Disclaimer: Copyright Jo-Ro. Amor aos Beatles.
Antes: Mary está saindo com um cara chamado Umbert Stebbins. Adam McKinnon disse a Marlene que a amava em maio, mas ela desejava que isso continuasse platônico. O irmão mais velho de Donna, Kingsley, é um auror, e ela tem uma irmã mais nova chamada Bridget e dois irmãos mais novos: Isaiah e Brice. A morte de seus pais foi um dos primeiros assassinatos de Voldemort a chegarem ao conhecimento do público. Sirius foi banido dos Marotos por sua brincadeira com Snape, mas Remus e Peter decidiram perdoá-lo. James decididamente não fez o mesmo. Sirius e Donna estão trabalhando no Caldeirão Furado. Petunia Evans está prestes a se casar e Lily é dama de honra, mas a ruiva está se sentindo frustrada devido à irmã ainda não ter contado a Vernon que ela é uma bruxa. Ela acha que Petunia está evitando isso a fim criar outra barreira entre elas.
Chapter 25- "The Week of the Demands"
(A Semana das Exigências)
Or
"Hey Jude"
Phillip Stoake, de trinta e dois anos de idade, não era ninguém especial. Seus amigos diziam que ele não faria mal a uma mosca.
Ele nasceu em Newcastle, tinha pai e mãe trouxas e uma irmã mais nova, bruxa como ele. Em Hogwarts, foi parar na Lufa-Lufa e tudo mais que isso implica. Suas notas não tinham nada de especial, mas ele era conhecido como um cara decente.
Phillip se casou com sua namorada de Hogwarts, Louise, dois anos depois de concluir o sétimo ano, e trabalhou no setor de custódia do Ministério da Magia.
Posteriormente, as pessoas perceberiam que foi seu trabalho que o tornou um excelente candidato... bem, seu trabalho e seu status sanguíneo. Porque, afinal, Phillip Stoake não era ninguém especial... seus amigos diziam que ele não faria mal a uma mosca.
Simplesmente não fazia sentido ele entrar no Departamento de Execução das Leis da Magia, fornecer a senha que lhe dava acesso aos escritórios dos altos funcionários, e abordar Alexander Potter, chefe do D.E.L.M., com uma mensagem que, alegava Phillip, veio do Lorde das Trevas, em uma segunda-feira sem nenhuma importância.
Seus olhos estavam vagos e entorpecidos. A voz calma e sem emoção. O rosto pálido como a morte. Havia hematomas por todo o corpo, escondidos pelas vestes de porteiro, mas descobertos mais tarde, que mostravam que ele resistira aos Comensais da Morte. Mas eventualmente caíra, cedera às suas exigências, e foi forçado a realizar sua missão.
A missão dele.
"Eu trago uma mensagem do Lorde das Trevas para o Ministério da Magia," disse Phillip Stoake, de trinta e dois anos de idade, naquela tarde quente de julho (o primeiro dia da Semana das Exigências). Alex Potter levantou-se da mesa, a mão já no bolso das vestes, onde a varinha estava guardada. Dois bruxos que estavam no hall e que tentaram, mas não conseguiram, impedi-lo de adentrar o escritório do Sr. Potter, entraram correndo atrás do intruso, as varinhas em punho para atacar caso necessário, mas Potter levantou uma mão para detê-los.
"Quem é você?" perguntou ele, tenso.
"Eu trago uma mensagem do Lorde das Trevas para o Ministério da Magia," repetiu Phillip Stoake, de trinta e dois anos de idade. Qualquer primeiranista poderia ver que ele estava enfeitiçado. "Eu trago a primeira mensagem. As outras se seguirão. Se as exigências não forem atendidas imediatamente, haverá retaliação."
Os dois bruxos olharam temerosos na direção do Sr. Potter, mas ele só olhava para Phillip. "Nós não aceitamos ameaças dessa natureza," disse ele. "Diga-me o seu nome."
"Eu trago uma mensagem do Lorde das Trevas para o Ministério da Magia. Eu trago a primeira mensagem. As outras se seguirão."
"Qual é a sua mensagem?" perguntou Potter.
"Todos os bruxos nascidos de pai e mãe trouxas devem ter suas varinhas quebradas e suas memórias do mundo mágico apagadas. Crianças sangues-ruim menores de idade serão expulsas de Hogwarts e terão suas memórias apagadas. Nenhum sangue-ruim deve ter permissão para praticar magia na Inglaterra." Phillip fez uma pausa. "Esta é a primeira exigência".
"Qual é o seu nome?" pressionou o Sr. Potter. "Por favor, tente se lembrar..."
Mas Phillip Stoake, de trinta e dois anos de idade, tinha completado sua missão. Ele sacou sua varinha muito rápido, rápido demais para que qualquer um no escritório reagisse, e cortou a própria garganta.
(Segunda-feira)
"Você soube?" perguntou Lily ao telefone, aumentando o volume da rádio mágica enquanto passava mais um flash sobre a morte de Phillip Stoake. "É simplesmente terrível."
"Ah," respondeu Mary do outro lado da linha: "Aquele tal de Stoake? Eu soube! Quem esse cara pensa que é, tentando fazer todos nós sermos expulsos do mundo mágico!"
"Mare, ele estava sob a maldição Imperius," disse Lily.
"Não, não ele. Os Comensais da Morte e... Você-Sabe-Quem."
"Ah. Certo."
Houve silêncio na linha por um minuto. "Está piorando, não é?" perguntou a voz de Mary finalmente. "A guerra."
Lily, que estava preparando o café da manhã, suspirou e se inclinou sobre o balcão da cozinha. "Sim, está."
"Você contou à sua mãe? Eu não disse nada aos meus pais..."
"Não, eu também não contei a ela."
"Provavelmente seja melhor assim," disse Mary. "Eles só iriam se preocupar."
Lily não respondeu. Sua torrada ficou pronta, e ela segurou o telefone entre o ombro e a orelha. "Escute, Mary, tenho que ir."
"Sim, eu também. Vou sair com Stebbins mais tarde, sabe, e eu ainda nem sequer comecei meu cabelo."
"O.k. Eu te ligo depois."
"Amo você."
"Eu também. Ah, e Mary..."
"Sim, querida?"
"Tome cuidado, sim?"
"Claro, querida. Tchau."
"Tchau."
Lily desligou o telefone e trocou de rádio, para que quando sua mãe chegasse com as compras apenas a inofensiva música de Celestina Warbeck estivesse tocando.
O bom de jogar quadribol (ou um jogo sem pomo derivado dele, de qualquer modo) com Remus e Peter era que, em termos de habilidade, eles eram inferiores a James. Não que isso fosse uma questão de ego ou algo imaturo deste tipo. Na verdade, jogadores menos experientes tinham que se concentrar muito mais do que ele, e, como resultado, haveria pouca conversa.
James não queria conversar com nenhum dos malditos traidores, metidos a certinhos, que o apunhalaram pelas costas.
Também não queria que eles fossem embora, então isso significava que tinha que fingir não se importar por eles serem traidores, metidos a certinhos, que o apunhalaram pelas costas, e a maneira mais fácil de fazer isso de forma convincente era evitar qualquer tipo de conversa... ou falar claramente, de qualquer forma, sendo por isso que, no instante em que não pudesse mais convencer os outros a continuar essa artimanha da partida de quadribol, James pretendia ficar embriagado.
Gênio, pensou ele, intencionalmente desviando da jogada de Remus na direção do gol.
Recuperando a goles perigosa, James voou para o centro do campo de quadribol dos Potter, que era quase do tamanho padrão. Ao longo dos anos, os Marotos tinham desenvolvido um sistema para jogarem com apenas quatro jogadores – Sirius chamara de "Vala-Falsa". Os times eram divididos dois a dois, com um membro de cada equipe jogando de apanhador e os outros dois fazendo papéis de artilheiro e goleiro. Os apanhadores trocavam com os artilheiros-goleiros a cada meia hora ou mais, e Sirius e James tinham que jogar em times opostos, já que tinham maior habilidade e prática. Naquele verão, os três Marotos tentaram adaptar o jogo para um jogador a menos, com James jogando contra Remus e Peter. Embora os jogos fossem divertidos, eles já não se assemelhavam em nada a quadribol.
A cada gol, os três voavam para o centro do campo, onde Remus ou Peter jogavam a goles para os outros dois, para que a perseguissem a fim de adquirir a posse.
Quando James e Remus se encontraram no meio do campo, porém, o último não parecia satisfeito com seu último gol.
"Você está com raiva de mim," acusou ele.
James ergueu as sobrancelhas. "Não, não estou," insistiu, tentando entregar a goles.
Remus ignorou o gesto. "Sim, está. Você me deixou marcar o gol agorinha."
"Eu não!"
"Prongs..."
Peter se juntou a eles.
"O que está acontecendo?"
"Prongs está com raiva da gente."
"Não estou."
"Foi por isso que ele perdeu o último gol de propósito?"
"Óbvio."
"Mesmo," bufou James, "que eu tivesse perdido o gol de propósito – e, convenhamos, são dois contra um –, eu ainda estou ganhando, não vejo por que você acha que estou com raiva de vocês! Vocês estão de ladainha. Agora, alguém segura..." Ele tentou mais uma vez entregar a goles, mas nenhum de seus amigos parecia particularmente interessado no jogo.
"Vamos descer," disse Remus, mais como uma declaração do que ele queria fazer do que uma mera sugestão. Peter o seguiu até o chão, mas James hesitou, xingando, antes de mergulhar e encontrar os outros dois na grama. Eles olharam para ele com expectativa.
"Quê?"
Remus suspirou. "Você está com raiva da gente por termos perdoado Sirius."
"Eu não me importo," retrucou James, encolhendo os ombros.
"Sim, se importa."
"Não, não me importo."
"Sim, você s..."
"Não me importo, o.k.? E já chega."
James cruzou os braços, irritado; sabia que era um erro... estava afastando os amigos com sua teimosia, e não deveria estar fazendo isso... tinha que ser mais cuidadoso.
Remus fez uma careta. "Se não está com raiva, então vamos falar sobre isso, sim?"
"Não."
"Porque você está com raiva!"
"Porque eu não quero falar sobre isso!"
"Bobagem."
Intentando não discutir, James mordeu a língua e esforçou-se para parecer casual. "Vamos entrar," sugeriu com vigor, virando as costas para os outros dois e partindo em direção à casa.
"Prongs," gritou Remus para ele, e ele e Peter o seguiram. James fez uma pausa, porque não podia deixá-los com raiva dele, não é? Não podia deixar que saíssem, porque iriam atrás de Sirius e então...
Pela primeira vez, James reconheceu que se tratava de uma disputa. Ele estava brincando de cabo-de-guerra e estava perdendo.
"Quê?" perguntou ele em um tom bastante ríspido, virando-se para eles.
Remus hesitou. "Eu o perdoei, Prongs, e foi a mim que ele incitou contra Snape. Eu sei que ele é seu melhor amigo, e que você se sente traído ou o que seja, mas... é hora de deixar pra..."
Ele não conseguiu se conter.
"Como é?" interrompeu James em voz alta. "Como você pôde simplesmente perdoá-lo? Como pode simplesmente deixar pra lá? Não faz sentido!"
A princípio, Remus não teve resposta; Peter, no entanto, respondeu. "Estamos falando de Sirius." Ambos olharam para Wormtail. "Foi um erro estúpido, mas... ele nos daria outra chance."
No entanto, a expressão de James permaneceu decidida, e ele tornou a se virar para Remus, que o encarou com um olhar intenso por alguns segundos e em seguida disse: "Se alguém pode me perdoar pelo que eu sou... pelo que fiz para ficar desta maneira e tudo que isso implica... Eu acho que posso perdoar Sirius por seus erros."
Por um mero instante, o olhar de James suavizou, de modo que Remus pensou que ele poderia ter cedido... então, a raiva voltou aos seus olhos cor de avelã, e o rapaz balançou a cabeça. "Isso não é o suficiente."
Enfurecido, Remus revirou os olhos. "Vou indo," anunciou.
"Ótimo," retrucou James. Peter ficou onde estava. Remus, por outro lado, rumou em direção à casa, andando depressa. Ele largou a vassoura – uma das extras de James – e pegou a entrada que levava à cozinha. Só então lembrou que a Sra. Potter ainda estava em casa.
"Olá, Remus," disse ela distraidamente. Ela estava em pé no balcão, rabiscando um bilhete com uma pena.
"Ah… oi, Sra. Pot..."
Mas ela provavelmente nem sequer o ouviu. "James está entrando?"
"N-não, eu acho que não..."
"Ótimo, eu não quero uma briga."
Remus abriu a boca para perguntar, mas ela continuou depressa.
"Você ouviu falar sobre o que aconteceu no Ministério hoje de manhã?"
"Quê? Ah, sim, aquele cara com a 'exigência...'"
"Bom, o funcionário do Ministério – a testemunha – ao qual os documentos se referiam... Eu acabei de receber uma coruja..."
"Não foi... o Sr. Potter...?" começou Remus, temendo o pior.
"Ele está bem," interveio a Sra. Potter rapidamente. "Ele está bem, ninguém tocou nele, mas eu tenho que... eu tenho que ir agora, e..." Ela amassou o pergaminho, e Remus percebeu que devia ser um bilhete explicativo. "Você vai contar a James, não é? Eu não tenho tempo e ele vai discutir, e..."
Remus assentiu lentamente. "Sim, claro."
"Obrigada, Remus." Ela sorriu calorosamente para ele e em seguida, virando-se, saiu da cozinha, os saltos estalando no chão de azulejo. Remus ficou sozinho no cômodo por um ou dois minutos, antes de ouvir o rangido da porta da cozinha, e James e Peter aparecerem.
"Ainda está aqui?" vociferou James, pegando garrafas de cerveja amanteigada da geladeira enfeitiçada – uma para ele e uma para Peter.
"Depois de tudo, acho que não vou embora." Remus olhou para ele, e James notou seu semblante sombrio.
"O que houve?"
Algumas coisas, decidiu Remus, eram mais importantes que ressentimentos. "Talvez você prefira se sentar."
Havia uma família de quatro pessoas (um pai, uma mãe e dois meninos) sentada no canto do bar, fazendo bastante barulho durante o almoço. O pai parecia cansado e entediado, a mãe exausta, e as crianças pareciam um bando de bagunceiros mimados. Havia um bruxo mais velho, com aparência profissional, sentado perto da porta, dando pouca atenção às suas salsichas com purê devido a um grande rolo de pergaminho que provavelmente tinha a ver com seu trabalho, pois ele ficava resmungando sobre ele e rabiscando coisas com uma pena. Também havia uma bruxa idosa que cheirava a tabaco, cuidando de um grande copo de uísque (seu segundo) em uma mesa próxima a uma janela. Ela estava cantarolando uma melodia familiar com um olhar triste e longe.
O Caldeirão Furado às três horas de uma tarde de segunda-feira era um lugar deprimente.
Donna limpou a já impecável bancada do bar pela décima sexta vez, simplesmente porque não havia mais nada a fazer. O alvoroço do almoço tinha terminado há uma ou duas horas, e teria outro alvoroço em uma hora, mas, no momento, a maioria das pessoas que passava pelo pub estava apenas retornando aos seus quartos no andar de cima, ou então usando a passagem para o Beco Diagonal.
O din-don do sino sobre a porta ecoou no ambiente quando a entrada da rua se abriu, mas Donna foi a única dos sete bruxos e bruxas a erguer os olhos.
Era Pip, um bruxo de cabelos brancos, nariz achatado e cerca de setenta anos de idade; ele passava a maior parte de suas tardes bebendo (no Caldeirão Furado ou em outro lugar), e em seu primeiro dia no Caldeirão, Donna tinha sido instruída (por Tom, seu chefe) a dispensá-lo mais cedo do que ele gostaria. Pip não era um sujeito mau, de fato. Não era um bêbado tranquilo (que sempre eram os mais tristes), mas não era muito barulhento. Ele nunca ficava bêbado demais. Mas Pip tomava seu hidromel lenta e progressivamente, sentado no fundo do bar e contando histórias para quem quisesse ouvir. Donna geralmente dava ouvidos simplesmente por ele estar lá.
"'Tarde, senhorita," cumprimentou Pip, seu rosto corado se iluminando com a visão de Donna.
"Oi," respondeu a morena.
"O Sr. Black 'stá aqui hoje, senhorita?"
"Ele estará aqui à noite com Tom," disse ela. Tom, o dono da pousada (ela não sabia o último nome dele), contratara Donna e Sirius para ajudar no Caldeirão Furado, enquanto dois de seus trabalhadores regulares (duas irmãs, Adelaide e Leona) estavam de férias. Tom trabalhava à noite, quando estava mais movimentado, e Donna e Sirius se alternavam o ajudando. Quem não trabalhava durante a noite geralmente cuidava do bar e da pousada no período da tarde ou da manhã (embora Tom nunca se ausentasse). Donna tinha até trabalhado no turno da noite uma vez, das onze às nove horas da manhã, embora o bar estivesse fechado, e ela só precisasse se acordar caso alguém quisesse alugar um quarto no andar de cima. Até isso era melhor do que o turno sem fim da tarde. Embora o bar fosse fresco e escuro, sempre que a porta abria, entrava uma rajada do ar quente e úmido de julho, e ainda que os clientes fossem poucos e estivessem ausentes àquela hora, dezenas de bruxas e bruxos estavam ansiosos para chegar ao Gringotes, à Floreios e Borrões, à Florean Fortescue e a todas as outras lojas do Beco Diagonal.
Pip sentou-se no bar no seu lugar habitual e pediu uma caneca de hidromel, que Donna entregou rapidamente.
"Está um inferno lá fora, sim, está, senhorita," informou-lhe o bruxo, assim que deu um longo gole da caneca. "E meu feitiço de resfriamento não é como costumava ser."
Donna assentiu. "Acontece. Você pode tentar beber menos, sabe. Muita bebida alcoólica com a idade diminui a capacidade mágica às vezes."
"Tolice," zombou Pip. "Nã' é a bebida que fazzz i-sso comig'. São os idiotas do M-Ministério. Nos envenenam em nos nossos sonos, o Ministério. Não c-confie neles, senhorita. Não c-confie neles nem um pouco."
Donna inclinou-se por cima do bar. Ela sabia que deveria jogar, ou, pelo menos, animar o sujeito, mas às vezes simplesmente não conseguia se conter. "O Ministério da Magia envenenou o senhor para que seus Feitiços de Resfriamento não funcionassem mais?" perguntou ela ceticamente.
"Isso me'mo."
"Por que raios o Ministério da Magia se importaria se o senhor consegue ou não conjurar um Feitiço de Resfriamento?"
Mas, como previsto, Pip se recusava a ver as coisas do jeito dela. Ele fez uma careta para a garota, temporariamente hostil, e tomou outro gole de hidromel. "Se você não s'be, eu n'ão p-posso lhe contar, senhorita," disse o bruxo com simplicidade. Donna percebeu que estragara sua única esperança de conversa durante a próxima hora, e então retornou ao centro do bar e sentou-se em seu banquinho.
O bruxo próximo à porta pagou a conta e saiu, provavelmente para retornar ao trabalho, a bruxa idosa continuou a cantarolar de forma sonhadora, e Donna estava a três quartos de ler todos os rótulos das bebidas na segunda prateleira, quando o sino dourado sobre a porta tilintou de novo. Ela não olhou desta vez, sabendo quase certamente tratar-se de um cliente rumo ao Beco Diagonal. Assim, a morena ficou surpresa quando um bruxo se sentou no bar, perto da parede oposta ao canto de Pip. Ela ficou ainda mais surpresa ao descobrir que era alguém que reconhecia.
Trajando vestes negras ministeriais, com um brilhante distintivo dourado preso apaticamente ao colarinho, estava Lathe. Ele massageava a testa, cansado – os olhos azuis fechados – quando pediu: "Firewhiskey, puro."
Donna pegou duas garrafas de uma prateleira. "Ogden ou de Belledone?"
"Ogden." Ela serviu a bebida, e Lathe tomou rapidamente. "Outro, por favor." Ela obedeceu e, desta vez, o auror bebeu mais lentamente. Ele também se endireitou, finalmente abrindo os olhos e olhando para Donna pela primeira vez.
"Eu te conheço de algum lugar?" perguntou ele.
"Você deveria estar bebendo no horário de trabalho?" retrucou Donna. Ela devolveu as garrafas às prateleiras, e Lathe sorriu. O auror tirou o distintivo das vestes e o girou em cima do balcão à sua frente.
"Eu não estou em horário de trabalho, amiga. E parece que não estarei por um tempo."
"Eles te demitiram?"
"Não. Suspenso para investigação. Merlin, eu te conheço de algum lugar... Eu já te prendi alguma vez?"
"Não," respondeu ela, ofendida. "Eu estava em Hogwarts no último ano."
"Você não deve ter apreciado muito a escola," disse Lathe, lançando um olhar divertido em torno do bar. Donna cruzou os braços, mais ofendida ainda.
"Pois saiba que tirei cinco 'O' nos meus N.O.M.s. Acabei de terminar meu sexto ano. É um trabalho nas férias de verão."
Lathe assentiu. "Bem, isso é sempre bom. Então, você é uma aluna de Hogwarts, não é? Uma setimanista? Um pouco jovem para estar cuidando de um bar..."
"Você é um pouco jovem para estar à frente de investigações."
"Eu sou um prodígio."
"Eu também."
"Em bebida alcoólica?"
"Em qualquer coisa que me interesse."
"Incluindo bebida alcoólica."
"Incluindo ser remunerada."
Lathe riu. "Você venceu. Outro, por favor." Ela o encarou e tornou a se sentar em seu banquinho. "Suponho que você não," começou ele sem rodeios, "conheça uma garota engraçada chamada Evans, conhece?"
"Ela é da minha Casa e do meu ano."
"Ah..." Um longo gole de firewhiskey: "...Então você é uma grifinória. Nunca gostei muito de grifinórios quando estava na escola. Sou da Corvinal. Você me parece extremamente familiar..."
"Você me acusou de azarar alguém em seu primeiro dia no castelo," disse Donna, lembrando-se do incidente com malícia. "Fora isso, acho que não o vejo desde então."
Lathe franziu a testa para a bebida. "E você tem certeza de que nunca te prendi? Eu consigo imaginá-la no departamento de aurores por algum motivo."
"Você deve estar imaginando meu irmão, então."
"Eu já o prendi?"
"Não, ele trabalha com vocês."
"Um auror? Qual é o nome dele?"
"Kingsley... Kingsley Shacklebolt."
O reconhecimento espalhou-se pelo rosto de Lathe imediatamente. "Isso mesmo... você é irmã de Kingsley, então. Ele tem uma foto de todos vocês sobre a mesa... a mesa dele fica ao lado da minha. É claro que você está bem mais velha agora."
Donna concordou, sabendo exatamente a qual foto ele se referia. Foi a última da família toda...
"Então, você é a irmã de Kingsley? Pela maneira como ele fala de você, imaginei que você fosse metade gigante e metade dragão. Não de uma forma ruim..." acrescentou Lathe rapidamente. "Apenas pela questão da força."
Satisfeita por essa descrição de si mesma, Donna não debateu a questão. Em vez disso, ela perguntou: "Então, por que eles estão te investigando? Não aceitou suborno, não é?"
"Não foi nada tão ruim assim," foi a única resposta de Lathe, e havia uma pontada em sua voz que disse a Donna para deixar pra lá. Ele tomou outro gole de firewhiskey. "Eu deveria ter sido um barman," divagou ele por fim, olhando ao redor do pub distraidamente. "É um trabalho muito prático."
"Por que diz isso?" questionou Donna.
"Bem, ninguém tenta te matar no seu dia-a-dia, não é?"
"Pior. Eles tentam conversar comigo."
Lathe pareceu achar graça. "Você não gosta de conversar com as pessoas?"
"Eu não gosto de gente que senta aí e acha que porque eu sirvo bebida, estou disposta a ouvir todos os seus problemas. De qualquer forma, os problemas deles geralmente são estúpidos. Quero dizer... por que em nome de Merlin eu me importaria se um sujeito pensa que a esposa o está traindo? E o que ele pode exigir dela, quando eu o vejo comprar bebidas para loiras vadias e vagabundas o tempo todo?"
"Vou entender isso como um 'não.'"
Donna franziu a testa. "Eu não me importo de conversar com pessoas inteligentes," corrigiu ela afetadamente. "Mas não há muitas dessas pessoas no turno da tarde em um bar."
O auror ergueu as sobrancelhas. "Você está me insultando, mini-Shacklebolt?"
Confusa: "Não..."
"Por alguma razão, eu acredito em você." Ele bateu ociosamente um anel em seu dedo mindinho contra o copo quase vazio. "Você é uma garota estranha, sabe?"
Donna cruzou os braços, impaciente. "Eu posso suspender sua bebida, sabe?"
"Mas assim você perderia um valioso cliente!"
"Talvez eu não me importe."
"Mas eu conheço Tom..."
"Todo mundo conhece Tom. É o maldito Caldeirão Furado."
"Tudo bem, é justo." Lathe deu de ombros. "Mas eu mantenho minha opinião."
Donna fez uma careta, mas não teve oportunidade de responder, já que Pip aproveitou o momento para pedir que ela ligasse a rádio. Ela o fez com um aceno de sua varinha e, imediatamente, outra reportagem sobre Phillip Stoake preencheu o bar relativamente calmo. Donna virou-se para Lathe novamente. "Você estava lá? Esta manhã, quando isso aconteceu?"
"No mesmo andar, em ala diferente," brincou o auror. Ele fez um gesto pedindo outra dose de firewhiskey. "Eu estava lá no escritório dos aurores. Drake – um cara do D.E.L.M. – entrou gritando, e um grupo nosso correu, mas Stoake já estava morto."
"O que eles vão fazer?" perguntou Donna. Lathe apenas tornou a dar de ombros.
"Eu estou de 'licença,'" lembrou ele secamente. "E, de qualquer maneira, acho que não há muito que eles possam fazer."
"Mas você não acha que eles vão dar alguma atenção à exigência...?"
"Ainda não estamos tão mal assim." Ele balançou a cabeça e tomou o restante da última dose. "Mas posso te dizer uma coisa... não é um bom momento para suspender aurores. Stoake disse que essa 'exigência' foi a primeira, então eu acho que ainda não acabou."
Donna amaldiçoou mentalmente seu irmão idiota por seguir literalmente a carreira mais perigosa daquela geração, e estava prestes a dizer isso em voz alta quando um grande grupo de bruxas e bruxos entrou animado no bar, e ela foi obrigada a atendê-los. Como se verificou, o grupo parecia anunciar a multidão do final da tarde, e, considerando que a garota ficou bastante ocupada por uma ou mais horas, ela não falou mais com Lathe naquele dia.
(Terça-feira)
"...Poderia ter sido morto! O Ministério tem que reforçar a segurança! Eles estão simplesmente ignorando! Eu vou falar com Victor amanhã logo cedo..."
James trocou um olhar com o pai na mesa do café da manhã, enquanto Grace Potter continuou o que parecia ser o mesmo incessante monólogo que começou às onze horas da noite anterior, quando ela finalmente conseguiu falar com o esposo, e ainda não dera cinco minutos de intervalo.
"...Não há absolutamente nenhuma razão para se permitir que algo assim aconteça! No Ministério da Magia! Poderia ter acontecido algo com o ministro, ou com qualquer um! E pensar..."
"Mãe!" interrompeu James em voz alta. "Sério, eu acho que a sua raiva seria melhor dirigida a outra pessoa."
A Sra. Potter largou a xícara de chá e cruzou os braços. "Você está sendo terrivelmente casual quanto ao seu pai quase ter morrido, James Alexander."
"Grace..." começou o Sr. Potter, mas James interrompeu mais uma vez.
"Mãe, ele está sentado à mesa do café, monopolizando todas as torradas como de costume, perfeitamente bem – a cara da saúde. Quê? Eu ficaria triste se ele estivesse morto!"
Sua mãe se virou para o Sr. Potter. "Grite com ele, Alex."
"Por que?"
"Porque eu gosto de ser a mais legal."
James revirou os olhos e saltou da mesa. "Eu vou ver se o jornal chegou." Ele parou próximo à porta; "Pai, eu estou muito feliz por você não estar morto."
"Obrigado, James."
"Vocês são dois idiotas," resmungou a Sra. Potter.
Balançando a cabeça, James saiu em direção ao hall de entrada, e em seguida foi até uma pequena sala ao lado da cozinha, onde as corujas geralmente deixavam o correio matinal. Elizabeth II estava em seu poleiro e a coruja do jornal descansava no peitoril da janela com O Profeta Diário sobre a mesa. James pagou à ave dois nuques e pegou o jornal. Mas ele não procurou pelas palavras cruzadas; a manchete chamou sua atenção.
"Merda."
O rapaz correu de volta para a cozinha, onde sua mãe ainda lamentava a segurança do Ministério e jogou o Profeta sobre a mesa, diante de seu pai.
"O que...?" Mas o Sr. Potter leu o texto em negrito e se calou.
Lorde das Trevas Exige 'Limpeza no Ministério'
Em sequência à exigência de ontem, emitida por um funcionário do Ministério sob a maldição Imperius, o Lorde das Trevas clamou por uma limpeza em todo "sangue contaminado" no Ministério da Magia. Ao fazê-lo, o movimento dos Comensais da Morte assumiu a responsabilidade por outra vítima.
A nascida-trouxa Ava Lescano, de 40 anos, foi dada como desaparecida há duas semanas. Acreditando seus familiares que ela tinha sido sequestrada devido ao seu envolvimento com a organização protrouxas Magia pela Paz, M.P.P., a Srta. Lescano reapareceu esta manhã apenas para inscrever uma segunda exigência do Lorde das Trevas na parede exterior do Ministério da Magia, na fachada visível aos trouxas. A mensagem foi escrita logo após o nascer do sol, com apenas dois bruxos de testemunha; os bruxos do Ministério estão coordenados com as autoridades trouxas para isolar a área e obliviar eventuais testemunhas trouxas.
A exigência, esculpida com o que se supõe ser um Feitiço de Logomarca, tinha o seguinte teor:
"Esta é a segunda mensagem. Outras virão. O Ministério da Magia foi infectado por sangue contaminado e deve ser limpo de toda essa sujeira. Membros do Ministério mestiços e de sangue-ruim devem ser dispensados de seus postos e substituídos por bruxos de mente e sangue dignos. Esta é a segunda mensagem. Se esta exigência não for cumprida imediatamente, haverá retaliação."
Depois de entregar sua "mensagem", a Srta. Lescano tirou a própria vida, provavelmente sob a influência da Maldição Imperius.
Havia mais, mas James não conseguiu terminar de ler sobre o ombro do pai antes que o Sr. Potter levantasse abruptamente.
"É dessa forma que sou informado?" vociferou para ninguém em particular. "Filho da mãe... eu tenho que ir."
"Alex..."
Mas ele saiu da cozinha antes que algo mais pudesse ser dito. A Sra. Potter ficara muito pálida, e James sabia o que ela ia dizer antes que formasse as palavras.
"Eu também tenho que ir."
"Mãe, você trabalha no setor de finanças..."
"James," disse ela suavemente, "você sabe que não é por isso."
Ele sabia. "M.P.P.," murmurou ele. "Você também é membro."
"Phillip Stoake," disse a Sra. Potter lentamente, "eu sabia que conhecia esse nome. A esposa dele, Louise, é membro..."
James balançou a cabeça lentamente. "Vá, então."
"Você vai ficar bem aqui, sozinho?"
Eu sempre fico. "Claro. Pode ir."
James a seguiu até o hall, e a Sra. Potter parou junto à porta. "Entre em contato com seu primo Sam, está bem? Ele é do M.P.P. também. Só para ter certeza..."
"Eu entrarei."
A Sra. Potter assentiu com a cabeça energicamente. "Amo você."
"Também amo você."
Então, ela se foi. James sentou-se no último degrau da escadaria principal e olhou à volta da enorme sala vazia. Ele suspirou e passou a mão pelo cabelo.
"'Depois de entregar sua mensagem, a Srta. Lescano tirou a própria vida, provavelmente sob a influência da Maldição Imperius...' Mary, você está ouvindo isso?"
Mary desviou o olhar do espelho sobre sua mesa, olhando para onde Marlene estava, sentada em sua cama, com o jornal na mão, debruçada sobre a história que inundara os jornais e o noticiário o dia todo. "Você já leu duas vezes," apontou a morena, voltando-se para o espelho e aplicando o brilho labial. "Não tem como eu não ouvir."
"E você ainda vai sair hoje?" insistiu Marlene, infeliz. "Não é seguro."
"Eu saí ontem e não morri," respondeu Mary. "Além disso, eu estarei com Stebbins."
"É estranho você ainda chamá-lo pelo sobrenome."
"E que parte de 'o nome dele é Umbert' você não está entendendo?"
"É justo," admitiu Marlene com um encolher de ombros. "Mas eu gostaria que você não saísse hoje."
"Eu vou ficar bem. O que você vai fazer hoje, querida?"
"Vou ajudar seus pais," respondeu Marlene, seu tom tornando-se cansado. "Eu preciso do dinheiro."
"Tinha um trouxa lindo na loja ontem," disse Mary, na intenção de confortá-la. "Ele paquerou descaradamente. Talvez ele apareça lá novamente hoje."
"Eu passo, obrigada. Além disso... 'trouxas lindos' não reagem da mesma forma comigo. Você está com a varinha, certo?"
"É claro que estou com minha varinha. E do que você está falando? Suas pernas são longas, e você é loira. Os caras adoram isso."
"Reveja alguns feitiços defensivos bons, está bem? E eu não sou você. Eu não peso meio grama, e eu coro quando paquero. Além disso, eu sou exatamente o avesso de feminino".
Mary levantou-se da cadeira e começou a vasculhar o guarda-roupas. "O que isto quer dizer?"
"Ah, sabe," disse Marlene em um tom monótono, deslizando da cama e indo em direção à mesa, onde começou a mexer nos pertences desorganizados de Mary, que iam de roupas a revistas. "Sou moleca quando deveria ser mais menina, e feminina quando os caras preferem uma garota moleca." Mary lançou-lhe um olhar perplexo, e a loira explicou: "Uma garota pode gostar de roupas, maquiagem e comprometimento desde que seja do tipo 'delicada' e 'doce', ou ela pode ser intensa e abrasiva desde que não se importe com maquiagem – traduzindo, não precise de maquiagem - e seja uma desleixada. Mas eu levo uma hora para me arrumar pela manhã e sou muito resistente a firewhiskey. É a combinação errada. O mundo é muito injusto."
"Eu não faço ideia do que está falando," insistiu Mary, ainda ocupada com o guarda-roupas. Marlene suspirou e sentou-se à mesa, pegando preguiçosamente uma carta que estava sobre ela.
"De quem é?"
"De quem é o quê?"
"Essa carta."
"Sobre a mesa?"
"Sim."
Mary olhou por cima do ombro. "Adam."
"Ele ainda está em São Francisco, não é?"
"Aham."
Naquele momento, só havia literalmente uma coisa na mente de Mary Macdonald. Deveria usar o casaco azul ou o verde? Ambos ficavam ótimos nela, e os dois davam certo com o vestido. O azul era de um material mais casual, mas se usasse o verde poderia usar as sandálias verdes, que faziam suas pernas parecerem mais finas. Mas ela gostava muito do azul e o efeito que dava em seus olhos... não que os garotos passassem muito tempo olhando para os olhos dela, mas, ainda assim... a cor favorita de Stebbins era azul, então tinha isso também.
Azul ou verde: o grande dilema do momento.
Mas se a concentração de Mary estivesse mais bem preparada para multitarefas, ela poderia ter se lembrado com um minuto ou dois de antecedência exatamente o que a carta de Adam McKinnon – a carta que no momento estava na posse de sua melhor amiga – realmente dizia.
Infelizmente, Mary não se lembrou com um minuto ou dois de antecedência. Ela lembrou um pouco depois.
A morena virou-se bem a tempo de ver Marlene largar o pergaminho sobre a mesa e se levantar.
"Merda," xingou Mary.
"Prudence Daly?" perguntou Marlene, meio gritando. "Ele está saindo com a bendita Prudence Daly? Eu odeio Prudence Daly!"
"Por que você odeia Prudence Daly?" questionou Mary.
Marlene hesitou. "Bem, ela é... sabe... pequena. E feminina. E provavelmente mais inteligente do que eu. Eu não sei, eu nunca gostei dela, só isso!" Marlene tornou a sentar na cama. "E por que ele não me contou que estava namorando Prudence Daly? Afinal, por que ele está escrevendo para você?"
"Você leu a carta, não é? Ele precisava saber o que..."
"Eu não posso acreditar que ele está namorando a bendita Prudence Daly! Na América, ainda mais!"
"Olhe, Marlene," consolou a amiga, sentando-se ao lado dela. "Eles se encontraram em um casamento, um cenário do tipo 'meu primo está casando com sua irmã', que acontece durante o verão e termina em 1º de setembro. Coisa de verão, sabe." Marlene parecia um pouco consolada, mas não totalmente satisfeita. "É claro," continuou Mary propositalmente "que soa quase como se você estivesse com um pouco de ciúmes..."
"Eu não estou com ciúmes!" Marlene previsivelmente protestou. "Eu não estou com ciúmes. Eu só gostaria de ser informada de que meu melhor... está bem, meu segundo melhor amigo está de namorada."
"Bem, se você..."
"E eu acho interessante ele estar seguindo adiante tão depressa."
"Bem, querida, já fazem dois mes..."
"Não que eu esteja incomodada com o fato de ele estar seguindo em frente. Eu quero que ele siga em frente."
"Então você deveria estar..."
"Mas Prudence? Prudence Daly? Sério."
Mary decidiu não dizer mais nada, mas, com uma expressão de sabedoria, tirou o casaco azul do cabide e o vestiu. Ela examinou-se no espelho, e em um vestido de estampa floral que mal cobria suas coxas, com seu casaco azul e um coque complexo, ela estava realmente muito bem.
"Eu ainda gostaria que você não saísse," resmungou Marlene, tornando a pegar o jornal. "Stebbins é um lufano... Eu não sei se ele será de grande utilidade em uma luta."
Mary revirou os olhos e virou-se para a melhor amiga com um sorriso confortante. "Você se sentiria melhor se eu convidasse Stebbins para passar a tarde aqui, então?"
Alegremente, Marlene acenou com a cabeça.
"Tudo bem. Mas você me deve uma, Price."
"Obrigada, querida."
Balançando a cabeça, Mary foi se olhar no espelho de novo, só para ter certeza de que o rímel estava perfeito, enquanto Marlene, ainda muito concentrada no jornal, murmurava algo sobre a bendita Prudence Daly.
"Lily," repreendeu a mãe do outro lado da cozinha; "feche a torneira... estamos enfrentando uma estiagem, sabia?"
Lily obedeceu, embora não muito contente, e acrescentou: "Se você me deixasse fazer do meu jeito, eu poderia usar um simples feitiço aguamenti, e..."
"Agora não, Lily," interrompeu a Sra. Evans. "Vernon está na sala ao lado."
A ruiva, que estivera lavando o prato que usou no almoço, largou-o e se virou para a mãe. "Algum dia ele vai descobrir, não é?"
A Sra. Evans balançou a cabeça, voltando para a pilha de contas que estava examinando, e uma terceira pessoa juntou-se às duas antes que algo mais pudesse ser dito.
"Vernon vai ficar para o jantar," anunciou Petunia. "Há o suficiente, não é?"
Muito simples, pensou Lily, para que se abstivesse da piadinha "Vernon come como um porco", e, sem falar, a ruiva sentou-se à mesa da cozinha.
"Há bastante," respondeu a Sra. Evans, que provavelmente previra a situação. Vernon geralmente ficava para o jantar.
"Ótimo." Petunia rumou para a pia, onde começou a lavar os pratos que tinha acabado de trazer da sala de estar, e, nesse meio tempo, Lily lançou um olhar significativo para a mãe. A mais velha balançou a cabeça novamente, desta vez com um significado muito específico, e, por um momento, as duas se envolveram em uma batalha silenciosa. Então, Lily virou-se em sua cadeira para encarar a irmã, que, ainda lavando os pratos, estava de costas para a família.
"Petúnia," começou ela bravamente, e a Sra. Evans suspirou.
"Hum?"
Com um olhar cauteloso em direção à porta fechada que as separava de Vernon: "Eu... quer dizer, nós estávamos querendo saber quando você pretende falar com o seu noivo"
Petunia ficou imóvel por um momento, mas apenas por um instante, e em seguida voltou a lavar os pratos. "Eu não sei do que você está falando."
"Sobre mim," disse Lily com ênfase. Petunia não disse nada. "Tuney..."
A loira largou os pratos e virou-se para as outras duas. "Estavam falando de mim, não estavam?" vociferou violentamente. Seu rosto estava corado.
"Não," disse Lily em voz alta. "Estávamos falando sobre mim. Sabe, ele vai começar a se perguntar, e você não vai conseguir sustentar o 'mentalmente perturbada' para sempre."
"Lily..."
"Ah, mamãe, você sabe que é verdade," interrompeu a ruiva, encarando a mãe. "Marge me disse todas as coisas estranhas que pensa sobre mim, e isso tem que vir de algum lugar..."
"Não é da sua conta o que eu quero ou não discutir com meu noivo," retrucou Petunia. "E eu agradecerei se não falassem de mim pelas costas!"
"Nós não estávamos falando," insistiu Lily, levantando-se. "Mas ele devia..."
"Ah, fale baixo!"
Lily falou em um sussurro alto: "Ele deveria saber. Eu sou dama de honra, pelo amor de Merlin.!"
"E daí?"
"Petunia..."
"Meninas," interrompeu a Sra. Evans. "Lily, chega. A escolha é de Petunia."
"Mas..."
"Sim, Lily, a escolha é minha..."
"Mas..."
"Lily."
Derrotada, a ruiva sentou-se novamente. Petunia amarrou a cara ao sair da cozinha. A Sra. Evans suspirou profundamente. "Você não vai ganhá-la dessa forma."
"Ganhá-la?" repetiu a filha com ceticismo. "É um pouco tarde para isso, não acha?"
"É difícil para ela, Lily."
"Mas por que ela não vai contar a Dursley?"
A Sra. Evans lançou-lhe um olhar. "Como exatamente você começaria essa conversa, Srta. Lily?"
"Essa não é a q..."
"E você acha que Vernon seria bastante receptivo à ideia?"
Lily cruzou os braços e inclinou-se sobre a mesa. "Então você também acha que ele não vai se casar com Petunia se descobrir."
"Também?"
"Bem... é isso que Tuney pensa, não é?"
A Sra. Evans hesitou. Sua expressão era incompreensível, mas Lily achou que sua mãe estava mais inclinada a discordar. "Dê um pouco de crédito à sua irmã."
"O que isto quer dizer?"
"Que... que talvez você não devesse estar com tamanha pressa para que sua irmã contasse seu segredo a Vernon. É uma questão muito complexa."
Os olhos de Lily se estreitaram. "Ela te disse alguma coisa, não foi?"
"Eu não vou discutir isso..."
"Mãe..."
"Lily." E havia um indiscutível tom definitivo em sua voz, de modo que Lily contentou-se em revirar os olhos e fazer beicinho. A Sra. Evans arqueou as sobrancelhas e, em seguida, em um tom resignado, perguntou: "Você ainda está com fome?"
"Sim, mas não há comida nesta casa..." (Graças à dieta imperialista de Petunia...)
"Tem chocolate no armário ao lado da geladeira."
Lily fez uma careta. "Você está tentando me acalmar com chocolate?"
"Sim."
"Bom, não está funcionando." Ainda assim, a ruiva foi até o citado armário quase imediatamente e, localizando o referido chocolate, sentiu-se um pouco melhor. Mas só um pouco.
O padrinho de Vernon – um cara de feições rudes, cujo apelido era Rex – também apareceu para o jantar. Com estas desagradáveis distrações, Lily não teve mais nenhuma oportunidade de falar com a irmã naquela tarde, e, na verdade, não fez qualquer tentativa. Na realidade, foi Petunia que iniciou um diálogo depois do jantar.
As duas meninas ficaram brevemente sozinhas na sala de estar, já que sua mãe estava na cozinha, e Vernon tinha levado Rex para fora. Lily estava levantando para se recolher em seu quarto quando Petunia falou.
"Lily."
"Hum?"
O rosto de Petunia parecia pálido, e havia seriedade em seus olhos duros. "Eu e Vernon vamos fazer um passeio esta noite." Lily esperou pelo restante. "Eu vou contar a ele sobre você."
Lily não poderia ter ficado mais surpresa se sua irmã tivesse acabado de anunciar que pretendia fugir para as Bermudas. "Ah. Eu... ah." E, porque achou que deveria dizer mais alguma coisa: "Bem, isso é bom, não é?"
Mas Petunia não deu nenhuma resposta verbal; sua expressão só mudou o suficiente para indicar que ouvira a pergunta da outra, e, em seguida, anunciando que ia pegar um casaco de lã antes de sair, a irmã mais velha retirou-se do cômodo.
(Quarta-feira)
Sirius entrou no Caldeirão Furado bem a tempo de ouvir Donna bradar, "Bobagem," antes de prontamente desligar a rádio atrás do bar. O bruxo ergueu as sobrancelhas e entrou no saguão.
"Bom dia?" sugeriu ele, e a jovem cruzou os braços sobre o peito, inclinando-se contra o bar.
"Você já ouviu a última 'mensagem?'"
"'Faxina' no Ministério? Sim."
"Não, tem uma nova," disse Donna, impaciente. Ela se endireitou, procurando algo que finalmente localizou na prateleira do fundo, ao lado de uma garrafa de vinho. Era o Profeta Diário mais recente. Donna o jogou sobre o bar, e Sirius aproximou-se para ler a manchete.
"Voldemort quer que todos os mestiços sejam registrados no Ministério," disse o jovem com irritação. "Idiota maldito. Houve outra...?"
"Vítima?" sugeriu Donna. Ele assentiu com a cabeça. "Mestiça dessa vez. Ele está se expandindo. Você está atrasado, aliás."
Sirius pegou um avental e suspirou. "Só um minuto."
"Dois minutos," corrigiu ela.
"Será que o mundo acabou na minha ausência?"
"Não, mas o alvoroço do almoço começa daqui a pouco, e eu não quero enfrentar sozinha..."
"Shack."
"Quê?"
"Relaxe."
Por um momento, Donna pareceu afetada pela ordem; então, ela encolheu os ombros e respondeu: "Cai fora."
Sirius revirou os olhos.
Lily estava dormindo quando Petunia chegou na terça à noite, e Petunia já saíra quando Lily acordou na quarta-feira, então as irmãs não se encontraram até Petunia voltar da cidade na quarta à noite. A Sra. Evans estava fora e Lily estava em seu quarto, ouvindo The Five Keys e devorando Victor Hugo em uma procrastinação fervorosa de seus deveres de casa. Como resultado, a filha mais nova dos Evans não ouviu a irmã chegar em casa até Petunia bater na porta de seu quarto.
"Entre?"
Petunia entrou; ela parecia cansada, mas impecável como sempre em um vestido floral e sapatos de salto – não parecia que tinha passado o dia inteiro resolvendo as coisas no calor.
"Tuney," cumprimentou Lily, sentando-se de imediato e, por um instante, sentindo-se pateticamente inferior em shorts de algodão e uma camiseta. A expressão de sua irmã lhe dizia que ela viera falar algo sério, e havia pouca dúvida sobre o seu conteúdo. "Você voltou..."
No entanto, Petunia demorou a dizer alguma coisa. Ela fechou a porta do quarto, ignorou o convite de Lily para que se sentasse, e mordeu o lábio ansiosamente. Mas uma série de potenciais desastres corria pela mente da mais jovem ao imaginar todas as reações possíveis de Vernon. Porém, certamente ele não faria nada muito drástico...
E em um momento de devaneio, Lily imaginou Dursley cancelado o casamento. Ela imaginou uma Petunia inconsolável, defendendo a irmã mais nova, apesar de suas próprias e evidentes restrições...
Lily prendeu a respiração em antecipação.
"Eu contei a ele," disse Petunia com a voz pedregosa.
Lily levou um momento para digerir isso, e, em seguida, respondeu: "Bem, isso é bom, não é? Quero dizer, se ele vai ser meu cunhado, é melhor que ele..."
"Vernon quer você fora do casamento."
"Q-quê?" gaguejou a mais nova. "O que você disse a ele?"
"Você ainda pode comparecer, se quiser," continuou Petunia. "Mas terão cinco padrinhos; Rachel Richards deve caber no seu vestido de dama de honra, mas vou precisar que me devolva. E você vai se sentar com a nossa mãe durante a cerimônia e na recepção. Eu vou colocar o tio Donald em outra mesa, e..."
"Petunia," interrompeu Lily em voz alta. "Você não pode... você não pode simplesmente deixá-lo dizer o que fazer deste jeito! Não é ele quem decide!
"Eu sei," disse a loira, seu tom de voz mais suave. "Mas ele tem razão. Você não pertence a este lugar, Lily. Desde que você partiu para aquela..."
"Isto não tem nada a ver com Hogwarts!" gritou Lily. "Como pode deixá-lo fazer isso?"
"Vernon não está fazendo isso," retrucou a outra.
Lily saltou da cama, correndo em direção à irmã. "O que significa isso tudo? O que você quer dizer com 'Vernon me quer fora do casamento?' O que você disse?"
"Eu contei sobre você..." Como se fosse óbvio; "Eu só contei a verdade."
"Mas por que...?"
"Ah, Lily," interrompeu Petunia com desdém; "é claro que isso ia acontecer! É claro que ele não ia querer você no casamento! Por que ele ia querer...? Mas..." E a emoção cintilou em seus olhos, "...Eu sabia que isso aconteceria!"
"Vocês...?"
"Sim, é claro! O que mais poderia ter acontecido?"
"Tuney..."
"Eu sabia... eu sempre soube que isso aconteceria quando eu contasse a Vernon sobre você! Mas mamã... mamãe insistiu para você estar no casamento, e você ficou dizendo que eu estava com medo, e você simplesmente... continuou insistindo e cutucando! Você não conseguia deixar pra lá!"
"É culpa minha, não é?"
"É claro que a culpa é sua!" gritou Petunia.
"Então, o que foi que ele disse?" questionou a ruiva. "Que ele não casaria com você se eu fosse dama de honra?"
"Vernon se casaria comigo de qualquer forma. Ele me ama."
"Então..."
"Eu não tenho mais nada a ver com você, Lily! Você fica na escola o ano todo... você não estava aqui para nada. Quando terminei a escola, você ainda não tinha voltado para casa... você deveria estar aqui para participar das coisas... para conversar comigo depois do meu primeiro encontro, para me consolar depois do término de um namoro... quando o papai morreu..."
"Não se atreva, Petunia..."
"A questão é que," pressionou Petunia, com ódio, "nós não somos irmãs, Lily. Não somos nem mesmo amigas. Você partiu, e eu não tenho mais nada a ver com você! E nem Vernon. Não cabe vocês dois na minha vida, e..."
"E você o escolheu?"
Petunia não respondeu imediatamente. Por fim, ela murmurou: "Você que foi embora."
Lily olhou incrédula para a irmã, totalmente sem palavras.
O que mais poderia ter acontecido?
Para isso, Lily tinha uma centena de respostas; ela tinha uma em particular, mas se conteve, sem saber se devido ao fato de que não queria machucar a irmã ou porque tinha medo que ela simplesmente não se importasse.
"Então, eu vou precisar do vestido," disse Petunia novamente.
Era quase como se ela não soubesse que o coração de Lily estava partindo.
"...Até amanhã, no máximo."
Quase.
Ela se virou para ir embora, mas Lily encontrou a voz antes que a outra deixasse o quarto. "Petunia," implorou. "Por que você está...? Eu sei que você... você não faria isso se não..." ("quisesse," ela quase disse.)
A mão de Petunia demorou-se na porta, suas costas ainda viradas para Lily. Quando, finalmente, ela se virou, seus olhos duros brilhavam. "A culpa é sua." Então, quase como se não soubesse que o coração de Lily estava partido, Petunia se foi.
(Quinta-feira)
O Lorde das Trevas Clama a Demissão Imediata do Ministro
Por Jillian Jones
Na quinta-feira ao meio-dia, o Caldeirão Furado consistia na improvável combinação de cheio e silencioso. Todas as mesas estavam ocupadas e o bar lotado; Tom tinha até enfeitiçado uma das paredes para aumentar a capacidade, e ainda assim ninguém falava. Em vez disso, ouviam as últimas notícias na magicamente ampliada RRB; três mortos em Bristol, e outra exigência de Lorde Voldemort.
Era o tipo de coisa que você não queria ouvir sozinho.
Donna estava trabalhando com Tom. Lily, Marlene e James estavam entre os muitos bruxos e bruxas no bar. A ruiva estava com Marlene em meio a um salão lotado, mas James estava a certa distância com um bruxo que ela não conhecia.
O homem na rádio tinha uma voz forte, profunda e pesarosa, da qual a jovem achou que se lembraria até o fim de seus dias. Não era apenas pela mensagem, nem pelos três bruxos mortos em Bristol... era porque, finalmente, a verdadeira mensagem de Voldemort fora conhecida. Suas pequenas exigências eram insignificantes em comparação: ele sabia que o Ministro da Magia não se afastaria, que as varinhas dos nascidos trouxas não seriam quebradas, e que os mestiços não seriam registrados. Mas ele não se importava, não é?
Aquela não era a questão, e na quinta-feira, com mais três mortes, Lily achou que finalmente entendera tudo.
A verdadeira mensagem era que ele podia matar qualquer um; podia fazer qualquer coisa, e não havia nada que alguém pudesse fazer para detê-lo. Ele não estava fazendo exigências; estava se mostrando.
Era aterrorizante.
"...Londres parece calma esta tarde, já que o Lorde das Trevas fez outra exigência à Inglaterra Mágica..."
Algumas pessoas chamavam aquilo de guerra, refletiu Marlene, mas não era... não de verdade. Em uma guerra – ao menos nas guerras trouxas – havia linhas de batalha; havia exércitos e uniformes. Havia combates: as pessoas apareciam, lutavam e matavam umas às outras, diziam que era um inferno, mas pelo menos havia... consistência. Pelo menos conheciam o inimigo.
Essa covardia não era uma guerra; eram assassinatos repugnantes.
"...Três membros do M.P.P, uma coalizão de bruxas e bruxos dedicados à convivência pacífica e à igualdade entre aqueles de diferentes status sanguíneos..."
Sam Dearborn era um cara interessante.
Ele frequentara Hogwarts por exatamente dois dias, mas o Chapéu Seletor o colocou na Lufa-Lufa e seus pais de sangue-puro, sentindo-se humilhados, levaram o garoto de volta para casa. Pelo menos era assim que Sam contava a história.
James admirava seu primo excêntrico; ele não tinha medo de quase nada, incluindo a ira de sua intimidadora mãe, e isso advogava em seu favor. Ao longo dos anos, James tinha visto Sam imensamente feliz, enlouquecido e extremamente entediado. Ele o vira furioso, decepcionado, esperançoso e perturbado.
Mas, antes daquela tarde, James pensava jamais ter visto Sam Dearborn triste.
O bruxo mais velho (pois Sam era seis anos mais velho do que James) não encarava ninguém. Ele não fez piadas; não havia entusiasmo em seu rosto magro, comprido e sardento. Ele apenas parecia triste ao girar um distintivo dourado e redondo, do tamanho de um galeão, sobre a mesa. As letras M.P.P. estavam gravadas na superfície do broche.
"Eram pessoas boas," murmurara Sam mais cedo. "Não mereciam isso."
James não duvidava daquilo.
Lily estava ali. James a vira no instante em que entrou, embora não tivesse certeza de ter registrado sua entrada com Marlene. Porém, por mais culpado que se sentisse por sequer pensar nisso em um momento como aquele, o jovem não conseguiu deixar de lançar olhares ocasionais em sua direção. Ela estava bebendo cerveja amanteigada e parecia pesarosamente séria, mais pálida do que o normal, tornando o vermelho de seus lábios e o verde de seus olhos mais evidentes.
"...os aurores estão lutando para descobrir alguma pista ou evidência que possa ajudar a impedir futuras entregas violentas de qualquer nova 'mensagem...'"
"Os aurores estão lutando," pensou Donna amargamente, servindo gim para uma bruxa de idade. A declaração soava bastante simples, mas havia muito mais do que isso... os aurores estavam lutando... eles estavam se ausentando de casa por dias seguidos, trabalhando como loucos quando voltavam para casa, tentando encontrar uma solução que parecia não existir...
É claro que era mais fácil fazê-los parecer incompetentes ou desinformados... incapazes... era mais fácil para todo mundo, afinal, ninguém queria ouvir que não era possível fazer nada. Nem mesmo Donna queria sequer imaginar isso.
"...O Ministro da Magia marcou uma entrevista esta tarde..."
Sirius entrou no estabelecimento em torno do meio-dia e meia, apenas para verificar a escala, mas a incomum multidão sombria e pensativa chamou sua atenção, e ele ficou atrás do bar com Donna por alguns minutos.
"Seu amigo está aqui," informou ela, enquanto um murmúrio aborrecido crescia entre os muitos bruxos e bruxas no Caldeirão Furado.
"Eu não sei se você notou," retrucou Sirius friamente, "mas ele não é mais exatamente meu amigo."
Donna apenas deu de ombros. "Nesse caso, é melhor ficar fora do caminho dele."
Sirius arqueou uma sobrancelha. "Por que?"
"Os ânimos estão exaltados… já tiveram duas brigas desde de manhã."
"Jura?" Sirius sorriu amargamente. "É melhor eu ir embora, então. Te vejo em algumas horas, Shack".
Donna não respondeu, e serviu outra dose de firewhiskey.
James tinha visto Sirius entrar; vira o ex melhor amigo desaparecer atrás do bar e reaparecer minutos depois, trocando palavras em voz baixa com Tom e Shacklebolt. O locutor da RRB só estava repetindo as notícias agora, e conversas tranquilas começaram em meio à multidão. Sam disse algo estranhamente cínico, e um bruxo por perto sugeriu com raiva que o ministro deveria renunciar, ao menos para pôr fim em tudo aquilo.
Sirius rumou para a porta dos fundos em direção ao Beco Diagonal.
"Pense nisso, Prongs! Ele vai descer até lá, passar pelo salgueiro, ver Moony..."
James ouviu as suposições entusiasmadas de Sirius há meses atrás, mas que ardiam como uma ferida recente.
"Não finja que se importaria com Snape se não fosse por ela..."
Ardendo, queimando, doendo e fazendo seu sangue ferver...
O movimento dos Comensais da Morte assumiu a responsabilidade por outra vítima...
Você vai ficar bem aqui, sozinho?
Três mortos em Bristol...
Eles não mereciam isso.
James quase derrubou a bebida da mesa ao se levantar. Sirius se fora novamente, tão discretamente quanto entrara.
"Volto já," murmurou James para um distraído Sam, que apenas balançou a cabeça.
Lily tinha visto James sair do bar após Sirius, e contou o fato a Marlene quando a loira voltou para a mesa apertada com mais uma rodada de cerveja amanteigada. Marlene fez uma careta.
"Será que deveríamos...?" começou Lily, mas sua amiga balançou a cabeça.
"É assunto deles, não nosso."
"Mas..."
"Lily." Marlene suspirou profundamente. "Você não pode consertar tudo."
James saiu para o calor opressivo e o céu cinzento de um desolado Beco Diagonal. Alguns bruxos e bruxas andavam pela rua, mas, em geral, o rapaz jamais vira o local tão deserto. Foi fácil detectar Sirius, ligeiramente curvado e caminhando com as mãos nos bolsos.
"Black!"
O bruxo parou ao som de seu sobrenome, gritado de algum lugar atrás dele. Ele se virou e viu James avançando depressa em sua direção. Atordoado demais para responder, Sirius esperou o outro falar novamente.
Seu semblante era complexo, como se nem ele soubesse o que dizer em seguida ou por que sequer chamou Sirius. Por fim, no entanto, James o encarou e havia algo mordaz em seus olhos.
"Eu não me importo com o que Remus diz," disse-lhe James sem rodeios. "Eu não vou te perdoar."
Só quando percebeu que estava desapontado foi que Sirius notou que estivera esperançoso. "É mesmo?" murmurou serenamente.
"Sim."
"Bom... parabéns." Sirius começou a se afastar, mas James ainda não terminara.
"Você é um mentiroso, sabia?"
Sirius fez uma pausa.
"Você é. Você é um mentiroso, e um covarde egoísta. Acho que você nunca fez qualquer coisa por alguém além de si mesmo..."
"Foda-se".
James se aproximou e em um tom tenso e amargo desafiou: "Me obrigue."
Sirius cerrou os punhos ao lado do corpo, mas não se mexeu. Ele retribuiu o olhar duro do outro por alguns segundos. James era mais alto do que ele agora (algo que vinha acontecendo há tempos), e as armações de seus óculos eram novas e estranhas. Sirius imaginara que James tinha permanecido do mesmo jeito nos últimos meses.
"Eu não vou brigar com você, Prongs," disse ele, por fim. Isso era tudo que James realmente queria agora... uma briga. "Você está perdendo seu tempo."
"Está com medo?"
"Foda-se".
Ele tornou a se virar para partir, e, mais uma vez, a voz escarnecedora de James o deteve. "Acho que você está com medo, Sirius. Eu me pergunto o que seria necessário... eu poderia chamá-lo de traidor do sangue... isso faria Regulus brigar, não é?"
Sirius se virou novamente; a varinha em punhos agora. "Não provoque," retrucou, aproximando-se de James. "Eu também sei como te machucar, Prongs."
"Mas você está com medo," zombou James.
"Não estou."
"Está."
Sirius sorriu maldosamente. "Pelo menos eu não estou sempre perdendo para Snivellus."
Os olhos de James escureceram. Ele apontou para a varinha de Sirius, presa entre dedos embranquecidos. "Estamos fingindo que você vai mesmo usar isso?"
"Não me provoque."
Mas é claro que aquela sempre foi a intenção de James. Ele empurrou o ombro de Sirius. "Assim?" instigou e em seguida empurrou novamente.
Encontrar James e Sirius não foi grande desafio para Lily e Marlene, assim que saíram para o Beco Diagonal. Alguns espectadores tinham se reunido, e alguém gritou o inspirador e atemporal anúncio de "Briga!" para chamar a atenção dos outros.
Elas se entreolharam. "Eu te disse que era uma boa ideia," comentou a ruiva.
"Não seja tonta," respondeu a outra, e as duas correram em direção à pequena reunião.
Com as varinhas descartadas e esquecidas, James e Sirius estavam basicamente apenas rolando na sujeira da rua de paralelepípedos, mas batendo um no outro como podiam. Ambos sangravam.
"Garotos!" gritou Marlene, já que ninguém mais parecia estar fazendo muita coisa para melhorar a situação. Eles a ignoraram, ainda batendo um no outro, e a loira sacou a varinha.
Lily, no entanto, foi mais rápida. Assim que James assumiu uma posição dominante e levantou o punho para golpear Sirius, a ruiva deu um passo adiante e agarrou seu braço levantado, puxando-o para longe com toda sua força. Ela não tinha intenção de puxá-lo, já que ele era bem maior do que ela, mas impediu aquele golpe, fazendo-o se virar para este novo e terceiro elemento.
"Vá se foder, cara..." ele começou a dizer, mas parou, vendo quem era. Lily ergueu as sobrancelhas e continuou a puxar o braço dele. Assim, Sirius se libertou e sentou-se com uma mão no lábio ensanguentado, enquanto James ficou de pé. "Isso não é da sua conta," disse ele, com menos violência, mas não menos sério.
"Vocês dois são patéticos," retrucou Lily. "Mais três pessoas morreram esta manhã e vocês dois estão aqui lutando como duas crianças de cinco anos!"
"Isso não lhe diz respeito, Lily," repetiu James com firmeza. Ambos notaram que ela ainda segurava o braço dele, e ele puxou o braço na mesma hora em que ela o soltou, alarmada.
"É claro que me diz respeito," respondeu ela. Sirius também se levantou, e com um olhar final e sombrio para o outro, virou-se e caminhou de volta para seu apartamento. James partiu na direção oposta, murmurando baixinho. Lily virou-se para Marlene, que revirou os olhos.
"Vou acompanhar James, você acompanha Sirius," disse Marlene, suspirando. Lily assentiu e foi atrás do antigo Maroto, enquanto Marlene ia atrás de James.
A ruiva alcançou Sirius próximo ao boticário, e, nesse instante, ela viu que ele estava um caos.
"Você devia ter deixado a gente lutar," disse ele, inclinando-se contra a lateral da loja, enquanto Lily conjurava um pano úmido para limpar seu rosto. "Nós dois merecemos isso."
Lily revirou os olhos. "O que aconteceu?"
Sirius apenas deu de ombros e pegou a toalha que lhe foi oferecida. "Ele queria lutar, suponho, então nós lutamos."
"O que ele disse? Merlin, seu olho está inchado... aqui..." Ela cuidou do crescente círculo escuro em torno dos olhos do rapaz, e ele esperou ela terminar para falar. "Bem?"
"Ele disse que me odiava."
Genuinamente surpresa com isso, os olhos de Lily se arregalaram. "Ele disse isso? Exatamente assim?"
Sirius sorriu melancolicamente. "Não," respondeu, balançando a cabeça. "Não, não foi assim. Mas, mesmo assim, ele disse isso."
"Eu não sei o que isso significa."
"Significa que..." Sirius procurou a melhor maneira de falar, "significa que eu e ele nos conhecemos bem demais para simplesmente... lutar. Há certas... linhas que não se deve cruzar, e há certos assuntos nos quais não se deve tocar... coisas que não se pode dizer, e se você fizer isso, então... não dá para voltar atrás."
Lily franziu a testa. "E essa coisa... ele disse a você?"
Sirius confirmou com a cabeça. "E eu também disse a ele."
"Ah."
Eles ficaram em silêncio por um minuto, e então Sirius acrescentou em tom de ironia e diversão: "Você não vai me perguntar o que dissemos?"
"Por favor." Lily olhou para longe, esperando que ele não notasse sua evidente curiosidade. "Isso não é da minha conta."
Sirius removeu o pano do rosto e encarou as mãos, debatendo algo internamente, sem dúvida. "Talvez não," disse finalmente. "É melhor eu entrar," acrescentou, meneando a cabeça em direção ao andar superior do edifício, onde ficava seu apartamento. "Eu quero tomar um banho antes de ir trabalhar."
"O.K."
Sirius passou pela porta. "Tchau, Lily."
Lily acenou, mas o chamou antes de ele desaparecer. "Ele vai cair em si," disse ela com sinceridade, e percebeu que estava tentando convencer a Sirius assim como a si mesma. O bruxo sacudiu a cabeça.
"Eu acho que não."
A expressão dele, pouco antes de partir, estava sombria e cansada. Havia linhas de expressão que Lilly jamais notara, e seus olhos cinzentos tinham envelhecido.
Marlene, por sua vez, alcançou James enquanto ele deslizava por um beco escuro, depois de Florean Fortescue. Levou um instante para a loira perceber exatamente onde ele estava indo, e ela acelerou, agarrando seu braço para detê-lo.
"Travessa do Tranco, Potter? Sério?" Soltando seu braço, Marlene cruzou os dela. James pareceu surpreso ao vê-la ali, e ela pensou saber o porquê. "Você esperava ser Lily."
James ignorou a declaração, e, em vez disso, respondeu: "Aqui tem um bar que eu gosto. É melhor você ir embora, Price."
"Seu nariz está sangrando," apontou Marlene.
"Eu posso dar conta disso."
"Eu também posso." E antes que ele pudesse protestar, ela desviou os olhos, e ele sentiu seu nariz estalar, como que encaixando de volta no lugar.
"Ei, nada mau, Price."
"Eu sou uma bruxa com muitos talentos," respondeu Marlene secamente.
James deslizou as mãos nos bolsos e apoiou as costas contra a parede exterior do edifício mais próximo – uma loja sinistra e mal iluminada, com um cartaz na vitrine que dizia "Olhos de aranha, a dúzia".
"O que você está fazendo aqui?" perguntou ele. "Eu prometo que não vou me envolver em nenhuma briga, caso isso ajude."
"Eu ainda nem sequer entendo do que se trata tudo isso," queixou-se Marlene.
"Você não precisa saber," murmurou James. "Basta saber que Black é um idiota, e que eu não vou aceitar isso."
"Ah," disse Marlene. "Que legal."
James olhou feio para ela.
"Bem, o que esperava que eu dissesse?"
"Eu pensei que você poderia demonstrar alguma sabedoria profunda, considerando que me seguiu até aqui por alguma razão..."
"Ah. Bem..." Marlene pensou por um momento. "Eu acho que estou apaixonada," disse ela, por fim. James a encarou. "Eu acho... acho mesmo. Pela primeira vez. E, sabe... Acho que estive apaixonada o tempo todo, só que não percebi, até... recentemente." O outro continuou a olhar para a bruxa como se ela estivesse louca, e, encarando-o, Marlene sorriu. "Quê? Você tem permissão para desabafar seus dilemas emocionais mesquinhos em momentos como estes, mas eu não?"
James deu de ombros. "McKinnon?"
Marlene não respondeu com exatidão, mas não negou, o que consistiu em uma afirmação. "Você é a primeira pessoa a quem eu admiti isso," continuou ela, em vez disso. "Mas acho que todo mundo sabe, de qualquer forma." Ela ostentou uma expressão triste e distante em seu rosto por alguns segundos; em seguida, afastou aquilo e continuou em um tom mais objetivo: "Ele tem namorada agora. Prudence Daly."
James tentou fazer uma careta com o nome: "Ah... aquela indiana bonita da Corvinal?" Marlene amarrou a cara, e James limpou a garganta: "Certo. Ela é... horrível."
Rindo, Marlene sacudiu a cabeça. "Ela não é horrível." A loira suspirou. "Enfim, eu cheguei a uma conclusão aqui, e é isso."
"Bem...?"
"Nem sempre há tempo para fazer as coisas que se quer fazer... para consertar as coisas. E eu não sei o que ele te fez... Sirius, quero dizer. Talvez seja imperdoável, mas, pessoalmente, eu não esperaria para descobrir. "
"Não é uma questão de tempo, Marlene."
"É claro que é. É tudo uma questão de tempo. Quero dizer... você honestamente acredita que nunca mais quer ser amigo de Sirius de novo?"
"Não, eu..."
"E," continuou ela, "você acha que ele vai ficar sentado esperando você cair em si? Em algum momento, ele vai deixar de lamentar e vai começar a culpar você tanto quanto você o está culpando, e então realmente será tarde demais." Marlene suspirou e afastou uma mecha de cabelo que caíra do seu rabo de cavalo. "As pessoas não esperam para sempre, James. Elas simplesmente não esperam."
Marlene se foi pouco depois disso, e ele ficou sozinho na rua mal iluminada. Tão deserta quanto o Beco Diagonal certamente estava, a Travessa do Tranco não estava tão movimentada naquela tarde.
"Sirius está bem, caso queira saber."
Desta vez, era Lily, e havia frieza o suficiente em sua voz para fazer James erguer os olhos para ela. Em algum ponto entre o momento em que ela o afastou de Sirius e agora, a bruxa prendera o cabelo em um rabo de cavalo baixo, que estava jogado por cima de seu ombro direito. Os fios de cabelo emoldurando seu rosto agarravam-se à sua testa, e suas bochechas estavam vermelhas do calor do dia. Além disso, ela não parecia particularmente satisfeita com ele, com as mãos nos quadris, presas à saia violeta de algodão que usava. A saia violeta que ficava na metade de sua coxa, e...
James sacudiu-se.
Garotas eram tão moralistas.
"Eu não estou interessado nisso," retrucou ele.
"Certo," disse Lily sarcasticamente. "Porque você o odeia agora."
James suspirou. "Eu pensei que você não estivesse tomando partido."
"Não estou tomando partido."
"Eu pensei que você não fosse me dizer quando perdoá-lo."
"Não estou dizendo." Lily se remexeu e cruzou os braços sobre o peito. "Mas agora eu estou, porque… porque isso é simplesmente estúpido."
"Entendo," murmurou ele. "Então, você não aguenta mais o drama, é isso? Só porque Remus não se importa mais não significa que eu estou pronto para simplesmente seguir com..."
"Ah, bobagem..."
"Quê?"
"Eu disse bobagem! Isso é um absurdo, e você sabe disso!"
"Por que você se importa tanto?" indagou James, irritado.
"Porque, seu idiota..." Ela sacou a varinha e, por um segundo, James tolamente achou que a ruiva queria azará-lo. Em vez disso, ela a sacudiu uma vez, e um pedaço de pano branco apareceu na ponta. Era uma toalha molhada e fresca, que ela lhe entregou, provavelmente para a sujeira e o sangue que começavam a endurecer em seu rosto. "...Porque, por algum motivo estúpido, eu acabei me importando com vocês dois, e eu não quero que você..."
"Perca minha chance?" concluiu James por ela. "Merlin, você parece Marlene."
"Bom, é verdade. Ah, me dê isso aqui..." Ela pegou o pano que James não estava utilizando e começou a limpar seu rosto com força. Ele resistiu, fazendo careta, mas Lily não lhe deu atenção. "Eu juro que você parece ter três anos de idade às vezes."
"Valeu, mamãe," replicou James quando ela finalmente acabara, mas ele teve que admitir que o pano fresco em seu rosto promoveu uma melhora significativa. Enrolando o pano no punho, Lily endireitou os óculos dele e então deu um passo para trás, como que inspecionando seu trabalho.
"Pelo menos você parece um pouco humano," comentou ela. "Agora, se ao menos pudesse começar a agir como um."
"De onde veio toda essa hostilidade, afinal?" questionou ele.
Lily zombou. "Sério, Potter, escondendo-se na Travessa do Tranco, arranjando briga... e Sirius é o seu melhor..."
"Black era o meu melhor amigo..."
"...e vocês estão sendo ridículos com essa coisa toda, como se sempre fosse haver tempo para consertar as coisas."
"... então, eu seria amigo de um aspirante a assassino..."
"...quando, na verdade, se os últimos dias provaram alguma coisa, é que não há tempo..."
"...de novo essa coisa de tempo..."
"...todo mundo já foi visitá-lo, por que você não pode ir...?"
"...então, eu tenho que perdoar e esquecer porque todo mundo fez isso...?"
"...se você tivesse alguma noção, engoliria o maldito orgulho e diria o que quer dizer!"
"Que é o quê, exatamente?"
"Que você sente muito!"
Ela quase gritara isso, e James a encarou, surpreso. "Como é que é? Eu sinto muito?"
"Sim," disse Lily com seriedade. "Você se sente culpado pelo que poderia ter acontecido a Snape, porque sabe que não foi só Sirius. Para ele era apenas mais uma brincadeira, e você sente que a razão de ele pensar assim é porque ao longo de todos esses anos vocês deram desculpas e agiram como se o que vocês faziam com os outros – com Snape ou com qualquer um – não importasse... e foi por isso que ele não viu diferença... não ocorreu a ele que era diferente de... inflar a cabeça de Bertram Aubrey ou fazer o cabelo de Kevin Sherbatsky desaparecer... ou qualquer coisa do tipo! Você sempre disse – a mim e a todos – que era apenas brincadeira, que não faziam nada de errado, e então Sirius foi e fez isso, e você se sente culpado!"
"Então, a culpa é minha, não é?"
"Não!" gritou Lily. "Não é isso que estou dizendo! Você ao menos está me ouvindo? Eu estou dizendo que não é culpa sua, e que você precisa entender que Sirius cometeu um erro estúpido e horrível, mas que isso não significa que você seja uma pessoa terrível! "
A princípio, a garota pensou que James ia discutir, mas as palavras pareceram morrer em seus lábios, e ele vacilou. "Eu poderia ter impedido," disse ele inesperadamente. Lily suspirou.
"Você impediu."
"Não, eu não impedi." James balançou a cabeça. "Eu não estava... eu não estava completamente errado sobre Sirius desde o começo... mas estava errado o suficiente para não prever que isso aconteceria."
"Ele só quer que você o perdoe," Lily viu-se suplicando. "Todo mundo já perdoou."
James encarou os pés. "Eu não posso."
Lily bufou. "Idiota teimoso." Ele se encolheu com o insulto.
"Pretensiosa."
Ela fez uma careta, então empurrou o cabelo suado para trás. "Está quente aqui fora," reclamou. "Estou indo." Antes de ir embora, no entanto, ela tornou a murmurar: "Idiota".
"Pretensiosa," respondeu ele, ressentido. Em seguida, Lily deslizou até a saída para o Beco Diagonal e desapareceu.
Estava quase na hora do jantar quando Lily voltou para casa e a ruiva a encontrou em um estado de caos. Pouco antes de ela fechar a porta ao passar, a Sra. Evans se aproximou furiosamente.
"O que significa isso que eu ouvi, sobre você não participar do casamento?" bradou a mãe. "Ontem estava tudo bem, agora você não está no casamento, e Tuney foi pegar Rachel Richards para que ela prove o seu vestido, e..."
"Mãe, por favor," suspirou Lily, "deixe-me recuperar o fôlego antes de falarmos disso."
"Bobagem! Você disse que ia almoçar com Marlene, agora são praticamente cinco horas, e não me diz nada..."
"Mãe, eu..." Mas estava quente demais para discutir, e tudo (a guerra, Petunia, James e Sirius, o casamento, e tudo o mais...) estava se acumulando muito depressa para Lily, de modo que antes que tivesse qualquer ideia de que isso estava acontecendo, havia lágrimas ardendo em seus olhos, e tudo que ela queria era subir na cama, esconder o rosto embaixo das cobertas e nunca mais pensar, falar ou se mover novamente...
A expressão da Sra. Evans suavizou de imediato. "Ah, Lily," sussurrou ela. A mãe a puxou para perto, os braços ao redor da filha mais nova, e Lily começou a chorar.
(Sexta-feira)
A primeira coisa que Donna Shacklebolt fez na manhã de sexta-feira foi ligar a rádio. Ela estava – ou pensava estar – preparada para o pior, mas ao final a notícia não foi menos preocupante.
A nova exigência tinha sido entregue, desta vez ao Profeta Diário. Um repórter tinha sido morto, e o Lorde das Trevas agora exigia que qualquer Comensal da Morte preso ou detido fosse imediatamente liberado e condecorado. A bruxa que transmitiu a mensagem pela RRB não parecia surpresa, mas havia urgência em sua voz, e ela sabia o que Donna pensava que todos deviam saber no momento – que aquilo tinha que parar... que se continuasse assim... bom, enfim, não devia continuar.
Donna saiu da cama e começou a se vestir quando houve uma batida na porta de seu quarto. Ela abotoou a blusa às pressas e foi atender. Era Kingsley.
"Eu estou indo para o trabalho, as crianças estão dormindo, mas Audrey logo chegará."
Audrey McKinnon – a irmã mais velha de Adam – era a mais recente contratada para ajudar na casa dos Shacklebolt.
"Eu pensei que você fosse ficar em casa hoje," protestou Donna. "Eu tenho que trabalhar de manhã, e..."
"Eu não posso simplesmente não ir, estamos desfalcados..."
"Estamos desfalcados aqui, também, Kingsley!"
"Bem, então por que você não fica em casa?"
"Porque tenho salário, e nós precisamos do dinh..."
"Nós não precisamos do dinheiro, estamos bem."
Donna amarrou a cara. "Só se você não estiver contando com a ida de Isaiah a Hogwarts no próximo ano... do que nossos pais deixaram, só há o suficiente para cobrir Bridge e meu ano letivo este ano, e estou supondo que o restante de vocês gostaria de comer... "
"Então, vá para o trabalho," retrucou Kingsley. "Audrey está vindo."
"Kingsley."
"Quê?"
Ela suspirou, esfregando os olhos devido ao sono. "Brice e Isaiah precisam de você aqui... Não sou boa com eles… não para esse tipo de coisa."
Kingsley colocou uma de suas mãos grandes e pesadas no ombro da irmã. "Você só pensa que não é. Eles te adoram."
"Kings..."
"Eu vou voltar mais cedo," prometeu. "Desta vez é sério."
Não havia sentido em discutir com ele, Donna sabia, e assim ela apenas assentiu. "O.K."
"Te vejo à noite."
"Tchau."
Donna tomou café da manhã às oito horas – nada luxuoso, apenas chá, ovos e torradas – e então subiu para buscar Brice, seu irmão mais novo; mas Bridget, sua irmã, já estava lá vestindo o garoto de seis anos e conversando com ele sobre os planos para aquele dia.
"Você vai trabalhar hoje?" perguntou Bridget, quando a mais velha entrou no quarto.
Donna assentiu. "Mas volto para casa mais cedo. E Kings também."
"É o que ele diz," disse Bridget com um sorriso inteligente. "Vamos escovar os dentes, Brice."
"Podemos deixar a escova de dente escovar?" perguntou Brice em sua voz estridente, e a irmã assentiu, rindo. Donna, dominada pela curiosidade, seguiu os dois até o banheiro, onde a mais nova sacou a varinha recém-adquirida e sacudiu-a uma vez na direção da escova de dente azul do irmão. Imediatamente, ela saltou no ar, levitando obedientemente diante de Bridget enquanto ela aplicava creme dental. Em seguida, a escova voou para a boca de Brice e, com uma precisão surpreendente, começou a esfregar seus dentes.
"Onde foi que você aprendeu a fazer isso, Bridget Cecelia Shacklebolt?" questionou Donna. "Sabe, eu não teria comprado essa varinha para você tão cedo, se soubesse que você violaria a lei."
"Audrey me ensinou, e ninguém liga com um pouco de magia realizada por menores em famílias bruxas," desconsiderou Bridget sabiamente. A escova prosseguiu trabalhando nos dentes de Brice, e Donna, observando a irmã mais nova supervisionar a cena com tamanha calma, não pôde deixar de refletir que Bridget era muito melhor nesse tipo de coisa do que ela algum diapoderia esperar ser. Não era apenas sua maneira de lidar com Brice (bem como com Isaiah), mas sua inteligência em geral... o jeito que se comunicava, a graça com a qual agia... ela era muito mais inteligente do que Donna fora aos onze anos de idade... e provavelmente mais inteligente do que ela agora, com dezessete anos...
"Cuspa, por favor," pediu Bridget, e enquanto Brice obedecia, ela enxaguou a escova de dentes e recolocou-a no copo.
Brice, como Donna, tinha o cabelo espesso e cacheado, então Bridget sequer tentou domá-lo, mas colocou um pouco de água nas mãos e em seguida passou-as pelos cachos negros. "Você estará aqui para o jantar, não é, Donna?"
"Sim."
"E quando vamos comprar o restante do meu material escolar?"
"Não até sua carta chegar, Bridge."
"E você tem certeza que...?"
"Pelo amor de Agripa, Bridge, você já está enfeitiçando escovas de dente; é claro que vai receber a carta."
"Eu quero uma carta também!" insistiu Brice, e Bridget beijou sua bochecha.
"Não até você completar onze anos, Sr. Brice. E você terá a Senhorita Flowers na escola primária enquanto isso." Sorrindo, a menina acrescentou para Donna em um sussurro: "Ele gosta dela." Então, ela pegou a mão dele, ajudou-o a descer do banquinho que usou para alcançar a pia, e caminhou com o menino até a cozinha. Donna os seguiu.
"Por respeito ao correspondente assassinado, Cary Young, O Profeta Diário decidiu não transmitir a mensagem do Lorde das Trevas que foi entregue esta manhã," disse o locutor na RRB, sua voz extremamente solene. "No entanto, temos aqui conosco esta manhã uma das colegas de trabalho de Young, a escritora e correspondente especial do Profeta Diário, Dorthea Grey. Senhorita Grey..."
"Obrigada, Malcolm."
"Claro... Eu só gostaria que as circunstâncias de nossa conversa hoje fossem menos... trágicas..."
"Todos no jornal estão devastados... Cary era muito querido lá..."
"Claro, claro. Um repórter inovador também..."
"Sem dúvida..."
"Senhorita Grey, você estava na sala quando o Sr. Young entrou esta manhã...?"
"Sim, estava."
"Você pode nos dizer o que aconteceu?"
"Bem..." hesitação: "Bem, Cary entrou na sala de notícias... logo cedo, por volta das sete... já havia muitos de nós lá dentro, é claro, porque estávamos esperando para saber se... torcendo, é claro, que não tivesse acontecido outro ataque, mas esperando para descobrir... e então Cary entrou. Ele não falou comigo, mas falou com Mitchell, Mitchell Letterer, que senta mais à frente, escreve críticas, e eu não sei o que ele disse a Mitch exatamente, mas sei que disse que tinha uma mensagem para ser impressa no Profeta naquela manhã... e, então, Mitch tentou tirá-lo do estupor, e nós todos notamos a agitação... Jillian, Jillian Jones, uma das redatoras, tentou encontrar a varinha, esperando que pudesse detê-lo, mas tudo aconteceu rápido demais... "
A voz de Dorthea Grey falhou, e o entrevistador, Malcolm, deu-lhe um momento para se recompor.
"... pouco... pouco antes de acontecer, Cary entregou a Mitchell uma carta para ser publicada, e era exatamente a mesma mensagem, a mesma exigência..."
"E foi isso que O Profeta se recusou a publicar...?"
"Sim, ela já foi entregue ao Ministério para exame..."
De onde estava, sentada em sua penteadeira, Mary desligou a rádio e estremeceu, sentindo muito frio repentinamente, apesar do calor tirânico e úmido. Ela olhou para o espelho, seu rosto cansado e natural a encarando de volta. Seus olhos pareciam menores sem o delineador, o rímel e o brilho; sua pele estava pálida e com imperfeições. Mary não gostava de se olhar quando estava assim, embora fizesse parte de sua rotina matinal, é claro. Ela olhou para o espelho sobre a pia, encontrou todas as imperfeições que a irritavam, e, em seguida, lavou, esfregou o rosto e aplicou Bubotuber Blast, um mistura cor-de-rosa e fedida que fazia maravilhas em sua pele, antes de secá-lo e começar a maquiagem.
Com os cosméticos, ela era uma artista – mais para Ticiano do que Leonardo. Era um movimento orgânico. Onde era necessário cor, ela aplicava – nem sempre o tom esperado, mas sempre vívido e visível. Sua mãe sempre dizia que ela ficava linda sem tudo isso, mas a garota tinha uma tia que uma vez lhe disse que ela parecia "menos simples" com os olhos maquiados, e, de qualquer maneira, ela adorava se maquiar. Amava a transformação, o processo e as cores, e não gostava de como estava agora, sem eles.
A simples, precária e comum Mary Macdonald.
Simplesmente não era ela.
Assim, desconsiderando a dúvida momentânea, Mary pegou o primeiro tubo e começou a se pintar.
Quando terminou, deixou o quarto e, com um "adeus" casual para a mãe, saiu pelo corredor, desceu as escadas e foi em direção à familiar porta do número 12, onde Marlene morava.
"Oi, Mare," cumprimentou a amiga, ao abrir a porta. "Eu pensei que você estivesse com Stebbins hoje."
Mary deu de ombros. "Eu só... Eu estava com vontade de ficar com você hoje..."
Marlene parecia entender. Ela assentiu com a cabeça. "Está muito quente para sair," concordou a loira, afastando-se para a amiga entrar no apartamento. "Vamos ficar aqui."
Ele não era o mais inteligente, pensou James. Ah, claro, era bastante inteligente, mas, na verdade, a inteligência vinha com muito mais facilidade quando todos os professores esperavam isso de um cara. O truque era fazê-los pensar isso de você, e James tinha uma vantagem – a vantagem de crescer em uma casa grande e vazia: uma casa grande e vazia com um monte de livros, e apenas bruxos mais sábios e mais velhos como amigos.
Ele não tinha ciência da solidão antes de Hogwarts, e o tédio virou um hábito. Sua mãe tentava ficar bastante em casa, mas isso nem sempre funcionara, e nem todos os elfos domésticos eram companhias agradáveis. Então, James aprendeu a ler bem cedo, e começou na seção de Feitiços na biblioteca dos Potter. De lá, ele foi para as maldições e transfigurações; teoria mágica era interessante, mas história o entediava, assim como poções. Gostava dos livros com criaturas mágicas. Mas seu assunto favorito sempre foi quadribol.
E assim, quando James foi para Hogwarts, ele tinha mais conhecimento do que a maioria dos outros primeiranistas. Ele conquistou essa reputação, e uma reputação de ser inteligente, juntamente com uma boa memória, era tudo o que era necessário, pensou ele, para ter sucesso em Hogwarts.
Era estranho pensar, meditou o jovem, que esses mesmos volumes dos quais agora tirava o pó e examinava outrora pareceram tão avançados, tão complexos, para ele. O rapaz sorriu para um livro de história... quando comprou sua varinha, ele o levitara, atingindo a cabeça de sua mãe... por acidente, é claro.
E ali estava um livro de feitiços que uma vez devorara avidamente, até que percebeu, com tristeza, que levaria séculos e séculos até que fosse capaz de realizar aquele tipo de magia (na realidade, levou cerca de seis meses). Também havia um livro chamado Ética Mágica, Volume Um, de Stokstad, que mal entendera e principalmente ignorara, exceto o capítulo sobre os Inferi.
Foi fundamentalmente isso que James selecionou naquela manhã, pois terminou as palavras cruzadas d'O Profeta e não ligou muito de ler as manchetes. Já sabia o que diziam. Sua mãe e seu pai tinham corrido para o escritório mais uma vez, tão cedo que o rapaz não estava acordado quando a Sra. Potter adentrou seu quarto para se despedir e dizer-lhe que o café estava pronto.
James sentou-se no sofá mais próximo e abriu a primeira página do grande livro que escolheu. Ouvira muitas vezes a queixa de que a Sala Comunal da Grifinória era barulhenta demais para se fazer os deveres de casa, mas ele achava o silêncio que chegava a ecoar de sua casa enorme e vazia pior.
Ele não estava se sentindo sozinho. Não estava.
Era só que – bem, manhãs como aquela... com o assassinato daquele repórter e uma nova exigência de Voldemort... eram do tipo que se preferia passar com alguém. Seria bom ter sua mãe ou seu pai por perto, só isso.
É claro que eles estavam ocupados, e James não podia se opor às responsabilidades deles... ocorreu-lhe que ele poderia ter sido mais feliz se eles fossem bruxos normais de sua idade... aposentando-se de forma tranquila, pacífica e segura.
Estúpido.
Muito estúpido.
Ele estava bem.
A porta do pequeno escritório se abriu e por ela entrou um bruxo de vestes negras. Ele olhou para James. "Tudo bem, Sr. Potter?"
Era o auror situado na casa para a segurança deles desde o primeiro incidente na segunda-feira. James tinha esquecido dele; o homem ficava praticamente invisível a maior parte do tempo.
"Tudo bem," assegurou James. O bruxo – Chesky – assentiu e desapareceu pela porta novamente.
Sério, James estava bem.
Ele virou a página de Ética Mágica e começou o primeiro capítulo.
Foi por volta das três horas, no início da última hora do turno de Donna, que Lathe entrou no Caldeirão Furado pedindo seu típico "Firewhiskey puro," sentando-se na extremidade do bar.
"Chegou um pouco cedo, não?" comentou ela, mais para ser desagradável do que qualquer outra coisa.
"O que mais eu tenho para fazer?" respondeu ele, impassível. Mas o auror não tomou a bebida de uma vez. Além do sempre presente Pip e uma bruxa da estalagem, o estabelecimento estava vazio. Ninguém queria sair de casa hoje.
Donna sentou-se em seu banquinho de costume atrás do bar, encolhendo os ombros. "Não sei... você não tem família? Parece ser o que todo mundo está fazendo esta semana... ficando quieto até isso tudo parar..."
"Essa foi a última exigência," disse Lathe com uma confiança inesperada, e Donna levantou as sobrancelhas.
"Como você sabe disso?"
"Foi o que ele disse. O cara... Young. Todas as outras mensagens tinham alguma... advertência sobre mensagens futuras, mas esta não."
"Como você sabe disso?" repetiu Donna. "O Profeta não publicou as palavras exatas, e eu pensei que você estivesse suspenso do Ministério."
"Estou. Porém ainda tenho amigos lá."
"Ah."
Lathe terminou o uísque, e Donna não esperou para reabastecer. "Como é que sabe que eu ainda não parei?" ele brincou, e Donna apenas revirou os olhos. "É justo."
"Quando é que você volta a trabalhar?" perguntou a garota. "Você não tem ideia de quando revogarão a suspensão?"
"Não," respondeu o auror com simplicidade, mas Donna achou que ele parecia um pouco mais incomodado com isso do que deixou transparecer. Ela imaginou como seria se Kingsley fosse suspenso por alguma coisa, e em seguida meio que desejou que acontecesse. Quando proferiu isso, no entanto, Lathe riu com gosto. "Você tem noção de que não somos pagos durante a suspensão, certo?"
"Bem, eu não quero que ele seja suspenso por semanas, como você... sem ofensa..."
"Tranquilo."
"...só por alguns dias. Um fim de semana, quem sabe."
Lathe tornou a rir.
"Eu só acho que teria sido bom para os meus irmãos ter algum parente com eles essa semana," defendeu-se Donna, cruzando os braços. "Isso é o que todo mundo parece estar fazendo, afinal..."
"E você? Certamente Tom te liberaria pela manhã?"
Donna deu de ombros. "Mas acontece que eu gosto de receber salário. Me diz uma coisa... se você for demitido, acha que eles darão um aumento a Kingsley?"
Lathe arqueou as sobrancelhas, e Donna percebeu que suas palavras poderiam ter soado de forma errada.
"Insensível?" sugeriu ela.
"Só um pouco."
Pip, na extremidade oposta do bar, pediu outra cerveja, e Donna ficou temporariamente ocupada com isso, mas ela voltou para a extremidade do bar na qual Lathe estava após atender o outro. "Há quanto tempo você é auror?" indagou a garota.
"Há três anos," respondeu Lathe. "E houve três anos de treinamento antes disso." Donna acenou com a cabeça, pensativa; ela debateu se deveria ou não fazer a pergunta que despertou sua curiosidade, mas decidiu não fazer, e Lathe acabou respondendo o que ela queria saber: "Eu o conhecia um pouco"
"Quem?"
"Seu pai. Você estava fazendo as contas, não estava?"
"Não."
Lathe deu de ombros. "De qualquer forma, eu passei parte do meu último ano de treinamento trabalhando com ele."
Donna de repente desejou que estivessem falando de outra coisa. Falar sobre seus pais não era muito doloroso ou algo do tipo – o passado era passado e tudo mais –, mas falar de seu pai sempre trazia o desconfortável lembrete de que Kingsley estava basicamente na mesma situação que ele estivera quando...
"Quantos anos você tinha?" Lathe perguntou de repente.
"Quatorze."
Ele assentiu. "Você provavelmente não quer ouvir isso, mas... ele era um auror brilhante, seu pai. E seu irmão é muito ativo também."
Não, ela não queria ouvir aquilo.
"Sim, meus pais eram verdadeiros heróis," murmurou Donna com sarcasmo. Lathe parecia um pouco surpreso, e ela acrescentou: "Eu não vou romantizá-los porque estão mortos. Meu pai não deveria... ele não deveria ter falado daquele jeito contra..." ela parou de falar.
"Voldemort," completou Lathe, e ela concordou com a cabeça.
"Eu acho que eles defenderam o que acreditavam," continuou ela sombriamente, "mas isso rendeu-lhes a morte. E se tivessem mantido as cabeças baixas, eu não passaria quase todos os dias das minhas férias de verão trabalhando em um maldito bar, e meu irmão não estaria trabalhando como um escravo para o Ministério só para garantir que tenhamos recursos para pagar a escola, Brice teria reais lembranças dos pais, Isaiah não teria sido expulso da escola primária duas vezes, e Bridget não teria que bancar a mãe deles." Donna não sabia de onde isso estava vindo, mas antes que pudesse evitar, o restante foi despejado: "As pessoas podem me dizer que meus pais foram grandes bruxos, que morreram honrosamente e que eu deveria sentir orgulho, mas a verdade é que... eles tinham obrigação com as cinco pessoas que trouxeram ao mundo, e eles não cumpriram essa obrigação por serem corajosos." Com amargura: "Perdoe-me se eu não fico terrivelmente entusiasmada por meu irmão ser um brilhante auror, eu prefiro que ele seja apenas um bruxo vivo neste momento."
Lathe não parecia nem chocado nem horrorizado com a confissão de Donna, e isso a incomodou um pouco. "Eu disse que Shacklebolt é um auror ativo," informou-lhe o bruxo calmamente, "mas ele é inteligente também. Não se envolve em problema no que tange à política."
"Ele ainda coloca a vida em risco," apontou Donna.
"A vida dele já estava em risco... a vida de todos vocês está, por conta de seus pais."
"Ah, os heróis."
Lathe deu de ombros. "Talvez você tenha razão. Talvez tenha sido errado seu pai se expressar daquela forma, mas... eu acho que ele fez isso porque ... achou que vocês estariam mais seguros em um mundo completamente livre de Voldemort e dos Comensais da Morte, e se tivesse a chance de ajudar a conseguir isso, teria que aproveitá-la. "
"Mas ele não conseguiu."
"Não," admitiu Lathe; ele não sugeriu nenhuma visão positiva ou explicação, embora Donna meio que tenha esperado isso. O auror apenas tomou outro gole de firewhiskey.
Donna se levantou, pegou um copo limpo e o poliu lentamente com um pano. "E você?" perguntou. "É por isso que você é um auror? Para proteger alguém?"
Lathe não respondeu de imediato, e quando o fez foi evasivo. "Eu não tenho nenhum parente," disse ele.
"Nenhum?"
"Bem... tecnicamente tenho pais, mas eles são trouxas e pensam que eu estou morto."
"Eles… quê?"
"É... melhor para todos que os meus pais tenham a falsa impressão de que eu estou morto," disse Lathe, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Donna suspirou incrédula.
"Você é maluco," disse a garota. "Mais estranho do que eu."
"Bom, isso é bem grosseiro."
Donna se inclinou sobre o bar, a pouca distância do auror. "O que acontece com alguém em suspensão?" perguntou, curiosa. "Quero dizer, você já esteve aqui duas ou três vezes essa semana, e isso só no meu turno. Eu sei que também esteve aqui quando Tom e Black estavam. Você só... fica sentado bebendo?"
"Basicamente," disse Lathe alegremente. Donna fez uma careta, e ele se defendeu: "Eu não posso beber no horário de trabalho, e estou sempre no horário de trabalho. Devo ao menos poder desfrutar dos benefícios disso de alguma maneira"
"Mas você não tem que... sei lá... provar sua inocência ou algo assim?"
"Mas eu não sou inocente," respondeu Lathe calmamente. Ele terminou o firewhiskey, fez uma careta, e gesticulou pedindo outro.
"Você vai ficar bêbado," advertiu Donna. Enquanto servia a bebida, ela se apoiou, as palmas das mãos contra a bancada do bar, e balançou a cabeça. "Eu não te entendo de forma alguma."
Lathe tomou um longo gole. "Eles estão me investigando por matar um Comensal da Morte; eu matei um Comensal da Morte. Não há muito que eu possa fazer quanto a provar minha inocência."
Isso (e um pouco mais) Donna sabia dos jornais e de sua ligação com Lily. "Logan Harper?" perguntou, e Lathe quase assustou-se ao som do nome. Ele assentiu.
"Mas ele era um Comensal da Morte. Eu não entendo."
"Melhor não tentar entender o Ministério da Magia, Mini Shacklebolt. Nem o Ministério entende o Ministério."
Donna revirou os olhos. "Mas se você o matou mesmo e é por isso que está encrencado, por que sequer estão investigando? Por que simplesmente não te demitem?"
Lathe suspirou, irritado; claramente não era algo que ele queria discutir – com a garçonete irmã de um colega de trabalho muito menos –, mas Donna realmente não se importava. Ela esperou ansiosamente por uma resposta... se tinha que ouvir as histórias de vida dos clientes dia após dia, poderia muito bem obter algumas respostas que realmente queria. "Eles pensam," continuou Lathe, "que eu o matei por ele ser um puro-sangue. Que ele poderia ter sido salvo. Preso. Processado, e o restante."
A pergunta pairou no ar por alguns segundos antes de Donna perguntar: "Poderia?"
Lathe baixou o olhar para o firewhiskey. "Veremos, suponho." Ele engoliu o restante da bebida e começou a se levantar. "Tudo bem, então... que tal uma para a viagem?" Ele bateu no copo vazio com o anel em seu dedo mindinho. Donna abriu o Ogden, enquanto Lathe separava o dinheiro da conta. Ele bebeu o uísque depressa e em seguida, com um aceno rápido para a garota, rumou em direção à entrada do Beco Diagonal. Mas ele hesitou perto da porta. "Escute..." começou o auror, "eu não... quero dizer, eu não pegaria muito... quero dizer, não pegaria muito no pé do seu irmão estes dias... não é da minha conta, eu sei, mas ele só fala em vocês, honestamente, e... Não sei. Ser auror não é a maravilha que dizem ser."
"Então, por que você está tão ansioso para voltar ao trabalho?" questionou Donna.
Lathe deu de ombros. "Quem disse isso? Pouco dinheiro e muito trabalho".
Donna sacudiu a cabeça. "Igual a Kingsley. Eu não entendo, mas vocês todos são tão... obcecados com isso. Merlin sabe que há empregos melhores... mais seguros, mais interessantes, que pagam melhor... mas, por alguma bendita razão, vocês aurores simplesmente não conseguem ficar longe."
Lathe sorriu. "Não é uma má avaliação do negócio, Mini Shacklebolt". Ele virou-se para partir mais uma vez, acrescentando enquanto saía, "te vejo por aí."
Quando o auror se foi, Donna sacou a varinha, limpando o copo que ele usara e levitando-o de volta ao seu lugar de costume na prateleira. Sirius entrou no pub um ou dois minutos depois.
"Chegou cedo," apontou ela.
"O que mais eu tenho para fazer?" retrucou Sirius. "Vi Lathe saindo... ele estava aqui há muito tempo?"
"Não muito. Por quê?"
Sirius deu de ombros. "Por nada... ele tem vindo aqui com frequência essa última semana."
"Acho que sim."
Sirius resfriou a bebida de Pip. "Ele já te contou alguma de suas histórias malucas de auror?"
"Não." Donna sentiu-se muito aborrecida, pois nas conversas deles ela era a que mais falava.
"Ah, bem, você devia perguntar a ele sobre uma no Cairo." Sirius pegou o avental. "Você sabe por que ele está suspenso, não é? Aquela questão dos Harper... A família conseguiu abrir uma investigação, e agora o departamento de aurores está desfalcado... logo agora."
Mas Donna sabia tudo sobre isso.
"Um cara maneiro," continuou Sirius. "Lathe, quero dizer. A família trouxa dele pensa que ele está morto... muito legal, né?"
Donna apenas o encarou. "Homens são tão estranhos."
O Sr. e a Sra. Potter retornaram do Ministério por volta das sete horas na sexta-feira. Ela estava livre há horas, mas ficou por perto para aparatar para casa com o marido. Eles encontraram o filho na biblioteca, absorto nas últimas páginas de um livro espesso.
"Você já comeu?" perguntou a Sra. Potter, sentando-se ao lado do filho, enquanto o Sr. Potter subia para trocar de roupa. "Você está muito pálido, James."
"Eu comi há cerca de uma hora."
"Não chegamos tão tarde esta noite," murmurou a mãe, correndo os dedos carinhosamente por seu cabelo. "Poderíamos fazer uma boquinha juntos, o que acha?"
James pousou o livro. "Claro, mãe."
"Qual é o problema, meu amor?"
"Não há problema algum, eu estou bem."
"O que você está lendo aí...?"
Mas antes que James pudesse responder, o Sr. Potter reapareceu na porta, e sua expressão era sombria. "Com licença..."
A Sra. Potter virou-se para ver o esposo entrar no cômodo, e James percebeu que ela parecia tão confusa quanto ele.
"Há algo que eu gostaria de discutir com vocês dois."
"O que foi, Alex?"
O Sr. Potter sentou-se no sofá diante deles. Ele inclinou-se para a frente, as mãos cruzadas e os cotovelos nas pernas – em uma postura estranhamente desleixada. "Eu tenho... Eu tenho pensado muito esta semana. Não quero fazer nada sem falar com vocês, mas há... há pouquíssima dúvida em minha mente sobre isso ser o melhor... para todos nós..."
"Alex..."
"Por favor," interrompeu o Sr. Potter em um tom de voz suave. "Deixe-me... deixe-me falar." Sua esposa balançou a cabeça lentamente, mas pegou a mão de James, e seu aperto entregou sua ansiedade. "Eu decidi... quero dizer, eu quase decidi que... a coisa mais sensata a fazer é... pedir demissão. Eu decidi renunciar ao cargo de chefe de D.E.L.M."
A Sra. Potter soltou a mão de James, atravessando imediatamente a sala para sentar-se ao lado do marido, o qual ela envolveu em um abraço. Havia lágrimas em seus olhos, mas eram de alegria. Ela queria isso há anos, pensou James, desde que os desaparecimentos começaram e Voldemort tinha assumido a autoria...
Mas James não sabia como se sentia. Seu pai estaria mais presente, com certeza, e não era como se eles precisassem do dinheiro, mas, de alguma forma...
"James?"
A Sra. Potter encostou a cabeça no ombro do Sr. Potter, e este último olhou atentamente para seu único filho, ainda no sofá em frente, com uma expressão ilegível.
"Agora?" James ouviu-se perguntar. "Agora, com tudo isso acontecendo...?"
"Não vai ser de imediato," explicou o Sr. Potter. "Eu vou ficar por pelo menos mais um mês... Mas... a última semana ... Eu não nasci para isso, James. Certamente não agora, com essa idade..."
"E daí? As horas são longas demais?" questionou James, incrédulo.
"Não, não. Não é isso. É... o Ministério... quero dizer, todos merecem alguém que seja capaz de... interromper isso tudo."
"Pai..."
"James, ouça. Esta semana, um homem entrou no meu escritório e se matou... bem na minha frente. Eu não pude detê-lo. E em todas as manhãs desta semana mais mortes, mais exigências, e eu não... Eu não fiz nada."
"Não havia nada que você pudesse fazer."
"Não, não havia," concordou o pai. "Mas alguém pode ser capaz de fazer algo."
"Mas e se houver mais exigências? Você vai simplesmente cair fora agora..."
"Não haverá mais exigências."
"Como você sabe disso?"
O Sr. Potter não respondeu imediatamente. "Há muitas coisas que não entendemos sobre o que aconteceu recentemente, mas... acreditamos que a mensagem de hoje foi a última."
James não se satisfez tão facilmente. "Tudo bem, mas e o que acontece em seguida? Todas as exigências diziam que se o Ministério não obedecesse, haveria repercussões..."
"Haverá," disse o Sr. Potter de forma vazia. "E é por isso que eu tenho que permitir que outra pessoa tente pará-lo... pelo bem de todos, e por minha família..."
"Sua família? Nós? Pai, quem se importa com a gente? Nós estamos bem. Este lugar é uma fortaleza! Ninguém vai nos pegar aqui..."
"E você realmente acredita que estão seguros? A minha posição no Ministério colocou vocês em perigo por anos, e o assassinato de Phillip Stoake foi... bastante pessoal... pela forma que foi executado. Eu não posso mais correr esse risco."
James ficou em silêncio, tentando absorver tudo aquilo. "Eu só... eu não entendo como você pode desistir assim... parar de lutar..."
"Não, James," falou Grace Potter de repente. "Isso não. Jamais." Ela largou o marido, levantou-se e foi se sentar ao lado do filho novamente, tornando a segurar sua mão. "Há outras maneiras de lutar."
Lentamente, James ficou de pé. "Eu... é... Eu vou dar uma caminhada. Só para refletir sobre isso..."
"James..."
"Não, eu não estou chateado," disse ele depressa. "Não estou. Sério. Eu só... Eu preciso pensar um pouco. Respirar um pouco, sabe?"
A Sra. Potter voltou para o lado do esposo. "Não vá muito longe."
James assentiu.
Às oito horas daquela noite, Sirius saiu para fumar um cigarro em seus quinze minutos de intervalo, deixando Tom com a pequena multidão no interior do bar. Era outra noite quente... parecia uma eternidade desde que tiveram chuva, e o céu escuro acima estava sem nuvens: uma noite bastante comum.
James Potter era praticamente a última pessoa que o rapaz esperava ver, em pé por trás do Caldeirão Furado com as mãos nos bolsos e um olhar um tanto nervoso em seu rosto. No entanto, lá estava ele. Sirius fez uma pausa, a caminho de acender o cigarro.
"Você já está livre?" perguntou James, surpreso; "Lupin disse que você ia trabalhar até tarde esta noite..."
Sirius terminou de acender o cigarro e balançou a cabeça. "Estou no intervalo." Ele não falou, mas sua expressão claramente perguntou o que James estava fazendo ali.
"Eu estava decidindo se devia ou não entrar," explicou James sem jeito. "Mas... eh... acho que não faz diferença agora..."
Sirius deu uma tragada cuidadosa em seu cigarro. Não havia esperança alguma para se decepcionar desta vez, de modo que perguntou em um tom cauteloso, embora não acusatório: "O que você está fazendo aqui?"
"Eu não sei." James estava inexplicavelmente nervoso. Sirius decidiu esperar por mais explicação. "Eu acho que... Quero dizer... Eu... Sirius, eu quero que as coisas voltem a ser como eram, mas... Eu só... Eu preciso de uma razão."
"Você quer dizer que veio aqui para me fazer implorar," respondeu Sirius com amargura. "Eu não vou fazer isso. Eu já fiz... você sabe que eu sinto muito. Sabe que se eu pudesse voltar atrás, eu o faria. Mas o que aconteceu, aconteceu, e você tem que descobrir o que você quer fazer agora."
James se irritou. "Então, simplesmente… você... você não se importa."
"Não foi isso que eu disse..."
"Mas é verdade, se você não está sequer disposto a..."
"A o quê? Mendigar, implorar e arrancar meus cabelos?"
"Consertar as coisas!"
"Consertar o quê, exatamente?"
"Isso! Os Marotos! Todos nós!"
Sirius jogou o cigarro inacabado no chão e o pisou com o sapato. "Eu sinto muito, Prongs. O.k.? Eu estou tão arrependido por eu... por eu ter contado a Snape sobre Moony, e eu sinto muito por você ter que arrumar a bagunça, e sinto muito por tudo mais que aconteceu... ou que poderia ter acontecido naquela noite... Eu sinto muito! " Ele deu um passo à frente, mas James deu um passo defensivo para trás. Sirius tornou a recuar. "Está vendo? Você não se importa... isso nem sequer é mais sobre mim ou o que eu devo fazer, não é?"
"O que isso quer...?"
"Você não quer me perdoar," Sirius sobrepôs-se a ele. "Você só quer me culpar!"
"É claro que eu quero te culpar! A culpa é sua!"
"Bem, então, o que você quer de mim, Prongs?"
James hesitou; havia algo que queria dizer, mas não o fez. Em vez disso, disse calmamente: "Foi uma ideia idiota."
"É claro que foi."
Irritado com o tom de Sirius, James acrescentou: "Lily não sabe do que está falando."
"O que quer dizer?"
"Você," vociferou James. "Você deve tê-la nas mãos para fazê-la vir até mim dizendo que..."
"Ah, vai se ferrar, eu não mandei ela ir falar com você..."
"Então, por que motivo ela tentaria me fazer perdoá-lo? Mesmo depois..."
"Porra, Prongs!" xingou Sirius, a frustração que fermentava dentro dele, atingindo o ponto de ebulição: "Você é realmente tão cego?"
James interpretou aquilo completamente errado. Ele se encolheu. "Você quer dizer que... vocês dois...?"
"Quê? Não... Merlin, não, Prongs! Você é um idiota! Você acha mesmo que eu...?"
"Ah," zombou James, "eu devo pensar que você é incapaz disso? Que o aspirante a assassino, irmão do aspirante a Comensal da Morte, é incapaz disso?"
E então, Sirius não se conteve mais.
Ele avançou e deu-lhe um soco, jogado James para trás e fazendo seus óculos caírem no chão. James cambaleou, mas permaneceu em pé. Ele tomou fôlego e poderia ter sacado a varinha, mas não o fez. Em vez disso, um segundo depois, os dois bruxos estavam no chão, um batendo no outro com todo vigor.
James acertou dois golpes certeiros no nariz de Sirius, antes do último conseguir empurrá-lo, ainda no chão, onde Sirius deu um soco antes de ser chutado.
Na ficção, as lutas são glamorosas – uma exibição de habilidade e coragem. Na realidade, porém, a maioria das lutas – as espontâneas, de qualquer modo –, são simplesmente confusas e desajeitadas. Normalmente, os participantes relativamente inexperientes não estão muito entusiasmados com a perspectiva de lutar, e só o fazem ou como um último recurso ou devido à pressão exercida pelos outros. Em qualquer caso, as brigas são tipicamente curtas e sem habilidade, com dois participantes simplesmente tentando acertar o outro sempre que possível.
Essa não foi diferente, exceto em um aspecto: a raiva. Não como uma breve chama que se acendeu e morreu com os golpes iniciais, para ser substituída pelo senso de autopreservação e medo. Não, foi uma raiva contida e de lenta combustão, que foi desencadeada subitamente e sem restrição.
Assim, quando Sirius conseguiu ficar de pé, James não recuou e se levantou, mas agarrou o tornozelo do outro e puxou-o para o chão novamente. Sirius chutou seu queixo, tirando mais sangue, e ambos recuaram o suficiente para ficarem de pé. Em seguida, James acertou Sirius no estômago, e Sirius o empurrou contra a parede. Ele o socou algumas vezes, e em seguida James o acertou entre as costelas, de modo que Sirius se dobrou de dor, e o outro acertou-lhe o rosto antes que ele pudesse se mover para se defender.
Sirius cambaleou para trás. James tentava manter o equilíbrio e o sangue escorria em seus olhos. Numa última explosão de energia, Sirius moveu-se para bater no outro, que bloqueou o ataque, e embora tenha caído contra a parede mais uma vez, conseguiu empurrar Sirius novamente. Então, James pegou a varinha.
Ele a apontou para Sirius, mas quando olhou para cima, James se deparou com a ponta da varinha de seu oponente.
Sujos, machucados e sangrando, eles apenas se encararam. Entre o sangue e a falta de óculos, a visão de James estava péssima, mas ele encontrou o olhar em chamas de Sirius.
Por um longo momento, ninguém se moveu.
Então, James largou a varinha. Sirius ainda permaneceu obstinado.
James afundou no chão, tateando atrás dos óculos e, ao localizá-los, tornou a colocá-los no rosto. Ele esfregou a testa, cansado, enquanto Sirius continuou a olhar para ele, confuso e ainda insatisfeito.
"Como as coisas ficaram tão ferradas, afinal?" indagou James, sua voz rouca. Havia sangue em seu cabelo. "Eu e você, os Marotos e tudo mais – como é que tudo isso aconteceu?"
Lentamente, Sirius baixou sua varinha. "Eu não sei," admitiu baixinho.
"Estou cansado," disse James. "É exaustivo".
Sirius jogou-se no chão também, os braços apoiados sobre os joelhos enquanto se inclinava para frente. "É," concordou ele, balançando a cabeça. "Eu não sei como fazer isso."
James ficou calado por algum tempo. Por fim, falou em uma voz rouca e distante, "Remus acha que se alguém pode perdoá-lo por ser o que é, então ele pode perdoar essa pessoa por praticamente qualquer coisa." Sirius não disse nada. "Peter acha que foi apenas um erro idiota." Outra pausa. "Lily... Lily acha que é a coisa certa..." Com um último suspiro suplicante: "Mas isso não é o suficiente para mim; eu preciso de algo mais... eu preciso de uma razão."
Sirius assentiu. Ele achava que entendia agora. "Eu não tenho uma razão. Não é perdão se precisa de uma razão."
"Bom, isso não é o suficiente!" vociferou James. "Onde diabos você esteve? Meu pai está renunciando o cargo, e ele e minha mãe estão sempre fora, e tudo isso está acontecendo..." As mãos de James se perderam em seu cabelo de novo; o cabelo dele estava ficando grande, e seus dedos quase desapareciam completamente entre os fios negros. "Você deveria... você deveria estar lá para coisas deste tipo! Nada disso deveria acontecer assim!"
"Mas aconteceu!" interrompeu Sirius. "Aconteceu, e eu não posso voltar atrás... eu voltaria se pudesse, mas não posso, e eu não sei o que você quer que eu faça!"
"Eu não sei! Mas eu esperava que você soubesse!"
"Como consertar as coisas?"
"Sim!"
"Bom, eu não faço a mínima ideia!" Eles estavam quase gritando, mas com isso os dois garotos tornaram a se acalmar, e a tensão diminuiu um pouco. Sirius falou primeiro.
"Seu pai vai renunciar?"
James assentiu, olhando para longe. "Ele nos contou há uma hora."
Mais silêncio. Então... "Escute, James," começou Sirius, "a verdade é que só há uma razão, e você sabe disso." (Ele sabia.) "Porque eu sinto muito."
James tinha a falsa esperança de que Sirius teria algo mais a dizer, mas percebeu naquele instante que também sabia o tempo todo que isso era impossível.
"Não é o suficiente," murmurou. "Sinto muito. É só que... eu simplesmente não posso."
O rosto de Sirius estava pálido; toda a raiva havia desaparecido. Ele apenas parecia triste, e assentiu. James colocou-se de pé, e em seguida estendeu a mão, puxando Sirius para cima também. Eles se olharam por um momento.
"Sinto muito por ter te batido," disse James.
"Eu também."
Então, com um aceno rápido, James se virou. Ele abriu o arco para o Beco Diagonal e passou depressa, os tijolos fechando atrás dele.
Em momentos de desespero, os seres humanos podiam não agir da melhor forma.
Lily se odiava, e estava com medo, mas também estava desesperada, e tinha que fazer aquilo – ela tinha que tentar.
Então, ela bateu na porta do quarto de Petunia e a voz de sua irmã respondeu distraidamente: "Entre."
Lily entrou. Eram quase dez horas, e a mãe delas estava na cama, mas Petunia claramente esperava ficar acordada por mais algum tempo. Os convites do casamento cobriam sua cama, e a futura noiva estava organizando tudo. A ruiva supôs serem as últimas confirmações.
Petunia olhou para a irmã quando ela entrou no quarto, em seguida retomou a atenção depressa para um convite em sua mão.
"O que você quer?"
Se tivesse olhado por mais tempo, Petunia teria percebido as lágrimas nos olhos da mais jovem.
"Tuney, por favor," implorou Lily, e o fato de que ela havia chorado ficou evidente em sua voz, tanto que Petunia ergueu os olhos novamente, surpresa. "Por favor, não faça isso." Ela sentou-se no canto inferior da cama. "Por favor."
Lily se odiava por pedir aquilo, por fazer essa exigência, quando sabia que era errado, mas o que mais poderia fazer? As lágrimas começaram a cair de novo, e ela implorou: "Não se case com ele."
E a expressão de Petunia, que quase suavizara, ficou rígida e fria imediatamente. "Lily, você está se passando."
"Eu não me importo!"
"É embaraçoso ouvir você falar."
"Tuney, eu nunca quis te deixar para trás!" apressou-se Lily, "Eu sinto muito! Mas você é minha irmã, eu te amo, e eu não quero que você... eu tenho que te dizer isso, porque se eu não disser, você vai... nós nunca vamos ter uma oportunidade verdadeira de sermos irmãs novamente ... amigas, como costumávamos ser... "
"Lily, pare..."
"Não, eu não vou parar!" As lágrimas caíam depressa agora. "Eu fiquei ressentida com você porque eu sempre pensei que você se sentia ofendida comigo e com o que eu sou, mas ainda há tempo para consertar as coisas entre a gente! Ainda há uma chance! Eu... eu sinto muito, o.k.? Eu não deveria ter feito você contar a Vernon, m-m-mas eu só fiz isso porque pensei que se não contasse, você nunca mais me veria depois que casasse. E agora... não tem a ver com ser d-dama de honra. Eu não ligo com isso, eu só..."
"Só o quê?"
"Eu só... Eu só quero que as coisas fiquem bem com a gente!"
Petunia não disse nada.
"Por favor," implorou Lily mais uma vez, emocionada.
Então, Petunia começou a recolher os convites da cama. Ela os organizou em meia dúzia de pequenas pilhas arrumadas, e em seguida reuniu-os em uma pilha alta, que ela colocou sobre a mesa de cabeceira. Ela alisou o cobertor adamascado lavanda, e, em um movimento similar, ajeitou os cabelos pálidos. Ela não olhou para a irmã nenhuma vez, mas foi até a mesa, onde desnecessariamente endireitou os poucos itens sobre ela – uma estatueta de porcelana, uma caixa de brincos de vidro, um frasco de perfume...
"Petunia."
Mas era como se Lily jamais tivesse entrado no quarto.
Petunia fechou as cortinas.
"Petunia!"
Lily tinha parado de chorar, mas as lágrimas permaneciam em suas bochechas coradas; ela assistiu à irmã arrumar o quarto já impecável. Petunia moveu-se sem parar, sem hesitação ou decisão; ela movia-se de uma tarefa à outra - sua rotina noturna, que podia ser graciosa ou robótica.
"Tuney," arfou Lily uma última vez. Sua irmã pegou um casaco – a única peça de roupa solta pelo quarto, jogada sobre a cadeira à mesa, e pendurou-o no armário. Lily se levantou e rumou para a porta. Petunia desamassou a área da cama que a outra ocupara, como se ela nunca tivesse estado lá.
A mais nova deixou a irmã cuidando de um vaso de flores no peitoril da janela.
(Sábado)
No sábado, não houve novas exigências. Havia um ar de alívio, mesmo entre os repórteres na RRB, e a primeira página do Profeta Diário estava, falando em termos comparativos, totalmente eufórica. A manhã e a tarde transcorreram tranquila e calmamente; a edição vespertina do jornal informou que o Ministério da Magia prendera um suposto Comensal da Morte, e o restante das histórias era sobre as cessadas exigências e suas vítimas. No entanto, todas as histórias continham a mesma tendência sutil: nenhuma nova exigência. Nenhuma nova vítima.
Às vezes, quando não há vitórias reais, as pessoas precisam fingir.
Lily acordou com a horrível sensação de quem chorou até dormir. Sentindo-se rígida e pesada, ela arrastou-se relutantemente da cama, encaminhando-se ao banheiro sem qualquer real noção de estar indo para lá. Jogou água fria no rosto salgado, desidratado e manchado e, inclinando-se sobre a pia, encarou seu reflexo gotejante no vidro.
Era sábado, deu-se conta. Em uma semana, sua irmã estaria casada.
Marlene lavou os pratos que usou no almoço. Ela tinha ficado deitada durante a manhã, de modo que o almoço e o café tinham meio que se fundido, mas, mesmo assim, faltava cerca de dez minutos para o meio-dia, o que tornava a refeição um almoço, mesmo que seu cabelo ainda estivesse molhado do banho matinal e tudo que estivesse usando fosse um roupão de banho e um short de corrida.
Terminando a tarefa mundana, a loira saiu da pequena cozinha, passando pela sala de estar, e entrando em seu quarto. Havia precisamente dois quartos no apartamento dos Price – o dela e o da sua mãe – e embora o quarto fosse pequeno, Marlene sentia-se feliz por tê-lo todo para si. Quando seu irmão mais velho morava ali, eles tinham que compartilhar.
As paredes eram verde-escuro, cobertas por cartazes e fotografias da garota – algumas das quais ela tinha que retirar quando recebia visitas trouxas, pois se moviam à moda bruxa. Mary e Lily sorriam para ela de seu quadro de avisos, e havia uma foto de todas as garotas no dormitório, acenando e fazendo caretas para a câmera... era do quarto ano.
E ao lado de alguns ingressos rasgados do concerto das Cleansweeps ao qual tinha ido no verão passado, havia uma foto com Adam, pregada à placa de cortiça com seu pino da Grifinória. Eles estavam rindo de alguma coisa e os dois pareciam tão... jovens. E ridículos. Eram quintanistas na época, Lily tinha tirado na câmera de Adam, logo após a final de quadribol. Adam estava todo molhado, porque a Grifinória achara divertido passar a noite jogando água nos membros da equipe, e Marlene tinha pintado listras vermelhas e douradas no rosto – uma de cada lado, ao longo das bochechas.
Era, pensou Marlene, uma das poucas fotos de que ela gostava. Provavelmente algo a ver com o ângulo da câmera ou algo assim...
Marlene olhou para a fotografia por quase um minuto, perdida em pensamentos. Em seguida, foi até a mesa no canto do quarto, onde ficava sua vitrola. Não precisa folhear álbuns, pois já sabia o que queria ouvir. A loira colocou o LP que ganhou de Natal no prato giratório e colocou na primeira faixa.
A melodia doce e familiar começou, e Marlene poderia ter sorrido se não quisesse tanto chorar. Sentada em sua cama, a garota pegou um travesseiro, que abraçou contra o peito enquanto a voz do bruxo começava a cantar as primeiras estrofes. As melhores canções, pensou Marlene, eram sobre corações partidos.
As melhores canções, pensou James, eram sobre drogas.
Eram simplesmente honestas; sem cerimônias, mas adequadamente sentimentais e brilhantemente estranhas. A própria existência da canção desafiava o engano, porque significava que ao menos os músicos não tiveram escrúpulos em admitir que suas letras surgiram por meio de substâncias socialmente evitadas. Isso era reconfortante.
"No que você está pensando?" perguntou a Sra. Potter, bebericando seu chá gelado, sentada na cadeira ao lado de James à mesa da cozinha. Os Potter normalmente jantavam na sala de jantar, mas só estando eles dois em casa, a cozinha era mais adequada.
"Drogas".
"James."
"Você perguntou."
Revirando os olhos, a Sra. Potter voltou ao jornal que estava lendo. O rapaz sorriu e inclinou-se sobre a mesa da cozinha, mexendo a sopa com a colher.
E enquanto o caldo amarronzado respingava na tigela oval prateada, manchando o metal, já que inevitavelmente tornava a escorrer para baixo, trazendo movimento ao restante da sopa, James experimentou uma revelação surpreendente. Era o tipo de epifania que se tem, apenas para perceber em seguida que sabia o tempo todo, apenas nunca tinha sentido antes: compreendeu intelectualmente, sem aceitar emocionalmente.
James percebeu, sentado na cozinha com a sopa, a colher e o pão com manteiga... que agora e há algum tempo estava muito, muito, muito entediado.
Não apenas entediado – letárgico. Introvertido. Estranhamente desinteressado, desapaixonado...
E também entediado.
E, por muito tempo pelo que lhe pareceu, James não fizera absolutamente nada para remediar aquilo. Francamente, ele não se importara o suficiente para tentar.
"Ele nos daria outra chance."
A respiração de James engatou.
"Ei, euestou destinado à pobreza também..."
Ele largou a colher.
"A árvore quebrou o braço de Sirius."
"Foi só uma pequena distensão."
"Você estava chorando."
"Estava não!"
"Havia lágrimas."
"Não é chorar a não ser que as lágrimas saiam dos seus olhos, Potter."
"Então, você admite que havia lágrimas?"
"Não."
James tentou pegar a colher de novo, mas seus dedos não pareciam estar funcionando.
"Por quê? Por que vamos nos tornar tão infames, que as pessoas vão falar tanto sobre a gente, que vai se tornar um inconveniente listar nossos nomes?"
"Exatamente."
A Sra. Potter tirou os olhos do jornal, evidentemente notando o barulho da colher se chocando com a tigela de porcelana de James.
"Você é o maldito James Potter, Prongs, e eu gostaria que começasse a agir como ele!"
"James, querido?" perguntou sua mãe.
"Todo mundo comete erros, James... Você já cometeu."
"James, o que deu em você?"
"Sabe, Prongs, isso foi meio sexy..."
"Não estou a fim, Sirius."
A Sra. Potter apertou sua mão, batendo sem querer na tigela e espirrando algumas gotas de sopa na toalha branca.
"Talvez estejamos amadurecendo. Talvez seja aquela coisa que chamam de 'autodomínio.'"
"Não seja burro..."
"James, você está me assustando," repreendeu a Sra. Potter.
"Prongs, somos amigos desde sempre. Somos amigos antes de qualquer um de nós saber o que era uma maldição Confundus... quando éramos tão alheios que desejávamos que Hogwarts não fosse mista. Passamos por praticamente todas as experiências importantes da vida juntos..."
"Se alguém pode me perdoar pelo que eu sou... pelo que fiz para ficar desta maneira... Eu acho que posso perdoar Sirius por seus erros."
"Eu estou dizendo que não é culpa sua, e que você precisa entender que Sirius cometeu um erro estúpido e horrível, mas que isso não significa que você seja uma pessoa terrível!"
"Sirius, você tem família. Você tem Andromeda, você tem a mim, você tem..."
"Vocês não são uma porcaria, como amigos, sabe."
"É uma das perdições de ser humano. Você não sabe nada sobre isso, Prongs..."
"Imagine, Prongs! Ele vai descer até lá, passar pelo salgueiro, ver Moony..."
"James, eu entendo que esteja com raiva, mas Sirius é da família..."
"...Sirius... ele não é mais um de nós... ele está fora..."
"Eu também sei como te machucar, Prongs."
"Você deveria... você deveria estar lá para coisas deste tipo! Nada disto deveria acontecer assim!"
"Todo mundo já foi visitá-lo... por que você não pode ir?"
"Mas às vezes elas também te surpreendem para melhor..."
"James!" repetiu sua mãe, mais alto, e o rapaz foi tirado de seu devaneio.
"Espere um instante, mãe," disse ele. "Eu estou tendo uma ideia."
(Domingo)
Na manhã de domingo, Elizabeth II, a coruja de James, estava sentada na janela de Lily, uma carta descansando debaixo de suas garras. A ruiva rasgou o envelope e o que leu a fez sorrir.
No domingo estava um pouco mais frio. O sol brilhava, e não houve mais exigências de Lorde Voldemort. Nos dias seguintes, a repórter Dorthea Grey inventaria um nome para a semana anterior – que começou com a morte de Phillip Stoake e terminou com Cary Young do Profeta – chamando-a, sem nenhuma originalidade, de "A Semana das Exigências".
"Foi a pior desde que essa guerra começou," afirmou e, naquele momento, ela pode ter tido razão.
Muitas coisas aconteceram naquela semana. Houve um total de sete vítimas, cinco "mensagens" do Lorde das Trevas, e os poucos jornalistas que até então continuavam a usar o seu nome finalmente cederam e aderiram aos populares eufemismos. Não havia mais quem negasse a existência da guerra, ou, pelo menos, já não confiavam mais em suas perspectivas.
O período de seca continuava na Inglaterra, e falava-se em greve no departamento de meteorologia do Ministério da Magia. A vida continuou, e aqueles que se lembravam da promessa de retaliação do Lorde das Trevas geralmente escolhiam esperar o melhor. Pelo menos até o momento, a Semana das Exigências terminara, e, de igual modo, a vida cotidiana parecia extremamente segura.
É claro que, em novembro daquele ano, todos seriam dolorosamente lembrados daquela Semana e do que foi prometido em cada uma das mensagens do Lorde das Trevas. Mas falaremos sobre isso mais tarde.
O Beco Diagonal parecia renascido com o fim das exigências. Não estava de forma alguma tão cheio como outrora, mas as pessoas se moviam facilmente através das lojas no domingo de manhã, falando com uma cordialidade vigilante e aproveitando o clima mais confortável. Sirius percorreu a curta distância do seu apartamento sobre o Boticário até o Caldeirão Furado, e até ele não conseguia se sentir totalmente abatido naquele momento.
Ele entrou no bar pelos fundos, agarrando um avental e amarrando-o em torno de cintura antes de entrar no salão. Donna estava atrás do bar, esperando por ele com uma revista na mão, e havia quase uma dúzia de fregueses presentes no café da manhã.
"Você está atrasado," brincou Donna, sem tirar os olhos da revista.
"Só um minuto."
"Dois."
"Será que o mundo acabou na minha ausência?"
Donna pousou a revista e revirou os olhos. "Eu não dormi a noite toda, Sirius Black. Seria inteligente de sua parte não me importunar no momento."
"Vá para casa, Shack," disse ele.
"Eu vou," prometeu ela, tirando o avental. No entanto, Donna hesitou antes de dirigir-se aos fundos. "Seu amigo está aqui," disse ela.
Sirius olhou em volta rapidamente, e, de fato, lá estava James sentado no bar. Por um instante, ele congelou; em seguida, balançando a cabeça, ele arregaçou as mangas e pegou um pano para limpar a bancada do bar.
"Eu tenho que parar de informar minha escala a Moony," murmurou para que James ouvisse.
"Achei que seria menos estranho do que aparecer na sua porta," respondeu o outro.
"Na verdade, não."
"Bom... desculpe..."
Sirius largou o pano. "Você não pode me azarar ou me socar aqui, Prongs. Eu estou trabalhando. Então, se estiver aqui apenas para pedir alguma coisa..."
"Eu não vou dizer que sinto muito," interrompeu James. "Eu nem sei se isso não é um grande equívoco, mas, mesmo assim..." Ele engoliu em seco. "Você é meu melhor amigo. E... eu acho que é o suficiente."
Sirius apenas o encarou.
"Q-quê?"
"Você vai me fazer repetir?"
"Estou considerando..."
"É o suficiente. Eu disse que é o suficiente."
"Ah."
"Sim."
"Então... então está dizendo..."
"Sim, é isso que estou dizendo."
"Você está dizendo que me perdoa?"
"S-Sim."
"Nossa." Sirius sentou-se no banquinho atrás do bar, fitando James cuidadosamente. "Você tem certeza?"
"Sim."
"É... passado?"
"Sim."
"E eu estou..."
"Sim."
"Promete?"
"Quê? Sim."
"Nossa," Sirius tornou a dizer, e então ele se calou. James aguardou.
Ele esperou um pouco mais, e depois ficou entediado. "Nossa? Nossa o quê? Você está bêbado, Padfoot?" questionou, impaciente.
Após um instante, Sirius sorriu. Ele se levantou. "Não. Não, só pensando."
"Só pensando?"
"Sim."
"E…" James ergueu as sobrancelhas, "você talvez tenha alguma coisa a dizer?"
Sirius se remexeu e em seguida preparou uma garrafa de cerveja amanteigada, colocando-a diante de um James perplexo. "Sim," ele anunciou. "Eu te perdoo também."
"Você, você me perdoa também?" repetiu o outro, espantado.
"Sim."
James abriu a boca para perguntar outra coisa – provavelmente do que ele supostamente foi perdoado – mas, depois de um instante, ele mudou de ideia. Em vez disso, pegou a cerveja amanteigada, sacou a varinha e retirou a tampa. O rapaz tomou um gole da garrafa, balançando a cabeça.
"Você é um idiota, Sirius Black," disse ele quando tornou a pousar a garrafa.
"Também senti sua falta, cara."
James revirou os olhos; o sorriso de Sirius se alargou. "Então," começou o primeiro sem rodeios, "você trabalha em um bar..."
"Muito legal, né?"
"Como não pensamos nisso antes?"
"Eu sei... a grana não é nada má também. Cara, você está de óculos novos; eles estão distraindo..."
"Eles não ficam bem ajustados... é bem irritante..."
"Ei, eu te disse que estou pensando em comprar uma motocicleta...?"
"Você está bêbado, Padfoot. Quando, exatamente, você teria me dito isso?"
"Tem razão. Mas preste atenção, Prongs... uma motocicleta..."
Cara Pretenciosa,
Você venceu.
Passar bem,
Idiota.
N/A: Eu tenho oscilado entre intenso amor e ódio por esse capítulo, e ele me deu um monte de trabalho, mas espero que tenham gostado.
O título do próximo capítulo será: "The Wedding" (O Casamento). Há uma cena muito, muito adorável entre nosso Casal Principal, e vocês vão me bater por isso Rsrs
Reviews são James perdoando Sirius e Sirius comprando uma motocicleta. E biscoitos de manteiga de amendoim.
Passar bem,
Jules.
N/T: Depois de séculos, aqui estou! Pena que a Jules não segue meu exemplo e atualiza, né? Hahaha ^^ Espero que ainda haja gente para ler! Recebi poucos comentários na última atualização... :DD Beijos!
Guest: Desisto não! Rsrs Beijos!
Dafny: Obrigada pelos votos sobre meu casório! Rsrs Espero que goste da tradução deste capítulo também. Bjs!
F: Sim! Marotos têm que estar unidos! Obrigada pelos votos, o casamento foi perfeito e a lua-de-mel também, pena que passou rápido demais hahaha Pode deixar que não vou abandonar a tradução! Beijos e obrigada por comentar
