Hermione conhecia bem as regras de um vira-tempo convencional. Tratava-se de um aparelho que conseguia voltar no tempo, apesar de dever ser usado sob regras rígidas: o passado não poderia ser mudado e a pessoa que voltasse até ele não poderia deixar que os outros percebessem que ela estava em dois lugares ao mesmo tempo ou que o seu "eu passado" descobrisse o seu "eu do futuro", já que, se estes se vissem, todo o tempo poderia ser drasticamente modificado.
Por um momento a morena sentira medo e uma sensação de êxtase tomando conta de si. Havia uma hipótese em sua mente e um sorriso surgindo através dos seus lábios, fazendo com que ela resolvesse tentar uma vez mais. Ela sabia que não poderia alterar o passado, mas e se... Bem, aquele era um vira-tempo irregular. Se ela o usasse ninguém saberia.
Resolveu por permanecer sem ação naquele momento, guardando o artefato no bolso e encaminhando a caixa para catalogação no setor ao lado. Os minutos que faltavam para o final do expediente pareciam se arrastar demoradamente. Era uma tortura, mas quando por fim cessaram, Hermione apenas desejava rumar para casa imediatamente. Mas não seria tão fácil assim.
— Hermione? — Era a voz de Draco. Ele estava correndo atrás da morena e aquilo indicava problemas.
— Ah, olá Draco. — Ela dissera em tom seco. Não iria vê-lo mais naquela realidade-temporal, o que importava?
— Você está ocupada? — O loiro franzira a testa ao vê-la com um comportamento tão fora de si. — Eu posso esperar até amanhã, sem problemas.
— Só estou um pouco cansada. — Mentira. — O que posso fazer por você?
— Hoje é aniversário da Astoria, nós vamos comemorar. — O sorriso ali era adorável. Se alguém dissesse há anos atrás que ele lhe daria um sorriso daqueles, seria acertado por uma maldição. — Gostaria que você viesse.
— Farei o possível, Draco, mas faça a gentileza de mandar meus bons votos.
— Claro. — Ele dissera já prevendo que a garota não compareceria. — Bom descanso, Hermione. Até amanhã.
Não, ela sequer lhe desejara um ótimo dia. O dia seguinte seria perfeito para todos, inclusive para ela mesma. Uma nova chance para começar.
Viktor esperara pacientemente por Hermione enquanto preparava o jantar daquela noite que caia aos poucos sobre o céu da Londres bruxa. Ao vê-la ali tão feliz, ele deixara tudo o que tinha diante de si a abraçando demoradamente e provando seus lábios com carinho. Era tão bom vê-la daquele modo.
O jantar se arrastara com alegria e romantismo. Viktor era um excelente cozinheiro, na verdade, e não poupava mimos para agradar Hermione até mesmo nos mínimos detalhes. Ele havia lhe dado uma rosa vermelha ao confortá-la na mesa, como retribuir um amor daqueles? Hermione não sabia e agora estava em conflito consigo mesma. De todo modo, decidira que teria aquela noite mágica com Viktor, mesmo que ela fosse se tornar mais uma na vida deles ou a última que ela viveria ao lado dele.
Ao deitarem-se na cama, aquela cama que ele arrumara com tanto carinho, a cabeça de Hermione pesava toneladas. Era certo correr o risco de distorcer totalmente a realidade? Deveria mesmo abandonar Viktor, sendo que ele sempre estivera ali ao seu lado a lhe proporcionar os cuidados dos quais ela precisava? Ela sequer sabia se Fred permaneceria com ela para sempre; Talvez o amor dos dois estivesse mesmo destinado a terminar em Hogwarts, ainda que de outro modo. Viktor poderia tê-la conquistado diante das brigas dos dois, por que não? Infelizmente, mesmo com tantas dúvidas ela não era capaz de tirar o desejo da sua mente.
Hermione deslizara suavemente a mão do húngaro que a abraçava para junto ao corpo dele, adormecido ao seu lado. Se virara lentamente na espaçosa cama a fim de olhá-lo uma última vez, perdido nos sonhos em que ela sabia que estava a amá-lo eternamente. Era triste se despedir assim, mas era menos cruel com ambos. O beijo que lhe dera no rosto era o último diante de uma infinita gama de possibilidades.
Assim, a garota levantara-se buscando não fazer barulho, caminhando até a sala da casa a alguns metros dali, onde jazia o seu uniforme de trabalho pronto para o que deveria ser o dia seguinte. Ali, num dos bolsos do casaco, estava o vira-tempo a chamar-lhe em sussurros. Ao alcançar-lhe, ela manteve-se a observá-lo durante um bom tempo. Sua vida agora se passava através dos seus olhos, como se ela quisesse se despedir de tudo aquilo.
Atando o cordão do vira-tempo ao seu pescoço, Hermione o regulara exatamente para a noite em que vira Friedrich Weasley pela última vez. Era 14 de Abril, às oito horas da noite, ela jamais esquecera. Antes de ativá-lo de fato ela se permitiu olhar a casa pela última vez. Ele estava ali a olhá-la e por um momento ela perdeu o ar.
— Você vai voltar para aquela noite, não é Hermione? — Ele sorrira com fraqueza nítida. Estava magoado.
— Viktor, eu... Me perdoe.
— Não, eu é que te peço perdão. Me perdoe por não conseguir conquistá-la nesses anos todos. Fico feliz que tenha conseguido um modo de evitar todas aquelas cicatrizes que a guerra deixou em você.
— Eu estou deixando cicatrizes em você. — Ela sussurrou mais para si mesma. Sabia que ele concordaria consigo por dentro.
— Elas não existirão quando você atar o vira-tempo. Tudo será novo. — Havia um sorriso genuíno ali, o sorriso de quem amava demais para se importar consigo mesmo. Aquilo fizera a garota chorar.
— Eu amo você, mas jamais vou conseguir me livrar dessa tortura que é não saber como as coisas teriam sido.
— Você não precisa se explicar. Eu te amo e desejo acima de tudo que você seja feliz. — Agora ambos estavam próximos o suficiente para que se despedissem de verdade. — Vá e diga para aquele garoto Weasley nunca mais te fazer chorar. Eu tenho certeza de que o mataria.
Então ela não resistiu e o abraçou. Aquele sempre seria o seu garoto húngaro, seu eterno protetor. Porque Viktor era mesmo um anjo na vida dela e sequer o poder de um vira-tempo seria capaz de mudar aquilo. Ao sentir que ele se afastava beijando-a carinhosamente no rosto banhado em lágrimas, Hermione soube que aquela era a hora. Pronunciou um silencioso adeus ouvindo um atencioso desejo de boa sorte. Enquanto a garota atava o funcionamento do vira-tempo, sumindo daquela realidade doce – Viktor dizia pela última vez que a amava, permitindo-se chorar de verdade.
Hogwarts, 14 de Abril de 1995. 08h00 PM
Hermione estava ali mais uma vez, mais propriamente dizendo, na grande entrada do castelo. Tudo estava silencioso como ela se lembrara e ela não fazia a menor idéia de onde começar. Ela sabia que às oito horas Fred a deixara sozinha, correndo para encontrar o irmão... Mas onde? Ela jamais descobrira aquilo.
Tão rápido quanto seu raciocínio, a morena correria pelos corredores e escadarias de Hogwarts atrás dos dois garotos ruivos. Desejava chamá-los com a voz estridente, mas aquilo com certeza lhe acarretaria grandes problemas, então se manteve silenciosamente perambulando por todos os lados possíveis. O relógio era claro e ela não podia perder tempo.
Eram oito e meia da noite. Hermione não sabia de onde os gêmeos haviam partido, lágrimas pesadas escorriam novamente pelos seus olhos e a cada nova respiração sua o tempo corria para longe de si. Ela não sabia mais por onde procurar e sentia a dor a lhe invadir o corpo diante do excesso de agitação que aquilo lhe provocava.
Por fim, permitira-se cair de joelhos em um dos corredores mais vazios do castelo. A pressão da queda lhe machucara, mas a tristeza no seu rosto era muito pior. Hermione fizera barulho diante de sua fraqueza e agora podia ouvir passos se aproximando. Era o seu fim.
— O que foi isso? — Uma voz questionara em sussurros. Ela a conhecia tão bem que ficou paralisada por um momento.
— Deve ser aquele estúpido monitor da Corvinal. — O outro dissera sem muito ânimo. Hermione o imaginara revirando os olhos ao dizer as palavras.
A grifinória não sabia se aquilo daria certo. Ela estava ali, debilitada e à mercê da sorte, no mesmo corpo em que estava vivendo seus vinte e tantos anos ao lado de Krum. Porém, aquele era o único momento em que poderia realmente tentar concertar os erros do passado. Levantando-se com mais rapidez do que seria possível, Hermione ouvira o tilintar de vassouras mágicas pronta para o vôo.
— FRED! — Ela berrara.
Aquela voz. Sim, era a voz de Hermione, ainda que um pouco diferente no tom. O ruivo, que já estava prestes a impulsionar a velha vassoura de vôo que trazia consigo, congelara-se ali. George o olhava com um sorriso alegre no rosto.
— Hermione? — Fred dissera duvidoso, deixando suas coisas de qualquer modo no chão. — O que você está fazendo aqui?
Não haveriam respostas. A garota caíra ao chão, desmaiada.
— O amor é uma magia poderosa, Srta. Hermione Granger. — Dumbledore dizia através dos seus óculos em meia-lua. — Fico feliz de que esteja bem. Nós e o Sr. Weasley aqui ficamos muito preocupados com a sua saúde.
Antes de realmente assimilar as palavras do sábio, a garota abrira os olhos com dificuldade para observar ao seu redor. Madame Pomfrey, Dumbledore, Fred e Gina estavam ali ao lado do que lhe parecia ser sua cama na ala hospitalar.
— Vou deixar que se recupere melhor e reveja seus amigos. Procure-me quando possível. — Ele sorrira enigmático como sempre, saindo em passos tenros.
— Hermione, como você está? — Gina questionara, mas logo fora interrompida.
Os olhos da sabe-tudo haviam encontrado os olhos do baderneiro e nada no mundo existia mais. Ele acreditava fielmente que ela havia descido apressada à procurá-lo após a conturbada conversa que haviam tido. Ela, porém, procurava entender como estava ali naquele momento de volta ao seu ingênuo corpo de quinze anos. Estava tudo muito bagunçado na sua cabeça desde o momento em que sua mente apagara.
Assim, ignorando as perguntas excessivas que a irmã dirigia à amada, Fred tomara-lhe os lábios como desejava fazer havia muito tempo. Estava tudo de volta ao que eles desejavam e aquilo era maravilhoso.
— Eu te amo. — A garota sussurrara para ele.
— Eu também te amo. — Fora a resposta. — Muito. Sempre.
— Pelo visto a Srta. já está em plenas condições para voltar ao dormitório da Grifinória, não é mesmo? — Madame Pomfrey se intrometera, fazendo com que os dois rissem.
Fred lhe apanhara as mãos com carinho ajudando-a a descer do leito da Enfermaria. A sensação que havia no peito de ambos era de conquista e alívio verdadeiro. Gina, que desistira de qualquer contato, agora jazia metros à frente do casal rumo ao salão comunal da Grifinória. Já era noite e os alunos de Durmstrang haviam partido durante o dia, logo após o término das comemorações festivas. Aquilo tornava muito mais fácil a separação da morena com o adorável húngaro.
— Fred? — Ela chamara interrompendo-o diante do corredor. — Eu preciso ir conversar com Dumbledore.
— Você quer se livrar de mim, já entendi. — Ele dissera em falsa tristeza. Parecia uma criança, por Merlin! — Tudo bem, não se preocupe. Eu vou esperar por você no salão comunal.
— Obrigada. — Ela dissera ao beijar-lhe os lábios rapidamente, rumando para o corredor à direita.
A sala do diretor não era longe dali, de modo que ela tivera apenas que caminhar por alguns metros até a ostentosa entrada. Ao rumar-se em passos apressados, ela pudera vê-lo ali a esperá-la. Era estranho ter a sensação de que Dumbledore sempre sabia de tudo.
— Sente-se, Hermione. — Ele dissera sem as formalidades que lhe eram usuais. — Deve estar se perguntando a razão de tê-la chamado até aqui. Digamos que é um assunto um pouco complexo, mas você tem o dom de compreender até as maiores analogias dos livros. Será algo simples para você.
— Obrigada. — Ela se limitar a dizer, nervosa. Não sabia como agir.
— Encontrei isto com você. — Dumbledore agora trazia o vira-tempo em mãos, fazendo com que ela se sentisse em grandes apuros. — Deveria agradecer por ter cuidado dele tão bem por mim. Sabia que voltaria em algum momento.
— Eu não entendi, senhor.
— Ora, Hermione... Junte as peças. Você é excelente nisso.
Logo, a garota se pusera a pensar na tarde em que lhe fora trazida a antiga caixa com pertences comuns. Entre eles havia o vira-tempo, como que escondido, mas aquilo não lhe dava nenhuma indicação.
— Eu sabia que uma certa antiguidade atrairia a sua atenção. Infelizmente aquela era a minha caixa de madeira preferida, mas considerando o seu sucesso fico feliz do mesmo modo. — Dumbledore piscara para ela. — Fiquei muito sentido ao ver que você havia sido afastada de Hogwarts. Vamos fazer do modo certo dessa vez. Agora pode descansar, pois o dia amanhã será longo.
Ao levantar-se da cadeira, rumando para a porta da sala, Hermione finalmente entendera que aquele vira-tempo pertencia realmente a Dumbledore. Ele havia quebrado as regras ao enviá-lo indiretamente para ela no Ministério através de achados utensílios irregulares, isso tudo para que ela pudesse voltar no tempo e refazer todos os momentos perdidos. Que grande homem era Dumbledore.
— Obrigada. — Ela disse sorridente com as tantas lágrimas no rosto. Assim como fizera com Viktor antes de partir no tempo, ela correra para abraçar o diretor em meio às lagrimas.
Mais tarde, ao estar de volta no silencioso salão comunal da Grifinória, ela sorrira para si mesma diante de ter conseguido seus planos. Todos os alunos estavam adormecidos em seus leitos enquanto ela jazia abraçada a Fred no amistoso sofá vermelho diante da lareira. Não havia o que ser dito, visto que o que desejavam era apenas o fato de se sentirem juntos.
Foi ali, vivendo plenamente o maravilhoso momento, que Hermione permitira-se render ao sono apoiada no corpo de Fred. Ele, bobamente apaixonado, se reconfortara no sofá sem se importar com o mal jeito do corpo. Valia tudo para tê-la ali em seus braços pelo resto da eternidade.
FIM
