Capítulo 21 – Amante.

Eu queria poder ter ficado surpreso com Kagura, por ela ter aparecido em São Francisco sem avisar. Mas até mesmo aquilo soou a mais das mais obviedades que ela faria. Ociosa, presa aos tablóides da vida pós-moderna medíocre não era de se admirar que tomasse tal atitude em me seguir.

Ela estava completamente transtornada de ódio. Tive que levá-la para parte de trás do estacionamento a fim de poupar mais um escândalo em minha vida privada. Não foi muito difícil convencê-la a me seguir. Quando começou a gritar, virei-me de costas como quem não está disposto a ouvir tanta baixaria. Clarividente ela não pode deixar de me acompanhar. Kagura não conseguiria ocultar todos os sentimentos mais sombrios que transbordavam naquele momento.

Ficamos na parte mais vazia do estacionamento, de baixo de uma marquise que aquela altura já havia perdido o sentido. O sol escondera-se pelo horizonte, a claridade natural fora substituída pelos holofotes ao redor do grandioso hospital.

-O que significa tudo isso, Sesshoumaru? –ela indagou completamente furiosa apertando um envelope pardo em suas mãos.

-Quem contou a você? Como soube que estava aqui? –indaguei calmamente.

-Eu coloquei um detetive particular atrás de você. Eu sabia que havia alguma coisa errada! –ela disse frustrada, com a voz embargada.

Kagura jogou o envelope em mim com força, com toda a sua ira. Eu não fiz esforço em pegar do chão o pacote misterioso. Não foi preciso de certa forma. Com a brutalidade do impacto, as fotos saíram de dentro, escorregaram teatralmente por cima do paralelepípedo bem cuidado. Vi de relance fotos minhas com Rin saindo do Café antes dela entrar em trabalho de parto.

-Como foi capaz de esconder essa gravidez de mim? –ela aumentou o tom de voz, ainda que vez ou outra a fala sumisse por entre a tristeza iminente.

-E essa ideia só pode ter vindo de Naraku...

-E pelo jeito ele estava certo, não é verdade? –ela balançou a cabeça negativamente. –Dentre todas as coisas, eu jamais poderia imaginar que seria capaz disso.

-Eu não sabia dessa gravidez. –falei seriamente a fitando em decisão. Proferi de uma vez só. –Fiquei tão surpreso como você.

-Não se faça de idiota! Vai negar também o fato de que veio atrás dessa mulher?

-Não. Eu vim atrás de Rin. –falei em sobre-salto. –Mas eu não sabia dessa gravidez.

Kagura engoliu a seco as minhas palavras. Ficou me olhando como quem precisa buscar as palavras certas para serem ditas. Seus olhos transbordavam confusão. Atônita, franziu o cenho. Ela parecia não me reconhecer. E eu não a culpava.

-Eu não posso acreditar que viajou quilômetros e quilômetros de distância para vir atrás de uma mulher que você pouco conhece. Uma mulher de vinte e poucos anos que tem um caso com o filho do senhor Fujitaka. Você tem ideia do que isso representa?

Franzi o cenho. Parte de mim sabia que aquilo era uma sandice. Kagura balançou a cabeça negativamente com o meu silêncio.

-Eu sabia que não era só pelos negócios... –ela respirou pesadamente, passou a mão pelos cabelos tentando se recompor. –Mas jamais iria imaginar que seria por essa menina. E muito menos que ela estava grávida de você... Não podia ter feito isso comigo. Eu não merecia isso depois de tantos anos de lealdade, Sesshoumaru.

-Eu já disse. Eu não sabia da gravidez dela. –falei incisivo dando um passo para frente. –Eu não nego que o verdadeiro motivo de eu ter vindo para cá foi por causa de Rin. Mas ela também me escondeu a verdade. Eu só soube quando a encontrei aqui em São Francisco.

-E por que é que não me contou assim que descobriu? Estava pensando em esconder isso de mim também? –ela aumentou o tom de voz novamente. Aquele escândalo me cansava, apesar de saber de toda a sua dor e legitimar o seu descontrole.

-Iria contar a você pessoalmente.

-Que diferença que ia fazer? –ela balançou a cabeça completamente incrédula. –Você não faz ideia de como eu me senti quando vi essas fotos... Quando o vi com essa... Essa garota! Eu ainda não consigo acreditar que isso tudo está acontecendo... Céus! Você fez um filho com outra mulher!

Kagura continuava com uma penumbra nos olhos. Um olhar vazio como um banco da praça que havia acabado de ser desocupado. Uma vaga tão extensa que parecia não ter fim e que dificilmente seria preenchida. Pude sentir o seu tormento como se fosse o meu. E apesar de não sermos e nem termos sido os amantes mais-que-perfeitos, eu senti por ela. Por aquele fim tão melancólico e incolor. Senti por não poder ter feito nada por ela naquele momento. Vê-la esvair como fumaça por entre meus dedos foi difícil de sorver.

Pensei em lhe dizer algo, mas de minha boca nada saiu. Não havia mais o que pronunciar. Ela estava arruinada, em pedaços.

-Falta tão pouco para o nosso casamento... –as lágrimas dos seus olhos escorreram de maneira silenciosa. Ela não tinha os olhos e mim, e sim nas fotos espalhadas pelo chão despretensiosamente.

-Eu não posso mais, Kagura.

Ela não fez cara de surpresa quando me ouviu dizer, talvez porque já esperava aquelas palavras. Ou quem sabe estivesse tão anestesiada por todas aquelas revelações que acabou por acatar.

Kagura voltou a me olhar.

Embaçada: ela era uma visão terrível.

Um remorso me consumiu. Mas não fui capaz de me desculpar.

-O que aconteceu com você, Sesshoumaru? –ela disse olhando profundamente em meus olhos buscando alguma razão naquilo tudo.

Mais uma vez mantive o meu silêncio para uma pergunta que me pareceu retórica. E pela minha inércia, pela minha falta de tato em lidar com as pessoas, ela se irritou ainda mais.

-Eu só espero que quando essa sua brincadeira de criança acabar você não me procure nunca mais. Pois para mim, hoje, você morreu! –Kagura tirou a aliança do dedo, jogou contra mim da mesma forma que havia feito com o envelope. E com os olhos irados engoliu-me de novo. –A primeira oportunidade que ela tiver, ela não vai te escolher, seu idiota! E eu vou estar lá, para rir dessa sua cara de babaca!

Minha antiga amante saiu pisando firme no chão. Não se deu o trabalho de olhar para trás e eu tampouco corri em sua busca a fim de pedir o seu perdão.

Estava acabado.

Queria ter sentido um alívio, mas não senti.

...

De volta ao quarto, Rin estava de pé olhando coincidentemente através da janela a silhueta de São Francisco. As luzes incandescentes da cidade brilhavam e refletiam em seus olhos castanhos como numa festa.

Ela não se voltou a mim de imediato, continuou a fitar a enorme cidade que crescia bem diante de seus olhos intensos. Hipnotizada pelo andar do lado de fora ficou de costas a mim que mantive o silêncio oportuno.

-Eu fiquei louca ou Kagura veio até aqui? –ela finalmente falou com a voz esquisita, abafada por algum misto de inquietude.

-Então você a viu. –disse recostando-me a parede. Eu não queria tocar naquele assunto.

-De relance. –assentiu calmamente. –Nas escadas... Mas achei que pudesse ter me enganado.

-Não. Era Kagura.

-Contou a ela? –foi então que ela se virou a mim, com os olhos apertados, mordendo os lábios com a ansiedade que lhe era característica. –Contou a ela a verdade?

-Ela acabou descobrindo por ela mesma.

-Como? –franziu o cenho perplexa. –Eu não contei a ninguém, nem mesmo aos amigos mais íntimos.

-Kagura colocou um detetive particular atrás de mim. Ideia de Naraku.

-Um detetive particular? –ela indagou ainda que a pergunta fosse retórica. Talvez aquela ideia tenha soado tão absurda que a fez repetir as minhas palavras.

-Então ela já está sabendo.

-Entendo...

Rin abaixou os olhos, caminhou até o berço improvisado onde nosso filho jazia em silêncio. Ficou o encarando como se estivesse buscando as palavras exatas para me dizer naquele instante. Mas nós dois sabíamos que pouco poderia ser dito a esse respeito. Era incomodo. Imoral. Tecer por entre essas vias era de certo tortuoso. Sugava a alma.

-Eu lamento por isso. De verdade. –ela disse depois de instantes de paz. –Lamento por Kagura saber dessa forma. Por ter talvez arruinado a relação de vocês.

-Eu não me importo. –cruzei os braços caminhando até a sua direção.

-Claro que se importa. –ela pairou os olhos dessa vez em mim. –Eu sei o quanto Kagura é importante em sua vida. E sei que a ama verdadeiramente.

Rin estava certa afinal.

Se eu não amasse Kagura, não me importasse com ela, de fato não a teria permitido se esparramar por anos a fio em minha vida torta.

Kagura estava sempre lá. Ela esteve sempre. Nas mais remotas lembranças, nos espaços mais ocultos e singelos do meu cérebro. A memória dela gritava em minha alma. E apesar de não mais amantes, eu sentia por ela. Por tê-la feito parecer tão descartável e invisível.

Entendia a sua dor e a senti. Senti com uma intensidade abrupta que não era capaz de descrever. Não era clemência. Não era nenhum sentimento degradante que a faria com certeza vomitar se eu sentisse tais coisas por ela. Embolorava o estômago... A boca ácida não negava. Culpa? Talvez fosse. Mas o que na verdade sentia era pesar. Pesar por nossa história não ter dado certo. Era uma pena que não tinha sido ela. Porque notadamente com Kagura teria sido tão mais fácil.

Mas com Kagura não era tão saboroso...

-Não precisa mentir para si mesmo. –Rin prosseguiu ao ver minha inércia. –Kagura é importante. E sempre será.

-Não há nada que eu possa fazer. –disse calmamente.

-Não. Não há. –ela balançou a cabeça em negativa. Deixou um sorriso forçado escapar no canto dos lábios como quem quer consolar. –Só o tempo.

Aquele assunto, apesar de delicado, não pareceu mais importante que olhar para ela e contemplar em silêncio a mulher que era.

Rin estava há centímetros de distância do meu corpo. Seu ser diminuto parecia frágil demais ao meu lado. Eu a poderia esconder atrás de mim se quisesse. E mesmo assim, mesmo tão pequena e aparentemente delicada, era capaz de acender sensações inimagináveis em meu ser. Sentir o seu arfar, a sua respiração beijar a minha pele quente fez o meus pelos se eriçarem. O frenesi que tanto buscava estava de volta. E com tanta força que era impossível ignorá-lo. Quanto desejo eu tinha por aquela mulher... Uma cobiça tão ardente e visceral que me impulsionava para as mais diferentes rotas.

Observei-a ajeitando Katsuo, inclinada sobre o berço. Ela o embalava com paixão, o ajeitava com todo o amor que possuía em seu peito. Parte de sua nuca ficou desnuda com o movimento, pude ver o pedaço que mais gostava de percorrer em seu corpo, que a fazia se extasiar. Ela sempre deixava um sorriso entre dentes escapar quando roçava meus lábios naquela região enquanto a segurava firmemente por trás na cintura bem desenhada. Um sorriso em meio a um arfar excitante que me enlouquecia. Puxava seus cabelos para trás, emaranhando os fios por entre meus dedos de maneira firme.

Meu corpo ficou rígido quando a recordação veio à mente. Um calor invadiu meu peito, aquecendo completamente o meu interior. Que excitação involuntária e perturbadora...

-O que foi? –ela me olhou de soslaio voltando à posição anterior. Colocou duas mexas de cabelo para trás da orelha sentindo-se um pouco desconfortável com meus olhos tão incisivos.

-Só estava divagando. –balancei a cabeça negativamente a fim de também me desvencilhar daqueles pensamentos eróticos.

Ela sorriu mesmo sem vontade, uma agitação incomum a dominara. Cruzou os braços na altura dos seios como se estivesse um pouco encabulada.

-Sabe, eu me sentia tão estranha quando estava grávida. Aquele corpo, aquela barriga engraçada... Uma barriga tão grande como eu nunca pensei que teria um dia. –ela deu uma risadinha fitando os próprios pés que balançavam pelo ar. –Eu tão acostumada a usar vestidos justos, costas nuas, saltos, me vi de repente numa tarde preferindo um moletom e chinelos. Calçar qualquer sapato que precisasse de maior esforço que enfiar o pé era simplesmente um pesadelo. Abaixar era um pesadelo!

Eu sorri brevemente. Podia-a imaginar nitidamente.

-Eu só queria que isso acabasse. Que Katsuo nascesse logo. –seus olhos estavam brilhando, havia uma emoção em sua voz. –E quando eu o olhei, Sesshoumaru, quando olhei o nosso filho, foi como se tudo que eu passei não significasse nada diante da grandeza que ele representa. Os ataques de humor, as intermináveis idas ao banheiro, o inchaço nos pés, a barriga gritando para fora do meu corpo... Tudo isso se apagou no instante em que o peguei em meus braços. Eu faria tudo de novo para poder olhá-lo, senti-lo em meu colo.

Ouvindo aquelas palavras, lembrei-me do meu primeiro contato. Através de um vidro indelicado nas mãos de uma enfermeira. A emoção era recíproca. Vê-lo foi como ter nascido de novo. Uma parte de mim também havia se acendido.

-Sei que não sou mais a mesma Rin de antes. E talvez eu nunca mais seja. –ela sorriu novamente passando a mão pelos cabelos numa maneira de me mostrar que estavam curtos. –Mas o que sinto por você nunca mudou, em nenhum dia.

-Você nunca foi à mesma Rin de sempre, ou de antes. É por isso que me encanta todas às vezes. Você é capaz de me surpreender. Você é única... E eu a amo por isso.

Ela sorriu contente. Dessa vez um largo sorriso sincero que preencheu o início daquela noite.

-Mesmo com uns quilinhos a mais? –ela riu irônica franzindo a testa. E foi então que compreendi o que ela estava querendo dizer desde o início. Sentia-se insegura com seu novo formato que não perdurou por muitos meses.

-Se soubesse no que eu estava pensando há pouco... –devolvi a ironia. –Sim. Sem dúvidas.

Rin me abraçou como se fosse óbvio. Elevou o queixo pedindo um beijo meu que lhe foi concedido sem procrastinação. Colei meus lábios com os dela, e a fim de sentir seu gosto penetrei com a língua em sua boca. Um beijo talvez lascivo demais pro momento. Mas eu precisava de sua saliva. De sua língua aveludada sobre a minha.

Ela desvencilhou-se de mim com um sorriso alegre, arfou buscando ar enquanto eu a segurava pela cintura.

-Nunca um beijo singelo. –ela disse em ironia enquanto encaminhava-se a cama para sentar-se novamente.

-A graça está em não ser singelo. –eu lhe lancei um sorriso malicioso no canto dos lábios.

-Receio que o tempo será o nosso inimigo. Nas minhas condições terá que se conformar com esses beijos...

Ela pareceu esmorecer quase que instantaneamente, como se aquelas palavras proferidas tivessem pesado toneladas em seus lábios perfeitos. Sabia que não era pelo erótico da coisa, havia algo mais, algo implícito em seus devaneios.

-O que aconteceu? –tive que perguntar franzindo o cenho pela sua rápida alteração de humor.

-Não, não foi nada. –ela balançou a cabeça negativamente balançando a mão direita como que para afastar pensamentos inoportunos. –Só estava pensando em quando partir...

Quando eu partir... Aquela frase óbvia me deixou hesitante por um minuto. Ela tinha razão, eu teria que voltar. E ainda não havíamos decidido como seria dali para frente. Ainda que para mim fosse claro o meu desejo de me juntar a ela, dependia de um acordo e de algo palpável da qual pudéssemos nos apoiar.

-Penso que assim que Katsuo puder viajar de avião venham morar comigo em minha casa.

-Talvez não dê tempo suficiente...

-Do que está falando? –arquei uma única sobrancelha.

-Talvez não dê tempo suficiente de Kohaku se recuperar nesse tempo. Eu não posso abandoná-lo aqui, deixá-lo sozinho.

-Kohaku... –eu tive que deixar um breve grunhido de insatisfação deslizar pelos meus lábios. A incredulidade tomou conta de minha tez. –Não pode estar falando sério.

-Quando vim para cá com Kohaku eu o fiz uma promessa. Eu não o abandonaria. E não vou abandoná-lo. –ela falou de maneira firme, com os olhos seguros.

-Está querendo que eu aceite que viva sob o mesmo teto que ele com o meu filho? Vai me afastar por que fez uma promessa a Kohaku? –eu lhe disse severo, com uma entonação tão firme quanto à dela.

-Eu conheço Kohaku desde que era uma menina. Ele fez parte da minha vida inteira, e se não fosse por ele, talvez Katsuo nem tivesse existido... Eu devo muito a ele. Kohaku esteve comigo durante duros momentos, Sesshoumaru. Durante momentos que nem imagina. Não posso dar as costas a ele agora.

-Quantas penitências você ainda terá que pagar a ele, Rin? –eu lhe disse incisivo. –Kohaku é adulto, rico, um homem feito. Não deve nada a ele.

-Não entende? Nunca me perdoaria se o deixasse... E ele está progredindo! –ela levou a mão ao peito fazendo um esforço enorme para parecer o mais sincera possível. –Não ficaremos em São Francisco para sempre, talvez seja só mais alguns meses. E depois, pode ser que aconteça algo em sua vida e ele não precise mais de mim como nesse momento.

-Ele não precisa de você. –falei de forma ríspida. –Quem precisa sou eu e Katsuo. Kohaku não precisa de você.

Rin suspirou pesadamente. Passou a mão pelos cabelos lisos tentando buscar uma calma ou algum argumento interior que seria incapaz de me convencer. Aquilo era uma sandice.

-Sesshoumaru...

-Se pensa que irei aceitar isso, está muito enganada. Terá que escolher o que quer.

-Não faça isso. –ela lamentou em murmúrio, os olhos estreitos completamente decepcionados transformavam seu rosto teatralmente num melodrama. –Isso não é uma briga entre você e Kohaku. E tampouco uma escolha. Se essa possibilidade existe é porque você está me obrigando a escolher. E eu não preciso. Eu não tenho que escolher entre você e ele, isso é ridículo.

-Essa conversa é que soa ridícula. Não tem nenhum cabimento.

-Se me ama de verdade irá entender. –ela falou novamente fincando mais os olhos em mim. –E se me ama de verdade sabe que o amo também, e que o que temos não tem nada a ver com o que tenho com Kohaku.

-Tire as algemas, Rin. Kohaku também precisa tirar as dele.

-Você realmente acha isso certo? –ela aumentou o tom de voz agora visivelmente irritada com minhas palavras. –Você acha que eu teria coragem de chegar para ele e dizer "olha, Kohaku, agora que eu arrumei a minha vida e não preciso mais de você, eu vou embora! Ligue para mim se precisar de algo"? Acha que eu seria capaz de falar uma coisa dessas para uma pessoa que esteve comigo todos esses anos por causa do seu maldito ego?

Aquela última frase me irritou profundamente. Acabei por dar dois passos para frente enquanto ela continuava a tagarelar de modo cortante.

-Eu fui muito clara quando disse a Kohaku que só iria embora quando ele não quisesse mais a minha presença. E eu não o irei deixar aqui, Sesshoumaru. Eu prometi a ele, ao senhor Fujitaka, e principalmente, a mim mesma que jamais o abandonaria quando ele mais precisasse de mim. Você sabe disso, sabe muito bem que eu seria incapaz de deixá-lo para trás! E eu não acredito que está achando que estou o escolhendo. Que se trata de uma escolha. Isso não tem nada a ver com escolha. Eu o amo, Sesshoumaru. Amo mais do que posso aguentar. Mais do que um dia pensei que amaria alguém. Mas não posso simplesmente sair da vida de Kohaku nesse momento. Você sabe que tenho razão. Sabe disso... Droga!

Eu engoli a seco aquelas palavras. Rin estava perturbada, com os olhos inundados das suas raras lágrimas que agora pareciam corriqueiras. Num passado não tão distante ela não choraria na minha frente. Mas como ela bem dissera, já não era mais a mesma. Quase... Sua essência sediciosa continuava ali.

-Você não pode ficar entrando e saindo da minha vida desse jeito... –ela continuou em lamento, esfregando os olhos para impedir as teimosas lágrimas de cortarem o rosto rubro. –Não estou dizendo que isso será para sempre porque não será. E nem que não possa estar ao meu lado. Só não estará comigo se não quiser. Eu falaria com você todos os dias, e esperaria que viesse nos visitar sempre que pudesse. Há tantos meios de nos comunicarmos, de podermos nos encontrar... Isso não é uma escolha. Por favor, não faça isso... Não trate isso como uma escolha.

Eu queria ter negado, continuado com a minha postura inabalável, ter quem sabe saindo em sobre salto daquele quarto batendo forte a porta. Selando e enterrando-a finalmente da minha vida. Mas não fui capaz. A maldita inércia havia me dominado pela milésima vez. Petrifiquei de vez ao escutar o som já conhecido do choro meloso de Katsuo. O choro que implorava o colo da mãe.

Ela se levantou com cuidado da cama, limpou o rosto manchado pela tristeza e o pegou cuidadosamente no colo. Balançando-o de maneira serena foi sentando-se novamente a fim de dar-lhe o peito direito. Faminto, o vi abocanhar o bico rosado com veemência.

Aquela cena me fez reconsiderar. Eu não seria mais capaz de viver sem eles. Querendo ou não admitir.

-Faça o que quiser. –eu disse friamente. –Não direi mais nada, Rin.

Ela fungou assentindo. Seu nariz estava vermelho.

-Quando pretende ir embora? –ela indagou com a voz embargada fitando Katsuo em seus braços.

-Eu já deveria ter partido, mas creio que não haja um problema tão grande se eu ficar por mais uns três ou quatro dias aqui.

-Isso será ótimo. –ela assentiu ainda não olhando para mim. –Ter sua presença por esses dias... Será ótimo.

-Quero conhecer o lugar onde está ficando. Se não faltará nada a você e ao meu filho. –disse de maneira desconfortável. Ainda não havia digerido a informação de que continuaria com Kohaku em São Francisco.

-Claro. –ela finalmente voltou os olhos para mim quando ajeitou Katsuo em seus braços. Seu nariz ainda avermelhado acabou sendo apagado pelo sorriso que vinha crescendo pouco a pouco em seus lábios. –É um excelente apartamento. O quarto de Katsuo já está pronto, eu o decorei sozinha. Sabe como é: arquitetos... Nunca perco o hábito.

Eu não sorri, apesar de ter ficado estranhamente animado para ver a sua obra de arte. A ideia de ser na casa de Kohaku era um banho de água fria em pleno inverno. Aquele pequeno grande detalhe que não me fazia relaxar completamente. E Rin sabia disso. Sabia que seria difícil para eu aceitar algo como aquilo.

-Espero que me deixe fazer o mesmo em nossa futura casa... –ela arranhou a garganta, como se estivesse buscando coragem para prosseguir. –Já que disse que podemos nos mudar para lá... Pensei que seria agradável dar algum toque meu. Para que eu realmente me sinta em casa quando chegar.

Fazia uns bons anos que eu não decorava a mansão. Isso porque Kagura estava sempre modificando uma mobília aqui e ali. Mesmo não morando de baixo do mesmo teto, ela costumeiramente metia o bedelho e eu a deixava em paz para fazer o que bem entendesse. Não podia privá-la disso. Passava mais tempo na minha casa do que na própria. E não havia como negar de que ela tinha bom gosto. Eu pouco tinha tempo para coisas corriqueiras como essas.

Pensar na ideia de Rin arrumando a mansão me fez feliz. Certamente a casa não seria mais a mesma com seus toques ora modernos ora vitorianos. Pensar que ela estará lá, de que isso fará parte de um futuro, mesmo que não muito breve, fez meu coração se acalmar.

-Seria ótimo. –a respondi calmamente. –Faz tempo que a mansão está precisando de alguém como você.

Rin sorriu animada. E pude jurar ver seus olhos marejados, mas ela não deixou a emoção transparecer mais do que de fato estava.

-Trabalharei arduamente nisso. Quero poder chegar e encontrar da maneira que estou pensando agora.

Eu assenti. Estava tão ansioso quanto ela.

-Eu o amo. –ela continuou com a voz novamente embargada. –Amo de verdade, Sesshoumaru.

Diante daquela fala, tive novamente que me aproximar dela. E como se fosse óbvio beijei-lhe a testa antes de colar meus lábios com os dela de maneira serena. Percorri o canto de seu rosto, acariciando-o em reverência E toda aquela discussão anterior pareceu nunca ter existido. Eu não podia mais perdê-la para mim.

-Eu também a amo. –disse por fim enquanto recostava delicadamente sua cabeça em meu peito.

...

CONTINUA...

Nota:

Obrigada a todos por ainda continuarem aqui comigo e pelas (sempre) mensagens de carinho que recebo, tanto no inbox como nos comentários. Sou muito feliz por ter pessoas como vocês me acompanhando.

Grande beijo.

Até o próximo capítulo.