Capítulo 21— Diálogos de lágrimas
Seis anos atrás...
Quando os dois garotinhos de cabelos escuros entraram gargalhando no último dormitório masculino que restava do corredor lotado, duas outras figuras se sobressaltaram. Uma delas a de um garoto gordinho e de baixa estatura, que se virou assustado ressurgindo por detrás de seu malão. A outra a de um garoto magro de bastos cabelos castanhos e vestes de segunda mão, que já desfazia sua mala organizando alguns itens sobre uma das camas. Tiago e Sirius se entreolharam.
—Vocês podem dividir esse quarto com a gente? — perguntou o primeiro, já largando a pesada bagagem com estrondo no chão e obrigando Sirius a desviar para não ter os pés esmagados.
Os outros dois também se entreolharam. Na certa também tinham acabado de se conhecer, pois não havia nenhuma intimidade entre eles. Foi o jovem de vestes surradas quem respondeu, a voz serena e amigável:
—Claro. Tem duas camas vazias. Fiquem à vontade. — e sorriu. Sirius ergueu uma sobrancelha para ele, e tomado de uma expressão arrogante guiou-se para uma das camas vazias chutando seu malão com descuido.
Tiago despejou sua bagagem na cama ao lado de Sirius e logo começou a desfazê-la, voltando a ignorar a presença dos desconhecidos. Encontrou alguns Fogos de artifício Filbuster e começou a se distrair com eles, chamando a atenção do garoto gordinho, que ergueu os olhos brilhantes na sua direção. Quando um dos fogos de artifício ousou escapar, Tiago agilmente o recuperou no ar, produzindo estalidos. O garoto do outro lado do cômodo gargalhou e bateu palmas:
— Uau! Que rápido! Faz isso de novo?
Um sorriso orgulhoso tomou o rosto de Tiago, que claramente gostou da atenção.
—Qual o seu nome? — enfim perguntou, colocando seus brinquedos de lado. O outro respondeu um tanto esbaforido:
—Pedro Pettigrew!
"Patético" pensou Sirius, prestando atenção na dupla com o canto dos olhos.
—Sou Tiago Potter e esse aqui é Sirius Black. — disse, apontando para o novo amigo. Sirius soprou alguns fios que lhe caiam na testa, claramente contrário àquela aproximação. Mas um olhar de Potter o fez murmurar um gélido "Prazer".
Já que havia iniciado aquelas apresentações, Tiago então se virou para o garoto distante que já parecia bastante avançado no seu processo de arrumação:
— Ei! E você?
—Eu?— o jovem ergueu uma expressão confusa para ele.
—Qual é seu nome?
— Remo. Ãh, Lupin. — disse indeciso.
E estavam apresentados. Tiago logo perdeu o interesse nos novos inquilinos e voltou a conversar animadamente com Sirius.
Já fazia alguns dias que ele os seguia por todos os lados. Tiago não se importava; gostava de ter Pettigrew o bajulando e encorajando, e logo Sirius também passou a aturá-lo.
—Pedro, o que você está fazendo?— perguntou o jovem Black, mirando o gordinho desajeitado que se postava ao seu lado.
—Nada... Eu só estou...parado aqui.
—Não, não, não. – e Sirius suspirou. — Escute, se você vai ficar andando com a gente, vai ter que parar de parecer um idiota.
— Ãh?— fez o garoto baixinho, um tanto confuso.
—Primeiro, tire essa gravata, desabotoe sua camiseta um pouco... — enquanto falava Sirius ia fazendo seus ajustes no colega.— Agora, esse cabelo...— e bagunçou a cabeleira loura escura de Pedro, de maneira bastante descuidada.— Melhor...agora cruze os braços, incline-se para trás, e olhe para todos como se você fosse melhor do que eles.
Bastante desengonçado, o uniforme vandalizado e com fios de cabelo agora atrapalhando sua visão, o baixinho perguntou, esperançoso:
—Tipo assim..?
Sirius pendeu a cabeça para o lado, fitando sua obra:
—Bem... está melhor. Vamos continuar praticando.
Uma aglomeração de alunos se transportava para os corredores aquele dia, se dispersando pelas escadarias. Percorriam seu trajeto entre acotoveladas, tropeços, conversas e reclamações. Para os calouros, perder-se naquela multidão que os empurrava por caminhos desconhecidos não era apenas fácil, mas quase inevitável. Foi o que aconteceu com Lupin, que durante uma virada imprevista num corredor estreito acabou sendo lançado com brutalidade por um garoto que possuía, no mínimo, o dobro de toda a sua massa corporal.
Remo caiu sentado mesmo com todo o seu esforço para manter o equilíbrio, o que resultou num encontro dolorido entre as pedras que constituíam uma parede e sua cabeça. Seus livros caíram espalhados no chão, atraindo os olhares de alguns jovens mais velhos de Sonserina. Eles pararam gargalhando enquanto fitavam com ar de zombaria o primeiranista tentar se reerguer.
—Que engraçado, suas vestes viraram farrapos só com essa queda?—observou um dos marmanjos, guiando as mãos grossas para o peito do menor: com um impulso, ele lançou Remo novamente para o chão, o que desta vez provocou ecos de risadas em mais um bando de sonserinos que transitavam por ali. O grupo covarde que encurralava o garoto de cabelos castanhos expirava orgulho, superioridade e desdém:
—De onde você veio?— a voz desafinada de um dos rapazes que se divertia às custas do grifinório novato indagou, fazendo suas palavras soarem muito mais como uma intimação do que como uma curiosa pergunta.
—Provavelmente de alguma fazenda. — opinou outro, sem nem ao menos dar uma chance para Remo sequer abrir a boca. — Veja esses arranhões e remendos na roupa! É obviamente um caipira.
— Devolva o meu livro. —pediu Remo pacientemente, mirando um dos sonserinos que gargalhava.
— Ou o quê? — instigou o mais velho, agora erguendo o livro ainda mais alto, sobre a própria cabeça.
— Ou vai ter que enfrentar Sirius Black e Tiago Potter! — anunciou uma nova voz. O sonserino que judiava de Remo, assim como todos os seus acompanhantes, virou a cabeça para os dois novos inquilinos parados no meio daquele corredor.
Pelo que puderam observar ambos os intrusos também haviam acabado de ingressar no primeiro ano da escola e, segundo o brasão em seus uniformes, haviam sido sorteados para Grifinória. Dos olhos castanhos de um cintilava esperteza, coragem e arrogância, enquanto dos olhos cinzentos do outro ficava transparente um sentimento furioso de rebeldia, audácia e inconsequência. Apesar das notáveis diferenças físicas entre os dois, dava-se a entender que eram irmãos, uma vez que seus sorrisos de confiança e imaturidade eram quase idênticos.
Fixando um par de olhos incrédulos na dupla, o bruxo encrenqueiro marchou na mesma direção dos garotos de onze anos. Os demais o seguiram, dando as costas para um atordoado Remo:
— Então são vocês dois e mais quantos pirralhos que vão dar uma de herói, quatro olhos? – rosnou primeiro para Tiago, que com um sorrisinho leviano, repetiu:
—Sério mesmo? Quatro olhos? Isso foi o melhor que conseguiu inventar?
Um dos sonserinos que até o momento mantivera um ar servil diminuiu a distância entre eles. Sua intenção era partir pra cima dos novatos, começando com um murro no meio do rosto de Tiago, mas foi interceptado pela agilidade de Sirius, que sem saber exatamente o que fazia, apenas se colocou entre ele e o amigo, apontando sua varinha de forma protetora. Sua mão tremia graças à inexperiência, mas ainda assim algo imperioso e desconhecido o dominava por dentro, lhe dando a coragem para fazer o que fazia.
Inexplicavelmente, algum tipo de feitiço acabou sendo atiçado pelo cérebro do violento Sirius: seu oponente foi atingido por um jorro forte de luz azul que o lançou para trás com tanta violência que Remo se viu obrigado a rolar para o lado para escapar do corpo que zuniu até ele e deu de encontro com a parede.
Todos olharam espantados para Sirius, que por sua vez olhava com um espanto ainda maior para sua varinha. O outro, nocauteado, agora gemia com a cara colada ao chão, murmurando algo sobre ter quebrado o nariz. Tiago, baseado no sucesso de Sirius, decidiu erguer sua varinha com confiança e determinação, o que deixou seus rivais mais velhos apavorados:
— Que tal você e seus babuínos adestrados darem o fora daqui antes que a gente arrebente o nariz de todo mundo? —ele determinou. Um sorrisinho puxava o canto de seus lábios para cima, demonstrando tudo aquilo que, no futuro, o tornaria um grande, popular e admirado estudante. Os olhos de Sirius, que graças ao ataque acidental agora passavam muito mais respeito, faiscavam por detrás de fios elegantes de cabelos negros que lhe caíam sobre a testa.
Coragem, na prática, não era uma virtude dos alunos de Sonserina. Assim, sibilando ofensas e futuras ameaças, o bando por fim se afastou, carregando um inválido que agora tentava conter o sangue que escorria de suas narinas.
Tiago e Sirius, pela primeira vez, sentiram o sabor merecido da vitória. Diante daquela primeira demonstração de liderança, os dois começaram a gargalhar, a se congratularem, a se aplaudirem. Remo os observava com um silêncio agradecido e ao mesmo tempo tímido, receoso.
Era a primeira vez que recebia simpatia de crianças da sua idade. Ele afinal de contas sabia que era uma anomalia. Um monstro. Os outros dois podiam ser bruxos como ele, mas ninguém ali além dele se transformava em um terrível lobisomem nas luas cheias.
Trêmulo, teve a estranha sensação de que seus pensamentos emanavam dele, flutuavam no ar, tornando-se audíveis. Assim, com medo que os garotos o ouvissem, adivinhassem, ou até mesmo constatassem o que ele refletia, foi se erguendo e furtivamente se afastando, até que Sirius notou aquela fuga e o interrompeu:
—Ei! Aonde é que você vai?
Remo estancou pálido, temendo olhar para Sirius e lhe dar mais um motivo para iniciar uma nova chacota, uma nova brincadeira humilhante.
— Ah, desculpe a grosseria do Sirius aqui, é que ele está muito empolgado com o feitiço que acabou conjurando sem querer... — Tiago interrompeu, eufórico mas menos assustador do que Black.
—Não foi sem querer! —protestou Sirius, cruzando os braços. —Eu tinha tudo sob controle, ok?
—Claro que tinha. —zombou Tiago.
—Ei, eu não estou gostando desse seu tom sarcástico...
Remo aproveitou o fato de os dois estarem novamente entretidos com algo para ensaiar outra saída discreta, quando Tiago o chamou mais uma vez:
—A propósito, nunca tivemos oportunidade de nos conhecermos melhor. — prosseguiu, agora cutucando o outro ao seu lado. — Sabemos que você é um bom aluno, é bom com feitiços e tudo o mais, e já que dividimos o mesmo quarto pode andar com a gente se quiser.
— Ah... obrigado. — murmurou um corado Lupin. Completamente embaraçado com o convite, ele desviou os olhos de Tiago para Sirius— Acho que você conjurou um "Expeliarmus". — contou.
— Um o q...ah, sim! — pigarreou— É claro que conjurei! — Sirius deu de ombros. Remo sorriu para ele.
Ele agora, inexplicavelmente, tinha feito amigos. Pela primeira vez encontrou garotos que não se incomodavam com sua situação financeira, com sua aparência surrada, com suas manias de bom aluno e, mais tarde, o que foi bastante extraordinário, com sua licantropia. Tiago e Sirius o receberam de braços abertos, sem medo, sem delongas, sem restrições. Eles sempre estavam ali para ele, para fazê-lo se sentir normal, uma vez que era assim que eles o viam. Normal.
Fim do flashback
Remo tremia e suava frio, apoiando-se com as duas mãos na parede escorraçada à sua frente. A cabeça baixa permitia que os cabelos, já molhados pelo suor, escorressem para sua testa. Ele estava pálido, encurvado, sentindo com cada fibra de seu corpo a agonizante imagem da bola prateada, como sempre fez e como sempre faria. Remo havia sido mordido por Fenrir Greyback tão criança que já não se lembrava de como era não ser um lobisomem e não sentir as dolorosas transformações. A lua, que sem aviso surgiria no céu escuro que cobria todo o terreno da escola, poderia mostrar-se pela janela aberta a qualquer instante. Todo o seu corpo sabia disso.
—Aluado..?
A voz de Sirius fez Lupin virar-se assustado. Os amigos fitaram-se; um inquieto, o outro angustiado pela espera.
—Almofadinhas... se transforme, por favor.
—Espere. Tiago e Pedro estão... ah, aí estão eles.
Os outros dois marotos acabavam de chegar à Casa dos Gritos. Tiago batendo um pouquinho nas vestes que acabaram empoeiradas; Rabicho olhando furtivamente para todos os cantos do pequeno e imundo quartinho, como que procurando o melhor lugar para se esconder quando o lobisomem assumisse a forma de seu amigo:
—Falta... hum...muito?—perguntou numa voz fraquinha enquanto olhava Remo de soslaio. Este murmurou num tom vacilante entre a depressão e o sofrimento tanto físico quanto psicológico:
—Não muito... e-eu...
Parou de se arrastar nas palavras com um súbito soluço de dor. Tiago e Sirius se adiantaram para ele, o primeiro jogando a capa da invisibilidade na cama de qualquer jeito:
—Tente se acalmar...
Os dois marotos de cabelos negros tocaram cada um respectivos ombros de Lupin, que agora havia se contorcido para frente como se sentisse uma cólica brutal na barriga. Pedro, ainda distante, olhou para além da janela atrás do grupo com um ar de preocupação: a lua cheia começava a despontar por detrás de uma nuvem. Virou agora olhos amedrontados para Remo,que sumira com o rosto de tanto que se encurvara, permitindo apenas a visão de seus cabelos.
A transformação ainda era muito penosa para o jovem bruxo e não havia nada que se pudesse fazer além de observar. Ele começou a gemer, fechando os olhos com força graças às contrações súbitas dos músculos faciais. Tanto Tiago quanto Sirius se desencostaram dele ao sentirem ambos os ombros enrijecidos: Remo agora começava a perder o controle de si mesmo e, num último ganido humano, implorou:
—Se transformem! O que estão esper...ran...do?
Pettigrew obedeceu imediatamente e logo onde antes se estendia em pé um aluno gordo e baixinho estava um rato cinzento com o rabo anelado como uma minhoca. Mas os outros dois permaneceram num impasse:
—Não... você pode se machucar igual fez das outras vezes.— Tiago foi decidido até o outro, que contorcia-se em convulsões exaustivas em meio a ganidos horrendos.
—É isso mesmo! Eu e Tiago vamos fazer de tudo pra te segurar. —Sirius o abraçou meio que lutando para se aproximar, pois o amigo já não estava tão humano assim...
Suas costas começaram a se alargar. Dava para se ouvir sons pavorosos que se assemelhavam a ossos sendo partidos, rasgados e esticados como molas. Os sons ecoaram pelas quatro paredes do quartinho assustando Rabicho, que correu para embrenhar-se nas sombras do vão da cama. Tiago agora avançou para tentar conter um dos braços de Remo, que frustrado o ergueu para começar a arranhar o próprio rosto. O rapaz grunhiu, mas Tiago continuou a segurar seu pulso com firmeza.
Os gritos de Lupin iam, aos poucos, sofrendo mutações perceptíveis e se tornando cada vez mais animalescos. O estudante agora içou o tronco para trás, sendo amparado por Sirius. Era seu peito que se transformava e ele sentia isso com cada um de seus nervos. A pele parecia pouca para o tamanho do novo esqueleto do jovem bruxo. Era como se o animal das luas cheias que vivia dentro de Lupin estivesse vestindo uma roupinha apertada demais e precisasse lutar por mais espaço. Mas a "roupa" era o limitado corpo de Remo, que tinha consciência, que sofria enquanto era rasgado pelo lobo.
Suas vestes escolares também foram cedendo; os fios e tiras despregando-se e caindo ao chão após perderem na luta contra o lobisomem, que crescia irracionalmente. Dava para ver o corpo peludo, grotesco, ossudo e selvagem dilacerando carne, ossos e músculos. Lupin urrava, suava e se debatia durante cada perca de si mesmo... Sirius e Tiago tentavam, mas não conseguiam conter o animal de se arranhar e de se morder, agoniado.
Por fim a pupila dos olhos dilatou-se: a abertura central da íris adotou uma coloração amarelada, destruindo o mar de castanho dos olhos de Remo... Seu último resquício humano se esvaiu.
E agora, em quatro patas, ele uivou para a lua lamuriosamente. Sua silhueta bestial destacou-se com o fundo lunar, que brilhava além da janela aberta. O uivo ecoou pelo quartinho provavelmente chamando a atenção dos moradores de Hogsmead, que naquele momento lançaram olhares de pânico para a amaldiçoada Casa dos Gritos.
Tiago e Sirius transformaram-se imediatamente; o primeiro em Pontas, o segundo em Almofadinhas. Rabicho, ao ver que a barra estava limpa, saiu rastejando-se para fora de seu esconderijo. Andava rente ao chão. Pontas trotou até o lobisomem, que agora estava resumido a ganidos. O cachorro negro também foi até ele. Olharam-se. Os focinhos se farejando. Olhos amarelos nos olhos pretos. Lobo e cão se inspecionando.
Subitamente, Sirius deu um latido forte. Estava apenas exclamando o fim de todo o clima de tensão, anunciando que Remo não os atacaria... Com o rabo abanando, provou para Pontas que Aluado estava relaxado agora por reconhecer que estavam juntos.
O cervo castanho pareceu sorrir com o movimento do belo pescoço, o balançar das orelhas empinadas e o raspar do casco no assoalho. Seu rabo emplumou-se enquanto ele saltou baixinho para a saída daquele lugar, guiando o grupo de animais para fora.O cão trocou olhares caninos com o lobisomem, que agora lambia um ferimento que fizera em si mesmo, na pata dianteira. O ratinho por sua vez correu apressado para o meio das patas fortes do negro Almofadinhas.
Minutos depois o estranho cortejo quadrúpede ressurgiu na neblina da noite, abandonando o Salgueiro Lutador, a Casa dos Gritos... e a segurança de seu segredo.
"Não pare".
Os passos afobados a levavam para longe dali, ressonando no corredor empoeirado, nas escadas tortas já comidas pelo musgo e no túnel terroso preenchido por galhos, pedras e um ou outro pedaço do que seria um corrimão de madeira. O coração palpitava desenfreado, combinando a necessidade do bombeamento de sangue à agonia do medo crescente. Lupin e seus urros iam ficando para trás, assim como aquela cena tão intragável quanto irreal...
"Não pare".
A correria era acompanhada por soluços de choro. As pernas iam levando o corpo arfante para a saída, para o ar livre, e de lá para a segurança do castelo. As narinas vermelhas dilataram-se quando sentiram novamente o ar fresco da noite, por sua vez banhada pelo prateado e redondo luar.
"Não olhe pra trás!"
As pernas iam se esticando para encurtar o caminho enquanto as mãos tentavam afastar os cabelos que tamborilavam na frente dos olhos encharcados. Sua mente parecia enevoada, seus joelhos e fôlego vacilavam, mas mesmo assim a última ordem que era transmitida pelo cérebro era a de correr. Ela não podia parar de correr: se sentia fraca, mas era persistente... Queria fugir, esquecer, fingir não saber de nada, acreditar que não vira nada...
"Não olhe pra trás!"
Por isso ia em frente, em movimentos trôpegos. Nem notou quando uma ponta de sua saia prendeu-se num galho seco que despontava de uma moita e, assim, foi rasgada com brutalidade. A entrada da escola ia se aproximando. Julie acabou atravessando em tempo recorde todo o terreno macabro sem se dar conta disso; afinal de contas não queria pensar em nada, não conseguia pensar em nada. Todo o seu corpo trabalhava com exaustão para digerir a cena revelada aquela noite...
"Continue..."
Pensou ela depois de saltar os degraus de entrada da escola. Abriu a porta de carvalho com uma força incomum; passou pela brecha que abriu evitando ouvir o som medonho... Um uivo triste, longo e prolongado que cortou a escuridão da noite para lembrá-la da verdade...
E foi como um ponto final para a sua aventura: Julie fechou a Porta Principal e escorregou até o chão, trêmula, tapando os ouvidos e tentando evitar não processar aquilo, tentando acalmar o coração que batucava a ponto de doer. O uivo parecia chamá-la de volta, mas ela não queria voltar.
—Lily... por Deus Lily, acorda!
A ruiva gemeu num misto de preguiça, relutância e sonolência. Ainda com as pálpebras pregadas uma na outra murmurou um "Quié?" irritado, que foi respondido com mais puxões, sacolejadas e tapinhas no rosto:
—Sou eu!—contava a impaciente garota— Você vai saber o que é... acorde!
—Espero que seja importante... — a ruivinha foi se sentando na cama como se estivesse lutando contra uma força invisível que a puxava para baixo. Bocejou, esfregou os olhos verdes e só então os ergueu para Julie:
—Nossa, como você está pálida! Parece a Murta-que-Geme!
A outra, além do rosto de defunto, tinha também a pele fria e as mãos trêmulas. Pousara sobre a cabeceira da cama de Lilian uma vela, já que não tivera nem sequer forças para lembrar-se do feitiço Lumus. Evans, ainda a fitando com ar amedrontado, indagou:
—O que aconteceu? Teve um pesadelo?
—Eu queria tanto que tivesse sido um pesadelo, Lily... só um pesadelo...
A súplica da outra trouxe consigo tanta dor que Lilian se compadeceu imediatamente. Ergueu-se silenciosamente, enfiou os pesinhos num par de pantufas e, com um dos dedos nos lábios e os outros na mão de Julie, sussurrou:
—Venha. Vamos descer pra não acordar as outras.
Levou a amiga escada a baixo, alojou-a em uma poltrona e puxou uma cadeira para posicionar-se em frente à perturbada companheira. Estavam próximas de uma janela, para que assim pudessem se enxergar à luz da lua e das estrelas. A claridade permitiu que Lilian notasse com mais precisão o aspecto de Cabbot:
—Você ainda está de uniforme!— observou. Julie não falava. Seu olhar castanho estava perdido no carpete do salão. — E seus sapatos cheios de terra... oh!Você rasgou sua saia, Julie!
—Estive nos terrenos. –contou a outra laconicamente, num tom rápido mas nem por isso menos aturdido.
—E fazendo o que?—Lilian ficava cada vez mais preocupada. Julie arrumou um cacho atrás da orelha, suspirou e voltou o olhar inebriado para a janela, incapaz de encarar a amiga. Lilian agora fitava sua expressão de puro desamparo através do reflexo no vidro.
— Eu estava tentando descobrir a verdade sobre... uma coisa. – a voz foi baixa e pouco consistente. A dona dos olhos verde esmeralda não se conteve:
—Que coisa?
—É uma longa história, Lil.
—E você me acordou pra me contar toda ela. —apressava Evans.
—Eu queria desabafar com alguém... —Julie engoliu em seco— Mas agora não tenho coragem...
Lilian inclinou-se para puxar as mãos de Julie , que torcia a barra do colete. Com o toque, ela se viu obrigada a voltar os olhos para a ruivinha insistente, que pediu com a voz mais amável possível:
— Coragem? Eu nem sabia que era necessário ter coragem para contar algo a uma amiga!
—Lilian... — Julie retirou suas mãos para poder puxar e abraçar uma almofada. — O Remo. — disparou em seguida, agora abraçando a almofada ainda mais apertada— Você se lembra de ter topado com ele em alguma noite de Lua-cheia?
—Acho que sim, várias vezes!—Lilian começava a desconfiar se o cérebro de Julie estava pifado— E você acha que eu vou ficar reparando como a lua está cada vez que topo com o Lupin no meio da escola?
—Você nunca notou o número de vezes que ele fica desaparecido?—a outra perguntou com uma nítida entonação de incredulidade— Nunca reparou que ele é recordista em doenças aqui em Hogwarts? E que esses sumiços duram em torno de uma semana, e que...
—Bom, não... — Lilian deu de ombros— E o que quer dizer com isso?
—Mas é tão óbvio!— Julie se atirou contra poltrona, chocada com a lentidão das conclusões de Lilian: será que era tão difícil assim juntar Remo com lobisomens? Lilian, por alguma razão, parecia bloqueada para chegar a este tipo de raciocínio. Julie recomeçou a dar explicações, agora sendo mais clara:
—Bem, como eu sou a namorada dele não pude deixar de reparar nessa doença misteriosa que o assolava uma vez por mês. Ele, é claro, sempre vinha cheio de desculpas, que de início foram muito bem engolidas por mim. Conseguia escapar das minhas indagações todas as vezes, até que um dia a ficha caiu...mas como nunca ninguém tinha reparado?
—Vai logo ao ponto!— Evans mordia-se de curiosidade. Julie se apressou:
—Eu fui checar minhas teorias: estudei um pouquinho sobre lobisomens e acompanhei os períodos lunares com meticulosidade. – ela olhava para Lilian até então, que começava a respirar rápido graças à verdade que começava a aflorar a cada palavra dita. Uma sombra passou pelo par de olhos castanhos de Julie, que finalmente terminou com certo pesar— Não foi difícil concluir que meu namorado nunca estava presente nas semanas de Lua cheia. Foi mais fácil ainda associar seu aspecto aos descritos no livro: palidez, ar doentio, febre, insônia, até mesmo a melhora na qualidade dos sentidos de olfato, audição e visão nos chamados "períodos perigosos".
—Você quer dizer que... — a ruiva balbuciou, incapaz de expressar-se com exatidão.
—É sim...— o tom de voz de Julie estava fatigado— Ele é um lobisomem.
Lilian estava estupefata. Não podia ser verdade, simplesmente não podia... ou Julie tinha enlouquecido ou apenas tirara conclusões erradas. No entanto...
—Não pode ser!
—Eu o segui essa noite. —ia falando Julie, seus olhos vidrados contornando todo o salão comunal em busca de apoio para as palavras, pois ela se lembrava nitidamente do início dos urros, da agonia da transformação...Se lembrava do corpo do rapaz se contorcendo de modo indomável e então se lembrava de ter soluçado por detrás da porta, de ter atravessado a Casa dos Gritos antes mesmo de concluída a cena horrenda. Os lábios tremiam quando ela voltou a falar— É verdade... E ele estava sofrendo tanto... não pude aguentar e saí correndo!
Lilian esticou-se para abraçá-la. Agora ambas começaram a chorar silenciosamente:
—E você viu a transformação?—soluçou a ruiva, perplexa.
—Só o começo... é horrível!—ganiu Julie.
O abraço se intensificou. Lilian agora perguntava numa voz rouca, ainda amparando a outra e se deixando amparar:
—O professor Dumbledore deve saber de tudo isso, não é?
—Com certeza...Madame Pomfrey acompanhou o Remo para fora do castelo. — Julie afundou o rosto nos cabelos ruivos da amiga— Todo esses anos...tudo planejado...e ninguém sabia...
—A não ser Dumbledore...—choramingava também Lilian.
Julie ,por sua vez, arregalou os olhos: os marotos! Como ela pôde se esquecer deles? Não era apenas o digníssimo diretor o conhecedor daquele triste fato, mas também os marotos! Ela os vira entrar na árvore, carregar uma capa da invisibilidade e até mesmo chegar até Lupin para contê-lo!
Foi então que se lembrou do estranho pergaminho que encontrara naquela mesma noite...apalpou os bolsos para poder senti-lo. Sim, o mapa da escola ainda estava em seu poder, assim como estavam também o maior dos mistérios do quarteto... Ela agora sabia sobre Remo, sobre o mapa, sobre a capa.
A única coisa que não teve tempo de ver foi a animagia. Julie não se conteve na Casa dos Gritos ao ponto de ver Tiago e Sirius se transformarem. Tudo o que viu foi apenas um rato adestrado apertar o nó da árvore e, depois, seguir o grupo para dentro do túnel. É verdade que não se lembrava muito bem de Pedro Pettigrew quando pensava nesses momentos, mas estava tão confusa, tão soterrada por descobertas que sentia a cabeça formigar. Lilian desprendeu-se do abraço com o rosto lavado em lágrimas.
Três pares de olhos pregavam-se num desacordado, apático e ferido Lupin. Eram três pares de olhos exaustos e emoldurados por olheiras; um castanho esverdeado, um cinzento, outro azul escuro. Tiago Potter, Sirius Black e Pedro Pettigrew tinham passado mais uma noite em claro, aprontando por todo o povoado de Hogsmead em sua forma animaga.
O relógio pendurado na parede dos fundos indicava cinco horas da manhã, horário totalmente desencorajador para qualquer aluno... Mas o que eram cinco horas da matina para quem não havia pregado o olho?
—Seus moleques... —resmungava madame Pomfrey, saltitando como um pinguim apressado atrás dos marotos, incapaz de fitar seu paciente. — Assim que ele acordar quero os três fora daqui. — as últimas duas palavras foram quase cuspidas tamanho era o incômodo da enfermeira.
Sirius, voltado para Remo e de costas para Papoula, fez uma careta idêntica às expressões perturbadas da mulher sem que fosse interceptado por algum puxão de orelha. Ele a imitava com perfeição, mas mudo. Essa gozação silenciosa obrigou Tiago e Pedro a morderem os lábios para não parecerem idiotas rindo à toa.
—Há seis anos eu os aturo nessa enfermaria... — ralhava a medi-bruxa— E fazendo o quê? Absolutamente nada! Apenas me atrapalhando... E esse Potter, que me aparece mutilado depois de todas as partidas de Quadribol dessa escola? Vocês não deviam estar estudando ou algo assim?
—Puxa madame Pomfrey...—interrompeu Sirius, finalmente parando com as gracinhas e se virando para a mulher uniformizada— Sabia que seu primeiro nome, "Papoula", é o nome de uma flor?
Ela piscou umas três vezes, sem entender aonde ele queria chegar. Cessou sua leva de reclamações e assumiu uma expressão ressabiada, subitamente atenta.
— E você realmente está linda hoje!— prosseguiu Sirius. Madame Pomfrey abriu a boca agora com mais incredulidade do que com raiva. Tiago e Pedro deram de ombros. — Sem contar que sua dedicação para com o meu amigo é realmente admirável!
As bochechas gordinhas da bruxa coraram. O rapaz moreno sorria brilhantemente para ela, enquanto os outros dois franziam as sobrancelhas apalermados. Ambos cheiravam uma conspiração digna de Almofadinhas por detrás daqueles falsos elogios.
—Ora, quê isso meu jovem Black...— pigarreou Papoula finalmente.— Eu só estou fazendo o meu trabalho.
—Não seja modesta, madame!—Sirius tornou sua expressão, se possível, ainda mais amável.—Uma flor como a senhora faz muito mais do que seu trabalho numa escola perigosa como essa... — e então Sirius subitamente recolheu uma das mãos gordinhas da enfermeira, que estava pasmada demais para reagir. — Muito obrigado por todo o seu trabalho. — e ele finalizou inclinando-se e beijando as costas da mão de Pomfrey, de maneira cavalheiresca e bastante respeitosa.
Enquanto a mulher se avermelhava, Remo agora se mexia na cama mostrando sinais de consciência. Todos os presentes se voltaram para ele, inclusive a enfermeira, que balbuciou:
—Creio que fará até bem para o paciente um breve encontro com os amigos.— e piscando de lado para Sirius, que ainda a olhava admirado, disse—Vou deixá-los a sós.
Os olhos risonhos de Tiago acompanharam os passinhos apressados que levaram Madame Pomfrey para detrás da cortina do quartinho branco e limpo da enfermaria. Ela se foi, permitindo que Sirius assumisse novamente aquela sua característica expressão brejeira. Pontas balançou a cabeça:
—Que golpe baixo, Almofadinhas...
—E eu estava só ensaiando, meu caro Pontas!—contou o outro empurrando uma parte da cortina que atrapalhava sua visão, rolando-a para o lado na cama de dossel onde descansava Aluado.— Ia preparar o terreno para dar o melhor de mim, mas ela facilitou as coisas tão rapidamente!
—Sabe com quem você parece?— comentou Pedro, entortando a cabeça para ver o sorriso branco de Sirius de um ângulo diferente. — Aquele tal de Dom Juan.
O maroto adoecido, que até aquele momento estivera apenas gemendo e rolando no colchão, abria os olhos lentamente. Os outros o saudaram:
—Bom dia, Aluado!
—Estava sonhando com nossas aventuras de ontem, não?
O lobisomem esfregou os olhos fundos, ajeitou-se sentado na cama e ganiu suas primeiras palavras humanas:
—Oh...não quero nem imaginar o que vocês me fizeram fazer ontem a noite!
Tiago e Sirius trocaram sorrisos traquinas. O terceiro e roliço maroto guinchou:
—Na verdade você fez bastante coisa por livre e espontânea vontade!— e agora, voltando-se para os outros dois animagos— Hei! Vocês se lembram da cara daquele açougueiro?
Almofadinhas latiu em gargalhadas:
—Cara, ele ficou irado quando eu e o Aluado abocanhamos e arrastamos aquela montanha de carne pra longe!
—E quando a gente espantou todas as galinhas do quintal daquela velhinha? Nossa, o vizinho dela foi atrás da gente brandindo a espingarda!— acrescentou Tiago, espalmando as mãos de alegria. Remo ouvia tudo de olhos arregalados, abraçado aos joelhos, pálido e com expressão de cético. Seus amigos continuavam a resumir as aventuras:
—O melhor foi quando aquela cadelinha, amarrada nos fundos de uma casa, ficou toda assanhada quando viu o Almofadinhas!—Sirius lançou a Pontas uma careta assassina com a lembrança:
—Quer jogar sujo, Tiago? Okey, e aquela vez que aquela unicórnio fêmea chegou perto de você e...
— Se restrinja aos fatos de ontem, Sirius.— cortou Tiago imediatamente, agora um pouco vermelho.
Remo, subitamente, levou as mãos à testa:
—Minha cabeça dói...
A reclamação trouxe uma eclosão de risadas dos outros marotos. Lupin ficou tão aturdido que chegou a se arrepender do comentário.
—E não era pra menos...—Pontas foi o primeiro a comentar o incidente.— Você levou uma pancada fenomenal na cabeça!
—Ah, é?— Remo agora procurava um galo no meio dos cabelos castanhos— E de quem?
—Da velha coroa dona das galinhas... Ah, e falando nisso acho melhor você não almoçar frango hoje!— Sirius provocou no amigo uma sensação de enjoou com aquelas palavras; Lupin pareceu ficar verde.
—E vocês me deixaram fazer isso?!
—Pior foi o Rabicho que fuçou o lixo dos outros e acabou comendo um queijo bastante suspeito!—riu o rapaz de óculos redondos, arrancando protestos do rato:
—Não tinha ópio no meu queijo,Tiago!
—O quê?— Remo agora se sentia enjoado com as revelações —Oh...acho que vou desmaiar!
—De novo?—exclamou Sirius, descrente —Você desmaiou hoje de manhã logo depois de se transformar de volta...
—Vai ver foi a galinha...—comentou Tiago.
—É verdade! É isso que dá comer alimento cru!—Sirius finalizou.
A responsável pela saúde e integridade física dos aprendizes de bruxo retornou minutos depois, trazendo nas mãozinhas abeis um frasco de remédio e uma colher. Enquanto ziguezagueava pelas arrumadas camas de dossel, ia dizendo:
— Podem ir agora rapazes, preciso tratar do senhor Lupin. Ele tem que estar bem fortinho para enfrentar toda essa semana, por isso: chispando!— o meigo tratamento dado por Sirius um tempinho antes parecia não mais surtir efeito na mulher, que novamente assumia seu ar autoritário. Por isso, com um olhar de "nos vemos depois" Tiago deu as costas para o amigo monitor, assim como fez Rabicho logo em seguida. Sirius, antes de se retirar, inclinou-se na direção do ouvido de Remo para sussurrar:
— Me desculpe.
Lupin estremeceu, mas assentiu em meio a uma pergunta indecisa:
—Pelo quê?
—Eu tive que te dar umas mordidas ontem... Para impedir que você fosse pra cima da bruxa dona das galinhas.
—Ah. — o jovem empalideceu ainda mais. Em seguida segurou e apertou um dos braços de Sirius, de maneira compreensiva— Você sabe que não tem problema e que é pra isso que me acompanha. Espero também não ter te machucado.
—Vê se melhora, Aluado. — finalizou Sirius piscando e sorrindo para ele, evitando maiores detalhes.
Ao sair da enfermaria, encontrou um impaciente Tiago e um sonolento Pedro do lado de fora, ambos encostados na parede de pedra e quase escorregando para baixo.
—Não sei quanto a vocês, mas eu me sinto um caco! — disse se espreguiçando.
—Olhe pra minha cara, Almofadinhas!—o outro maroto retirou os óculos para mostrar globos oculares completamente vermelhos. — Se eu não pregar os olhos acho que capoto!
Rabicho bocejou:
—É, mas nós precisaaaaaaaaaamos tomar café da manhã! Meu estômago está oco!—e deu tapinhas na sua barriga de chope, que obrigava a blusa do uniforme de Hogwarts a quase estourar seus botões para tentar se manter.
—Sem contar que temos aulas de revisão para as provas. — lembrou Tiago enquanto esfregava os olhos cansados, passando os dedos por debaixo das lentes. — Não que eu precise delas, mas o Remo vai querer umas anotações...
Sirius também tentava manter-se acordado com muito esforço. O maroto estava com uma cara amassada e voz rouca dignas de cinco e meia da manhã:
—Uahhh...—bocejou, exausto— Vocês querem saber de uma coisa? Nós devíamos era aproveitar que o Remo não está aqui pra pegar no nosso pé, cabular todas as aulas de hoje e dormir o dia inteiro!
Apenas o soar da frase "dormir o dia inteiro" acabou provocando um sorriso bobo no rosto de Pedro e um aceno de cabeça de Tiago, que só não concordou euforicamente porque já estava entrando num estado de sonambulismo.
—Mas Sirius...— Potter por fim murmurou, num tom infeliz —Nós não podemos. Quer dizer, sim, claro que podemos, mas... Ah cara, nós temos que falar logo com Dumbledore sobre... aquilo.
O uso do termo secreto "aquilo" fora escolhido, obviamente, para não chamar a atenção de Pedro, que ainda não sabia sobre a carta que Sirius havia recebido. Afinal de contas, se o histérico Rabicho ou o preocupado Remo tomassem conhecimento da carta enviada pelos Black teriam, com certeza, tido ataques. O próprio Tiago não conseguia suportar a ideia de ter de se afastar de Almofadinhas... Seria como perder um pedaço de si mesmo. Tiago só sossegaria depois de falar com o diretor e implorar para que ele não permitisse a transferência de Sirius para Durmstrang; aquilo estava totalmente fora de cogitação!
—Ok, Pontas. — Almofadinhas deu de ombros— Então vamos logo desencostar dessa parede, senão eu durmo!
—Boa.—Rabicho foi o primeiro a se por de pé— Vamos tomar café da manhã!
—Ainda não foi servido. — lembrou Tiago, bagunçando os cabelos com uma das mãos distraidamente.
—Então vamos, ou melhor, o Rabicho vai procurar e achar o Mapa do Maroto que ele largou lá no Salão Comunal a noite passada, não vai?— num estalo Sirius lembrou-se do descuido inaceitável de Pettigrew, que parecia até mesmo ter se esquecido do incidente. Foi rosnando que Sirius lhe fez a intimação, a qual Rabicho respondeu encolhendo-se todo.
— Então te vemos no Salão Principal, bolota!— avisou Tiago ao ver o baixinho sair aos trotes assustados. Depois, com um sorrisinho perverso que levava consigo um quê de piedade, comentou— Ele não vai conseguir. Perder é fácil, mas encontrar...e você sabe como ele é!
—Sei.— argumentou o outro, rancoroso— É uma anta desmiolada! Um inútil!
—Mas todo o grupo precisa ter um capacho, né?— Pontas finalizou o assunto, disparando logo em seguida —Vamos falar com o Dumbie agora?
—Você acha que ele está acordado há essa hora?
—Ah, ele é um velhinho bem vigoroso... não vai se importar em ser acordado,caso ainda não estiver. — deduziu o maroto. Sirius, despreocupado, concordou sem mais delongas:
—Então vamos!
Caminharam ombro a ombro, cortando caminhos e atravessando passagens que só eles conheciam. Andavam trôpegos de sono e, vez por outra, os ombros de Tiago roçavam os de Sirius, que o empurrava para frente evitando que os dois tombassem no chão. Quando já estavam se aproximando, suspirou:
—Sabe Tiago, desde que eu fugi de casa...
—Foi a melhor coisa que já fez na vida!
—É eu sei!—sorriu Sirius— Enfim... Desde então eu nunca pensei que minha família iria me procurar novamente para manter contato, ou pior ainda: que fossem me querer de volta! Pensei que se eu desistisse deles eles também desistiriam de mim.
—Eu também pensei. – Tiago deu um suspiro deprimido. Não falaram mais nada até alcançarem a gárgula que, como uma sentinela, guardava a entrada para o escritório do diretor.
—Qual será a senha dessa vez, Pontas?
— Sei lá... não é "Escudo dourado"?
—Essa é a senha da Grifinória, cabeção!
—Ok, então você e sua cabeça pequena sabem qual é?
—Se soubesse não teria perguntado. –sorriu um triunfante Sirius.
E o problema ficou sem solução. Enquanto Tiago coçava os cabelos, pensativo, Almofadinhas exclamou, totalmente impaciente:
—Vamos explodir isso logo! Que tal um "Bombarda"?!
Tiago arregalou os olhos para ele; assombrado. Explodir a entrada para o escritório do diretor? Aquilo era um ato de vandalismo que certamente renderia um semestre inteiro de detenções. Sirius tentou amenizar sua proposta:
—A gente concerta depois, Pontas!
—Bem, ok...você primeiro...—Tiago parecia apreensivo.
—Tá bom.— Sirius pigarreou,concentrou-se, firmou os dedos ao redor de sua varinha e...
—Bom dia, garotos!
—AHH!
A voz feminina que surgiu subitamente por detrás dos marotos foi o suficiente para dar-lhes um susto daqueles. Sirius soltou a varinha, Tiago sentiu o coração dar um pulo de alarme. A ruiva calou-se imediatamente com as reações inesperadas dos dois rapazes,que agora a fitavam arfantes.
—Oh... Evans!—a voz de Tiago ficou imediatamente mais grave. Suas cordas vocais protestaram, enquanto Sirius já revirava os olhos.
—Potter, se acalme, você já está ficando roxo.— Lily disse quase com tédio transparecendo no olhar verde. Sirius deu um ronco mal disfarçado de risada enquanto o sorriso de Tiago murchou. — E afinal de contas o que vocês estão fazendo aqui há essa hora?
—Deus ajuda quem cedo madruga, Evans!—recitou Almofadinhas, perdendo seus resquícios de gargalhada quando teve o olhar risonho interceptado pelo olhar duro da ruiva. — E você?
—Eu sempre acordo cedo, Black.—mentiu ela. A verdade era que, desde que fora sacudida por Julie durante a noite, não conseguira mais pregar o olho. Chorou umas boas duas horas com a amiga ao seu lado e, depois de vê-la adormecer no sofá de Grifinória, teve de tentar levá-la escadas acima sem grande sucesso.
Também tentou cochilar, mas a revelação sobre o lobisomem dominou sua cabeça de tal forma que a única imagem que ela via ao fechar os olhos era a da Lua cheia... E então, quando despertava novamente, deparava-se com Julie rolando ao seu lado. Dominada pela insônia, Lily acabou observando o dia raiar, as estrelas se recolherem e o tom do céu mesclar-se de cinza e azul claro.
Ela tinha começado a vagar pelos corredores do castelo, pensando sobre ir ou não procurar Lupin (que devia estar na enfermaria), quando cruzou com os marotos rondando a gárgula de Dumbledore de maneira bastante suspeita.
—Lily meu docinho, você saberia nos dizer qual é a senha para chegar até o diretor?—Tiago, ainda com o peito estufado, dirigiu-se a ela pateticamente meigo. A grifinória deu risada:
— Meu docinho?—repetiu com desdém. Tiago deu de ombros.
—Tenho culpa se você é a garota mais maravilhosa dessa escola?
—Pare com isso...—alertou ela, quase achando graça— Mas afinal de contas, o que é que vocês querem falar com Dumbledore antes das seis horas da manhã?
—São coisas meio urgentes. —devolveu Sirius, misterioso. Tiago ficou inibido: pensava que seria maltratado novamente apenas por estar dirigindo a palavra a Lily,que respondeu numa voz resoluta:
—Mas vocês não vão fazer ele perder o tempo dele, vão?—ela parecia hesitar em ajudá-los.
—Claro que não.—os dois responderam em coro, um sorrindo e o outro tentando.
Lily os avaliou; a expressão meio glacial detendo-se em Tiago, que a encarava desapontado. Algo trespassou os olhos da ruiva, que finalmente se convenceu:
—Se aprontarem alguma a professora Minerva vai capar vocês!— eles gargalharam, concordando sem se intimidar. E então menos séria, ela contou sem receios— A senha é Godric Griffindor!
Mal a jovem pronunciou tais palavras e a estátua carrancuda girou, revelando e oferecendo as escadarias de pedra. Tiago e Sirius se entreolharam espantados:
—Como você sabia?
—Ora essa...—e ela imitou a expressão característica dos marotos, toda brejeira.—Ser uma boa menina tem lá suas vantagens...
Os dois assistiram os passinhos lascivos de Lily levarem-na embora corredor a fora, um tanto surpresos. Tiago, afogueado, murmurou:
—Ela é tão...
—Sexy!
—Sirius!—os olhos de Tiago se voltaram faiscantes de ciúmes.
— Ah, me desculpe, eu esqueci com quem estava falando!— e o rapaz se dirigiu finalmente para as escadas sempre tão bem escondidas, apressando o passo.— Vamos logo, Romeu!
Mas a atenção de Tiago ainda estava presa no final do corredor por onde a ultima essência de Lily passara. Ele parecia hipnotizado. Sirius, resmungando para si mesmo um "que mané!" foi buscar o abobalhado amigo, puxando-o pelo braço impacientemente. Pontas se deixou levar, tropeçando.
—Vou pedir pro Dumbledore transferir é a Evans dessa escola, porque eu simplesmente não aguento mais essa sua cara de parvo!
Fineus Nigellus não esperava companhia àquela hora da manhã. Acabrunhado, desencostou-se de sua moldura e espreguiçou-se longamente. Depois, empertigando-se como se ainda fosse feito de carne e não de tinta, jogou sua sonolenta e ainda assim imponente atenção para a porta que acabava de se abrir:
—Pelas barbas de Netuno! O que fazem aqui?
—Olá Vovô! – Sirius o cumprimentou tomado por um sorrisinho cínico. O retrato do ex-diretor da escola contorceu o rosto velho:
—Mais respeito, rapaz!— o tetravô de Sirius estava extremamente incomodado, o que era facilmente perceptível no seu olhar, expressão carrancuda e tom de voz. – Sei muito bem que você, oh vermezinho sem escrúpulos, abandonou nossa nobre casa e deu as costas à nossa digníssima família por razões pouquíssimo atraentes. O que diriam seus velhos ancestrais caso soubessem disso, sua criaturinha ingrata?
—Bem, você é um deles. Acho que sua opinião é válida. —bocejou Sirius, sem interesse. Tiago sorriu para ele discretamente. Fineus produziu alguns resmungos em resposta, antes de indagar rispidamente:
—Mas o que fazem aqui afinal de contas?—desviou a atenção agora para Tiago, pois já não suportava olhar para seu intragável parente de semblante zombeteiro.
— Queremos falar com Dumbledore.—Pontas foi direto. Não gostava muito de prolongar diálogos com quadros, muito menos quando estes retratavam indivíduos tão mesquinhos como era aquele Black.
—O diretor não deve ser incomodado. —recitou a pintura humana, friamente.
—Não será incômodo algum, Nigellus!
Os três indivíduos sobressaltaram-se com a voz mansa vinda do segundo andar do escritório: era Alvos, dentro de um sobretudo longo de seda roxa, que ia arrastando sua longa calda pelos degraus na medida em que ele descia, cauteloso. A barba branca ia balançando, batendo de encontro ao peito do bruxo. Um chapéu comprido e pontudo cobria o cocuruto da cabecinha pálida, que mirava o andar de baixo com certa satisfação. Uma das mãos de dedos compridos ia escorregando e apoiando-se no corrimão num toque suave. O diretor foi se aproximando calmamente, os oclinhos de meia lua patinando sobre o nariz avantajado.
Os marotos o miraram agradecidos. O retrato do tetravô de Sirius, incomodamente barulhento, retirou-se passando de moldura em moldura até ir parar numa sala longe dali, não com o intuito de dar privacidade ao grupo que desejava conversar, mas sim pelo insulto que era ter de aturar a presença de Sirius, aquele rebelde adolescente que não honrava o próprio sobrenome.
—Caíram da cama, rapazes?—sorriu o professor dirigindo-se à sua escrivaninha, um tanto empolgado com a visita. Sentando-se para atendê-los, devidamente acomodado, sorriu.— Eu não esperava vê-los aqui tão cedo. Como passaram a noite?
—Bem...—Tiago trocou um olhar com o melhor amigo, que completou:
—Agitados.
—Entendo. – E Dumbledore inclinou os olhos, fazendo parecer que entendia muito mais do que demonstrava naquelas vagas palavras. Tiago e Sirius se perguntaram intimamente se o diretor sabia de suas aventuras na Lua cheia. Receosos, concluíram que não... Não seria impossível!
—Olhe professor, a coisa é que eu recebi essa carta...—Sirius enfiou a mão direita num de seus bolsos. Trouxe de dentro dele um bolinho deformado de papel amassado.— Erm...isso costumava ser uma carta até o Tiago ler, mas...
— NÃO DEIXE ELE MUDAR DE ESCOLA, PROFESSOR!— interrompeu Tiago com brusquidão, jogando-se sobre a mesa, apoiando-se com os braços e fitando o diretor nos olhos. O dono da barba prateada não fez nada a não ser sorrir.
—Tiago!—Sirius também sorriu.
—Deixe-me dar uma olhada, Sirius.—Dumbledore aceitou de bom grado a sucata de papel que o aluno estendeu para ele, acrescentando bondosamente—Sentem-se rapazes.
Duas cadeiras vieram zunindo até a escrivaninha, oferecendo lugares para os dois. Sem impressionarem-se com a personificação das cadeiras, os dois bruxos se sentaram inquietos. Os olhinhos miúdos de Dumbledore passeavam pelas letras da carta dos Black, que estava maltratada e surrada como um galo de briga. Era um desafio decifrar seu conteúdo, mas, por fim, Alvos completou a tarefa. Ergueu sua atenção brilhante para os jovens marotos logo em seguida:
—Meus rapazes, vocês não precisam se preocupar com uma bobagem dessas!—os dois ficaram aparvalhados. Queriam protestar, mas Alvos ainda não terminara.— Esta carta não veio do Largo Grimmauld.
—Como não?—engasgou-se Sirius. —Mas essa tranqueira tem a cara dos meus parentes, a essência deles, tudo!
—E fede como eles!—acrescentou Tiago, indignado. Alvos continuava sorrindo abestalhado, como se estivesse se deliciando com as exclamações eufóricas de seus alunos:
—Prestem atenção; Regulus Black voltou para casa.
—Mas e todo o resto?— insistiu Pontas.
— Todo o resto também é mentira. —reforçou o mestre— Eu tenho certeza de que os Black não se importam mais com Sirius... O remetente desta carta foi, com certeza, algum engraçadinho que conhece muito bem essa família...um íntimo por assim dizer. Ele, ou ela, usou todos os trejeitos dos Black apenas para se divertir um pouco com vocês dois, rapazes. Essa carta não passa de uma brincadeira.
Tiago e Sirius já iam sendo dominados por ondas de raiva. Vaidosos como eram, já sentiam a vingança aflorar furiosa em suas mentes.
—Tem... certeza,professor?—sibilou o jovem e desgarrado Black, os olhos cintilando por detrás de alguns fios de cabelo.
—Absoluta. – concluiu ele, tomado por um estado de espírito completamente reverso ao dos marotos: estava absolutamente calmo. – Há mais alguma coisa que queiram me dizer?
Pela primeira vez em todos aqueles seis anos, ambos confirmaram em coro um "Sim!" muito necessitado de aceitação. O diretor de Hogwarts pediu com um assentimento para que prosseguissem.
Pelas diversificadas janelas do escritório, raios amarelos de sol entravam animados, cintilando nos objetos de Alvos, nas penugens de uma adormecida Fawkes e nos traços jovens dos grifinórios. A luminosidade clara anunciava seis horas da manhã.
Sirius trabalhava a todo o vapor agora. O sono, a fadiga e até mesmo a angústia começavam a dar lugar a uma vontade elétrica de falar e pedir conselhos:
—Nós queríamos lhe contar sobre Julie, diretor. Nós sabemos quem matou os pais dela e porque, e como pegar o infeliz... tudo.
Pela primeira vez dês do início daquela conversa Dumbledore pareceu alterado. Remexeu-se em sua poltrona, perdeu o ar tranquilo, pigarreou antes de falar:
—Se expliquem melhor, sim?—estava incrivelmente abismado.
Sirius, então, fez um breve resumo de toda a história: explicou para o mago quem era John Cabbot, o que ele havia feito, como construíra seu caráter. Dumbledore era um melhor analista do psicológico das pessoas, é claro, e foi por isso que disse sem mais delongas um pensamento que explicava muito da história do ex sonserino:
—O homem torna-se velho muito rápido e sábio demasiado tarde.
Tiago, enquanto estralava os ossos doídos de suas costas, concordou.
Almofadinhas arqueou uma sobrancelha: acabara de perceber o quão situado o outro estava na trama e graças a isso foi mais direto:
—Então professor; certa vez ele foi ameaçado por um de seus ex-colegas... Eles o alarmaram para uma possível vingança, que não tardou a vir. O senhor sabia que no dia das bruxas, quando os pais da Julie foram assassinados, o avô dela estava na casa deles porque achou necessário vir até aqui para defendê-los? A Mary, a esposa trouxa, permaneceu na França.
—Então o senhor percebe...—Tiago acrescentou rapidamente— Que o alarme era mais um modo de incitar o homem a ir para a Inglaterra. Acho que os bruxos sabiam que as únicas pessoas que podiam ameaçar eram o filho e a neta, e sendo que esta última estava sob a sua proteção...
—Mataram o filho, mas na verdade...
— O senhor sabe que aquele imbecil do Karkaroff...
A dupla desandou a falar. Um interpolando o outro, foram acelerando o ritmo do relato com certa desordem e euforia, que foi carinhosamente corrigida por Dumbledore:
—Um de cada vez! Assim fica tudo muito confuso.
Tiago deu a vez para o amigo se explicar, se recostando na cadeira meio displicente:
—É o seguinte: descobrimos que o Karkarof ficou endividado com seus comparsas. Ele teve um deslize quando conjurou um feitiço muito estranho que eu, Tiago, Remo e Pedro tivemos a sorte de ver, no inicio do ano, lá na loja do senhor Olivaras. Vimos que um auror estava com a varinha de Karkarof, investigando o caso... se chamava alguma coisa Moody.
—Alastor Moody.— Dumbledore corrigiu paciente, compreensivo.—Continue meu rapaz.
—Mais tarde nos contaram que Igor Karkarof tinha se mudado para a Rússia, e logo pensamos que ele estava era querendo fugir das suspeitas que levantou aqui na Inglaterra. Mas fugir, como o senhor sabe, não é a melhor forma de deixar sua amizade com bruxos das trevas em "pratos limpos". Mesmo um covarde como ele precisava se redimir.
—Associamos então o crime com o Igor.—disparou Tiago, que não conseguia ficar quieto por muito tempo.— O velho Cabbot virou sinônimo de traição e rancor para esses bruxos, então fazê-lo sofrer seria algo certo de se fazer. Achamos que Karkarof quis experimentar, mas se ele estava na Rússia, como conseguiria matar um casal de trouxas que moravam na Inglaterra?
—E daí vem a ameaça que, consequentemente, trouxe John para a Inglaterra.—de forma mais organizada Sirius ia complementando os esclarecimentos do outro animago, que agora estava com a bola toda:
—Logo, ele usou John para executar o feitiço mortal.— pelos olhos de Alvos trespassou uma sombra penosa de melancólico assentimento. Os rapazes, que já haviam sofrido bastante com aquela revelação, ainda tinham mais provas para comprovarem a teoria:
—Quando estávamos pesquisando sobre quimeras descobrimos um texto muito interessante num dos livros de Artes das Trevas.— Sirius esforçava-se para lembrar o incidente com perfeição— Com certeza aquele livro chamou a atenção de alguém, pois tinha várias páginas arrancadas. Mesmo com algumas páginas faltando, nós pudemos concluir o conteúdo: falava sobre morte, diabo, feitiços antigos e maldições...
—Eu as conheço.— finalmente o sábio mago decidiu manifestar-se. Estava sério, rígido, impenetrável.—Cruciatos, ImperiuseAvada Kedavra...a grande maioria de nosso povo nunca ouviu falar delas, fato que não me intriga:elas são mais antigas do que qualquer bruxo vivo. São históricas. São, na verdade, um patrimônio do mundo mágico que devia ser esquecido para sempre...
Fawkes agora exercitava as asas. Empoleirada em um cantinho do escritório, deixava que a manhã morna invadisse seu espaço, que a despertasse com ternura. Todo o escritório tinha uma aparência viva, preenchido por tonalidades douradas da manhã que entrava pelas janelas e pelo observatório.
Uma brisa úmida brincou com os cabelos revoltos e muito negros do rapaz de olhos castanhos levemente esverdeados. O outro, de cabelos tão negros quanto o breu, lisos, displicentemente caídos, fitava Alvos com olhos que, misteriosos, revelavam íris negras puxando para o cinza.
Um breve silêncio reinou entre os bruxos.
—Achamos que John Cabbot assassinou o próprio filho e nora sob o feitiço da...hum...Imperius. –Tiago lançou um olhar desconcertado para Sirius, pedindo ajuda.
—É sim. Ele mesmo acabou admitindo, sem querer e sem saber.— o batedor grifinório não sabia se seria certo contar ao diretor sobre a poção Veritasserumque havia forçado o velho a beber.— Eu conversei com ele, sabe professor...ele me disse que se lembrava vagamente daquela noite. Parecia muito que estivera fora de si naquele momento; provavelmente enfeitiçado.
—Mas a questão é: como Karkarof enfeitiçou John?—dramatizou Tiago, mostrando um novo tópico a ser pensado. — Bem, ele provavelmente simulou uma ida a Rússia, mas, na verdade, permaneceu na Inglaterra, de forma que pudesse agir sem levantar suspeitas. Todos tinham certeza de que ele se exilara.
—E porque ele mesmo não matou os trouxas? Porque preferiu usar, por intermédio, o avô de Julie?—Sirius usou o mesmo método de Tiago para explicar sua teoria. Dumbledore prestava atenção respeitosamente. — Ora, Cabbot já estava dentro da casa. Não era um estranho, não chamaria a atenção de ninguém e, caso a tentativa de assassinato fosse interceptada por algum trouxa, ele é quem seria pego.
A rapidez com que os rapazes relatavam os fatos era tamanha que Alvos não pôde esconder um sorrisinho de admiração. Soergueu então seu longo chapéu pontudo para coçar a cabeça branca (que parecia formigar) e pigarreou:
—Bem garotos, acho que compreendo.
—E o que vai fazer professor?— Tiago inclinou-se para frente segurando os apoios de sua poltrona. —Vai alertar o Ministério? Prender Karkarof? Contar para o senhor Cabbot o que aconteceu?
—Acredito que o homem não vai apreciar essa revelação. — Alvos disse como se estivesse se colocando no lugar do velho.— Mesmo que inconscientemente, ele matou o próprio filho...mas sim, Karkarof certamente merece ser punido.
—Merece ser punido?—arfou Sirius.—Ele tem é que ir pra Azkaban!
—Com as devidas provas e julgamentos sim, ele irá. — o diretor de Hogwarts queria manter a justiça, mas achava pouco provável que aquele lerdo ministro da magia conseguisse provas suficientes para incriminar o jovem Igor. Ninguém sequer sabia da existênciada maldição Imperius!
—Sugiro agora que os senhores desçam para tomar o café da manhã. – Dumbledore encerrava com isso a conversa.— A geleia de morango fica particularmente boa dentro de um par de torradas com mel.
Os rapazes lhe acenaram um "até logo" satisfeito.
—E então?— Pedro perguntou imediatamente ao topar com os amigos no Salão Principal, que já se preenchia por alunos famintos.
—"E então" digo eu! —exclamou Tiago impaciente, indo se sentar na quase vazia mesa de Grifinória.— Encontrou o Mapa?
Rabicho sentiu os olhos de Sirius o perfurando com a pergunta de Tiago. Corou furiosamente antes de murmurar:
—Não é culpa minha... procurei em todos os lugares possíveis...
—Isso é imperdoável, Pedro Pettigrew!— interrompeu Almofadinhas, num tom de raiva desenfreada— Eu juro que se você não encontrar aquele mapa te penduro pelas cuecas na última torre dessa escola!— Sirius, descontrolado, desferiu um murro na mesa. Parecia ser capaz de esfolar o amigo vivo, e pela cara de Tiago, Pedro pôde constatar que dessa vez não teria ninguém para defendê-lo. O maroto de olhos esverdeados também o fitava com um sentimento de cólera.
—Vamos procurar também, Sirius. — foi a única coisa que Tiago disse, remexendo com o garfo alguns ovos mexidos em seu prato.— Vamos virar aquele Salão ao avesso, mas vamos encontrar aquele mapa!
Almofadinhas ainda fuzilava Rabicho com o olhar. Havia inclusive perdido o apetite. De repente, massageando a parte de trás de seu pescoço, gemeu baixinho. Rabicho arregalou os olhos:
—O que foi?
—Nada.— Sirius detestava parecer fraco.
—Deixa eu ver.— Pontas, ainda mastigando, se debruçou para a nuca de Sirius,que voltara o pescoço para ele visivelmente contrariado: "Bah, não é nada Tiago!".
—É sim...— o maroto puxou a gola do uniforme de Sirius para baixo,afastou os fios de cabelo que terminavam no início do pescoço e contou o que via.— Acho que o Aluado te arranhou aqui; seu pescoço está bem cortado.
Sirius não conseguia torcer a cabeça e olhar as costas de seu pescoço, por isso apenas tocou-o com a mão direita pretendendo massageá-lo de modo a amenizar a dor aguda:
—É verdade...ai...foi quando eu tentei impedir que ele saltasse o muro e pulasse pra dentro dos terrenos daquela casa.
—O coitado também deve estar machucado. – lembrou Tiago com pesar— Eu tive que dar uns coices nele também.
—Falando no Remo, vamos buscá-lo? –Pedro deu a ideia, aproveitando a deixa para desviar a atenção dos amigos do Mapa do Maroto para o lobisomem. — Daqui a pouco vamos ter a última aula de Feitiços do ano!
Sirius não comera nada, mas seria bom dar um pulo na enfermaria, nem que fosse para tapar seu incrível arranhão com um esparadrapo. Tiago, dando um último gole em seu suco de laranja, se pôs de pé imediatamente.
Os três seguiram ombro a ombro para a porta do Salão, se retirando do refeitório e continuando os passos pelos corredores. O burburinho reboava pelas paredes do castelo, pois os alunos despertavam e abandonavam seus respectivos salões comunais, energéticos. Tiago não pôde conter a inveja quando comentou:
—Parece que o povo está acordando agora...— e imaginou os sortudos abandonando camas quentinhas e travesseiros macios. Seus olhos fundos davam longas piscadas. Pedro, igualmente cansado, disse timidamente:
—Vocês não acham que seria melhor irmos para a enfermaria por ali?— e apontou um corredor que acabara de ser ignorado pelo grupo, que passou reto.
—É.—Sirius deu meia volta, num gesto preguiço e automá se arrastando naquela direção quando sentiu um par de olhos o observando de algum ponto atrás de si. Parou e virou-se para trás, procurando o desconhecido.
—O que foi, Almofadinhas?—perguntou agora Tiago, que já seguia Rabicho pela direção certa. Sirius, ainda de costas para os amigos e compenetrado em sua busca, disse:
—Podem ir. Eu encontro vocês depois. Quero ver uma coisa.
Os dois animagos, dando de ombros, seguiram em frente. Sirius voltou-se para as sombras de uma coluna de pedra, de onde sentia vir uma respiração humana. Chegando mais perto, notou a silhueta de alguém apoiado na coluna; os olhos cintilando como olhos de gato em meio às sombras:
—Então você falou com Dumbledore, hein?
Aquela voz. Aquela maldita voz trelosa, que tanto o perseguira, em outra época, pelos corredores sombrios da casa dos Black. Aquela voz com um tom desdenhoso, que sempre o delatava para os tios quando ele estava fazendo algo de errado. Aquela voz fria, às vezes imperativa, que ria de sua cara quando ouvia sua mãe esbravejar "Saia da minha frente, Sirius Black! Você não é meu filho" quando o rapaz fazia algum comentário antirracista. Aquela mesmo voz jocosa que contara a todos os familiares o quão pobre era a família Lupin ou como os sangue-puro dos Potter se familiarizavam com trouxas e mestiços.
—O que você quer Bellatrix?—ele rosnou para a prima, assumindo uma pose tão arrogante quanto a dela. A garota, abandonando a coluna de pedra e indo em direção à luz do corredor, fitou-o com seus olhos de pálpebras caídas, que a deixavam sempre com um ar de melancólica apatia:
—Eu sei que você e seus infames amiguinhos passaram o ano inteiro nos espionando. – e ela cravou as unhas compridas no pescoço do primo, antes que ele a detivesse. Sirius conteve com muita dificuldade um ganido de dor: era bem ali onde estava o corte feito na noite de lua cheia. — Queriam saber por onde andava Karkarof, ou ainda se ele era o culpado pela morte dos pais daquela sangue ruim pateta!
—Me...solte...—alertou ele, rangendo os dentes. Bellatrix pretendia fazê-lo, mas ao ouvir o pedido decidiu intensificar o aperto. Sirius então se livrou dela com brutalidade: agarrou seus pulsos como se quisesse partir seus ossos e, baixando as mãos da outra com força, afastou suas unhas de seu ferimento.
A pálida sonserina fitou-o num espasmo de ódio e dor. O sangue parava de circular na região que era triturada pelas mãos de Sirius, mas ela não conseguia nem mesmo mover os dedos das mãos, que com todo o sangue interditado começavam a se apimentar. Sirius soltou os pulsos de Bellatrix apenas quando notou os lábios da outra adotarem uma coloração roxa:
—Vá embora sua víbora.—ele cuspiu as palavras, dando as costas para ela. A namorada de Lestrange massageava os pulsos finos, que agora tinham sido carimbados pelos dedos fortes do rapaz. Tirando alguns fios lisos de cabelo do rosto com um menear de cabeça, Bellatrix o chamou de volta:
—Eu sei também da carta que você recebeu. – e notando que o maroto tinha congelado, continuou, numa voz açucarada— O que foi? Não gostou da ideia de ir para Durmstrang, priminho?
—Você!— Sirius voltou-se para ela, ameaçador. À medida que ia se recordando das palavras de Dumbledore sentia a cólera pulsar em sua garganta. A jovem Black riu com escárnio: sua risada lunática rasgou os tímpanos de Sirius.
—Tolinho. Claro que fui eu que escrevi aquela carta. – Sirius estava apenas a um metro de distância de Bellatrix, que o encarava maliciosamente. — Pretendia desviar um pouco a atenção de vocês. Estavam sempre bisbilhotando, nos encarando, pesquisando sobre coisas que não eram de sua conta. Ah... mas aquilo tinha que acabar!— ela notou, com satisfação, que as sobrancelhas negras de Sirius estavam tão juntas aos olhos que enrugavam toda a sua testa. Prosseguiu agora com mais deleite.— Eu sabia que aquilo iria deixá-lo abalado. Sabia que você e seus amiguinhosiriam desviar a atenção imediatamente para a carta; que largariam do nosso pé.
Almofadinhas não conseguia pensar em nada que não fossem pensamentos terrivelmente assassinos. Aquela sonserina petulante tinha brincado com seus sentimentos como se fossem de papel. Ela fizera com que ele perdesse várias noites de sono, pensando sobre aquilo, sobre como seria viver longe de Hogwarts. E Tiago! O apanhador quase tinha enfartado com aquela triste notícia que, agora, revelava ser apenas mais uma das artimanhas de Bellatrix.
—Eu vou te matar.— o rapaz sacou a varinha, apontando diretamente para os peitos salientes da prima de longos cabelos negros.— Sua desgraçada; eu juro que vou te matar.
—Vamos. —ela lhe lançou um olhar mortífero. Seus olhos cinzentos grudados nos de Sirius. — Me mate.
O outro tremia compulsivamente. Trespassaram por sua cabeça centenas de milhares de imagens difusas... Lembranças perdidas: viu uns braços esticando-se para abraçá-lo (seria sua ama de leite?). Viu seu quarto, que vivia de porta trancada... Lembrou-se do irmão Régulo esmurrando a porta, querendo entrar (não pôde deixar de sentir-se leve ao constatar que ele não estava morto). Viu o elfo doméstico, Kreacher, trazendo um cesto de roupas limpas em meio a resmungos do tipo "Esses uniformes que sempre voltam mordidos... oh moleque desleixado!". Teve uma vaga lembrança de um jantar em família, onde a mesa comprida estava farta e, em uma das cadeiras, Andrômeda olhava para o copo de suco fixamente, tentando transformá-lo em vinho. Lembrou-se finalmente dos tios, de Narcisa (certa vez ele grudara nos cabelos loiros da prima um pedaço de seu chiclete mastigado, que ela custou a tirar, em meio a berros escandalosos)... E por fim lembrou-se de Bellatrix.
Tinham treze anos de idade, ambos, e discutiam fervorosamente sobre um dos espelhos venezianos que haviam partido, em meio a um duelo: "Titia vai te matar, seu imbecil!" desejava ela rispidamente, ao que ele retrucava "Me matar? Foi você que jogou seu sapato no espelho, sua louca desvairada!" e Bellatrix, batendo o pé, finalizava "A culpa é sua! Você que se abaixou!".
Formigando, sua mente voltou ao tempo presente. Ele deparou-se com o rosto contorcido e enjoado da outra, que aguardava sua reação com um quê de vitória traduzindo-se num sorrisinho torto. Sirius abaixou a varinha lentamente.
—Você vai se arrepender de ter feito isso, Bellatrix. —foi a única coisa que ele disse, guardando o objeto no bolso da calça. Jamais perdoaria aquela víbora traiçoeira por ter fingido ser sua família naquela maldita carta, mas, por algum motivo, não conseguia impelir a varinha para trucidá-la.
Ela, frívola, retrucou:
—Não, Sirius. Você vai é quem vai se arrepender, algum dia, de ter me poupado. —e deu as costas para ele, os cabelos esvoaçantes batendo em seu encalço. Sirius mordeu os lábios enquanto a assistia; até mesmo os passos dela se pareciam com os seus, pois eram dissimulados e leves. Notando a semelhança, o animago sentiu o estômago embrulhar: como podia ter parentes tão intragáveis?
