Capitulo 24

O começo do fim

Depois de atravessar cuidadosamente o quarto em bicos de pés, Isabella fechou a porta com toda a cautela, sempre atenta a tudo o que a rodeava. Agastada, e vendo que não corria risco, acabou por se encostar a ela com o peito a ascender e a descender ruidosamente ao passo que elevava a chave diante dos seus olhos triunfantes. A satisfação foi um bálsamo para os seus membros oscilantes, que tiniam consoante os movimentos que a jovem executava, especialmente quando decidiu guardar a chave no decote em V. Num outro meneio de cabeça, a jovem desencostou-se, por fim, da porta e moveu-se num passo acelerado em direcção às escadas, onde mais um desafio a aguardava.

Por sua vez, Jack mantinha a sua pose dissimuladamente recatada enquanto subia as escadas para o piso superior. As suas mãos continuavam sobrepostas contra o peito, tipicamente peculiar dos freis com quem ele convivera. Porém, ao pisar o segundo degrau, um movimento no piso de cima fê-lo conter-se no meio do percurso. O mesmo movimento apressado cedeu, quase se extinguindo, ainda que uma ruidosa respiração fosse audível naquele espaço confinado. Jack soergueu um pouco o olhar, captando um vulto sugado pela escuridão do cimo das escadas, com a mão aprontada no cabo da espada, o que fez Jack alargar um sorriso sarcástico.

-O que faz aqui? – Murmurou o vulto, intrigado, num tom baixo e rouco.

Isabella abrandou o seu passo ao ver o frei estático. Estreitou o olhar contra o homem, ambígua quanto à sua presença ali. Num praguejar mental, ela supôs que ele a estaria a vigiar e, por momentos, arrependeu-se de ter confessado todo o eu plano para aquela noite. Mas de imediato sua expressão mudou. A não ser que fosse ele o seu anjo da guarda, cujo propósito seria ajudá-la naquela missão suicida. Fosse o que fosse, ela não tinha tempo a perder com quem não estava dentro do assunto, e, tão cedo, não teria tempo algum para lhe explicar, por isso, só restava enxota-lo para fora.

-Por acaso nós já nos conhecemos? – Indagou Jack num timbre de deboche. – Pois sua voz não me é estranha.

-Ouça. – Isabella solveu um pouco de ar, reprimindo-o. – Eu não posso perder tempo com pormenores insignificantes, por isso, você vai dar meia volta e… - Sua frase ficou a meio quando esta desviou o olhar do frei e fitou o chão do Hall, onde residia um dos guardas morto. – Foi você? – Apontou.

Jack seguiu o dedo da jovem, depositando igualmente o olhar no guarda estendido no chão. Impassível, deu ombros e voltou a fitá-la enquanto ela descia as escadas a receio.

-É, uma verdadeira pena, mas foi necessário.

-Que raio de frei é você que mata inocentes? – A estupefacção era notória na sua voz grave à medida que levava a mão ao cabo da espada.

-Um pequeno percalço, eu diria…

A frase ficou suspensa na boca de Jack, quando percebeu que o vulto sacava a sua espada da bainha e a estendia em direcção ao pescoço. Jack engoliu seco, com suas mãos elevadas no ar em maneira de sobreaviso.

-Quem é você, frei? – Rosnou, tentada a baixar-lhe o capuz com a ponta da espada. – Se é realmente um frei.

-Para saber terá que me matar.

Essa sentença despertou a ira de Isabella, especialmente quando se apercebeu do tom de deboche do frei. De dentes arreganhados, ela elevou lentamente a espada, pronta a sacar-lhe o capuz, contudo, num movimento rápido e matreiro, Jack rodopiou para o lado e extraiu a sua espada da bainha; sobrepôs a sua espada à dela, para sua surpresa.

-Para um frei, você é muito perspicaz.

-E para uma mulher, você é muito hábil, Isabella Morgan. – Ele fez uma breve reverência, assomando ainda mais a irritação da jovem.

Num urro de revolta, ela avançou avidamente sobre ele e atacou-o sem se importar se ele se defenderia a tempo de evitar a estocada. A espada de Jack conseguiu travar imediatamente aquele golpe, fazendo-se escutar o tilintar de aço contra aço que suou no compartimento vazio. Num movimento giratório, a jovem arriscou um golpe de direita para esquerda. Para sua surpresa, o frei conseguiu novamente prever-lhe o golpe e travou-a, num pequeno movimento. A sua respiração tornou-se pesada e arfante, especialmente porque havia apenas uma pessoa que conseguiria prever tão bem os seus ataques. Solveu um pouco de ar e atacou o frei num golpe de cima para baixo, convencida de que conseguiria desferir um golpe certeiro, todavia foi novamente barrada pelo frei, que se aproveitou disso para suster as espadas no ar e encurtar o espaço de ambos. A jovem permanecia cada vez mais confusa e atordoada com tal situação, ainda para mais quando os seus rostos estavam a milímetros de distância.

-Você luta tão bem quanto um homem – Jack soprou no ouvido dela, que cerrou os olhos, aturdida pela voz que lhe cochichava.

-Quase podia dizer o mesmo de você. – Murmurou num fio de voz.

-Essa magoou querida. – Rebateu com um sorriso manhoso sustido nos lábios.

-Desculpe se magoei a sua dignidade, não era minha intenção. – Ela elevou as pálpebras e, num acto repentino, empurrou-o para trás e voltou a atacá-lo, retrucando: - Mas, depois de apreciar essa sua demonstração de duelo, ainda não consegui perceber se você está lutando ou dançando, lamento.

Jack sorriu e em duas passadas para trás, num jogo prefeito de passos, ele aparou os golpes dela com proeza, tentando apanhar um momento de distracção para poder desarmá-la. Quando viu que ela se preparava para dar um golpe de cima para baixo, ele pontapeou a espada em movimento, que voou para longe ao mesmo tempo que, certeiramente, Isabella tombava no primeiro degrau das escadas.

-Só um homem conhece derrotar-me dessa maneira. – Ela arregalou os olhos, sentindo o seu peito palpitar-lhe feito um cavalo selvagem à medida que se agarrava ao corrimão para tentar se erguer.

Com um sorriso vitorioso, o capitão embainhou a espada e, muito lentamente, puxou o capuz para baixo revelando, assim, a sua aparência descomposta. Isabella largou imediatamente o corrimão ao passo que deixava-se deslizar novamente contra o degrau. Chocalhou a cabeça à medida que tentava negar o que seus olhos lhe consagravam. A figura que se apresentava à sua frente era praticamente fruto da imaginação, só podia. Desorientada, levou as mãos à boca, cada vez mais atordoada.

-Mentiram-me. – Sua voz era quase incompreensível. – Não é possível, eu estou tento alucinações. – As suas mãos içaram-se em direcção às têmporas, massajando-as desvairadamente, contudo voltou a fitá-lo. – Você está morto.

-Darling, convença-se de uma coisa: ninguém consegue vencer Jack Sparrow, savvy? – Ele aproximou-se da jovem, agachando-se perto dela, que se afastou um bocado. – Porque é que, cada vez que a gente se encontra, você está fantasiada de homem? – A mão dele foi em direcção ao chapéu e, numa questão de segundos, os cabelos negros de Isabella caiam-lhe em forma de cascata pelas costas. – Bem melhor assim.

Suas mãos foram de encontro ao rosto dele, para quebrar a barreira que a separava da ilusão. Em toques suaves, elas trilharam um caminho moroso ao começar pela testa franzida dele. Devagar, os seus dedos deslizaram até às têmporas, fazendo Jack cerrar os olhos a cada toque. Sentiu, então, as mãos sorrateiras incidirem pelas suas bochechas de encontro aos lábios. Matreiro, ele tomou-lhe as mãos num sorriso malandro.

-Sei que sou um sonho de homem, mas gosto mais quando torno o sonho das mulheres em pura realidade, mesmo que essa realidade seja platónica aos olhos humanos…

-Jack. – Resfolgou ao soltar as mãos e enlaçar os braços no pescoço dele.

Ele tomou posse da nuca da jovem e achegou-a até si, afundando seus lábios nos dela. Isabella fechou os olhos e deixou que lágrimas de alegria deslizassem pela sua bochecha abaixo; suas mãos penetraram nos imensos dreads dele enquanto desfrutada daquele momento que era tão seu, tão deles. O beijo tornava-se mais urgente, principalmente quando a nostalgia de outros tempos lhes bailava na mente.

A saudade corroía cada célula do seu corpo à medida que ela o chegava mais para junto de si a modos de poder sentir o calor do corpo dele sobre o seu. Jack ia descendo a sua outra mão ao encontro da cintura jovem, num igual achego. Isabella sorriu sobre os lábios sôfregos de Jack quando se apercebeu que aquilo não era mais um dos seus sonhos, contudo recordou-se de que ele era o frei. O mesmo frei que a escutara no confessionário.

Isabella abriu os olhos de relance e afastou-o para o lado num encontrão, irritada. Confuso, Jack arregalou os olhos para, segundos depois estreitá-los sobre ela. Num pulo ágil, com ajuda do corrimão, a jovem ergueu-se e deu-lhe costas enquanto arranjava as luvas.

-Porque não me disse logo que estava vivo, quando ousadamente escutava minhas confissões? – Sentiu a pele do rosto ficar rubra, ainda mais após o beijo que ambos tinham trocado.

-Porque seu queridíssimo poderia aparecer e eu não queria destruir… - Num esgar de contrariedade, ele levou o punho à boca e, por fim, continuou: - tudo o que você conseguiu adquirir. – Ele ergueu-se igualmente e rodopiou-a lentamente. - Informações, luxo, jóias, pedidos de casamento…- O tom mordaz envolto em cinismo era marcado pela gesticulação das mãos de Jack; ele deteve-se atrás dela - Parabéns. – Bateu palmas, num falso entusiasmo. – Você saiu-se uma boa pirata.

-Não seja baixo, Jack. – Rosnou ela, fitando-o de soslaio. – Meus métodos de sobrevivência podem não ter sido perfeitos, mas garantiram minha vida até hoje. – Isabella mordeu o lábio quando seus olhos recaíram contra a biqueira da sua bota. – Especialmente quando pensava actuar sozinha, visto não ter nenhum tipo de garantia de ter você ou os seus viessem me ajudar.

-Davy Jones me fez crer que você estava morta. – Com uma expressão absorta, Isabella voltou-se para trás, encarando os negros sombrios de Jack.

-Para você não me procurar, faz sentido. – Ela cerrou o cenho, conclusiva. - Tal como faz sentido James me fazer crer que você estava morto para me desmascarar. – Chocalhou a cabeça, ao ver que tudo se interligava. – Raios e eu deixei-me cair nessa armadilha. – Deu um murro no ar, indignada. Seus olhos vidrados voltaram-se para a expressão atenta de Jack. – Porque você voltou após a tentativa falha de conseguir o coração? Aliás, como você conseguiu escapar do Holandês com vida?

-Fiz uma nova barganha com Davy Jones, que conseguiria achar o seu coração, mas em troca ele libertaria minha alma e…bugger. – Ele cerrou os olhos e levou os dedos ao nariz, apertando-o. – E te traria de volta.

-Obrigada, Jack. – O sorriso alargado preencheu o rosto dela ao passo que o abraçava sem ele prever. – Essa foi a maneira mais bonita de você dizer que se importa comigo.

-Darling, há certos factos que…

Ela entortou o pescoço para o encarar e voltou a beijá-lo de surpresa. Apanhado desprevenido, Jack deixou-se envolver pelas artimanhas daquela mulher; suas mãos voltaram a prender a cintura dela de maneira a mantê-la presente no seu corpo. Tudo o que ele almejara sigilosamente após a sua partida do Pérola.

-Não deixei de amar você um único dia. – Confessou ela a milímetros de distância dos seus lábios.

-É, eu também sou capaz de… hum… nutrir alguns… sentimentos.

-Já é um bom começo. – Afundou novamente os lábios nos dele.

Todavia, Isabella arregalou os olhos ao sentir uma pontada no final do ventre, algo que a fez resfolgar e rugir grosseiramente. Involuntariamente levou uma das suas mãos ao ventre enquanto era aparada por Jack, que mantinha seu cenho carregado. Sua respiração voltou ao normal, menos a apreensão que a consumia.

"O meu tempo está acabando." Encarou Jack com um misto de inquietação e temor "Minhas escolha, conforme disse a infanta, trarão consequências."

-O que há de errado?

Não lhe iria contar nada sobre a criança que esperava, pois temia que Jack a colocasse de parte para a proteger ao mesmo tempo que os outros corriam perigo. Negou com a cabeça e retirou a mão do ventre ao ver que já nada sentia. Compôs-se e afastou-se dele para apanhar o chapéu recaído nas escadas. Num gesto subtil, a jovem aparou a cabeleira e colocou o chapéu sobre o topo do amontoado de cabelo. Por fim, pigarreou sobre o olhar estupefacto de Jack.

-Já perdemos muito tempo com conversas, melhor concluir o nosso propósito nesta maldita residência antes que nos descubram.

-Sabe ao menos onde está o cofre ou teremos de andar batendo de parede em parede até descobrir uma divisória oca?

-Tanto sei que tenho uma coisa para lhe mostrar. – A mão de Isabella foi de encontro ao decote para surpresa de Jack que colocou os braços sobre os olhos.

-Hey, hey, hey, amor, sei que você está morrendo de saudades minhas, mas acho que este não é o local nem o momento mais adequado para essas manifestações de afecto. – Contudo, Jack manteve algumas frinchas abertas na expectativa de que ela não levasse em conta as suas palavras.

-Deixe de ser safado, estava meramente a tirar isto. – Ela puxou o fio, dando o parecer de uma chave. – De prenda de noivado, Cutler me levou até ao coração. – O olhar alheio dela prendia-se na chave que esvoaçava. – Aposto que você não me achava capaz de tanto, hen? – Jack ia retrucar, mas ela antecipou-se ao fitá-lo com um esgar triunfante. – Vamos tratar de meter a mão naquele amaldiçoado coração. – Após isso, ela moveu-se em direcção ao corredor mais sombrio, sem esperar por ele.

-Que óptima disposição. – Ironizou ele ao colocar o capuz; tratou de a seguir antes de perdê-la de vista. - Estou vendo que não perdeu os velhos hábitos de mandar. – Um sorriso sarcástico surgiu por entre a escuridão do capuz.

-Mentalize-se, meu bem, você não está mais no seu navio, por isso, irá seguir as minhas ordens – Isabella elevou o canto do lábio, sentindo o gostinho da desforra. – Ah, e por favor, trate-me por Milady, pois você está na presença de uma duquesa.

-Raios de mulher, maldita a hora que eu lhe dei tamanha liberdade e desfaçatez. – Remoía Jack para si mesmo, frustrado.

A cada passada que ambos davam, Jack podia jurar que escutava uma terceira respiração atrás de si, quase tão perto que podia senti-la atrás do seu cachaço. Contemplou uma Isabella serena, cada vez mais cismado. Muito lentamente, ele encurtou os movimentos e levou a mão ao cabo da espada. Numa questão de segundos, agarrou o braço da jovem, tomando-a de surpresa e saqueou a espada, colocando Isabella sobre sua protecção. A espada afiada foi de encontro ao peito do homem que os seguia igualmente de espada em riste.

-James. – Asseverou Isabella ao se refazer do sobressalto, podendo avaliar as feições do homem através das candeias do corredor.

-Isabella. – James permaneceu com a espada erguida ao frei.

-É uma honra vê-lo, pensava que não me iria conseguir despedir de si. Contudo, não posso perder o meu tempo, pois tenho assuntos mais urgentes para tratar, por isso, com licença. – Isabella usou um dos métodos de Jack para despachar pessoas inoportunas; seguiu, então, em frente sem se importar se James a seguiria ou não.

-Está pensando fugir? – Um furioso James tentou alcançá-la sempre com Jack no enlaço. – Então e o documento?

-Terá de se desenrascar sem mim, Comodoro, pois eu estou me desenrascando sem você. – Afirmou num tom impassível à medida que tencionava avançar no seu caminho.

-Estou a ver que arranjou um ajudante. – James avaliou o homem que oferecia devotamente protecção à jovem.

-Como disse, cada um se desenrasca da maneira mais prática. – Ela deteve-se e encarou-o com um semblante ameaçador. – Lamento James, nós começamos mal e talvez a gente resultasse como dupla, se você tivesse feito as coisas de maneira acertada. – Deu ombros ao espremer os lábios, insípida. – Agora eu peço que confie em mim, Cutler sairá do poder e aí o sr. Swann poderá voltar, tal e qual como você sempre quis.

-Está certo. – Ele embainhou a espada e tirou do bolso uma carta. – Você está livre. – E rasgo-a com agrado. - Se não nos voltamos a cruzar, diga a Elizabeth que eu sempre a amarei. – Estendeu a mão.

Isabella e Jack entreolharam-se por breves momentos. Jack fez um leve meneio de cabeça, assentindo. Por fim, Isabella estendeu a mão e apertou a de James, num cumprimento cordial e sem segundas intenções, para alívio de ambos.

-Obrigada, por tudo.

Isabella voltou a mover-se em direcção ao cofre. Jack foi o único que avançou lentamente, ainda de espada em riste, ponderando os movimentos de James que permanecia estático. Finalmente, guardou a espada e apressou-se para alcançar a jovem aligeirada sem nunca olhar para trás.

-Que seja o que Deus quiser. – James virou costas.

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Ao pressentir movimentos vindos da penumbra do corredor, o guarda ficou de alerta. Ergueu o mosquete até ao seu campo de visão e fez mira para um possível agressor, porém sentiu uma pontada aguda no abdómen. Num urro reprimido de dor, baixou o olhar, onde pôde observar um punhal cravado no baixo da sua barriga. Lentamente foi deslizando, tombando primeiro os joelhos. Isabella apareceu da penumbra, e, num pequeno trejeito, a jovem colocou o pé sobre o peito do homem e retirou o seu punhal, limpando-a na farda do homem.

-Insensível e implacável. Você mudou assim tanto? – Jack comentou, contemplando a pontaria da jovem.

-O suficiente para me manter viva. – Ela observou o punhal e fez um esgar de indiferença. - Pelo menos a pontaria continua excelente. – Após guardar o punhal novamente na faixa, abriu a porta.

Apressadamente, os dois desceram as escadas em espiral. A porta de metal reluzia com a flamejante candeia, o que ajudou a Isabella a visualizar a fechadura depois de retirar a chave do seu esconderijo. Num ruidoso clique, a porta abriu-se. Jack empurrou-a para trás sem esforço. Ambos mantiveram-se no umbral da porta com os olhos de ambos depositados no único objecto palpitante daquele cofre. Jack retirou o capuz, cada vez mais hipnotizado.

-Olá, coisinha palpitante. Enfim nos reencontramos. – Ela mirou-o de esgueira e, nesse instante, pôde jurar que uma centelha de veemência trespassava o seu olhar. – Vou poder finalmente acabar com o que comecei. – Num trejeito idóneo, Jack retirou a espada e apontou-o ao coração.

-Eu não faria dessa maneira. – Retrucou ela ao colocar a mão sobre o braço que sustentava a espada. – Precisamos primeiro de nos livrar de Cutler.

-O poder só despertará com o medalhão, darling, por isso, nada feito já que este está na posse do senhor tentáculos. – Deu ombros, imperturbável, e voltou a incidir a espada.

-Lamento, meu caro Sparrow, mas ao conviver com você, aprendi umas coisinhas coisas indispensáveis para o dia à dia de uma pessoa. – Isabella elevou o canto dos lábios, briosa.

-E onde é que entra aí o medalhão? – Jack gesticulou os dedinhos, num misto de hesitação e confusão.

-Como eu estava a dizer, eu aprendi que, por vezes, é preciso ter atitudes impróprias e menos dignas para adquirimos aquilo que queremos. – A mente de Jack começou a clarear. – Por isso, eu peguei o medalhão sem pedir emprestado ao dono. – Ela apenas contemplava as unhas sob a luva, fingindo desinteresse sobre o assunto.

-Já ouviu dizer que isso é muito feio, senhorita. – Dissimulado, o capitão mantinha a boca escancarada de assombro.

-Não me venha com lições de moral e, por Deus, guarde logo essa espada e pegue esse maldito coração. – Isabella esbracejou ao ver Jack guardando a espada aos poucos.

-Raios, você tem de parar de me dar ordens, isso está se tornando um hábito pavoroso.

Enquanto resmungava, Jack adiantou-se sobre o coração e aninhou-se para apanhá-lo. O palpitar do coração, fez Jack alargar um sorriso enviesado ao passo que em sua mente se formavam pensamentos devastos para suprimi-lo de uma vez por todas. Todavia, quando se levantou e rodopiou os seus calcanhares, viu Isabella avançar determinada para dentro do cofre, detendo-se apenas numa das prateleiras ocupadas por alguns papéis.

-O que está a fazer?

-Podem ser papéis importantes, que possam trazer de volta o pai de Elizabeth…- Ela emudeceu ao ler um dos documentos que tinha em mãos. – Jack, são as vossas cartas de liberdade. – Ela apressou-se sobre ele e as entregou, esperançada.

-Óptimo, vamos sair daqui e brindar a liberdade incomensurável. – Ele dobrou as cartas e guardou-as debaixo da batina de Frei, juntamente à sua faixa. – E agora, onde está o medalhão?

-Vem, eu te mostro. – Entusiasmada, ela estendeu a mão; Jack rodou os olhos e tomou-a sobre a sua, deixando-se guiar pela mulher.

Contudo, após subirem as escadas em espiral, ambos ficaram estáticos ao perceberem que o guarda não estava lá mais.

-Raios, eu pensei que o tinha matado…

-Algo me diz que teremos de ser rápidos, ou não sairemos daqui com vida. - Jack impulsionou a mulher para esta andar.

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Após ter praticamente rastejado o corredor todo, suspenso apenas com a ajuda da parede e anteriormente do corrimão, o guarda que fora ferido por Isabella conseguiu alcançar o quarto de Cutler. Com a mão ensanguentada, ele abriu a porta e, com o ombro, ele empurrou-a para trás, tentando manter-se equilibrado para alcançar a cama de Cutler. Num novo esgar de dor, ele moveu-se até tombar no leito do governador, para alarido de Cutler.

-Que raios de impertinência…

-Senhor governador, o cofre…o cofre…

Cutler levou a mão ao encontro do pescoço. Para sua fúria e sobressalto, a corrente da chave já não se encontrava lá, levando-o a praguejar alto. Imediatamente lançou os lençóis para longe e examinou o guarda que fazia a vigilância do turno da noite. Este mantinha a mão a pressionar a ferida do seu abdómen, meio cambaleante sobre a figura estática de Cutler. Ainda incrédulo, abanou a cabeça e, num pulo, ergueu-se da cama rumo ao guarda roupa.

-Como ocorreu? Quem foram os desgraçados que ousaram me afrontar desta maneira? – Bramou num urro controlado ao mesmo tempo que vestia apressadamente um roupão.

-Uma mulher, senhor, e pelo que pude observar, um frei a ajudava.

Cutler tamborilava com o dedo na testa, pensativo. Sua raiva contida não o deixava pensar com lógica, contudo recordou-se que, naquela manhã, a duquesa se encontrara sozinha com o frei, sem ninguém para a acompanhar. Não, ela não ousaria trair a sua confiança daquela maneira. Não tão baixo.

-A pessoa…a pessoa em questão, sabia a sua localização exacta do cofre…

-MADIÇÃOOO. – Praticamente rosnou ao fechar as suas mãos num punho cerrado. – Vá pedir reforços, mas não façam muito alarido, quero apanhá-los em falso. Diga aos guardas para se reunirem todos aqui, em silêncio.

-Sim, senhor. – Balbuciou o homem ferido, cambaleando novamente em direcção à porta.

-Reze, duquesa, reze para não ter sido você a enganar-me.

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Passo ante passo, os dois percorreram os corredores sombrios em pleno silêncio, estranhando o facto de tudo permanecer calmo. A pergunta de onde estaria o guarda devastava a concentração de ambos, que mantinham as mãos no cabo da espada, caso fossem atacados desprevenidos. Ao chegarem aos aposentos de Isabella, esta abriu a porta e foi directa ao armário que possuía um fundo falso. Enquanto isso, Jack entrava lentamente, apreciando o quarto espaçoso e no quão acomodada estava a sua pirata. Isabella fitou-o de soslaio num meio sorriso e murmurou:

-Não gostou dos meus aposentos? – Ela elevou os braços numa breve alusão ao espaço.

-Digno de uma duquesa com carimbo falsificado. – Retrucou ao sentar-se espaçosamente na poltrona e ao colocar os pés em cima da pequena mesinha.

Finalmente retirou o saquinho do medalhão da gaveta do fundo falso. De olhos impostos nele, Isabella caminho até à poltrona e deu uma breve sapatada no cano da bota dele, a modos de Jack tirar os pés de cima da mesa. Com uma expressão de falso amuo, o capitão viu-a sentar-se no braço da poltrona com um semblante observador.

-Não compreendo como é que este objecto pode nos ajudar.

-Os Deuses e as suas mágicas, puff. – Ele gesticulou seus braços ao explicar: - Segundo Tia Dalma, parece que este medalhão é possuidor de um poder igualmente adormecido, o impulsionador que fará o coração despertar. Foi por isso que Cutler nunca conseguiu fazer o poder florescer.

-Mas graças a você, Sparrow, acabo de descobrir.

Cutler, agora vestido com roupas propícias para a ocasião, adentrava com cinco guardas a escoltado. Deteve-se diante do casal com um enorme sorriso nos lábios, para terror de Isabella e absorto de Jack, que arregalava os olhos.

-Pensei que você tinha morrido, mas vejo que ressuscitou.

-Você se esqueceu de uma coisa muito importante, eu sou o Capitão Jack Sparrow, savvy? – Deu ombros, dissimulado.

-Tentarei não me esquecer da próxima vez. – O tom sarcástico estava presente na sua voz assanhada. – Contudo fico feliz por estar vivo, assim poderei matá-lo com as minhas próprias mãos.

-Houve alguém que pensou isso da ultima vez que nos encontramos e ficou com uma recordação minha. – Triunfo era o que cintilava nos olhos de Jack; o olhar de Cutler recaiu sobre uma intimidada Isabella.

-Por acaso está pensando ir a algum baile de máscaras, duquesa? – Novamente a sua raiva contida era marcada por aquele sorriso alargado. – Ou estará trajada para apreciar a minha gloriosa noite? Guardas. – Um pequeno trejeito e os guardas avançavam sobre eles, agarrando-os. – Tragam-ma. – Isabella debatia-se ferozmente das mãos rudes daqueles homens que a arrastavam contrariada.

Já diante do homem que ela odiava, Isabella tentou controlar a sua respiração bravia. Num suave trejeito, Cutler arrancou o chapéu e a mascara da jovem, fazendo-a soltar um grunhido azedado. Levemente, ele passeou a mão pelo rosto dela, fazendo-a desviar a cabeça. Jack sentiu-se incomodado perante tal acto. De seguida, Cutler elevou braço e deslizou-o pelo ar. O estalido seguinte foi marcado pelo urro de dor de Isabella, após ter recebido um estalo bem acentuado dele.

-Sente-se realizado? – Rosnou ao depositar seus olhos ferozes nos de Cutler.

-Depois de tudo o que fiz por você, como ousa ter me mentido? – Ele agarrou-a pelos cabelos, não mais escondendo sua raiva; Isabella mordeu o lábio para não dar o prazer de Cutler desfrutar o momento de sua dor. – Me dê o medalhão. – Isabella abanou freneticamente com a cabeça. – De certeza?

Cutler fez um meneio de cabeça para os guardas, que já sabiam o que fazer. Isabella berrou quando viu que os guardas lhe tentavam arrancar o medalhão das mãos. Todavia, debater-se era inútil, já que tinha três homens a atacá-la de forma cobarde. Jack remexeu-se no seu lugar para se soltar dos guardas, incomodado com o que assistia. Por fim, Isabella acabou por largar o medalhão, de cabeça baixa e dentes arreganhados.

- Agora Jack Sparrow…

-Capitão, capitão Jack Sparrow para você. – Soletrou irónico.

-Que seja! Entregue-me o coração. – Jack permaneceu intacto. – Melhor ser rápido. – Cutler retirou a pistola do coldre e engatinhou-a, juntando-a perto da cabeça da jovem. – A não ser que queria ver sua amante morrer.

-Jack, entregue. – Balbuciou Isabella, envergonhada, embora aquela atitude fosse unicamente para proteger o filho de ambos.

Ao ver suas hipóteses de fuga nulas, Jack atirou o coração a Cutler, que esboçou um radiante sorriso ao apanhá-lo no ar. Desengatilhou a pistola e voltou a guardá-la, sem desviar os olhos do coração e do medalhão.

-Guardas, retirem todas as armas de ambos e tranquem-nos aqui. Mais logo, trataremos de os enforcar. – Ele adiantou-se para a porta.

Isabella elevou a cabeça, sobressaltada. O seu transtorno foi visível em suas faces pálidas. "Não", murmurou para si mesma, chocalhando a cabeça. Num encontrão, Isabella conseguiu soltar-se temporariamente dos guardas e apressar-se sobre Cutler, que se deteve.

-Não, Cutler. – Ela sobrepôs as mãos, implorando: – Dê-me tempo, eu lhe imploro tempo, por ele, somente por ele, tal como a lei apura. - e num murmúrio fraco, proferiu ao se colocar de joelhos: - Até que nasça.

-Hum. – Ele levou a mão ao queixo, pensativo. – Criar um Sparrow. – Deu duas passadas sem destino. – Não é mau pensado.

Sem mais nada dizer, virou costas e fez um gesto para os guardas o acompanharem. Isabella, envolta num pranto sufocante, rastejou até à porta, após esta bater e ser fechada à chave.

-Cutler, por Deus, Cutler. – Berrou em plenos pulmões ao socar violentamente a porta.

Ao ver que seu chamado não surtia os efeitos desejados, a sua cabeça tombou no braço repousado no chão. Jack mantinha-se no mesmo local, confuso com tal suplica dela.

-Porque se humilha desse jeito, se há outras maneiras de nos desenvencilhamos? – Jack observou cada pormenor daquele quarto num único movimento, tentando não demonstrar a desilusão pelo acto dela. – Maneiras que eu ainda não estudei.

-Acabou, Jack. Estamos acabados.

-Nunca vi você a desistir, mulher. – Ele estendeu a mão a Isabella que apenas a fitou; por fim, suspirou e aceitou o gesto daquele homem para se erguer. - Por quem tanto apelava? – Ela elevou a cabeça a modos de o encarar, ainda que sua visão tivesse toldada de lágrimas.

-Pelo nosso… - Ela resfolgou e uma nova corrente de lágrimas brotou de seus olhos avermelhados. – Pelo nosso filho.

-Um filho? – Enrugou os olhos, apanhado completamente desprevenido. - Como é possível?

-Ora, Jack, por acaso não quer que eu lhe ensine como se fazem bebes, certo?

-Oh bugger. - Sim, agora entendia o apelo dela.

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James caminhava do lado inverso do de Cutler, sempre numa passada distinta. Contudo, abrandou quando viu que o governador transportava nas suas mãos o coração e um pequeno embrulho. Apertou o punho ao reconhecer que Isabella tinha fracassado no seu intento, para seu pesar. Naquele momento, resolveu fazer justiça pelas próprias mãos, acabar definitivamente com aquele maldito homem que arruinara a vida dos seus entes queridos. Engolindo seco, deteve-se e, muito discretamente, levou a mão ao interior do casaco, onde regia lá a sua pistola.

-Comodoro, lamento, mas chegou tarde, já resolvemos o problema. – E esticou a mão numa menção ao coração; James fechou os lábios numa linha tensa.

-O que fez à duquesa? – A sua voz saiu-lhe através da linha retesada do maxilar.

-Espera sentença no seu quarto, juntamente com o seu ajudante. Estou ansioso para vê-los lutarem pelo último sufoco de vida. – Ele levou a mão ao queixo, com o cenho enrugado. – Mas sabe o que me chateou de verdade? Foi saber que Jack Sparrow estava vivo.

-O Sparrow está aqui? – Indagou, surpreso, todavia, recordou-se do frei que a acompanhava. Claro.

-Pergunto-me como ele terá escapado. – A pergunta era retórica, ainda que houvesse uma insinuação no seu tom.

-Não faço ideia. segui meramente instruções das quais me indicaram. – Deu ombros, dissimulado. – Posso me oferecer para fazer vigia.

-Claro.

James retomou a caminhada, sempre apreensivo, sobretudo quando passou ao lado de Cutler. A tensão entre o curto espaço que os separava era palpável, para seu incómodo. Distanciou-se aos poucos, embora não escutasse os passos de Cutler no pavimento de azulejo claro. Foi então que, nesse instante, retirou a pistola do coldre e numa meia volta, apontou-a para Cutler. Contudo, o governador foi mais rápido, já que mantinha James sobre mira desde que ele atravessara o seu caminho, e atirou contra o peito dele sem piedade.

-Sabia que não poderia contar mais com você, seu traidor. – Asseverou ao soprar sobre o cano da pistola enquanto observava James tombar no chão frio.

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O soar de um tiro alarmou Isabella e Jack, que pararam de se fitar intensamente naquele momento. O coração da jovem acelerou descomunalmente, especialmente quando cogitou quem teria sido o infeliz a receber aquele tiro de misericórdia. Levou as mãos à cabeça e cobriu-a, cada vez mais desorientada ao mesmo tempo que a chocalhava. Não sabia por quanto mais tempo conseguiria aguentar aquela pressão que comprimia esmagadoramente o seu peito, impedindo-a de respirar direito.

-Não aguento mais isto. – Murmurou numa nova corrente de lágrimas.

Jack avançou sobre a frágil jovem e elevou-lhe o queixo com o dedo, fingindo a sua igual inquietação. Tentou absorvê-la da atmosfera tormentosa que os rodeava e beijou-a suavemente. Agora, mais do que tudo, teria de os livrar daquela prisão temporária. Pela primeira vez, ia fazer algo que não incluiria somente o seu bem-estar. Não iria ter mais um acto egoísta. Ia tê-lo por ela. Por eles. Seu olhar incidiu-se sobre o ventre dela. Iria ter um filho. A responsabilidade recaia-lhe duramente sobre os ombros, mesmo que sentisse uma pontada de rejúbilo perante tal notícia.

-Quando pensava contar-se sobre esse filho? – Sussurrou contra os lábios dela ao deslizar o dorso da mão pela face húmida da jovem.

-Numa altura em tivéssemos fora de perigo. – Retrucou ainda de olhos fechados, saboreando aquele momento. - Algo que parece infindável esta noite.

Ela afastou-se gentilmente de Jack e aproximou-se da janela, sempre com Jack sobre o seu enlaço. Isabella franziu a testa e escancarou terrificamente a boca ao visualizar Holandês Voador perto do cais de Port Royal. Seus olhos foram de imediato ao encontro dos de Jack, que mantinha os seus atónicos negros igualmente incididos sobre o assombrado navio.

-Diga-me que ele não me veio buscar. – O desespero era apreciado na sua voz. – Ele pensa que eu sou a infanta, Jack. De facto eu… - Mordeu o lábio quando captou a atenção de Jack, especialmente pelo que tinha para lhe contar. – Eu sou.

-Não é algo que me surpreenda, darling, eu já o desconfiava, tal como Tia Dalma. – Jack elevou o canto da boca, ainda que mordaz.

-Tive várias visões com ela, principalmente no navio. Porém, a mais agravante foi aqui, quando tive o coração nas mãos. Constância alertou-me de que eu seria a pessoa certa para quebrar a maldição. – Ela fechou os olhos e recordou-se do que infanta lhe tinha dito sobre o facto de ter cuidado com as opções que tomava por amor.

-Raios, mulher, você é um íman para atrair problemas. – Numa falsa voz de acusação, Jack fez um esgar de desagrado.

-Mas do que seria um grande pirata sem um bom entrave? – Ela beijou-o diante do cenário que se formava atrás de ambos, através da janela.

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Nesse mesma noite, os habitantes de Port Royal, que descansavam no interior de suas casas, acordaram sobressaltados ao escutarem um estrondo vindo do canhão de um navio. De imediato, portas e janelas das pequenas casas da cidade eram assomadas por pessoas curiosas e assustadas, que espreitavam para ver o que se sucedia. Todavia, o pavor for geral quando visualizaram várias criaturas, verdadeiros monstros marinhos de tochas fincadas nas gadanhas, invadirem a cidade. Por onde passavam, era visível o rasto de destruição que geravam. Um novo tumulto gerou-se quando, de forma apresada, os habitantes arriscaram-se a abandonar as suas casas, atrevendo-se a colocar-se no caminho daquelas criaturas. Além das casas serem insensivelmente queimadas, os que se atreviam a sair á rua, eram brutalmente assassinados, sendo trespassados por uma impetuosa espada, caindo no chão sem vida.

Davy Jones alargou um sorriso ao elevar a espada, particularmente por ter chegado ao seu destino. Saber que estava a meros metros do se coração, fazia com que o interior de seu peito morto palpitasse de ferocidade. Estava disposto a tudo para recuperar o seu coração, nem que para isso tivesse de colocar fogo às casas, palheiros, carroças e a tudo o que se mexesse, só para chamar a atenção do governador.

A confusão estava, por fim, instaurada em Port Royal.

Ainda perto da residência, os tripulantes do Pérola Negra, ao se aperceberem do pânico e da confusão instaurada, conseguiram reunir-se perto dos portões, agora desprotegidos da residência. Além daquele ambiente terrorífico, Will e Elizabeth permaneciam preocupados, suspeitando que algo estaria dando errado dentro daquele enorme casebre, pois estava tudo demasiado sossegado já que Jack tinha entrado há algum tempo.

-Eu vou entrar, Will, preciso saber o que se passa.

-Eu também não estou gostando desta demora. – Will encarou-a com um semblante ponderado. – Vamos os dois e…

-Ninguém vai a lado nenhum. – A voz de Tia Dalma, que vinha acompanhada de Barbossa, Gibbs e John, soou como uma espécie de consciência perante os dois. – Começou. – Ela observou o ar saturado de horror que os envolvia. – A tripulação do Holandês Voador chegou.

-Isto está mau. Não estava nos planos de Jack, Davy aparecer na cidade. – Contestou Pintel apavorado ao tempo que Raggeti se colocava atrás dele.

-Não estava nos planos dele, mas terão de estar agora nos nossos. – Contestou Barbossa, sisudo, com seus braços cruzados sobre o peito – Teremos de ser nós a detê-lo, em breve Jack aparecerá com o coração…

-Parece que o plano deu errado e tanto Jack e Isabella foram apanhados. – Ele encarou Barbossa, apelando seu apoio para os ajudar. – Elizabeth e eu poderíamos tentar libertá-los…

-Lamento Will, mas eles terão de se desenrascar sem nós, tal como Jack sabe fazer. Confiem nele. A cidade está desprotegida, nós somos os melhores guerreiros para a defender, antes mesmo de ela e os seus habitantes virarem cinzas. – Rebateu prontamente Dalma, sem dar hipóteses de Will contestar.

-Não se preocupe Will, eles conseguirão se safar. – Gibbs deu-lhe uma palmada nas costas.

Ao escutarem um batalhão de passos do outro lado dos muros da residência, todos achegaram-se para trás, de encontro às paredes enegrecidas, a modos de verem passar uma porção de guardas bem equipados, prontos a combaterem o mal que assomava aquela cidade. Bem agarrados às suas armas, os guardas ignoraram completamente a presença da tripulação do Pérola e, metros mais acima, atacaram ferozmente as criaturas marinhas que corriam em direcção a eles, num urrado de grito e glória. Num instante, a pacífica cidade transformou-se num verdadeiro campo de horror ao passo que os guardas iam sendo chacinados brutalmente.

Tudo isto era presenciado pelos tripulantes, cada um desenhando em suas feições, expressões de incredulidade e raiva, além de terror. Igualmente como todos os habitantes que botavam fé nos guardas, que os viriam salvar de tais monstros, agora expressavam desilusão e pavor diante das mínimas possibilidades de sobrevivência que tinham. Will abraçou-se a Elizabeth com toda a força e beijou-lhe o topo da cabeça, sem saber quais as esperanças que tinham.

-Que podemos nós fazer? – Perguntou Ragetti quebrando aquele silêncio.

-Vamos atacá-los…- Rosnou Will ao ver Elizabeth inquieta em seus braços.

-Isso não vai resultar de nada, e, presumo que iremos ter o mesmo final daqueles pobres desgraçados. – Anna Maria temeu pela sua vida naquele momento, ainda que fosse raro temer por ela. – Apesar de aquilo ser bem tentador…

-A melhor maneira de conseguirmos ultrapassar isto sem termos muitas vitimas é com organização e prudência. Vocês, homens, iram convencer os homens da cidade a lutarem contra estes monstros, enquanto nós mulheres tentaremos apagar o fogo das casas, antes que esta cidade fique reduzida a pó. Elizabeth, tente cuidar das crianças desamparadas e arranje-lhes um bom refúgio. – Aconselho Tia Dalma sem desviar o olhar de cada acontecimento que se desencadeava sobre os seus olhos.

-Do que estão à espera? Vamos voltar à nossa velha vida, vamos lutar! – Bramou Anna Maria, vendo todos se prepararem para cumprirem as suas tarefas, separando-se logo de seguida.

Do escritório, através da janela, Cutler apreciava igualmente ao espectáculo que se desenvolvia diante dos seus olhos ao passo que acariciava o coração. A raiva era trespassada por um sorriso pérfido, quando este abriu a janela e bramou em plenos pulmões:

-Deixem-se de languidez, seus preguiçosos! Detenham-nos antes que ataquem a residência…JÁ! – Berrou Cutler aos guardas – Em breve terei o poder e tudo será controlado. Será o fim.

E começa aqui o confronto final entre Jack / Cutler / Davy. Qual deles terá mais hipóteses de sair a perder? Port Royal sairá inteira para contar a história? Davy conseguirá impedir que Cutler use o seu coração? Muitas das perguntas terão resposta no próximo capitulo.

Fini Felton: Manaaa! Tu não andas bem, e eu começo a ficar seriamente preocupada contigo. O pior é que nós somos do bando das malucas xD…ehehehe. Pois é mana, Jack de padre é uma coisinha louca lool…:P Doroty mtmtmtmt :)

Kadzinha: É, você é capaz de ter razão…oh mulherzinha mais cheia de fogo, não pode ver um rabo de calças e lá vai ela rsrs. Acho que vou fazer uma tese sobre ela e sobre aquele comportamento estranho xD. E obrigada por me ter esclarecido aquela minha dúvida, mas é que nunca tinha ouvido aquela expressão.

Gabriela Black: Bom, aqui está o encontro, não está nada de especial, pois não tenho muito jeito para isto rsrs. Aqui em Portugal estamos quase há duas semanas em casa…não sabia que aí era só um feriado, pensei que fosse como nós. Eu também tenho de me preparar para comer chocolates (óh como eu sou louco por chocolates rsrs) Até ao próximo capítulo.

Likha Sparrow: Que bom que você se riu! Tenho tentado fazer um Jack engraçado, para não fugir das origens dele rsrs, mas está um pouquinho difícil. Aqui está no que deu, numa enorme confusão, graças ao nosso amigo, James Norrington.

Jane: Eu sei que eles não estão juntos já há algum bom tempo, mas a distância só faz bem, aguenta mais a saudade. Eu sou má, confesso, mas já remediei a situação. Agora é o confronto entre esta galera toda…vamos ver como vai correr.

O próximo capítulo está sendo feito, se tudo correr bem, talvez poste sábado.

Bom feriado de Páscoa para todos e até ao próximo capitulo.

Beijocas e Fiquem bem.

Taty Black