Olá, eu voltei. A primeira frase é do livro O Temor do Sábio.
Há três coisas que todo sábio teme: o mar na tormenta, uma noite sem luar e a ira de um homem gentil. Lucius era um homem inteligente, e justamente por isso, estava absurdamente contente de que não era ele o destinatário da ira de Arthur Weasley. O homem saiu do Ministério como se estivesse indo caçar um lobisomem raivoso que tinha machucado sua família, claro que nesse caso a caça era sua própria esposa Molly, e nada deixaria Lucius mais feliz do que poder assistir o acerto de contas entre o casal Weasley, mas ele tinha que manipular o menino Percy a ir para a mansão e não para casa, afinal, o pobre rapaz não precisava presenciar aquela briga, ainda que Lucius pagaria para vê-la. A vida era tão injusta.
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Harry e Draco não podiam entrar no quarto do loiro quando estavam fazendo algum ritual, mas depois que foi-lhes permitida a entrada os dois subiram na cama com cuidado, ambos apreciando o cheiro de especiarias flutuando no ar.
- Então, como foi? – Draco perguntou, curioso.
- Não posso te dizer, sabe disso. – Ron disse, aconchegado debaixo dos cobertores, mas com um sorriso no rosto. – Mas saiba que é muito legal.
- Metido! – Draco acusou, fazendo beicinho.
- Não seja criança, Draco, pelo menos você vai descobrir sobre os rituais algum dia. – Harry disse. – Papai disse que não podemos te aborrecer nem fazer nada agitado por causa da mudança, então trouxe os álbuns de fotos, me lembrei de que você queria ver meus pais Potter.
- Isso é legal, não posso me mexer muito porque doí mesmo com as coisas que eles fizeram pra ajudar. – Ron disse, dando de ombros e se sentando apoiado nos travesseiros.
Os meninos estavam olhando álbuns e rindo suavemente dos cabelos dos pais (já que Draco tinha os álbuns de seus pais também), quando Lucius e Percy entraram no quarto.
- Pensei que eu tinha avisado para não aborrecerem o rapaz. – Lucius disse, ainda que sua voz e rosto não demostrassem nem um pingo de preocupação ou reprovação.
- Nós o estamos distraindo, papai. – Draco disse. – Ficar o dia todo deitado e sem nada pra fazer é chato.
- Estão vendo fotos antigas? – Percy perguntou.
- Você não acreditaria no cabelo que a mãe do Harry usava. – Ron disse, sorrindo. – É quase tão ruim quanto o da mamãe em suas fotos de escola.
Percy riu, mas Lucius fez uma careta.
- Era a moda na época. – Ele protestou.
- Ainda assim, papai. – Harry disse. – O que tinha te possuído para usar costeletas?
Os mais jovens riram, Lucius resolveu sair ates de ter sua dignidade ferida novamente, ia providenciar um lanche para os meninos, precisava tê-los distraídos por um tempo.
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Sirius não estava com boa cara quando chegou para jantar com os Malfoy naquela noite, Severus já estava ali e estranhou a cara amarrada do marido.
- Algum problema?
- Onde estão as crianças? – Sirius perguntou, sério.
- Todos com o jovem Ronald, eles vão jantar no quarto, o ajuste está sendo muito doloroso para o rapaz, imagino que tenha algo a ver com a magia ancestral estar mais forte, já que há muitas gerações os Weasley não tem portadores. – Severus disse.
- Já cogitou a possibilidade de a magia ter agido no rapaz porque Percy não pôde concluir sua maturação? – Lucius perguntou de repente.
Severus franziu o cenho.
- Essa é uma teoria interessante, mas não estou disposto a usar o menino como cobaia para descobrir, vamos deixar a magia seguir seu curso.
- Eu estou aqui por isso. – Sirius disse. – Oficialmente quero dizer.
- Não me diga que Weasley matou a harpia! – Lucius disse, arregalando os olhos.
- Claro que não! Mas a deixou suficientemente transtornada para vir até a Central de Aurores gritando sobre vocês terem sequestrado seu filho e estarem fazendo rituais de magia negra com o pobre rapaz.
Severus revirou os olhos.
- Sério? Passamos horas paparicando o menino, isso sim.
- Não sei o que está acontecendo, mas preciso levar Ron para casa, sua mãe está histérica e é bem capaz de processar você por sequestro, Malfoy. O que deu na sua cabeça para trazer o menino aqui sem a autorização dos pais?
Lucius olhou para Severus que deu de ombros.
- Não tive tempo de explicar, ele anda ocupado com algumas investigações.
- Explicar o quê? – Sirius perguntou, com uma voz extremamente demandante.
- Molly Weasley é a criminosa que você deveria estar caçando, marido. Percy se revelou um portador anos atrás e ela usou uma poção para castrar o menino quando ele ainda estava na fase de ajuste, ela esterilizou o próprio filho dolorosamente. Ronald está aqui porque Percy não queria que ela fizesse o mesmo com ele, o rapaz está passando pelos rituais de iniciação… quer mesmo interromper isso para levá-lo para a mãe?
Sirius ficou chocado, sua mãe havia sido uma insuportável, suas maneiras chegavam a ser cruéis com os dois filhos, mas quando Regulus se revelou um portador, tudo na casa foi enfocado para que o rapaz passasse bem pelo ajuste. Era simplesmente impensável que alguém fosse suficiente retorcido para fazer algo do tipo a um rapaz indefeso.
- Preciso localizar Arthur Weasley, se ele respaldar essa versão dos fatos posso interromper a ordem de busca na mansão, ainda que não sei se seria conveniente apresentar queixas contra a mulher.
- Por que não? – Severus perguntou, irritado. – Não é o seu maldito trabalho prender bruxos enlouquecidos?
- Ela é a mãe deles, acredite quando eu digo que por pior que ela seja, eles não vão querer vê-la em Azkaban, e o digo por experiência própria.
- Com o advogado certo ela terminaria sem varinha por alguns anos, Padfoot, mas tem que concordar que precisamos fazer alguma coisa. – Remus disse.
- Vou falar com Arthur, ele deve concordar que mantê-la longe do menino por um tempo é o ideal, não gostaria de ouvir que ela colocou algo na comida do filho. – Sirius disse, pensativo. – Agora, se comportem, e se algum auror aparecer por aqui façam o Severus olhar feio pra eles e lembrá-los de que é casado com o chefe.
- Adoro quando você me deixa intimidar seus aurores. – Severus disse, sorrindo. – Agora, se apresse, não quer que eu faça outro recruta chorar, quer?
- Ele pediu demissão, sabia? Você é muito malvado. – Sirius disse com um sorriso.
- Você ama isso em mim. – Severus disse, fazendo com que Remus e Lucius revirassem os olhos.
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Percy sabia que tinha algo errado quando viu o pai acompanhado de Sirius Black no escritório de Lucius Malfoy, os dois adultos pareciam tensos, mas o rosto de seu pai que enviou todos os temores do mundo ao coração de Percy. Arthur era um livro aberto e o homem parecia miserável, seus olhos demonstravam uma tristeza que nunca tinha visto antes.
- Oh Merlin! Foi Charlie, não é? Eu sabia que aquele maldito trabalho ia acabar mal! Onde ele está? Não em qualquer pocilga da Romênia, certo? O trouxe para casa? – Percy perguntou, frenético.
- Charlie está bem, Percy. Na verdade, ele está vindo pra casa logo que conseguir uma chave de portal.
- Por quê? São os gêmeos?
- Não, é você… e Ron. – E então Percy entendeu tudo.
- Ele não podia… - Percy disse. – Ele tinha prometido que não ia te contar.
- Lucius mandou dizer que prometeu não dizer a sua mãe sobre Ron, nunca foi mencionado segredo para o seu pai. – Sirius disse.
- Oh Percy, eu sinto muito, de verdade. – Arthur disse, abraçando o filho, que já fungava com lágrimas picando seus olhos.
- Mas papai…
- Isso é minha culpa, eu deveria saber que algo assim poderia acontecer, mas eu nunca imaginei que toda essa história na família pudesse afetá-la até esse ponto.
- Que história? – Percy perguntou, estranhando.
- Seu avô trocou sua avó por um portador, claro que isso não tinha a ver com o fato do amante ter sido portador, mas com a pura falta de caráter do seu avô, mas sua avó preferiu culpar o homem e bem… ela criou sua mãe para acreditar que portadores são naturalmente sedutores e sem moral. Sua tia Muriel pensa igual, seu noivo também terminou o compromisso por um portador, como vê, é muito ódio para uma menininha crescer.
- Mas… mas…
- Eu devia ter entendido, mas eu nem desconfiei que você e Ron pudessem ser portadores, há gerações que não os temos na família. – Arthur disse, ainda com lágrimas escorrendo pelo seu rosto. – Eu fui um idiota, eu sinto muito.
- Não foi importante. – Percy disse, tentando apaziguar o pai, que parecia muito determinado e sério.
- Eu espero que você não diga isso a sério, porque se realmente pensa isso vamos ter um longo período tentando consertar o que sua mãe fez.
Percy deixou algumas lágrimas rolarem.
- Não pode desfeito, eu sinto. Doeu como o inferno na época e me machucou, eu não entendia bem o que aconteceu, mas agora já estou conformado… posso ter filhos com uma mulher não é?
Sirius rilhou os dentes com vontade de amaldiçoar Molly Weasley ou deixá-la acorrentada numa cela.
- Eu não sei, vamos te levar a St. Mungo e eles vão te examinar.
- Mas ela disse que eu podia ser normal, que ia ficar tudo bem. – Percy disse, tremendo e sentindo um frio inusual.
- Arthur, ele provavelmente está tendo um ataque de pânico, vamos levá-lo para o hospital, Severus já está lá com aquele medimago. – Sirius disse, vendo como o rapaz murmurava e tremia descontroladamente.
- Vamos, respire Percy, respire. Está tudo bem, estou com você. – Arthur foi dizendo enquanto conduzia o filho para a lareira.
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Ron sabia que algo estava errado, ele não tinha visto Percy por um tempo e o irmão sempre estava por ali verificando se ele estava bem e descansando. Draco e Harry tinham estado nervosos e inusualmente faladores, e até o Lucius não tinha parado de falar enquanto dava-lhe massagens e queimava Artemísia no quarto, mas o que lhe disse que as coisas estavam verdadeiramente ruins foi a entrada de Charlie.
- Quem morreu? – Ron perguntou, se sentando na cama rapidamente e se dobrando de dor pelo movimento brusco. – Diabos, isso doí.
- Ei, não faça coisas desse tipo, irmãozinho. – Charlie disse, indo se sentar na cama. – Claro que ninguém morreu, se depois de você virar uma cobra ninguém teve um infarte dificilmente podemos morrer de qualquer outra coisa.
Ron sorriu para o irmão.
- Está com inveja porque verde combina muito mais com o nosso cabelo do que dourado e vermelho, muitas cores quentes juntas. – Ron disse, aceitando o abraço do irmão que não via há algum tempo. – Sério, o que aconteceu?
- É difícil de explicar. – Charlie disse. – E todos querem te poupar do desgosto.
- O que mamãe fez? – Ron perguntou, assertivo.
- Como você sabe? Esqueça que perguntei isso, você é um sly depois de tudo. Tudo começa com o Percy…
Enquanto falava o domador de dragões viu a expressão de seu irmão caçula passar de incredulidade a raiva e logo a pura desolação.
- Como ela pôde?
- Eu não sei, é complicado e errado em tantos níveis que não podemos nem imaginar o quanto ela tem problemas com isso.
- Por que eu pressinto que há mais coisas?
- Veja bem, papai ficou maluco quando ele descobriu, os dois tiveram uma briga que abalou as estruturas da casa… mais do que o normal se é que me entende. Ginny estava em pânico, depois que o papai saiu dizendo que era pra ela ficar longe de você e do Percy ela ficou insana, ela quebrou parte da casa e foi para os aurores, ela queria você em casa.
- De jeito nenhum! – Ron gritou.
- Escute, papai foi até a Central e explicou a situação, então ontem tudo ficou bem, ele levou Percy a St. Mungo para fazer uns exames e…
- Ele vai ficar bem? Eles podem consertar?
Charlie deu um suspiro desanimado.
- Eles não podem, ele é estéril, aquela era uma poção bastante ruim e o mais irritante é que ela não é ilegal. Tecnicamente algumas famílias pensaram no passado que era uma aberração ter homens engravidando e ela foi criada.
- Quem pensaria numa coisa dessas?!
- Nascidos trouxas, algumas famílias no século passado achavam que era uma coisa totalmente anormal e os próprios bruxos vindos dessa mentalidade também. Sirius disse que até hoje no mundo trouxa há vários lugares onde namorar pessoas do mesmo sexo é crime ou muito mal visto.
Ron parecia enjoado.
- Isso é horrível.
- Sim, eu sei. Mas o ponto é que tecnicamente mamãe não pode acusada de nada, ela usou umas recordações onde o Percy diz que quer ser normal. Ela disse que só estava tentando fazer o melhor para ele e esse tipo de coisa.
- Ela estava torturando nosso irmão e tudo vai ficar bem? Você caiu nessa?
- Claro que não, e não acho que Lara McNair tenha engolido nada também porque formalizou uma denúncia de lesão corporal e abuso infantil, mas já nos deixou cientes de que com Dumbledore ao lado da mamãe dificilmente ela vai ser condenada.
- O que diabos o diretor tem a ver com isso?
- Mamãe foi correndo pra ele depois que os aurores se recusaram a te tirar daqui. Já que papai tinha permitido sua estadia não era sequestro nem nada, mas o diretor começou a falar sobre os rituais puro sangue que estavam deixando a mamãe preocupada, e como você sabe, o Wizengamot não é muito fã dos Malfoy, assim que mandaram te levar pra casa.
- O quê?!
- Não se preocupe, o sr. Malfoy é um advogado muito bom, se alguma coisa acontecer com você mamãe vai direto para a custódia dos aurores.
- Eu não quero nem vê-la!
- Você não precisa se não quiser, Bill está em casa e ele está soltando fogo igual a um dragão mal humorado, os dois estavam discutindo porque ele colocou barreiras no seu quarto, e Ginny está tão furiosa com a mãe que ameaçou usar feitiços dos gêmeos nela.
Ron sorriu.
- E os gêmeos?
- Eles… bem, você os conhece, são absurdamente impulsivos, eles podem ter saído de casa.
- Sem essa! – Ron disse.
- Eles tinham esse dinheiro das brincadeiras que venderam e tudo o mais, papai não consegue ficar no mesmo lugar que a mamãe então eles alugaram um apartamento.
- Por que não posso ficar com o papai?
- O apartamento só tem um quarto e você sabe o que os gêmeos entendem por arrumação. Dificilmente é o lugar para alguém na fase do ajuste, vamos cuidar de você em casa, prometemos.
- Percy vai estar lá? – Ron perguntou, e se sentiu egoísta no mesmo instante, mas ele queria o irmão perto dele.
- Ele está no hospital ainda, ele ficou em choque depois que percebeu de verdade o que a mamãe fez. O psicomago disse que é uma reação tardia ao trauma, mas ele vai ficar bem, já está falando e voltou ao normal, mas querem mantê-lo lá para uns testes e umas sessões de terapia.
- Eu nunca vou perdoá-la. – Ron disse, com calma e decisão. – E um dia, ela vai pagar por isso.
Charlie não sabia se devia se sentir orgulhoso do irmão ou preocupado. Sua mãe certamente tinha procurado o que acontecesse, mas ele não achava que faria bem ao caçula planejar uma vingança contra a própria mãe.
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Sirius geralmente não precisava dar plantões à noite, ele era um dos aurores mais graduados da Central, ele tinha sua própria equipe de operações especiais e conseguia dormir com Severus a maior parte das noites a menos que estivesse em uma missão. Por esse motivo Severus estranhou muito quando seu marido deu um pulo na cama, e começou a se vestir.
- O que houve?
- Eu não sei, mas é a pulseira, ela está vibrando em alerta total, isso é uma convocação geral. – Sirius disse rapidamente. – Vá para a mansão, por favor?
- Eu posso perfeitamente…
Sirius agarrou seu cabelo e o fez olhar diretamente em seus olhos.
- Eu geralmente amo seu lado teimoso e rabugento, mas eu estou pedindo pelo bem da minha paz de espírito para que vá para a casa do seu amigo loiro.
- Eu vou, mas só porque me deu vontade. – Severus disse.
- Bom menino. – Severus disse, beijando-o rapidamente.
- Volte inteiro vira-lata ou vou ter que me desfazer de certos aurores incompetentes por não terem cuidado do meu marido.
- Vou estar atento. – Sirius disse sorrindo.
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Draco nunca tinha gostado de saber que sua mãe era uma partidária fervorosa do Lorde, mas nunca tinha se dado conta do quanto ela estava envolvida nesses assuntos até que acordou de madrugada com ela em seu quarto, uma mão tapando sua boca.
- Olá, filho. – Ela disse como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
- Mãe! O que está fazendo aqui? É o meio da madrugada.
- Eu sei, mas algumas coisas se precipitaram e eu precisava falar com você.
- Não podia esperar pela manhã? – O loiro perguntou.
- Não. Ouça-me com atenção, vá até o seu pai e diga para colocar a mansão com as proteções ao máximo, diga-lhe para me cortar das autorizações de qualquer meio de transporte até aqui… – Ela viu o filho abrir a boca. – Não me interrompa, houve uma fuga de Azkaban, vários comensais fugiram, a guerra está batendo na porta. Não confie em ninguém que não seja seu pai, o lobo ou seu padrinho, ninguém, entendeu?
- Incluindo você? – Draco perguntou, com a voz embargada.
- Você é meu filho, vou te proteger até meu último suspiro.
- Eu sei, mas não precisa se juntar a eles, fique aqui comigo.
- Eu não posso, sua tia conseguiu sair e ela precisa de mim. Ela é minha irmã e sempre me protegeu, eu tenho que ir, é meu dever.
- Eu entendo. – Draco disse, ele seguiria Harry até o inferno.
- Cuidado na escola, vou tentar proteger o menino Potter o máximo que eu puder, mas por favor, não fique no meio de nada perigoso.
- Isso é um pouco impossível.
- Tente… e se por acaso entrar no seu ajuste enquanto eu não puder chegar até você aqui tem um presente. – Ela disse, entregando-lhe um baú encolhido. – Tem uma trava, só abre quando você atingir a maturidade.
- Mãe…
- Tome cuidado… e Draco?
- Sim?
- Ronald já te deu seu coração alguns anos atrás, esse não é o tipo de presente que se recusa, não se atreva a usar o menino para seus desejos adolescentes e depois jogá-lo fora.
- Mãe! – Draco protestou, corando. – Não é como se ele não tivesse meu coração também e muitos hormônios.
Narcissa sorriu com ar aprovativo, com sorte Draco continuaria pensando em Potter como seu irmão, seu filho estaria mais seguro assim, ainda que talvez não tão feliz.
- Isso é bom, vocês ficam lindos juntos. Agora, vá com seu pai. – Narcissa disse, beijando o cabelo do filho.
Draco se levantou para obedecer a mãe e a abraçou num impulso infantil.
- Não se machuque, por favor.
- Eu não vou, não se preocupe.
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Draco nunca tinha estado tão ansioso pelo primeiro dia de aulas, nem mesmo quando tinham onze e ia ver Hogwarts pela primeira vez. Ele tinha passado todo o resto das férias preocupado por Ron, claro que seus pais afirmavam que o menino estava bem, eles trocaram cartas intermediadas pelos irmãos assustadoramente superprotetores de seu amigo, mas não era a mesma coisa. Draco queria ver pessoalmente e tocar no amigo para se certificar que não faltava nenhum pedaço e que ele estava bem, Merlin sabe que Percy tinha tido um tempo difícil para se ajustar, mas tinha ficado tudo bem e ele agora morava com o pai e os gêmeos.
- Sério, você está parecendo uma garotinha apaixonada esperando pra ver o garoto que gosta. – Harry disse, enquanto esperavam pelos pais.
- Eu não fico te irritando por estar preocupado com a cabelo de espantalho. – Draco retrucou, ele estava cansado do mau humor de Harry nos últimos dias.
- Não comecem, vocês dois estão insuportáveis ultimamente. – Remus disse, do alto das escadas. – Se continuarem assim vão levar uma surra e passar todo o caminho para a escola com a bunda dolorida.
Draco fez uma careta.
- Vai ser um ano de merda de qualquer maneira. – Harry disse sombrio.
- Olhe essa língua Harry Potter. – Lucius disse, cortante. – Não te criei num estábulo.
- Se tivesse feito isso talvez não tivesse que ter se escondido depois da fuga de Azkaban… essa situação é uma merda.
Remus era o que latia e assustava, mas Lucius sempre foi o pai das decisões difícies e dos castigos e foi ele quem fez Harry se levantar do baú onde estava sentado com a orelha em chamas ao ser puxada pelo loiro.
- Isso não é uma forma adequada de falar comigo, ou com ninguém. – Lucius disse, perigosamente calmo. – Esse ano vai ser difícil para todo mundo e não precisamos da sua atitude de adolescente rebelde, estamos todos lutando pra te manter seguro porque te amamos seu moleque tolo, eu fui claro?
- Sim. – Harry disse, envergonhado.
- Sim, o quê?
- Sim, pai, me desculpe. – Harry disse, esfregando a orelha que Lucius tinha soltado.
- Está tudo bem. – Lucius disse, arrumando o cabelo do rapaz, que nunca parava no lugar. – Por favor, não se meta em encrencas.
- Eu vou tentar.
- E vigie o Draco.
- Eu vou, ele precisa de alguém de olho nele.
- Oh, garanto que esse ano ele vai ter muita gente zelando pela sua segurança e bom comportamento. – Remus disse, com um brilho malicioso nos olhos, que deixou Draco preocupado.
- O que quer dizer com isso?
- Nada, filhote, nada…
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Draco abriu a porta do compartimento onde ele, Ron e Harry costumavam viajar e quase morreu de susto ao ver seu amigo com cara de mau humor dividindo a cabine com seus dois ruivos altos e fortes, que ele imaginou serem seus irmãos mais velhos, que ele nunca chegou a conhecer formalmente.
- Draco! Você veio me salvar? – Ron disse, levantando-se para abraçá-lo.
O loiro realmente se sentiu aliviado ao abraçar o amigo, Ronald ainda era um pouco mais baixo que ele, por isso pôde encaixar seu rosto na curva do pescoço do ruivo e se sentir contente, isso é, até que alguém cutucou suas costelas.
- Má ideia, Malfoy. Muito má ideia sair agarrando meu irmãozinho bem debaixo do meu nariz. – O ruivo de cabelo longo e um escandaloso brinco na orelha disse.
- Eu não estava agarrando, isso se chama abraço, não interessa o que sua mente pervertida te diga. – Draco retrucou. – E não estão velhos demais para voltar a escola?
- Oh, ele tem uma língua afiada. – O outro disse irmão, despreocupadamente. – E não somos velhos, só mais experientes que você e sabemos exatamente o que se passa pela mente pervertida de garotos de 14 anos.
- Oh, parem vocês dois! – Ron pediu. – Draco, esses são meus irmãos mais velhos, Bill, ele vai ser nosso professor de Defesa, e Charlie, que vai ajudar o Hagrid.
- Seus irmãos vão trabalhar em Hogwarts? Isso é legal. – Harry disse. – Não sei se lembram de mim, eu sou Harry Potter.
- Claro! De você a mamãe gostava e podia ir lá pra casa jogar quadribol, um buscador melhor que eu. – Disse Charlie, animado.
- Eu não sou tão bom, as vitórias do time quando você estava jogando ainda são lendárias, acha que pode me ensinar umas manobras?
- Claro! – Os dois começaram a falar sobre quadribol e Ron aproveitou para puxar Draco para se sentar a seu lado, claro que Bill continuava olhando feio para o loiro.
- Você está bem? Como foi o resto do ajuste? – Draco perguntou.
- Foi bem, os dois são chatos mas cuidaram bem de mim, Ginny não podia porque ainda não atingiu a maturidade, mas ela cozinhou pra mim. – Ron disse, sorrindo. – Ela faz excelentes biscoitos.
- Que bom que tudo deu certo. – Draco disse, aliviado. – Mamãe mandou lembranças.
- Oh, eu li no Profeta que ela desapareceu, ela está bem?
- Sim, ela viajou, sabe como ela gosta disso. – Draco disse, com um olhar desconfiado para os outros dois Weasley, ele não ia falar da mãe ali.
- Claro. – Ron disse, muito convincente. – Melhor pra gente, ela sempre traz ótimos presentes.
Bill engoliu isso, já que até fechou os olhos para dormir. Aliás, todos pareciam bastante tranquilos na viagem até que o trem parou de repente, isso fez com que os dois ruivos mais velhos agarrassem suas varinhas e fossem para perto da porta. Logo, todos sentiam um frio horrendo, e Harry caiu de joelhos segurando a cabeça. Todos pareciam congelados de horror quando uma sombra abriu a janela e se aproximou do jovem, foi muito rápido, mas o suficiente para fazê-lo gritar e desmaiar.
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Harry abriu os olhos para dar de cara com Draco, os olhos cinzentos estavam cheios de lágrimas.
- Você me assustou! Nunca mais faça isso! – O loiro disse, dando-lhe um soco no ombro.
- Vai com calma, garoto. Ele só terminou de acordar. – Bill disse, achando graça. – Aqui, Harry, coma isso.
- Chocolate? – O moreno perguntou, meio atordoado ainda.
- Sim, o melhor remédio contra dementadores.
- Aquilo era um dementador? Pensei que ficassem em Azkaban! – Ron disse, horrorizado. – Isso explica o frio e as coisas tristes.
- Eu imagino que seja alguma lambança do Ministério. – Charlie disse, azedo, ele não tinha gostado dessas coisas perto dos meninos, ainda bem que Bill sabia invocar um patronus corpóreo, ele só podia usar um escudo.
- Sim, vamos saber quando chegarmos na escola. – Bill disse. – Vou dar uma olhada no resto do trem, preciso ver se está tudo bem com os estudantes, fique com eles, Charlie.
O domador assentiu, e Draco continuava enfiando chocolate na boca de Harry, até que o moreno segurou seu pulso e disse com voz baixa:
- Ela morreu por mim, eu a ouvi gritar. – Harry disse com os olhos ardendo com lágrimas duramente reprimidas. – E ele riu, o desgraçado riu.
- Eu sinto muito. – Era a única coisa que ele podia dizer.
Harry aceitou o abraço do loiro, mas por dentro ele fervia. Ele estava cansado de Voldemort estragando sua vida, se ele voltasse, os dois tinham contas a acertar.
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Lucius estava fumegando, ele poderia arrancar os olhos do Ministro com uma colherzinha de sobremesa sem sentir remorso.
- Sinceramente, Lucius, precisamos proteger os alunos e…
- Soltar dementadores perto de crianças dificilmente pode ser descrito como proteção! – O loiro explodiu. – E vocês, bando de idiotas, não fizeram nada para impedir isso?
- Eu tentei, mas é difícil argumentar com velhos teimosos. – Sirius disse, com cara de poucos amigos.
- E eu já disse que não é assim que se caça comensais, quanta incompetência pelo amor de Merlin! – Moody reclamou, quase arrancando os cabelos, seu olho girando loucamente.
- Já chega! – O Ministro gritou, com mais autoridade que nenhum dos homens tinha visto em anos. – Eu sei que é uma decisão perigosa, mas pelo amor de Merlin, o que alguém saído de Azkaban não quer ver de jeito nenhum? Um dementador, e vou deixá-los ao redor da escola até que sejam capturados.
- E o ataque ao trem? Você não pode controlá-los. – Lucius disse, uma veia pulsando em sua testa. – Não se solta criaturas desse tipo perto de crianças.
- O responsável já foi punido, isso não vai voltar a acontecer. – Fudge disse, parecendo decidido novamente.
- Duvido que os fugitivos tentem entrar na escola, Dumbledore está lá e as proteções do castelo são bem fortificadas. – Sirius disse. – Estou mais preocupado com o que eles estão planejando.
- Eles certamente tentarão atacar Harry Potter, não acha? – O Ministro perguntou.
- Tome a palavra de alguém que conhece Bellatrix, ela é a mais capacitada deles e provavelmente já deve ter todos eles dançando conforme sua música. Ela vai planejar e agir só quando puder fazer algo. – Sirius disse, sério. – Nosso trabalho é tornar seu ataque impossível, Azkaban precisa ser reestabelecida, e os demais prédios públicos vão ser fortificados como medida de segurança.
- Vamos formar um esquadrão de rastreamento. – Moody disse. – Vamos pegá-los.
- Sobre isso, tenho uma sugestão. – Lucius disse, sabendo de antemão que Sirius ia detestar.
- Sou todo ouvidos, meu amigo. – O Ministro disse.
- Não há melhores rastreadores que lobisomens, e eu posso chamar os melhores.
Sirius e Moody rosnaram da mesma maneira, coisa que fez o Ministro sorrir.
- Não vou perguntar como, mas o envolvimento deles vai ser sigiloso, praticamente clandestino. Podemos fazer um contrato mágico, mas de jeito nenhum podemos ter isso vindo a público.
- Quando foi que ficou politicamente inteligente? – Lucius perguntou, impressionado.
- Desde que dorme comigo, é claro. – Lara McNair disse, saindo de trás de uma estante. – E aquele menino Weasley consegue enfiar algum juízo nele também.
Lucius, Sirius e Moody fizeram caras de paisagem, todos meio enjoados de pensar em Fudge e Lara, a mulher devia usar um chicote nele e não era uma imagem agradável.
- Não pense nessas coisas, Lucius. Dormi com seu pai, também.
- Lara! – O Ministro protestou.
- Obrigado por essa imagem mental, se me dão licença, vou beber para tentar tirá-la da minha mente.
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No banquete daquela noite, Severus viu com receio o sorriso brilhante do diretor. Os olhos do velho estavam postos em Harry, que que conversava com Granger, os dois estavam praticamente colados.
- Isso te traz lembranças também, Albus? – Perguntou a mulher ao lado do diretor.
- Oh, sim, querida Minerva. Muitas lembranças.
- Uma vergonha o que aconteceu no trem, mas ele parecia mais determinado do que assustado. – Ela comentou. – Um verdadeiro leão.
Severus teve vontade de revirar os olhos.
- Isso é bom, o rapaz vai precisar de toda essa determinação e raiva se for lutar contra as trevas. Temo que nossa hora de lutar está chegando, não acha, Severus?
- A nossa talvez… mas Harry é uma criança. Ele não vai lutar em lugar nenhum.
- Se fosse assim tão fácil. – Dumbledore disse, com um suspiro perfeitamente sentido e preocupado. – Mas às vezes sacrifícios devem ser feitos e Harry já não é mais uma criança, ele sabe o que houve com os pais e pode desejar vingança.
Severus quase cedeu a vontade de amaldiçoar o diretor, mas preferiu guardar silêncio, se o velho fizesse qualquer movimento preferia não tê-lo de sobreaviso. Era só uma questão de vigiar e descobrir seus planos.
- Ele está falando sério? – Bill Weasley perguntou baixinho a seu lado. – Ele não pode estar cogitando usar os meninos numa guerra.
- O senhor da guerra não gosta de crianças. – Severus respondeu ainda mais baixo, deixando o homem mais jovem com o olhar estupefato e muito o que pensar.
Severus ficou satisfeito, eles precisavam de mais mentes jovens e críticas, desfalcar o time de Dumbledore seria sua meta esse ano.
E então? O que acharam? Me digam por favor.
E gente, curiosidade: alguém ai leu A Crônica do Matador de Reis? Quero uma fanfic do Elodin com o Kvothe, vai, sejam bonzinhos.
PS: E também recomendo vivamente a leitura da saga A Roda do Tempo.
