"Isso parece ser meio ridículo" – Rachel olhou para uma Santana diferente com camiseta branca larga, tal como a calça de tecido leve e o tênis de sola fina próprio para a prática de artes marciais – "Não sabia que era preciso ter um uniforme."
"Não é" – Santana se alongou rapidamente – "É que você precisa ficar à vontade para praticar o tai chi. Roupas apertadas de ginástica atrapalham. Em primeiro lugar, o tai chi é uma arte marcial. Você aprende movimentos que podem ser usados para defesa e ataque, mas o princípio é diferente porque o uso e benefício dele é a busca do equilíbrio da circulação de energias. É a única arte marcial que visa a preservação da saúde do praticante, sabia? Daí as propriedades curativas e terapêuticas. E o primeiro passo para isso é aprender a respirar."
"Eu sei como respirar, Santana. Sou uma cantora. Sei usar o meu diafragma."
"Cala a boca e só faça o que eu mandar, ok?"
Eram sete horas da manhã e os dois homens Berry observavam da janela as duas garotas interagindo no quintal da casa. Estavam satisfeitos em ver a filha reagir relativamente rápido após dois dias horríveis que passou. Julgaram que a influencia de Santana era positiva, ou, pelo menos, melhor do que a de Finn Hudson. O pensamento dos pais de Rachel era pragmático naquele instante: Finn afastou a filha deles, Santana a trouxe de volta.
Era uma manhã tranquila, uma brisa em relação aos dias de tormenta. Enquanto Rachel iniciava os treinamentos, mesmo sem realmente saber disso, Brittany estava no estúdio de dança. A peça não estreou como o planejado, mesmo assim haveria a tal audição. Ela estava dividida sobre o destino que gostaria de tomar. Queria visitar Kurt e curá-lo dos ferimentos. Poderia fazer isso. Poderia vestir uma máscara e entrar naquele quarto de hospital. Poderia cicatrizar os ferimentos e deixá-lo como novo. Por eu não fazia? Porque o chefe disse para não fazer. Brittany tinha dificuldade de entender e conciliar a imagem autoritária do chefe e a do carinhoso Martinez. Era como se fossem duas pessoas distintas e ela tinha quase certeza que a teoria tinha certo sentido. Obedecer? Ela não era como Santana, capaz de quebrar regras, nem mesmo questionadora como Grant. Então tendia a obedecer. No estúdio de dança, ela esperava por Mike. Precisavam ensaiar.
Naquela manhã, Quinn ajudava a filha a fazer um trabalho de escola. Beth precisava fazer um cartaz com uma ilustração que resumisse uma canção educativa que aprendeu na escola. Depois de preparar o café da manhã, deixou as louças de lado, além de outras tarefas domésticas para ajudar a menina no uso da cola colorida, canetinha e giz de cera.
"Você acha que eu devo usar mais cor, mamãe?"
"Não acha que o cartaz está colorido o suficiente?"
"Falta fazer a moldura."
Quinn acenou e ajudou a filha a pintar as bordas do cartaz. Era uma terapia trabalhar com as cores e os desenhos lúdicos. Fazia com Beth o que a própria mãe jamais fizera. A mãe sempre estava com dor de cabeça e mandava a filha mais velha, Frannie, ajudar. As vezes Quinn tinha ajuda, mas a maior parte das vezes não. Frannie, quatro anos mais velha, se mandou de casa assim que terminou a escola e raramente se comunicava.
"Quer um suco?" – perguntou à menina.
"Posso tomar aquele da caixinha de morango?" – a menina pediu com olhos suplicantes.
"É para o seu lanche, Beth."
"Só um, por favor! Eu gosto tanto..."
Quinn não resistia a certos apelos da filha. Não podia dar tudo a ela. Não tinha condições materiais para bancar metade dos pedidos da pequena, que não entendia muito bem regras de finança e achava que existia uma coisa mágica chamada caixa eletrônico que dava dinheiro sempre que se desejasse. Mas o que Quinn podia proporcionar a Beth, os pequenos caprichos e as pequenas coisas, ela fazia. As caixinhas de suco eram contadas, mas uma não faria mal. Uma só. Pegou uma do armário. Estava a temperatura ambiente. Concentrou-se e em segundos o suco estava geladinho. Ofereceu à filha, que deleitou-se com o pequeno lanche.
"Leite que é bom, a senhorita não toma."
"Só se tiver muito chocolate."
Ainda naquela manhã, Matt, Artie e Grant se reuniram na construção em que o telecinético trabalhava. Obra que estava em fase de acabamento, mas como o jovem era um dos assistentes do mestre de obras, costumava ficar na construção até o fim do processo, mesmo quando a carpintaria encerrava a parte dela. Em resumo, ele tinha acesso livre. Os três discutiam sobre Rachel, as provas e do ultimato que Martinez deu sobre a entrega do material roubado e já queimando – exceto pelo diário, embora eles ainda não soubessem disso. Grant deveria encontrar o ex-mentor em um local neutro no início da noite.
"Vamos continuar blindando Santana?" – Artie perguntou.
"É essencial" – Grant respondeu secamente.
"Não entendo" – Matt olhou para algumas anotações do colega – "Por que tanta proteção em cima de quem não parece ligar para isso?"
"Santana é uma purista" – Grant sorriu – "Precisamos de puristas que não fazem certas concessões se decidirmos ser uma unidade coesa."
"Está dizendo que o resto de nós é corruptível?" – Matt mostrou-se ofendido.
"Quem não é? Mas se concordamos em cuidar desse problema ao nosso modo, precisamos de alguém como ela. É fundamental. Mas o que sabemos mais sobre Rachel?"
"Nada. Absolutamente nada" – Artie estava frustrado – "Santana está com ela agora e pode ser que volte com um pouco mais de informações. Mas acho que devemos nos preocupar mais com Kurt e Finn. Mais com Finn o que com Kurt."
"Kurt está fora de perigo?" – Grant perguntou.
"Sim."
"Alguma possibilidade da própria Rachel conversar com ele antes da polícia?"
"Não sei dizer" – Artie lamentou – "Vamos ter de esperar até que Santana termine o tai chi com Rachel."
"Verdade?" – Grant sorriu – "Adoro tai chi."
"Ei, vamos voltar ao nosso problema central? Martinez vai ver você hoje. O que devemos fazer" – Matt estalou os dedos.
"Bom, meus amigos, não acho que devamos fazer concessões. Eu vou cuidar dele. Artie, você poderia ir visitar Kurt no hospital e Matt, bem que você poderia conversar com Finn. Daquele jeito como quem quer nada."
Matt acenou, mas antes de cumprir a missão, puxou Grant em particular.
"Você já tem resposta daquele lance que eu te pedi?"
"Sua namorada já sabe que você está por trás disso?"
"Não sabe e nem precisa saber. Quinn é uma garota muito orgulhosa..."
Na casa dos Berry, Santana e Rachel terminaram a primeira sessão de treino. A pequena diva espreguiçava os braços e de fato se sentia melhor, mas ainda estava insegura e incerta sobre o poder que tinha dentro de si e que sabia que não poderia controlar por enquanto.
"Vai visitar Kurt hoje?"
"Ainda não estou preparada" – Rachel tentou encerrar o assunto que mal começou.
Santana acenou. Não iria forçá-la a sair do casulo antes do tempo. Sabia melhor que ninguém que era preciso ter paciência. Despediu-se da amiga com um abraço ameno e depois dos pais dela. Rachel espiou Santana ir embora da janela da sala. Estava bem, mas ainda não queria enfrentar o mundo. Era bom ter à disposição aquele canto para poder se esconder. O emprego, ela sabia que o perderia em mais um dia ou dois ausente. Não tinha uma licença médica que justificasse. Talvez fosse pedir para um dos pais para cuidar dos encargos. O apartamento? Ela não queria saber por enquanto. As coisas dela estavam lá e pediria para Tina fazer o favor em pegar algumas roupas. Não poderia continuar a vestir as roupas de cheiro de guardado que ainda se encontravam nas gavetas, mesmo que lavadas. Não conseguia mais se sentir bem dentro da blusa cafona que usava aos 18 anos.
Pegou o celular e não se impressionou com a quantidade de mensagens de texto. A maioria era de Finn. Passou os olhos rapidamente em algumas delas. Revirou os olhos para muitas. Finn poderia ser realmente co-dependente e egoísta quando queria. Muito mais que ela. Ainda tinha dificuldades em aceitar a forma que o namorado foi para cima de Santana para agredi-la fisicamente. Tudo bem que ela não era uma pessoa normal e os socos dele poderiam ser como golpes de criança. Ainda assim, ele não sabia disso. O fato é que Finn não pensou duas vezes ao tentar espancar uma mulher. Ele a odiar e a traição não justificavam o ato de violência e Rachel levaria isso em consideração.
Deixou uma mensagem de texto para Tina, tomou um banho e voltou para o isolamento do quarto. Não se incomodou em responder ao namorado ou a muitos dos amigos mais próximos.
Quinn terminou as atividades com a filha e pensou nos afazeres domésticos. Desde que o grupo queimou todas as provas após aprenderem mais o processo e Grant garantiu que apagou todos os registros dos vigilantes, inclusive o arquivo recém-aberto sobre ela, que estava um pouco mais tranquila. A situação ainda era tensa, claro, mas ao menos ela tinha a certeza de que se os arquivos viessem à tona, a identidade dela, de Matt e dos outros estaria preservada. Separou as roupas escuras das claras e colocou tudo no cesto para levar até a lavanderia do outro lado da rua. Mandou Beth vestir o sapato e autorizou a menina a levar um brinquedo antes de descer as escadas e cumprir a obrigação.
Enquanto aguardava o processo e pensava no almoço, pegou o celular (era um novo comprado por Grant, com direito a linha segura) e conferiu as mensagens de texto.
"Almoço a 1?" – Matt.
"S" – Quinn.
Olhou para a máquina que trabalhava e desejou que o processo fosse mais rápido. Tinha a impressão que perdia metade do fim de semana numa lavanderia pública.
Matt não sabia exatamente como chegaria em Finn para conversar. Obviamente teria de ser algo por telefone, porque ele nunca foi tão próximo assim para bater à porta da casa dele e convidar para tomar uma caneca de chope e duvidava que Finn fosse dar muita atenção. Sentou-se no carro e discou o número que raramente usava.
"Alô?"
"Ei Finn, aqui é Matt. Estou ligando para saber se está tudo bem contigo, Kurt e Rachel."
"Kurt está se recuperando bem. Deve ter alta em dois ou três dias."
"Isso é ótimo, cara. Mas ele vai voltar para o apartamento?"
"Não. Ele vai para casa dos nossos pais. O apartamento precisa ser liberado antes. Mas eu não sei se os dois vão continuar a morar ali."
"Oh, isso é compreensível. A perícia já chegou a alguma conclusão? Isso se eu puder perguntar, claro."
"Não que eu saiba. Ninguém sabe dizer nada, aliás."
"Não ouviu o boato?"
"Que boato?"
"Dizem que alguns policiais estavam perseguindo o vigilante naquela região e lançaram um dispositivo desses tecnológicos, uma espécie de bomba de deslocamento de ar. Dizem que eles erraram e essa bomba explodiu ao lado do apartamento de Kurt e Rachel. Foi um amigo meu que trabalha na empresa de tecnologia da cidade quem disse, que eles forneceram a polícia com algumas dessas, mas que isso não pode ser divulgado, sabe?"
"Mesmo? Não sei dessa bomba, mas não me surpreenderia em ver o vigilante rondando o apartamento de Rachel" – apesar de jogar contra a imagem dos vigilantes, o objetivo de Matt era afastar a imagem deles de Santana e da manifestação de poderes de Rachel. Se pudesse criar essa imagem em Finn, teria cumprindo um objetivo.
"Dizem que era ele quem circulava por lá..."
"Matt, vou aproveitar que você ligou para te pedir apoio em uma coisa. É sobre Santana."
"O que tem ela?"
"Ela causou um problema muito grande e alguns de nós a querem fora do grupo."
"Alguns de nós quem?"
"Eu, Puck, Mike, Kurt" – ele não tinha falado com Kurt, mas Matt não poderia saber – "Tenho certeza que você poderia nos apoiar. e que você poderia convencer Quinn a fazer o mesmo."
"Vou conversar com ela."
"Isso, seria mesmo importante. Santana é problema, uma desagregadora que só tem apoio daqueles dois amigos dela."
"Quem?"
"Artie e Mercedes. Nada contra Artie, mas Mercedes é uma criadora de caso também. Mas é bem mais tolerável."
"Ok, Finn, vou falar com a minha garota. Obrigado pelas notícias."
Matt desligou o telefone. Estava enjoado. Sempre considerou Finn Hudson um bom sujeito, mas a face vingativa dele era mesmo perniciosa. Olhou para o relógio. Ainda dava tempo de passar em casa antes de levar Quinn e Beth para almoçar fora.
"Quero dois desses filés" – Santana sorriu ao garçom e depois para o companheiro na mesa.
Grant balançou a cabeça. A colega vigilante era incorrigível quando se tratava de comida, em especial quando não teria de pagar por ela. Estavam no restaurante usual dos vigilantes. Pelas circunstâncias atuais, não seria bom fazer encontros naquele lugar, mas como resistir ao melhor filé acebolado da cidade?
"Você tem estômago de elefante" – Grant resmungou.
"Muita energia para repor" – acomodou-se na cadeira – "Fiquei surpresa com o seu convite. Não esperava."
"Você sabe que a turma quase toda estará em ação hoje."
"É eu sei. Artie disse... o grande encontro. Qual vai ser a minha parte?"
"Ia sugerir para você ficar em casa e passar um tempo com aquela sua namorada... qual o nome dela mesmo?"
"Jenny?"
"Essa!"
"Lógico que você tem um porém, porque você não me chamaria aqui e falaria para ficar quieta sabendo que eu não conseguiria."
"Aí é que está, San. Eu realmente preciso que você fique em casa, de preferência com testemunhas. Vá namorar um pouco, estudar, fazer uns projetos que eu sei que você adora. Faça qualquer coisa, mas não saia as ruas."
"Por um acaso meu nome está em risco? É sobre aquela modelo que você dormiu e descobriu ser uma espiã?"
"Talvez. Olha San, eu não gostaria de te deixar no escuro, mas se o encontro com o chefe hoje for bem-sucedido, prometo que teremos paz por um longo tempo. Então confie em mim e fique em casa quentinha numa cama com a sua namorada."
"Vou tentar..." – não estava certa se conseguiria. Odiava ser deixada às escuras, mas tentaria levar o pedido seriamente em consideração.
"Então, como está Rachel?"
"Melhor, eu acho. Hoje começamos com o tai chi e ela se deu bem. É uma longa caminhada para ela. Talvez maior do que foi para nós porque, sinceramente, o dom dela é um pouco mais complicado. Projeção de energia com sério impacto e alta probabilidade de causar estragos."
"Acha que poderá treiná-la?"
"Não é você quem fará isso num segundo momento."
"Ela tem em você a figura da mentora."
"Eu acho que essa figura deveria ser mais imparcial para o bem dela."
"Não vai me dizer que..."
"Eu e Rachel temos um rolo? Não sei se chega a ser isso, mas nosso status de relação é bem confuso. Ela tem um namorado de longa data que é um idiota, mas que o ama, de qualquer forma. Eu não diria que sou alguém compromissada, mas Jenny está na minha vida. Está há bastante tempo de um jeito disfuncional."
"Complicado. Ainda assim, tenho certeza que é qualificada para treiná-la e a tantos outros. Você tem potencial para ser uma líder, San. Só precisa focar nas prioridades."
"Acha mesmo?"
"Tenho certeza."
Os dois almoçaram em paz. Santana devorou o prato enorme e Grant se satisfez com uma salada volumosa. Despediram-se com um abraço e Santana resolveu seguir o conselho do amigo e passar o resto da tarde com a namorada. Grant precisava se preparar. Ele foi para a casa, parcialmente desarrumada, pois não teve tempo de refazer do estrago. Enviou alguns e-mails e falou com os pais. Combinou jantar na casa deles assim que possível.
Então preparou-se para o encontro. Colocou roupas de vigilante, porque atuaria como um. Era direito ter tal identidade. Pegou o carro e dirigiu-se até o local combinado. Colocou a máscara e subiu no segundo andar de um galpão que ficava no setor industrial da cidade. Recapitulou cenas da própria história do grupo, dos treinos, dos chamados, da inclusão de cada um. Controlou a respiração, colocou a mochila no chão e fechou a porta.
"Fiquei a pensar em quanto tempo você começaria a agir diante da debandada do grupo" – procurou controlar o tom da voz – "Uma vez que desejou a morte de Santana, pensei que o seu primeiro golpe seria deferido contra ela, mas confesso que suas ações em mandar uma espiã para cima de mim foram surpreendentes."
"Santana é o coração do grupo" – o chefe admitiu, como de costume, projetando o pensamento na mente do ex-pupilo – "Ela representa a paixão pela missão. Hoje tenho consciência disto e confesso que errei ao subestimar o papel dela. Mas se ela é o coração, você é o cérebro. Bom, você leu minhas observações e deve saber disso."
"Correto!" – Grant sorriu – "Você tentou arrancar nosso coração e não deu certo. E se surpreendeu quando o cérebro iniciou o contra-ataque e fez com que o restante do grupo ficasse ciente de tudo. Pode confessar, de mestre para o primeiro aluno, você está confuso pela primeira vez em anos."
"Dificilmente" – os dois começaram a andar em círculo, como se estudassem – "O coração é o grande motivador, mas ele não funciona direito sem o cérebro: você."
"O cérebro morre, mas o coração ainda pode manter o corpo vivo por um tempo, mas como um vegetal. Não dura muito se estiver fraco. Então essa é a metáfora que você quer se agarrar, correto?"
"Gostaria de provar uma teoria" – o chefe continuou a andar num círculo imaginário com Grant procurando manter a distância – "É por isso que o grande confronto acontece aqui."
"Não estarei sozinho por muito tempo."
"Eu sei. Acha que eu não decifrei o seu plano? Expor toda a sujeira e provocar a benéfica crise de governo, ganhar apoio popular e passar a agir com respaldo. É ousado que pode tanto funcionar brilhantemente, quanto ser um tiro no pé... ou na cabeça."
"Tudo o que você não quer."
"Depende de como eu movimentar as peças."
"Você não tem mais os próprios documentos. O coração, sem querer, te tirou o acesso porque você pode ser um telepata, mas sua capacidade de memória está dentro da normalidade, o que deve ser muito frustrante."
"Para quem os mandou?"
"Eu os destruí. Não há mais nada, evidencia alguma. Acabou."
"Cometeu um grande erro, Grant Fish" – a voz de Martinez ecoou irritada pelo galpão.
"Sou um matemático, Martinez. Sou exato."
Grant lia movimentos como se fossem equações matemáticas instantâneas. Ele mantinha a forma física para conseguir reagir com a velocidade e força precisa. O chefe era um adversário venerável. Era ágil apesar da considerável massa muscular. No alto dos 40 anos, tinha braços fortes, abdômen definido, e uma vasta experiência em artes marciais. Grant também era um lutador e um bom ginasta. Era preciso para o que ele fazia dentro dos vigilantes. Os dois se estudaram. A concentração era total. Grant prestava atenção para possíveis armas de fogo e qual seria a melhor forma de escapar. O chefe movimentou-se de modo que ficou entre Grant e a porta de saída. Havia mais um janelão. Analisou rapidamente as possíveis rotas de fuga.
O chefe foi o primeiro a avançar. Grant, como era o esperado, desviou do soco e deu um contragolpe preciso, porém não forte o bastante para derrubar alguém com massa corpórea maior.
"Sempre foi o meu parceiro de treino favorito" – Martinez sorriu.
"Fico lisonjeado" – Grant movimentou-se e tentou trocar mais alguns golpes, mas o chefe estava atento a estratégia dele em ganhar a porta.
Grant procurou girar socar e partir para o ataque, o chefe conseguia o defender e, quando o acertava, conseguia desequilibrar o ex-pupilo de corpo mais esguio. Seria vantagem para Grant levar a briga o maior tempo possível, nem tanto por causa da resistência física maior, mas também por causa da chegada dos amigos que possivelmente afugentariam o chefe. Mas os golpes começavam a vir mais pesados e ele tinha dificuldades de se esquivar. Numa confusão mental, o chefe lhe acertou um violento soco na boca, que o fez cuspir sangue.
"Interessante" – Grant deu três passos para trás e passou a mão na boca – "Usando a sua telepatia para tentar obscurecer a minha capacidade de ler seus movimentos."
"O tempo de uma briga limpa acabou."
Avançou com mais decisão e violência. Grant lutava o melhor, torcia pela chegada dos amigos, mas derrotar o chefe estava difícil. Por mais que ele pudesse ler os movimentos, o corpo dele já não dava condições para que ele se esquivasse e contra-atacasse. Num avanço infeliz, levou um doloroso soco nas costelas. O chefe o puxou pelo cabelo e deu uma joelhada na coluna. Grant caiu no chão. Estava indefeso. No seu campo de visão embaçado, viu o chefe por cima dele, em pé, com um revolver em mãos.
"Por respeito a você, meu primeiro aluno, uma morte rápida" – disse com a própria voz, mesmo que abafada sobre a máscara – "Foi um prazer."
Quando Matt, devidamente mascarado, chegou trazendo consigo Mercedes, o grito de horror foi inevitável. Eles chegaram atrasados. Martinez encarou os dois ex-aliados antes de fugir. Limpou algumas lágrimas, pois não era de ferro, lamentou por ter encerrado a vida de um dos discípulos mais queridos e promissores, porém perigoso. Sabia que dentro dos planos que tinha, Grant dificilmente conseguiria chegar até a fase final. Agora, havia todo um grupo desperdiçado e quase dez anos de trabalho jogados fora. Dirigiu até um bar e lá encontrou com o policial e Harmony sentados numa mesa reservada.
"Conseguiu reaver os documentos?" – Harmony cobrou.
"Eles se foram para sempre. Tudo que sei, minha cara, é que estamos perdidos. Se eu fosse você, aproveitaria este vinho porque acredito que perdemos."
"Eu não vou aceitar isso!"
"Faça como quiser minha cara. Tudo que sei é que eu quero morrer."
