Nada a declarar como nota inicial (vcs vão entender quando virem a nota final kkk), só um agradecimento gigante pelos comentários, pelas recomendações, pelos favoritos e por acompanharem essa jornada do Prongs!
E vamos a mais um capítulo... espero que gostem!


Os feitiços espalhavam-se por todos os cantos, destruindo as casas ao redor da rua trouxa. A evacuação dos trouxas no local era barulhenta, os gritos eram terríveis. Sirius gritou alguma coisa para mim do outro lado da rua; uma quantidade enorme de tijolos explodiu no instante em que ele ultrapassou a calçada despedaçada, em frente a uma loja onde dois Comensais da Morte mascarados surgiram da explosão. Sirius duelou com o primeiro, eu duelei com o segundo. Conseguimos deixá-los no chão. Para ter certeza de que eles não se levantariam, Sirius derrubou o restante dos tijolos com um feitiço e afogamos os comensais ali.

Não tínhamos tempo de prendê-los.

– Marlene? Cadê a Marlene? – Sirius perguntava constantemente.

Corri ao lado de Sirius diante da batalha que estava acontecendo. Um grito despertou nossos sentidos. Veio do último andar do prédio. Sirius andou depressa até sua moto caída logo a frente e, juntos, voamos até o último andar. Com um feitiço destruí as janelas para invadirmos o local.

Estava tudo muito confuso, tudo acontecendo muito rápido. Perdemos de vista metade do pessoal da Ordem, e eu também não encontrava Lily em nenhum lugar. Ou sequer Frank e Alice.

Bellatrix e seu marido estavam torturando o Primeiro Ministro trouxa no meio de sua sala de estar.

– Não! – gritava a mulher amarrada ao lado do homem, com todas as forças. – Não, por favor, pare! Pare!

– Cale a boca dela, Rodolphus!

Rodolphus gritou Avada Kedavra e a mulher caiu amolecida, perdendo a vida imediatamente. Duas crianças estavam encolhidas embaixo da mesa, trêmulas, com medo, muito medo.

Não perdemos tempo. Sirius estuporou Bellatrix e começou a duelar com ela. Lestrange tentou me acertar um feitiço mas fiz o lustre da sala despencar com força contra a cabeça, de modo que ele ficou desmaiado e sangrando. Soltei o Ministro do feitiço que o prendia. Ele estava perdendo a consciência aos poucos, resultado de várias sessões de torturas realizadas pelos Lestrange.

– Pegue as crianças! – gritou Sirius, sem parar de soltar feitiços e se defender dos de Bellatrix. – Eu dou um jeito nela.

Não queria deixar Sirius duelando contra ela sozinho, mas eu realmente precisava tirar aquelas duas crianças e o Ministro do apartamento o mais depressa possível.

Mas as crianças não conseguiam sair. Negavam veementemente com a cabeça, lançando olhares aterrorizados para o corpo morto da mãe e torturado do pai.

– Está tudo bem – eu disse, estendendo meu braço direito para a garotinha de cinco anos segurar a minha mão. Ela estava encolhida. – Olha, eu não vou machucar vocês... confiem em mim...

Nesse momento um jato de luz acertou o irmão dela. Sirius tinha se desviado do feitiço de Bellatrix, fazendo-a atingir o garoto ao invés dele. O garoto não se mexeu depois. Sirius revidou umestupefaça no peito dela, fazendo-a dar cair perto da janela espatifada. A garotinha berrou tanto que eu precisei fazê-la vir ao meu braço com um feitiço accio. Não tive a menor ideia de como consegui ajudar Sirius a duelar com Bellatrix enquanto segurava uma menina de cinco anos nos braços, chorando desesperadamente. Apenas sei que no fim conseguimos derrubar Bellatrix Lestrange do último andar do prédio. Ela desaparatou antes que seu corpo se esmagasse contra o impacto do chão numa queda de cem metros.

Corremos para a moto novamente quando não tivemos como acolher o Primeiro Ministro também. Sirius ligou a moto e saímos para voar e observar os arredores da rua. A menina agarrava meu pescoço com força enquanto eu tentava encontrar algum membro da Ordem da Fênix por ali.

Foi quando Sirius gritou, apontando:

– Ali! Marlene e Lily!

Nós aterrissamos para ajudá-las. Estavam duelando com dois Comensais, um era gordo e o outro era magricelo. Avery e Mulciber. Marlene tinha um corte profundo na sobrancelha, derramando sangue sobre o olho até a boca, mas não deixou que isso a atrapalhasse. Lily estava com o braço quebrado, pois duelava com a mão esquerda enquanto o direito parecia despencado. E mesmo assim, mesmo com a mão esquerda, conseguiu desarmar Mulciber. Outra vez.

Avery assustou com o fato de que estava sozinho contra quatro pessoas no momento em que Sirius estuporou o idiota do Mulciber. Desse modo, ele aparatou e ainda deixou o rastro do cabelo dele para trás.

– Lene, você ta bem? – perguntou Sirius quando ela se virou para nós para agradecer pela ajuda.

– O idiota me jogou uma pedra no rosto. Está sangrando muito? – ela apontou para o rosto, um pouco abobada. Sirius a segurou para que não caísse ao bambear desnorteada.

– Não conseguimos salvar o Primeiro Ministro – eu contei a Lily que me observava segurando a garotinha assustada no colo. Ela não queria se desgrudar de mim. – Só... só sobrou ela...

– Parados! – gritou uma voz desconhecida atrás de nós. Cinco viaturas policiais tinham estacionado ao nosso redor, todos os policiais saíram para apontar suas armas para nós como se fossemos os verdadeiros criminosos. – Solte a garota e coloquem as mãos para cima. Imediatamente!

Eu não fiz o que ele pediu. Apenas andei em direção ao policial. Ele continuou apontando sua pistola contra mim, tentando se proteger. Suas mãos estavam trêmulas e quando me aproximei dele, percebi que ele tinha dado um passo para trás.

Entreguei a garotinha para ele.

– Cuidem bem dela. Sua família morreu.

– Ei, volte aqui! Voltem aqui!

Mas nós aparatamos do local imediatamente, Sirius fugindo com sua moto.

Voltamos para a sede com o restante dos membros da Ordem da Fênix. Pelo menos os que vieram depois da batalha em Londres.

– Cadê... Alice? Frank? Voltaram? – perguntava Lily enquanto Emmeline a ajudava enfaixar o braço deslocado. Emmeline havia se tornado uma ótima ajudante para aqueles da Ordem que se machucavam. Atenciosa e muito boa em feitiços e poções curativas, era bom tê-la para esses tipos de momentos, uma vez que não podíamos aparecer no St. Mungus em bando, podiam fazer perguntas e a Ordem da Fênix era secreta.

– Eu os vi pela última vez duelando com Lucius Malfoy e Severus Snape – contou Benjy Fenwick, com um torniquete no joelho.

– Tentei ajudá-los – disse Edgar Bones – mas tinha Travers e Rosier no meio também... estava impossível.

Ela não quis transparecer, mas vi Lily reagir um pouco ao ouvir o nome de Snape. Piscou algumas vezes. Será que eles mataram nossos amigos?

– Isso é ruim, isso é ruim – disse Moody andando de um lado para o outro. – Malfoy e Snape são os principais recursos de Voldemort...

Não queria imaginar Frank e Alice nas mãos de Voldemort.

– E como está o Remus?

– Melhor. Desorientado – respondeu Dorcas baixinho. – Envergonhado. Está descansando no quarto...

– Não foi culpa dele! – disse Lily inconformada. – Não foi culpa do Moony...

– Mesmo na Maldição Imperius – disse Olho-Tonto – é impossível não se sentir culpado por tentar matar a própria namorada.

– Eu disse para ele que estava tudo bem – falou Dorcas. – Que eu entendia, mas Remus... não sei mais o que fazer.

Levantei-me da poltrona, mancando, e fui até o quarto da casa onde Remus estava isolado e sentado.

– E aí, cara...

– Todo mundo está bem? – ele perguntou erguendo os olhos para mim. – Quero dizer, menos a Dorcas...

– Você não tinha como controlar...

– Tinha sim. Você e Lily conseguem sempre se controlar nos treinamentos com Moody.

Moody nos treinava para suportarmos a Maldição Imperius, mas as coisas que ele nos mandava fazer – e que devíamos NÃO fazer – era dançar, e não matar.

– Bom, Lily e eu somos um caso bastante diferente – eu disse de forma ironicamente arrogante, mas Moony não riu. Por isso eu dei um suspiro e me sentei ao seu lado. – O importante é que estamos vivos. Dorcas está bem, você está bem...

– Eu apontei minha varinha pra ela, cara... foi terrível, a sensação de que eu deveria machucá-la se apossou em mim... Essa sensação nunca vai passar.

– Então a supere – eu mandei. – Porque eu não quero ver você isolado como no nosso primeiro ano por algo que não foi sua culpa. Beleza?

Eu disse aquilo com certa dureza e Moony assentiu com a cabeça.

– James. Eles pegaram... Alice e Frank ainda não voltaram?

– Não quero pensar nisso – eu disse com a voz baixa. – Mas assim que tivermos uma notícia deles, nós vamos procurá-los...

– E você acha que eles... eles encontraram Você-Sabe-Quem?

– E talvez eles acabem nos surpreendendo.

Lily e eu não voltamos para Godric's Hollow. Ficamos a noite inteira na sede da Ordem da Fênix ajudando Emmeline com os ferimentos dos que batalharam. Ela disse que estava tudo sobre controle e pediu para que voltássemos a Godric's Hollow descansarmos. Nem eu e nem Lily estávamos dispostos a descansarmos. Como descansaríamos sem ter a plena certeza de que Alice e Frank estavam vivos?

Choveu muito no mês de março e estava chovendo também naquela noite agonizante de espera e incertezas. Dumbledore pediu que Peter o atualizasse da situação e ele ficou imensamente preocupado com a revelação de que Alice e Frank eram os únicos que não tinham voltado. Um passo descuidado deles poderia resultar em suas mortes.

Mas o patrono de Alice chegou na manhã seguinte com a seguinte mensagem:

Estamos bem. Mais ou menos. Não chegamos para a sede porque era urgente que Frank fosse ao hospital St. Mungus.

Quando fomos visitá-lo, ficamos ainda mais abalados. Ele estava com as costas inteira queimada, e mais algumas partes dos braços e das mãos. Embolado em faixas brancas até o pescoço e bebendo poções, ficou sendo paparicado por sua mãe, Augusta, que o tempo todo se orgulhava de dizer que Frank estava vivo, que Frank encarou Voldemort de frente e o derrotou. Que Frank quase sacrificara sua vida para proteger a de Alice e que os machucados eram importantes para lembrarem esse dia milagroso. Frank tinha sido um herói.

– Como vocês escaparam? – perguntou Lily para Alice, já que Frank estava na cama do hospital sem conseguir se mover ou falar. Mais por estado de choque do que por ter sido gravemente ferido.

– Eu não sei o que deu no Frank naquele momento... Achamos totalmente que íamos morrer... que não tinha jeito... Mas o idiota começou a tacar fogo em tudo!

– Que idiota? Voldemort?

– Não! O Frank! Frank começou a tacar fogo em todos os lugares da rua... Ficamos embolados no meio das chamas que Frank nos cercou com magia... A fumaça estava impedindo V-v-voldemort – foi a primeira vez que ouvi Alice falar o nome dele – de ver a gente. Conseguimos confundi-lo. Ficamos deitados, fingimo-nos de morto no meio daquelas chamas... E então... Voldemort saiu de lá, simplesmente saiu! Frank se queimou inteiro... as chamas ficaram meio descontroladas, mas eu consegui aparatar com ele nesse momento... foi terrível, mas incrível, e desastroso... poderíamos ter sido queimados vivos!

Ela disse isso muito inconformada mas elétrica e eufórica. Frank grunhiu na cama, concordando.

– Por acaso ele não tentou recrutar vocês para o exército dele, tentou? – eu perguntei.

– Não – disse Alice, estranhando. – Ele seria tão cara de pau assim?

– Foi com a gente... naquela noite do seu casamento – eu contei. Não tínhamos contado a ninguém desde então, nem mesmo a Dumbledore. – Também foi meio difícil saber como escapamos.

– Não, não foi – replicou Lily olhando para mim. – Você o desarmou. Foi assim que escapamos.

– Ele tentou recrutar você, Lily? – Alice encarou Lily com a testa franzida. – Não era Voldemort que odiava nascidos-trouxas?

– Eu sei.

– Deve ser algo raro – comentou. – Mas você não aceitou, aceitou?

– Claro que aceitei – ela disse sarcasticamente. Alice bateu a mão na testa. A mão que ainda está trêmula.

– Pergunta idiota... é que... depois de tudo o que aconteceu, você acaba ficando maluco... Todos da Ordem estão bem?

– Bem, bem não estão... Mas vivos, sim.

– É o máximo que podemos pedir nesses tempos, né? – ela disse com um suspiro e então virou o rosto para Frank apaixonadamente. – Ele foi tão estupidamente corajoso.

Ele reuniu forças para apertar fraquinho a mão de Alice pousada na dele, mesmo que enfaixada.

– Sei como é – sorriu Lily docemente. – Quer alguma coisa, Alice? Algo que podemos fazer?

– Não, Lily, obrigada – ela disse bondosamente. – Tudo o que eu preciso está aqui.

E continuou observando Frank.

– Sei como é – eu disse dessa vez, segurando a mão de Lily.

Mais uma semana se passou. Não que eu contasse os dias no calendário, mas nada dava mais alívio do que voltar para a casa com Lily depois de lutarmos pela Ordem da Fênix. Nunca achei que sentiria falta da Gata arranhando-me inteiro, mas eu até abracei ela quando voltamos a vê-la. Claro que a Gata gostava mais da Lily e ficou o tempo todo a seguindo pela casa, quase pedindo para ser atropelada de tanto que ela ficava enroscada em seus pés descalços.

Ficamos tanto tempo absortos nos próximos passos de Voldemort que quando me olhei no espelho percebi que estava precisando fazer a barba e cortar os cabelos. Peguei um pouco da mania de Lily em não usarmos magia para coisas supérfluas, então eu fiquei usando uma lâmina para raspar os pelos do meu maxilar em frente ao espelho, ouvindo o chuveiro ligado no boxe embaçado onde a silhueta do corpo de Lily indicava que ela estava tomando banho e cantarolando sua música preferida.

Here comes the sun.

– Eu me senti bem – confessei para ela.

– Pois é – ouvi sua voz concordar dentro do boxe. – Você realmente fez umas coisas inovadoras hoje... quem imaginaria que aquela posição podia-

– Não estou falando do que fizemos há dez minutos – eu sorri, lavando o rosto. – Embora realmente tenha sido uma das nossas melhores performances desde que nos casamos... Estou querendo dizer que, apesar do que aconteceu a família trouxa, pelo menos consegui salvar a garotinha. Queria ter salvado todos, mas me senti bem que salvei a garotinha, pelo menos.

– Você fez o melhor que podia – ela disse. – E você foi ótimo.

– Você também foi ótima – eu falei. – Desarmou Mulciber com o braço esquerdo dessa vez. Perfeita.

– Já está até perdendo a graça desarmá-lo – brincou Lily. As vezes éramos assim... passamos tanto tempo duelando com aqueles comensais que nós já tínhamos adquirido a tradição de discutirmos sobre nossas atuações em campo. Algumas vezes, até soltávamos umas risadas. Enfrentar muitos perigos quase todas as semanas fazia você começar a encarar a vida de um jeito irônico. – E o jeito que você estuporou o Malfoy antes de chegarmos à cidade?

– Você gostou, não foi? Meio que fiz aquilo pra me exibir.

– Eu imaginei.

Ela derrubou alguma coisa lá dentro e xingou baixinho.

– Tudo bem aí, amor?

– Não sei se quero ter mais momentos trouxas, não consigo nem colocar o xampu no meu cabelo usando só uma mão por causa desse braço quebrado.

– Eu te ajudo. – Entrei no boxe tirando a toalha da cintura, mas Lily me olhou com um sobressalto e nos próximos segundos começou a gargalhar.

– O que? – perguntei de um jeito fingido, sabendo exatamente o motivo de ela estar gargalhando. E não era por causa do que eu acabava de revelar ao tirar a toalha.

– Isso é uma tentativa de bigode?

– Achei que ficou charmoso – dei de ombros, passando dois dedos abaixo do meu nariz e acima dos lábios. – Você não gostou?

Ainda rindo, fez que não. Aproximei meus beiços para uma bitoquinha. Senti seus lábios estremecerem, indicando que ela tentava não continuar rindo durante o beijo.

– Só parece que você não terminou de se barbear – achou digno de esposa ser sincera.

– Sempre quis um bigode!

– É o sonho de todo homem, de fato, ficar bem em um.

– Não fiquei bem? – perguntei tristemente. – Que bom que você não casou comigo por causa da aparência, então, Lily Potter.

Ela manteve esse princípio, mesmo que tivesse mordido os lábios com aflição. Eu pude aproveitar meu "bigode" pelos próximos dias. Você sabe... ter um pouco de estilo, mostrar que eu estava amadurecido. Bigodes significavam "mudança de vida" e eu me sentia diferente.

Foi só Sirius ver que ele acabou com a graça.

– Ficou ridículo, cara.

– Ai, obrigada, Sirius – Lily teve que abraçá-lo depois dessa, nunca se arrependendo da escolha do nosso padrinho.

– Não me importo com o que dizem – falei nada abalado, espreguiçando-me no sofá. – Eu gostei e vou ficar assim.

Nem que Bones tivesse falado que "agora estamos parecidos!", nem que Olho-Tonto tivesse avisado que eu tinha uma sujeira ali, nem que Marlene tivesse sugerido a Lily para raspá-lo na madrugada, eu continuei com o meu bigode até, pelo menos, o dia em que Lily e eu decidimos fazer aquela viagem que queríamos há algum tempo.

Os pais dela me deram um presente de aniversário inesquecível. Duas passagens para voarmos de avião até os Estados Unidos em uma cidade onde havia praias. Eu nunca andara de avião – muito menos Lily. Dumbledore até disse que merecíamos aquela viagem e prometeu que tentaria evitar que Voldemort estragasse nosso fim de semana.

Mesmo assim, todo o cuidado era pouco. Sirius nos escoltou em sua forma animaga até o aeroporto. Vai que algum comensal estivesse com a mesma intenção de dar umas refrescadas pelas ilhas da Flórida. Nunca poderíamos saber. Além disso, Sirius nunca reclamava de ser paparicado por garotas atraentes querendo saber de que raça ele era.

Lily sempre comentou com os pais dela que eu gostava das coisas trouxas. Acharam justo que eu fosse apresentado a esse mundo de um jeito autêntico. Voar em um avião era só o começo.

E vou dizer, foi uma das experiências mais incríveis da minha vida.

Lily estava na poltrona ao meu lado, tentando, mas falhando, mostrar que estava toda tranquila, mas seus dedos apertados nas braceiras com certeza indicavam que ela estava tensa. Talvez tão tensa que quando a aeromoça perguntou o que queríamos tomar, Lily gaguejou:

– Á-agua, obrigada.

– E você, senhor?

Eu estava observando as casinhas pequenas lá embaixo, pela janela do avião, distraído e admirado.

– Amor, ela quer saber o que você vai querer comer ou beber – disse Lily, cutucando-me.

– Deixe-me ver – eu cocei o meu bigode, pensativo, observando o cardápio do voo. – Deixe-me ver. O que será que eu quero? Pode ser uísque. Ah, não, uísque me deixa com sono... Rum? O que é rum? Rim? Mas talvez conhaque seja uma boa opção... Gim ou vinho tinto e branco, amor? Espumante parece ser divertido. Mas se bem que um suco de abóbora...

Lily me interrompeu e virou-se para a aeromoça:

– Só duas águas, obrigada.

Assim que elas no serviu, observei a aeromoça voltar a desfilar pelos corredores entre as poltronas. Ela usava uma combinação de roupa bem atraente. Lily me deu um tapa no braço.

Isso. Olha mais indiscretamente.

– Não estava olhando para ela. Estava olhando para a roupa dela. É bem sexy.

– Poxa, cara, não fala isso na frente da sua mulher não – o trouxa da terceira poltrona deu a dica. Ele usava com uma camisa azul florida, tinha o bigode parecido e estava com um fone de ouvido ao redor do pescoço. – Má sorte.

– Relaxa. Eu só estava imaginando como ela ficaria nessa roupa. Eu não estava olhando para a aeromoça. Aliás, bigode maneiro.

– Valeu, cara, o seu também.

– Viu? – olhei bravo para Lily. – É só você que não gosta do meu bigode. Você gosta de Beatles?

– Os Beatles são demais. Qual é o seu preferido?

– Paul McCartney. Qual é o seu?

– O Lennon, óbvio.

– Música preferida?

Lucy in the Sky.

– Não conheço essa... ou apenas não estou lembrado. Como é a música?

O cara cantou o refrão, meio desafinado, mas deu para lembrar.

– Ah, demais, demais. Minha música favorita deles é aquela...

Cantei um pedaço de With A Little Help From My Friends.

– Lily, troca de lugar comigo.

– James, não pode-

Tirei meu cinto e nesse momento em que eu e Lily brigávamos para mudarmos de lugar, a aeromoça chegou:

– Senhores, por favor, não fiquem em pé com o avião decolando... Coloquem o cinto, por favor?

James, sossega – mandou Lily agarrando meu braço e me fazendo sentar na mesma poltrona.

– Aproveitem a viagem. Sentados – nos fuzilou com o olhar, embora ainda tivesse um enorme sorriso no rosto.

Não conseguia ficar parado ou sentado, era muito emocionante. Mostrava para Lily as nuvens, as casas, as cidades pela janela oval. Eu sorria, gostando de cada experiência. Era como voar em uma vassoura, mas só um pouco maior. Lily segurava a minha mão com força e tentava fechar os olhos, mas eu nunca a deixaria dormir, precisava comentar o que estava achando, precisava conversar com ela. Teve um momento que ela precisou me mandar calar a boca. Fiquei ouvindo um rádio, assistindo a televisão. E apertei um botão muito tentador, perguntando-me o que aconteceria-

Uma avalanche de materiais respiratórios caiu do teto acima de mim. Olhei ao redor para ver se alguém poderia me ajudar, mas todos estavam absortos em seus livros ou conversando ou dormindo, inclusive Lily. Tentei colocar os aparelhos de volta com muito cuidado para não acordar Lily e levar uma bronca. Foi a mesma aeromoça que teve que me ajudar.

O próximo botão foi sem querer. A mesma aeromoça teve que me mandar ficar parado, porque era o botão de emergência e que se eu não estivesse em uma emergência, não era para apertar o botão.

Finalmente consegui ficar sossegado, sentindo o sono me abater. Aproveitei o cheiro do xampu de Lily quando ela encostou sua cabeça em meu ombro. Ela definitivamente não tinha gostado da experiência de andar em um avião, diferente de mim. Mas voltou a ficar animada com o fato de que passaríamos um fim de semana inteiro com a presença do sol, das águas deliciosas e das ondas e das areias na Flórida.

Só que choveu o final de semana inteiro. Assim que colocamos os pés nas águas, foi trovão e chuva para todos os lados. Como estávamos em um território trouxa, não pudemos nos expor com magia, então fugimos da chuva até que pegássemos algum táxi para voltarmos ao hotel.

Ficamos no hotel. De noite, eu a levei para o restaurante mais romântico da cidade. Haviam velas, uma banda clássica, piano, danças e até roupas formais.

Passei mal com algo estragado do cardápio então tivemos que ir embora depressa. Fiquei com pena da Lily, que precisou cuidar de mim a noite inteira. No dia seguinte, não consegui sair da cama ou poderia vomitar a qualquer instante. Eu podia ter saído vivo ao duelar com Voldemort, mas eu estava mais acabado ali no hotel trouxa do que fiquei naquela noite.

– Eu vou entender se quiser se divorciar... – eu falei baixinho, sentindo-me muito mal, exausto, nauseado, nada romântico, nada divertido, muito menos incrível e gostoso e atraente, como eu sempre era. E Lily ainda tinha topado se vestir de aeromoça para mim, como é que eu pude passar mal nessemomento? Ela estava acariciando meu cabelo fraquinho, deitada ao meu lado. Eu estava meio envergonhado então precisei me deitar do outro lado pra gente nem se encarar. Mas Lily me deu um beijinho no rosto, doce, gentil, suave.

– Que drama, James. Só por causa de uma dorzinha de barriga?

– Foi o pior fim de semana de todos... – resmunguei, enfiado no cobertor até o pescoço. Eu estava suando frio.

– Você quer que eu faça um chá para você, amor?

– Não precisa...

Precisava sim. Precisava muito.

– Temperatura ideal, açúcar na medida certa... Eu faço.

– Faz?

– Faço... não tem problema algum pra mim.

Eu tinha a melhor esposa do mundo.

O chá adiantou um pouco. Mas me deu sono e eu dormi a tarde inteira. Quando acordei, sentindo-me um pouco melhor, mas ainda sonolento e preguiçoso, eu vi as costas de Lily, sentada na margem da cama.

Ela estava chorando baixinho. Seus ombros chacoalhavam de modo que parecia estar aos prantos. Tinha as mãos tampando a boca. Imediatamente me sentei mesmo que eu tivesse quase vomitado.

– Lily? Desculpa, eu sei que eu estraguei a nossa viagem...

– Não é isso, amor – fungou.

– Alguém da Ordem...

– Não.

– Então-

– Meu pai.

Ela tentou respirar novamente, mas depois saiu um choro muito estrangulado.

– Mamãe me mandou... me mandou uma carta avisando... contando... ela não conseguiu vir até aqui para me contar... ele sofreu um ataque cardíaco... eu- eu... morreu na hora... não teve como-

Não parecia que isso era real. O pai de Lily não era como o meu pai, ele não poderia ter mais de cinquenta anos. Não eram idosos. Não tinham a idade avançada... Abracei Lily, muito triste por ela e por sua família. Ela esteve tão preocupada que algo acontecesse com eles, algo relacionado a guerra que estávamos lutando, que ter uma notícia dessa a deixou muito muito devastada.

Consegui suportar qualquer dor ridícula de barriga para acompanhar Lily até o velório e enterro de seu pai no mesmo dia. Sua irmã Petunia estava com o marido. Era uma relação tão fria da parte de Petunia que Lily precisou dar o primeiro passo e ir até ela. Trocaram algumas palavras. Rápidas. Não ouvi direito; sabia que Petunia me detestava, então precisei ficar o mais longe dela para que nenhuma intriga acontecesse naquele dia tão cinza. Lily a abraçou, mas foi por poucos segundos. Petunia foi embora logo depois, sem lançar um olhar para mim.

A sra. Evans estava com um lenço tampando-lhe o nariz. Não estava se debruçando em lágrimas. Era Lily quem estava desse jeito e foi a mãe quem a consolou muito melhor do que eu seria capaz de fazer. As duas ficaram tanto tempo abraçadas que precisei esperar Lily em um banco, somente observando as duas, com as mãos nos bolsos.

Lily não queria deixar sua mãe sozinha. Levamos ela para Godric's Hollow, onde Hortênsia passou alguns dias com a gente. Não me importei, achei até que foi bom para ajudar Lily. Contava sobre como deveria cuidar do jardim; deu a Lily um livro de receitas da família para que ela aprendesse a cozinhá-las quando tivesse o "seu momento trouxa", e passou horas brincando com a nossa gata. Nós tínhamos um quarto de hóspedes no segundo andar, onde ela estava dormindo. Uma vez acabei escutando sem querer as duas conversando sobre bebês:

– Ah, eu não vejo a hora de ser avó! Correr para lá e para cá com as crianças... tem que ser uns oito netos, no mínimo, Lily! Você sabe... para que eu possa ter a chance de fazer tudo de novo, só quedireito.

– Você é ótima, mãe, e você acertou comigo e com a Tuney...

– Pare de falar assim comigo, moça.

– Assim como?

– Com essa cara de que vai me ver no lugar de seu pai daqui algum tempo.

– Mãe...

– Não, Lily. Recuso-me a aceitar que você está achando...

– Não é por você, mamãe. Estou dizendo... estou dizendo que eu e James... nós corremos um grande risco também. Lembra quando eu te disse sobre...

– Sim, você me falou de uma tal guerra... mas guerras acabam, querida, eventualmente acabam.

– Nós estamos lutando nessa guerra.

– Lutando?

– Sim. Não posso te contar mais detalhes, mas eu garanto que estamos tentando fazer algum bem para esse mundo.

– Isso é ótimo, querida. Mas me conte, o quão bom o seu marido é na cama, porque isso é realmente importante.

– Mãe.

– Querida, odeio conversas assim. Eu entendo que você está salvando o mundo e estou orgulhosa, de verdade. Mas quero saber como está sua vida com James!

– Se as pessoas vissem o que tivemos que enfrentar nesses últimos meses, não acreditariam ser possível ser tão feliz de alguma forma. Eu o amo, mamãe, já lhe disse mil vezes. E ele nunca me decepcionou.

Elas saíram juntas do quarto de hóspede com a sra. Evans carregando suas malas. Ofereci ajuda a ela enquanto descia as escadas, e ficou muito agradecida. Abraçou Lily mais uma vez antes de se voltar para mim com um grande abraço. Segurou minhas bochechas e achei que ia dizer algo profundo, algo relacionado como "cuide bem da Lily", mas ela só comentou:

– Esse bigode realmente favoreceu sua imagem, James. Mas se bem que... – ela me analisou melhor, franzindo a testa. – Se bem que parece um pouco com o marido da Petunia.

Arregalei os olhos, horrorizado. Ouvindo as duas rirem, subi depressa as escadas para raspá-lo com a primeira coisa que vi na frente no banheiro. Quando voltei para elas, eu estava com o rosto liso e Hortênsia se despediu de nós para voltar para a sua casa.

Perder o pai, para Lily, foi um dos grandes impactos que ocorreu em sua vida até aquele momento, mas não deixou se distrair para as missões da Ordem. Ficamos preocupados com ela, com o fato de ela ter ficado bastante calada nas reuniões, apenas ouvindo e aceitando o caminho que tivesse pela frente. Ela estava frustrada, zangada, por ter perdido o pai tão abruptamente que ao duelar com os idiotas dos Comensais, ela estava sem paciência, furiosa, acertando todos os feitiços sem dar a menor chance de alguém atingi-la. E se tentavam acertá-la pelas costas, eu estava lá para protegê-la. Assim como ela sempre esteve me protegendo e protegendo todos que podia.

Não tínhamos mais medo. Chegou um momento em que enfrentarmos os riscos e os perigos se tornou essencial para que nos sentíssemos mais vivos. Saber que estávamos impedindo mortes, salvando vidas, tirando aos poucos a confiança exagerada de que Voldemort estava reinando o mundo, era o nosso combustível. Mesmo machucados, voltávamos para casa aos beijos. Voltar ao corpo dela todas as noites era a sensação triunfante de estarmos bem. Chegou um momento em que não era só a sorte nem mesmo a força de vontade. Era a habilidade, era porque éramos páreos a eles... páreos a Voldemort, em algum nível. Páreos para enfrentá-lo quantas vezes fosse necessário e sairmos vivos.


Sempre tive essa visão de que o casamento do James e da Lily foi tão normal e ao mesmo tempo bem atípico. Sabe tipo "Os Incríveis", quando não estão em tarefas para a Ordem da Fênix tentando salvar o mundo, eles estão agindo como marido e mulher. Nunca quero que o James abandone o jeito "crianção" dele, mesmo amadurecido. Faz parte da personalidade dele. Lily com certeza o amou suficientemente para aturar as teimosias dele de, por exemplo, ter um bigode kkkkkk E homens sempre parecem que estão morrendo quando estão passando mal, o James, que não perde a oportunidade de ter os cuidados de Lily, não é diferente AHUAHAUH Esse capítulo foi uma mistura de tudo, pelo menos uma tentativa de descontrair e mostrar que, além da guerra, eles também têm uma vida e precisam aproveitar ela.

A JK Rowling escreveu o Harry ter a Petunia como a única parente que sobrou pelo bem do plot da história, porque me parece bem cruel o James e a Lily perderem os dois pais em um curto período de seus 21 anos :( E na minha visão, enquanto James já tinha certa consciência de que seus pais já estavam em idade avançada e que poderiam vir a falecer em um futuro próximo, acho que no caso da Lily foi no susto, abruptamente, sem ter relação alguma com a guerra em que eles estavam vivendo.

Eu passo muito tempo fazendo pesquisas mas é tanta coisinha que só foi citada (as vezes nem citada nos livros foi), tantas datas para conseguir botar em ordem, que na maioria das vezes temos que apenas especular como teria sido. Prongs é a minha visão de como eu achei que a vida deles foi através dos poucos fatos que temos nos livros. Claro que haverá outros tipos de especulação, outros tipos de visões sobre eles, porque os fatos dos livros são tão vagos que só nos resta imaginar...

Beijos e até o próximo!