Srt. Maga - Aparentemente Frigga meditou sobre o assunto, fez uns cálculos no calendário e percebeu que Heimdall merecia uns tapas pela omissão... ou mesmo tempo ele não podia apanhar muito, afinal tentou compensar um pouquinho o erro. Já o bode velho do maridão, não fez nada e ainda negou o pedido de Frigga... mas deixa, pode deixar que o que é dele tá guardado aqui ó. Pois é, guerreiros, assassinos e todo de tipo de criatura habitando uma simpática lojinha de roupas e agora lutando pelo nosso querido príncipe. O único problema é que esse pessoal é eficiente demais no serviço '-'... ai ai.

Guest - Bem... faz parte né? =/

Elisa Day - Nha, fazer a citação foi um prazer! Ainda quero arranjar espaço para colocar uma sessão de terapia entre os Vingadores kkkk. Ahnn... ok, todo mundo diz que tenho um fraco por spoiler e que não consigo ficar de bico fechado... mas não resisto! Vou dar uma dica, uma dica que espero não atrapalhar em nada: a reviravolta diz respeito a pessoas que fizeram acordos com os alfaiates da Sweet Poison... não posso dizer mais que isso *bate com a testa na parede*. Falando nesse pessoal simpático... acho que a Frigga estaria mais segura com um cão de três cabeças, se bem que a diva deu sorte de eles estarem do lado dela (e adorei essa de "tá no inferno abraça o capeta" kkkkk). Então, a nossa linda rainha contou para o maridão sobre as memórias de Loki, mas o velhote acha que ela foi enganada e, partindo disso, Frigga nem se deu ao trabalho de gastar saliva com o conselho, porque eles provavelmente dirão o mesmo. Sobre Heimdall, concordo!, apesar de não poder culpá-lo totalmente, afinal o homem tem um juramento à cumprir. Ah, as norns, esse é um ponto "interessante" *pose do Sr. Burns* e vai ficar claro com o tempo o que elas tem a ver com a história. Assisti aos Guardiões sim! E cheguei a conclusão de que, para terminar essa fic corretamente preciso de tempo, um computador novo e a perna daquele cara (Rocket seu lindo vem cá! *v*). Mas falando sério, o filme me deu umas ideias bem legais e alguma podem realmente me dar uma mão aqui ^^ (especialmente sobre o esconderijo do Thanos).

Lis Martin - Confesso que Xxx Holic foi a principal referência para a loja... mas o pessoal que trabalha lá vem de uma outra fonte. Não dê asas a Frigga, ela ainda não descartou totalmente a ideia de praticar suas habilidades de corte e costura. Huhu, quando o circo estiver armado vai ser hora de tacar foco e ver o que vai rolar.

Diadorim - Como dizia Drummond "tinha uma pedra no meio do caminho", e a pedra no caminho da Frigga se chama Odin. E você acertou em cheio, porque o velho pensa que das duas uma, ou Frigga enlouqueceu ou está sendo manipulada, e por isso se recusa a ajudar. Frigga poderia tentar mostrar as memórias de Loki, mas temos que lembrar o quanto a magia é desgastante e perigosa, e desconfio que a mulher não está com humor para compartilhar nada com o marido além de tapas. A rainha diva é uma boa mãe quando se trata de proteger seus filhos. Sobre o pessoal da Sweet Poison só posso garantir uma coisa: se aceitarem o pedido Thanos vai precisar de algo mais forte que as Jóias do Infinito para pará-los. Estivesse pensando nisso; Loki e Steve fazem uma combinação adorável em muitos aspectos (Loki e Bruce também, mas seria complexo lidar com o Hulk, embora... talvez... *entra em estado catatônico imaginando coisas*). '-' e a cada dia fica mais difícil manter o foco na monografia.

LuyCastro - Para começar: hey, olá! Legal te ver aqui! =) Então... eu adorei escrever sobre o Vingadores, me diverti muito brincando com o Loki e concordo que Steve dando abraços é simplesmente tudo de bom! Nhaa, obrigada! *e não levei a mal não, de boa XD*, mas tenho que admitir que parte dos créditos pelas torturas deve ser dado a minha Cobaia (amiga que ouve e colabora com ideias).

PS: Não se preocupe, apesar de não parecer eu não tenho estômago para por algo como isso em prática... sou do tipo que chora junto de criança quando cai e rala o joelho kkkkk.

E, depois de mais uma demora épica para postar, finalmente chegou mais um capítulo *dá um sorriso apaziguador igual a político no dia da eleição*.

Gosto de tirar os fins de semana para escrever, mas me inscrevi numa capacitação para aulas de matemática (porque sou péssima nisso) e isso está pegando o tempo livre; e minha amada orientadora resolveu, depois de tanto tempo e labuta, dizer que meu tema é "inconsistente", o que está me rendendo viagens extras a bibliotecas para arrecadar material para alegrar a mulher - porque nem no inferno vou refazer as entrevistas e questionários. Só não pergunto o que falta acontecer porque não tou com vontade de descobrir D=.

Mas vamos esquecer essa parte chata e partir para o que interessa, porque muitas coisas estão prestes a acontecer e muita gente precisa dar um "oi" para amarrar umas pontas soltas antes que o fim chegue (e sim, eu tinha escrito "antes que inverno chegue", porque sinto falta de GoT e preciso do Tyrion para me fazer feliz). O capítulo também ficou maior que a média, mas acho que tá valendo ^^.

Divirtam-se!


Confinada na solitária saleta lúgubre a deusa tentou manter a apreensão e a impaciência afastadas ou, no mínimo, controladas; atividade deveras infrutífera quando seu cérebro tinha liberdade ociosa suficiente para desdobrar imagens pouco amigáveis de seus piores temores se concretizando.

Pensou em Heimdall. O guardião a vigiara durante todo o percurso e, se Eduarda falara a verdade, provavelmente a perdera de vista no exato momento em que entrara na pequena lojinha de roupas daquele simpático e insuspeito bairro comercial. Era fácil adivinhar que seu desaparecimento, se anunciado, não apenas levantaria suspeita, como poderia desencadear conflitos na corte e, caso não retornasse, uma violenta guerra contra Midgard que irremediavelmente envolveria seus filhos e os Vingadores.

Depois se lembrou de Odin. Se a fúria de Frigga fosse menor realizar o feitiço e partilhar memórias seria fácil, resolvendo parte dos problemas... mas, infelizmente, todo o sentimento da soberana estava concentrado na vontade de esfolar o marido vivo e isso, ela tinha quase certeza, poderia atrapalhar um pouquinho o encanto. Talvez, com algumas palavras bem colocadas, conseguisse convencer o velho rei a banir Loki para Midgard. Seu filho estaria seguro sob a tutela dos Vingadores, protegido das más intensões do conselho. E, no caso de Odin negar o pedido – coisa que ela prazerosamente imaginava às vezes – a discussão podia se tornar violenta e um dos dois acabaria com uma lança cravada no peito, ou uma espada atravessada na garganta, ou um machado partindo o crânio em dois – e esse era seu cenário favorito.

E por fim a deusa recordou, com um suspiro assaz melancólico, que seus planos e receios podiam se efetivar ou fenecer dependendo da disposição dos excêntricos funcionários da Sweet Poison. Tudo dependia da boa vontade dos "alfaiates"... e do preço que cobrariam por seus serviços.

Se é que planejavam negociar e não somente capturá-la naquela sala vazia.

Querendo afastar-se dos pensamentos perturbadores trazidos à tona pela insólita situação Frigga esquadrinhou a saleta penumbrosa, buscando nos poucos metros visíveis qualquer sinal de vida ou perigo. Percebeu pela primeira vez o piso de ladrilhos lustrosos e coloridos sob seus pés e seguiu as dançantes partículas de poeira pairando no ar. Deu-se conta, surpresa, que a pouca luz existente incidia diretamente sobre ela, formando um circulo difuso de aproximadamente cinco metros de diâmetro. Sua cadeira estava exatamente no centro dele.

Acima de sua cabeça, silencioso como a morte, havia um relógio descomunal. Os pesados ponteiros de ferro fundido contrastavam com os delicados caracteres romanos feitos em bronze. O grosso vidro fosco, trincado nas bordas e ligeiramente sujo, impedia uma visão clara do céu acima. Os grandes ponteiros indicavam 12 horas, 32 minutos e exatos 30 segundos.

Frigga sentiu um friozinho no estômago e um aperto inquieto no peito.

Os ponteiros inertes a incomodavam.

Ela contou os segundos, viu-os se transformar em minutos, e desistiu quando uma hora inteira estava prestes a passar. Com o ranger suave o longo e fino ponteiro dos segundos avançou uma casa.

"O relógio está quebrado!", concluiu menos alarmada. O tempo continuou passando e, após quase uma hora, o ponteiro dos segundos executou outro movimento. "Mas por que manter um relógio quebrado aqui? No mínimo podiam concertá-lo.", meditou satisfeita por encontrar um enigma em que pensar.

É lógico que havia feiticeiras habilidosas e artesãos formidáveis entre os alfaiates da Sweet Poison, então, logicamente, ter um relógio defeituoso não fazia sentido. Partindo desse ponto o aparelho não estava quebrado, mas sim medindo o tempo numa frequência diferente... ou tornando o tempo uma coisa diferente.

Os olhos da deusa ampliaram de curiosidade, observando mais atentamente os números, os ponteiros e o vidro embaçado.

– Oooi! – alguém cumprimentou de repente.

Grata por haver disfarçado graciosamente o susto, demonstrado num sutil ofego e na rápida contração das mãos, Frigga baixou o olhar para quem falara.

A garota parada a sua frente tinha um sorriso simpático, embora claramente zombeteiro, e os cabelos longos e lisos faziam um par agradável com o gorrinho preto tricotado que usava. Na lapela do casaco o crachá a apresentava como Rain.

– A gente demorou muito? – a mocinha perguntou puxando uma cadeira da área não iluminada e sentando-se a poucos passos da rainha.

– Eu diria que algumas horas. – respondeu esquecendo-se da diplomacia. – Contudo... seu relógio diz que foram apenas alguns segundos.

– Ah, você notou? – ela parecia legitimamente contente. – Ele mede o tempo no tempo da existência. Demora um pouquinho pra pegar o ritmo, mas depois é moleza. Se você conseguir passar dois dias inteiros aqui seu tempo de vida quadruplica. O máximo que consegui foram 8 horas. É muito entediante, principalmente porque aqui não tem sinal de internet. – antes que Frigga pudesse perguntar o que seria "internet" Rain cruzou as pernas e reclinou-se na cadeira. – Agora que estamos todos aqui podemos começar.

– Todos quem? – Frigga inquiriu surpresa.

– Todos nós. – respondeu uma voz na escuridão.

A fonte da luz mudou. Uma agradável luminosidade alaranjada preencheu a escuridão e Frigga percebeu, entontecida, que a saleta era muito maior que o imaginado. Longas arquibancadas de madeira clara se erguiam ao redor de onde estava. As fileiras subiam a perder de vista, ficando quase na altura do relógio. Todos os acentos estavam ocupados.

Dezenas de rostos convergiam para a deusa e pela primeira vez em sua longa vida Frigga compreendeu a sensação impotente, atordoante e assustadora de estar sendo julgada.

"Isso é loucura! Não estou sendo julgada. Isso faz parte da negociação.", dizia a si mesma, embora a sensação persistisse sem dó.

– Agora vamos ouvir o que deseja, seus motivos, e descobrir o que podemos fazer por você. – Rain afirmou acenando para que tomasse a vez.

– Loki, meu filho, foi... ferido. – alegou relutante. – Desejo vingá-lo.

– Vingança é bom. – Rain aprovou, sendo seguida por um coro de vozes sussurradas. – Contra quem é a desforra, exatamente?

– Thanos e seus asseclas. – informou com firmeza.

– Thanos e seus asseclas. – a mocinha repetiu meneando a cabeça.

– Se é assim, – contestou suavemente uma moça de cabelos castanho-acobreados identificada com Kristen. – por que Odin não mobiliza seus próprios soldados?

A pergunta agulhou dolorosamente a deusa. Não culpava Kristen pela questão, mas não podia deixar de sentir desgosto pela resposta que seria obrigada a dar, afinal jamais confessaria os dramas particulares da pouco honorável família real de Asgard e para manter a discrição seria obrigada a mentir.

– A localização de Thanos foge ao conhecimento de meu marido e meu. – explicou fazendo o melhor esforço para contornar o verdadeiro motivo. – E o risco de quebrarmos tratados é demais para tentar...

– Ou então seu marido não acredita que a retaliação seja necessária. – alguém na multidão apontou. – Talvez ele não ache que o jovem príncipe mereça esse tipo de sacrifício. Quiçá sequer acredite que algo mau lhe aconteceu.

A tranquila veracidade daquelas palavras, arrancada tão rápida e acertadamente de suas meias verdades, atingiu Frigga em cheio. Até parecia que aquelas pessoas conheciam a história de sua família intimamente...

A deusa estremeceu e descartou a ideia.

– Nós podemos providenciar a vingança que deseja para seu filho, Rainha Frigga. – asseverou uma mulher de grandes olhos castanhos. – Sem tratados rompidos. Sem danos permanentes para qualquer pessoa que não deva ser atingida. Sem rastros. Trabalho completo e executado a perfeição.

Sinistros sorrisos lupinos espocaram nas arquibancadas como se a ideia de guerrear e destruir inimigos – mesmo desconhecidos – os divertisse grandemente.

Rain pigarreou trazendo a atenção da deusa para si.

– Considerando que seu pedido foi aceito, precisamos estabelecer a forma de pagamento.

– Pagarei o preço que quiserem! – prometeu.

"Eu entregaria todo o ouro de Asgard se pedissem!", pensou na completa euforia.

– Calma aí, beleza. – uma mão pesada descansou em seu ombro.

Uma nobilíssima mulher, quase tão alta quanto Heimdall e esquia como junco, postou-se à esquerda de Frigga. Os longos dedos calejados apertavam seu ombro com gentileza, embora a armadura de guerra esmeradamente polida e a espada presa à cintura falassem de guerras terríveis e anos sombrios. Os cabelos escuros como a noite estavam polvilhados de pequenos cristais coloridos e um sorriso camarada adornava os lábios carnudos, transmitindo uma sensação de discreta benevolência.

Outra mulher postou-se à direita da deusa. Sua vestimenta era uma mistura de sedas claras e suaves com couros escuros resistentes e flexíveis. Luvas de pele de dragão protegiam suas mãos e diversas adagas podiam ser avistadas afiveladas aos cintos e ligas que usava. Seus olhos de um tom impar de violeta formavam um quadro bonito quando alinhados aos cabelos cheios de mexas coloridas. A postura displicente da guerreira não disfarçava a elegância natural de seus gestos ou a arrogância discreta de seu sorriso. Se arriscasse um palpite Frigga a teria apontado como uma nobre ou mesmo uma princesa de algum reino esquecido.

A presença de ambas desassossegou a deusa tanto quanto a serenou.

– Ratificado: nós podemos rastrear Thanos, capturá-lo e dar uma boa amostra da velha justiça de talião – Figga não sabia quem era "Talião", mas supôs ser algum sábio das leis altamente respeitado. – E podemos, é claro, acabar com todos os asseclas do vilão sem problemas.

– Mas, – agora era a mulher de cabelos coloridos quem falava. – o preço precisa estar à altura do que pede. Ouro não compensa e para nós não vale nada, assim como para você não seria esforço algum dispô-lo. – Frigga prendeu a respiração. – E pedir uma vida em troca não é divertido.

– Dá uma sensação de finitude muito frustrante. – a amazona de cabelos negros deu uma piscadela reconfortante para a deusa.

– Por tanto vamos exigir de você algo que considere valioso, algo que nos agrade tomar e não cause danos reais a ninguém em especial. – continuou a outra, abaixando-se para ficar na altura dos olhos de Frigga. – O que você mais quer no momento, aquilo que anseia mais que tudo, é estar ao lado de seus filhos... particularmente estar ao lado de Loki, conseguir seu perdão e protegê-lo de todos os males do mundo.

– E é isso o que tiraremos de você. – sentenciou a amazona em tom definitivo. – A partir do momento em que retornar à Asgard não poderá se encontrar com Loki sob nenhuma circunstância, exceto em seu leito de morte... seja qual for o azarado a morrer primeiro.

A dor esmagadora em seu coração roubou-lhe o fôlego e Frigga saltou da cadeira, afastando-se de ambas as mulheres enquanto olhava desesperada para os espectadores. Cada rosto na arquibancada espelhava um misto de simpatia e resignação, uns poucos mostravam aberta satisfação como veredito, mas ninguém tencionou ajudá-la.

– Não... – gemeu e com um pouco mais de força repetiu: – Não!

Lágrimas amargas pinicaram seus olhos.

– É pegar ou largar. – Rain deu de ombros.

"Não podem me afastar de meu filho! Vocês não tem esse direito! Não é justo!", ela queria gritar, mas tudo o que saiu de sua garganta foi um soluço estrangulado. Por que precisava fazer tamanho sacrifício para manter Loki a salvo? Por que aquelas mulheres não entendiam o quando precisava estar lá, em Midgard, fazendo o que uma mãe deveria fazer?

– Uma mãe, ou um pai de verdade, não coloca sua vontade acima do bem-estar de seus filhos, venerável soberana. – afirmou uma garota de cabelos prateados sentada na primeira fila da arquibancada. – Existem sacrifícios monumentais que apenas você pode fazer e entender.

Aquelas palavras calaram fundo na deusa e ela recordou, com um sentimento agridoce, a última memória que tinha da visita à mente de Loki.

A derradeira reminiscência do malandro relativa aos Vingadores acabara de encerrar quando Frigga se deu conta de um detalhezinho curioso, tão ínfimo que ela quase o deixou passar em branco.

Durante a desconcertante conversa truncada que Loki tivera com Banner tornou-se evidente que o malandro reconhecia a existência da criança que perdera durante o cativeiro entre os chitauri; e é bem verdade que tal reconhecimento o levou a um colapso nervoso violento, mas estava tudo ali, claro como o dia.

Envolta pelo confortável vazio, livre para pensar com frieza, a deusa percebeu que não era a primeira vez que Loki dava sinais de recordar do bebê. Houvera a breve despedida, quando ele partira após traçar seu plano de fuga.

Ele lembrava.

E isso ia de encontro ao que o Guia afirmara.

Como poderia ter desgastado tanta magia suprimindo aquelas memórias e ainda assim recordar de um elemento tão pungentemente cruel?

Seus olhos chisparam para a figura esfumaçada.

– Você mentiu! – acusou.

– Menti?

– Disse-me que havia bloqueado todas as memórias de Loki, mas ele ainda se lembra da criança.

O Guia inclinou a cabeça, pensativo.

– Eu jamais poderia me esquecer dela ou dele, minha senhora. – disse tão mansamente que Frigga envergonhou-se da acusação. – É-me impossível amar aquela criança, e, todavia, recuso-me a esquecer dela. É meu único capricho.

Adotando um tom mais ameno a deusa contestou:

– Capricho perigoso manter uma memória dessas à solta. Que acha que acontecerá quando Loki começar a questionar como perdeu a criança, ou como veio a concebê-la? Seu feitiço ruirá e tudo estará perdido. – suspirou. – Apenas oculte. Amarre essa memória com todo o resto. É mais fácil e menos dolorido.

Houve um silêncio profundo na escuridão antes do Guia menear a cabeça.

– Minha senhora... talvez a única forma de mostrar algum tipo de afeto, seja sofrer por aqueles a quem não pode amar.

De forma perturbadora Frigga entendeu o que ele queria dizer, pois aquele era o tipo de sacrifício que apenas verdadeiros pais poderiam compreender.

O olhar da deusa endureceu. As lágrimas deixaram de rolar por seu rosto e o nó em sua garganta afrouxou. Os presentes notaram a diferença, e leves sussurros de apreciação correram o ambiente.

Se seu filho conseguira conviver com tamanho sacrifício apenas para homenagear aquela criança, por que ela não seria incapaz de atender as demandas daquelas mulheres?

"Desde que ele esteja a salvo, valerá a pena.", concluiu determinada.

– Aceito.

– Bravo! – aplaudiu Rain enquanto as outras duas mulheres fizeram mesuras respeitosas para Frigga. – Agora que tudo é oficial o destacamento que preparamos já pode sair.

– Espere! Como vocês sabiam que eu concordaria?

– Mãe é mãe. – Rain ajeitou o gorro e levantou. – E nós ainda temos uma oferta especial.

– Que tipo de oferta...? – perguntou relutantemente.

– Ah, o tipo de oferta que você não vai resistir. – ela passou o braço sobre seus ombros. – Encare como um bônus especial para primeiros clientes.


Horas atrás os últimos resquícios de luz solar desapareceram no horizonte, levando consigo o cálido brilho dourado enquanto tingia o firmamento com tons suaves de laranja e rosa. Ao leste o manto noturno se desdobrava pacificamente, as diminutas estrelas competiam ferozmente com as luzes artificiais da cidade, embora estas nem em mil anos fossem capazes de arrancar suspiros apaixonados.

Afundando o rosto na delicada gola do casaco de zibelina e movendo os pés para afastar a friagem noturna, Puella imaginou que faltavam duas coisas importantíssimas para aquele pôr-do-sol ser perfeito. Coisas bastante singelas, mas que teriam dado um tom especial ao momento.

Em primeiro lugar, faltavam nuvens. Indiferente de estarem em aglomerados dispersos ou unidas em gloriosos torreões obscuros, o efeito de um bom punhado de nuvens ao entardecer sempre seria digno de nota. Quando coloridas em tons suaves de rosa, Puella sabia que a chuva cairia na madrugada; se adquiriam tons "laranja-enferrujado", a noite seria fria e seca; e, claro, havia dias misteriosos, em que as nuvens se manteriam teimosamente cinzentas até o sol partir. Nuvens sempre seriam um diferencial nessas horas.

E, tão importante quanto o primeiro item, estava o segundo ponto: na opinião de Puella faltava uma boa companhia. Um crepúsculo tão belo só poderia ser devidamente apreciado quando se está ao lado de um companheiro igualmente agradável. Ela até sabia onde encontrar essa pessoa. Ele estava – na melhor interpretação de conto-de-fadas – no alto de uma grande torre, protegido como o príncipe que era, cercado pelo grupo de lunáticos possessivos mais carinhos que já tivera o prazer de pôr os olhos. O príncipe trapaceiro de Asgard seria uma companhia adorável naquela tarde... pensando bem, todos os lunáticos presentes na Torre Stark seriam uma boa pedida se comparada a solidão friorenta de seu posto de vigilância.

Não que estivesse reclamando de sua tarefa. Tanto pelo contrário! Puella adorava assistir as reviravoltas ocorridas entre os Vingadores, a S.H.I.E.L.D. e os herdeiros de Asgard. Ela se divertia muito com tudo aquilo... mas... Há momento na vida em que ser um mero observador cansa a paciência.

De repente a pressão do ar mudou, ficando tão intensa que machucou seus tímpanos e a fez recuar até encostar-se à amurada do prédio.

– Argh! – grunhiu movendo o maxilar para aliviar o desconforto. – Você costuma ser mais delicada com seus portais Ju...

– Desculpe. – a voz cantante respondeu. – Fiquei um pouco nervosa.

Puella encarou a colega de armas. A mulher de vivazes olhos castanhos ostentava o mais amplo dos sorrisos e mal conseguia conter a animação. Às suas costas estava Helena, o machado de guerra devidamente afiado, cintilando ameaçadoramente em suas mãos; e Thalita, vestida no melhor visual gótico, a negrura acetinada do vestido ressaltava a brancura dos cabelos prateados. Um pouco mais afastada March olhava para as estrelas, o quimono branco e a tez pálida a deixavam parecida com algum espírito vingativo do folclore japonês, enquanto Lady Viper inclinava-se na borda do prédio, estreitando os olhos para enxergar qualquer coisa na famigerada Torre Stark.

– Se vocês estão aqui, então Frigga...

– Ela topou o acordo. – confirmou Helena. A voz naturalmente rouca acrescentou um quê sarcástico à resposta. – Queen liderará um grupo para atacar e capturar Thanos. Sohan e um destacamento maior caçarão os chitauri que puderem encontrar. Quando tudo estiver acabado Polarres e Key apagarão nossos rastros e teremos que desaparecer.

– Parecem missões simples. – observou Puella entre surpresa e desapontada.

– Não se engane. – March advertiu languidamente. – Aquela pessoa separou grupos menores para missões extras. Assuntos confidenciais, segundo ela. Não sei o que pretende... mas tenho um pressentimento sobre isso.

Puella se esforçou para conter o estremecimento de medo. Convivia com March tempo o bastante para saber que, qualquer que fosse o "pressentimento", ele penderia inexoravelmente para a pior hipótese possível... sempre com a probabilidade de 100% de acerto.

– Certo... vou tentar pegar uma vaga com Queen... se não der, quero ao menos a chance de chutar alguns chitauri.

Num gesto ao mesmo tempo firme e fluídico Puella afastou as mangas do casaco revelando o afiado katar preso ao seu pulso direito e libertando a lâmina oculta na mão esquerda.

– Sortuda... – Helena rezingou, embora não estivesse realmente com inveja.

– Nossa missão também é importante. – protestou Juliana.

– Mas não é tão emocionante quando chutar os chitauri. – a amazona bufou.

Puella deu uma tossidela interrompendo o curto debate.

– Ju, pode abrir um portal para mim? – pediu.

– Claro!

Com os dedos Juliana traçou no ar o que deveria ser uma porta. Mais alguns desenhos invisíveis foram acrescentados e Puella sentiu, numa escala menor, a mudança na pressão atmosférica quando o portal se abriu numa distorção suave da realidade.

"Eu nem acredito no quanto aguardei esse momento!", vibrou eufórica avançando para a maior guerra anônima que o universo jamais presenciara.


O portal fechou com um barulhinho muito semelhante ao de uma rolha sendo puxada da garrafa e Viper espiou por cima do ombro a tempo de ver Juliana agachar-se e desenhar no chão o selo de fechamento – uma garantia de que ninguém abriria o portal por acidente ou conseguiria rastreá-lo propositadamente. Tais preocupações e cuidados mostravam-se necessários quando seus colegas de trabalho eram foragidos intergalácticos ou entidades semidivinas imemoriais que teoricamente deveriam estar mortas.

Elas entendiam bem a necessidade de serem cautelosas. A quantidade de magia, conhecimento, energia e poder que possuíam e acumularam ao longo dos anos transcendia a compreensão da maioria das criaturas existentes, fossem elas imortais ou não, e as chances de psicopatas perseguidores tentarem exterminá-las por considerá-las uma ameaça ou déspotas as capturarem para realizar planos insanos de conquista universal era grande demais para ser desprezada.

"Não que a gente vá morrer por uma besteira dessas,", Viper descartou sem hesitar, "mas sempre é um saco ter um batalhão de idiotas correndo atrás da gente quando estamos tentando ter um jantar romântico". Ela sabia por experiência própria o quanto isso podia ser inconveniente. Acreditem ou não saltar da janela do Trump International Hotel and Tower* e reaparecer inteirinha na casa do namorado causava uma impressão muito negativa.

O vento disparou prédio acima, despenteando os cabelos de Viper e trazendo consigo os sons dissonantes de buzinas estridentes, saxofones chorosos e risos despretensiosos. O tipo de combinação que a fazia sonhar com cantores de jazz e longas noites sob o neon.

Afastando-se da borda ponderou, compenetrada, se deveria ter desejado à Puella boa sorte na luta, fosse esta contra Thanos ou os chitauri. O gesto teria sido muito bem-vindo e simpático... todavia, entre elas, com pessoas como elas, essa genérica despedida teria soado como um "formalismo educado" e não o desejo sincero pela segurança de uma amiga; afinal, as chances de qualquer uma delas precisar de "sorte" para cumprir uma missão eram nulas.

Sorte não tinha nada a ver com o que faziam.

Thalita postou-se ao lado de Viper. Os olhos da pequena, dotados de tons suaves de vermelho-rosado, percorreram as janelas da Torre do primeiro ao último andar antes de se deterem numa janela bastante específica. O quarto de Loki.

– Podemos ir agora. – anunciou ao cabo da inspeção.

– Sério? – a amazona franziu a testa. – Durante minha vigília Tony e Bruce tinham horários de sono irregulares, e Loki não dormia antes das dez.

– Os Vingadores estão distraídos no momento. – informou Thalita com total confiança. – Natasha e Clint estão discutindo com Fury no telefone. Os outros envolvidos num debate acalorado numa sala à parte. Loki está sozinho no quarto. Está entrando no estágio quatro do sono NREM**, se quiserem saber.

As quatro mulheres encararam a quinta com curiosidade, esperando o complemento da informação; porque, sim, era maravilhoso saber onde estava quem naquela Torre, mas nada nas palavras de Thalita explicava por qual motivo Loki se recolhera mais cedo, nem o porquê de os Vingadores realizarem uma reunião àquela altura do campeonato, e muito menos dava dicas de qual assunto a dupla de agentes poderia estar tratando com Fury.

– Isso não ajudou muito, Thalita. – Viper resolveu interceder.

– Oh, desculpe. Bem, os Vingadores foram informados de que Loki permitiu a criação do sistema de segurança para desligar o Tesseract. – Thalita explicou e Helena rosnou um "finalmente" triunfante. – E...

– E...? – a amazona aguilhoou.

– Loki contou para Thor sobre o feitiço na adaga.

Helena jogou a cabeça para trás e lançou uma sonora gargalhada aos céus. March torceu boca num sorrisinho trocista e virou o rosto, o gesto mal disfarçando o tremor nos ombros pelo esforço de conter o riso. Viper mordeu o lábio para abafar a risada, seus olhos lacrimejavam e ela engasgava para conter o som. Juliana tinha o mesmo problema.

– Não é legal rir disso. – observou Thalita.

De fato, não era.

O que havia de engraçado em saber que o deus trapaceiro moldara um feitiço, lhe dera a forma de uma adaga e com ela apunhalara o próprio irmão no meio da batalha por estar desesperadamente tentando garantir sua fuga? Nada. Nadinha mesmo. Os risos indecorosos vinham por uma boa razão, no entanto. A belíssima piada dessa história estava no trovejante não se dar conta dos acréscimos feitos pelo irmão, ignorando com a genialidade de uma ameba a magia que fora misturada a seu sangue.

– Ah... falando sério agora. – ofegou Helena recuperando a postura. O rosto estava corado pelo riso. – Se Loki quisesse poderia ter envenenado Thor, ou inoculado algum vírus letal e assistir de camarote a praga atingir Asgard... ou ter enfiado a porra da adaga na garganta daquele lerdo.

Thalita parecia prestes a contestar, mas desistiu.

Seus argumentos se desvaneciam ao recordar que as sentinelas encarregadas de vigiar os moradores da Torre Stark perceberam o encanto suspeito no instante exato que o deus adentrou no prédio. É verdade que precisaram solicitar um favorzinho de Emmy – que fez um desvio gigantesco em seu itinerário e quase perdeu o rastro do motoqueiro pirado que desafiou Mefistofelis – para confirmar a natureza, o tipo e o criador do encanto.

E o esforço empregado nisso foi tão pequeno que até agora se perguntavam o que teria custado a Thor prestar mais atenção em si mesmo, ou porque os curadores de Asgard foram tão desleixados na vistoria.

– Esse é um bom ponto. – aprovou March e Helena estufou o peito. – Mas ainda não entendi o que Thor saber do feitiço tem a ver com Loki se recolher mais cedo.

– Thor considerou a novidade muito "chocante" e está ansioso para ouvir esclarecimentos e se redimir por seu engano. Isso seria ótimo... – um suspiro inconformado. – se Loki fosse capaz de responder sem chegar tão perto do limite. Foi sorte Tony e Bruce terem chegado a tempo.

A fanfarronice desapareceu como fumaça. Helena xingou todas as gerações de deuses nórdicos e March resmungou qualquer coisa sobre classificar a burrice como crime capital. Juliana cruzou os braços, descontente, e Viper apertou as mãos fechadas com tanta força que sentiu as unhas deixando marcas fundas nas palmas de suas mãos.

– Que caral... – Helena parou o insulto na metade e encarou Thalita. – Você precisa chegar logo lá.

– Eu sei. Será que podemos ir agora?

Com simulado desinteresse Viper assistiu March caminhar até a borda do prédio, onde parou falando suavemente como quimono branco. Os cabelos negros esvoaçavam ao redor do rosto pálido e ela acariciava as mangas da roupa com o mesmo carinho de uma mãe despertando um filho recém-nascido.

O coração de Viper batia forte no peito e um friozinho delicioso se instalara em seu estômago. Faltava pouco para sua maior fantasia se realizar.

Desde o dia em que a Sweet Poison recebera a encomenda de roupas para Loki, ela dedicara horas a imaginar como seria seu encontro com o príncipe trapaceiro. Chegara a ensaiar frases e situações onde agiria tão fascinantemente que, em seus planos, o cara cairia aos seus pés, apaixonado, antes dos primeiros vinte minutos de conversa.

"Eu não estou ansiosa. Sou uma mulher crescida. Paixonites platônicas não me afetam. Tudo o que quero é cumprir minha missão e voltar para casa... é claro que, se acidentalmente Loki acordar e se apaixonar por mim não poderei fazer nada. Não gosto de partir o coração das pessoas. Sou gentil demais para vê-lo sofrer... ai de mim...", devaneava divertida.

"Eu ouço você, Viper.", avisou Thalita entrando em seus pensamentos.

– Ei! Espaço pessoal! – guinchou indignada. – Minha cabeça, meus pensamentos, okay?

Thalita riu.

– Shh, vocês aí, quietas! – repreendeu Juliana.

O gracioso quimono começou a desfiar. As longas mangas e a barra finamente cerzidas perdiam punhados de fios e mesmo pedaços de tecido desmanchavam no ar. Em poucos segundos nada restava da vestimenta elegante, e March ostentava a regata sem estampa e a calça preta simples que usava por baixo de seus "vestidos especiais".

Os pedaços do quimono, porém, ganharam nova existência. Cada fragmento e costura se transformou em pequenos peixinhos cujas barbatanas translúcidas moviam-se vagarosamente e os longos bigodes de linha deixavam rastros luminosos no ar.

Não pela primeira vez Viper se pegou admirando a estética rebuscada da magia de March.

– Vejo que desistiu das aranhas gigantes. – comentou Juliana tocando um peixinho.

– As aranhas gigantes estão no vestido de paetês preto. Estou reservando minhas fiandeiras para uma ocasião mais interessante. Agora, meus queridinhos, se puderem fazer a gentileza de nos levar... – solicitou docemente aos peixinhos.

Atendendo ao pedido as criaturinhas esbranquiçadas se alinharam lado a lado, formando um tapete ondulante espaçoso o bastante para que as cinco mulheres subissem e se sentassem sem problemas. A sensação dos minúsculos corpos se movendo lembrava muito as borbulhas duma hidromassagem.

O passeio até a janela de Loki foi tranquilo e mais rápido do que Viper podia ter esperado.

Apartando um peixinho do cardume March o beijou, fazendo-o adquirir um tom amarelado ofuscante e ficar maior que seus irmãos. A mulher o instruiu a entrar no quarto, sendo acatada prontamente.

O peixinho dourado atravessou o vidro da janela como se não existisse e seu corpo luminescente clareou o quarto.

– Ele vai embaralhar o sistema de segurança de Jarvis. – informou March abrindo a janela. – Estaremos seguras.

Adentraram no aposento espaçoso tão silenciosamente quanto fantasmas. A amazona estudou a sólida porta, apurando os ouvidos para qualquer som suspeito vindo do corredor, antes de trancar a fechadura e acenar que estava tudo bem; e, ao lado do bizarro tapete voador pairando do lado de fora do prédio, Juliana montava guarda caso alguma ameaça exterior surgisse.

Elas eram profissionais em seu ofício e não queriam ser capturadas como meras amadoras.

Tirando proveito do momento Viper se aproximou da cama. Seus olhos percorreram a forma adormecida sobre a cama, faiscando com uma cobiça que só poderia ser comparada ao amor de uma criança por um pote de sorvete. A respiração suave, seu cheiro e cada parte do trapaceiro exerciam um fascínio hipnótico sobre ela.

– Viper... – repreendeu Helena.

– Só um pouquinho. – ciciou.

Estendeu a mão e tocou os cachos escuros. Precisou morder o lábio para conter o gritinho eufórico quando o malandro se aninhou sob sua mão, buscando mais contato.

"OOH, YEAH!", vibrou alegre.

– Como chamam as pessoas com fetiche por gente dormindo? – provocou March franzindo as sobrancelhas.

– Eu não tenho fetiche. – defendeu-se Viper.

– Sonofilia? – arriscou Juliana.

– Hipnofilia? – animou Helena.

Fingindo se chatear Viper fez uma careta para as colegas, deu um beijo rápido na têmpora do malandro e recuou.

Diferente dos contos de fadas, o belo príncipe não acordou para encontrar o distinto grupo de damas ao redor. Não houve um romance arrebatador e juras apaixonadas. Muito menos uma pequena conversa misteriosa interrompida providencialmente no momento mais importante. Era assim que o trabalho delas funcionava. Sem agradecimentos, sem honorários ou o mínimo de reconhecimento. Elas iam e vinham entre mundos e realidades, distorcendo e recontando histórias sem jamais terem a liberdade de cruzar os limites e tornarem-se membros verdadeiros das aventuras que testemunhavam.

Doía... mas talvez fosse melhor assim.

– Só por curiosidade, Viper, se ele fosse um cadáver você ainda o agarraria? – cochichou Helena.

– Calada. – cortou, recebendo uma cotovelada divertida da companheira.

March pulou sobre a cama e ficou de pé acima de Loki, seus movimentos eram deliberados, os olhos dardejavam na direção do homem. Viper prendeu a respiração.

– Qual a melhor linha para você, meu amável príncipe? O sublime azul? Ou um cinza implacável? – sussurrou pinçando com os dedos alguma coisa sobre seu peito. Viper não viu nada. – Talvez... vermelho seja a cor certa.

O braço de March fez um movimento rápido para o lado, trazendo consigo no ato uma linha vermelho-sangue que brilhou ardilosamente antes de se apagar e enegrecer. Outo puxão, e mais linha surgiu.

– Tudo bem, meu querido. – falou para linha presa em sua mão. – Escola a forma que desejar. Não tenha pressa. Tome o tempo que precisar.

Como se ganhasse vida própria a linha fluiu e se enroscou ao redor de March. Logo tiras de pano surgiram ao redor dos ombros magros e cascateou pelas costas da tecelã. Um vestido de cetim negro e vermelho ganhou forma e o fio se rompeu.

– Uma belíssima escolha, meu amigo. – parabenizou March descendo da cama com cuidado. Ela acenou para Helena. – Memórias copiadas com sucesso.

– Ótimo. – a guerreira marchou para a janela. – Estamos adiantadas no cronograma, mas isso não significa que podemos perder tempo.

Foi necessária a ajuda das quatro mulheres a fim de passar March pela janela e equilibrá-la sobre o tapete de peixes. O vestido parecia pesar uma tonelada, sendo incrivelmente frio em contato com a pele. Helena subiu pouco depois, não antes de reafirmar que outras garotas viriam buscar Thalita mais tarde.

– Fique com o peixe. – ofegou March. – Pode devolvê-lo quando isso acabar.

– Abrigada.

Seguindo o roteiro deveriam retornar ao posto de observação e de lá, usando os portais de Juliana, ir para Asgard e entregar a encomenda de Frigga. O bônus especial prometido por Rain.

– Vejo vocês depois. – Thalita se despediu.

"Eu não acredito que ela vai ficar sozinha com ele!", de todo o plano essa era a parte que menos gostara e a única na qual não pudera opinar.

– Hey, Thalita. – Viper chamou. – Fica esperta.

E fez o simpático gesto de "estou de olho em você", enquanto o tapete se afastava.

A garota gótica zombou do aviso e cerrou a janela.


O quarto espaçoso parecia estranhamente vazio após a partida das garotas. Sossegado demais, se quisessem saber a opinião de Thalita. O peixinho dourado que March deixara para ajudá-la flutuou a centímetros de seu ombro, e ela amimou as escamas macias.

Em essência suas habilidades e a de March apresentavam certas "semelhanças". Ambas empregavam a chamada "magia de baixa frequência" – um raro poder que se ligava intimamente à linha vital do usuário – e as duas podiam adentrar na mente de pessoas sem serem notadas ou causar danos, livres para perambular pelos pensamentos mais íntimos e reviver com terrificante clareza qualquer memória vivida pela pessoa.

A diferença entre suas habilidades residia naquilo que faziam com a magia.

Enquanto March se especializada na arte de transformar pensamentos em refinados tecidos e dar vida a roupas colocando nelas suas emoções, criando verdadeiros receptáculos de poder e memórias; Thalita se entregara a uma tarefa menos glamorosa e mais delicada, infiltrando-se na mente das pessoas e alterando suas memórias.

Um mago ordinário, tentando realizar essa mesma façanha, não somente mataria a pessoa que desejava enfeitiçar como também acabaria morto no processo; já usuários de magia de baixa frequência poderiam diminuir lembranças até beirarem o esquecimento ou mesmo alterar a natureza do pensamento e, se estivessem de muito bom humor, criariam novas memórias com facilidade. Desafortunadamente pessoas com tais dons nasciam esporadicamente no universo – uma vez a cada mil anos, com um pouco de sorte –, e Thalita se considerava afortunada por haver encontrado, contando com March, outros três feiticeiros capazes de usar essa magia incomum.

– Você acha que as meninas vão se sair bem entregando o "bônus" de Frigga? – perguntou ao peixe, cuja resposta foi o abrir e fechar ritmado da boca. – Imaginei que seria essa sua resposta.

Thalita contornou a cama e leu os títulos dos livros empilhados sobre o criado-mudo, encontrando diversos nomes familiares. Retirou a xícara de café pela metade de cima do terceiro volume da série Quem é John Galt?*** e fez um esgar de desgosto ao ver a marca deixada na capa. Tony Stark precisava aprender a ter tanto amor pelos livros quanto tinha por suas máquinas.

"Será que já chegaram?", perguntou-se desassossegada e então sacudiu a cabeça, "Por que estou preocupada? A missão é ridiculamente simples! Se Viper me visse agora, riria sem dúvidas e ainda me chamaria de paranoica.".

Não tinha motivos para se preocupar. As garotas entrariam em Asgard sem serem notadas, terrores noturnos seriam entregues aos moradores do reino e Odin receberia um presente inesquecível, depois pegariam um item extra, encerrando assim a parte delas no acordo. Mesmo que uma emboscada acontecesse dificilmente o oponente conseguiria causar danos.

Thalita recordou da expressão abismada da soberana quando Rain lhe propôs o bônus, e leu a crua incredulidade nos seus gestos e pensamentos. Frigga encontrara tantos obstáculos em sua busca pela vingança que a sorte súbita a assustava.

– Terei de fazer um acordo extra? – ela perguntara.

– É um bônus. – garantiu Rain pela terceira vez.

Mantendo a calma Elise ajeitou os cabelos coloridos atrás das orelhas e observou Angela abaixar-se para ficar na altura dos olhos da deusa. Seus pensamentos misturavam admiração pela determinação de Frigga e reprovação por sua passividade anterior... Porque elas conheciam bem demais as idas e vindas da não tão gloriosa família real de Asgard.

– Encare da seguinte forma, - pediu Angela. – a restrição que impusemos a você deixará Loki sem qualquer apoio além de Thor. E se o pior acontecer, e não estamos dizendo que vai acontecer, ele precisará ter o apoio de Asgard.

– Nunca deixamos algo pela metade. – emendou Elise arqueando as sobrancelhas como quem diz: "mas se você duvida, posso mostrar aqui mesmo que somos fodas pra caralho".

Frigga considerou a proposta, seus olhos vagaram para Thalita, cravando-se nela de maneira desconcertante. Era, contudo, seu direito encará-la, já que foram suas palavras que a convenceram a aceitar o acordo.

– Estou confiando em vocês. – a deusa asseverara por fim.

"É isso!", percebeu com alívio. Agora entendia o motivo da inquietação que vinha sentindo.

A confiança generosa que Frigga depositara em todas elas a deixara desconfortável.

E não poderia ser diferente. Thalita sabia que, completamente alheia e sem avisos, a deusa e seus filhos haviam se transformado em peças convenientes de um macabro jogo das norns incitadas pela mente decadente e pouco racional daquela pessoa. E, mais ainda, incomodava Thalita a consciência de que, enquanto March, Viper e os outros saiam em missões a favor de Frigga, ela ficara encarregada de cumprir uma tarefa ligada ao pedido mesquinho das três megeras orgulhosas.

Sentando-se na borda da cama, esforçou-se para recitar o mantra do feitiço. Mesmo desconcentrada a magia fluiu por suas veias no pulsar primal e instintivo da própria existência. Seus dedos esquentaram e formigaram conforme a energia se acumulava e ela se inclinou sobre Loki.

Suas mãos atravessaram pele, carne e ossos, e se prenderam com firmeza à alma do malandro, torcendo as amarras que encontrava até quebrá-las e afastando com facilidade o perverso poder das algemas nos braços do trapaceiro.

A perturbação despertou o Guia, que tentou bloquear sua passagem e falhou miseravelmente já que sua magia, embora poderosa, ressoava numa potencia diferente da esperada por suas barreiras. Em poucos segundos Thalita estava diante da figura sombria no decrépito corredor de janelas.

– Olá, querido. – cumprimentou com alegria honesta.

– O que você quer aqui? – o Guia sibilou furiosamente.

– Nada importante. E não precisa se preocupar. Quando eu terminar você nem vai lembrar que estive aqui.


Observações

* O Trump International Hotel and Tower é considerado, até o momento, o edifício mais alto de Chicago (Illinois) com 415 metros de altura.
** NREM ou "não-Rem" ocupa 75% do tempo do sono. O referido estágio quatro é um sono profundo, sendo difícil alguém acordar nessa fase.
*** Quem é John Galt?, republicado recentemente (2010, se não me engano) com título de A Revolta de Atlas, é uma novela escrita por Ayn Rand e conta com elementos de mistério, ficção-científica, questões filosóficas, políticas e econômicas (e está na minha lista de compras).

Beijos!