Cisne & Fênix – A Série


Capítulo 25: Enquanto isso...

(Ikki's POV)

Eu já não sei mais o que é ter uma vida. Depois daquela noite, na qual fiz o maldito acordo com o Isaac, eu me transformei em uma máquina que trabalha dia e noite e só para quando se vê exausto demais para continuar. Venho agindo assim porque preciso me ocupar. Eu sei bem o que pode me acontecer se eu parar e começar a pensar em tudo que ocorreu. E sei porque, nos primeiros dias, eu me vi nesse estado.

Fiquei acabado, miserável, destroçado. Lembro-me de ter acompanhado todo o processo do transplante, mas de longe. Desde a parte burocrática, até a cirurgia em si. E foi terrível; o que eu mais queria era estar ao lado do loiro naqueles momentos, poder apertar a sua mão, ser o seu apoio. Ele estava assustado, eu sabia. Mas eu tinha dado a minha palavra. Isaac cumpriu a parte dele, eu tinha de cumprir a minha.

Contudo, não foi nada fácil. Certo, eu sabia muito bem que não seria. Mas ainda me espantei em ver como tudo aquilo mexeu comigo de uma forma que eu não esperava. A dor de ter que permanecer longe do meu russo abalou as estruturas da minha vida, cuja base tinha se tornado minha relação com Hyoga. Eu já não sabia mais quem eu era; graças ao loiro, estava finalmente começando a me encontrar, mas agora... Agora, eu me perdia novamente. E acredito que nunca mais conseguirei me encontrar outra vez. Aliás, sinceramente... eu nem sei se quero.

Assim que tive a certeza de que Hyoga ficaria bem, tão logo eu soube que a cirurgia tinha sido um sucesso, senti que a parte de Isaac estava completada e isso significava que era hora de eu começar a cumprir a minha. Em outras palavras, era hora de me afastar por completo. Desde o dia em que soubemos do problema renal do loiro, eu praticamente não deixei aquele hospital. Entretanto, meu direito de permanecer ali havia findado. Por isso, eu saí. Fui embora, em definitivo. Saí do hospital, sentindo que também saía da vida do Hyoga. Talvez por isso eu não consegui ir para o meu apartamento. Uma importante parte minha estava sendo deixada para trás; logo, era um tanto complicado retornar ao local que guardava justamente as lembranças dessa parte da minha vida da qual eu tinha que abrir mão.

Então, sem ter lugar algum para me dirigir, sem qualquer rumo a tomar, acabei indo parar no meu bar favorito e acho que fiquei morando lá por uma semana. Basicamente, eu apenas saía quando era expulso do local, completamente embriagado e, nessas horas, voltava para casa e desmaiava na cama, no sofá ou, muitas vezes, no chão mesmo. O que fosse mais convidativo no momento. E, tão logo recobrava a consciência, retornava ao bar.

Não sei exatamente quando nem como, mas, um dia, Shun apareceu no bar. Meu irmão me carregou para fora dali e me levou ao meu apartamento. Lembro-me de ele ter cuidado de mim, lembro-me de ter sentido alguma vergonha por ele me ver nesse estado, mas a dor de ser obrigado a permanecer longe da pessoa que eu amo ainda era maior e eu só queria me anestesiar de todo aquele sofrimento. Eu queria afundar, desaparecer. Para que seguir em frente? Não havia mais sentido. No entanto, meu irmão não permitiu que eu continuasse a me destruir dessa forma. Ele cuidou de mim por alguns dias, até que eu ficasse sóbrio o bastante para conversarmos. Entretanto, eu não queria papo, e ele soube respeitar isso. Shun apenas tentou mostrar-se aberto, buscando assim me encorajar a falar. Mas eu não quis falar, não poderia. Nossa conversa no hospital, inacabada, permaneceu assim. O que eu poderia dizer agora? Hyoga e eu não estávamos mais juntos, nem voltaríamos a ficar. Para que contar a meu irmão a história do que já foi, mas nunca mais poderá voltar a ser?

Mesmo assim, o meu irmão é esperto e eu vejo que ele sabe. Sim, ele sabe. Mas nada diz. Imagino se ele foi capaz de ligar os pontos, fico pensando comigo se ele entende que precisei abrir mão do loiro. Talvez ele compreenda. Talvez não. Prefiro não perguntar. E assim, meus primeiros dias sóbrio foram na companhia do meu irmão, que não saía de perto de mim. E ficávamos em silêncio, sem cobrança alguma. A primeira vez em que eu disse algo foi para perguntar, um pouco sem-graça, se os outros sabiam do meu estado. Era certo que eu ficaria envergonhado se o Shiryu ou o Seiya soubessem da minha situação, mas o que eu queria mesmo era saber se Shun havia dito algo sobre como eu estava para Hyoga. Porque eu não queria que o loiro soubesse. Ele não poderia jamais saber que eu me via numa situação tão lastimável.

Shun se provou, uma vez mais, muito sábio e sensato. Com um olhar compreensivo, que pareceu dizer mais que qualquer palavra, ele me passou um imenso conforto. E completou o que seus olhos diziam, ao falar que ele não diria nada a ninguém, especialmente se isso pudesse complicar ainda mais a minha situação.

Alguns dias depois, finalmente, eu começava a parecer que voltava para o mundo dos vivos. Mas isso era só na aparência. Fiz pelo meu irmão. Shun andava cansado demais, pois tinha o trabalho dele, cuidava de mim e, sempre que podia, ia visitar o Hyoga. Não era justo com ele. Decidi então que era hora de deixar de ser um fardo. Um dia, simplesmente, peguei meu celular, que continha inúmeras chamadas das revistas e jornais para os quais trabalhava, e retornei a todas as ligações. Pedi desculpas e me comprometi a não mais abandonar meu trabalho. Prometi ainda que, a partir de agora, eles poderiam esperar sempre por uma qualidade impecável em meu serviço, no mínimo. A maioria das revistas e jornais me aceitaram prontamente de volta. Essa é a diferença de saber fazer seu trabalho com qualidade...

Daí, voltei a me ocupar. Precisava me ocupar para não pensar. E o ato de voltar a trabalhar deu a meu irmão a impressão de que as coisas estavam voltando ao normal. Quis que ele pensasse assim. Não gosto de vê-lo tão preocupado comigo.

Por isso, aqui estou eu. Nessa última semana, venho trabalhando sem parar. Meu chefe, o senhor Kimura, está adorando essa minha nova fase. Nunca fui tão proveitoso para aquela revista como agora, em que abdiquei por completo de uma vida própria, em prol do meu trabalho. E não me importo. Vou vivendo assim. Ou melhor, sobrevivendo.

Agora mesmo, estou há mais de 30 horas sem dormir. Estou trabalhando direto, decidido a terminar um projeto do qual fui incumbido pelo meu chefe. Já perdi a conta de quantas canecas cheias de café tomei. Sinto meu corpo um tanto cansado, mas não ligo. Ainda aguento mais um pouco. Olho para o meu relógio do gato Félix: passa um pouco das 6 horas da tarde. Suspiro. Sempre que olho para esse relógio, pendurado na parede pintada por mim e pelo loiro, sinto um aperto no peito. Eu poderia perfeitamente repintar a parede para apagar essa recordação. Mas devo ser muito masoquista mesmo e não só deixo-a como ela está, como ainda fiz questão de pendurar meu relógio de parede nela, como se uma parte de mim quisesse me forçar a sempre olhar para lá, a sempre lembrar, a nunca, jamais, esquecer...

Estou em pé, analisando as fotos tiradas por mim sobre a mesa, com minha xícara de café na mão. Permaneço em pé para aguentar mais tempo acordado. E é nesse momento, concentrado como estou, que escuto a campainha tocar. Deve ser o Shun, pois ele faz questão de vir me visitar todos os dias. - A porta está aberta! - eu falo sem sair do lugar e sem tirar os olhos das fotos, enquanto bebo um gole do meu café.

- Ora, essa... – escuto uma voz feminina e isso me faz virar-me prontamente para trás - Ainda está trabalhando, Ikki Amamiya?

- Nina? – franzo o cenho, encontrando alguma dificuldade em compreender por que aquela mulher estava ali, parada à porta do meu apartamento, segurando uma cesta com queijos e vinhos em suas mãos – O que você quer? – pergunto bruscamente, sem me importar se estou sendo rude.

- Isso são modos de tratar uma colega de trabalho, Ikki? – ela entra sem pedir permissão e vem caminhando na minha direção, oscilando exageradamente os quadris enquanto dá passadas rebolativas até onde estou – Desse jeito, eu quase sinto que não sou bem-vinda... – ela para ao meu lado, encarando meu olhar perplexo como quem acha muita graça de algo. Deposita a cesta sobre a mesa, por cima das fotos espalhadas que eu estava analisando, sem o menor cuidado.

- O que pensa que está fazendo? – retruco nervoso, tratando de retirar a cesta de cima da mesa – Quer estragar minhas fotos, Green? – chamo-a pelo sobrenome, ressaltando entre nós a relação de colegas de trabalho.

- Eu quero que descanse um pouco, Ikki. Está muito estressado... – em um movimento de ombros, ela joga os cabelos loiros para trás enquanto uma das mãos repousa sobre a cintura – Olha só; sexta-feira à noite e você aqui, ainda trabalhando? Isso está errado... – Nina fala com a voz adocicada, observando como eu deixava a cesta no chão e voltava a me concentrar em minhas fotos, em um gesto que buscava demonstrar minha falta de interesse em qualquer coisa que ela tivesse para dizer.

- Eu sei que o senhor Kimura tem cobrado muito de você... mas também, o seu trabalho tem sido excepcional nos últimos tempos. E aí, sabe como é... quanto melhor o seu trabalho, mais as pessoas vão exigir de você. – Nina se posiciona atrás de mim, olhando para as fotos na mesa por detrás do meu braço – Aliás, atualmente, eu percebi que você não tem parado. Parece que todos os jornais e revistas estão querendo um pedaço seu, senhor Amamiya... – enquanto fala, com a voz naquele tom açucarado, ela começa a deslizar seus dedos com unhas compridas e vermelhas por cima dos meus braços - ... e, por mais que eu compreenda o fato de todos quererem tanto você, acho que estão exagerando... – Nina começa a subir com suas mãos até meus ombros, e passa a massageá-los – Veja como você está cansado, estressado... Tenso.

- Eu estou bem. – desvencilho-me de seu toque e me afasto abruptamente – Só quero ficar sozinho. Pode ir embora agora?

- Eu não acho que esteja bem. – apesar do meu afastamento, ela volta a se aproximar, não parecendo se importar com a forma como a estou tratando – Você não me engana, Ikki... Tudo isso é fachada. Você não está bem; muito pelo contrário. Acho que você nunca precisou tanto de ajuda, como agora. – à medida que ela se aproxima, eu recuo. Faço sem perceber de fato, porque estou tão cansado que mal consigo pensar. O que ela quer? O que está fazendo aqui? E, subitamente, sinto-me um pouco zonzo. O sono está começando a bater um pouco mais forte. Fecho os olhos e levo a mão à testa, esfregando com os dedos a região acima dos olhos, tentando conter uma dor de cabeça que parece se anunciar.

- Está vendo só? – Nina leva a mão à minha face, em uma tentativa de carícia – Você precisa descansar... E eu posso ajudá-lo com isso, sabe...? – o tom sugestivo de sua voz me desperta e eu afasto sua mão de meu rosto, dando mais um passo para trás. Acabo me desequilibrando e caio sentado em meu sofá.

Minha colega, por sua vez, avança para cima de mim, sentando sobre meu colo rapidamente, sem me dar tempo de reagir. Com os olhos verdes fixos aos meus, ela sorri cheia de malícia: - Por que continua resistindo? Você sabe que quer tanto quanto eu...

- Eu não quero nada, Green. Não de você. E agora, quer sair de cima de mim? Melhor ainda; saia do meu apartamento. – respondo com frieza, encarando-a de volta.

Minhas palavras devem tê-la afetado, porque, apesar de ela permanecer em meu colo, sua expressão transfigurou-se:

- Não quer nada de mim? Entendo. – a loira mostrava-se séria, retribuindo meu olhar frio – Mas garanto que se fosse um certo rapaz loiro que estivesse aqui, a história seria bem diferente, não é mesmo?

Arregalei os olhos, mas não fui capaz de dizer qualquer coisa em resposta.

- Eu não sou boba, Ikki. Achou que seria tão difícil compreender o que se passava? Nos últimos meses, por várias vezes, quando liguei para seu celular, quem atendeu foi o tal Hyoga. Parecia até que ele fazia questão de atender as minhas chamadas. Fora isso, perdi a conta de quantas vezes eu vi você sair correndo da revista depois de receber certas ligações. Não vou negar; eu te segui algumas vezes quando isso aconteceu, só pra saber quem era a pessoa que tinha tanto da sua atenção. Preciso admitir que fiquei surpresa ao descobrir que essa pessoa era o seu "amiguinho"... Mais surpresa ainda eu fiquei ao ver o modo como ele te recebia; sempre com um beijo caloroso. E o mais incrível foi ver como você retribuía a esse beijo com a mesma intensidade. - ela fez uma breve pausa, lançando-me um olhar cobiçoso enquanto lambeu os lábios discretamente - Sabe, Ikki... eu nunca pensei que você tivesse essa... inclinação. – e, dizendo isso, Nina inclinou mais seu corpo sobre o meu, movimentando-se habilmente, roçando seu corpo de forma lenta e provocadora sobre meu baixo ventre, arrancando-me um gemido que escapou sem que eu pudesse abafá-lo. Eu não estava esperando por isso, eu estava atordoado com as coisas que ela dizia e minha cabeça parecia cansada demais para processar todas aquelas informações apropriadamente.

- De qualquer jeito, isso nunca me fez perder as esperanças. Você pode até curtir homens também, mas garanto que as mulheres ainda são capazes de te excitar. – ao dizer isso, ela serpenteou sobre meu corpo, o que me fez gemer novamente. Fazia muito tempo que eu não era tocado dessa forma, desde que Hyoga tinha sofrido aquele acidente.

E, como se a lembrança do russo conseguisse me fazer regressar, eu comecei a tentar me incorporar, decidido a acabar com aquilo de uma vez. Entretanto, antes que eu pudesse completar esse gesto, foi Nina quem deu sua cartada final:

- Não sei exatamente o que aconteceu entre vocês dois. Mas percebi que, o que quer havia antes, já não existe mais. – ao ouvir essa última frase, senti o coração doer. Eu vinha tentando esquecer isso, eu estava buscando, com todas as minhas forças, não pensar no fim da minha história com o Hyoga. Porém, a simples menção desse fato me fez lembrar o que eu lutava tanto para ignorar e então senti o mundo estremecer e sumir sob meus pés. Aquela sensação desesperadora das primeiras semanas começava a voltar – Por isso você está assim, por isso vem se enterrando no trabalho dessa maneira. Contudo, acho que está exagerando. Você não precisa se punir, meu querido... se não estão mais juntos, você deveria aproveitar para retomar sua vida. Tocá-la para a frente... – segurando com as mãos a gola da minha camisa, Nina puxou-me para si, de modo que sua boca vermelha logo encontrou meu pescoço, para sugá-lo em beijos molhados enquanto ela começava a rebolar em meu colo – Nina, pare com isso. Eu... – minha voz saiu fraca, devido ao cansaço gerado pelo trabalho excessivo e pelo esforço mental que vinha fazendo para tentar me manter equilibrado durante todo esse tempo e que, agora, simplesmente, mostrou ter sido em vão, já que com uma mísera frase, ela conseguiu me abalar inteiramente. – Eu não quero... Eu não... – Nina não quis ouvir; puxou-me para um beijo lascivo e demandante, sem me dar muitas opções. Eu poderia ter resistido mais, é verdade. Mas eu estava tão apático, tão absorto em mim mesmo, que não reagi. Senti apenas como as unhas compridas e vermelhas começaram a marcar meu corpo, quando ela enfiou uma das mãos por baixo da minha camisa, arranhando meu peito de leve. Dessa vez, o gemido que ela me arrancou foi de dor, devido a um arranhão mais forte, como se ela quisesse marcar seu território. Abandonei a boca sedenta e luxuriosa da loira e, ao afastar um pouco meu rosto do dela, percebi que não estávamos mais a sós.

Foi nesse instante que eu vi.

Parados à minha porta, estavam eles. Os dois.

Meu irmão, que olhava para mim de forma incrédula, lançou seus olhos verdes para a cesta com queijos e vinho, que jazia no chão, ao lado do sofá. Shun nunca pareceu tão decepcionado comigo quanto agora.

E, ao seu lado, estava ele... Meu russo, meu loiro...

Hyoga.


Continua...


N/A (Lua Prateada): Sei que os últimos dois capítulos foram curtos, mas é que tanto eu como a Mamba não temos conseguido nos encontrar para escrever. Vidas corridas; aquela velha história. Entretanto, para não deixarmos a história morrer, às vezes escrevemos separadamente, como esses POV's. Então, desculpem se estamos criando expectativas e não chegando ainda ao ponto que as pessoas querem ver. Mas faz parte, e nós vamos chegar lá. No mais, lá no início da fic, avisamos que isso poderia ocorrer...

Quanto ao pessoal que está com raiva da gente devido aos sofrimentos por que estamos fazendo nosso querido casal passar, por favor, tenham paciência! rsrs! Temos planos para tudo isso, sabemos aonde queremos chegar (no fundo, a gente sempre sabe, apesar de, às vezes, as coisas fugirem um pouco do nosso controle... hehe!). De todo modo, podem ficar tranquilos porque nossa intenção não é de fazê-los sofrer eternamente, tá? Mas essas coisas dão alguma emoção e é aquela história... antes da bonança, tem que vir a tempestade... depois da tempestade, vem a bonança... e ficam se alternando assim. =D

Vou parando por aqui, pois estou com sono e acho que não estou mais falando coisa com coisa.

Beijos!

Lua.