Capítulo 19 – Evenfall

Capítulo 19 – Evenfall

Nota da autora: Olá, amigos! A fic está se aproximando cada vez mais do seu final. Os três últimos capítulos foram escritos num espaço de dois dias (eu estava em casa, sem aulas, por isso acabei me empolgando...), e agora simplesmente não quero parar de escrever até terminar. Mas, é claro, a velocidade das publicações é diretamente proporcional ao número de reviews... por enquanto, posto um único capítulo por semana, mas se vocês quiserem que eu tente postar mais... Mas vamos voltar à fic, que é o assunto importante. Dessa vez, tirei essa palavra de uma canção do Sonata Arctica chamada My Selene, e significa (pelo menos de acordo com o site onde baixei a tradução), mais ou menos, "queda", ou qualquer coisa assim. Teremos um pouquinho de Royai? Sim. Ed irá aparecer? Sim. Eles irão resgatá-lo nesse capítulo? NÃO. Mas vocês entenderão o motivo no final desse capítulo. Obrigado, Sammy-chan e Clara Evans pelas reviews (e seus pedidos estão registrados, mas não sei se posso cumpri-los – risada malvada...). Então, até lá!!

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Há muito tempo a sala de Roy Mustang não estava cheia e, mesmo assim, tão silenciosa.

Todos evitavam se encarar ou dizer qualquer coisa. Elysia estava na enfermaria, sendo medicada e alimentada, mas era mantida sedada, por segurança. Eles ainda não queriam que ela soubesse o que aconteceu com o professor de alquimia dela, pelo menos não até estar totalmente recuperada. Além do mais, a pobre criança não precisava sofrer mais do que já havia sofrido naquele dia louco.

Alphonse era o que estava mais perdido. Ed poderia ter fugido com eles, se quisesse. No final, ele fez exatamente o que queria: ficou para tentar derrotá-los, sozinho, mesmo sabendo que não conseguiria nem chegar perto daquilo. E, apesar de se recusar a pensar nisso, sabia que muito provavelmente Ed jamais sairia vivo daquele lugar. E se (ao pensar nisso, um arrepio percorreu sua espinha) a alma dele também tivesse sido roubada, e agora estivesse presa à tal pedra filosofal?

Não, ele jamais permitiria aquilo. Ed prezava sua integridade acima de tudo, e preferiria se jogar na frente de um tiroteio a deixar que fizessem aquilo com ele. Mas Al não sabia se esse pensamento era reconfortante ou não. Só conseguia pensar que, de uma forma ou de outra, o perderia para sempre. Engoliu em seco, sentindo o desespero crescer dentro dele. Edward não podia morrer. Ele não iria. E ponto final.

–Ele ainda está vivo, Al – então, Marion disse de supetão, como se lesse seus pensamentos – Eu o sinto. Não sei como, mas sinto, e a alma dele ainda está intacta – o alquimista da tempestade entendeu que, provavelmente, aquela nova habilidade era devida à evolução da Marca da outra – Mas ele está fraco, e não sei quanto tempo ainda poderá resistir.

–Então temos que ir até lá resgatá-lo! – o alquimista sentiu a esperança crescer – Seguiremos o plano original, uma força-tarefa, tiramos ele de lá e dinamitamos tudo, e aí...

–É impossível, Al – era Roy, que se recusava a olhar o garoto nos olhos – Agora que já entramos lá, eles estarão dez vezes mais atentos e preparados. Nem que mandássemos o QG inteiro, teríamos condições de resgatá-lo. Além do mais, se tentássemos... muito provavelmente, eles o matariam na mesma hora. Sinto muito, mas... é melhor começar a considerar a possibilidade de o pior acontecer.

Aquelas palavras varreram o ar dos pulmões de Alphonse, que se viu obrigado a se sentar para não cair. Então eles o deixariam lá sem fazer nada? Iriam deixar que um dos seus melhores alquimistas, um dos mais leais, se perdesse daquele jeito? Era inacreditável. De repente, Al entendeu o que o irmão sentia, aquela sede desesperada de vingança que só iria se aplacar quando todos pagassem como deviam pelos seus crimes. De repente, a atitude do outro começou a fazer sentido, pelo menos para Al, e ele sabia que era capaz de fazer o mesmo, se quisesse.

Mas não queria. Seu coração se recusava a crer que Ed não se salvaria. E ele preferia confiar nisso, enquanto houvesse a mínima chance.

–Não o condenem ainda – ele disse – Ele é esperto, vai conseguir se safar dessa. Vocês vão ver.

Ele sabia que aquilo soava extremamente infantil a todos, e os olhares de pena de todos na sala confirmavam isso. "Que droga...", era tudo o que ele pensava. Que droga. Ele estava sozinho. De novo.

–E se eu fosse até lá? – uma última idéia – Seguindo o plano original dele! Uma única pessoa dá menos na vista do que três...

–Não, por razões que já foram explicadas antes – foi Riza quem respondeu – Não podemos perder mais um dos nossos a essa altura. Precisamos esfriar a cabeça e pensar, e isso é tudo o que podemos fazer por enquanto.

Um grito de pura raiva veio à sua garganta, mas ele não o deixou sair. Não era a hora. Eles o queriam calmo? Ótimo, então ele ficaria calmo. E, calmamente, iria se virar por conta própria. Ele não abandonaria seu irmão. Seu nii-san. Era assim que ele o chamava. Ed lhe devolvera a vida, trazendo seu corpo de volta, e era hora de retribuir, trazendo-o de volta também. Eles nem saberiam, e não poderiam impedi-lo...

E ele nem podia sonhar que, a quilômetros de distância, tudo o que o irmão mais queria era que ele ficasse o mais longe que pudesse daquele inferno...

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Ed despertou com os braços dormentes. Estava amarrado a uma cadeira, as mãos envolvidas com fita isolante impossibilitadas de qualquer movimento, as pernas atadas às pernas da cadeira. Seu corpo doía como se tivesse passado por um moedor de carne, havia cheiro de sangue no ar, e sentia os cabelos pegajosos e grudentos em sua testa. Um dos olhos, inchado, não se abria direito. Sentiu frio, e percebeu que sua camisa havia sido arrancada, revelando seu peito nu e cheio de hematomas e cortes ainda abertos. À sua frente, um homem alto, com cabelos vermelhos, brincando incessantemente com uma corrente nas mãos. Ele o encarou, sem dizer nada.

–Edward Elric, eu suponho – o homem falou primeiro – O alquimista federal mais jovem da história. Inteligente, forte, talvez um pouco rebelde, mas ainda assim com um imenso valor. Perdoe-me por não ter me apresentado antes. Meu nome é Drake, e eu lidero a nobre ordem Black Rose.

–Quanta nobreza, seqüestrar uma criança – debochou Ed, sentindo a voz mais débil do que gostaria. Só então percebeu que dois molares estavam faltando em sua boca – Imagine se vocês não o fossem.

A resposta foi um soco no estômago, não de Drake, mas de um homem encapuzado ao seu lado. Ed arquejou, a cabeça inclinada para frente o máximo que as cordas permitiam.

–Como eu disse, é exatamente a sua língua sem freios que lhe causa problemas – a voz de Drake permaneceu impassível – Foi idiotice da sua parte tentar vir aqui, um desperdício de potencial.

–Elysia está livre – o alquimista de aço deu um sorriso fraco – Vocês não vão pegá-la outra vez. Então, não foi um desperdício. A missão foi cumprida, como deveria.

–E você acha que isso irá nos impedir? – o homem debochou, rindo alto – Posso pegar qualquer idiota e transformá-lo no hospedeiro que preciso. Qualquer um. Você só salvou a vida daquela inútil menininha, mas não conseguirá salvar a sua corporação quando terminarmos.

–Não pretendo salvar mais ninguém – o primeiro deu de ombros – E vocês realmente não me deixariam sair daqui, não é?

–Realmente, não pretendemos fazer isso – o homem falava como se estivesse comentando a respeito do resultado do último jogo de futebol – Mas achei que meus companheiros gostariam de se divertir um pouco, já que, infelizmente, a srta. Hughes nos escapou.

Na frente dele, apareceu Envy. O maldito Envy, rindo como sempre. Ele adoraria ter a chance de ver o alquimista de aço sem reação, só para poder torturá-lo e fazê-lo sofrer. O homúnculo caminhava lentamente, observando deliciado o seu maior inimigo inerte, amarrado a uma cadeira, exausto e ferido demais para tentar reagir.

–Vamos brincar, Eddie – ele disse, passando os dedos no rosto do alquimista, que recuou imediatamente, enojado – O que, não gosta dos meus carinhos? Então você deve preferir uma coisa um pouco mais... violenta?

Ele deu um imenso soco no rosto do outro, que fez com que até a cadeira oscilasse. Depois do primeiro impacto de dor, que o cegou, levantou lentamente a cabeça, sentindo na boca o gosto do próprio sangue. Mas o encarou, profundamente. Os olhos estavam brilhando de um jeito diferente, desafiador, como se o incitasse a acertá-lo de novo.

–Diga-me uma coisa, Envy – ele disse, entreabrindo os lábios num sorriso sarcástico – Quando é que você vai vestir-se feito um homem? Ou será que você gosta de usar esse sutiã e essa sainha?

Outro golpe, dessa vez um soco no estômago, dez vezes mais forte que o anterior. Mas, quando Ed se recuperou, constatou, com uma pontada de satisfação, que o sorriso do outro havia desaparecido. "Você quer brincar, Envy-chan?", ele pensava, cáustico. "Pois bem, eu também sei brincar!". O homúnculo parecia não acreditar que ele ainda era capaz de insultá-lo, depois de tudo.

–Vai chegar uma hora em que eu vou ver você chorar e pedir piedade – ele não ria – E até lá, posso fazer o que eu quiser com você. Eu posso chutá-lo – deu um chute direto em seu peito, fazendo-o arfar de dor – e também posso socá-lo – acertou-o no rosto, outra vez – E, quem sabe, posso até acertá-lo nos piores lugares – e, então, socou-o bem entre as pernas, e Ed, sem se conter, ganiu de dor – Vou me divertir o dia inteiro, e quando me cansar, é só chamar a Eclipse e ela terminará o serviço por mim.

Os últimos golpes deixaram Edward fora do ar. Era como se cada músculo do seu corpo implorasse por misericórdia, e pedisse que ele acabasse com aquilo de uma vez, levasse aquela dor embora. Mas o alquimista se recusava a demonstrar. A cada golpe, lembrava-se de por que estava lá. Por ele estar lá, Marion, Elysia e Alphonse estava em segurança. Era a Troca Equivalente. Um em troca de três. A lei do universo funcionando novamente. Como deveria ser.

–Vá pro inferno – a voz dele sumia cada vez mais, mas em compensação a chama dos olhos ficava cada vez mais forte, alimentada pela raiva crescente – Você vai me matar, mas não me verá implorar.

–Será mesmo? – Envy sorriu, novamente – Sabe, eu esqueci de te dizer, mas quando voltei para cá, meus poderes de metamorfose também voltaram com força total...

–E o que eu tenho com isso? – Ed tentou passar na voz uma confiança que não tinha – Se é assim, porque não arruma uma aparência mais máscula no lugar desse corpinho e dessas roupas de maricas?

–Acho que você não entendeu bem – e, lentamente, ele foi se transformando numa forma muito conhecida dele – Agora, você será obrigado a encarar todos aqueles que morreram por sua causa, sr. Elric... por sua causa...

E, bem na sua frente, surgiu a figura de Tatiana Ahkmatova.

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–Isso é simplesmente um pesadelo – logo depois que os outros saíram, o primeiro escalão da equipe que investigava o caso Black Rose estava reunido na sala de Marion – Kain morto, Ed capturado, mais de duzentas pessoas assassinadas em três dias... como isso pode ficar pior?

–Não pode, Riza – respondeu o coronel – Não pode. Agora só podemos atacá-los diretamente. Sabemos onde fica a sede deles. Um ataque certeiro, como o Al sugeriu, seria perfeito.

–Mesmo assim, não conseguiríamos tirar o Fullmetal de lá – argumentou Marion – Você mesmo disse isso, Roy. É horrível pensar assim, mas não há mais nada que possamos fazer. E, mesmo que por um milagre ele consiga escapar, dá para pensar nas coisas horríveis que eles certamente farão ao rapaz? Ele não sairá ileso de maneira alguma – a voz dela baixou – Temo que estejam descontando nele o fato de eu ter sobrevivido ao Envy...

–Eu confio nele – Roy foi direto – O que Alphonse disse não é absurdo. Está além da minha capacidade ajudá-lo, mas sei que ele vai conseguir se virar – ele suspirou, lançando um olhar rápido a Riza – E, se ele não conseguir, nós vamos até lá e descemos bala em todos aqueles desgraçados. Não há mais o que planejar. Nós iremos até lá atacá-los com tudo o que o grande Exército de Amestris tem, e eles nem vão saber o que os atingiu.

As duas mulheres o encararam, e sabiam que ele falava sério. Não dava mais para esperar. Marion colocou em palavras a pergunta que também estava nos olhos de Riza:

–Quando?

–O mais rápido possível – respondeu o alquimista das chamas – Quero o máximo de voluntários que vocês puderem conseguir. Pouco me importo se eles saberão ou não, já sei que tem um traidor aqui, e ele vai dizer tudo aqueles desgraçados assim que tiver a chance. É até melhor que saibam, porque vão saber que estão lidando com gente de categoria.

Riza prestou bastante atenção no seu coronel. Nos olhos dele, aquele mesmo brilho da caverna, nos tempos de Ishbal. Ele queria aquilo. Ele gostava daquilo. Ela pensou no que exatamente o coronel se diferenciava de garotos inconseqüentes como os Elric... Mas, dessa vez, ela concordava. Eles demoraram demais para agir, e agora tinham muito pouco tempo. Se eles já tivessem a Pedra, seria impossível derrotá-los.

Foi então que ele percebeu, e olhou fundo nos olhos castanhos dela. Ela corou, sem querer, e ele deu um sorriso tranqüilizador. Sim, o seu coronel sabia o que estava fazendo, e mesmo que não soubesse, fingia bem o bastante para que ela confiasse nele. Ela meneou a cabeça, afirmativamente. Já fizeram coisas mais perigosas antes, aquilo seria fácil...

–Marion, pode me fazer o favor de redigir alguns mapas completos da sede da Black Rose? – o alquimista foi objetivo – Se preciso for, pressione mais a Quasar, enfie umas porradas nela, mas tente extrair o máximo de detalhes que puder. Quanto mais soubermos, melhor.

Ela bateu uma continência e saiu, fechando a porta. Na sala, apenas o coronel e a major ficaram, se encarando. Ele estava tão confiante, tão calmo... de uma forma que quase a irritava. Estava tudo desmoronando à sua volta e ele permanecia impassível daquele jeito. Era quase insultante.

–Por favor, Roy, diga-me que você realmente tem um plano – ela disse rápido – Não quero perder mais nenhum companheiro graças a planos furados...

–Sei o que estamos fazendo – ele a olhou nos olhos – Além do mais, não há outra maneira a não ser partir para o confronto direto. Eles estão brincando conosco desde o começo. Só espero que não seja tarde demais, mas temos que tentar. Essa pode ser a batalha mais importante das nossas vidas!

–Eu sei – ela desviou o olhar – Mas isso não diminui meu medo. Eles nos fizeram de bobos até agora, se os enfrentarmos, eles podem massacrar todos nós.

–Penso nisso a todo momento, Ri – o tom dele passou a ser melancólico, triste – Sei que, quando eles tiverem a pedra, será praticamente impossível derrotá-los. Mas vai ficar todo bem – ele a fez encará-lo – Você vai ficar bem. Nós vamos ficar bem, entende? Nós vamos.

Ela não sabia se o odiava ou se o amava ainda mais, enquanto o encarava. Mas também não quis pensar. Atrevida, ela o beijou, inclinando-se sobre a mesa, e ele correspondeu na hora. Foi um beijo longo, quase cinematográfico, interrompido apenas com o abrir da porta:

–Coronel, eu acho que ela... não... sabe... mais nada... – era Marion, que ao se deparar com aquela cena estacou na hora – Eu estou interrompendo alguma coisa, não estou? Volto mais tarde...

–Não, espere – ele não pôde deixar de rir – Espere. Sei que não preciso dizer mais nada, mas nós estamos juntos.

–Realmente, não precisa – Marion também começava a achar graça, e apenas Riza corava como um pimentão – Não quero atrapalhar o casalzinho, mas já drenei aquela cabeça-oca ao máximo. Fiz um mapa para o dia do resgate, e ela não acrescentou nada a ele. Aqui está. É tudo o que temos, e não é muito. Acrescentei umas coisas que eu mesma vi, depois.

–Vai ter que servir – ele analisou o desenho – Tem o exterior bem-detalhado, e isso é o bastante. Agora comecem a recrutar as pessoas certas. Quero soldados que sejam dedicados, inteligentes e habilidosos. Por enquanto, procurem voluntários, depois teremos que recrutar outros. Agora vão!

As duas mulheres bateram continência e saíra, deixando o coronel sozinho, pensando.

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–O que foi, Eddie? Não gostou de ver a sua namoradinha de novo? – a semelhança era assustadora. Ed ficou branco, ao ver aquele maldito corrompendo a aparência pura da sua Tatiana – Sabe, ela só precisava ter chamado você, e nós o teríamos levado primeiro. Ela ficaria viva... talvez – Envy sorriu, maldoso – Mas ela não quis. Disse que não o trairia. E a vadiazinha inclusive me arranhou, mas eu e a Eclipse-sama demos um jeitinho nela.

–DESGRAÇADO! NÃO FALE DELA COM A SUA BOCA IMUNDA! – o sangue começava a lhe subir a cabeça. Sem querer, uma lágrima se formou e começou a escorrer. Já não bastava tê-la matado, agora precisava ofender a memória dela?

–Então quer dizer que você não gosta que eu a ofenda? – ele deu uma risada alta – Então está bem. Não vou ofendê-la. Não vai ser necessário. O que acha de ela brincar também?

Então ele sentiu os dedos dela, macios como os dela, em volta do seu pescoço, fechando-se com uma força que ele sabia que não era dela. A respiração começou a falhar. Ele não podia fazer nada, só encarar aquele monstro que se parecia com sua namorada e que agora estava estrangulando-o lentamente, como se fosse para obrigá-lo a ver aquele rosto por mais tempo.

–PATIFE! – não, não seria simples assim. Reuniu toda a força que tinha e jogou a cabeça para frente, dando uma cabeçada no homúnculo, que cambaleou e retomou sua forma original. Os dois se entreolharam, mais uma vez. Ed estava ofegante, exausto, sentindo dores pelo corpo inteiro, mas jamais permitiria que aquele nojento corrompesse a imagem dela. Jamais.

Era estranho, mas Drake não esboçava uma reação sequer. Ele ficou lá, apenas assistindo, sem fazer absolutamente nada em favor de Envy. Por quê? Ah, e desde quando isso fazia diferença? Pouco se importava para aquele homem estranho de cabelo vermelho que falava educadamente. Ele era como os outros, um patife perverso e sanguinário que matava para conseguir poder. Envy não agüentava mais. Com a voz rouca de ódio, disse:

–Eu me cansei de você. Vou deixar a Eclipse terminar.

E então, à simples menção de seu nome, a mulher alta e branca de cabelo longo também branco apareceu entre eles. Ela o observava de uma maneira intensa, como se tentasse enxergar através dele. Os olhos azuis eram gelados como um iceberg, assustadores. A própria presença dela fez com que a sensação de frio que Ed sentia se intensificasse ainda mais.

Naquele momento, ele teve certeza de que tudo estava prestes a acabar.

E, com surpresa, flagrou-se pensando em como seria, no que pensaria. Seria doloroso? Demoraria muito? Se ela roubasse a sua alma, ele sentiria? Haveria algo além, se ela não a levasse? Constatou, levemente surpreso, que não tinha medo. Quando encontrou o corpo de Tatiana, pensou que aconteceria, mas não como aconteceria. Na hora, lhe parecia impalpável, distante, algo sem importância o bastante para que se preocupasse. Mas agora, estando tão próximo, encarando-a sem máscaras, sem esperança de sair, apenas vendo-a friamente, não via por que temer. Era o fim. Todos chegavam ao fim, sem exceção.

–Existe coragem nos seus olhos, Elric Edward-san – apesar de tudo, surpreendeu-se, pois na voz dela encontrou um certo respeito – Será rápido, e limpo. Respeitamos aqueles com coragem, e você é um deles.

–O que pretende fazer? – perguntou ele, a voz controlada – Você roubará a minha alma também?

–Essa possibilidade não parece assustá-lo tanto quanto os outros – ele percebeu um levíssimo esboço de sorriso na face dela – Sim, é o que eu pretendo. Sei tudo sobre você, Edward-san. Sua alma é forte, e poderosa, e sua mente é sagaz e inteligente. Servirá bem ao nosso propósito.

Ed olhou para o lado. Envy estava encolhido, silencioso, ao lado de Drake. Ele também não falava nada, mas observava a mulher com interesse. O alquimista de aço não sabia por que, mas começou a se sentir impaciente, e confuso. Sentia o olhar da mulher esquadrinhar seu corpo como uma máquina de raios-x, e isso era incômodo. O que ela procuraria com tanto interesse?

–Sua idéia original era vingar a sua namorada, Ahkmatova Tatiana – ela disse, e ele arregalou um pouco os olhos, surpreso – Como disse Drake-sama, realmente um desperdício de potencial. Mas, se isso o consola, sua alma e a dela permanecerão juntas, como parte da Pedra Filosofal, para sempre. Agora, tem mais alguma coisa a dizer?

Tudo parecia tão claro... tão simples, de repente... Se havia algo que ainda queria dizer? Sim, é claro que havia, mas não para eles. As palavras que escolhera para ser suas últimas não mereciam ser ouvidas por eles, então iriam embora, com ele, para sempre. Ele a encarou e meneou a cabeça, negativamente. Rápido e limpo, ela disse. Era tudo o que queria. Olhou nos olhos dela, profundamente, enquanto ela tocava sua cabeça, com dedos gelados e uma espécie estranha de carinho e cuidado, como se não quisesse machucá-lo.

E então, começou. Como uma enorme ventosa, sentiu algo quase virando-o do avesso, a partir do ponto em que ela o tocava. E a dor... era impossível colocá-la em palavras. Era como se cada célula sua se rasgasse em pedaços. Mas ele suportava em silêncio, sem gritar, sem resmungar. Pensava em todos os que ficavam, todas as boas pessoas que haviam ajudado-o ao longo da vida, todos aqueles de quem gostava e que se foram. Pensou nos amigos da Central, em Roy Mustang, em Riza Hawkeye, até mesmo em Marion, que apesar de rabugenta, era uma pessoa de bom coração. Pensou em Tati, e no quanto sentia por aquilo tudo ter que acontecer, e por não ter conseguido salvá-la. Mas, principalmente, pensava em Alphonse, e pedia perdão a ele, por não ser o irmão que deveria ser, por ser tolo e estúpido e não merecer tudo o que o mais novo fizera a ele. Em breve, nada mais importaria. Em breve...

"Rápido e limpo, ela disse... mas por que está doendo cada vez mais?", ele pensou. E, ao olhar para ela, viu que ela também não entendia. Algo estava errado... Então, ela tirou a mão dele, deixando-o, mole e tonto, quase caindo. Ela o observava, incrédula, e disse:

–Eu não consegui – Drake se levantou, encarando-a – Não sei, mas a alma dele está de tal forma aderida ao corpo que não consigo removê-la.

O líder da Black Rose e a alquimista o observaram intensamente, como se tentassem entender o que havia dado errado. Ele era diferente dos outros, então? Talvez as repetidas vezes em que cruzou a Porta tivessem algo a ver com isso. Talvez, por isso, não tenha se desmanchado em nenhuma delas: a forma como sua alma estava aderida ao seu corpo o mantinha íntegro. Era uma constatação interessante, sem dúvida. De repente, porém, um sorriso crispou os lábios do homem, que disse:

–Ele ainda nos será útil, Eclipse querida... Mais do que esperávamos...

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A noite caiu. Alphonse, em seu quarto na casa dos Hughes, preparava-se para a incursão noturna. Não disse nada a ninguém, e ainda estava sozinho em casa, porque tanto Gracia quanto Elysia foram colocadas num programa de proteção, e estavam escondidas no campo, em um lugar que não foi informado nem a ele. Não, eles não o impediriam. Não conseguiriam. Traria Ed de volta não importava o que isso custasse.

A mochila estava pronta. Dentro dela, facas, algumas granadas contrabandeadas, substâncias inflamáveis. Iria colocar o prédio abaixo, pelo caminho. Não daria chance a eles de seqüestrarem outra pessoa, nunca mais. E, na mão, uma lança, transmutada por ele mesmo. Izumi o ensinara a manejar uma daquelas, e agora eram sua arma principal. Ele causaria uma verdadeira tempestade entre os muros da Black Rose, com certeza causaria.

Então, ouviu batidas na porta, às vezes fortes, às vezes fracas, como se a pessoa que batesse não conseguisse manter a força. Desceu lentamente, mantendo as mãos próximas. Se fosse uma tentativa de invasão, ele estaria pronto para botar quem quer que fosse para correr. Mas a desconfiança logo deu lugar a uma série de sentimentos conflitantes quando ouviu uma voz fraca chamando-o:

–Por favor... abra... me ajude...

Ele abriu as três trancas colocadas na porta. E nada poderia prepará-lo para ver o que estava na sua frente: um vulto trêmulo, pingando sangue, coberto por uma capa negra totalmente esfarrapada, uma mecha de cabelo suja e pegajosa caindo sobre o rosto. Al o fez entrar, e acendeu a luz para tentar vê-lo melhor. Então reconheceu a capa, e percebeu que a mão direita, que aparecia, estava com uma falha na pele, revelando uma estrutura metálica sob ela.

–E-Ed? – ele não conseguia ficar feliz, mesmo com a volta do irmão – Ed! O que houve! Deixe-me ajudá-lo! – e estendeu a mão, mas Ed o repeliu, dizendo, numa voz gutural:

–Não toque em mim! Por tudo o que você ama, não toque em mim!

Alphonse murmurou um "por quê?" quase inaudível, e Ed relutou em responder. Por fim, preferiu não dizer nada, e deixou que a capa imunda e rasgada caísse no chão. O mais novo, assim que viu aquilo, tampou a boca para não gritar. Aquilo era simplesmente assustador! Jamais esperava que o irmão voltasse daquele jeito. O mais velho, por sua vez, apenas o encarava, os olhos fixos e meio baços, sem dizer nada.

Linhas vermelhas percorriam todo o seu corpo, da perna direita ao rosto. Os auto-mails estavam intactos, mas o braço de carne e osso estava totalmente recortado pelas linhas que se cruzavam, formando desenhos intricados e complexos. Desenhos assustadoramente familiares para Al, que de repente, sentiu-se tonto e enjoado. Como eles foram capazes? Ele não conseguia sequer articular uma frase, mas Ed, num tom enfraquecido e desesperado, disse:

–Sou eu, Alphonse. Eu sou o hospedeiro. Eu sou a Pedra Filosofal.

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Nota da autora: Bem, gente, essa era a surpresa que eu estava guardando para o nosso querido Alquimista de Aço. Sei que é um pouco cruel demais, maaaaaas... Bem, a verdade é que a Black Rose não simplesmente deixou ele ir embora. No próximo capítulo, vou contar como ele conseguiu sair do QG deles. Estou escrevendo num ritmo simplesmente alucinante, e estamos cada vez mais próximos do fim da nossa fic. Então é isso, amigos, até a próxima atualização! Kissus!