Esse capítulo é dedicado ... ao meu filhinho, Rodrigo. Afinal sua pele pode ser branquinha e seus olhos verdinhos, mas seu espírito é completamente haradrim: indomável. Em menos de seis meses já tinha dado para perceber ...

DAROR E MÍRIEL

Capítulo XXIII – O Repúdio de Míriel

Ela ia desistir de esperar. Daror fora visto sair em disparada do Sûr, mas não fora visto retornar. Não podia aguardar a noite inteira.

Até que Thanaë o viu montado em seu cavalo, e parecia olhar diretamente para ela, para o lugar em que ela sempre estava, onde ele sempre sabia que poderia encontrá-la.

Sim! Ele estava olhando para ela enquanto pulava do garanhão negro já tirando a camisa, as botas, abrindo os cordões das calças.

Sim! Era em sua direção que mergulhava.

E foi à sua frente que emergiu.

Pronto a tomar aquela cujos olhos prometeram desde que Thanaë compreendera quem ele era que ela era a mulher para ele.

Ela, Thanaë, e nunca aquela menina tola e insípida, filha da mulher mais arrogante de toda Minas Tirith, a quem sua mãe cumprimentava sempre com uma grande reverência, para receber não mais que a condescendência de um quase imperceptível meneio de cabeça em resposta.

Míriel e seu sangue numenoriano puro. Rá! Sangue aguado é o que deveria correr em suas veias. Quando o Grande Daror certamente precisava de uma mulher de sangue fervente ao seu lado.

Não fora mais que o acaso que fizera de Mïriel a mulher do Rei de Harad.

Não fora mais que a piedade que o fizera reconhecer como seu o filho dela.

Não fora mais do que a honra o que voltara Daror para aquela criatura débil; se mais de uma vez Thanaë vira o desejo por seu corpo ardente e voluptuoso quando encontrara o olhar dele em si.

Pois agora entregar-lhe-ia o que estava destinado a ser dele e consertaria os desacertos da fortuna.

Em Gondor Míriel poderia ser a mais elevada, e Thanaë teria de reverenciá-la; mas quando Thanaë estivesse junto a Daror, o contrário é que iria suceder.

Em que, nessa nova vida, Míriel era superior a ela? Procurara os haradrim da mesma forma que todas, e poucas haviam impingido ao marido um filho bastardo com tanta desfaçatez.

- Certifica-te bem, Daror, de que sejam seus os filhos que Thanaë insiste tanto em dizer que Míriel não lhe pode dar!

- Quê ?

- Hellë! – Gritou Raanat nadando atrás da mulher que se aproximara da cena desajeitadamente. Anos no Sûr não haviam ensinado Hellë a sustentar o corpo à tona onde a água não desse pé.

- E tu, Thanaë, cuidado para não provares do veneno que há muito semeias.

- Não sei do que está falando – disse Thanaë afastando-se, enquanto Raanat calava a mulher alarmado, já declarando sua dívida para com Daror e reclamando para si a culpa e o castigo da mulher que desacatara seu Pai.

Daror não tinha Hellë na conta de mais que uma doidivanas, e não lhe faltaria ira para sentenciá-la aquela noite; mas algo na saída de Thanaë não estava bom.

Se houvesse fugido em vergonha, estaria ciosa do resto da honra de seu marido.

Se houvesse enfrentado, estaria entrincheirada em seu orgulho.

Retirando-se friamente, deixava atrás de si um rastro de cálculo, e, como a Hellë, Daror também não a tinha na mais alta das contas, exatamente pelo motivo inverso.

Daror segurou-lhe o pulso.

- Quero ouvir o que tua mulher tem a dizer, Raanat.

Raanat havia quase afogado Hellë para silenciá-la, e ela tossiu alguma água antes de abrir a boca.

Para não emitir som algum, porque não sabia o que dizer.

Thanaë cresceu:

- Diga, Hellë, o que viu ou ouviu para apresentar contra mim?

- Minha mulher trabalhou muito ao sol e agora vejo que deu para inventar delírios, Meu Pai, é meu erro...

- Eu sou amiga de Míriel, jamais disse-lhe que ela não poderia ter filhos.

- Ah não disse! Não diretamente, mas quanta vez repetiu "É pena por Daror, que gosta tanto de crianças", "Que infelicidade para Daror, que não tenham ainda tido um filho...um outro filho", "Que sacrifício para Daror", "Como Daror é nobre, de esconder a sua dor" !


Do momento em que Daror deixou a tenda, as lágrimas voltaram a fazer companhia a Míriel.

Ela tinha que ser forte ... mas agora que a dor começara ... agora que se consumara, que era real ...

E a reação de Daror! Elbereth, o sofrimento que Daror deixou transparecer ... Não imaginara feri-lo tanto assim ...sim, sabia que se afeiçoara a ela ... Não escorraçaria o brinquedo dele como a mãe havia feito com sua boneca ...

Tinha-lhe tanta pena que não a repudiaria de livre vontade. Muito ao contrário, cuidava e preocupava-se dela em todas as ocasiões, rindo de suas sugestões de separação, consolando-a da tristeza de seu ventre seco ...a chamava de bem-querer e a proibia de tocar no assunto...e era enroscado em seu corpo que Naraor dormia, nunca chamado de outra forma que não "Meu Filho"

Naraor! Gritaram os sentidos de Míriel ao perceber que no sono embalado pelas lágrimas o sol se pusera e nascera de novo sem que ela soubesse onde o filho estava.

Estava na frente dela, olhando o interior da tenda, e correndo para a entrada.

- Meu pai não está na tenda, tio.

- E tua mãe?

- Mamãe está na tenda.

- E está vestida?

- Pode entrar, Terair – respondeu Míriel à voz que reconhecia, levantando-se.

Não era raro que Terair fosse procurar Daror, geralmente se valendo do menino, muitas vezes ouvindo diversas pragas do Pai de Harad, e respondendo-lhe com outras tantas. Mas nunca entrara na tenda, nem tampouco jamais quisera falar com ela, mesmo quando Daror não estava.

Terair tinha pouquíssimas das noivas do Pelennor em boa conta, à exceção de Mariän, e, ainda que silenciosamente, nunca escondera a antipatia que lhe devotava em especial.

- Cadê seu marido, mulher?

- Não sei, Terair ... a última vez que o vi foi ontem.

- Não dormiu na tenda nem voltou aqui depois de ontem à tarde ?

- N-não – é verdade, Daror não dormira na tenda, ela teria ouvido. – Por quê?

- Saiu ontem a cavalgar pelo deserto, e agora o cavalo está de volta ao Sûr pastando com todos os arreios e ninguém viu Daror. Vou reunir os homens para procurá-lo.

- Acha ... – mas Terair já havia saído da tenda, deixando Míriel com o medo apertando-lhe a garganta.

O cavalo de Daror retornando para o Sûr sem Daror? Daror desapeado? Daror ferido? Daror sozinho no deserto?

Míriel atirou-se às suas calças de montaria, jogando o vestido de qualquer jeito na cama, enfiando a camisa pela cabeça e deixando o cabelo lá dentro, entre a pele e o pano, calçando as botas em pé, gritando para Naraor ir ficar com Hellë, esquecendo-se de admoestá-lo por não ter lhe avisado na tenda de quem iria passar à noite...


Daror quedara-se na margem distante do Sûr muito depois de Thanaë, Hellë e Raanat a deixarem; sua mente tinta de sangue vermelho manchando a pele imaculadamente branca de Míriel.

Porque não lhe falara antes? Porque deixara a tortura do sacrifício a ele chegar ao ponto de querer partir assim? De tomar-se de tal repulsa a ele que ...

Pois devia vir de há muito esse tormento, para destruir assim o afeto de Míriel por ele.

A não ser que...

Será que não lhe tinha nenhum carinho, nenhum apego, aquela mulher a quem ele se apegara tanto?

Daror bateu a própria cabeça contra as pedras nas quais se recostara..

Míriel deixara claro quanto o detestava.

E só podia culpar a si mesmo.

Ela fizera questão de frisar que tentara ... apesar do tanto que a machucava.

Havia dito que preferia outro homem ... havia dito que queria qualquer outro homem olhando em seus olhos.

Não se importava de lançar-lhe aquelas palavras daquela maneira? Ferindo-o como nunca inimigo algum jamais o ferira?

Um ferimento que Daror, que achava que conhecia a dor, não estava certo de poder enfrentar.

Quisera cavalgar Thanaë como cavalgara seu garanhão, desesperado para esquecer, para mitigar aquela ferida ... E quando Hellë dissera que Thanaë envenenara Míriel, sentira-se quase feliz, agarrara-se a expectativa de uma esperança, de uma intriga que pudesse ser desfeita, mas ...

Já declarara mais de uma vez que mesmo que não tivessem mais filhos não a repudiaria. Já a mandara calar sobre esse assunto. Já lhe dissera que era o pai de todos os filhos de Harad, até lhe oferecera uma criança cuja mãe morrera no parto para aplacá-la...


Sua florzinha continuava encolhida na cama, amuada como estivera desde que ele lhe respondera que deveriam aguardar mais uma lua antes de comemorar uma nova gestação que poderia não ser.

Virara-lhe as costas então, mesmo sabendo o quão desrespeitoso tal gesto era considerado em Harad. E ao invés de assumir seu erro quando as regras vieram, pusera-se mais contrariada ainda.

Daror sorriu feliz: trazia nas mãos o fim da tristeza de Míriel.

- Míriel – chamou – olha a mudinha de planta que trouxe para o nosso jardim.

Míriel voltou-se entre irritada e confusa, era uma planta que ele estendia na mão? Que idéia!

Pouco a pouco os olhos de Míriel arregalaram-se de espanto: a palma imensa da mão de Daror fazia ainda menor a criaturinha que lhe estendia com um sorriso encantado, encolhida, nua e certamente recém-nascida.

- Q - quê é isso?

- Zadeh não sobreviveu ao parto – e por um segundo constrangeu Daror haver encontrado conveniência no luto de outro homem. Mas um segundo e um constrangimento podem passar bem rápido, ainda mais quando a expectativa do regozijo corre apressada e alegre por sobre eles; e foi qual menino prosa que não pode deixar de vangloriar-se – Tonar e a mulher já estavam lá para pegá-la quando cheguei, mas reclamei-a para ti bem a tempo.

- Uma menina? – Míriel foi estreitando os olhos.

- Um botãozinho de rosa – ele ainda sorria ao dizer.

O entusiasmo de Daror, entretanto, foi murchando ante o olhar de Míriel. Algo estava errado, e os braços estendidos começaram a recolher o que ofereciam, protetoramente.

- Uma ME-NI-NA, para ficar permanentemente junto a mim quando estiveres cumprindo teus labores de homem, lembrando-me do meu fracasso como mulher – a voz de Míriel era um açoite de gelo.

- Do que estás falando? – qual pérola em ostra a pequenina entre as duas mãos em concha junto ao peito de Daror agora era escondida da estranha ira das palavras sussurradas de Míriel.

- Não só não tens filhos suficientes que te ajudem, como ainda arranjas mais uma mulher que arrastar.

- Hein? – Daror não entendia do que Míriel falava..

Ante o tom do discurso que continuava, todavia, Daror se encolheu e foi recuando da tenda, qual cachorro escorraçado, desacorçoado da reação da mulher.

- Ai, botãozinho, não fique triste; Mirielzinha é filha da deusa da Lua e das estrelas do Norte, e com tal mãe é mutante de humores – justificava-se Daror para a nenenzinha, desconsolado; acabara pegando Míriel num mau momento, e parece que ela não queria uma filha.

- Pena, queria muito uma filhinha como tu, botãozinho – prosseguia para a figurinha adormecida entre seus dedos, que contida junto ao pulsar constante do corpo poderoso sentia-se num ambiente bem familiar.

- Vamos fazer um trato? Em segredo continuas sendo minha filhinha, botãozinho. Como a uma princesinha não te faltarão roupas bonitas e ouro que teu paizinho olhará que nada te falte ... Nem uma mãe, que é o que precisas agora ... e uma cabra para teu leitinho.

E da alegria de Tonar e da mulher com a criança Daror fez seu consolo.


Uma coisa era certa: filhos não estavam fazendo tanta falta assim a Míriel.

Era só uma desculpa para negar-se a ele, pensou Daror, não o suportava mesmo.

Mas também, se a machucava, como poderia.

Não podia culpá-la por querer deixá-lo.

Não podia culpá-la por querer outro jardineiro se não cuidava bem de sua flor.

Míriel não queria mais ser a flor dele, dissera-o com todas as letras.

Florzinha cruel, não precisava ter feito isso daquela forma. Poderia ter esperado mais um ano.

Daror bateu novamente a cabeça nas pedras; de que lhe adiantaria apegar-se a ela por mais um ano? Enganar-se por mais um ano?

Daror bateu a cabeça forte e continuadamente contra as pedras.

Fora ele que quisera enganar a si mesmo.

Era um monstro e um bruto.

Nunca fora mais que isso para ela.

Como quisera entender.

Fora ele que quisera supor que o baixar de olhos e o virar de cabeça dela eram um convite.

Que suas mãos escondiam risos e não lamentos.

Que ela encolhia-se e lhe fugia na intenção de atiçá-lo.

Que seus gemidos eram de prazer e não de dor.

Que seu chamado era por mais, e não por menos.

Quanta vez insistiu muito além do que podia, já sem respirar, buscando pensar na pobreza indigna da moradia nômade que oferecia a ela, no palácio que se prometera ofertar-lhe, na mobília direita que precisava colocar a disposição de Míriel em substituição a peças como aquela cama precária que volta e meia vinha ao chão com eles, até supor que a agonia dela era uma permissão para a sua própria?

Daror aspirou o ar junto às pedras do solo.

Houve uma época em que o perfume da terra de Harad lhe lembraria alguém.

Mas Daror oferecera adoração à filha de uma deusa estrangeira.

E a Lua no céu agora parecia escarnecer dele, tão inolvidável quanto inatingível.

Desafiara duas deusas ao mesmo tempo:

A Mãe Terra de Harad por preterir suas filhas.

A Lua do Norte por pretender uma das dela.

E as deusas, assim como as mulheres, eram cruéis em sua vingança.

Mais cruéis que o Sol vermelho, deus da guerra de Harad.

Seu Pai banhara o filho recém-nascido no sangue de um sacrifício, prometendo que a vida de seu primogênito seria um sacerdócio de guerra, se o deus o fizesse crescer no guerreiro mais temível.

O Sol Sangrento cumprira sua parte.

Já de Daror, parecia muito difícil que se pudesse dizer o mesmo, ocupando-se de plantio, de pastoreio, de construção , de crianças, de família, de amor, de Mïriel ...

Míriel! Mïriel! Míriel!

Teria sido uma blasfêmia pretendê-la?

Teria sido uma ofensa ao deus da guerra desejar amá-la e viver em paz com ela?

Teria sido uma ofensa à Deusa da Lua Elberth de Míriel tê-la tomado para si?


- Terair é um bosta, manda cuidar da vida dele.

- Mas o cavalo apareceu selado e arreado antes do nascer do sol.

- Trata de tirar-lhe os arreios e larga da minha sombra.


A pulsação disparada de terror cedeu vez à pulsação disparada de alívio quando Míriel viu Daror adentrar a tenda.

Era a mesma coisa.

E no entanto era completamente diferente.

Míriel correu cega para Daror, as mãos estendidas para tocá-lo.

As mãos de Daror interceptaram os pulsos de Míriel, impedindo-a de se aproximar.

Os olhos dele estavam fixos na cama, na roupa dela, em suas anáguas reviradas, mas imaculadamente brancas.

Ele lhe voltou olhos de uma tristeza severa, e sentenciou:

- Você mentiu, mulher. Mentiu para Daror, e não lhe dou dote nenhum, não antes do retorno ao Pelennor.

- Oh Daror, me per...

- Até lá, você continua bela aos meus olhos, e ainda hei de desejá-la.

- Eu não sei onde estava com a cabeça, Daror, eu ...

- Mas não hei mais de amá-la. Míriel não sabe ser amada.

- N ... !

- Negou-me só o que lhe pedia, que não eram mais filhos ou mesmo que fosse a mais sábia ou a mais dada, me negou o direito de amá-la, e naquela noite em suas terras, Míriel, tudo que Daror procurou foi uma mulher para amar. Não precisava nem me amar de volta, Míriel, bastava deixar-me honrá-la, ser um refúgio para a minha dor. Tudo que eu queria era cobri-la de favores, lhe fazer satisfeita, era tudo que eu pedia, que risse um pouco e me fizesse rir também. Dar-me paz, que foi tudo que não me deste, porque seu único desejo era se ver livre de mim

- Não é isso ... – Como ela pudera supor que seria capaz de exisitir sem ele? E como poderia imaginar que ele a amava ao ponto de mostrar-se tão obviamente ferido pela atitude insensata que agora nem Míriel atinava mais o que a levara a tomar? A ela que era tão menor, em todos os sentidos, que se sentia tão menor em tudo que realmente importava na vida, que a única coisa que parecera-lhe poder oferecer a ele era o sacrifício de si mesma?

- Olha para o Grande Daror e não vê que dentro dele há um coração também, e se sou tão maior que tu, talvez meu coração seja maior que o teu, e doa mais Míriel, que o teu que tanto chora, a cada vez que bate no sofrimento que o amor por ti lhe causa.

- Não, Daror, escute-me ...

- Cansei de escutá-la, Míriel, cansei de escutar as mentiras que são a sua verdade. Disse-me uma vez que queria me fazer sorrir, ser feliz e se entender comigo. Nunca será feliz, Míriel, não sabe conviver com a felicidade sob o mesmo teto, não lhe tem hospitalidade ... e Daror por fim entendeu isso, e não vai mais insistir.

- Seria tão fácil de fazer-me alegre, bastaria que se alegrasse também, mas toda vez que a felicidade se aproximou de nós tu a afastastes, e por fim você disse que meu amor a feria.

E eu quis me mutilar Míriel, arrancar de mim o que pudesse haver maculado aquela que eu elegi.

Arrancar de mim os dedos que manchavam tua pele, os braços que te amassavam, o desejo que te machucava, todo o arroubo de paixão que não estivesse de acordo com a tua delicadeza.

- Não Daror – chorava Míriel – nunca me machucou, nunca...

- Então porque me mentiu, Míriel?

- Porque não posso te dar filhos, Daror ... não queria que se visse velho sem herdeiros, e fosse tarde demais para arrepender-se de ter ficado comigo.

- Eu já tenho um filho em minha herança, Míriel, ele cresce forte, e desde o momento que o vi pela primeira vez é uma razão que tive para não me arrepender de ter ficado contigo.

- Mas não é teu filho.

- O quê, Míriel? – as mãos de Daror apertaram os pulsos dela, agora sem a menor preocupação de macerar-lhe a carne ... uma justiça terrível no olhar, algo que ela nunca vira antes, e a fez escorregar até ficar de joelhos, Daror encurvado sobre ela, machucando-a de verdade pela primeira vez, aparentemente pronto para matá-la.

- Naraor ... ninguém ... acreditará ... todos sabem ... não é seu filho.

- Naraor há de ouvir essas palavras vezes sem conta, e será a sua resposta que provará que é meu filho ... mas não admito que as ouça da própria mãe, e corto-lhe a língua agora, se não esquecê-las para sempre neste momento.

Míriel engoliu em seco, porque não restava mágoa na voz de Daror defendendo o filho, como não havia sombra de bazófia em sua ameaça.

- Entendeu, mulher?

- Sim, Meu Pai.

- Quem é o pai de Naraor?

- Daror.

- Quando ele foi feito?

- Na primeira noite.

- Por que nasceu tão forte se veio antes do tempo?

- Porque ... porque Daror é forte.

- Por que não é tão alto quanto Daror?

- Porque veio antes do tempo?

- Muito bem, Míriel, e porque não se parece comigo?

- Porque se parece com minha família.

- Vejo que preza tua língua mais do que preza teu marido, e isso agora está bom para mim. Levanta! – Daror suspendeu Míriel ao ficar ereto, e afrouxou um pouco a pressão sobre os punhos em que o sangue já não circulava.

- Como eu estava dizendo, quando fui interrompido por uma mulher que quer tomar para si as decisões que cabem ao Pai de Harad, enfim, repudio Míriel ... mas não agora ... não vou despencar-me para o Norte antes do tempo porque uma mulher cismou em decidir da vida de Daror por Daror. E também não vou permitir que permaneça em Harad, sob os cuidados de um "outro jardineiro" às minhas vistas – acha que não tenho sentimento?

A disposição de Míriel é minha até lá, a até lá tu continuas sendo minha mulher. Pois para mim ainda és bela, e o favor do meu desejo permanece contigo enquanto me for conveniente, embora o favor do meu amor eu afaste de ti nesse instante.

- Quanto a Naraor, fica comigo quando lhe deixar lá no Norte. É meu herdeiro, e não vou permitir que o despojes do que é direito dele, como tua mãe fez contigo.

Daror soltou os pulsos de Míriel, e esta quase caiu, mas aos poucos percebeu que Daror esperava seu acato, e não teve opção.

- Daror falou, sua filha se curva.


NOTA DA AUTORA: O capítulo está irregular, eu sei, mas achei que até que algumas partes poderiam agradar a vocês, como me agradaram.

As RECOMENDAÇÕES, tenho certeza que todos já as conhecem, decidi entretanto que preciso me atualizar com tanta coisa boa que está surgindo no ffnet, para que não contemple injustiça demais, e só volto a publicá-las no próximo capítulo (que vai demorar, porque até agora é a pior coisa que já escrevi na vida: blargh!)

Até lá a Cia OLIFANTE DESGOVERNADO agradece a preferência e espera encontrá-los em breve.

Um Abraço,

Myri