Capítulo Vinte e Cinco

Cloack And Cub

(Capa e Lobinho)

Draco sentiu seu rosto perder a pouca cor que costumava ter e levantou-se.

— Ele disse o motivo? — perguntou, olhando para Ron, que balançou a cabeça. — Ele está sozinho? A mãe não estava com ele, estava? — Engoliu. — Potter, estarei lá em cima, e se ele vier me procurar, terei de pegar aquela sua capa emprestada...

— Capa? — perguntou Black da porta. Severus estava atrás dele, os olhos escuros fixados apenas em Draco.

— Uma palavra, Draco — disse ele, e o coração de Draco se apertou. Como que Severus o encontrara? O que ele tinha dito à família de Draco?

— Tudo bem — respondeu, tentando soar despreocupado. Weasley fez uma careta (que não passou despercebida por Severus, que franziu o cenho), e Potter olhava para Black, pensativo, provavelmente ainda tentando entender seu problema com McKinnon. Draco saiu da biblioteca atrás de seu padrinho, deixando os três para trás. Severus não falou até terem chegado ao estúdio.

— Garoto tolo — disse ele brevemente, cruzando os braços sobre o peito. — Não pensou, talvez, em contar a alguém seus planos para as festas?

— Pensei — respondeu. — Só não gostei muito da ideia, então...

— Nós temos a obrigação de te manter seguro, Draco — disse Severus, ainda parecendo irritado. — E não podemos cumpri-la se não soubermos onde você está...

— Bem, você claramente sabe onde eu estou porque está aqui, não é? — Severus o olhou de um jeito que Draco só o vira usar com Longbottom; Draco se encolheu um pouco. — Como me encontrou? — murmurou, sentindo-se bastante mal-humorado.

— Você não estava na escola, nem em casa — respondeu. — Qualquer pessoa com um pouco de bom senso teria deduzido que você estaria com seus amigos. — Isso não ajudou em nada a diminuir o mau-humor de Draco.

— Então, o que veio fazer aqui? — perguntou.

— Visitá-lo — respondeu com um revirar de olhos. — Pensei que era óbvio.

— O pai te mandou?

Severus ergueu uma sobrancelha e disse:

— Ele não me mandou, não. Tampouco sua mãe. — Draco fechou a boca. — Vim por vontade própria.

— Po...

— Feliz natal — disse ele, tirando um embrulho grande e fino de suas vestes. Draco o pegou, surpreso demais para agradecê-lo. — Achei que ia gostar. — Draco rasgou o papel e ergueu uma sobrancelha.

Onde está o Wally? — perguntou, franzindo o cenho para o homem vermelho e branco na capa. — O que...

— Eu sei que você se orgulha das suas habilidades de observação — murmurou Severus. — Talvez isso possa ajudá-lo a melhorá-las. Eu fiz algumas alterações; se você o cutucar uma vez com a varinha ao encontrá-lo, ele vai mudar de lugar... assim, evitará resolver o mesmo quebra-cabeça várias vezes. — Isso não fez muito sentido para Draco, mas guardou a informação e assentiu seu agradecimento.

— Recebeu meu...

— Recebi — disse Severus. Se Draco não o conhecesse, diria que Severus parecia satisfeito. — Obrigado. — Draco comprara uma agenda de capa de couro para que ele pudesse registrar novos feitiços e poções (já que ambos eram do interesse de seu padrinho) e a mandara com a coruja de Potter na noite anterior. — É melhor eu ir. — Draco o olhou com curiosidade. — Eu tenho uma festa de natal dos funcionários e cometi o erro de dizer ao Diretor que compareceria.

— Senhor, meus pais...

— Receberam uma carta minha esta manhã — disse Severus. Draco se encolheu, e a expressão de Severus não mudou. — Você e eu tomamos o café da manhã juntos hoje, e eu estava com você quando abriu os presentes que sua família mandou para a escola. Você esteve ocupado com o dever de casa, e eu fui forçado a descontar cinco pontos da Grifinória por você ter atacado um Lufo no jantar de ontem. Você está bastante solitário e arrependido de não ter ido para casa para as festas e está disposto a me ajudar no laboratório de poções pelos próximos dias. — Draco o olhou, boquiaberto.

— Você... você não...?

— Fiz as escolhas erradas ao escolher um lado no passado — disse Severus brevemente. — Eu não pretendo repetir esses erros dessa vez.

— Então... — Draco o olhou. — Então você...

— Mandarei uma coruja da escola com os presentes da sua família. Feliz natal — disse Severus e foi embora.

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Os últimos dias do feriado foram os melhores da vida de Draco. Saber que Severus estava disposto a apoiá-lo — ou, pelo menos, não o entregar — era um alívio enorme, e Draco perguntou-se por que simplesmente não confiara nele desde o começo. Lupin fora com Severus à festa dos funcionários, e Tonks e McKinnon tinham ido fazer coisas de Aurores, então eram apenas Draco, Potter, Weasley, Black e Monstro na casa pela maior parte do dia.

Passaram um bom tempo com seus presentes, mas depois do almoço, todos — exceto por Monstro — colocaram suas roupas mais quentes e fizeram uma guerra de bolas de neve no parque do outro lado da rua, à qual Lupin, Tonks e McKinnon se juntaram mais tarde. Quando deu a hora do jantar, estavam todos com as bochechas coradas e úmidos — Weasley e Tonks recontavam animadamente os melhores momentos da guerra, Draco e Lupin perguntavam pelo jantar, e Black dera seu suéter a McKinnon para aquecê-la, e Potter observava aos dois de perto.

Potter ficou distraído com isso pelos próximos dois dias; sempre McKinnon estava presente, ele ficava perto de Black, observando e ouvindo, procurando por pistas, e ele até recrutara Draco e Weasley para entreouvirem no canto da cozinha quando Black e McKinnon ficaram conversando até tarde, tomando chá; eles ficaram sob a capa o tempo todo e descobriram duas coisas: que o Auror Moody ia se aposentar quando Tonks terminasse o treinamento e que Black estava ocupado procurando pelos nomes de antigos Comensais da Morte que podiam ser cúmplices de um homem chamado Quirrell.

Granger os visitou quase no final do feriado, e os quatro trocaram presentes de natal um pouco atrasados — Draco e Potter tinham lhe dado livros, e Weasley lhe dera algumas penas e um papel estampado —, e Granger, como esperado, os presenteara com livros. Weasley ganhara um livro de quebra-cabeça sobre xadrez, Potter ganhara um sobre a história das vassouras, e Draco ganhara uma edição atualizada de Hogwarts: Uma História. Durante a visita de Granger jogaram cartas e jogos de tabuleiros — mágicos, que Potter tinha pela casa, e muggles que Granger trouxera.

Então, Weasley Um e Dois passaram os três últimos dias do feriado lá.

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Apesar de ter se divertido muito com Harry e Malfoy, Ron ficou feliz quando Fred e George chegaram em Grimmauld Place. Estava acostumado a ficar separado de seus irmãos mais velhos — eles todos estiveram em Hogwarts —, mas tinha sido seu primeiro natal sem Ginny, a mãe e o pai, e tentara não sentir muitas saudades deles.

Ron perguntou-se se Fred e George também tinham sentido sua falta ou se eles só estavam se comportando bem para que a mãe não os matasse depois. Eles estavam bastante animados quando ele, Harry, Malfoy e o senhor Black foram buscá-los na estação de trem, mas também foram muito educados. Eles abraçaram Ron, deram tapinhas nas costas de Harry e de Malfoy e apertaram a mão do senhor Black com tanto entusiasmo, que Ron achou que eles iam machucá-lo.

Eles conversaram aos sussurros durante todo o percurso até a casa de Harry e, quando Harry os ajudou a atravessar as proteções, eles pareciam prontos para chorar.

— Vocês dois estão bem? — perguntara o senhor Black, e Fred corou, antes de assentir.

— Foi aqui que o Padfoot cresceu — disse Harry, cutucando George. Ele ficara boquiaberto, e ele e Fred começaram a analisar a casa com a mesma reverência que Ron vira em Percy quando a família visitara um museu de história da magia.

As duas noites que Fred e George ficaram em Grimmauld foram passadas na biblioteca, com o senhor Black e o professor Lupin contando histórias de seus dias em Hogwarts e sobre seus antigos amigos, e Ron — que tinha bastante membros engraçados na família — achava que nunca tinha rido tanto em sua vida. Até Malfoy, que normalmente só oferecia sorrisinhos afetados, chorava de rir quando o senhor Black contava sobre a vez que eles tinham transformados as maçanetas da escola em Chaves de Portal.

— Não é para vocês terem ideias — disse o professor Lupin, rindo do senhor Black. — Vocês têm um histórico e tanto por si mesmos — Fred e George brilharam de orgulho —, e vocês três, e Hermione, parecem se meter em problemas o bastante sem nem mesmo tentar.

— É genético — disse Fred a Harry, dando um tapinha em suas costas. Harry sorriu.

Ron ficou bastante triste de ter de voltar para a escola na terça-feira de manhã. Jogou o que conseguiu de seus pertences em seu malão gasto e desceu as escadas para se juntar aos outros no café da manhã. Passou pelo professor Lupin, pelos gêmeos e por Malfoy na biblioteca e encontrou Harry e o senhor Black conversando animadamente na cozinha.

— ... acho que terminei — dizia Harry, sorrindo de orelha a orelha.

— Já falou? — perguntou Black. — É o único jeito de ter certeza...

— Ainda não — respondeu Harry, balançando a cabeça. — Mas eu... Bom dia! — cumprimentou, notando Ron no topo das escadas.

— Bom dia — respondeu Ron.

— Tudo pronto? — perguntou o senhor Black, levantando-se para servir o café a Ron.

— Mais ou menos — respondeu e, então, disse a Harry em voz baixa: — Eu deixei aquele alarme do Malfoy embaixo da sua cama. — Por mais que o presente tivesse sido engraçado e por mais que tivesse ficado feliz por Malfoy ter achado que ele valia um presente no natal, o alarme fazia um barulho muito alto e horrível ao tocar, e Ron tentara várias vezes mudar o horário do alarme, mas não conseguira. Em Grimmauld, onde todos acordavam cedo, não era um problema, mas Ron duvidava que Seamus, Dean ou Neville ficariam muito felizes quando o alarme tocasse às seis da manhã de uma manhã de sábado. — Ele não vai para a escola. — Harry riu para dentro de seu chá.

Ron logo descobriu que ir para King's Cross da casa de Harry era tão frenético quanto ir d'A Toca; todo mundo conseguira espalhar suas coisas pela casa — Harry principalmente — e levaram mais de uma hora para encontrar tudo; o senhor Black e Monstro eram tão exigentes quanto a mãe, só mais silenciosos, Ron achou.

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— Pensei em vir me despedir de todo mundo...

Harry parou ao reconhecer a voz de McKinnon e colocou lentamente o malão no chão. Então, pegou a capa de seu pai, que guardara no bolso da calça, e a colocou sobre a cabeça. Pulando o degrau que rangia, Harry desceu lentamente os últimos lances de escadas e espiou pelo canto o corredor.

— Quer algo para comer ou beber? — perguntou Padfoot, colocando uma mão em seu braço. Harry observou, pensativo.

— Não, obrigada — respondeu ela, entrando. Padfoot fechou a porta atrás dela e lhe beijou a bochecha quando ela passou. Harry arregalou os olhos e, então, McKinnon inclinou-se na direção de Padfoot, e de repente Harry se sentiu muito culpado por estar os observando. Desviou os olhos e voltou a subir as escadas.

Foi quando seu pé ficou preso na barra da capa e, sem conseguir encontrar atrito no material escorregadio, Harry caiu no corredor e, para seu horror, a capa o descobriu. Padfoot, que estivera sorrindo, pulou e se virou.

— Harry? — chamou Padfoot, parecendo confuso, enquanto Harry levantava, esfregando o quadril. — Você está... O que está fazendo? — McKinnon parecia envergonhada e murmurou algo sobre a cozinha, antes de passar apressada por Harry. Ele pegou a capa, e Padfoot ficou boquiaberto. — O que é isso? — perguntou, aproximando-se. — Não pode... Não é...

— Sim — disse Harry. Estivera tão ansioso para usar a capa para andar pela casa e descobrir o que estava acontecendo com Padfoot e McKinnon, que ainda não contara ao seu padrinho sobre ela. Mas como Padfoot já a vira... Harry a ofereceu e Padfoot aceitou com as mãos trêmulas.

— As encrencas que arrumávamos com ela... — murmurou Padfoot, a voz pastosa. — Onde você encontrou? Achei que tinha sido perdida...

— O pai a deixou com alguém antes... Essa pessoa achou que estava na hora de vir pra mim — contou.

— Dumbledore — disse Padfoot depois de um momento. — É claro... Ele a confiscou depois de James ter usado para nos ajudar... É claro. — Ele sorriu e devolveu a capa a Harry, que a pegou e guardou no bolso. — Eu ouvi passos, mas não consegui te ver, e senti seu cheiro, mas não consegui achar de onde vinha... você estava embaixo da capa... O que estava fazendo com ela? — perguntou, curioso. Harry sentiu seu rosto corar.

— Nada — respondeu. Padfoot o olhou de um jeito estranho. — Eu estava só... vendo uma coisa — disse.

— Já tivemos essa conversa antes, acho — disse Padfoot, distraído. — Sobre você ser parecido com James e ser um mentiroso tão péssimo quanto ele...

— Você está namorando? — Harry deixou escapar e cobriu a boca com as mãos. Padfoot piscou.

— Como é?

— Nada — respondeu. Mas parecia que algo tinha começado a fazer sentido para Padfoot.

— É isso que esteve te incomodando — disse ele.

— Não me incomoda, eu só... não sabia se... Quero dizer, se... você nunca disse, e aí vocês estavam de mãos dadas e aí... agora mesmo... — Harry sentiu seu rosto corar mais uma vez.

— Ah — disse Padfoot e ele também parecia envergonhado. — Achei que você soubesse que nós... — Harry só balançou a cabeça. Padfoot riu e o puxou para um abraço. — Desculpe, garoto, eu devia ter sido... sei lá, mais claro quando te contei...

— Você só disse que tinham voltado ao que eram antes — murmurou. — O que eu achei significar que eram amigos, mas...

— Certo — disse Padfoot. Ele parecia um pouco corado também, o que fez Harry rir, antes de Padfoot ficar sério de repente. — Você está bem com isso? — perguntou, segurando Harry pelos ombros. — Você não... Isso não te incomoda?

— Não agora que eu sei — respondeu. — Quando eu não tinha certeza... era confuso...

— Harry! — chamou Moony. — É o seu malão que está bloqueando as escadas? — Padfoot riu e Harry sorriu para ele, antes de subir as escadas correndo para tirá-lo de lá.

— Eu sou um idiota — ouviu Padfoot murmurar enquanto ele ia para o lado oposto.

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Feliz aniversário, mãe, Harry pensou, parando em seu caminho para o Salão Comunal para olhar para a noite limpa e estrelada. Esperara encontrar aquele espelho de novo e ver Lily novamente, para que pudesse desejar feliz aniversário para um rosto que não tinha sido esculpido em pedra, mas o espelho sumira.

Harry tirou seu encantamento Animago do bolso, mais por hábito do que por precisar ver as palavras para sabê-las; vira-as tantas vezes que era surpreendente que ainda não as estivesse dizendo durante o sono. Tinha terminado — ou achava ter terminado — durante o feriado de natal, mas não tinha funcionado quando experimentara no escritório de Moony no segundo dia de volta à escola. Estivera revisando o encantamento desde então, certificando-se da gramática e da ortografia, e tinha certeza de que, agora, estava certo, mas ainda não tivera a chance de tentar.

Leu para si mesmo — em silêncio, porque, assim, não havia a menor chance de se transformar — e virou a próxima curva. Algo bateu em seu peito, e ele cambaleou para trás, ofegando.

Capil meum nigrae — falaram os lábios de Harry, sem que ele quisesse —, sicut procela...

— Potter? — chamou uma voz conhecida, enquanto Harry resmungava seu encantamento. — Ei, Um, é só o Potter...

... cerva natus ex — terminou Harry, antes de fazer uma careta quando a dor correu por seu corpo. Draco, Fred e George espiaram de trás de um pilar, parecendo envergonhados. A dor voltou a correr pelo corpo de Harry e, para seu horror, percebeu que estava se transformando. — O que vocês... — Foi tudo o que teve tempo de perguntar antes do mundo diminuir.

Seus ossos doeram ao se torcerem e mudar, sua pele coçava ao ponto de arder conforme pelo negro aparecia em todos os lugares. Harry gritou quando suas pernas cederam e caiu no que deveriam ser suas mãos e joelhos, mas tudo o que tinha eram patas enormes, que doeram quando longas unhas cresceram. Ele estaria chorando se fosse possível, mas tudo o que conseguiu foi uma lamentação, que fez seus ouvidos sensíveis doerem tanto quanto os gritos desesperados dos outros três.

Mas o pior foi o rabo.

Ainda que a transformação tivesse demorado apenas alguns segundos, para Harry pareceu ter durado vários minutos, e quando finalmente acabou, o garoto estava trêmulo no chão.

— O que você fez? — perguntava Draco a Fred com a voz aguda. — Potter? — chamou. Harry tentou falar, mas só conseguiu soltar um choramingo. Então tossiu, porque sua língua estava muito maior do que estava acostumado, e sua boca parecia estreita, estranha e cheia de dentes muito afiados. — Vocês tentaram deixá-lo igual ao Black? — Os gêmeos o olhavam com a boca aberta. — Desfaçam! — exigiu Draco.

— Não era para... era só para forçá-lo a falar as coisas em que estava pensando, como os outros — disse George. Harry conseguia sentir o cheiro de seu pânico, quente, pruriginoso e curiosamente contagioso. Harry torceu o nariz e voltou a choramingar.

— Harry. — Era Fred, abaixado perto dele. Harry se arrastou para longe, não por medo, mas porque Fred tinha um cheiro tão humano. De fato... Harry olhou ao redor e notou que seu labo lupino estava ficando desconfortável. Onde estavam as árvores, a grama? Onde estavam as tocas para se esconder? Tudo era pedra morta, exceto pelos humanos, e tudo tinha um cheiro ardente e mágico. Onde estava o céu?

Aqui é meu lugar, Harry pensou, mas se sentia inquieto, encurralado. Perguntou-se se Padfoot já tivera esse problema, mas Padfoot era um cachorro, não um lobo. Padfoot não era selvagem. Posso reverter isso, tudo que preciso fazer é me transformar... Não demorou muito para Harry chegar à horrível conclusão de que não sabia como; sempre assumira que Padfoot ou Moony estariam com ele, para supervisionar e ajudá-lo. Padfoot só se transforma..., pensou. Esperou alguns segundos. Mudar? Tentou de novo, tentando se lembrar da sensação de ter braços, pernas e um corpo humano, e nada de rabo ou pelo... Isso é ruim, pensou quando nada aconteceu.

— Potter? — Harry se focou em Draco com dificuldade. — Nós vamos te ajudar. A Ala Hospitalar é bem...

A Ala Hospitalar não!, Harry pensou, arrastando-se para trás. Suas pernas funcionaram por instinto, mas precisou afastá-las para permanecer em pé. Devia parecer idiota, mas não se importava; coisas mais importantes estavam em risco. Não, não, não, não, não... Seus pensamentos saíram como um grito estranho e meio rosnado; Draco se afastou, parecendo um pouco assustado.

— Acha que ele ainda é o Potter? — perguntou Draco. Ele também exalava o cheiro de pânico.

— Eu acho... eu não sei — disse George. — Harry, cara, você pode, er... latir se consegue nos entender? — Harry demorou um momento para descobrir como fazer, mas conseguiu soltar um latindo fraquinho. — Bom. — George parecia aliviado. — Agora, nós vamos te levar para ver a Madame Pomfrey e...

Moony, Harry pensou. Eu preciso do Moony. Soltou um choramingo e recuou.

— Talvez devêssemos estuporá-lo...? — Ouviu Fred murmurar. Harry bateu os dentes, nada impressionado, e os gêmeos e Draco o olharam com cautela.

Harry tentou se lembrar de qual andar estava. Sentiu inveja de Padfoot, que conseguia se concentrar mesmo quando se transformava. Harry estava com dificuldade em processar todos os sons, os cheiros e coisas lupinas, e, no processo, esquecia-se das coisas humanas. Terceiro andar. Eu estava no terceiro andar. Assentiu para si mesmo. O escritório de Moony era no andar debaixo.

Olhou para os gêmeos e Draco, que ainda discutiam sobre o que fazer com ele, e decidindo que eles estavam ocupados, virou-se, desajeitado, e começou a caminhar pelo corredor. Estava com uma sensação estranha nas pernas, que não se moviam do jeito que estava acostumado, mas quanto menos pensava no assunto, melhor era. Sentiu-se ousado o bastante para tentar correr e foi quando, infelizmente, tropeçou, trombou com um armário de prêmios e alertou os outros para o fato de que tentava escapar.

— Potter — disse Draco, exasperado, indo atrás dele. Mas George sacou a varinha com uma careta e a apontou na direção de Harry. Perigo, pensaram os lados humanos e lupinos de Harry, e o instinto tomou o controle. Ergueu-se num pulo, os pelos eriçados, e correu para a curva do corredor. Ouviu alguém xingar e ouviu os sons de passos. Precisou olhar para trás uma vez para ver se eles não estavam logo ali de tão claro que o som tinha sido. Era desconcertante. Escorregou até as escadas, derrubando dois alunos do segundo ano da Corvinal, que gritaram, mas como eram Fred e George que o seguiam, eles provavelmente assumiriam que era uma pegadinha.

Harry soltou suas pernas e trotou desajeitadamente até o escritório de Moony. Ele trancava a porta — provavelmente a caminho do jantar — e ainda não tinha percebido Harry. Mas Harry ficou tão aliviado por ver um rosto conhecido — mesmo que humano — e tão confortado pelo fato de que ele também tinha um cheiro lupino, que pulou em Moony assim que chegou perto o bastante. Moony, que só se virou no último instante, caiu. Alguns choramingos felizes e vergonhosos escaparam da garganta de Harry, e ele até lambeu Moony uma ou duas vezes.

— Padfoot — disse Moony, segurando o pelo grosso na nuca de Harry —, que... — Harry não conseguia se mexer, mas isso não o impediu de se balançar, nem seu rabo de ir de um lado para o outro, ansioso. As narinas de Moony se alargaram e ele arregalou os olhos, mas antes que pudesse falar outra coisa, o barulho veio da ponta do corredor.

— Ah, não — disse Fred. Ele guardou e varinha, e Harry bufou.

— Eles viram? — murmurou Moony, e Harry choramingou. O cheiro de Moony passou a ser exasperado, um cheiro interessante, denso, e que saia dele em nuvens opressivas. — Eu quero saber o que aconteceu?

— Nós... era uma pegadinha — falou George. Ele parecia pálido e preocupado. — Nem era para isso ter acontecido, e aí ele... ele disse algo e mudou, aí...

— Entendo — disse Moony, interrompendo-o. — Talvez, então, vocês precisem praticar mais a pronuncia dos feitiços... Estou certo de que o professor Flitwick cobriu a história do bruxo Baruffio no seu primeiro ano? — Fred assentiu. — Mas não importa — continuou. — Um Finite rápido deve dar conta do recado. — Olhou para Harry de um jeito cheio de significados ao sacar a varinha e acená-la.

Finite?, pensou Harry. Eu só tenho que pensar... Mas já tinha funcionado; Harry fez uma careta quando seu ilíaco se moveu, e suas pernas cresceram, as patas se alongaram e seu rabo sumiu. Uma parte sua ficou aliviada ao perceber que ainda usava suas vestes, mas suas outras partes estavam doloridas.

Moony o ajudou a se levantar e passou um braço ao seu redor. Harry fez uma careta e cambaleou.

— Quer que a gente o leve para a Ala Hospitalar? — perguntou Draco.

— Não — respondeu Moony. — Eu tenho um pouco de Poção Estimulante no meu escritório, e acho que isso será o bastante. — Fred e George ainda pareciam aterrorizados. — Não vou tirar pontos nem fazer com que sejam expulsos — garantiu a eles. — Acidentes acontecem. — Olhou-os severamente e disse: — Mas se eu ficar sabendo que voltaram a usar esse feitiço, ficarei muito desapontado... Transfiguração humana não é algo com que se deva brincar. — Eles se apressaram a assentir e Moony sorriu para eles. — Harry voltará ao Salão Comunal depois do jantar.

Fred e George, percebendo que tinham sido dispensados, pegaram Draco e foram embora. Moony destrancou o escritório, levou Harry até o sofá e foi direto para a lareira.

— Número doze, Grimmauld Place. — A cabeça de Monstro apareceu um momento depois, mas ele não falou; ele olhou para Harry, trêmulo no sofá, e desapareceu.

Moony tinha acabado de colocar uma xícara de chá na mão de Harry — que pôde sentir o cheiro da poção misturada — quando Padfoot chegou. Harry fez uma careta quando o fogo urrou, antes de espirrar várias vezes quando Padfoot tirou as cinzas das vestes e do cabelo, antes de se aproximar, ainda com o cheiro do fogo.

— Garoto? — chamou ele, olhando para Moony, que ainda cheirava à exasperação. Mas ele parecia orgulhoso e um pouco divertido, então Harry não achou que era algo grave. — Garoto, o que... — Harry deixou a xícara de lado e passou os braços ao redor de seu padrinho, que deu tapinhas nas suas costas, cheirando à confusão (que era uma mistura de coisas). Esses cheiros, Harry percebia, não eram iguais aos de comidas ou coisas, mas eram parecidos com a sensação que os sentimentos causavam.

Para a vergonha de Harry, ele choramingou em vez de falar. Padfoot se afastou para olhar seu rosto, enquanto Harry tentava encontrar sua voz.

— Eu consegui — disse Harry, rouco. — Eu me transformei.

— Você... — Padfoot sorriu. — Deu certo?

— Oh, deu certo — disse Moony, afastando um pouco Padfoot para que pudesse colocar a xícara na mão de Harry mais uma vez.

— Doeu — contou Harry, tomando um gole de chá. Sentiu o rosto esquentar, e seus ouvidos estavam quentes e úmidos; Harry sempre odiara a poção Estimulante. Padfoot o olhou com simpatia. — Tipo... tudo estava se mexendo e esticando...

— E os rabos — disse Padfoot, balançando a cabeça. Moony, também, fez uma careta. — Fica melhor, garoto. Mude mais uma ou duas vezes e nem vai mais sentir.

Era o que Harry esperava e, pela primeira vez, achava ter tido uma ideia de como eram as luas cheias para Moony. Seu rosto devia ter demonstrado alguma coisa, porque Moony deu de ombros de um jeito meio impotente.

— Beba o resto — disse Moony. Harry obedeceu.

— Como se sente? — quis saber Padfoot quando a xícara de Harry estava vazia.

— Melhor — respondeu, hesitante. E se sentia mesmo.

— Bom — disse Padfoot, sorrindo de orelha a orelha. — Porque eu quero ver.

— Padfoot! — guinchou Moony. — Ele está exausto! Você não pode...

— Ele não está cansado de verdade, só está com medo de que volte a doer... — Padfoot estava certo, Harry tinha de admitir. — E se ele ficar adiando, vai ser mais difícil. Nenhum dos livros diz isso... Lembra do Peter? — Moony fez uma careta.

— Como foi que você decidiu continuar a se transformar depois da primeira vez? — perguntou Harry.

— Mais coragem do que cérebro? — ofereceu Padfoot. — E um motivo bem importante. — Olhou para Moony, que sorriu timidamente. — Vamos lá, garoto.

Harry respirou fundo e começou a murmurar seu encantamento.

Continua.