Capítulo 21

Estávamos todos na sala esperando as nossas visitas chegarem. Mesmo sob os protestos da senhora De Silva, eu insisti em vir até a sala.

O motivo?

Vigiar aquelas meninas Anderson, claro.

Porque eu não iria dar bandeira agora. Não agora que Jesse e eu havíamos nos acertado.

Sim, pode arregalar os olhos o quanto quiser. Jesse e eu estamos namorando. Ou melhor, estamos noivos. E um dos problemas de tudo isso é que ninguém sabe disso ainda. A não ser nós dois, é claro.

Você deve estar se perguntando o motivo de nós não contarmos para os outros.

O motivo, eu sinto dizer, é segredo de Estado.

- Elas chegaram. - Cantarolou a senhora De Silva para o meu intenso desagrado. Todos se levantaram e esperaram as nossas convidadas entrarem. Eu esperava desesperadamente que as garotas não fossem bonitas. Nem atraentes de qualquer jeito. E que definitivamente não estivessem interessadas no meu namorado.

Infelizmente não fui atendida.

As garotas Anderson não eram realmente bonitas, mas definitivamente estavam interessadas em Jesse. Interessadas de mais.

Mas Jesse já havia me alertado sobre isso, além de esse ser um fator extremamente necessário no noss...

Ok, é melhor eu parar por aqui.

O negócio, era que aquelas pálidas garotinhas, nem tão garotinhas assim, já que elas pareciam ser mais velhas do que eu, estavam se insinuando de mais para o meu namorado. E Jesse não estava se esquivando daquilo de modo algum.

Mas não havia nada que eu pudesse fazer. Não sem chamar atenção de todos.

O que arruinaria tudo.

O resto do dia passou rapidamente e sem que eu notasse já era a hora do jantar. Mas o que eu pude notar muito bem era o flerte que as garotas Anderson tentavam com Jesse. E visivelmente não era só eu quem percebia. A família inteira de Jesse estava muito ciente de tudo.

Ciente de mais eu percebi quando o senhor De Silva insinuou o tema casamento e o fato de Jesse estar "disponível".

Segurei os talheres com mais força do que o necessário.

Quando o jantar finalmente acabou, depois de ajudar a senhora De Silva com a louça, fomos para a varanda.

Então a catástrofe aconteceu.

Ou as catástrofes, seria mais correto dizer.

Assim que cheguei à varanda vi uma das garotas Anderson espreitar Jesse e ao perceber que ele estava distraído, ela simulou um tropeço e caiu. Em cima dele.

Por isso não me culpe por ter avançado em cima daquele projeto de vagaba e ter pego seus cabelos e praticamente jogado ela escada abaixo, porque, encaremos os fatos, ela merecia.

Mas é claro que eu não devia ter feito aquilo, porque agora todos me encaravam como se eu fosse uma maníaca. Inclusive Jesse. E eu realmente tive que morder a língua para não gritar para ele: Nem me olhe assim Jesse, você fez bem pior com o Paul.

Mas pelo menos isso eu não fiz. O que deve contar um ponto ao meu favor.

Foi aí que a grande catástrofe aconteceu.

O senhor De Silva passou mal por minha culpa.

Eu quase havia matado o pai de Jesse

Após toda a movimentação para socorrer o senhor De Silva eu me isolei num dos quartos. Jesse havia saído para buscar um médico e eu esperava ele retornar para me despedir. Afinal eu não poderia mais ficar na casa dos De Silva, atraindo tragédias para todos eles. Tragédia e vergonha, acrescentei amargamente sentindo as lagrimas rolarem livremente pelo meu rosto.

Não seria apenas de Jesse que eu sentiria falta, mas de toda a sua família. Porque eu os amava. Os soluços sacudiam o meu corpo enquanto eu desejava nunca ter sido uma mediadora, deslocadora, ou o que quer que eu fosse.

E ao mesmo tempo em que eu sofria por ter que me afastar da família de Jesse eu sofria com as saudades da minha família. De Cee Cee e de Adam. Mas principalmente do meu pai. Como eu queria que ele estivasse aqui comigo =, nem que fosse só para me abraçar e mentir que tudo ficaria bem. Que tudo daria certo.

Mas não daria.

A verdade me atingiu quando Jesse entrou no quarto em que eu estava, me despertando do sono em que eu mergulhara sem perceber, muito mais tarde.

-Suzannah - ele murmurou de onde estava.

- Seu pai? - Perguntei angustiada, a imagem do senhor De Silva passando mal invadindo a minha mente.

- Ele está consciente e bem... Na medida do possível.

- Eu sinto muito Jesse. Eu jamais quis...

- Eu sei Suzannah. Todos sabem. Ninguém a culpa pelo que aconteceu.

Por um momento senti a esperança preencher meu peito, mas eu logo a afastei.

- Eu vou embora agora. Não quero mais causar nenhum problema a vocês.

Jesse me encarou, parecendo alarmado. - Você não tem para onde ir, e eu já lhe disse Suzannah, ninguém a culpa.

- Como eu vou poder ficar aqui Jesse? Depois do que aconteceu? Vai ser... constrangedor.

- E onde você pretende ficar? Porque, ao que eu saiba você não conhece ninguém neste século. - Ele hesitou. - Suzannah, todos a consideram como parte da família. Inclusive eu.

- Sua mãe...? - perguntei hesitante.

- Adora você. - Uma sombra de riso passou pelo rosto de Jesse. - Na verdade ela se culpa pelo o que aconteceu já que estava tentando fazer você sentir ciúmes de mim.

- Ela estava? - Minha voz denunciava a surpresa que eu sentia.

- Sim. Ela me disse isso agora a pouco. Eu... contei a ela, quando você estava inconsciente, que havia te pedido em casamento, mas não revelei o motivo da sua negativa e ela acabou tentando provocar ciúmes em você, para você aceitar o pedido. Por isso ela se culpa pela sua reação. E por tudo o que aconteceu.

- Mas não é culpa dela. Diga a ela Jesse.

- Eu já disse. E você vai parar de se culpar também e vai descansar. Eu vi o jeito que você estava dormindo, toda retorcida.

Um pequeno sorriso invadia meu rosto quando eu senti.

Do nada era como se todos os meus sentidos me dissessem que estávamos sendo observados. Por um fantasma.

Jesse interpretou muito bem a minha reação, retesando todo o corpo, os olhos se enchendo de frieza.

- Descanse e vamos esquecer tudo o que aconteceu. - O tom de voz dele parecia sugerir que era um problema incomodo.

- Obrigada. - Respondi também fria. Doía tratar e ser tratada por Jesse assim.

Mas era preciso.

Mas antes que Jesse pudesse dar um passo sequer em direção a porta o quarto foi invadido pelas irmãs dele.

Eu e Jesse imediatamente ficamos tensos esperando uma má noticia.

- Oh, - disse Mercedes - não fiquem assim. Está tudo bem. Só viemos para garantir a Suzannah que não a culpamos por nada do que aconteceu.

- É verdade Suzannah - Josefina me garantiu com um sorriso, - não a culpamos por nada.

Meu olhar pousou em Marta que estava num silencio grave. - Eu também não a culpo Suzannah. Mesmo sendo amiga de infância das Anderson.

- Me desculpem. Mesmo. Mas aquela garota praticamente se jogou...

- Se não se importam... - Disse Jesse saindo para o corredor.

- Não ligue para Marta, Suzannah. Ela está deprimida porque Esteban foi embora. - Mercedes se debruçou na cama brincando com a colcha.

Olhei para Marta, ela sorriu triste. - Mesmo com papai o ameaçando a cada cinco minutos eu me sentia melhor com Esteban aqui.

- E as garotas Anderson? - Me sentia extremamente desconfortável em falar nelas.

- Foram embora a pouco. Mamãe teve uma conversa reservada com elas. - Mercedes riu e disse algo em espanhol fazendo as irmãs rirem e eu me sentir deslocada na conversa. - Pelo jeito que mamãe estava, tenho certeza de que elas não vão falar nada sobre o que aconteceu aqui. E papai - emendou ela sabendo o que eu iria perguntar em seguida, - está ótimo e garantindo que quer que você não se sinta culpada pelo o que aconteceu.

Um silêncio incomodo se instalou.

- Então - Mercedes pareceu ficar entediada da colcha, - uma garota cai em cima de Jesse e você a arremessa escada abaixo. Isso quer dizer alguma coisa, não quer?

Abri um sorriso amarelo sentindo que estava extremamente corada. Estava tentando arranjar uma boa desculpa para contar quando uma batida na porta soou.

A senhora De Silva entreabriu a porta.

- Queridas poderiam me dar um instante com Suzannah?

A resposta foi a saída imediata de todas as filhas. Não precisei de uma segunda olhada para elas para saber que elas estariam escutando atrás da porta.

A senhora entrou no quarto e depois de fechar a porta ergueu a mão pedindo silencio.

- Meu marido está ótimo querida. Não, ninguém a culpa pelo que aconteceu e sim eu tentei fazer com que você ficasse com ciúmes de Jesse.

Ela sentou-se na beira da cama e fez sinal para que eu me juntasse a ela.

- Você deve estar pensando que eu não devia me meter nesse assunto e provavelmente está certa. Mas Jesse ama você e me parece que o sentimento é recíproco.

- Senhora De Silva, é complicado...

- Querida nada que valha a pena é fácil. - Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto - Eu tive que lutar muito para conseguir ficar com o pai de Jesse. É. - Disse ela ao ver minha expressão de espanto. - Tudo estava contra o nosso romance. Eu tive que desistir de muitas coisas para ficar do lado dele. Mas valeu a pena. Cada vez que vejo a minha família eu vejo que valeu a pena. - Ela pegou a minha mão e deu um tapinha afetuoso antes de se levantar. - Jesse garantiu que lutaria por você Suzannah. Agora cabe a você decidir como vai ser a historia de vocês.

Mesmo depois da saída da senhora De Silva do quarto, sua última frase permanecia na minha cabeça assim com todo o peso do significado dela.

__________

N/A: Bem vindas as novas leitoras! Espero que gostem desse cap. ;)