Nota da Autora: últimos capítulos, queridas!


Duelo

Ela só conseguia ver feitiços e feixes das mais diversas cores a sua frente. Não tinha a mínima ideia de onde se encontrava em Londres, em qual rua, em qual bairro, e não conseguia nem mesmo imaginar se trouxas estavam vendo aquilo. Ela só conseguia pensar em qual feitiço lançaria no próximo Comensal da Morte que estaria a sua frente, e como conseguiria se desviar dos feixes verdes fatais.

Porque alguns Comensais não queriam apenas prender o restante dos resistentes, eles queriam acabar de uma vez com aquilo e matar cada um que estava ali, mesmo que isso significasse derramar sangue puro ou de pessoas que poderiam valer galeões de ouro. Isso incluía os Weasley, assim como Hermione Granger e até mesmo bruxos como Shacklebolt.E Neville.

Ginny não fazia ideia de onde Neville havia surgido, mas não se dedicou muito a pensar no assunto. Ele poderia ter fugido de onde estava, visto que Bellatrix também estava nas ruas, deixando-o só e sem vigia pela primeira vez. E ela parecia se dar conta da fuga do seu servo. Aquilo a deixou ainda mais furiosa, e Aurores tiveram que dobrar a atenção em torno dos mais visados. Snape havia finalmente saído do seu disfarce, e lançava feitiços para alguns Comensais, que claramente estavam tendo dificuldades em revidar.

Ginny não teve muito tempo de olhar para a cena a sua volta, mas se algo lhe chamou a atenção naquele momento, foi o modo como o seu antigo professor de Poções se dedicava a todo custo a proteger Neville.

Ela procurava Fenrir sem conseguir se conter, mas ainda não conseguira vê-lo. De repente um barulho estrondoso ecoou pela rua e ela olhou para cima, percebendo parte de um reboco de um prédio velho caindo em cima de alguns Comensais da Morte. Três dele ficaram inconscientes, o que deixava o lado de Ginny em vantagem. Na verdade, o número de resistentes era até mesmo alarmante, e mesmo que Comensais não quisessem demonstrar isso, a expressão de pânico e surpresa estava cada vez mais recorrente nos rostos deles.

Até ele chegar.

Começou com um silvo e depois a noite se tornou mais escura. A iluminação das lâmpadas que estavam nos postes pareceu perder a força e até mesmo o vento tornou-se mais gelado. Voldemort aterrissou facilmente na rua, um misto de véu negro e um pouco de tudo o que há de ruim naquele mundo.

A fisionomia das pessoas passou de esperançosa para desesperada em apenas alguns segundos. Mas alguns continuaram a lutar. Ginny foi uma delas. Não era a primeira vez que via Voldemort de perto, mas algo lhe dizia que seria a última, pois apenas uma coisa poderia dar fim àquilo. A morte.

Ela correu pela rua, saindo de perto dos feixes que voavam. Percebeu como Voldemort direcionava sempre a sua varinha para Snape e para Neville, como se estivesse furioso por ter sido enganado tão facilmente.

Ela não conseguia ver ninguém da sua família. Entrou em desespero por causa disso, mas algo lhe dizia que os ruivos estavam bem. Ela enfiou-se atrás de uma caçamba de lixo, observando tudo com atenção. Os feixes de luz aumentavam, Snape bloqueava todos os feitiços de Voldemort com sucesso. Neville parecia cada vez mais furioso ao ver que os seus feitiços não conseguiam atingir o monstro que ele tentava matar.

Foi aí que aconteceu.

Ela não conseguiu distinguir em que momento Neville girou a varinha ou qual feitiço seu amigo murmurou, mas um feixe estranho de luz atingiu o peito de Voldemort, e mesmo que tal feixe não fosse verde, o bruxo colocou as mãos ali como se tivesse sido atingido por algo mais físico e forte.

Ele abriu a boca, um som horrível e agoniante saindo dos lábios estranhos. Os olhos fecharam-se vagarosamente e Ginny percebeu horrorizada o rosto pálido do homem começar a se contorcer e se desfigurar, como se a pele dele fosse feita de cera e alguém tivesse colocado fogo ali.

E aquela figura horrível foi se desintegrando, secando, até que a pele encontrasse os ossos rapidamente. Ginny colocou as mãos na boca para repreender um grito horrorizado, e a última coisa que viu foi Snape lançar um feitiço sobre o corpo de Voldemort.

Ela se virou, saindo detrás da caçamba de lixo e correndo novamente pelas ruas. Os Comensais ainda duelavam, e não pareciam se dar conta da morte da pessoa que seguiam fielmente. Parte do coração dela estava em festa pela morte de Voldemort, mas parte estava em luto pelas pessoas que ela perdera. Encontrava cada vez mais corpos conhecidos nas ruas, mas não podia parar. Precisava achar a sua família e avisá-los de que aquilo ia acabar em breve.

Um feitiço a atingiu diretamente nas costas e ela perdeu o equilíbrio, caindo no chão e raspando o rosto no asfalto áspero da rua. Uma risada horrível ecoou por um beco. Ela olhou para o lado, vendo com o coração apertado sua mãe e seu pai correndo do lado oposto, sem ter ideia de que sua filha estava deitada em um canto escuro ali.

Ela tentou se levantar, mas outro feitiço a atingiu. Ginny gritou de desespero, sabendo exatamente que tipo de dor era aquela. Ela já havia sentido o poder da Maldição Cruciatus sobre si, mas aquela dor não era normal. Ela tentou olhar o rosto da pessoa que estava lançando a maldição, e depois percebeu o motivo da dor estar mais forte. Dois bruxos lançavam o mesmo feitiço sobre o corpo dela, mas logo eles ergueram as varinhas.

- Olha... mais uma Weasley!

Um deles parecia divertido ao ver a cor dos cabelos dela, e ela nem tentou pensar no motivo de ele brincar com o nome da sua família. Já teria matado mais alguém? Não teve tempo de procurar a resposta, logo o bruxo se aproximou dela, pegando os fios ruivos com os dedos e obrigando-a a se levantar.

- Terei prazer de matar essa aqui. Sempre odiei o seu pai, sua infeliz.

Ele abriu a boca para falar o feitiço, mas logo as mãos do homem deixaram o seu cabelo. Ginny teve tempo apenas de observar o corpo do bruxo voando e batendo em uma parede próxima. E, para seu imenso alívio, Fenrir Greyback entrou na frente dela, olhando para o outro Comensal com fúria. O outro não entendeu muito a reação do lobisomem, mas estava claro que Greyback espalhava medo por onde estivesse, e estava mais que claro que ele protegia a ruiva. O Comensal tentou lançar um feitiço, mas foi impedido por Fenrir, que o matou com a Maldição da Morte rapidamente e sem pensar duas vezes.

Ele a olhou rapidamente. Ginny queria abraçá-lo, mas logo se lembrou dos pais correndo em outra direção. Com dificuldade, ela se levantou do chão, sendo agradavelmente ajudada pelo braço forte do lobisomem. Ela tentou correr pela rua, mas ele a impediu. Ginny voltou-se para ele em fúria.

- Me solta!

- Aonde vai?

- Procurar meus pais!

Ela puxou bruscamente o braço e começou a correr pela rua, sendo seguida por Fenrir, que pensava que fora um milagre encontrá-la ali, em meio à batalha.

Ao entrar em uma praça que segundos atrás estava apinhada de duelistas, tudo o que Fenrir pôde ver foi Aurores e pessoas do lado oposto do Lorde das Trevas.

Ginny correu por ali, a cabeça virando rapidamente, buscando sua família. Conseguiu avistar Rony, que estava ao lado de Hermione, abraçados um ao outro como se temessem se separar dessa vez. O que restou do corpo de Voldemort estava no centro da praça, mas Snape logo tratou de desaparecer com aquilo que mais parecia com um casco murcho de pele e ossos.

Snape respirou fundo, sentindo um extremo cansaço quando tudo acabou. Na verdade, nem tudo. Eles ainda teriam um longo trabalho pela frente, procurando Comensais da Morte e levando-os até Azkaban. Ginny permanecia ao lado de Rony e Hermione.

- Neville o matou. – Rony disse, sem acreditar.

- É a profecia, Ronald. Não podemos escapar de uma profecia.

Hermione respondeu, olhando rapidamente para Ginny, que desviou os olhos e abaixou o rosto. De repente ela escutou alguns ali presentes gritarem e levantou novamente o rosto, fitando Fenrir Greyback se aproximando de todos ali.

Muitos levantaram as varinhas, mesmo vendo que o lobisomem estava com a sua guardada. Ginny não pensou duas vezes antes de correr até ele e postar-se em frente ao homem, como se o corpo frágil dela pudesse barrar todos os feitiços que chegariam até os dois caso as diversas varinhas apontadas resolvessem lançá-los.

- Não.

Ela disse, convicta. Muitos olharam para os dois sem entender nada. Snape fitava tudo com os olhos negros e atentos. Ela percebeu muitos de sua família aparecem aos poucos ali na praça. Ela abriu os braços frágeis e trêmulos, como se estivesse tentando dizer a todos que Greyback não seria atingido.

- Ele é um Comensal, Weasley. – um Auror falou, visivelmente confuso.

- Ele salvou a minha vida.

- Isso não quer dizer nada. Ele sempre será um Comensal. E um assassino.

- Acabou, ok?

Ginny respondeu, olhando todos em desafio. Fenrir observava tudo com atenção, de repente ficando extremamente surpreso com a força que aquela ruiva tinha dentro de si. Ela estava enfrentando mais de vinte bruxos, inclusive os que queriam protegê-la dias atrás.

- Abaixem as varinhas.

A voz de Snape soou pela praça e todos os Aurores fizeram o que foi mandado. Ginny fitou Snape quase com gratidão, mas o moreno não lhe dava atenção, seus olhos escuros estavam focados no lobisomem que estava atrás dela, e que devolvia o olhar com a mesma intensidade.

- Todo esse tempo, Snape?

Fenrir perguntou, incrédulo. Algo lhe dizia que Snape era de inteira confiança. Parte porque o homem o ajudou em certos momentos, parte porque ele sempre estava ao lado do Lorde das Trevas. Fenrir não costumava se enganar quando o assunto era confiança, mas ele havia feito uma péssima aposta quando se tratava daquele manipulador de poções.

Snape aproximou um passo de Fenrir e Ginny, mas seus olhos escuros ainda fitavam o lobisomem.

- Você sabe que um mundo bruxo feito apenas de sangue-puro é algo tolo, Greyback.

Snape disse com extrema calma. Sabia que o assunto sangue era algo delicado naquele momento, principalmente quando se tinha uma besta daquele tamanho infectada com licantropia. De qualquer maneira, ele sabia que Fenrir ia conseguir captar a mensagem que estava passando ao dizer aquilo. O lobisomem fora vítima de preconceito do mesmo modo que nascidos trouxas e mestiços foram, mesmo que de forma diferente. Snape continuou.

- Sangue não é algo que move o mundo e rotula alguém. Acho que sabe disso. – ele pausou por breves segundos - Qualquer um pode fazer o bem.

Snape olhou para Ginny rapidamente. Fenrir permaneceu calado. Desde que começara a se entreter com aquela ruiva, percebeu o modo como ela via aquele assunto tratado entre tipos de sangue. Ela, de alguma forma, abrira os olhos dele para algo que ele nunca percebera. O sangue dele era tão sujo quanto o sangue de nascidos trouxas e mestiços, se ele pensasse com clareza. Fenrir não gostava muito quando alguém tocava no assunto da sua licantropia, mas parte disso era por achar que o que tinha era uma maldição e uma doença.

Aquele preconceito se aplicava a bruxos e bruxas que foram mortos por uma causa absurda que um bruxo doente enfiara na cabeça.

- Greyback não pode ficar aqui. Ele terá que deixar o local.

Um Auror interrompeu os pensamentos de Fenrir, que fitou o bruxo rapidamente. Em um gesto automático, ele passou o braço enorme pelo corpo frágil da ruiva.

- Ela vai comigo.

Snape tratou de negar com a cabeça rapidamente.

- Ginny Weasley não pode ir com você, Greyback. Ainda há Comensais da Morte soltos por aí. Provavelmente muitos irão fazer visitas em seu castelo. Você se expôs demais na batalha. Não vai querer colocar a garota em perigo, não é?

Snape fez um apelo duvidoso para o lado companheiro de Fenrir, que praticamente rosnou apenas em pensar nela em perigo novamente. Ele tombou o braço, deixando Ginny livre. Ela se virou rapidamente, mas antes que ela pudesse olhá-lo nos olhos, ele havia desaparatado.

- Não...

Ela disse em um sussurro, sentindo facilmente as lágrimas acumularem-se em seus olhos, embaçando sua visão. Sem se preocupar se estava sendo tola e patética na frente dos outros, ela caiu de joelhos, colocando as mãos no rosto e libertando a vontade incrível e irrefreável de chorar.

Ele sumira novamente. Pela terceira vez estavam separados. E ela não sabia se o veria novamente.

Como um bálsamo, sua mãe se aproximou dela, ajoelhando-se ao lado da filha e a abraçando com ternura. Molly olhou para os Aurores, dizendo por meio disso para eles deixarem a filha dela em paz. Eles começaram a se afastar e andar novamente para as casas que serviram de abrigos e esconderijos, deixando as duas ali, naquela praça imunda, na presença apenas dos Weasley e de Snape.

- Ele não vai ficar bem...

Ginny disse como se estivesse pensando alto. Molly a apertou mais fortemente. Não queria pensar no homem que Greyback um dia fora ou o que ele representava. Ele salvara a vida de sua filha, e por isso Molly seria eternamente grata.

- Acalme-se, querida. Greyback é um lobisomem temido. Isso pode ajudá-lo nesse momento.

Ela acalentou a filha, escolhendo rapidamente as palavras.

Mas não sabia se a escolha fora sábia.