Capítulo 26
"Tenho essa coisa. No museu. Pensei em talvez pedir Parker emprestado? É no próximo sábado." Foi dito com tanta segurança, que o Agente Especial Seeley Booth quase não entendeu o pedido de sua colega. Mas era essa a coisa com Bones. Bem, uma das coisas, pelo menos, que a fazia tão querida ao seu parceiro, que agora dirigia para a última cena do crime.
"Acabou de pedir meu filho emprestado?" Booth repetiu, a sobrancelha franzida.
"Você estava ouvindo, então?"
"Ouço tudo que você diz. É só que, às vezes -" ele parou, mostrando que deveria virar à esquerda, "- escolho ignorar o absurdo dos seus pedidos."
"Por que pedir Parker emprestado é um absurdo?"
"É o modo como você falou. Como se ele fosse, sei lá, um livro ou uma camisa."
"Você tem mesmo algumas camisas bonitas," ela observou. "Apesar de que duvido muito que pediria emprestado um livro seu. Temos gostos literários muito diferentes."
Booth a encarou, incrédulo. "Porque gosto de thrillers criminais estrelados por uma Antropóloga Forense como protagonista, que faz par com um muito sexy Agente do FBI, e um time de indivíduos completamente fictícios que trabalham em um instituto completamente fictício?"
"Por que pediria emprestado um livro que eu mesma escrevi?" ela perguntou, confusa. "Isso por si só prova meu ponto."
Booth desligou o carro, batendo a cabeça contra o volante, fingindo frustração, fazendo a buzina soar. Alguns policiais que estavam na cena se viraram para olhá-los, ainda sentados no carro, desligados do mundo exterior.
"Então, posso emprestar Parker, por favor?" ela continuou.
"Posso perguntar para quê precisa dele, exatamente?" ele perguntou, franzindo a testa.
"Me ocorreu, depois de sábado, que seria prudente da minha parte me familiarizar com o comportamento habitual de pré-adolescentes. E, particularmente dada nossa intenção de dar um irmão a Parker, seria melhor praticar com ele."
Ele lançou um sorriso astucioso na direção dela. "Parece que talvez já tenha se decidido. Você percebe que não precisa esperar até sexta para me dar uma resposta?" Booth sorriu.
"Geralmente, quando diz respeito ao meu trabalho, ou a escrever, acredito que ter um prazo é bem produtivo. No entanto, nos últimos dias, tenho me visto bastante distraída por outras fontes, e ainda não tive oportunidade de considerar a viabilidade da situação." Era verdade. Toda vez que ela tirava um tempo para refletir sobre o que queria com Booth, aparecia alguma coisa para distraí-la. Um telefonema. Um e-mail urgente. Um pouco de sujeira nos azulejos da cozinha...
O sorriso satisfeito consigo mesmo desapareceu do rosto dele, quando se tornou claro que ela estava, de fato, tão perto de chegar a uma conclusão sobre o futuro deles, quanto estava há uma semana, quando ele a questionou.
"Você está me matando com o romance," Booth murmurou baixo, a voz cheia de sarcasmo. Ele tinha certeza que sua decepção era óbvia, mas considerou como, se fosse outra pessoa, ele teria facilmente ficado ofendido com a declaração. Booth a conhecia bem o suficiente para entender que era o modo como ela lidava com possibilidades complicadas. E se sentiu mal por não ter dado o ultimato logo. Então, o que ele diria em seguida era... difícil.
"Apesar de apreciar sua boa vontade em procriar, sem considerar minha decisão final," ela continuou.
"Hum, sim, eu ia falar isso." Booth sorriu, sem graça.
"Eu fiz algo errado?" ela perguntou, preocupada. "Eu chateei Parker... ou você?"
"Não! Deus, Bones, você não fez nada," Booth assegurou, sorrindo nervoso. "É só que..." ele suspirou. "Eu mesmo tenho pensado, e não tenho certeza se consigo ter um bebê com você, sem um relacionamento convencional. Depois de sábado, percebi que não é só sobre nós. Tenho que pensar em como isso afetará Parker. Você compreende, certo?"
A boca dela se torceu, enquanto processava o que ele havia dito. Tudo ou nada. Não foi isso que ele havia dito nos degraus do Monumento a Washington há quase dois meses? Com exceção de que, naquela época, ela acreditava estar tão longe possível daquele ideal. E havia dito a ele, em termos incertos, que a cerca branca não era quem ela era. O que mudou? O que aconteceu em menos de oito semanas para colocá-la numa posição que ela nunca considerou como opção? Com certeza, ela sentia alguma coisa por Booth. Ela só precisava identificar o que era, e como a afetava no grande esquema das coisas. Se recompondo, ela fez a pergunta uma vez mais. "Ainda precisaria que Parker me acompanhasse ao evento do museu, no dia 30."
"Eu não sei." ele murmurou, soltando o cinto de segurança. Ela franziu a testa, não entendendo a resposta dele. "O que? Não me olhe assim. Ele é uma pessoa, Bones. Uma pessoa viva. Preciso perguntar a ele se ele quer ir ao museu. Então, terá sua resposta."
Ela sorriu um pouco demais, lutando contra a vontade de se inclinar e beijá-lo. "Tem razão. Sinto muito." Ela soltou o cinto e segurou na maçaneta da porta. "Obrigada."
"De nada, Bones." Booth fechou a porta e se virou para observar a cena do crime, o rosto iluminado de alegria. "Nossa!"
"Wow." Era a única palavra que ela pôde dizer, à visão diante deles.
"Agente Booth?" Uma jovem agente parou na frente deles. "Sou Jane Birch. Se precisar de alguma coisa, é só gritar."
Temperance notou que a loira se insinuava para Booth. Um instinto definitivamente de acasalamento. Ela assistiu interessada, internamente querendo que ele rejeitasse os avanços da mulher. Ela tinha que admitir que, até Booth acalmá-la, a presença de Perotta a perturbava. Por qual motivo, era difícil entender. Não era como se ela possuísse uma emoção tão primitiva quando o ciúme. Não era como se ela e Booth tivessem esse tipo de relacionamento. Seus olhos se arregalaram, quando percebeu que era exatamente esta emoção que a afetava.
"Você está bem?" Booth murmurou, observando-a preocupado, à expressão chocada que substituiu seu olhar de intriga costumeiro. Ela assentiu levemente e ele se virou para a detetive. "Obrigado, Detetive Birch. Esta é a Dra. Brennan, Antropóloga Forense mundialmente renomada. Ela é quem vai gritar." Booth sorriu para Temperance, tendo olhos só para ela, colocando a mão em suas costas, guiando-a pelos degraus da casa.
Temperance sorriu para si mesma, ao sentir a mão quente sobre o tecido fino da camisa. Às vezes, ele a fazia se sentir uma deusa. Não que ela acreditasse em deuses. Apesar de que, se acreditasse, então seria bem provável que eles fossem os responsáveis por trazê-los a esta cena do crime em particular.
Os restos de um esqueleto haviam sido encontrados por um desenvolvedor, enquanto visitava o imóvel. De fora, a casa ficava solitariamente no final de uma rua cara, protegida externamente por coníferas altas que delimitavam o perímetro do terreno. As melhores palavras que Temperance Brennan poderia usar para descrever a propriedade orgulhosamente à frente deles era 'sua casa dos sonhos'. Era a casa que ela imaginou quando criança, quando brincava de bonecas, e fazia de conta. Ela olhou para a fachada camuflada à sua frente, e pela segunda vez nesse dia, Temperance Brennan se lembrou de que não era essa pessoa.
"Onde o corpo foi encontrado?" Brennan perguntou, entrando na casa.
"Quarto," Booth respondeu, guiando-a pela escada de mogno. Ambos absorveram a sensação agradável da casa, apesar do que os aguardava.
Enquanto Booth esperava sua Bones fazer sua mágica, ele andou pela casa espaçosa, observando suas características distintas, mentalmente decorando-a do seu gosto. Era virtualmente desmodernizada, e precisava de um pouco mais de amor e carinho, mas parecia relativamente sã estruturalmente. Quando ele voltou para onde ela estava examinando o corpo, ele decidiu entusiasmar as idéias. Apesar de tudo, faria mal algum? Ele notou a reação dela, ao ver a casa. E não era a primeira vez que ele pensava em um imóvel. E, droga, ele queria mesmo a tv de plasma, e não estava longe de implorar para isso acontecer.
Booth observou-a, maravilhado. Deus, ela era linda. Ela diria sim, ele tinha certeza. Eles deveriam ficar juntos. Ele tinha certeza de que ela sentia isso, quando eles faziam amor. E quando ela finalmente tivesse a oportunidade de refletir, chegaria a essa decisão. Sem perguntas. Ele sorriu e suspirou.
"Hey, Bones! Dei uma olhada no quarto ao lado e vi que pode facilmente ser transformado num closet e num banheiro."
"O que?"
"Só uma idéia."
Temperance se virou e franziu as sobrancelhas. "Isso tem a ver com a vítima?"
O entusiasmo dele foi interrompido por uma mulher estridente entrando no quarto. "Melanie Blatt. Corretora de imóveis. Vão ficar aqui por muito tempo? A presença contínua terá um efeito prejudicial na venda desta propriedade."
"Isso depende" Booth respondeu.
"De?"
Ele lançou um sorriso charmoso à corretora. "Se eu declarar que foi homicídio, o valor de mercado da propriedade seria afetado?"
TBC.
