Capítulo 25

A partida de Elifas fez com que o cenário de Paris se tornasse menos convidativo do que de costume, e de fato, nenhum de seus conselhos fez com que eu me sentisse melhor a respeito da indiferença de Alvo. Na verdade, apenas pioraram a situação. Quando voltei para o hotel naquela noite, não consegui dormir e pela primeira vez em muitos anos passei uma noite em claro. Estava sentada frente à mesinha com as cartas, pena e tinteiro, com a última carta que recebera de meu amigo em mãos. Ele comentava minha inveja, meu egoísmo… eu nunca imaginei tais palavras saindo da boca dele a meu respeito… ele jamais foi um ser venenoso. Foi quando percebi a influência de Grindewald. Quem mais poderia estar levando-o a sentir sentimentos tão vis?

Passei o resto da madrugada mirando o papel, na esperança de que as palavras certas sairiam dele. Não podia me ater ao conselho de Elifas e me manter distante, ficar em silêncio como se não soubesse o que se passava… aquilo seria ir muito contra os meus princípios, tia Sarah bem o diria. De fato, muitas das vezes, embora me recusasse a admiti-lo, quando estava numa encruzilhada, eu me lembrava das palavras de minha tia sobre o assunto. – A melhor hora para se resolver um problema, é agora. – Quando menina, isso soava presunçoso e egoísta, mas, naquele momento, nunca foram dizeres mais sábios. Eu não podia protelar minha dor, por mais que o amasse e quisesse sua felicidade, havia mais de um coração em risco. O meu.

Um milhão de vozes ressoavam na minha cabeça, se bem consigo me lembrar. Incompreensíveis de certa forma, ainda que algumas palavras soassem claramente. Palavras de amor antigas nas vozes de Alvo, injúrias na de tia Sarah, conselhos na voz de Linda e Elifas, presságios na voz de vovô Archie, todas ao mesmo tempo. Fechei os olhos, mas elas não cessavam e de repente fiquei com a sensação de que o quarto estava girando rápido demais. A escuridão do céu de Paris estava me engolindo...

─ Chega! – exclamei com todo o fôlego que ainda me sobrava. Abri os olhos e o papel continuava em branco, mas com uma camada espessa de neve por cima dele. Eu havia feito nevar... eu não fazia aquilo desde os seis anos.

Então comecei a chorar, com medo do meu súbito descontrole. Num gesto súbito de desespero, limpei a neve do papel e molhei a ponta da caneta no tinteiro. "Alvo..."

─ Amélia? – chamou Cora da porta do quarto. O sol começava a bater onde eu estava. – Eu ouvi você gritando... está tudo bem?

─ Eu nunca consegui mentir para você, não é?

─ Às vezes conseguia... mas não quando o assunto é o seu coração. – ponderou minha irmã. – Alguma coisa que Alvo disse numa carta?

─ Ele não me ama mais. – respondi enquanto me virava para encarar minha irmã.

─ Impossível! Ele disse isso?

─ Nem precisou, eu conclui sozinha. Não sou tão leviana quanto pareço.

Cora apressou-se em ajoelhar-se ao meu lado, apoiando uma de suas mãos no braço da cadeira e a outra no meu joelho, preocupada. Em seus olhos eu via indignação e dúvida, ao passo que nos meus ela deveria ver aceitação e amargura.

─ Amélia... eu... na festa do seu noivado, quando Black a tomou nos braços, eu olhei para o Alvo e vi ciúme nos olhos dele...

─ Mas o ciúme não é a prova de amor mais confiável, não é, Cora? Vovô Archie sentia ciúmes da vovó Moira e ainda assim mandava flores em todos os aniversários de casamento, só para garantir. – comentei com leve desdém.

─ Mesmo assim... eu não acho que ele deixou de querê-la bem.

─ Claro! Porque existem tantos tipos de amor quanto há corações, como Rudy insiste em me lembrar. E se Alvo não me quer mais como um tipo de amor, eu devo ficar feliz porque pelo menos não resolveu que agora quer cuspir na minha cara... Francamente, você e Elifas não sabem de nada! – gritei erguendo-me da cadeira com violência.

─ Então explique! – rebateu Cora me imitando.

─ Pois muito bem. Há quase um mês venho recebendo cartas de Alvo que envolvem um homem chamado Gerardo Grindewald, e desde então não leio mais nada além dos planos deles para o mundo mágico, nada a respeito de planos sobre "nós".

─ E como você queria que ele ainda tivesse esperanças?! – indagou minha irmã nervosa. – Amélia sua vida já está traçada, por pior que seja... é muito egoísta da sua parte querer que ele se mate em ter sonhos com você, sonhos que nunca serão realizados devido as diferenças entre as nossas famílias...

─ Não estou sendo egoísta, Cornélia. Por que espero isso dele? Porque eu ainda me permito isso! Eu! Que sei mais do que qualquer um no mundo o quanto a minha vida já está desgraçada! Eu ainda me permito sonhar com "nós". Se eu ainda consigo, por que não ele? O que há de tão diferente? Eu não consigo entender... Quer dizer, agora até consigo, depois do que soube sobre esse tal Grindewald... Ele está enchendo a cabeça de Alvo com ideias de superioridade e poder, levando-o a crer que ser o bruxo brilhante que é o torna melhor do que qualquer sentimento simples. É claro, por que sonhar em se casar com alguém, em ter uma família com alguém, quando se pode sonhar em dominar todo o mundo mágico? Ele... ele se esqueceu de mim e me trocou por... por poder? – e gritei. Tão aguda e dolorosamente que poderia ter sido ouvida pelo prédio inteiro, se Cora não tivesse isolado o quarto com o Abbaffiato.

Cora não se atreveu a me tocar enquanto eu continuava a berrar e a atirar objetos no chão. Eu nunca havia perdido o controle antes, sempre muito calma e ponderada, exceto nos jogos de Quadribol. E ali parecia que estava desabafando anos de repressão, de acatar com o que me era imposto, com as adversidades da vida contra as quais era impossível lutar. Perder Alvo e ser forçada a aceitar, como Elifas e Cornélia propunham era a gota d'água. Estava cansada de sempre aceitar tudo em prol da noblesse oblige.

─ Eu disse não ser preconceituosa, mas eu sou... e a pior delas, Cora. – disse por fim, ao me acalmar.

─ O que quer dizer? – perguntou ela ainda mantendo a distância.

─ Eu convivi com pessoas diferentes em Paris. Pessoas que, assim como Alvo parece ter se tornado agora, tem aversão a mulheres e preferem ter a companhia eterna de homens... e eu disse que para mim estava tudo bem. Contudo, eu não pensava no que as mulheres que amavam esses homens poderiam sentir, nem me importava. Agora sou eu... e de repente eu não me sinto mais tão bem com isso... e queria que essa opção sequer existisse, se isso fosse capaz de trazê-lo de volta para mim... Eu estive mentindo para mim esse tempo todo, afirmando que ficaria bem sendo apenas amiga dele...

─ Mas não vai. – completou Cora sentando-se ao meu lado novamente.

─ Mas não vou. – repeti ainda chorando. – Se ao menos Grindewald fosse melhor, eu poderia tentar... Mas ele é mal. Pior, ele é maligno! E está usando o que Alvo está sentindo por ele para influenciá-lo...

─ Eu diria que Alvo está precisando de seus amigos com ele. – ponderou minha irmã tomando minhas mãos nas dela. – E sim, minha irmã, você terá que se acostumar a ser apenas a melhor amiga dele. Sua conselheira, seu porto seguro em momentos de provação. Talvez pode ver todo o passado como uma mentira, uma lembrança cinzenta... ou, pode respirar fundo e admitir que sim, vocês se amaram mais do que qualquer casal da história bruxa; e pode afirmar ainda mais, que você foi a primeira e a única mulher que Alvo Dumbledore ousou amar. Ele preferiu amar um homem do que trair você num momento de solidão.

─ Não seria muito presunçoso? – indaguei sem conter um sorriso.

─ Se fizer você se sentir menos perdida, até mesmo a presunção é melhor do que a dor.

E sorri para ela em agradecimento, algo singelo, mas ainda assim me fez sentir um pouco melhor. Eu não sentia fome, mas deixei que Cora chamasse o serviço de quarto com o café, enquanto me vestia.

─ Ontem, enquanto distraía o pessoal para que você conversasse com Elifas, mostrei aquele desenho que fiz de você, lembra-se?

─ Sim, é claro. E o que eles disseram? – perguntei tentando me mostrar animada.

─ Marius, Rudy e Cecile me aplaudiram, mas George duvidou que fosse meu. – respondeu ela risonha. – Então, me sentei e fiz um esboço da Cecile. Veja.

Era apenas um rabisco a lápis, mas capturava todos os traços marcantes de nossa amiga fotógrafa.

─ E o que ele disse depois dessa mostra de talento?

─ Pediu para que fôssemos até a casa dele esta tarde, ele vai me ensinar a pintar com as tintas a óleo. E eu quero usar você como modelo.

─ Mesmo? Justo hoje que não estou nas melhores condições para posar? Estou um caco...

─ Ao menos vai distrair você...

─ Muito bem. – concordei meio que a contra gosto.

─ Excelente, vista aquele vestido branco que tia Olímpia mandou, sim? – pediu Cora se levantando animada.

Tentei me manter alegre pelo resto da tarde pelo bem da arte de minha irmã. Marius e Rudy perceberam que eu estava mais calada do que o habitual, mas nada disseram sobre o assunto. Até que George dirigiu a palavra a Cornélia comentando sobre o quanto deveríamos sentir falta de casa. Minha irmã olhou diretamente para mim, identificando minha reação. Eu segurei uma lágrima que queria escapar, mas contornei a situação com um sorriso.

─ O quarto do hotel fica tão silencioso sem o nosso pequeno Edmundo. – comentei fitando Cora com saudosismo. – Nosso irmãozinho, fez onze anos recentemente.

─ Um jovem monsieur Delacour. – alegrou-se Marius. – Gostaria de conhece-lo, não é, Rudy?

─ Se for tão brilhante quanto às irmãs. Ninguém conta uma piada como Amélia e Cornélia se revelou uma virtuose na música e na pintura...

─ São só rabiscos! – protestou Cora corando.

─ E vou transformá-los em arte. – cortou George. – Agora comece a pintar essa parte uniformemente.

─ Eu sei que não se deve apressar o artista, mas meus braços estão dormentes. – brinquei fazendo minha primeira piada do dia.

─ Quer ajuda? – indagou Marius pondo-se atrás mim e puxando meus braços para cima com força, fazendo com que eu perdesse o equilíbrio.

─ Ei! – protestei me levantando para correr atrás dele e soca-lo no braço.

─ Eu non estou acostumade a trrabalhar em condições ton terribles. – desdenhou minha irmã rindo da cena.

Por mais que eles me fizessem rir, no fundo, eu não estava nem um pouco feliz. A situação de Alvo me preocupava. Cornélia estava certa, eu precisava sair de Paris e ir para Godric's Hollow colocar algum juízo na cabeça do meu amigo. Enquanto essas ideias permeavam a minha cabeça, Cecile foi anunciada e caminhou direto para a frente do cavalete de Cora, carregando um pedaço de papel.

─ As últimas para vocês, mis ami. – anunciou ela erguendo o papel para o alto. – Fomos convidados para a festa na casa da senhorita Stephen. – disse.

─ Vanessa? Mas ela conseguiu convencer o velhote a dar uma festa? – indagou George preocupado.

─ Na verdade, a festa é, de fato, do pai dela. Chegaram a Paris há alguns dias e já estão fazendo um estardalhaço... conhece o Leslie, desde a morte de Julia não consegue negar nada aquelas crianças. Deus sabe como precisam de diversão. – respondeu Cecile. – O importante é que nós vamos, não vamos?

O olhar de Cora recaiu sobre mim e com razão, eu não estava disposta a conhecer gente nova aquela noite, mas acenei positivamente quase sem pensar, o que assustou minha irmã. Já estava tão acostumada a acatar com os convites de festas dos meus amigos agitadores franceses que não consegui evitar mais uma vez. Vanessa Stephen, mais tarde Bell, era a irmã mais velha de ninguém menos do que Virginia Wolf, a célebre escritora. Embora não fosse famosa quando nos conhecemos já possuía um gosto apurado para literatura e confesso que conversar com uma compatriota inglesa me fez bem naquela noite.

Eles sabiam como dar uma festa. Os móveis foram afastados e tivemos espaço para dançar algumas valsas, ainda que eu não o tenha feito, tendo preferido permanecer sentada no sofá conversando com a jovem Virginia. Dali a alguns minutos, saí em direção à sacada. Era noite de lua cheia e todos os lobisomens do mundo deveriam estar soltos... quando pequena desenvolvi um medo exagerado por tais criaturas, sem me ligar no fato de que os monstros de verdade, são ninguém mais ninguém menos do que nós mesmos. Capazes de destruir nossas próprias mentes presas por um único sentimento. Sim, eu estava exausta com tanta preocupação e foi nesse estado que Marius me encontrou.

─ Está tudo bem, Mel? – indagou ele de supetão me entregando uma taça de vinho. – Você não aceitou dançar sequer uma valsa, hoje.

─ É claro que está tudo bem... estou sempre feliz, Marius. Há pouco do que sentir tristeza... exceto problemas de menina. – respondi tentando sorrir com confiança.

─ E esses problemas de menina incluem seu amante? – ele tornou a indagar com esperteza.

─ Marius, sabe perfeitamente que eu estou...

─ Noiva, eu sei. Contudo, já vivi demais do mundo para não saber que você não ama esse seu noivo. E que esse parceiro de dança misterioso, o rapaz de quem recebe cartas e o motivo da sua mente estar além de tudo e todos esta noite, não é ele. – disse calmamente.

─ Ponto para você. – brinquei tomando um gole de vinho, quase esvaziando metade da taça.

─ Cuidado, isso não é água.

─ Diga-me, Marius, o que aconteceu com ela? – perguntei com um sorriso presunçoso.

─ Como sabe que existiu uma "ela"?

─ Porque eu sou esperta. – devolvi sem rodeios. – Diga.

─ Quer saber da minha desilusão amorosa para compensar a sua? Isso não é certo, Mel. Aceite que se ele não soube preservá-la, certamente não merece você...

─ É muito mais complicado que isso.

─ Então explique.

─ Explique você primeiro. – insisti.

─ Está certo. – consentiu ele com um suspiro triste. – Por onde começar? Foi como qualquer outra história de amor, na verdade. Eu a vi passar dentro de um carro, perto do Arco do Triunfo, e me apaixonei instantaneamente. Era linda a minha Isabelle. Loira e de olhos muito azuis, uma risada encantadora, a minha musa. Fiz de tudo para entrar nos bailes em que ela frequentava...

─ Ah, ela era rica. – interrompi.

─ Ela ainda é rica. Em todo caso, consegui entrar num desses bailes e roubei uma valsa dela dizendo que era um duque abastado. Recitei sonetos para ela, não havia nada que eu não fizesse para vê-la sorrindo e Rudy me alertou sobre isso, o bom e velho Rudy... ele a conhecia melhor do que eu. – disse com amargura.

─ Prossiga. – pedi quando percebi que ele queria parar, já adivinhando o final da história.

─ O final é que quando pedi a mão dela em casamento, ela riu. Disse que jamais se casaria com um mísero poeta porque sabia que era capaz de mais. Acredite, ela era charmosa e espinhenta como uma rosa deve ser, e partiu meu coração. Casou-se com um duque e nunca mais dirigiu sequer o olhar para mim... eu que era capaz de matar por sua causa.

─ Sinto muito, Marius.

─ Não mais do que eu sinto por não ter dado ouvidos ao Rudy. – assegurou ele apoiando o rosto entre as mãos. – Sua vez. – disse voltando a olhar para mim pelo canto dos olhos.

─ Eu me apaixonei pelo meu melhor amigo e ele se apaixonou por mim, mas, ambos sofremos com as mudanças súbitas de nossas vidas. Enquanto as minhas mudanças me levaram a uma vida boêmia agitada, as dele o levaram a se apaixonar por um rapaz. E o pior não é necessariamente isso, quer dizer, durante todas essas noites passadas no Moulin Rouge eu me acostumei a ver dois homens se beijando...

─ Só não esperava que fosse acontecer com você. – completou ele sabiamente.

─ Pior, não esperava que fosse acontecer comigo para ser trocada por alguém tão baixo e tão vil como esse rapaz... Ele está usando o meu amigo, Marius, e por mais que o ame como mulher, me preocupo com ele como amiga também. Eu não consegui pregar o olho ontem à noite e dificilmente conseguirei pregar o olho hoje.

O silêncio se instalou enquanto a brisa batia contra nossos rostos e encarávamos a lua cheia no céu de Paris.

─ Parece que a sorte realmente está a nosso desfavor. – brincou Marius. – Dois ancorados em Paris, a cidade do amor, mas ambos de coração partido. Eu realmente não sei o que lhe dizer, Mel. Rudy é o melhor conselheiro.

─ Pode ser, mas é você quem está no mesmo barco que eu – retruquei. – O que fez quando Isabelle o recusou? – perguntei terminando de beber meu vinho em seguida, parando para fita-lo.

─ Tentei seguir em frente. Um dia horrível de cada vez. Não sei se teria conseguido sem Rudy ou Cecile ou qualquer outro dos meus amigos... é quando se encontra a ruína é que descobre quais são os verdadeiros... Também tentei me apaixonar novamente, um caso ou outro, mas nada igual a ela. – ele respondeu.

─ Assim é meu amor e a ti o reporto: por ti todas as culpas eu suporto. – disse citando o final de um soneto de Shakespeare, deixando Marius para voltar e me juntar aos vivos.

Terminei a carta que havia começado para Alvo e sem receios enviei-a pelo correio coruja na manhã seguinte, precisando ir até a casa de tia Olímpia outra vez para tal. Ela não estava, o que facilitou, do contrário, seria questionada. Em todo caso, horas mais tarde, eu recebia a carta de volta sem resposta e com todas as anteriores também. Eu estava inquestionavelmente substituída. De cabeça erguida voltei para o hotel e pedi a Cora que se vestisse, iríamos sair. Como Marius dissera... um dia terrível de cada vez.


Gostaria de agradecer a D pela linda review *-*... Por favor, aos outros visitantes fantasmas, deixem reviews para que eu saiba se estão gostando. Até a próxima postagem, Bjoooos!