Descobertas.

Yuki abriu os olhos e encarou o céu limpo acima dela. Sentou-se rápido ao lembrar-se de onde estava e da conversa com o espírito antes de cair desmaiada.

- O que aconteceu? – perguntou-se ainda confusa – O que houve?

Lembrou-se das ultimas palavras escutadas, e mais uma vez sentiu-se zonza.

"O sangue que correrá nas veias dessa criança vem do Oeste, Yuki... Essa criança será filha de Sesshoumaru".

- Não pode ser... – disse a si mesma, ainda desorientada – Isso não pode ser verdade...

Levantou-se. Agora precisava mais do que nunca escutar aquela voz feminina, e esclarecer se o que ouvira era ou não real.

- Onde você está? – perguntou olhando à sua volta, esperando pela resposta do espírito – Apareça!

Não obteve nenhuma resposta.

- Apareça! – insistiu, levantando a voz sem se preocupar em ser encontrada por alguém – Preciso saber se o que disse é mesmo verdade!

Esperou por mais alguns segundos, mas novamente em vão. Continuou a procurar à sua volta, mesmo sabendo que aquele espírito jamais aparecera fisicamente. Só então se lembrou do motivo que a levara até ali. Olhou para o chão, e viu as folhas que colhera caídas próximas aos seus pés. Ajoelhou-se e levou a mão até elas, tocando-as com uma hesitação que nunca sentira antes.

- O que eu devo fazer? – questionava a si mesma – Devo acreditar nas palavras que invadiram minha mente... ou devo seguir minha razão?

Afastou a mão rapidamente. E como se fosse guiada por magia pousou-a sobre a própria barriga, experimentando uma estranha sensação de calma com a possibilidade descrita por aquela voz.

- E se for verdade?

Aquela sensação durou pouco. Logo lhe pareceu sandice confiar numa voz que só ela parecia escutar. Ergueu-se e recolheu uma por uma as folhas, e decidiu seguir mesmo seu plano, evitando se enganar num futuro próximo.

Percorreu o mesmo caminho por onde viera com pressa, parando somente ao chegar ao lado da casa de Hana. Escondeu a mão onde estavam as ervas nas costas e certificou-se de que não havia ninguém por perto. Foi cuidadosa para chegar até a porta como fora na hora de sair, e mais uma vez ninguém a notara.

Parou por um segundo, e antes de entrar deixou que os olhos procurassem por Sesshoumaru. Ele estava distante, sentado sobre uma rocha, olhando para o longe, sem imaginar que era observado com tanto carinho.

Deixou também que o pensamento voasse livre, imaginando o quanto seria feliz se realmente fosse verdade que geraria um filho daquele youkai. Em sua mente sempre previra sofrimento acaso um dia viesse a ter uma criança em seu ventre, pois tinha medo de que fosse um filho de Hiko. Mas nunca se permitira experimentar a alegria de se imaginar sendo mãe do filho de alguém que amava. Pelo menos não até aquele momento.

E agora podia experimentar aquela sensação. Sentiu os olhos encherem de lágrimas só de perceber que amava uma vida que ainda nem se formara.

Fechou com toda força a mão que estava escondida nas costas, esmagando as folhas que pegara há pouco na mata. A razão dizia que era mais seguro usá-las. Mas já estava decidida. Desta vez seguiria o caminho que seu coração mandava. Deixou que as folhas caíssem da mão aos poucos, até que não sobrasse nenhuma. Não faria aquele chá. Não abriria mão de um presente tão belo como o que aquele espírito amigo previra.

"Não farei isso..." pensou segura de que aquele espírito não mentira "Aceitarei de coração a honra de gerar um filho de Sesshoumaru, se assim for".

Respirou profundamente o ar morno daquela tarde quente. Sentia-se mais leve, e mesmo toda a tristeza causada por Hiko já começava a diminuir. Nada tiraria dela aquela - estranha, mas verdadeira - alegria que sentia no momento.

Resolveu também demonstrar que não estava mais tão triste quanto estava pela manhã, e ao invés de retornar para o futon e chorar como queria fazer antes, preferiu procurar a companhia do youkai que amava e da sacerdotisa que tanto a ajudava. Antes, porém, deu uma olhada em Rin. Ela dormia docemente, sem parecer a criança assustada da noite anterior.

Yuki fechou a porta e caminhou até Hana antes de finalmente ir ao encontro de Sesshoumaru. A sacerdotisa ainda estava ao lado de Aruru, observando com atenção os ferimentos do youkai. Antes que a jovem pudesse abrir a boca foi surpreendida pelas palavras da gentil senhora.

- Você demorou lá na mata. Aconteceu alguma coisa?

Yuki corou no mesmo instante. Jurava a si mesma que tinha sido discreta o bastante ao sair e que ninguém a vira. Mas para sua surpresa havia sido flagrada.

- Não precisa ficar com essa cara – Hana quase riu do semblante envergonhado da jovem – Eu não vou brigar com você.

- Eu não queria incomodar ninguém, por isso sai sem avisar e...

- Não precisa se desculpar também – disse a sacerdotisa – Se a conheço bem, sei que deve ter uma razão muito forte para ir até a mata escondida dessa forma. Tanto risco em vão não é do seu feitio.

- Sim, eu tive uma razão para ir até lá – disse Yuki em voz baixa, temendo ser ouvida por Sesshoumaru, mesmo ele estando um pouco distante – Fui buscar algumas ervas... A senhora já deve imaginar quais são, não?

- Sim, eu imagino.

- Eu fiquei apavorada com a idéia de ficar grávida de Hiko – continuou Yuki – Ele mesmo me disse que a noite passada era ideal para isso... aquele monstro... Perdoe-me, sacerdotisa, pois eu coloquei em duvida até mesmo o poder de suas rezas, e decidi recorrer à única solução rápida que eu conheço...

- Eu não a condeno por ter medo de dar um filho àquele youkai desprezível – disse Hana – E só posso mais uma vez ajudá-la nesse momento difícil perguntando se encontrou as ervas certas.

- Sim, encontrei... – respondeu Yuki.

- Bom... Eu preferia que você não precisasse passar por todo aquele sofrimento, mas se é a única maneira...

- Eu decidi não fazer aquele chá, sacerdotisa – disse ela, para surpresa de Hana – Eu não quero usá-lo.

- Tem certeza? – perguntou Hana.

- Tenho... – disse Yuki.

- O que a fez mudar de idéia? – a sacerdotisa parecia intrigada.

Uma olhada da jovem na direção do youkai ao longe foi resposta suficiente para Hana. Viu nos olhos de Yuki uma confiança que há muito ela não demonstrava.

- Agora eu sei, sacerdotisa... – respondeu Yuki, sem desviar os olhos de Sesshoumaru – Eu sei que não vou gerar um filho de Hiko...

Yuki não deu tempo para a sacerdotisa estender a conversa. Deixou-a cuidando de Aruru e caminhou sem pressa até alcançar Sesshoumaru, parando ao lado dele e fitando o mesmo horizonte.

- Como está se sentindo? – ele perguntou, ainda olhando para o longe.

- Bem... – respondeu ela, também sem desviar o olhar – Graças a você, Sesshoumaru, eu me sinto bem...

Ele voltou seu rosto para ela, mostrando-se desconfortável com aquelas palavras. Se não visse nos olhos de Yuki a sinceridade daquela frase, juraria que ela lhe falava aquilo apenas para agradá-lo.

- Fico satisfeito que esteja se sentindo bem, mas... eu não diria que sou o responsável por isso. Eu não impedi que a noite passada existisse.

- Não, você não tinha como impedir... – disse Yuki baixando seu olhar, envergonhada com suas palavras – Mas você estava lá pela manhã, impedindo que eu acreditasse que minha vida se resumiria ao que aconteceu na ultima noite... Você me tirou daquela escuridão e...

- Tola – ele a interrompeu com seriedade.

Yuki o encarou espantada. Espantou-se ainda mais com as palavras seguintes de Sesshoumaru.

- Agradeça-me apenas quando isso tudo terminar – disse ele – Mas não o faça com palavras... Eu me contentarei em vê-la feliz.

Mais uma vez o olhar de Yuki procurou fugir dos olhos dourados do youkai, embora quisesse manter aquele contato. O rosto que já estava vermelho agora parecia querer pegar fogo. E Sesshoumaru notara isso. Levou a mão ao rosto dela, tocando-o de leve, sentindo o calor aumentar a cada segundo.

- Ainda se sente indigna do meu toque, Yuki?

- Ainda que eu me sinta assim... é impossível recusá-lo. Desejar seu toque é mais forte que eu...

- Que bom. Seria difícil abrir mão de tocá-la...

Sesshoumaru queria continuar a acariciar o rosto de Yuki, mas a aproximação de Hana chamou sua atenção, fazendo com que retraísse a mão.

- Aconteceu algo, velha? – ele indagou ao notar o olhar preocupado da sacerdotisa.

Hana apenas apontou para algo no céu, fazendo Sesshoumaru e Yuki voltarem seus olhos para a coluna de fumaça negra que subia de algum lugar próximo.

- O que está acontecendo? – perguntou Yuki, levantando-se assustada.

- Tenho certeza que é no vilarejo vizinho – respondeu Hana – Parece ser um incêndio grande.

- Tenho a impressão que não é apenas um incêndio qualquer – comentou Sesshoumaru – Acredito que alguém esteja se preparando para finalmente lutar.

- Está falando de Hiko? – indagou a sacerdotisa – Acha que ele está por trás disso?

- É o que pretendo descobrir – respondeu Sesshoumaru, olhando para Yuki antes de ir em busca de respostas – Se Hiko estiver envolvido, Yuki, certamente seu irmão estará junto dele...

Yuki o encarou sem saber o que fazer. Se Heitaro estivesse mesmo envolvido naquilo, infelizmente ele teria que arcar com as conseqüências. Baixou os olhos e suspirou, sentindo-se mal por ela mesma achar que o irmão já fizera maldade demais para merecer defesa.

- Não se preocupe... – disse o youkai – Não será minha espada que cobrará de Heitaro seus erros – concluiu, dando as costas.

Sesshoumaru partiu antes que Yuki pudesse dizer a ele que já sabia disso. O medo maior dela era que o irmão pagasse por suas tolices justamente pelas mãos do youkai a quem ele chamava de mestre. Era mais provável que Hiko uma hora ou outra se cansasse e desse fim à vida dele sem nenhum peso na consciência.

- Não há nada mais que eu possa fazer por você, meu irmão – disse ela, olhando para a fumaça que já se espalhava pelo céu.

- Vamos, Yuki – disse Hana, pegando em sua mão – Vou precisar de sua ajuda. Tenho a impressão de que haverá muitos feridos chegando logo, logo.


Hiko divertia-se em ver os casebres dos moradores do pequeno vilarejo arderem em chamas. Enquanto Heitaro terminava de atear fogo ao último deles, ele segurava com satisfação sua espada, sentado sob uma árvore distante do incêndio.

- Acho que já é o suficiente – disse ele – As almas destes pobres coitados servirão bem ao meu intuito, e mal vejo a hora de ir atrás de você, youkai.

Heitaro logo se juntou a ele, e ficou olhando com um ar de perplexidade a destruição que haviam causado.

- Não acha que exageramos um pouco, Hiko? – perguntou ele preocupado – Tudo bem que precisasse matar tantas pessoas, mas acabar com o vilarejo por completo...

- Está com pena desse povo, Heitaro?

- Não! Não é isso... É que... isso pode chamar muita atenção – explicou-se.

- Como se eu quisesse uma vida fadada ao esquecimento – comentou Hiko se levantando – Quero mais é que todos se lembrem do quanto eu sou cruel, assim jamais ousarão desafiar meu comando.

- Seu comando? – estranhou o hanyou ao seu lado – Como assim, seu comando?

- Lembra-se de sua própria profecia, Heitaro? Aquela na qual você dizia que um mestiço é quem seria o senhor destas terras?

- Sim, claro que me lembro – respondeu com desconfiança – E lembro-me também que você disse que me ajudaria a ser esse mestiço.

- E ajudarei. Mas sei que você ainda não tem condições de comandar nada, sendo fraco como é... Por isso, creio que não ficará irritado se eu ajudá-lo nesse assunto. Ou ficará?

- Você pretende comandar o Leste enquanto me treina para tomar seu lugar? – a proposta pareceu estranha para Heitaro, mas confiava no mestre como se fosse um pai – Tudo bem...

Hiko sorriu com a ingenuidade do hanyou. Ele mal imaginava que o mestiço de que falava não era ele próprio, nem jamais seria.

"Sei que ficará desolado quando descobrir a verdade, hanyou. Mas acredito que hora ou outra você ficará feliz por seu meu filho com Yuki a tornar-se senhor dessas terras. Caso contrário, pode começar a cavar sua própria cova, moleque!" pensou com satisfação.

- Podemos ir embora? – Heitaro perguntou, já indisposto com o cheiro de sangue e fumaça misturados no ar.

- Com certeza! – respondeu Hiko, sorridente – Vamos para casa. Ainda há muito para fazermos hoje.

Deixaram para trás os habitantes desesperados que haviam sobrevivido e agora procuravam salvar suas casas e pertences, sumindo na mata sem olharem para trás. Heitaro ia mais à frente, repensando a ajuda oferecida pelo mestre. Já Hiko caminhava um pouco mais devagar, aproveitando aquela sensação estranha de vitória que percorria seu corpo. Só de pensar que chegaria em casa e encontraria Yuki amarrada à sua espera o fez esboçar um sorriso maldoso.

"Agora será assim sempre, Yuki. Não haverá um dia em que chegarei e não a encontrarei ao meu dispor, minha cara".


Hiko abriu a porta do quarto de Yuki e congelou de ódio. Viu a corda cortada, e não conseguiu controlar sua raiva.

- Aquela maldita! – esbravejou, atraindo a atenção de Heitaro – Não acredito que ela fez isso?

O hanyou aproximou-se com curiosidade.

- O que aconteceu? – indagou.

- Ela fugiu! – Hiko parecia dizer aquilo a ele mesmo, e não ao hanyou – Como ela conseguiu fugir?

- A menina fugiu? – Heitaro imaginou que o mestre falasse de Rin – Pensei que você já a tivesse matado.

- Não estou falando daquela garotinha! – respondeu Hiko, agarrando Heitaro pelo pescoço e encarando-o com fúria – Estou falando de sua irmã!

- O quê?

Heitaro não estava entendendo nada. E o ódio que Hiko demonstrava no olhar o fez temer que fosse morto antes de descobrir o que estava acontecendo. Para sua sorte Hiko o largou, parecendo perceber algo.

- Esse cheiro... – disse o youkai, andando pelo quarto com raiva – Esse cheiro... é daquele maldito...

Heitaro também percebeu o cheiro fraco de Sesshoumaru pelo ar. Mas no momento o que mais o preocupava era o que Hiko havia dito antes.

- Como assim, minha irmã? Yuki estava aqui?

Hiko não respondeu. Ele sim parecia mais interessado no cheiro do inimigo que no curioso hanyou.

- Hiko? Responda! Yuki estava aqui?

- Estava... – respondeu Hiko voltando-se para encará-lo – Sua maldita irmã estava aqui! E eu confiei nela!

- Confiou nela? Como assim confiou nela? Deixou que ela cuidasse da garotinha enquanto você saía?

- Pouco me importa aquela garota! – Hiko respondeu rispidamente.

- Conte o que aconteceu! – exigiu Heitaro.

- Eu não deixei aquela menina com Yuki – respondeu Hiko – Eu a libertei! Deixei que ela fosse embora, em troca da palavra de sua irmã!

- Em troca da palavra de Yuki? – Heitaro olhava para o mestre sem acreditar – Que palavra?

- Yuki prometeu comportar-se... – Hiko parou um segundo e riu de sua própria estupidez – Ela prometeu que nos ajudaria se eu deixasse a garotinha viver...

- E você acreditou nela? – indagou Heitaro, num tom amargo, desgostoso, contrariando a risada mais para histérica do mestre.

Hiko desmanchou o sorriso e encarou o hanyou com seriedade. A primeira reação de Heitaro foi baixar os olhos, parecendo estar envergonhado.

- Você sabe de algo que eu não sei? – perguntou o youkai com desconfiança – Yuki falou algo a você que eu não possa saber?

Heitaro engoliu seco. Agora estava numa situação delicada. Queria contar ao mestre tudo o que sabia, mostrando assim sua fidelidade a ele. Mas também queria proteger a irmã, embora ela parecesse não merecer nenhum esforço por parte dele.

- O que é, Heitaro? – o que deveria ser uma pergunta soava mais como uma ordem para o hanyou abrir o bico.

Infelizmente precisava escolher qual dos dois lados ficaria. E para Heitaro, importava mais ser fiel ao mestre que ajudar a irmã a esconder um segredo que o deixava tão descontente.

- Yuki não é de nossa confiança mais, Hiko – começou a falar, mas sem conseguir erguer os olhos para encarar o mestre – Eu sei o porquê dela ter protegido a vida dessa menina que acompanha Sesshoumaru.

- Porque sua irmã tem um coração mole demais para o meu gosto? – disse Hiko – O que mais poderia ser?

- Não. Não é apenas isso... – Heitaro enfim olhou para o mestre – Ela fez isso porque sabe o quanto ela significa para o nosso inimigo.

Hiko franziu a testa, descontente com o que ouvia. Para ele, Yuki importar-se com alguém não era nada de mais, mesmo que essa pessoa fosse próxima de seu inimigo.

- Ela sabe o quanto Sesshoumaru sentiria pela morte daquela menina, Hiko – continuou o hanyou – E ela jamais o deixaria sofrer...

- Como assim, "ela jamais o deixaria sofrer"? – indagou Hiko, começando a entender aonde o hanyou queria chegar – "Ele", é por um acaso, Sesshoumaru?

Heitaro apenas meneou a cabeça, confirmando a suposição do mestre. Aquela resposta deixou o youkai ainda mais contrariado. Agarrou novamente Heitaro, dessa vez pela roupa e encostou-o na parede, mostrando um olhar de ódio para o garoto.

- O que está querendo dizer, afinal? – perguntou aos gritos – Diga de uma vez o que está pretendendo dizer de sua irmã!

- Ela...ela está do lado dele – respondeu Heitaro, assustado com a violência com que Hiko o prendia contra a parede – Pelo que sei... bem, pelo que sei, Yuki está apaixonada por ele!

Hiko o soltou devagar. Pela primeira vez sentia-se sem reação, e não era nada agradável. Sentiu o corpo paralisar, enquanto o cérebro ainda tentava colocar em ordem as idéias. Ficou imóvel, encarando Heitaro, esperando que o moleque tivesse a consciência de desmentir aquelas palavras antes que ele o matasse ali mesmo. Mas o desmentido não veio. Heitaro mais uma vez baixou a cabeça, sentindo-se ainda mais envergonhado com o que a irmã fizera.

- Isso é impossível – foram as primeiras palavras de Hiko após o torpor – Você está enganado, Heitaro... Não é possível que sua irmã sequer conheça Sesshoumaru...

- Eu também pensava isso – disse o hanyou – Mas parece que Yuki é totalmente diferente do que nós pensávamos, não? – continuou, limpando algumas lágrimas que fugiram ao seu controle – Não sei de que maneira ela conseguiu, mas o fato é que ela conheceu Sesshoumaru, nosso inimigo, e deixou que ele tomasse seu coração.

Hiko ainda não acreditava. Balançava a cabeça numa negativa, pensando em retalhar o hanyou por supor algo tão tolo e incabível. Yuki jamais ousaria envolver-se com outro homem, ainda mais se ele fosse um youkai. Era loucura de Heitaro, certamente.

- Por que acha que matei Asako? – o hanyou notou que o mestre não acreditava nele – Fiz isso porque ela ia matar Yuki! Eu ouvi as duas discutindo sobre aquele maldito youkai! Ouvi minha irmã admitir que o amava... Apesar do desgosto de ouvir isso, ela ainda era minha irmã, Hiko. Meu sangue... E quando vi o que Asako ia fazer... Por instinto eu salvei Yuki, mas juro pela minha honra que agora me arrependo de ter feito isso!

Hiko sentia o sangue queimar suas veias de tanta fúria. Agora começava a acreditar no hanyou, e estava decidido a arrancar a confirmação da boca da própria Yuki. Para isso precisava mostrar-se calmo. Se Heitaro havia protegido a irmã de ser morta por Asako, certamente faria o mesmo se ele se mostrasse furioso com ela. Não que achasse que Heitaro o enfrentaria para proteger Yuki. Mas sabia que o moleque faria de tudo para evitar um encontro dos dois, mesmo que jurasse estar arrependido de salvar a irmã.

Respirou profundamente, tentando controlar a raiva que sentia, antes de falar algo com o hanyou. Precisaria de muito controle para disfarçar a raiva que sentia de Yuki, só de imaginá-la procurando por outro homem, ainda mais seu inimigo.

"Se isso for verdade, Yuki... Juro que a farei pagar por seu erro..." pensou ele.

- O que faremos? – a pergunta de Heitaro o fez esquecer dos pensamentos.

Olhou para o hanyou, notando no olhar dele um pouco de remorso por tudo que revelara.

"Maldito sangue humano que torna seu portador tão volúvel..." pensou irritado com o olhar de Heitaro "E pensar que é meu desejo ter um filho com o mesmo sangue correndo nas veias!".

- O que acha que devemos fazer? – ele devolveu a pergunta, forçando um sorriso na tentativa de acalmar Heitaro – Acho que só nos resta nos vingar, não é?

O hanyou o encarou assustado.

- Está dizendo... vingar-se de Yuki?

- Não. Claro que não – Hiko mentiu – Sei que sua irmã não faria isso por maldade, Heitaro. Quero dizer, se for isso mesmo... Bom, o fato é que se há algum culpado nessa história toda, não é ninguém além daquele youkai. É dele que devemos nos vingar.

Heitaro sentiu-se mesmo mais aliviado. O fato é que estava um pouco arrependido de contar ao mestre sobre Yuki, temendo que o youkai não a perdoasse por tal traição. Mesmo que ainda estivesse com raiva da irmã, saber que ela esteve tão perto de conhecer a fúria de Hiko o deixara completamente aterrorizado. Mas agora podia se acalmar um pouco.

- Por isso quero que seja você a acabar com a vida de Sesshoumaru – disse Hiko.

- O quê? – indagou espantado.

- Creio que é uma obrigação sua, não é? – Hiko comentou – Yuki é sua irmã, e a desonra dela é sua desonra. O único modo de limpar o nome dela, e o seu também, é acabando com a vida daquele youkai. Pode fazer isso, Heitaro?

Heitaro sentiu as pernas tremerem. O que Hiko falava era a mais pura verdade, e mesmo que soubesse ser impossível derrotar Sesshoumaru, teria que lutar com ele, mesmo que fosse para morrer e limpar sua honra.

- Acha que é capaz, hanyou?

- Sim, meu senhor... – respondeu sem nenhuma confiança – É meu dever...

Hiko ficou satisfeito. Yuki pagaria muito caro pelo que fizera, e para começar perderia o irmão justamente pelas mãos de Sesshoumaru, pois sabia que Heitaro não seria capaz de agüentar uma luta de verdade com o inimigo.

"Você levará seu irmão à morte... Depois, eu matarei Sesshoumaru e os amiguinhos dele, Yuki, na sua frente, para que se lembre por toda a vida do erro que cometeu ao ousar me trair, sua maldita!".

- Vamos sair – ordenou Hiko – Você irá atrás do youkai, e eu... bom, eu irei atrás da sua irmã. Preciso ter uma conversa séria com ela...

Heitaro concordou e deixaram a casa. Agora sim era o momento decisivo naquela luta adiada por tempo demais.


Os dois olhos dourados fixaram-se nas chamas altas que ainda consumiam as casas de madeira do vilarejo. Os moradores que haviam sido poupados agora se esforçavam para controlar o incêndio e mandar os feridos para outro lugar.

Para Sesshoumaru ficava claro que Hiko finalmente havia recuperado o poder de sua espada, e que a luta entre eles finalmente chegaria ao fim. Deixou o vilarejo e caminhou na direção marcada pelo fraco cheiro de um youkai desconhecido.

"Certamente este é o cheiro de Hiko" pensou "Parece que eu o encontrarei ainda essa tarde, youkai".

Entrou na mata fechada e seguiu o cheiro do inimigo. Hiko havia tomado o caminho para o castelo, e certamente já sabia da fuga de Yuki àquela altura dos acontecimentos. Se tudo ocorresse como imaginava, Hiko sairia furioso em busca da jovem, procurando-a primeiramente no vilarejo da sacerdotisa Hana.

Decidiu não continuar seguindo o cheiro do rival. Achou mais prudente voltar ao vilarejo e esperar pela aparição do youkai lá. Assim não colocaria em risco os moradores do lugar, e principalmente, não deixaria a mínima chance dele encontrar Yuki.

Resolveu cortar caminho pela mata mais fechada, apertando o passo para não perder mais tempo que o necessário. Sua intenção era acabar de vez com Hiko e enfim dar paz à Yuki, sem se preocupar com o irmão dela. Embora sua vontade de matar Heitaro fosse grande, ainda mais depois dele ter ousado ferir Rin mais uma vez, não podia faltar com sua promessa feita à Yuki. Pouparia o hanyou apenas pelo sentimento que tinha pela jovem, nada mais.

Já se aproximava da metade do caminho quando viu uma figura surgir em seu caminho, empunhando uma espada e encarando-o com um olhar de ira.

- Que coincidência – comentou, sem alterar a expressão no rosto ao reconhecer Heitaro parado à sua frente – Já esperava mesmo encontrá-lo primeiro, ao invés de Hiko. Eu sabia que ele mandaria seu capacho na frente, para tentar me cansar ao máximo.

- Eu não estou aqui apenas para cansá-lo, Sesshoumaru – disse Heitaro – Vim aqui para matá-lo de vez!

Sesshoumaru deixou um sorriso discreto brotar nos lábios. Se era a vontade do hanyou mais uma vez tomar uma surra, era isso que teria. Encarou o tolo moleque e o desafiou:

- Tente!


Hiko observava com atenção a movimentação no vilarejo da sacerdotisa Hana. Do alto da árvore onde estava era possível ver claramente Yuki ajudando a velha a cuidar dos feridos que chegavam, e estava apenas esperando o momento certo para pegá-la e tirar a limpo toda a história contada por Heitaro.

"Se for verdade Yuki... você estará muito encrencada" pensou fixando o olhar na jovem.

Olhou para o casebre da sacerdotisa, e viu a garotinha que acompanhava Sesshoumaru sair de dentro dela com um prato na mão. Ela juntou-se à Yuki e Hana, ajudando da maneira que era possível para sua tão pouca idade.

Hiko sorriu. A casa agora devia estar vazia. Desceu da árvore e caminhou se escondendo entre a mata até chegar próximo do casebre. Voltou a prestar atenção em Yuki, esperando que em algum momento tivesse a chance de botar suas mãos nela novamente.

- Não demore, Yuki... – sussurrou para si mesmo – Ou eu terei de chamar sua atenção de outra maneira...

Como a sacerdotisa previra, muitos moradores do vilarejo vizinho acabaram por procurar ajuda ali. Pelo menos duas dúzias de pessoas machucadas agora se aglomeravam na entrada do vilarejo implorando por socorro e contando sobre o ataque de dois cruéis youkais.

Hana envolvia uma faixa de tecido no braço de um dos feridos, enquanto Yuki terminava de passar uma pasta feita de ervas no rosto de outro com a ajuda de Rin.

- Precisaremos de mais faixas – comentou a sacerdotisa olhando para Yuki com um olhar preocupado – Pelo visto ainda há mais outros feridos que chegarão logo.

- Também precisamos de mais dessas ervas – disse Yuki – Ainda tem delas em sua casa, sacerdotisa?

- Creio que sim. Eu irei até lá pegá-las...

- Não. Pode deixar que eu vou – ofereceu-se Yuki, levantando-se – A senhora pode continuar com o que está fazendo.

- Eu posso ir junto? – perguntou Rin, já se levantando.

- Não precisa – respondeu ela com um sorriso – Você pode buscar água no poço do vilarejo para os que não estão feridos, está bem?

- Sim, senhorita Yuki! – disse a garotinha partindo em disparada para buscar a água.

- Você parece estar querendo afastá-la dessa visão terrível – disse Hana.

- Rin não precisa presenciar mais dor do que o que já viu – respondeu Yuki – Ela é só uma criança...

- Não se preocupe com ela, Yuki. Será o destino dela cuidar mesmo de gente ferida, tanto física quanto espiritualmente. Ela será uma sacerdotisa, eu já disse a Sesshoumaru isso... E por falar no youkai... – Hana havia percebido que o semblante da jovem mudara quando ela disse seu nome – Não se preocupe com ele...

- É impossível... Meu pensamento agora está apenas nele, sacerdotisa – disse Yuki – Nele, e no que envolve a ele...

- Mantenha-o no seu pensamento, criança, e ele retornará a salvo para seus braços – comentou Hana.

- Farei isso... – disse Yuki lembrando-se que devia buscar mais pasta feita de ervas na casa da sacerdotisa – Deixe-me buscar o remédio. Voltarei o mais rápido possível!

Ela saiu correndo, deixando a sacerdotisa ocupada com os feridos. E Hana estava tão preocupada com os pobres moradores do vilarejo vizinho que nem percebera aquela aura maligna tão próxima de onde estava.

Yuki entrou na casa e caminhou direto para o canto da sala onde estavam encostados os vidros contendo vários tipos de folhas, raízes e flores medicinais usados pela sacerdotisa. Ajoelhou-se e pegou três deles, abrindo-os e retirando o suficiente para fazer a pasta que precisava. Colocou-os no prato que estava no chão à sua frente, e juntou a eles um pouco de água que pegara na jarra ao seu lado. Passou a moer tudo com um batedor, com cuidado para não desperdiçar nem um pouco da mistura.

Estava com a atenção tão voltada para o que fazia que nem notou a sombra que crescia na parede à sua frente, indicando a aproximação de alguém às suas costas. Só se assustou quando a jarra de água que estava ao seu lado virou, derramando todo seu liquido bem perto de suas pernas.

Virou-se pensando ser Rin ou Hana que viera buscar algo. Mas sentiu o sangue congelar ao ver Hiko encarando-a com um olhar sério.

- Pensou que eu não viesse buscá-la, Yuki?

A primeira reação de Yuki foi se levantar e correr. Mas sua tentativa terminou quando Hiko levou o pé às suas costas, fazendo-a cair com o rosto no chão, espatifando o prato com a pasta medicinal com o peso de seu corpo. Sentiu os cacos de vidro furarem seu abdômen, provocando uma dor lancinante.

- Aonde pensa que vai? – perguntou o youkai agarrando seus cabelos e levantando-a num único puxão – Acha que eu deixarei que me faça de tolo mais uma vez?

A mão dele tapou sua boca antes que o grito preso na garganta escapasse de vez. Tentou desvencilhar-se arranhando com força o braço de Hiko, mas isso parecia não incomodar em nada o perverso youkai. Ele a levou para fora com brutalidade, e parou por um momento na porta, esperando que a sacerdotisa finalmente o notasse.

Quando Hana conseguiu sentir sua presença, já era tarde. Olhou para o youkai, que exibia Yuki como um troféu. Levantou-se e ficou imóvel, sem saber o que fazer.

- Veja, velha! – Hiko falou com um sorriso estampado no rosto – Vim buscar o que me pertence. E quero avisar também que a brincadeira acabou aqui. Depois que eu terminar meus assuntos mais importantes, voltarei nesse vilarejo para acertar também algumas contas com você, velha enxerida.

- Seu maldito covarde! – esbravejou Hana.

- Covarde? Chame-me do que quiser, velha. Não me incomodam seus insultos.Agora, preciso levar Yuki para um lugar onde possamos conversar sem a presença de tantos moribundos! Agora, se me dá licença...

Antes que a sacerdotisa pudesse dizer algo, Hiko desapareceu atrás da casa, arrastando a jovem junto com ele.

- Maldição! – gritou Hana desesperada – Apareça logo, Sesshoumaru...


- Tente! – disse Sesshoumaru.

Heitaro não hesitou. Correu na direção do inimigo com a espada apontada para o alto, esperando que a sorte o favorecesse e conseguisse acertá-lo já na primeira tentativa. Assim que se aproximou de Sesshoumaru, baixou a lâmina com toda sua força e velocidade, até que a sentiu tocar algo resistente, e em seguida uma nuvem de poeira erguer-se dificultando sua visão.

Quando a poeira finalmente se dissipou, ficou frustrado ao ver que acertara apenas o chão, enquanto Sesshoumaru estava alguns passos à frente, mostrando que desviara do golpe sem nenhum problema.

- Miserável! – gritou, erguendo novamente a espada e lançando-se contra o inimigo – Vai ficar apenas fugindo dos meus ataques?

Mais uma vez seu golpe deu em nada. Sesshoumaru se esquivara do segundo ataque com maior rapidez que o primeiro, dessa vez parando ainda mais perto de onde a lâmina havia cravado no solo.

- Estou tentando controlar meu impulso de cortar sua cabeça, hanyou – respondeu serenamente Sesshoumaru – Apesar de você merecer uma morte dolorosa, estou pensando no sofrimento de sua irmã se isso acontecer.

- Você é quem terá uma morte assim. E quanto à Yuki, não se preocupe com ela... Depois que eu o matar, eu a trancarei em casa e a farei repensar todos os erros que cometeu – disse Heitaro.

- Você está mesmo cada vez mais parecido com seu mestre. Ou foi justamente dele essa idéia?

- Sim, foi dele – respondeu Heitaro – Ele foi bem ameno nessa proposta de castigo... apesar de também estar enojado em descobrir o que Yuki fez!

Sesshoumaru não conseguiu esconder sua surpresa com a revelação de Heitaro. Sacou a Toukijin e colocou-a na garganta do hanyou.

- Você contou a ele sobre mim e Yuki?

- Está incomodado com...

- Responda!

- Claro que contei – respondeu Heitaro, sentindo um pequeno gosto de vitória com a expressão de descontentamento no rosto do inimigo – É sorte de Yuki que Hiko seja tão bondoso com ela e não a trate como a traidora que é...

- Seu moleque tolo! – esbravejou Sesshoumaru, retirando a espada do pescoço e rapidamente batendo com o cabo no rosto de Heitaro – Como se atreve?

Heitaro foi jogado no chão com o golpe. Caiu sentado. Em seguida sentiu o sangue escorrer do corte na testa. Levou a mão ao ferimento, enquanto se erguia com dificuldade.

- Você pagará por isso, youkai! – gritou o hanyou – Pagará por toda a vergonha que eu tive de passar com Yuki! Só a sua morte poderá limpar um pouco esse sentimento! – disse apontando a espada para Sesshoumaru e correndo em sua direção – Morra!

Heitaro correu como um louco. Ao aproximar-se de Sesshoumaru apertou as mãos em volta do cabo da própria espada e forçou-a contra o corpo do inimigo. O som de uma lâmina rasgando a pele de alguém o fez sorrir por alguns segundos. Tinha conseguido. Finalmente havia conseguido acertar o adversário. Mas sua felicidade durou poucos segundos. Bastou que a dor se manifestasse para perceber que não era ele o vencedor. Olhou para baixo, e o que viu fez com que arregalasse os olhos.

- Não... não pode ser... – balbuciou, sentindo o corpo perder as forças – Se-seu maldito...

Afastou-se um passo para trás, fazendo a lâmina da Toukijin escorregar sem pressa de dentro de sua barriga. Olhou para o próprio sangue começando a empoçar no chão, e antes de cair de joelhos, jurou ter visto o reflexo do rosto de Sesshoumaru no liquido rubro.

- Yuki ficará fe-feliz com isso...

- Não... ela não ficará – respondeu Sesshoumaru limpando a Toukijin na manga de seu kimono antes de guardá-la – Sua morte nunca traria nada além de dor para Yuki.

Heitaro encarou-o com um olhar de descrença antes de finalmente cair morto. Sesshoumaru respirou profundamente, lamentando pela primeira vez a morte de alguém que o desafiara.

- Você conseguiu meia vitória, Hiko – falou como se o inimigo pudesse escutá-lo – Aposto que era sua intenção que eu matasse esse hanyou estúpido...

Decidiu não dar ao inimigo nem aquela meia vitória. Agarrou o braço do hanyou e arrastou-o pela mata. Apesar de não merecer, daria a Heitaro uma chance que ele julgava boa demais.

Caminhou até deparar-se com a caverna de seus antepassados. Deixou o corpo de Heitaro jogado no chão e sacou a Toukijin. Usar a espada era a única maneira de desbloquear a entrada tomada por rochas. Num golpe conseguiu pulverizar as pedras e abrir o caminho.

Entrou na caverna arrastando o corpo do hanyou, e seguiu até a parede rochosa que separava o túnel estreito do amplo espaço usado há muito tempo por seus ancestrais como lugar sagrado de reuniões. Abriu-a com um toque e entrou. Largou Heitaro no chão bem próximo à pequena lagoa que enfeitava o belíssimo local. O sangue dele manchava aos poucos o solo arenoso, causando um certo desconforto em Sesshoumaru.

- Perdoem-me por essa ofensa, meus antepassados – disse ele – Preciso deixar meu inimigo preso aqui até que finalmente minha luta acabe. Depois lacrarei novamente este ambiente sagrado para sempre...

Sacou a Tenseiga e a colocou frente ao rosto de Heitaro. Como a morte dele havia sido recente, pôde ver claramente os emissários do mundo dos mortos rondando seu corpo. Riscou o ar com a lâmina da espada, cortando ao meio aqueles seres, e depois guardou a Tenseiga na cintura.

Não ficou esperando para ver o resultado. Confiava na espada deixada pelo pai, e sabia que o hanyou não demoraria a acordar do sono mortal. Saiu da caverna, deixando Heitaro preso ali dentro pelo tempo em a luta contra Hiko demorasse. Só depois o libertaria, deixando que ele tomasse a decisão que quisesse depois da morte do mestre.

Sua preocupação no momento era chegar ao vilarejo da sacerdotisa. Precisava encontrar Hiko o mais rápido possível, e lá era certamente onde o encontraria.

Quando chegou ao vilarejo teve a péssima notícia de que Hiko levara Yuki. Se não tivesse perdido seu tempo precioso com Heitaro, teria encontrado o rival antes mesmo que ele ousasse encostar o dedo na jovem.

- É a última noite daquele maldito youkai – disse Sesshoumaru para Hana – Ele se arrependerá amargamente por tudo o que fez.

Levou a mão dentro da roupa e retirou o colar protetor que era de Hiko.

- Infelizmente terei de usar o mesmo artifício daquele miserável. Mas só farei isso para evitar que ele continue a fugir assim que sentir minha presença por perto. Quanto mais eu demorar a encontrá-lo, mais ele machucará Yuki.

- Faça o que for preciso... mas traga Yuki de volta, Sesshoumaru – implorou Hana – Você deve salvar a vida dela, para poder salvar o seu próprio futuro...

- Eu a salvarei porque ela é muito importante para mim, velha. Meu futuro pouco me importa no momento – disse e sumiu novamente na mata escura.


Yuki tentava soltar a mão de Hiko de seus cabelos sem sucesso, enquanto ele a arrastava pela mata sem piedade. Caiu duas vezes durante o longo percurso, e nas duas ele a obrigou-se a levantar num puxão, forçando-a a continuar até que chegasse onde queria.

- Me solta! – pedia ela aos gritos – Hiko, me solta!

Ele continuava, sem dar atenção ao sofrimento da jovem. Quando finalmente encontrou um lugar que julgou ser bom, jogou-a com violência no chão, fazendo-a cair de joelhos no solo cheio de pequenas pedras.

- Aqui está ótimo – disse ele – A conversa que terei com você exige o máximo de privacidade, Yuki.

No céu, a lua já começava a mostrar-se redonda e brilhante, contrastando seu tom pálido com o azul escuro da noite. O youkai olhou-a por alguns segundos, depois desviou seus olhos avermelhados dela e voltou-os para Yuki. Ela estava ferida nos dois joelhos e na parte mais baixa da barriga, onde havia uma mancha de sangue no kimono branco que ela usava.

- Sabe que a situação ainda irá piorar, não é? - ele perguntou, agachando-se frente à ela – Você achou que podia brincar comigo sem ter que agüentar as conseqüências, Yuki? Achou que eu fosse deixá-la escapar de minhas mãos tão facilmente?

Yuki levou a mão ao abdômen, tentando conter um pouco da dor que sentia. Não ousou encarar o youkai. Preferiu manter a cabeça baixa e ficar muda.

- Olhe para mim quando falo! – ele ordenou agarrando seu queixo – Quero ver sua expressão enquanto conversamos!

- Não vou falar nada com você, seu maldi...

Um tapa a impediu de terminar a frase. Ela só não caiu com a força empregada pelo youkai porque ele mesmo a segurara.

- Está disposta a conversar agora? – perguntou ele, limpando o sangue que escorria do canto da boca dela – Ou terei de dar outro tapa para que veja que não estou brincando?

Ela empurrou a mão dele com força. Depois se curvou, sentindo o ferimento doer ainda mais.

- Veja o seu estado, Yuki – disse ele num tom de piedade – Vale tanto a pena assim me desafiar? Se eu for castigá-la da forma que sua ousadia pede, terei que arrancar cada gota do seu sangue. Você teria cicatrizes ainda piores do que aquela nas suas costas... É o que deseja?

Yuki continuou em silêncio, para desagrado maior do youkai. A verdade é que o incomodava imaginar que aquela quietude toda da jovem se devesse ao fato dela gritar em pensamento pelo inimigo. Só de imaginar que ela pensava em Sesshoumaru naquele momento o fazia querer feri-la ainda mais. Mas controlou-se para não erguer a mão e cumprir com a promessa de mais um tapa acaso ela não o respondesse. Concluiu que a melhor maneira de começar seu castigo era machucando-a mentalmente.

- E depois que eu deixá-la cheia de cicatrizes, quem irá te querer, hein? Aposto que nem mesmo seu amante sentiria vontade de colocar as mãos em você novamente...

Yuki ergueu os olhos e o encarou apavorada. Ouvira Hiko falar "amante" ou estava delirando?

- Acho que ele não a verá depois que eu a deixá-la da forma que disse – continuou Hiko – Eu o matarei antes! Afinal de contas, já não bastasse aquele maldito invadir minhas terras, ainda teve a ousadia de tentar tomar você de mim! Ou será que foi você que se ofereceu a ele, Yuki? Diga... Foi você que se ofereceu a Sesshoumaru?

Ela sentiu um arrepio percorrer o corpo ao ouvir o nome de Sesshoumaru. Tentou desviar seus olhos dos de Hiko, temendo responder à questão através deles. Mas o modo como o youkai a encarava a fazia ficar com medo de olhar para o lado e ser castigada de alguma forma.

- Responda, Yuki – a voz de Hiko saia agora num tom tão calmo que aumentava ainda mais seu pavor.

- N-não sei do que es-está falando...

Hiko suspirou. Tentou acreditar por um instante na resposta de Yuki, mas era visível que ela estava mentindo. Passou a mão pelo rosto dela, descendo pelo pescoço, e acariciando a nuca dela. Trouxe o rosto da jovem de encontro ao seu, e encostou sua boca no ouvido dela.

- Maldita mentirosa... – sussurrou ele.

Novamente agarrou-a pelos cabelos, e num golpe covarde lançou-a com o rosto contra o chão.

- Como foi, Yuki? – ele perguntava enquanto a prendia contra o solo cheio de pedras – Como se jogou aos pés do meu inimigo? O que deixou que ele fizesse com você, hein?

Yuki lutava para erguer-se um pouco e respirar. Agarrou a mão de Hiko, tentando fazê-lo soltá-la, mas não conseguia.

- Acha que deixarei que Sesshoumaru venha e tire tudo o que é meu? Não, jamais! Ainda mais você, Yuki... Nada vai tirar você de mim. Seu corpo será meu o tempo que eu quiser. Sua vida, e até mesmo sua alma são para o uso de um único homem, Yuki. Agora me diga... você se entregou para aquele youkai? Aposto que fez isso apenas para tentar fugir de mim... Sua idiota, maldita!

Yuki aos poucos começava a perder as forças. Mas antes que sufocasse de vez, Hiko a ergueu, e deixou que o ar invadisse seus pulmões. Ele ficou analisando o desespero dela para respirar, e até mesmo sorriu com a cena.

- Se pudesse ver seu rosto agora... – disse ele – Esses arranhões a lembrarão por um bom tempo do quanto eu estou falando sério, Yuki. Nunca mais, nunca mais mesmo, ouse tentar me passar para trás.

- Mi-miserável... – murmurou Yuki sentindo o gosto do sangue que escorria do nariz e chegava aos lábios também feridos – Sesshoumaru... e-ele o matará...

Hiko explodiu numa gargalhada sonora. Depois largou Yuki no chão e se levantou. Prevenido, colocou seu pé nas costas dela, evitando que ela tentasse se erguer. Olhou para os lados, fingindo procurar o inimigo pela mata escura.

- Onde ele está? – indagou, zombando de Yuki – Onde está seu amante? Até o momento não senti o cheiro dele por aqui. Acho que você não tem tanta importância assim para ele, minha querida.

- Engano seu – a voz calma de Sesshoumaru ecoou pela mata ao redor de Hiko, fazendo-o agora procurar de verdade pelo rival – Eu mostrarei a você o quanto Yuki é importante para mim – concluiu, mostrando-se aos olhos de Hiko, segurando na mão o colar protetor do rival.

- Oras... vejo que resolveu fazer uso de algo mais que me pertence – ironizou Hiko, apertando ainda mais seu pé nas costas de Yuki – O que mais falta, Sesshoumaru?

- Você sabe o que falta... – respondeu ele, lançando o colar aos pés de Hiko – Sua cabeça cortada balançando na minha mão, apenas isso...

- Venha tentar pegá-la – desafiou Hiko – Mas não se esqueça, que dependendo do seu primeiro golpe, é a cabeça de Yuki que você arrancará – disse, levantando Yuki rapidamente e usando-a como escudo.

- Eu não esperava menos de você – disse Sesshoumaru, sacando a Toukijin e preparando-se para lutar.

- Vamos ver quem se sai melhor. Eu não tenho intenção de ferir Yuki... Quero dizer, não mortalmente... Ela ainda tem muito a me aquecer com seu corpo. Vamos ver se você tem a mesma intenção... – disse, também sacando sua espada da cintura.

- Se-Sesshoumaru... – sussurrou Yuki, apavorada.

- Feche os olhos, Yuki – ordenou Sesshoumaru – Eu acabarei logo com isso, e você será finalmente livre...

- Você tem o dom de roubar o coração de youkais, não é? – Hiko falou ao ouvido dela – Pois bem, depois que eu matar seu amante, deixarei que fique com o coração dele, está bem? – disse encarando Sesshoumaru com ódio – Agora vamos terminar nossa luta! – gritou para o rival.

Sesshoumaru apertou o cabo da Toukijin na mão. Precisava de um primeiro golpe que fizesse Hiko soltar Yuki. Precisava ser preciso, certeiro. Ergueu a espada frente aos olhos e mirou o ponto mais fraco do inimigo.

Sorriu. Não demoraria muito para acabar com o maldito que ousara colocar-se em seu caminho. Não demoraria a libertar a mulher que finalmente o fizera reencontrar um pouco de paz.

"Não deixarei que a história se repita..." pensou consigo mesmo "Não deixarei que a mulher que eu amo morra pelas mãos de alguém que diz ser amor o que sente por ela... Não deixarei que aconteça a você, Yuki, o mesmo que aconteceu à Satsumi. Eu prometo!".



Desculpem mais uma vez... Mas é verdade quando dizem que o ano só começa depois do carnaval. Cruzes, que correria danada. Espero que gostem!

Muitos abraços a todos...

LV.