Bom, gente, depois de mais de um ano, finalmente, volto disposta a concluir essa tradução. Confesso que tinha desanimado por causa de vários projetos na minha vida, inclusive um livro que escrevo. Pensava em deixar a fic inacabada, mas há uns meses, uma leitora num outro site em que posto fics, no Anime Spirits, me solicitou para que continuasse a história. Resolvi atender seu pedido embora com cinco meses de atraso e, por outro lado, porque não gosto de deixar anda inacabado.

Eita, que é o mesmo discurso desde 2010 que postei essa tradução, rsrsrsrs... Mas como faltam apenas sete capítulos sem contar este, não me custa nada, ainda mais que, finalmente, conseguir organizar-me (e de vez) para postar os meus trabalhos. Com certeza, encerro essa fic ano que vem, mesmo que seja até julho. Mas acho que antes disso, eu a concluo, vamos ver.

Só lhes dou um conselho que eu mesma comecei a seguir: nunca comecem uma história antes de terminar outra. Guardem a ideia e o entusiasmo e só depois que finalizarem a história atual, aí sim, podem desenvolver a ideia que tiveram de outra no processo, isso se a vontade não tiver passado. Digo isso por experiência própria e depois de descobrir por uma série de vídeos-aulas no Youtube de um canal para escritores que não sou a única a padecer do mesmo mal. É sério mesmo, gente. E nunca mais critico que tem a mesma mania de escrever fics e deixá-la inacabadas.

Bom, dedico este capítulo a essa leitora TatyNamikaze (se ela ainda não desistiu da fic) e à sua amiga. E espero que ainda tenha mais leitoras!

Sem mais delongas, divirtam-se!

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Acaso ela declarou que não mais lhe importava?

Haruno Sakura... a mesma Haruno Sakura com quem se relacionou por dois malditos anos. De fato, ela quis dizer isso?

Bem, sim, e Sasuke ouviu tão alto e claro como se podia no corredor que ligava o andar inferior com a parte superior do prédio da escola.

As primeiras chamadas da semana anterior foram apenas um desperdício de tempo, enviadas ao correio de voz. Que diabos ela estava fazendo para não responder?

Se esteve em casa de um daqueles que dizia serem seus "amigos" ou se saiu com os mesmos, não era motivo ou razão para jogar a ele, Uchiha Sasuke, direto ao maldito correio de voz.

Ficar sem fazer nada não era uma estratégia. Não importava se era pela garota chata de cabelo rosa; tudo o que queria saber era por que ela decidiu ignorá-lo.

Tornaria a chamá-la, concatenar alguns pontos equidistantes e, se fosse o caso, deixá-la falar. E depois, seria ele que pagaria na mesma moeda de uma forma ou de outra.

-Por que você está me evitando? – foi o comentário seco de Sasuke, ao passar à esquerda da jovem no corredor.

Planejou uma tentativa estruturada de conversa desde a semana anterior, um plano friamente calculado.

Ela simplesmente o arruinou.

- Não estou te evitando, Sasuke – disse, parando ao lado dele e olhando-o como se olha para um estranho na calçada pública. Ela trazia vários livros debaixo do braço... e de novo omitiu "Kun" no final da pronúncia do seu nome. – Mas acho que você não se importa mais comigo. Você decidiu assim. Lembra-se?

-Humpf. Suponho que você concorde com isso.

E sim, o "plano" foi direto para o ralo.

- Você não me quer, Sasuke – sentiu a voz de Sakura perdida nos murmúrios de outros alunos que transitavam ali.- Três semanas se passaram e nenhuma chamada. Não voltamos a nos ver desde então... – percebeu como ela se aproximou, enquanto ele continuava com sua habitual postura e inflexível atitude –... e agora...

- E agora você vai deixar assim?

Ele não titubeou uma única sílaba. Sakura tampouco.

-Sasuke, não entendo por que...

- Dois anos não significaram nada?

Ela não lhe deu ouvidos, manteve-se firme com o que tinha a dizer.

- Foram dois anos incompletos... mas nunca disse que não importaram. Só não entendo por que você diz que se importa agora, Sasuke. É porque você já não me tem? – Sakura apenas falou. Sem remorso ou meias palavras, não havia nada para amarrá-la mais. Nada. Sasuke notou e, embora a memória do passado e seus reflexos estivessem presentes como uma mancha insistente, não havia um único vestígio de apego pessoal. -Você já tem a Karin, e eu...

Assim que havia alguém? Deduziu imediatamente. O brilho gélido em seus olhos negros como a noite franqueava uma barreira intimidante entre eles.

- Com quem você está saindo?

A questão era esperada e ambos sabiam que as coisas finalmente cairiam sob seu próprio peso. Sakura sentiu a voz entrar em colapso entre suas cordas vocais, abafando a resposta. O brilho nos olhos de Sasuke se tornou ameaçador; conhecia aquele olhar.

-Sasuke, não tenho que te dar satisfações. Tenho pressa.

- Sakura, quem é?

Ela não queria responder. Não agora, no meio de um corredor lotado. E ele havia levantado a voz. Um mau sinal. Muito ruim, como o eco de uma tempestade que se aproxima.

Sem resposta, ele fez o que ela temia desde o início. Agarrou o braço dela. Não no pulso ou no antebraço, mas nessa parte sensível acima do cotovelo.

Ela queria se afastar, mas os dedos de Sasuke exerciam pressão.

- Sakura...

- Ei, meus jovens, passa das nove. Já deviam estar em sala de aula – Hatake Kakashi passou por trás deles e deteve sua atenção sobre o jovem Uchiha e, em seguida, Sakura – Algum problema?

Sasuke a soltou quase tão rápido que Sakura não percebeu sua mão voltando para o bolso.

- Nenhum, sensei. – o Uchiha se virou, dando a volta em direção à sua própria sala.

Sakura tremia. Levantou a vista.

- Tem certeza que está bem, Sakura-san?

Ela forçou uma expressão amável, mas, mesmo sem se ver, sabia que parecia mais uma linha em seus lábios do que um sorriso.

- Sim, sensei.

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- Muito bem, rapaz, vejo que você está melhor – Kisame prestou atenção brevemente nas feições de Itachi.

Ele olhou por cima do monitor da escrivaninha de Pein, e abaixou a vista novamente. À distância, podia-se escutar o ruído regular do andar inferior. A semana havia transcorrido com parcimônia e pouca complexidade dos acontecimentos. Fazia quatro dias desde o "embarque" e a atividade na Akatsuki passou com a diligência de uma maré baixa. Itachi havia começado a analisar a frequência de eventos, sem encontrar qualquer padrão de fatos ou sequências repetitivas. Não havia mais "ordens de pagamento", pelo menos não para ele e Kisame, e o resto de seu trabalho se reduziu a dois dias úteis de trabalho de arquivo. Ontem, sob os olhares atentos de Kakuzu e Pein; agora com Kisame, como o único vigia.

Eles sabem que planejo algo ... talvez por isso não me deixam sozinho. Eles são espertos... fodidos de espertos.

Refletia enquanto terminava de organizar cinco planilhas de cálculos separadas.

Se não sabem, eles suspeitam. Isso vai demorar mais tempo do que pensei.

Kisame não era precisamente obtuso ou lerdo para ignorar o escrutínio daqueles arquivos guardados com zelo sob um código. Tentar uma distração não era perigoso.

-Hump... Você sabia que isso aconteceria desde o início? – Itachi disse de repente.

- O quê?

- Lá no cais. Você sabia tudo, não é?

O suposto tenente Hoshigaki se deixou cair na cadeira de visitas em frente da mesa, numa postura deselegante.

- Não posso dizer que fui pego de surpresa. É sempre um risco no ofício, mas foi bom saber que mesmo Zabuza está disposto a cooperar com esses favores.

O som de teclas de computador parou por um momento.

- Você já matou alguém?

Kisame riu ironicamente, jogando um braço atrás das costas.

-E para quê? – riu com um grunhido seco – Tiraria toda a diversão do assunto.

Aproveitando a distância entre eles e a barreira ladeada pelo monitor, deslizou o cursor em uma das pastas; a que havia capturado sua atenção há alguns dias.

Kyuubi.

- Suponho que sim – Itachi respondeu abafando com sua voz o som do "clique" repetido para desbloquear a pasta e passá-la ao dispositivo móvel – ... pela maneira que aquele pobre infeliz terminou com o braço quebrado.

- Não acredite em tudo que você vê, garoto – Kisame levantou uma sobrancelha, notando um leve nervosismo na mão direita de seu companheiro. – Eu poderia tê-lo matado com uma só mão, mas não vale a pena me sujar com merda.

Eu acho o mesmo, Itachi mentalmente concluiu.

- Você terminou?

O Uchiha assentiu, desligou o computador e guardou o pen drive em um dos bolsos de sua calça sem que Kisame percebesse.

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O ritmo das aulas também seguia seu curso e, embora sua preocupação constante houvesse abrandado um pouco em relação à estratégia de Itachi, o assunto era um detalhe irritante que aparecia em sua mente a quase cada dez minutos.

A última semana de agosto transcorreu com a austeridade e setembro saudava a época inicial da primeira avaliação bimestral. O tempo se esgotava mais cedo ou mais tarde e nem Sakura, nem mesmo Haruno Hanako, pareciam se importar.

Até hoje.

As aulas de segunda-feira haviam terminado mais cedo por questões puramente organizacionais da classe docente e eram doze e meia quando Sakura deixou a sala, acompanhada apenas de Ino. Naruto foi antes, acompanhado por uma ruborizada Hinata que lhe seguia ainda segurando o braço; Ino, aproveitando que Sai teria a tarde livre do trabalho na gráfica, decidiu que alguns "minutos de sua companhia" não fariam mal ao pálido namorado até o período da tarde em que, como de costume, ela estaria no negócio da família.

Sakura, bem... ela sabia perfeitamente sua situação. Era uma rotina que não chegava nem ao que pesava sobre os ombros de seu companheiro Uchiha na Akatsuki; nada poderia ser habitual ou repetitivo. Ele saía à noite às vezes, na parte da manhã, na maioria das circunstâncias, e em outras, menos usuais, no período da tarde. Sakura lhe esperava, e não significava que deixaria de lado suas tarefas estudantis. A vida continua, em um aspecto ou outro.

E, embora ela tentou embalar e obter tudo que precisava antes de sua saída abrupta, mas justificada de casa, havia dois detalhes que veio a esquecer: uma cópia da sua matrícula escolar e a agenda semestral.

Não houve um diálogo pleno com sua mãe desde então. Dois telefonemas para Hanako, e escutou respostas inexpressivas de sua voz como um autômato. Esses dois diálogos telefônicos foram como se Sakura falasse com uma secretária eletrônica e não com sua mãe. Não podia culpá-la, e Sakura estava ciente de que não estava cem por cento com a razão, mas tinha uma justificativa e era precisamente o que queria falar com ela.

Falar, não deixar tudo como um "está bem... adeus", como havia acontecido antes.

O apartamento estaria vazio até de tarde e sabia que Itachi trabalharia mais algumas horas no escritório daquela escória; sendo segunda-feira de manhã, ela ainda poderia encontrar sua mãe em casa antes que saísse para trabalhar.

Apenas tocou a porta quando esta se abriu, deparando-se com o rosto de Hanako numa tentativa de cenho franzido. Não era exatamente zangado, era... cansado.

- Sakura... – a jovem de cabelos rosa percebeu que sua mãe levava a bolsa sobre os ombros, como de costume –... estava prestes a sair.

A garota deu de ombros.

- Só vim porque ...

- Vejo que ainda está na escola – Hanako a examinou como um carcereiro ante um recluso da prisão – Ou, pelo menos, parece.

Sakura não sentia raiva ou reprovação na voz de sua mãe. Foi um vago suspiro de saudade, não parecia nada demais.

- Nunca pretendi deixar a escola, já lhe disse. – a jovem Haruno entrou enquanto Hanako permaneceu no umbral da porta. – Esqueci algumas coisas aqui e queria aproveitar a oportunidade para ...

- Conversar?

Sua filha concordou e Hanako virou-se para a mesa de jantar, deixando a bolsa sobre o móvel e sentando em uma das cadeiras.

- Conversar sobre o quê? – Hanako murmurou. – É a sua decisão e sei que devo respeitá-la.

- Mãe, você vai fazê-lo porque deve ou porque quer?

A senhora Haruno suspirou lentamente; podia sentir os ecos da extensa conversa com Jiraiya em sua mente, como se, em vez de ter sido há três semanas, fosse ontem.

"Ame-os e deixe-os voar". Lindo pensamento para um desses quadros pendurados na cozinha. Mas o quanto era real na prática?

- Porque eu devo... – disse encarando sua filha firmemente nos olhos –... e porque eu quero. – fez uma pausa e depois continuou – Sakura, ainda acho que não é uma boa ideia e que você deve olhar onde pisa antes de se entregar de vez, mas também acho que você sabe o que faz.

Viu a garota abaixar o olhar e erguê-lo novamente. Não desafiante, mas segura.

- Isso é o que eu quero, mamãe. Isso.

Hanako assentiu. Um brilho em seus olhos, mais intenso do que o verde nos orbes da filha.

- Vá em frente, então.

Talvez aquele silêncio fosse a declaração mais concisa expressa por um longo tempo em casa das Haruno.

-Só... – Hanako começou a falar, inconscientemente, de uma forma certeira – ...só não cometa os mesmos erros que eu.

- Você não cometeu nenhum erro, que eu saiba.

- Não, talvez não... – murmurou Hanako – Seu pai não tinha cinco anos a mais do que eu e não estava envolvido em um homicídio. – Sakura podia ver um sorriso fugaz nos lábios de sua mãe – Mas seu avô foi totalmente contra por causa do trabalho de seu pai e porque eu não estudava. E a cor do cabelo dele não ajudava muito.

-Jiraya me falou algo assim.

- Eu supunha – completou Hanako – ... e se passaram dezessete anos desde então.

Sakura arqueou as sobrancelhas ante o comentário.

- É isso que você quis dizer de ter cometido um erro?

- Não precisamente – corrigiu Hanako e sua voz era um sussurro desvanecido no passado – ..., mas seu avô nunca mais falou comigo desde então, suas últimas palavras de que me lembro foi que nos condenou a seu pai e eu. Depois que você nasceu, nos casamos e passaram seis anos... até o dia do acidente... – suas palavras se detiveram –... agora você entende o que quero dizer, Sakura.

Hanako terminou num tom de amargura em sua voz, como se a raiva daqueles anos não houvesse desaparecido. Sakura concordou silenciosamente com a cabeça.

- Pense nisso, Sakura... por favor, pense sobre isso.

Uma frase que soava pela enésima vez. Poderiam ter sido mais, quinhentas, se necessário.

Mas ninguém vivencia pela experiência de outra pessoa, e embora os erros dos pais sempre repercutem e incontáveis ocasiões se repetem na próxima geração, a experiência de vida é única e exclusiva de cada pessoa.

Hanako sabia, viveu em sua época de juventude e orava a Kamisama de antemão para que sua filha não sofresse o mesmo tropeço.

Uma esperança lançada ao vazio do destino.

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Números, linhas e palavras curtas. Tudo rodava num errático círculo sem sentido. Não eram códigos pares, nem ímpares, nem mesmo uma combinação mínima coerente. Itachi sufocou um suspiro de frustração diante do laptop que acabou por acomodar em um canto da mesa da sala de estar.

Chegou depois do meio-dia, e ninguém, nem mesmo o intrometido de Deidara suspeitou dos cinco minutos extras que ele levou ao extrair informações da pasta nos arquivos da Akatsuki. O apartamento estava em silêncio e viu a mochila de Sakura caída sobre o encosto de uma cadeira. Sabia que ela chegaria mais cedo e provavelmente decidiu investir parte do tempo ocioso em sair com os amigos. Não via nenhum problema nisso, Itachi lhe jurou e a si mesmo que nunca iria amarrá-la a ele, não havia nenhum sentido em fazê-lo. Era sua companheira, não sua sombra.

Ele passou a última hora se debatendo entre uma coluna de códigos para abrir a pasta abençoada. Sim, Itachi era um gênio em questões de informática, mas não significava que fazia milagres. Os números e a escassa informação de texto (quase nula) encontrada no interior começou a lhe dar pontadas na cabeça. E a quem não daria? A qualquer um que se afundasse entre números e códigos de usuários por uma hora e meia.

Cansado e frustrado, desligou o aparato e saiu apenas pela necessidade de um pouco de ar fresco. A tarde caía e, apesar de não haver um pôr do sol avermelhado e quente, mas um céu cinza e úmido, as pessoas ainda circulavam entre as ruas de Konoha. As nuvens estavam difusas em um único manto, anunciando a proximidade de uma leve garoa, típica do mês. Ainda faltava uma hora para o anoitecer, razão pela qual ele não se apressou em retornar imediatamente.

O interior de um dos modestos estabelecimentos de comida estava ligeiramente lotado. O tempo chuvoso sempre atraía a clientela. Ele passava distraído ali e trazendo algumas notas na carteira, decidiu aproveitar a oportunidade. Havia comida na geladeira para o resto da semana, pelo menos, o que era necessário entre os dois, mas a ocasião de hoje era um pouco diferente. Itachi refletia desde a manhã, e nem ele nem Sakura verbalizavam, mas ambos sabiam. Talvez fosse essa a razão que atrapalhasse sua pouca concentração, em seu plano metódico na parte da manhã.

Não importava, teria tempo de sobra amanhã para continuar a esquadrinhar a pasta kyuubi. Também havia outras coisas importantes a fazer, e embora Itachi não fosse adepto a tais questões pessoais, ele se sentiu um pouco forçado a ceder. Ele odiava e repudiava expressar o menor desconforto, físico ou pessoal, mas também sabia que com Sakura não queria tais segredos. Não o suportava, ainda sentia a culpa de lhe ter escondido seus problemas com a Akatsuki e queria compensá-la um pouco que fosse.

Ah, a bendita discrição Uchiha, depois de tudo.

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- Por que você não contou? – Ino arqueou uma sobrancelha em sinal de cumplicidade – Já está mais do que na hora de ele saber.

Sakura estava ao seu lado, com ambos os braços apoiados sobre uma mesinha ao lado do balcão. Eram quatro da tarde e a floricultura da família Yamanaka estava vazia, como seria de se esperar num dia da semana e nublado.

- Pensei em contar, mas... – Sakura se interrompeu, balançando a cabeça.

- Mas? Ora, vamos, nem que fosse a pior tragédia do mundo. Além disso, está na hora de baixar a bola do Sasuke, de uma forma ou de outra.

- Você tinha que ter visto, Ino... – Sakura murmurou, num tom tão baixo como um suspiro –... o brilho nos seus olhos. Eu sei que ele não vai aceitar de boa. Conheço quando ele fica irritado.

- E? - Ino deu de ombros, exibindo um sorriso maroto – Pois que morra de raiva! Nem que seja para sentir o gostinho de tudo o que te fez.

Ela emitiu um sonoro "ha-há". Sakura não entrou na brincadeira e Ino não disse mais nada. Ela notou o rosto de sua amiga se anuviar.

- Não acho que seja conveniente agora – Sakura declarou sem encará-la.

- Bem, você saberá o melhor momento. Itachi sabe que seu teimoso irmão ainda insiste?

- Não, eu nem quero preocupá-lo mais – Sakura reprimiu a vontade de comentar sobre o problema com a Akatsuki – Este é um assunto entre Sasuke e eu. E mesmo que eu lhe contasse, sei que os dois não se dão bem e apenas complicaria as coisas entre eles.

- Hum... como sempre rixas acontecem entre irmãos. Em que bela bagunça você foi se meter, hein, testuda? - Ino pegou o livro de pedidos, revisando apenas as únicas entregas anotadas e devidamente seladas com a assinatura de "pago". Voltou sua atenção para sua amiga – É bom ter companhia pelas tardes. Não é uma grande temporada de vendas, mas geralmente se recupera nos fins de semana. Tem certeza de que você pode lidar com isso?

- Se você consegue e o negócio de sua família não veio abaixo, Ino-porco, acho que eu também dou conta – provocou Sakura, num tom de voz mais alegre. - Você sabe que eu queria fazer isso desde o verão, e um pouco de dinheiro não me faria mal. E depois, não quero ser um peso para o Itachi.

Ino sorriu.

- Mais do que você já é...

- Olha! - Sakura estreitou os olhos

- Então está certo – Ino pegou em sua bochecha direita e apertou-a num gesto brincalhão. O telefone começou a tocar. - Te vejo amanhã depois da escola.

Sakura se despediu e saiu.

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Uma brisa suave acompanhada de uma chuva pausada chegou a cair por volta das sete da noite. Itachi voltou com as mangas arregaçadas da camisa molhada pela água da chuva.

-Itachi-chan! - acudiu Sakura, sentada de cócoras em uma extremidade do sofá, com um caderno na mão e dois livros empilhados no braço do móvel. Sorriu com carinho – Você devia ter levado o guarda-chuva.

-Hump, esqueci – Itachi entrou, fechando a porta.

Sakura vislumbrou um pacote embrulhado em papel pardo, deixado sobre a mesa enquanto o Uchiha entrou no quarto para trocar de camisa.

-E isto? - inquiriu curiosa, levantando-se do sofá e erguendo o embrulho.

Escutou Itachi murmurar a partir do quarto. Não o entendeu por completo, até que ele voltou para a sala, onde ela estava se sentando em uma cadeira. Sakura desprendeu com cuidado uma das dobras do papel.

- Por nosso primeiro mês – disse ele, sem proferir qualquer efusividade.

Uma frase concisa e sóbria, mas Sakura entendeu exatamente o que Itachi queria expressar, embora não externasse de todo. Estava ali, no brilho ofuscante de suas órbitas, e no meio sorriso quase inexistente do rosto.

Em tudo o que haviam passado até agora. Akatsuki, a guerra silenciosa de Haruno vs Haruno e a insistência de Sasuke . Tudo poderia conspirar mais cedo ou mais tarde, porém, o momento, a fragilidade efêmera e profunda do tempo entre eles ainda estaria lá.

Um mês e... o tempo voou. Ambos sabiam o laço que havia se convertido naquele mês tão compartilhado como a discreta torta que estava dentro do pacote.

Ela se serviu de uma pequena porção, sem ter fome. Contou-lhe que amanhã começaria trabalhar à noite na loja de flores da família de Ino. Itachi perguntou se poderia com isso e a escola e Sakura respondeu que não haveria nenhum problema; só trabalharia à tarde entre as quatro e oito, de segunda a sexta-feira; poderia aproveitar o tempo livre para completar o que pudesse das tarefas e o resto ao chegar em casa. Em seguida, a conversa mudou para outra direção:

- ...E a Akatsuki?

- Nada... ainda – Itachi murmurou pensativo balançando o garfo entre os dedos – Tudo que encontrei não significa nada para mim ainda... kyuubi.

Sakura deu um gole no copo de chá.

-Kyuubi? Não… não conheço essa palavra – declarou Sakura incerta.

Comeu outro pedaço do bolo, percebendo um leve gosto amargo. Fez um gesto fugaz e tomou outro gole de chá quase imediatamente para disfarçar a sensação difusa.

-Algum problema? - Itachi perguntou olhando para ela.

- Não... só... está com um gosto estranho, isso é tudo.

Ele devorou um pedaço de sua fatia com um garfo, provando-o

-Hump… não – completou – É chocolate caseiro, pensei que você gostava.

Sakura deu de ombros.

- Sim, mas.. não sei. Acho que não estou no clima – emulou um sorriso sem importância – Ou então não coloquei açúcar suficiente no chá – olhou para o interior de seu copo agora vazio, sem muito interesse – De qualquer maneira, obrigada pela atenção, Itachi-chan.

O Uchiha passou a mão sobre a mesa entrelaçando-a com a de Sakura.

- De nada.

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As molas da cama se sacudiam com constante impacto. Não dentro do apartamento de Itachi, mas a considerável distância. Em uma das casas isoladas a noroeste de Konoha, onde se poderia vislumbrar apenas um facho de luz, pertencente a um dos quartos.

A chuva havia parado, deixando uma umidade residual, perceptível no vidro daquele cômodo.

- Sasuke... Huuum... Sasuke-kun... - a respiração de Karin era um suspiro, ante o brio das sacudidas do jovem. Perdido no ruído provocado no colchão.

Sob a atmosfera luxuriosa, Sasuke se mantinha sobre Karin, apoiando os cotovelos e joelhos. Sua respiração subia, abaixava e retomava o vaivém inicial. Não havia palavras em sua garganta, nem sentimentos em seu coração. Sua mente se debatia em uma grande onda de enigmas complicados e incompletos.

Entrava e saía com um empurrão devastador com toda a parte inferior de sua anatomia. A explosão inconcebível, como se precisasse encontrar uma saída para a sua mente confusa no meio de todo aquele desassossego.

Sakura.

Ele se amaldiçoou pelo fato de não conseguir esquecê-la.

Por que diabos continuo me importando?

Não... não era esse o objeto de sua raiva silenciosa. As perguntas variaram de "ela" e terminava em um "quem?"

Sentia Karin lhe oprimir as costas com arrebato enquanto ele entrava duro e ereto, seguindo o ritmo inicial.

Quem? Quem diabos…? Com quem ela sai agora?

O objeto que Sasuke havia possuído por dois anos mudou de dono. E ele nunca foi ou seria adepto de compartilhar.

As possibilidades se afundavam no mesmo mar de perguntas sem resposta.

Quem? Quem diabos…? Com quem ela sai agora?

Apertou com força o canto do colchão.

Empurrou com mais impulso. Perto de um extremo descontrole. Seus pulmões e seu coração o advertiam.

Com quem? Com quem agora, se não sou eu?

Ao demônio. Mais força, mais brutal do que devia ser. Nem sequer ouviu as reclamações escandalosas de Karin. Ao demônio se a machucava ou não. Mais para dentro, mais e mais... até que...

Sakura... está saindo com outra pessoa.

Merda…! Maldita fosse!

Tudo se deteve. Ele ficou parado, ainda no interior da jovem de cabelo avermelhado e seios proeminentes. Sobre a barreira intacta do preservativo, sentia o calor de seu interior queimando na superfície de seu membro, sua lubrificação e seus movimentos oscilantes, enquanto Sasuke só ficava ali.

Não houve explosão, nem mesmo as rotineiras cãibras de seus quadris ao ejacular. Sasuke simplesmente não podia sentir mais nada.

Ofegava e Karin sentiu suas costas tremerem como se houvesse caído um jato de água gelada sobre ele.

Era essa a sensação.

Ele afrouxou o pulso sobre o colchão. Deslizou para trás, com um impulso áspero que sentiu a aridez do látex ao se distanciar do contato quente de Karin.

- Caralho!

Ficou sentado em um canto da cama. A ereção ficou no passado e o suor lhe cobria o rosto quase completamente, em que Karin vislumbrou uma máscara de raiva e frustração energúmena.

- O que foi isso, Sasuke? Por quê...?

Ela estendeu o braço até ele.

- Me deixa! - Sasuke rosnou, recusando o contato de Karin.

Sentiu quando ela também se sentou.

Karin o contemplava com receio e estranheza, ao mesmo tempo. Não, esta não era a primeira vez, mas em todas as anteriores, de uma forma ou de outra, sempre conseguia despistar e tapeá-la, mas agora simplesmente ela não podia tolerar isso. Ele estar no topo, no mais alto de todo aquele intenso turbilhão de fogo e, de repente... ali? Nada mais? Sabia que Sasuke não se importava com outro interesse físico, emocional ou sexual que não fosse dele próprio. Mas mesmo nestas ocasiões, era devido a… Como podia chamar? Algum gosto? Prazer pessoal?

De qualquer jeito, o contexto era o mesmo. Não ia ficar assim. Vinte minutos mandados à merda. Não! Não agora.

- Claro... entendo, Sasuke-kun – enunciou às suas costas e com um inicial tom apaziguado – Como eu não tenho cabelo rosa...

- Isso não é da sua conta.

Ela se aproximou de Sasuke, tentando confrontá-lo com seu olhar.

-Por que você não a esquece de uma vez, Sasuke? - seus lábios projetavam um sorriso sem vida. Hipócrita, mas com o triunfo pessoal de quem sabe das coisas. Coisas que Sasuke ignorava. Um bom ás na manga – Se você não lhe importava antes, agora menos. Dá pra se notar a quilômetros que a rosadinha está bastante feliz com...

- Cala essa maldita boca, Karin!

Mas ela não se calou.

- ...com seu irmão.

O punho caiu sobre o colchão. Duas mãos, retorcida e impregnadas com uma torrente prematura de indignação agarraram os ombros nus de Karin.

- O quê?

Karin lhe devolveu o olhar. Aterrorizada ante o impulso e a voz estrondosa de Sasuke.

- O que você disse?! - ele repetiu enquanto seus dedos entranhavam mais fundo na carne trêmula.

Sob as luzes difusas, Karin percebeu um brilho vermelho nos olhos de Sasuke. Escuro e sombrio como os olhos de um demônio.

- Sakura... está com seu irmão... sempre esteve. Todo esse tempo, Sasuke!

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Pois é, finalmente, o mala fica sabendo (o último a saber), rsrsrs... Garanto que o tempo vai fechar no próximo capítulo.

Bom, espero seus comentários. O próximo capítulo só sai em janeiro do ano que vem (mas sai). Até lá.