INTERLÚDIO | Song for Bob |
Apressei o passo, sentindo meu coração bater mais rápido do que já batera em toda a minha vida. Era tal como um chamar interno, incessante, impossível de se ignorar. E foi assim que venci os corredores de Hogwarts, até finalmente alcançar os jardins do castelo.
Meus pensamentos iam e vinham como se eu não os dominasse mais. Como se não me pertencessem de forma alguma. Enfiei a mão no bolso das vestes para pegar a varinha e tê-la pronta para qualquer eventualidade, mas o que senti foram os meus dedos esbarrarem nas fotos que eu tirara de Teddy naquele dia.
Não pude deixar de pensar em Tonks, em casa, olhando por ele. Com medo por mim. Eu havia decidido que eu nunca mais a deixaria sentir medo por minha causa. Que hoje tudo acabaria bem.
Olhei para a Lua e respirei fundo antes de me lançar contra um Comensal que tentava atacar um estudante pelas costas. Estuporei-o com um movimento preciso, e a face do jovem iluminou-se ao me encarar.
Vi uma fileira de dementadores subir os degraus em direção à escola, mas o frio deles sequer chegou a me atingir, pois vários Patronos emergiram fortes das mãos daqueles que um dia estiveram sentados nas carteiras das salas de aula, tomando notas de minhas palavras.
Desviei de um jorro de luz verde que passou raspando próximo ao meu rosto. Senti o cheiro da grama e o calor da batalha se alastrar pelo meu peito quando devolvi o ataque, derrubando outro Comensal no chão.
Reparei nas dezenas de pessoas que estavam ao meu lado naquele momento. Em todos aqueles rostos que eu nunca vira antes. Pessoas que jamais teriam me olhado duas vezes em outra ocasião. Faces que hoje, juntas, queriam a mesma coisa. Paz.
Escutei os gritos de Bellatrix e corri na direção dela, pensando nas coisas que ela já tinha feito e que aquela era a hora de tudo acabar. Nas famílias que ela destruíra. Em todos que ela matara. Mas foi outro Comensal que entrou no meu caminho, a varinha em punho, me chamando para a batalha.
Reconheci o rosto de Dolohov quando meu golpe lhe arrancou a máscara, a expressão assassina se desenhando em sua face quando me viu. Nossos feitiços cortaram o ar e eu podia jurar ter ouvido algo que se parecia tanto com a voz de James.
Ou será que foi a sua?
Éramos jovens. Tão jovens e íamos para a nossa primeira missão da Ordem. Estávamos felizes, prontos para tudo.
Ah, eu me lembro, Sirius. Eu lembro.
Você sempre ria quando lutava.
"Quero que se lembrem de mim.
Não como o pai que tentou abandonar o seu filho não-nascido.
Nem como o marido que não honrou sua esposa.
Não quero ser lembrado como a besta, que tantas vezes me dominou.
Quero ser lembrado como o professor. Aquele que ensinou a descobrirem a sua verdadeira força em suas lembranças mais felizes.
Como aquele que errou e se arrependeu.
Que lutou para que seu filho nascesse num mundo melhor.
Eu quero ser lembrado como o amigo. Como o aliado.
O companheiro.
Como aquele que foi recebido de braços abertos, quando voltou para casa."
REMUS JOHN LUPIN
10 de março de 1960 – 2 de maio de 1998
(TBC)
NdA: Acho que foi o fato de não vermos a morte do Remus, mas eu não chorei quando o Harry vê o corpo dele. O que não significa que imaginar como tenha sido torne as coisas mais fáceis. D:
