o pesar que o capitão tinha por nascer Beta, tendo em si um potencial para liderança tão grande. E em como se adaptara ao papel de líder, que o verdadeiro Alpha não fazia questão de assumir. Soube que aquele grupo era perfeito, por todas as suas imperfeições. Pois, justamente por isso, tornavam-se mais fortes ao superá-las e se unirem em prol de um objetivo maior. Relações complexas, complicadas. Profundas. Afetos e desafetos como todo relacionamento.

Como toda família.

Entendeu claramente que aquelas habilidades faziam parte do seu papel como Ômega: ser um elo não apenas entre o Pack e a natureza, mas entre os próprios membros do grupo. Parecia piada, logo ele recebendo algo assim como tarefa? Com seu gênio bravio, meio cabeça quente... Quase podia rir do pensamento! Só não o fez porque o Tigre estava calmo em seu interior, talvez (e muita ênfase nesse talvez), tendo uma criatura tão sábia e cheia de temperança em sua alma não fosse uma empreitada completamente impossível.

Relaxou no sofá no instante em que Daiki o colocou ali, sentando-se ao seu lado. Os demais Betas estavam de pé, espalhados pela sala.

— Excelente, Daiki — Akashi foi o primeiro a romper o silêncio — O Pack está completo, podemos sentir a diferença.

— Vi os olhos de meu animal interior no momento em que a Marca foi feita — Kise falou com animação. Era o contato mais próximo que já tivera com a criatura. Os Betas assentiram, todos passaram pela experiência no mesmo instante. Algo impossível de por em palavras.

— É certo que poderemos chegar a forma completa — Midorima soou pensativo — Talvez assim que o vínculo se estabilize.

— Ahh, então o Ômega aqui não é tão inútil — Taiga resmungou de mau humor, lembrando de quando encontrara aquele cara a primeira vez.

— Não tanto quanto eu pensei — o rapaz de óculos devolveu a alfinetada.

— Oe!

— Qual é o próximo passo, Aomine kun? — Kuroko mudou de assunto, fitando Daiki na certeza de que ele já sabia o que fazer.

Mas o Alpha apenas enfiou o dedinho na orelha e coçou preguiçoso.

— Akashi...? — perguntou como quem não quer nada.

— Dai chan! — Satsuki balançou a cabeça, sem parecer surpresa de verdade com o jeito do amigo de infância.

Mas Seijuro não perdeu a oportunidade, muito satisfeito por usar a postura de capitão, e voltar; mesmo que não oficialmente, a liderar o Pack.

— Não posso compreender porque a Kirisaki Daichi nos deixaria chegar tão longe — ele já analisara a situação de muitos e muitos ângulos. De qualquer lado que olhasse, o Ômega receber a Marca era uma complicação para um grupo rival. Depois daquela noite, a grande maioria se afastaria. Ainda que fosse raro, as leis shifters eram claras: Kagami Taiga já fôra marcado, reconhecido como companheiro de um Alpha e integrante oficial acolhido por todos da Geração Milagrosa. Ir contra esse fato seria correr o risco de tornar-se proscrito na comunidade sobrenatural e hostilizado por todos. Apenas um Pack que já passasse por tal situação não se importaria. E a Kirisaki Daichi era a única que podia se lembrar de não reconhecer leis ancestrais, nem limites.

Existiam outros, claro. Mas viviam longe de Tokyo. Apenas Hanamiya Makoto e sua corja, na atualidade, eram fortes o bastante para viver na capital do Japão ainda que sem alianças com Packs adversos.

Com a harmonização do Ômega e a Marca que ele recebera, todo o Pack evoluíra um nível. Os sentidos mais aguçados seriam capazes de captar qualquer Alpha ou Beta que entrasse em um amplo raio de aproximação. Akashi ousava dizer que mesmo um mestiço seria sentido. Hanamiya não poderia chegar perto sem ser descoberto.

Como excelente estrategista, Seijuro logo deduziu o óbvio: o inimigo movera uma peça no tabuleiro, entrara em contato e deixara claro seu escuso objetivo. Se permitira que a Geração Milagrosa completasse aquele avanço, então; de alguma forma, ele fazia parte dos planos de Hanamiya. Só não compreendia como, fato que daria uma nova direção às suas investigações.

— Esse apartamento é o local mais seguro no momento. Criarei novas rotas de acesso para manter o anonimato. Vamos estabelecer equipes para os turnos antes e depois das aulas. Durante as aulas confiaremos em Tetsu, mas duvido que Hanamiya tente algo na escola, nem ele se exporia tanto.

— E se Taiga for pra minha casa? — Daiki sugeriu.

— Péssima idéia — a possibilidade foi logo descartada por Akashi — Sua casa é um alvo em potencial. E envolve o Pack dos seus pais, prefiro evitar. Pode vir dormir aqui, mas espere que eu faça rotas diferencias para você também. E para todos...

Concluiu que se cada um tivesse seu próprio caminho para ir ao apartamento do Ômega, se tornaria ainda mais seguro e difícil de descobrir.

Taiga ficou desconfortável com tanto trabalho por sua causa. Compreendeu que seria assim pelo resto da vida, então não adiantava reclamar, teria que se acostumar. Além disso, seu destino colocava em risco as pessoas próximas a si. Por sorte, seus pais estavam em um lugar longe dali. Não queria que fossem atingidos também. Habituar-se-ia a isso? Uma onda de conforto chegou a si, vinda dos Betas, mas principalmente de Aomine. Era agradável e o acolhia, espantando suas preocupações. Assim era um Pack, assim era sua nova família. Sim. Podia acostumar-se a tal dinâmica.

Apesar disso, não se esquecia das prioridades.

— Meu irmão... — ele sussurrou.

— Estou investigando cada possibilidade — o capitão garantiu, confiança brilhava nos olhos heterocromicos — Nada escapa aos meus contatos, tenha certeza.

Kagami não respondeu. A decisão daquele shifter chegava a si e o tranqüilizava quase tanto quanto a presença do companheiro ao seu lado.

Talvez Midorima estivesse errado em uma previsão, fato inédito. Embora não fosse isso que todos pensavam. Não podiam relaxar as defesas e abrir uma brecha para o inimigo se infiltrar. Não pela segunda vez.

continua...