Ayame estava atrás do ginásio, tomando mais um sorvete. Ryuu devia estar chegando. As duas tinham dado uma desculpa qualquer para despistar os amigos franceses e deixado Tamaki e Kyouya ajudando de alguma forma nas preparações para o evento. Quando o sorvete acabou, a ruiva ouviu a voz da prima se aproximando. Ela corria. Atrás dela, vinha exatamente quem elas queriam.

- Então esse é o grupinho patético do primeiro ano que resolveu mexer na hierarquia do colégio? – a ruiva desencostou da parede. Tinha posto as mãos no bolso e olhava com um ar frio e indiferente para o quarteto atrás de Ryuu – Não achei que fossem aceitar vir nos conhecer. – e então sorriu.

Aurore, quando achou que a distância era suficiente, pulou em cima da prima em sua famosa voadora. Chantal apenas deu um passo para o lado, desviando. Felizmente a outra já tinha experiência suficiente para conseguir cair em pé no chão em vez de se esborrachar. Então pegou a prima pela gola, não parecendo feliz com o plano.

- Por que eu tive que atraí-los para cá?! Não seria mais fácil você seduzi-los, não?!

- Aurore, por favor. Você sabe o motivo. – Ayame se soltou.

A baixinha sorriu com um ar cúmplice.

- Sei, mas isso ainda não é justo, ok?

- Então depois podemos acertar isso no braço. – a ruiva sorriu do mesmo jeito – E qual o resultado?

- Um bando de fracos. Pior mesmo do que Frederick e Matheu. A única vantagem aqui é numérica.

- Eu imaginei.

Aquilo pareceu irritar o grupo de rapazes que tinha perseguido Ryuu até aquele lugar. Ayame captou um dos comentários antes de avançar.

- Elas não são aquelas da lenda?

- Nós mesmas. – seu sorriso frio foi a última coisa que o menino que vinha a frente viu antes de levar um soco no maxilar.


- Kyouya! – Tamaki estava ofegante ao ir até o amigo. Por ser muito bonzinho, os rapazes estavam se aproveitando dele – Eu ouvi umas meninas comentando… Parece que um grupo do primeiro ano…!

- Tamaki, eu não quero saber sobre o que acontece aqui. Por que não volta ao que estava fazendo? – o moreno ajeitou os óculos. "Por que eu aceitei participar disso mesmo?".

- Mas, Kyouya, a Ayame está envolvida! Aquelas meninas estavam falando sobre duas ex-alunas que provocaram um grupo do primeiro ano! Não te lembra de nada?!

O outro parou para pensar. Alguns minutos antes, as duas realmente conversavam sobre alguns meninos mais novos, mas ele não se lembrava do que era exatamente. As duas seriam realmente imprudentes a ponto de…? "Sendo elas, aposto que sim. Ayame tinha comentado algo a respeito antes também…", ele suspirou. Por que tinham que ser tão irresponsáveis assim?

- Tamaki, você sabe onde elas estão?

- Ah, vocês são os dois que estavam com a senhorita Chantal! – uma aluna visivelmente francesa tinha parado ao lado deles ao entrar na sala em que estavam – Desculpem, acabei ouvindo parte da conversa de vocês.

Kyouya olhou a garota de cima a baixo enquanto Tamaki fazia o que sabia fazer melhor.

- Ora essa. Alguém capaz de chamar minha prima de "senhorita" deve ter muito respeito por ela. Será que poderia nos dizer onde podemos encontrar a Chantal e a Aurore?

A francesa se afastou visivelmente incomodada.

- Não acredito que você e a senhorita Chantal possam ser parentes. Mas – ela se virou para Kyouya – elas estão ocupadas agora. Então gostaria que não as atrapalhassem.

Tamaki tinha se encolhido a um canto, abalado por sua técnica de encanto não ter funcionado. Aparentemente, as alunas de lá não eram tão influenciáveis como as do Ouran.

- Ocupadas? Com um grupo do primeiro ano? – o moreno tinha um ar sério.

- Você e elas têm bastante afinidade, não é? – a garota sorriu – Sou Alícia. – ela não esperou uma resposta antes de continuar – Elas estão atrás do ginásio, ensinando àqueles pivetes a não se meterem com quem não devem. – seu olhar se tornou frio, fazendo Tamaki sentir um arrepio, como se o comentário tivesse sido direcionado a ele.

Kyouya ajeitou os óculos e desviou o olhar para o loiro. Vendo que estava livre, Alícia se retirou.

- Então, o que quer fazer?

- Kyouya, você não está pensando em ir até lá, não é…? – o rei engoliu em seco.


Ryuu estava ofegante. Fazia tempo que não tinha uma briga realmente boa. Ayame, por sua vez, apesar do suor lhe escorrendo na testa, parecia capaz de aguentar mais três vezes daquilo tudo. A ruiva sorria triunfante quando Frederick e Matheu apareceram correndo. O primeiro, ao ver a cena, riu satisfeito, indo cumprimentar as amigas. Já o segundo correu em direção à ruiva e a abraçando. A garota não reagiu.

- Sua louca… E se vocês não conseguissem dar conta dos quatro sozinhas? Por que não nos chamaram? –Matheu afastou um pouco o rosto do de Chantal – E ainda cortou o lábio. E está com hematomas! Céus, o que seus pais vão dizer?

- Eles não vão dizer nada. – a voz de Kyouya soou atrás do grupo.

Com o aparecimento repentino dos dois anfitriões, os franceses se assustaram, permitindo que a ruiva se soltasse.

- Ah, é? E por que diz isso? – Matheu não parecia feliz com a visão.

- Porque ele sabe. – a voz de Ayame soou fria. Quando os olhares caíram sobre ela, não havia mais do que indiferença em seu olhar – Porque ele já esteve em casa e sabe como as coisas são. – ela passou a mão no lábio cortado, limpando o sangue – E porque ele não se deixa levar por sentimentos a torto e a direito, Matheu.

- Chantal, já chega. – a voz de Ryuu soava imperativa. Os outros cinco olharam para ela – Matheu tem razão em se preocupar. Nós podíamos ter perdido facilmente se eles – ela apontou para os rapazes estatelados no chão, mas ainda levemente conscientes – fossem mais organizados. Você sabe disso. E você viu do que eles são capazes. Até os veteranos estavam assustados. Tão assustados quanto antes de nos mudarmos. A diferença é que esses fedelhos jogam sujo. Eles não conseguem encarar um desafio de frente.

A ruiva não respondeu, apenas se virando e começando a andar.

- Aya-chan… – a voz de Tamaki saía fraca e ele tentou estender a mão na direção da prima, que rapidamente a afastou com um tapa.

- Não encoste em mim, seu verme idiota.

- A-Aya-chan… Mas, Aya-chan, você precisa de cuidados médicos! – o loiro se pôs no caminho dela.

- Mova-se, Tamaki. – ela o fitou com raiva no olhar.

- Ayame. – Kyouya se aproximou dos dois, pegando a garota pelo braço – Vamos até a enfermaria.

- É logo no prédio à direita. Segundo andar. Fica perto da escada, então é fácil de achar. – Ryuu tinha a voz tranquila, parecendo satisfeita.

Quando o trio se retirou – não sem resistência por parte da ruiva –, Frederick se voltou para a menor. Tinha uma expressão confusa. Não entendia o que tinha acabado de acontecer, nem porque Aurore os impediu de ajudar Chantal de ser arrastada quando tinha dito que estava bem. "É por isso que eu digo… Eles nunca souberam… E parece que não vão saber. Não tão cedo.".

- Aurore, quem são eles? – Matheu tinha um tom sombrio, distante.

- Você sabe quem são. – a pequena deu de ombros, caminhando para fora do lugar.

- Você entendeu o que eu quis dizer, Aurore. O que eles representam?

- Meu irmão e Kyouya participam de um clube muito diferente em nossa escola no Japão. – ela se virou para os amigos – Eles são integrantes do Host Club. – ela riu da surpresa no rosto dos dois – Tamaki é o presidente, enquanto Kyouya administra o clube. Chantal frequenta o clube de vez em quando para tirar sarro dos integrantes.

Frederick parecia achar graça enquanto o amigo parecia revoltado.

- Não me venha com essa! Como ele pode conhecer vocês mais do que nós?! Vocês não se conhecem nem há um ano! – os orbes verdes fitaram o chão e o rapaz cerrou os punhos – Não acredito que ele possa ser melhor que nós. E eu vou provar. – ele tornou a fitar Ryuu – Vamos fazer um Host Club melhor que o deles!

Os amigos pareceram se surpreender com a afirmação.


Na enfermaria, Ayame dormia tranquilamente em uma das camas. Os rapazes do Host Club conversavam próximos à janela, em voz baixa para não correr o risco de acordar a amiga. Os dois estavam sérios, fitando o jardim e os alunos que passavam. Tinham visto Ryuu e os outros passarem já, indo na direção do prédio de frente ao em que eles estavam. Provavelmente para a sala dos dois franceses.

- Você também viu, não foi, Tamaki? Por isso não deixou que ela saísse sem vir aqui.

O loiro concordou.

- Os olhos dela… Refletiam uma dor de muito tempo… Aqueles dois se dizem amigos dela, mas não foram capazes de notar isso…? – o mestiço parecia inconformado.

- Posso estar enganado, mas acho que eles nunca prestaram muita atenção a isso. Para eles, basta serem reconhecidos e temidos pelos outros alunos. Por isso não fizeram nada em relação ao grupo dos alunos do primeiro ano. Enquanto ninguém quisesse provar nada, aqueles dois estariam bem. Mas… O que aconteceria se não tivéssemos vindo para cá?

- Provavelmente os alunos do primeiro ano fariam algo que obrigasse Frederick e Matheu a agirem. – nesse momento, Tamaki pareceu perceber algo – Isso significa que a imagem da Ryuu-chan e da Aya-chan também seria arruinada! – sua expressão se tornou chorosa.

Kyouya suspirou.

- Aquela aluna… Alícia – o moreno esperou que o amigo processasse a informação – também não deixaria barato. Isso poderia tomar proporções enormes. E se acabasse chegando aos ouvidos de alguém do Ouran? Afinal, há uma conexão familiar entre os dois países.

- Kyouya…? Tamaki…? – a voz fraca de Chantal soou vinda da cama – Onde… Vocês estão…?

Os dois foram rapidamente até a garota.

- Aya-chan…! Que bom…! – o loiro não aguentou e começou a chorar, segurando a mão da prima.

Surpreendendo aos dois, a ruiva usou a mão livre para acariciar a cabeça do primo. Seu sorriso era de alívio.

- Achei… Que tinham vindo atrás de vocês…

Kyouya estranhou a afirmação.

- A quem você se refere, Ayame?

- Frederick e Matheu… Principalmente Matheu… Eles são muito possessivos… Eles são… Como os gêmeos.

Tamaki parecia não ouvir, se desmanchando em lágrimas com o rosto apoiado na cama em que Ayame estava deitada. Kyouya ajeitou os óculos. Tudo aquilo por levarem-na até a enfermaria? Por se preocuparem? Não era nada estranho… Na verdade, o estranho era nenhum dos dois ter se manifestado nesse sentido.

- Eles acham que isso arruinaria a imagem do nosso grupo. – Chantal sorriu com tranquilidade ao falar – Até ano passado, eu também acharia.

- Mas você mudou… Eles não. – a voz de Aurore soou da porta, atraindo o olhar do trio – Graças a deus você está bem…! – ela correu até a prima e a abraçou com força.

- Aliás… Vocês podem nos dizer como sabiam que algo estava errado? – Frederick, que parecia arrependido de algo, entrou na enfermaria e foi até as amigas.

- Os alunos. Quando chegamos, nem mesmo Alícia veio me cumprimentar, mesmo que ela tenha me visto da janela da sala de vocês. – o tom de voz de Chantal era calmo. Kyouya se lembrou da cena a que a garota se referia – Eu não acenei porque vi o alívio vindo dela quando sua mão tocou a janela. E logo em seguida alguém a chamou. Supus que fosse medo pela forma rápida como ela se afastou. Além disso, todos se afastavam quando íamos até a biblioteca, mas houve um grupo que nos encarou e até pareceu querer nos impedir de passar. Depois que nos encontramos, vários alunos olhavam para nós com alguma esperança. Vários tinham algum machucado escondido por faixas ou esparadrapos. Mas vocês estavam intactos.

Ryuu entendeu aonde a outra queria chegar e completou o raciocínio para os amigos.

- Isso significava que, apesar de tudo, eles ainda não tinham coragem de encarar o grupo conhecido por mandar na escola, mesmo com dois membros faltando. Mas, se tivéssemos decidido vir depois das férias para cá, provavelmente algo teria acontecido a vocês também. E, com isso, a nossa imagem, como grupo e como pessoas, estaria manchada. Além de nosso orgulho ferido.

Matheu, que tinha se escondido até antão, finalmente decidiu aparecer. Cabisbaixo, ele foi até a cama, se juntando aos amigos.

- Eu não queria pedir para que você viesse aqui porque achei que isso fosse feri-la ainda mais. Como se eu estivesse dizendo que… Eu não sei, que você era suficientemente frágil para precisar dos cuidados de alguém.

- Matheu, todos nós precisamos de um cuidado externo vez ou outra. Já se esqueceu de quando eu precisei te carregar até aqui? – Ayame sorriu com malícia e, ao mesmo tempo, inocência.

O rapaz tremeu, sentindo o rosto ferver, o que arrancou risadas de Chantal, Aurore e Frederick. Tamaki e Kyouya apenas observavam.

- Tão bobinho. – Ayame se divertia, falando em um tom zombeteiro.

- Assim até parece uma criança inocente. – Ryuu completou, no mesmo tom da prima.

- C-calem-se! – Matheu girou sobre os calcanhares e se retirou. Frederick riu, se despedindo e indo atrás do amigo.

- Eu sentia falta disso. – Chantal sorriu tranquilamente, se ajeitando na cama.