Capítulo 25
*A prova final – terceira parte*
A carta de Anna era composta por um total de seis folhas escritas frente e verso, uma delas sendo inteiramente dedicada às cólicas e ao apetite voraz do bebê Teodor – Elsa sentiu-se muito tentada a ignorar essa parte, mas, no final, acabou lendo até a última linha –, enquanto que uma outra descrevia minuciosamente o empenho de Kristoff em garantir que "papai" fosse a primeira palavra pronunciada pelo guloso bebezinho.
'Eu sei o que você está pensando, Elsa,' escreveu Anna, 'porque é exatamente o que eu estou pensando. Ainda é muito cedo para Teodor falar qualquer coisa, e eu já cansei de dizer e redizer isso, mas você conhece o Kristoff e sabe bem que ele é muito cabeça dura quando quer. Isso sem contar que, aparentemente, ele ainda não superou o fato da primeira palavra balbuciada por Agdar ter sido "Olaf". Cá entre nós, irmã, acho que ele está tentando fazer uma pequena lavagem cerebral em Teodor para que aquilo não se repita.'
Nas páginas restantes, Anna escreveu sobre a sua rotina, sobre os últimos acontecimentos em Arendelle e vizinhanças – que nem foram tantos assim –, algumas novidades e sobre a saudade enorme que todos estavam sentindo de Elsa.
'Não vou mentir; queria muito que voltasse logo, Elsa. Sinto tanto a sua falta que chega a doer. Sei que estou sendo egoísta, porque Arendelle está em paz e não tivemos um só problema durante a sua ausência. Além do mais, tenho Kai e Gerda aqui comigo, e os dois me ajudam tanto com as tarefas que, às vezes, sinto-me até um pouco inútil. Kristoff também me auxilia bastante – isso quando não está tentando fazer a cabeça de um bebê de seis meses. Acho que poderia resumir dizendo que as coisas estão bem tranquilas por aqui, no entanto, ainda assim, não vejo a hora de você voltar.
Peço, contudo, que não se apresse em retornar apenas para atender aos meus caprichos. Apesar da saudade que sinto e da vontade de tê-la aqui ao meu lado, entendo perfeitamente que sua presença é mais do que necessária nas Ilhas do Sul. Não sei mais quantos dias pretende ficar aí, mas quero que saiba que terá sempre o meu apoio e que ficarei feliz em substituí-la pelo tempo que for necessário. Pra falar a verdade, não ficarei exatamente "feliz", porque, Elsa, preciso admitir que esse negócio de governar não combina muito comigo – graças a Deus que nasci depois de você. O que quero realmente dizer é que não me importo em assumir suas responsabilidades pelo período que precisar. Pode contar sempre comigo, irmã.
Teodor está chorando de novo, provavelmente de fome. Despeço-me aqui, então, pois vou alimentar meu pequeno glutão. Espero que você e Hans estejam se entendendo e que ele seja capaz de aprender como controlar e conviver com a magia assim como você foi capaz de aprender. Desejo sucesso aos dois e espero de coração que fiquem bem.
E, por favor, não se esqueça de me mandar notícias.
Da sempre sua,
Anna.'
Elsa tinha os olhos marejados quando terminou a leitura. Também sentia muitas saudades de Anna, tanta que não conseguia nem pôr em palavras. Estava saudosa de casa, da família, de Arendelle e até mesmo da sua vida normal, das obrigações como rainha e das suas infindáveis atribuições. Entretanto, estaria mentindo se dissesse que não estava aproveitando aquela viagem, pois, assim como havia uma parte sua que não via a hora de retornar a Arendelle, havia também essa outra parte que fazia seu coração doer por saber que, em breve, deveria deixar as Ilhas do Sul para trás.
Afinal, Hans estava bem adiantado em relação às lições de magia – decerto que ele ainda tinha uma ou outra dificuldade, mas, em termos gerais, ele já era capaz de controlar bem os poderes de gelo –, e Elsa sabia que era apenas uma questão de tempo até concluírem o treinamento.
Assim como era apenas uma questão de tempo até ele ter de retornar à prisão, onde ficaria por mais um ano.
O súbito e infeliz pensamento a deixou momentaneamente sem fôlego, e a loira coçou os olhos no instante em que percebeu que uma lágrima escorreria. A fim de afastar de vez aquela inesperada vontade de chorar, levantou-se, deu as costas à escrivaninha e caminhou um pouco pelo quarto pequeno. Parou próximo à janela entreaberta e deu uma breve olhada para o lado de fora; percebeu que a leitura da carta enviada pela irmã ocupara-lhe praticamente o dia todo, pois o sol encontrava-se deitado sobre o mar e a silhueta da lua crescente já despontava num céu multicolorido.
A beleza do cenário espantou de sua mente as ideias tristonhas, e Elsa, sentindo o coração mais leve, optou, então, por retornar à escrivaninha. Acendeu uma lamparina, pegou um papel, mergulhou a ponta de uma pluma no tinteiro e se pôs a escrever de volta à irmã.
Relatou a Anna muito do que se passara em Arhur, embora optasse por deixar de fora alguns detalhes, como o aparecimento de Franz, por exemplo, visto que não tinha intenção de preocupar a princesa. Também não revelou nada sobre o pedido de casamento que fizera a Hans – e nem sobre a resposta dele –, pois queria contar a novidade pessoalmente.
'Confesso, irmã minha, que meu coração encontra-se dividido: por um lado, ele está jubiloso porque sabe que, em breve, regressarei a Arendelle; por outro lado, todavia, sinto-o pesaroso por saber que a viagem aproxima-se do fim. Senti uma tristeza profunda quando me apercebi disso, e o pensamento de que logo mais partirei – aliado ao fato de que Hans retornará à prisão –, há pouco, deixou-me à beira das lágrimas. No entanto, não cedi à melancolia que quis se apossar de mim. Sei que meu tempo aqui nas Ilhas do Sul é curto, por isso mesmo, não me permitirei perdê-lo com lágrimas ou tristeza. Vou aproveitar bem o tempo que me resta ao lado de Hans, pois sei que não o verei por um ano inteiro.'
Escreveu mais um pouco, tecendo vários comentários acerca do que Anna lhe contara e, após perguntar pelas crianças, despediu-se carinhosamente, pedindo-lhe que enviasse a todos seus pensamentos saudosos e ternos. Estava lacrando o envelope quando ouviu o rangido baixinho da maçaneta girando e abriu um sorriso largo ao ver Hans entrar no quarto.
"Ei" Ele a cumprimentou, olhando espantado os vários papéis espalhados sobre a mesa. "Uau... não é à toa que você ficou aqui o dia inteiro. Pelo visto, Anna tinha muitas novidades."
"Você nem imagina." Respondeu Elsa com humor na voz.
Hans riu e se aproximou dela devagar.
"Vim chamá-la para jantar. Já estão todos à mesa." Disse o ruivo, e o estômago de Elsa escolheu aquele exato momento para roncar. "E estou percebendo que cheguei na hora certa."
As bochechas dela coraram profusamente.
"Vou apenas terminar de arrumar a bagunça que acabei fazendo." Respondeu Elsa, fechando o frasquinho de tinta e ajeitando os papéis para colocá-los numa gaveta. De repente, um pensamento a assaltou de súbito, e ela fitou o noivo com uma expressão pensativa no rosto.
"O que foi?" Hans logo perguntou, notando a mudança no semblante dela, e a rainha sentou-se na beirada da cama e o convidou a se juntar a ela.
"Pensava no dia de hoje" Elsa confessou, entrelaçando os dedos. "e em tudo o que se passou. Foi um dia que exigiu muito de você do ponto de vista emocional."
Hans anuiu devagar, a cabeça um pouco baixa, os ombros caídos e os olhos pesados.
"Foi um dia difícil."
"Sim. Foi mesmo." Elsa completou num suspiro. "Se o que aconteceu hoje tivesse acontecido, digamos, há uma semana, eu com certeza teria sido obrigada a interferir e assumir o controle dos seus poderes."
O príncipe estreitou os olhos, tentando compreender sobre o que exatamente ela falava.
"Mas eu não senti a sua interferência hoje. Eu... eu tinha a magia sob controle. Eu a tive sob controle o tempo todo."
"Exatamente." Concordou a rainha, permitindo-se um pequeno sorriso. Depois, pegou a mão dele entre as suas e a apertou de levinho. "Você enfrentou uma situação extremamente complicada e exigente sem perder o controle nem por um segundo."
"E isso é uma coisa boa, não é?" Perguntou ele com uma sobrancelha arqueada, e Elsa não tardou a respondê-lo.
"Não apenas boa. É excelente. Foi a prova da qual precisávamos para atestar o seu progresso. Se saiu muito bem. Muito bem mesmo."
A primeira reação dele foi sorrir, inundado de alívio, porque aquela era uma notícia muito boa. Muito boa mesmo. Finalmente, depois de tanto penar, tinha alcançado o seu objetivo e aprendido a controlar o poder que tanto temera. A tristeza, contudo, veio logo em seguida e pôs um fim no sorriso de Hans, porque o ruivo sabia bem que estava por vir.
"E isso nos deixa onde, exatamente?" Ele perguntou, embora já soubesse a resposta.
Elsa inspirou fundo.
"Na nossa última lição, que iniciará amanhã de manhã."
"Entendi." Ele puxou a mão de volta e apertou o pegador da bengala com força. Ficando de pé, andou de um lado a outro no quarto. "Então, escreverei amanhã mesmo a Erik. Ele ficará contente em saber que o treinamento não apenas terminou, mas que também foi um sucesso. Sem contar que precisa fazer todos os acertos quanto ao meu retorno à prisão."
"Hans, eu não disse que o treinamento terminou." Falou ela, com uma pontada de insolência na voz, e o rapaz franziu a testa, intrigado.
"Não disse?"
"Não. Disse que a última lição começará amanhã... ...e há uma boa razão para eu tê-la deixado por último." Exibiu um sorriso misterioso, que nada mais fez do que aumentar a curiosidade do príncipe. "Ela é, a meu ver, a mais difícil de todas, e é bem possível que você demore alguns dias para captar a ideia principal e assimilar os ensinamentos."
"Alguns dias?" O rosto dele iluminou-se e a sombra de um sorriso despontou no rosto pálido.
"Uns cinco ou seis. Talvez um pouco mais."
"Tudo isso? Você não estaria duvidando da minha capacidade, estaria? Eu posso surpreendê-la, professora."
"Jamais duvidei de você." Elsa levantou-se e foi até ele.
"Eu..." Sussurrou Hans e curvou um pouco as costas para beijar a noiva na testa e, depois, nos lábios. "...eu sei. E obrigado por... você sabe... me dar mais alguns dias aqui. Na sua companhia. Sei que precisa voltar a Arendelle e-"
Elsa o calou com um beijo suave e murmurou contra os lábios dele:
"Vamos aproveitar bem o tempo que temos, e fazer desses últimos dias os melhores."
~Frozen~
Hans e Elsa acordaram bem cedo no dia seguinte, antes mesmo do sol raiar. Permitiram-se, então, demorar-se um pouco mais na cama, mas não voltaram a dormir. Permaneceram apenas deitados, bem abraçados, um aconchegado no corpo do outro, e levantaram quando os primeiros raios de sol adentraram o quarto, a luz dourada infiltrando-se pelas fendas da janela de madeira, e quando os galos que haviam pela vizinhança começaram a cantar bem alto.
Vestiram-se sem muita pressa e fizeram o desjejum apenas na presença do Duque, que lhes explicou que Yvonne e Sigrid tinham sido chamadas para atender uma urgência do outro lado da ilha e que retornariam apenas mais tarde.
Deixaram o hospital instantes depois e seguiram em direção à clareira do bosque.
"Espero que esteja preparado, Hans. Não pretendo pegar leve com você."
"Ah, sim." O rapaz respondeu com presunção, lançando um olhar maroto a Elsa. "A última lição... e a mais difícil." Comentou enquanto andava devagar pelo espaço amplo da clareira, sua bengala afundando um pouco na relva macia. "Estou pronto."
Ela empertigou a coluna e empinou o nariz antes de falar, colocando as mãos na cintura e fitando-o com um ar brincalhão de falsa superioridade.
"Muito bem." Falou, altiva. "Hoje e nos dias que virão, vamos trabalhar algo que gosto de chamar de 'criação'."
"Criação?" Hans perguntou, e Elsa fez que sim com a cabeça. "Como criar coisas? Como uma bola de neve, por exemplo?" Mal terminou de falar e produziu uma bola de neve do tamanho da palma da sua mão. Seus lábios finos se contorceram num sorriso pomposo enquanto ele lançava a bola para cima algumas vezes, tornando-a a pegar com facilidade. "Parece que estou um passo a sua frente, professora."
Aquilo a fez gargalhar muito alto, tombando a cabeça para trás e sacolejando os ombros enquanto ria. O movimento brusco deixou seu coque levemente despenteado.
"Acordou bem convencido, hein, Hans!" Riu um pouco mais, cobrindo a boca com as mãos. "Mas sinto desapontá-lo. Quando falo sobre 'criação', refiro-me a algo um pouco mais complexo do que uma bola de neve. Como isso, por exemplo."
Abanou a mão no ar, criando imediatamente um redemoinho de magia, que rodopiou algumas vezes no ar e desapareceu ao tocar o chão, deixando, em seu lugar, uma cópia da bengala de Hans, toda esculpida no gelo.
"Incrível." Disse ele, maravilhado, e pegou a escultura, avaliando-a com cuidado e apreço. "É bastante firme, e o gelo não queima a mão. Será que eu poderia ficar com ela? É bem mais legal do que uma de madeira."
"Você gostou mesmo?"
"Eu adorei!" Exclamou o príncipe. "É incrível. Como isso funciona? Você pensa em alguma coisa e a magia a transforma de imediato?"
Elsa coçou o queixo, pensativa.
"Mais ou menos. Eu visualizo o que quero criar em minha mente e faço a magia assimilar a ideia e todos os detalhes. Por isso, é importante uma nítida visualização mental."
Hans ouviu a explicação em silêncio, tão atento que nem sequer piscava.
"Então... tudo o que preciso fazer é imaginar e transferir a ideia do que eu quero para a magia?" Indagou ele. "Não parece muito diferente de congelar coisas ou criar bolas de neve."
"Acho que não estou conseguindo me explicar muito bem em palavras. Vamos praticar um pouco, talvez assim você entenda melhor o que estou querendo dizer." Ajeitou o vestido para se sentar num tronco de árvore caído. "Tente criar alguma coisa."
Hans esfregou a mão na nuca, um pouco temeroso e um pouco indeciso.
"Como o quê? Qualquer coisa que eu quiser?"
"Sim." Respondeu ela com um aceno curto e encorajador. E então, seus olhos azuis se iluminaram quando teve uma ideia. "Ah, sim! Poderia usar a magia para tentar tecer a sua roupa, tal como faço com o meu vestido."
"Nem pensar!" Exclamou o rapaz, rindo. "Não me leve a mal, mas estou muito confortável vestindo roupa de verdade. É sério, Elsa. Não acho que estou pronto para trocar algodão e linho por fios de gelo."
Ela fez um biquinho injuriado, mas havia muita diversão em seus olhos.
"Está bem, está bem. Pode ser outra coisa. Humm... Que tal tentar copiar algo a princípio? Talvez algo aqui do bosque, como uma flor ou um pequeno animal. Seria um bom primeiro exercício."
"Está bem, vou escolher algo."
Um pouco ansioso, Hans passou a mão pelo cabelo vermelho enquanto corria os olhos pela clareira. Quando, finalmente, avistou o que usaria como modelo, esfregou as mãos uma na outra, inspirou fundo e, bastante concentrado, estendeu os braços à frente, lançando uma rajada de magia esbranquiçada que logo se transformou num pequeno redemoinho. A magia rodopiou como se fosse um furacão em miniatura e dissipou-se completamente alguns instantes depois, deixando, em seu lugar, um monte de neve.
Elsa enrugou a testa ao olhar para aquela pequena montanha branca e mordeu o lábio inferior antes de falar. Quando o fez, sua voz soou bem incerta.
"Então... você criou um... um... o que isso deveria ser?"
Os ombros de Hans murcharam.
"Era para seu um pássaro." Fez um gesto rápido com a cabeça, e Elsa seguiu o olhar dele. Viu, não muito longe dali, um casal de rouxinóis, que saltitava sobre um dos galhos de uma gigantesca tilia.
"Oh."
"Eu não entendo!" O ruivo confessou, frustrado e, ao mesmo tempo, um pouco irritado. "Eu vi o pássaro, pensei no pássaro e me concentrei nele o tempo todo. Por que não consegui reproduzi-lo com a magia?"
"Porque criar algo com a magia é bem diferente do que apenas produzir gelo." Ela explicou com muita calma. "Quando congelamos alguma coisa ou fazemos bolas de neve, estamos apenas produzindo gelo. Nada mais do que isso. Agora, quando decidimos criar algo usando a magia, temos que produzir gelo e, depois, moldá-lo. O processo envolve duas etapas."
Os olhos verdes de Hans fitaram o monte de neve.
"Pelo visto, só consegui fazer a primeira parte." Bufou, desapontado. "Por que acha que isso aconteceu?"
Pensativa, Elsa cogitou uma possível explicação.
"Talvez você esteja se concentrando muito em fazer gelo. Precisa aprender a se concentrar igualmente nas duas fases: produzir e moldar."
"Certo. Entendi." Afirmou ele. "É que, quando você cria alguma coisa, parece ser tão fácil. Tão... ...natural."
"Porque, para mim, é natural." Elsa abriu um sorriso condescendente. "A magia nasceu comigo... ela faz parte da minha vida desde sempre. Com você, no entanto, é diferente. Ela pode fazer parte de você agora, mas ainda é bem recente. Por isso, precisa praticar bastante, não apenas para dominá-la, mas, principalmente, para compreender como ela funciona." Dito isso, pôs-se de pé e apontou com o dedo indicador para o monte de neve recém-criado por Hans. "Agora, desfaça essa bagunça e tente de novo."
~Frozen~
Juntos, treinaram até o anoitecer naquele dia, bem como no dia seguinte. E no seguinte também. Hans não apresentou muita melhora no decorrer daquele treinamento específico, e o máximo que ele conseguiu fazer – após centenas de tentativas frustradas – foi moldar um cubo de gelo.
"Nós ainda temos tempo. Praticaremos mais amanhã." Elsa disse, esboçando um sorriso sereno e confiante. "Você vai melhorar conforme treinarmos."
"Acha mesmo?" Hans indagou, e havia um quê de descrença na voz dele. "Já estamos nisso há três dias, Elsa. E, sinceramente, não acho que um cubo de gelo é sinal de que estou evoluindo.
"Não fale como um derrotado." Respondeu a rainha enquanto vestia uma camisola branca. Depois, sentou-se na beirada da cama e, soltando o cabelo loiro platinado, penteou vagarosamente as mechas claras com a ponta dos dedos. Antes de retomar a palavra, lançou um olhar demorado e carinhoso a Hans. "Lembra-se de quando começou a praticar o controle da magia? Foi um desastre no primeiro dia... e no segundo também. Assim como no terceiro e no quarto dia. Demorou um pouco para pegar o jeito, mas, quando pegou, não tardou a conseguir controlar o poder. Fique tranquilo, Hans. Vai dar tudo certo. Além do mais, o mais difícil você já fez; há dias não interfiro mais nos seus poderes. Você está no controle... só falta um pouco mais de prática. Agora, venha para a cama. Quero dormir."
O rapaz sorriu com uma pontada de malícia e arqueou uma sobrancelha sugestivamente.
"Dormir? Eu tinha outros planos para esta noite... e um deles envolvia arrancar essa camisola que você acabou de vestir."
Fizeram amor quatro vezes naquela noite e praticamente desmaiaram de exaustão um nos braços do outro.
No meio da madrugada, Elsa acordou com a boca seca de tanta sede e, desenroscando-se dos braços do noivo – que dormia feito uma pedra –, levantou-se da cama e procurou pelo jarro de água que sempre tinha sobre a mesinha de cabeceira. Quando o encontrou vazio, vestiu um robe lilás, deixou o quarto na pontinha dos pés e já ia se dirigir à cozinha quando ouviu vozes sussurrantes que pareciam vir da sala.
Seu coraçãozinho tamborilou naquela hora e seu corpo todo retesou por causa do susto levado. Mais curiosa do que temerosa, girou nos calcanhares e deu alguns passinhos vacilantes na direção dos sussurros. À medida que se aproximava, viu uma fraca luz tremeluzir e percebeu que os sussurros aumentaram um pouquinho de volume, transformando-se em vozes bem conhecidas pela rainha. Cogitou dar meia-volta e seguir seu caminho até a cozinha, pois sabia muito bem quem estava na sala e não queria bisbilhotar – de novo, pensou imediatamente, lembrando-se da última vez que o fizera –, contudo, mudou de ideia assim que ouviu o nome de Hans ser pronunciado.
"Hans enviou uma correspondência a Erik hoje de manhã."
Ouviu a voz suave da doutora Sigrid e esticou um pouco só o pescoço. Viu a médica e o Duque esparramados no sofá da sala; o corpo magro da doutora enrolado não apenas num grosso roupão azul marinho, mas também envolvido pelos braços do militar enquanto a cabeça dela descansava apoiada no peitoral dele.
"Elsa me contou." Ela ouviu a resposta do General, a voz rouca e pensativa. "Hans retornará a prisão daqui a alguns dias. Ela me explicou que ele ainda não domina completamente a magia, mas já possui controle o suficiente sobre os poderes e não representa mais um risco às pessoas."
"Você e ela irão embora assim que Hans retornar a Suffolk, não é?"
"Temos que retornar a Arendelle. Já estivemos fora por muito tempo."
Houve silêncio, então, quebrado apenas pelos suspiros profundos da doutora e pelo zumbido de alguns insetos que giravam em torno de uma lamparina acesa, atraídos pela luz alaranjada da pequena chama.
"Você poderia aparecer por aqui de vez em quando." A voz de Sigrid fez-se ouvida mais uma vez, frágil e esperançosa. "Talvez trazer o seu sobrinho. Nós poderíamos alugar um barco e... e daríamos uma volta pela ilha. Você poderia ensiná-lo a remar. Depois, nós faríamos castelos de areia e, quando anoitecesse, acenderíamos uma fogueira na praia e observaríamos as estrelas."
"É uma ideia maravilhosa, Sigrid. Seria... seria realmente muito bom."
Ele afagou os cachos ruivos da médica e beijou-lhe demoradamente o topo da cabeça, e Elsa escolheu aquele momento para dar as costas à cena e retornar ao quarto, sua sede completamente esquecida.
Aninhou-se no corpo quase imóvel de Hans e se cobriu com um lençol. Quando fechou os olhos, foi impossível não se recordar do que acabara de testemunhar e refletiu sobre a cena durante alguns minutos. Pelo visto, ela e Hans não eram os únicos ali que estavam a lidar com uma difícil despedida, e aquele pensamento fez seu coração apertar um pouquinho, condoendo-se com a situação da doutora Sigrid e do General. Meditou bastante sobre os dois e, antes que o sono lhe clamasse mais uma vez, teve uma ideia.
Ela tinha certeza de que devia algumas férias ao General e, se a aposentadoria dele não saísse em breve, com certeza poderia conceder ao amigo alguns dias – ou semanas – de folga.
Fez uma anotação mental de trocar a ideia com ele assim que chegassem a Arendelle, e aquilo dissipou-lhe um pouco a tristeza e a fez sorrir.
Quando tornou a dormir, o fez com o coração mais leve.
~Frozen~
Nos dois quatro que se seguiram, Hans praticou magia até a exaustão e, apesar de toda dedicação demonstrada, não obteve melhores resultados quanto à arte de moldar gelo a seu bel-prazer, limitando-se apenas a conseguir criar algumas formas geométricas – e até mesmo as mais simples exigiam dele uma imensa concentração. No quinto dia – o último que passaria em Arhur, pois retornaria a Suffolk no dia seguinte –, Yvonne fez um verdadeiro banquete de despedida, regado a vinho francês e sidra espanhola.
Hans e Elsa, então, optaram por deixar a magia de lado e, depois de organizarem suas bagagens, aproveitaram o restante do dia na companhia de Sigrid, Yvonne e do Duque de Grimstad. Comeram, beberam, conversaram muito e riram ainda mais, e tudo foi maravilhoso. Sigrid exagerou um pouquinho só na bebida e, em certo momento, levantou-se de onde estava e, depois de surpreender o General com um beijo bem indecente na frente de todos – o que deixou Hans horrorizado e Yvonne com um sorriso de orelha a orelha estampado no rosto –, virou-se com o dedo em riste para Elsa.
"Dê umas férias a esse homem, pelo amor de Deus, Elsa!"
Elsa, não sabendo se era melhor responder ou controlar a risada iminente, não falou absolutamente nada, e o Duque, com o rosto todo vermelho, puxou a médica alcoolizada pelo braço.
"Acho que está na hora de deitar, não é mesmo, Sigrid? Vamos, vou acompanhá-la até o quarto."
A médica resmungou e protestou, mas, no final, tartamudeou um "boa noite" aos demais e deixou-se ser conduzida – ou carregada – até o próprio quarto. Yvonne também foi se deitar logo em seguida, mas antes deu um abraço muito apertado em Elsa e outro em Hans.
"Deveriam aparecer mais por aqui." A velha enfermeira disse com os olhos já marejados. "Foi um grande prazer recebê-los."
"O prazer foi todo nosso, senhora Yvonne." Hans a respondeu. "Muito obrigado por tudo. Por tudo mesmo."
A mulher abanou uma mão gorducha no ar.
"Não foi nada, meu querido." Cobriu um bocejo com as mãos. "Peço apenas que se cuide melhor. Quando disse que gostaria que aparecessem mais em Arhur, quis dizer como visitantes, e não como pacientes. Estamos entendidos?"
Hans e Elsa sorriram e assentiram devagar.
Quando a mulher se retirou, Elsa fitou o ruivo.
"Vamos nos deitar também? Amanhã será um longo dia e... precisamos estar bem descansados."
"Certo." Hans murmurou com repentina seriedade, e sua respiração ficou mais pausada e forte.
"Hans, vamos?" Elsa falou mais uma vez e fez menção de pegar a mão dele e guiá-lo até o quarto, mas o rapaz evitou o toque. A rainha franziu a testa. "O que foi? Algo errado?"
Ele negou, balançando a cabeça para os lados.
"Não, Elsa. É só que... eu gostaria de dormir sozinho esta noite.
"O quê?" As palavras descrentes foram sussurradas. "Hans, depois de amanhã, não nos veremos por um ano inteiro... … e... e você quer passar esta noite – a nossa última noite – sozinho? Por quê?"
O rosto dele se contorceu numa expressão que era sofrida e incerta, e o rapaz massageou os olhos cansados com a ponta dos dedos.
"Não é isso, Elsa. É que... eu... eu realmente preciso que um tempo a sós."
"Eu não entendo."
"Sinto muito. Por favor, não fique magoada, é qu-"
"Está bem." Ela respondeu, talvez rápido demais, porque nem esperou pela explicação dele, interrompendo-o sem cerimônias. Deu um beijo sem muita vontade no cantinho da boca do rapaz e virou-lhe as costas. "Vou arrumar um quarto lá em cima para mim. Boa noite."
Magoada – porque foi impossível não se sentir assim –, subiu as escadas correndo e entrou no primeiro quarto vago que viu.
~Frozen~
Elsa acordou sentindo um gosto ruim na boca, um aperto no peito e uma ardência nos olhos. Ficou um tempo deitada na cama, abraçando o travesseiro de penas e olhando fixo para a janela entreaberta, tentando fechar-se para o mundo e não pensar em nada. Não soube dizer quanto tempo gastou deitada ali, sentindo o coração pesado, um vazio ruim no estômago e um leve pulsar na cabeça, bem atrás do olho direito – como um prenúncio de uma enxaqueca –, só soube que, certa hora, levantou-se, teceu um vestido com a magia, prendeu seu cabelo num coque alto e saiu do quarto.
Quando chegou à cozinha, viu o Duque e Hans sentados à mesa enquanto Sigrid preparava um chá.
Camomila, pensou ao identificar o aroma doce característico da erva. A cozinha toda recendia a camomila.
De repente, percebeu que os olhos verdes de Hans a fitavam, todavia, optou por ignorar o rapaz e puxou uma cadeira ao lado do General, que a cumprimentou com um sorriso amplo.
"Onde está Yvonne?" Perguntou ao dar falta da enfermeira, que sempre era a primeira a acordar.
"Provavelmente trancada no quarto." Sigrid a respondeu. "Ela não gosta muito de despedidas. É muito sensível. Além do mais, disse-me que já conversou com vocês ontem à noite." A médica encheu uma xícara de chá e a colocou na frente de Hans. Pousou a mão no ombro no irmão caçula. "Beba. Vai fazer muito bem a você, Hans. Essa infusão é ótima para os nervos."
"Obrigado." Murmurou ele com a voz rouquenha e, pela primeira vez naquela manhã, Elsa encarou o noivo.
Assustou-se um pouco ao ver o rosto dele, pois Hans aparentava estar péssimo, com olhos avermelhados, olheiras profundas – e muito escuras – e o rosto amarrotado e bem mais pálido.
"O que houve? Está doente?" Ela indagou, verdadeiramente preocupada, embora ainda estivesse um pouco chateada pela noite anterior.
O rapaz bebericou um pouco de chá antes de responder.
"Não consegui dormir."
Bem feito, Elsa logo pensou e, quase que imediatamente, arrependeu-se por aquilo. Não deveria desejar mal ao noivo, por mais chateada que estivesse com ele.
"Já arrumou sua mala, Elsa?" O General perguntou, de repente, e Elsa virou o rosto para fitá-lo. "Há um barco que nos levará a Suffolk esperando por nós no porto. Não podemos demorar muito."
"Ah, sim. Minha mala está no quarto. Deixei tudo pronto desde ontem"
O militar sorriu.
"Excelente, querida. Vou pegar suas coisas e colocá-las na carroça. Com licença." Ele apertou o ombro de Elsa de levinho e deixou a cozinha a passos rápidos.
Sigrid, que observava tudo da bancada da cozinha, murmurou algo como 'vou lavar o rosto' e não tardou a seguir o General.
~Frozen~
Sigrid os levou até o porto naquela manhã. O dia estava muito agradável, ensolarado e belo, e uma brisa gentil soprava de quando em quando, agitando os cachos soltos da doutora e despenteando um pouquinho o coque de Elsa, fazendo alguns fios loiros caírem na frente do seu rosto. Chegaram ao porto em questão de minutos, e Sigrid se despediu de Elsa com um abraço muito forte.
"Eu estava bêbada, mas falava sério sobre aquelas férias." Sussurrou baixinho no ouvido da rainha, e Elsa abafou uma risadinha.
"Eu sei." Sibilou a loira, num tom conspiratório. "Já tenho tudo arquitetado na minha mente. Pode ficar despreocupada."
"Graças a Deus!"
Romperam o abraço logo depois, e a médica foi ter com Hans, enlaçando-o num abraço que, se possível, era ainda mais forte do que dera em Elsa.
"Cuide-se, por favor! Não quero tê-lo nunca mais como meu paciente, ouviu bem?"
Ele riu.
"Eu fui um paciente tão ruim assim?"
"Você entendeu o que eu quis dizer." Falou ela, exasperada. "Apenas... cuide-se, está bem? Não seja negligente consigo mesmo e... se tiver algum problema – qualquer que seja – fale conosco. Você não precisa resolver tudo sozinho. É pra isso que a família e os amigos existem."
"Eu sei, eu sei. Pode deixar. Acho que aprendi minha lição."
"Bom; que bom. Fique em paz, meu irmão."
Quando se apartaram, Hans pegou a mão de Elsa e a guiou até o cais.
"Vamos dar aos dois um pouco de privacidade." Falou no ouvido da noiva, e Elsa olhou rapidamente por cima do ombro. Viu de relance Sigrid e o General, que pareciam conversar baixinho e bem próximos um do outro, e sorriu ao fitar Hans, seu ressentimento em relação ao rapaz já há muito esquecido.
"Concordo plenamente." Falou ela e tombou a cabeça um pouquinho para o lado, colando a bochecha no ombro do ruivo.
Partiram em direção a Suffolk alguns minutos depois, deixando Sigrid, Yvonne e toda a paz da pacata ilha de Arhur para trás.
A viagem levou menos de uma hora e se passou quase que inteiramente em silêncio. Vez ou outra, algumas palavras eram trocadas aqui e ali, mas logo eram levadas pelo vento e o silêncio voltava a imperar.
De repente, a silhueta da masmorra da ilha de Suffolk despontou na paisagem, e Elsa predeu a respiração. Era tal qual se lembrava: a torre alta coberta pelo gelo escuro, os aguilhões afiados que brotavam das paredes e do chão, o aspecto aterrorizante e levemente fantasmagórico. Ao seu lado, Hans soltou um arquejo audível, e Elsa desviou seu olhar da masmorra para encarar o noivo.
"Está tudo bem?" Perguntou; ele, contudo, não a respondeu. Nem sequer pareceu escutá-la.
Hans tinha o rosto pálido e o olhar fixo à frente, cravado na masmorra, como se a terrível construção exercesse sobre o rapaz algum tipo de poder sobrenatural.
"Hans." Elsa falou mais forte, a voz imperativa e firme, e apertou a mão dele, que estava gelada e trêmula. "Vai dar tudo certo."
O príncipe sobressaltou-se, como se bruscamente retornasse de um devaneio profundo, e, apesar da tensão que emanava dele, conseguiu esboçar um sorriso ao virar-se para a noiva, cujos olhos transpareciam imensa preocupação.
"Claro que vai." Respondeu ele com a voz um pouco nervosa.
Aproximaram-se mais e perceberam que a ilha não estava vazia.
Havia uma embarcação atracada ao pequeno cais congelado e cerca de quatro pessoas estavam reunidas próximas ao portão de gelo. Hans acenou quando reconheceu não apenas Erik no meio do pequeno grupo, mas também o senhor Balder, o velho carcereiro de Suffolk, que não demorou a acenar de volta, sacudindo os braços imensos no ar.
Atracaram o barco cerca de dez minutos depois, e foi justamente o carcereiro o primeiro a recebê-los.
"Olá, dona rainha!" O velho exclamou, ajeitando o cinto de couro sob a barriga proeminente. Passou o olho rapidamente por Hans e sorriu, contente. "Vejo que a doutora Sigrid cuidou bem de você, rapaz. Parece novo em folha!" Riu, e a sua risada ribombou feito uma trovoada. "Espero que aquela mulher Yvonne não tenha pegado muito no pé de vocês! Ela pode ser bem difícil quando quer. Pelas barbas de Odin, sinto falta daquela inglesa atrevida!"
"Sigrid e Yvonne nos receberam muito bem." Elsa conseguiu responder, lutando contra a vontade de rir. Nossa estadia em Arhur foi maravilhosa."
"Eu disse que seria uma boa ideia levar o garoto até a doutora, não disse? Sabia que ela daria um jeito nele!"
"E o senhor estava corretíssimo." Comentou ela e olhou para o lado.
Viu Hans e Erik trocando algumas palavras a certa distância e, lançando um sorriso educado ao carcereiro, juntou-se aos dois irmãos.
"Está mesmo certo sobre isso?" Ouviu quando Erik perguntou. "Ao menos pensou na minha proposta? Não é tarde para darmos entrada num pedido de liberdade condicional."
"Erik..." Hans falou num tom bem sério. "Já conversamos sobre isso. Tomei minha decisão há muito tempo."
"É, eu sei. Ah, está bem. Está bem! Se está mesmo tão animado em voltar à prisão, quem sou eu para tentar dissuadi-lo, certo?" O Regente correu as mãos pelo cabelo avermelhado, que já dava sinais de envelhecimento. "Então, Elsa!" Exclamou, dirigindo-se à rainha, e estendeu os braços num movimento que parecia abranger a masmorra de gelo toda. "E, agora? Vai descongelar tudo e fazer Suffolk voltar ao normal?"
"Esse é o plano." Respondeu ela com um sorriso enigmático. "Mas não fui eu a responsável por congelar a ilha, logo, não serei eu a descongelá-la."
O rosto de Hans empalideceu naquela hora. Com olhos arregalados, fitou a moça.
"Está brincando, não?" Ele soou assustado. Deu uma boa olhada no lugar e sentiu um frio na barriga. "Você quer que eu desfaça isso tudo?"
"É a sua magia, Hans. Ela vai obedecê-lo." A loira lhe deu uma piscadela encorajadora. "Encare isso como um teste. Um tipo de... prova final."
O príncipe suspirou fundo.
"Confiança, garoto!" Hans ouviu a voz do Duque e olhou para trás. Viu o General e o senhor Balder parados um ao lado do outro, os dois com os braços cruzados na frente do peito, as costas eretas e a cabeça erguida. "Foi para isso que tanto treinou, não é?"
"É, certo." Afirmou o jovem ruivo, agora, mais confiante.
Afastando-se de Elsa, Hans caminhou até ficar de frente para o portão principal da prisão. Respirou forte várias vezes, inspirando fundo e expirando até esvaziar completamente os pulmões, e estendeu as mãos à frente, espalmando-as sobre o gelo espesso.
Fechou os olhos, concentrando-se e relembrando as primeiras lições que tivera com Elsa.
Não tema, Ouviu a voz dela em sua mente. A magia é, agora, parte de você.
Moveu as mãos pelo gelo escorregadio e suspirou. Ao abrir os olhos, fitou o seu reflexo distorcido no paredão gelado.
A magia é, agora, parte de você.
Não soube explicar como, mas, naquele exato momento, ele finalmente compreendeu as palavras de Elsa. Assim como compreendeu o que era aquela masmorra de gelo.
Ela era a materialização do medo de Hans, da sua culpa e dos seus erros.
Sim, Hans entendia, agora, que a magia era mesmo parte dele. E ele, mesmo sem saber, deixou a magia se alimentar de todas as emoções ruins que se concentravam em seu coração. A magia havia se alimentado da culpa que ele cultivara por tantos anos, do remorso, da solidão e, principalmente, do medo. E aquelas emoções eram tantas e tão fortes que transbordaram do coração de Hans e entremearam-se à magia. E a magia, por sua vez, sufocada pelas emoções pulsantes, fugiu ao controle do príncipe e se espalhou pela ilha inteira, congelando-a.
Elsa também passara por situação semelhante anos atrás, recordou ele. Ela passou boa parte da vida com medo, assim como também carregou em seu coração a culpa de quase ter matado a irmã quando ainda criança, e, sem saber, deixou a magia se unir àquelas emoções. No final, não congelou apenas uma ilha, mas um reino inteiro.
Agora, contudo, a situação era diferente para ambos.
Elsa havia encontrado no amor a chave para o controle da magia. Hans, por sua vez, descobriu que a magia estava intrinsecamente ligada à sua paz de espírito. Claro, ainda havia um resquício de culpa e remorso pelo que fizera no passado – e talvez sempre haveria esse resquício –, no entanto, ele aprendeu a transformar erro em experiência, dor em lição, e aprendeu que o medo, embora fizesse parte da sua vida, não a governava.
A magia, o medo, a culpa, o remorso, tudo isso fazia parte da sua vida. Mas nada disso a controlava, porque ele era o único que tinha o poder de controlar a própria vida.
"Hans, você conseguiu."
O rapaz piscou ao escutar a voz de Elsa e abaixou os braços.
"O quê?" Perguntou, ligeiramente desorientado, e viu Elsa ao seu lado, sorrindo abertamente.
"Você conseguiu. Olhe."
"Eu..." Ele engoliu em seco e olhou ao redor.
Viu um portão de ferro escuro bem à sua frente e uma comprida torre de pedra que se agigantava sobre ele. Um caminho de terra batida estendia-se sob seus pés, levando até um aglomerado rochoso próximo ao mar.
Não viu, entretanto, qualquer sinal de gelo.
Quando a compreensão do que acontecera o atingiu, abriu um sorriso enorme e abraçou a noiva.
"Eu... eu não acredito! Elsa! Eu nem tinha percebido!"
"Estou tão orgulhosa de você!" Exclamou Elsa, abraçando-o de volta.
"Todos nós estamos." Erik falou, de repente, aproximando-se do casal. "Sinto muito por não ter acreditado que conseguiria controlar esse poder, Hans. Eu estava errado e, sinceramente, não poderia estar mais feliz por ter me equivocado."
"Eu também não acreditei, Erik." Confessou Hans. "Mas, para minha sorte, alguém aqui nunca duvidou de mim." Lançou um olhar carinhoso a Elsa e a enlaçou pela cintura.
"Bem!" O vozeirão do velho carcereiro retumbou pela ilha, chamando a atenção de todos. "Eu não sei quanto a vocês, mas eu senti uma saudade danada dessa vista!" O homenzarrão exclamou, olhando, maravilhado, para a torre de pedra. Empurrou o portão de ferro, que abriu-se com um rangido ensurdecedor. "Ah, música para os meus ouvidos! Como é bom estar de volta!" Depois, virou-se para Hans e deu uma piscadela. "Pode ficar se despedindo do pessoal, rapaz. Vou ajeitar a sua cela enquanto isso, está bem? Prometo que a deixarei bem confortável!"
Hans aquiesceu, balançando a cabeça rapidamente para cima e para baixo. Despediu-se do irmão e do Duque com um abraço forte e demorado e fez aos dois a mesma promessa que fizera a Sigrid. Quando foi a vez de dizer adeus a Elsa, sentiu seu coração bater tão forte que chegou a doer.
"Você ficará bem dessa vez." Ela afirmou, emoldurando o rosto dele com as mãos. "Sei que ficará bem." Sorriu, e o cantinho dos seus lábios tremeram. "E vai me escrever sempre."
"Todos os dias, se assim o quiser."
"Ótimo."
Ela o beijou, então, devagar e suavemente, eternizando aquele momento em seu coração. Quando romperam o beijo, Elsa recuou um passo.
"Cuide-se, Hans."
Deu-lhe as costas e fez menção de seguir em direção ao barco que a levaria até a Capital, onde embarcaria num navio para Arendelle, entretanto, não conseguiu se afastar muito, pois Hans a puxou pelo braço e, depois, segurou sua mão direita entre as dele.
"Elsa, espere."
"O quê?" Perguntou ela, sem entender o que ele pretendia fazer. "O que está fazendo?"
"Apenas... apenas espere." Ele a respondeu, mas não soltou a mão dela.
O príncipe fechou os olhos, como se em grande concentração, e Elsa percebeu como a respiração dele tornou-se ofegante e como o rosto ficou inundado de suor. Preocupada, tentou puxar a mão de volta, mas Hans a segurava com firmeza, e Elsa não conseguiu se soltar.
"Hans? O que está tentando fazer?" Perguntou mais uma vez, seus olhos azuis arregalados de apreensão.
Não obteve resposta por alguns segundos, até que, de repente, um sorriso aliviado atravessou os lábios do ruivo.
"Pronto." Disse ele, arfando, e soltou a mão de Elsa. "Pode olhar, agora."
"Está bem." Ela murmurou.
Desconfiada, ergueu a mão direita e soltou uma exclamação ao ver a aliança de gelo que circundava seu dedo anular. Era um anel bem simples – um aro meio prateado e meio azulado adornado por um único fractal de gelo –, mas que deixou a rainha sem fôlego, completamente arrebatada.
"Você praticou isso a noite toda, não foi?" Lembrou-se da noite passada, quando Hans dissera que queria ficar sozinho, e lembrou-se também de como ele estava cansado naquela manhã.
Não consegui dormir, dissera ele, e, ao ver aquele delicado anel perfeitamente encaixado em seu dedo, Elsa sabia muito bem o porquê dele não ter conseguido dormir.
"Queria que fosse uma surpresa. Sinto muito por magoá-la na ocasião... mas eu precisa praticar." Confessou o jovem, tímido e desajeitado. "E eu sei que sou péssimo em moldar gelo e que essa não é bem uma aliança de verdade, mas... mas foi o que eu consegui de melhor no momento para selar o nosso compromisso. Depois que eu sair da prisão, prometo que comprarei algo decente. Conheço esse ourives, na Capital, que possui excelentes referên-"
"Não!" Exclamou a moça, interrompendo-o. "Não. Esta... esta aqui é perfeita, Hans. Não quero outra."
"Oh. Você gostou?" Falou ele com dificuldade.
"Eu adorei." Elsa sussurrou, levando a mão ao peito. "E nunca deixarei que derreta."
O rapaz engoliu em seco, a emoção que sentia fazendo-o engasgar com as palavras.
"Fico feliz." Foi tudo o que conseguiu dizer depois de muito tentar. "Fico muito feliz, Elsa."
Ela o beijou mais uma vez, candidamente, e se afastou devagar.
"Nos vemos no próximo ano?" Brincou ela com uma voz chorosa e, ao sentir os olhos arderem, piscou contra as lágrimas.
"Com certeza." Garantiu ele, os olhos verdes marejados. "Alguém uma vez me disse que quatro anos se passavam como num piscar de olhos. Um ano, então, deve ser como um raio."
"Espero que sim." Afastou-se mais um pouco, cada passo dado com extrema dificuldade. Subiu no barco com a ajuda do Duque e se ajeitou num banco de madeira. Quando a embarcação já tinha se afastado alguns metros da ilha, Elsa pôs-se de pé e, virando-se, gritou. "Hans!"
O rapaz, que a observava do portão da masmorra, estreitou os olhos e mancou o mais rápido que conseguiu até a costa.
"O que foi?" Gritou ele em resposta, e um sorriso lacrimoso tomou conta do semblante de Elsa.
"Eu também tenho uma surpresa!"
Ele franziu a testa, curioso. Deve ter falado alguma coisa, pois Elsa viu os lábios dele se mexerem, contudo, o vento provavelmente carregou as palavras que lhe deixaram a boca, pois ela nada ouviu.
A plenos pulmões, a moça bradou:
"Nós estaremos esperando por você em Arendelle."
"Nós?" O príncipe perguntou, a voz dele quase não chegando aos seus ouvidos, e a resposta da rainha foi espalmar as mãos sobre o ventre ainda reto e olhar para baixo, na direção das próprias mãos.
"Sim. Nós."
E então, o barco se distanciou mais e mais, e a ilha de Suffolk ficou para trás. Não viu a reação de Hans e nem sequer soube se ele fora capaz de escutar aquelas palavras e compreender o significado precioso que guardavam, mas também não se importou muito com isso. Hans carregava e sempre carregaria consigo um pedaço dela, e Elsa, agora, também levava, dentro de si, um pedacinho dele. E, no momento, era só aquilo que importava.
