NOTA: Agradeço a todos os leitores pela paciência e por não desistirem da fic! Como tento sempre manter a qualidade do que escrevo, necessito de um tempo maior para planejar, escrever e revisar tudo o que posto aqui. Obrigada a todos por lerem e espero que estejam se encantando, assim como eu, pela incrível história de Pansy e Hermione e por esse mergulho mais profundo na Sonserina. Este capítulo em especial, foi feito como um tributo a Alan Rickman, falecido em 14 de janeiro de 2016 e que eternizou Severus Snape, um personagem tão excepcional, amado e querido em todo mundo. Espero que gostem e se emocionem, assim como eu ao escrever cada palavra deste capítulo! Não deixem de comentar suas críticas, sugestões etc!

ATT: Bea Henrichs.


Capítulo 24 - Azkaban.

Pansy não fazia ideia de onde estava. Na verdade, não fazia ideia do que estava acontecendo. "Você está sentenciada à prisão de Azkaban por tempo indeterminado." Fora ricocheteada? "Sem direito à julgamento." Era apenas um pesadelo ruim? "Seu uso é uma ofensa grave." O que Pansy fizera? "Apenas aurores estão autorizados a usar Maldições Imperdoáveis." E por que, de alguma forma, nada disso parecia fazer sentido? Sua cabeça girava. "Parkinson está usando Imperius!" Então era isso?

Weasley maldito.

Após ser fotografada e fichada, Pansy fora, literalmente, jogada em uma cela; ou ao menos o que restara de uma. Na verdade, a única coisa que remetia à uma cela, eram as fortes grades enferrujadas e envelhecidas daquele lugar. Seria possível que apenas uma grade separava Pansy do lado de fora? O que tinha depois daquela cela? Não sabia. Não era possível enxergar nada naquela escuridão. Apenas um leve feixe de luz que entrava pela janela iluminada pela lua no final do corredor. Se é que aquilo era um corredor. Se havia mais alguém ali, ela também não sabia. E se havia, difícil que estivesse com vida, pois a loura não ouvia som algum de respiração além da dela. Pansy estava mesmo em Azkaban, ou isso tudo não passava de um pesadelo? Uma ilusão criada por alguém que quisera vê-la temer alguma coisa? Ou será que estava com Avery e ele estava controlando a sua mente? Como Pansy pudera deixar sua mente tão fraca assim? Ao longe, ouvia-se um único som: uma gota caindo ao chão. E mais uma. E mais outra. À essa altura, as gotas já haviam formado uma poça, pois o som do baque era mais suave. Será que alguém poderia silenciar aquela goteira? E por que ninguém acendia nenhuma luz com a ponta da varinha?

De repente, o som das gotas que caíam desapareceu. A única luz que iluminava o corredor escuro fora sugada, porque agora Pansy já não via mais nada. Além disso, uma brisa de gelo muito forte começou a atingir o seu corpo, fazendo com que a loura tremesse contra a sua vontade. Uma atmosfera gelada e obscura pairava onde Pansy estava, principalmente porque seu queixo trêmulo fazia com que seus dentes batessem. O frio atingia cada vez mais fundo a pele da garota, que agora sentia cada pedaço de esperança e paz ser sugado de seu próprio corpo. A loura reconheceu o estranho cheiro podre que se aproximava e aquela sensação de que alguém transpirava frio. Por isso, ela buscou por sua varinha nas vestes, mas não encontrou nada. O que fizeram com a sua varinha? Se ela não tinha posse do objeto que pertencia a ela, isso só significava que...

Ela estava em Azkaban. O seu pavor era real.

O vento do lado de fora era muito forte, porque a torre de Azkaban estava sobre o mar. O som assustador da brisa era a única coisa possível de ser ouvida, porque Pansy sentia a presença deles, mas não podia ouvi-los. E de acordo com a maldição de Azkaban que a própria Pansy apoiara por tantos anos: suas essências e memórias felizes seriam sugadas por Dementadores famintos que se aproximavam cada vez mais. Quantos tinham ali? Três? Quatro? Dez? O frio aumentava cada vez mais, provando que, a cada minuto, um novo Dementador se aproximava. "Expecto Patronum", Pansy mentalizou com toda a concentração do mundo. Se tinha magia extrema em cada centímetro de sua pele, ela serviria de algo, no fim das contas. "Expecto Patronum", ela pensava novamente. O frio não diminuía. Ela precisava se esforçar mais. "Expecto Patronum", mais uma vez. Ela já se esquecera das aulas de Aberforth? Precisava pensar em coisas felizes, afinal. "Expecto Patronum", ela tentou novamente. Ela precisava pensar nas coisas que transbordavam felicidade. Apenas tinha que se esforçar mais. Mentalizar a felicidade. "Expecto Patronum", ela insistiu, falhando mais uma vez. Por que Pansy Parkinson não sentia mais felicidade alguma? Pensar em seus pais, em sua irmã ou em Snape já não era o suficiente, pois todos estavam mortos. Sua casa estava reduzida às cinzas e Hogwarts não a protegera. Pansy tremia, mas estava suando. "Por favor, Expecto Patronum", ela implorava para si mesma. Implorava, até sentir o desespero no ar. Seu peito se enchia de dor e sofrimento.

Em sua cabeça, Snape caía inconsciente e imóvel no chão; Blaise, deitado sobre a grama da Floresta Proibida, tinha os olhos arregalados e imóveis; seus pais estavam em um canto, apodrecidos por dias, marcados pela palavra "traidores"; o olhar de sua mãe era vazio e inexpressivo. E Daisy; ah, Daisy… Tão jovem, tão frágil, entregue à morte tão rapidamente. Pansy não pôde salvá-la. No meio da Floresta Proibida, Hermione estava amarrada à uma árvore; sangrava abruptamente. O feixe de luz verde corria sem empecilhos em direção à garota, que sequer teria chances de se defender e a atingiria em cheio, matando-a instantaneamente.

Ela não. Ninguém tiraria Hermione de Pansy.

"Parkinson! FECHE A SUA MENTE", a voz de Snape ecoava em suas lembranças, lhe dando uma pontada forte de desespero.

"Expecto Patronum", a loura pensou outra vez. Por que doía tanto pensar no que a fazia feliz?

"PANSY! Você não está tentando o suficiente…"

E de repente, tudo fez sentido.

Pansy relaxou completamente o corpo. Deixou que toda a sua dor dominasse o que ela sentia, junto com a raiva desesperadora que ela precisava deixar que os Dementadores levassem. Se queriam levar algo de seus sentimentos, que carregassem todo o peso de suas mágoas. Pansy mentalizou cada centímetro mágico de sua pele e se imaginou envolvida por uma forte luz laranja que significava a única força que ela tinha. Sabia que eles só se alimentariam de suas memórias felizes, assim como faziam com todos os que permaneciam presos ali. Mas Pansy não fizera nada de errado. Sempre sentira dor, medo e tristeza; por que isso seria diferente? O que teria de tão assustador nos Dementadores, se ela não tinha pelo que sentir culpa? O que eles teriam para levar, além de todas as coisas ruins que ela sentia? Então que levassem. A dor dominou todo o seu corpo, junto com a tristeza, a desilusão e a falta de esperança. Além de tudo, a raiva era o mais forte em seu corpo. Pansy precisava se libertar. Eles não tinham mais o que tirar dela. Nada além da única coisa que a mantinha viva. E eles não tirariam.

A loura sentia as veias em seu corpo pulsarem; não sabia se sentia raiva ou dor. Era como se cada pedaço de mágica existente estivesse reagindo e lutando contra qualquer coisa externa. Se a magia realmente possuía uma essência, a de Pansy não deixaria que nada acontecesse com ela. Ela estava com ódio. Uma raiva insuportável tomando conta de cada lembrança que ela existia. Ela não merecia estar trancada e abandonada naquele lugar; não merecia estar sendo sugada por Dementadores, muito menos longe de Hermione, que estaria desprotegida em Hogwarts, sem que nem mais soubesse de Avery. Por Merlin! Hermione precisava agir com inteligência. Deveria contar com Potter, mas sem que Weasley soubesse.

Ah, Weasley. Pansy o enforcaria com suas próprias mãos até sentir suas veias saltando e, no mesmo instante, parando de funcionar para sempre; ela adoraria matá-lo. Pansy sentia ódio. Um ódio crescente, que não podia ser controlado, pois ele parecia subir por todo o corpo: ela não tinha como pará-lo. A sensação estava começando a ficar fora de controle, porque o corpo de Pansy Parkinson já tremia por inteiro. Ela sabia que aquela reação era estúpida, mas isso não importava, porque ela estava possuída pela fúria. O ambiente gelado provocado pelos Dementadores já não parecia tão frio. Era como se a cela, de repente, estivesse em chamas. A loura podia sentir o calor da magia, misturada à raiva, nos seus ossos. Pansy estava apavorada, mas ela sabia que não havia alegria para que as criaturas diante dela sugassem. Por mais que ela sentisse o tremor e o choque piorando, o corpo dela não estava em pedaços. A sua magia se certificara disso. Suas memórias felizes não iriam a lugar algum. Pansy não podia se deixar enlouquecer, porque ela não fizera nada de errado.

Diante dela, Snape estava de pé. A loura sentiu um alívio instantâneo, mas Snape possuía a expressão dura.

Venha até mim.

Ele a chamou com seriedade, mas Pansy não conseguia se mover. A dor era insuportável.

Você sabe o que fazer. – ele voltou a afirmar.

Pansy, sentindo que apenas conseguiria chegar até seu padrinho caso se arrastasse, ergueu uma das mãos para que ele a alcançasse. Snape não se moveu.

Você não está se esforçando. – ele disse em fúria. – Concentre-se!

A sua voz ecoou pela cela e, de repente, tudo voltou a ficar escuro.


A aula de Poções foi em uma das masmorras. Era mais frio ali do que na parte social do castelo e teria dado arrepios mesmo sem os animais embalsamados flutuando em frascos de vidro nas paredes à volta. Snape começou a aula fazendo a chamada e Pansy estava curiosa. Esse seria o amigo de seu pai que sua mãe tinha dito? Enquanto fazia a chamada, ele deu uma pausa brusca.

Ah, sim. – disse baixinho. – Harry Potter. A nossa nova celebridade.

Um garoto loiro com quem Pansy tinha conversado no trem, um tal de Draco Malfoy, junto com seus amigos deram risadinhas escondendo a boca com as mãos. Harry Potter era o famoso menino que sobreviveu a Você-Sabe-Quem? Snape terminou a chamada e encarou a classe.

Vocês estão aqui para aprender a ciência sutil e a arte exata do preparo de poções. – começou.

Falava pouco acima de um sussurro, mas eles não perderam nenhuma palavra. Snape tinha o dom de manter uma classe silenciosa sem esforço.

Como aqui não fazemos gestos tolos, muitos de vocês podem pensar que isto não é mágica. Não espero que vocês realmente entendam a beleza de um caldeirão cozinhando em fogo lento, com a fumaça a tremeluzir, o delicado poder dos líquidos que fluem pelas veias humanas e enfeitiçam a mente, confundem os sentidos... Posso ensinar-lhes a engarrafar fama, a cozinhar glórias, até a zumbificar se não forem o bando de cabeças-ocas que geralmente me mandam ensinar.

Mais silêncio seguiu-se a esse pequeno discurso. Pansy estava fascinada.

Potter! — disse Snape de repente. Até Pansy se assustou. – O que eu obteria se adicionasse raiz de asfódelo em pó a uma infusão de losna?

Pansy sabia a resposta e levantaria a mão para respondê-lo se não estivesse se divertindo tanto com a expressão de pânico do garoto. A mão de outra garota, com o cabelo muito cheio e os dentes da frente meio grandes, se ergueu no ar.

Não sei não, senhor – disse Potter. A boca de Snape se contorceu num riso de desdém. Pansy não se sentiu tão mal, porque ela também teve vontade de sorrir.

Tsc, tsc, a fama pelo visto não é tudo. – e não deu atenção à mão da garota que tentara responder. – Vamos tentar outra vez, Potter. Se eu lhe pedisse, onde você iria buscar bezoar?

A garota dentuça esticava sua mão no ar o mais alto que pôde sem se levantar da carteira e Pansy estava começando a se irritar com aquilo. Também sabia a resposta, mas não sentia a necessidade de levantar a mão. Malfoy e os garotos se sacudiam de tanto rir.

Não sei não, senhor.

Achou que não precisava abrir os livros antes de vir, hein, Potter? – Snape continuava a desprezar a mão trêmula da garota e Pansy não deixava de adorar que Snape a ignorasse. – Qual é a diferença, Potter, entre acônito licoctono e acônito lapelo?

Ao ouvir isso, q garota se levantou, a mão esquerda em direção ao teto da masmorra. Pansy queria jogar o livro na cabeça dela.

Não sei. – disse Potter em voz baixa. – Mas acho que Hermione sabe, porque o senhor não pergunta a ela?

Então o nome da imbecil era Hermione? Alguns garotos riram e Pansy teria rido se não estivesse tão irritada com a presença da garota.

Sente-se – disse com rispidez à Hermione. – Para sua informação, Potter, asfódelo e losna produzem uma poção para adormecer tão forte que é conhecida como a Poção dos Mortos Vivos. O bezoar é uma pedra tirada do estômago da cabra e pode salvá-lo da maioria dos venenos. Quanto aos dois acônitos são plantas do mesmo gênero botânico. Então? Por que não estão copiando o que estou dizendo?

Ouviu-se um ruído repentino de gente apanhando penas e pergaminhos. E acima desse ruído, a voz de Snape:

E vou descontar um ponto da Grifinória por sua impertinência, Potter.

As coisas não melhoraram para os alunos da Grifinória na continuação da aula de Poções. Snape separou os alunos aos pares e mandou-os misturar uma poção simples para curar furúnculos. Caminhava imponente com sua longa capa negra, observando-os pesar urtigas secas e pilar presas de cobras. Pansy fez dupla com Malfoy e eles pareceram se dar muito bem, porque além de ler aquela parte do livro antes das aulas iniciarem, eles tinham certa aptidão para Poções. Snape passou a aula criticando quase todos, exceto Draco e Pansy, de quem parecia gostar. Tinha acabado de dizer a todos que olhassem a maneira perfeita com os dois cozinharam as lesmas quando um silvo alto e nuvens de fumaça ocre e verde invadiram a masmorra. Um garoto de rosto redondo e jeito atrapalhado conseguira derreter o caldeirão de sua dupla, transformando-o numa bolha retorcida e a poção dos dois estava vazando pelo chão de pedra, fazendo furos nos sapatos dos garotos. Em segundos, a classe toda estava trepada nos banquinhos enquanto o atrapalhado, chamado Neville, se encharcara de poção quando o caldeirão derreteu e tinha os braços e as pernas cobertos de furúnculos vermelhos que o faziam gemer de dor.

Menino idiota! – vociferou Snape, limpando a poção derramada com um aceno de sua varinha. – Suponho que tenham adicionado as cerdas de porco-espinho antes de tirar o caldeirão do fogo?

Neville choramingou quando os furúnculos começaram a pipocar em seu nariz.

Levem-no para a ala do hospital. — Snape ordenou ao outro garoto, cujo nome era Simas. Em seguida voltou-se zangado para Potter e um garoto ruivo, que estavam trabalhando ao lado de Neville. – Você, Potter, por que não disse a ele para não adicionar as cerdas? Achou que você pareceria melhor se ele errasse, não foi? Mais um ponto que você perdeu para Grifinória.

Pansy e Malfoy deram risadinhas de prazer. E depois os sonserinos que eram ambiciosos! A loura amara aquela aula e, na verdade, foi a primeira que gostou de verdade. Além de tudo, se sentiu estranhamente afeiçoada ao professor. Pela primeira vez em algum tempo, ela se sentira realmente feliz.

O frio estava voltando; Pansy não podia deixá-lo dominar. Sua mente era apenas sua. Nenhum Dementador mudaria isso.

Pansy fora tirada de sua cama cedo. Segundo o diretor Dumbledore, o professor Snape tinha algo para conversar com a garota. Por Merlin! Será que estaria indo mal nas auals? Será que Snape a colocaria em detenção por ter azarado a vassoura de Neville em uma das aulas de vôo? Ele era o Diretor da Sonserina e poderia até expulsá-la por isso. Que justificativa daria para seus pais se fosse expulsa logo em seu primeiro ano? Ela já estava nas Masmorras, na Comunal da Sonserina, então tudo o que precisara fazer fora cruzar o corredor e ir para a sala de Snape. Reconhecia de longe a sala escura e gelada, de decoração elegante e com o chão frio. Quando adentrou o cômodo, se deparou com o professor atrás de uma escrivaninha empoeirada e repleta de frascos etiquetados. Snape parecia zangado e impaciente, tendo que analisar poções de alunos que sequer sabiam acender um caldeirão. Pansy entrou com receio e não se deu conta de que, logo atrás, um gato gordo, de orelhas chatas, pêlo cinza e olhos azuis a seguia.

Prince! Saia já daqui! – ela vociferou, extremamente constrangida. Por que aquele gato era tão apegado a ela?

Pansy esperava que Snape fosse expulsá-la dali a pontapés. Incrivelmente, no entanto, ele sorria com o canto dos lábios. Somente quando se aproximou do professor, é que Pansy se lembrou da capa escura, cabelos pretos e oleosos que cobriam parte do rosto e uma postura muito silenciosa. Snape fora quem ajudara Pansy e Daisy a se esconder!

Pansy, lhe convoquei porque devemos conversar. Eu o faria antes do início das aulas, mas tive alguns imprevistos. Preciso lhe contar algo.

Pansy ouvia atentamente. Snape não parecia aquele mesmo professor rabugento e mal humorado da aula de Poções.

Eu sou-

Eu sei quem você é. – ela o cortou. – Você nos salvou de Avery quando ele tentou… – ela engoliu em seco.

Eu não as salvei, eu só as mantive em um lugar seguro. – Snape disse com falta de jeito.

Ele jamais aceitaria ser visto como herói.

Certo. – ela disse, engolindo o choro. – O que precisa falar?

Snape pareceu ter engolido em seco e toda aquela segurança que ele costumava sustentar na aula de Poções, agora sumira.

Veja, seus pais… – Snape hesitou. – Nós sempre fomos bons amigos. Eles nunca me deixaram na mão e eu estive ao lado deles por muitos anos. Eu vi você nascer.

Pansy deu de ombros. Ela já sabia disso.

Sim? – ela tentou encorajá-lo, embora estivesse claramente desconfiada.

E eles então resolveram… Bom, eles me presentearam… – ele hesitou novamente, como se não soubesse que palavras usar. – Me deixando ser seu padrinho, Pansy.

Pansy arregalou os olhos, inicialmente. Nunca soube que tinha um padrinho. Na verdade, era até estranho ter um, pois Pansy nunca fora afeiçoada a ninguém que não fosse da sua família. Em seguida, ela assentiu, mas ainda permanecia séria e desconfiada.

Sei que deve lhe parecer estranho. É da natureza de um sonserino desconfiar de qualquer pessoa. – ele disse com calma.

Pansy não disse nada, mas Snape acertara. Ela estava mesmo desconfiada. A expressão dele extremamente séria.

Me diga, Pansy… – ele disse com tranquilidade. – Qual matéria você acha que gostará de estudar?

Pansy engoliu em seco, mas disse mesmo assim.

Defesa Contra as Artes das Trevas. – os olhos acinzentados da garota fitavam Snape com curiosidade.

É a minha favorita. – ele confessou.

Pansy arqueou uma das sobrancelhas.

É sério? – ela demonstrou um interesse maior. – E por que você não leciona isso aqui?

Snape deu uma breve olhada para baixo, mas logo voltou a respondê-la.

Eu fui escolhido para lecionar Poções. – ele suspirou. – Mas você poderá pedir a minha ajuda se sentir dificuldade nessa matéria. Posso te ensinar algumas defesas para caso algum engraçadinho tente lhe importunar e-

Pansy podia jurar que ouvira sua mãe pigarrear em sua cabeça. E provavelmente o mesmo acontecera com Snape, pois ele tentou disfarçar.

Para caso você precise. – ele assentiu e deu um sorriso tímido.

Pansy sorriu também, embora de forma discreta. Porém, antes que ela pudesse dar total confiança para Snape, ela teve mais uma dúvida.

E por que você nunca apareceu antes? – ela arqueou uma das sobrancelhas.

Snape fora pego de surpresa. Ele não parecia ter essa resposta na ponta da língua, porque olhou para baixo e permaneceu pensativo por um bom tempo.

Eu não... – ele disse sem jeito. – Estava passando por um momento bom. Estava andando na linha, precisando reparar… Perdas. E peço desculpas por isso.

Pansy pareceu pensativa e depois deu de ombros. Em seguida, pareceu curiosa novamente. Prince ronronava em sua perna.

E se eu não tivesse ficado na Sonserina? – ela disparou. – O senhor viria até mim?

Snape sorriu com discrição.

As casas só servem para, de alguma forma, organizar Hogwarts. Mas isso não impede que você faça amizades de outras casas. Não me impediria.

Você tinha amizade com pessoas de outras casas? – Pansy fora direta.

Snape engoliu em seco e, rapidamente, olhou para os olhos de Pansy; num olhar muito mais dolorido do que qualquer outro que tenha dado desde que Pansy chegara ali. Em seguida, ele assentiu.

Então poderemos ser amigos. – Pansy sorriu com o canto dos lábios e ergueu uma das mãos para que Snape a apertasse. – Você terá que me ensinar muitas coisas em Hogwarts, professor!

Ele logo apertou a mão da loura, embora tenha dado uma breve pausa.

Severus. – ele assentiu. – Não precisa me chamar de professor quando não estiver em aula. A não ser que você não queira que todos os outros saibam.

Eu prefiro fazer disso um segredo. – ela sorriu com certa ambição. – Deixar as pessoas curiosas.

Snape não pôde esconder o sorriso. Em seguida, ele esfregou os olhos.

Você não se parece nada com a… – ele tentou dizer com a voz rouca. – Ela me lembrava alguém.

Pansy entendeu de quem Snape estava falando. Daisy realmente não tinha semelhança alguma com Pansy. A loura conseguiu imaginar os olhos verdes da irmã encarando Snape com curiosidade, enquanto os cabelos ruivos cairiam por sua face, se ela estivesse ali.

Quem? – ela disse com tranquilidade.

A pessoa mais gentil que eu conheci. – ele confessou, um tanto tímido. – Extremamente inteligente, como vocês duas são.

Daisy era… – Pansy engoliu em seco. Era a primeira vez que falava da irmã para alguém após a sua morte. – Um raio de luz.

Você também é. – ele assentiu com um sorriso.

Eu prefiro pensar que Daisy era a minha luz. Sou o oposto dela. – ela assentiu com seriedade e não se importou de dizer algo tão obscuro para o seu padrinho.

Snape assentiu com a face, demonstrando algum orgulho da afilhada diante dele. Em seguida, Pansy o chamou mais uma vez.

Severus! – ela disse com alguma incerteza, embora tivesse muita firmeza no que falaria. – Eu estou feliz que você seja meu padrinho.

Snape sorriu e, novamente, tudo ficou escuro.

Pansy sentira sua cabeça doer e, nos olhos, fortes fisgadas de dor. Implorava mentalmente por força, embora apenas ela mesma pudesse lhe ceder isso.

Snape andava de um lado para o outro; a masmorra fria estava ainda pior do que o normal por conta do inverno e Pansy não imaginava que Hogwarts pudesse ser ainda mais fria que na cidade onde morava, fazendo com que ela batesse os dentes todas as vezes que estava longe das lareiras. Naquela época do ano, os sonserinos chegavam a brigar com socos e pontapés pelas poltronas próximas à lareira no Salão Comunal da Sonserina. Mesmo sendo apenas seu segundo ano, Pansy já perdera a conta de quantas vezes precisou cumprir detenção com Snape por inúmeras travessuras com Draco Malfoy e Daphne Greengrass, apenas para que ficassem com as poltronas mais aquecidas. O professor, aparentemente irritado, tentava pensar brevemente no que fazer. Pansy notava o incômodo em sua expressão. O que estaria perturbando-o? A notícia de que a Câmara Secreta fora aberta chacoalhou todos os que estavam em Hogwarts, principalmente com a notícia de que a escola teria de ser fechada se o responsável pelos ataques não fosse pego.

Silêncio! – Snape vociferou com fúria para os alunos barulhentos na Comunal. Provavelmente não conseguia pensar com todas aquelas vozes falando ao mesmo tempo. – Será que vocês não conseguem conversar sem parecerem animais desembestados?

Pansy deu um sorriso. A Comunal inteira se calou em poucos segundos.

Professor… – Blaise ergueu a mão. Pansy e ele não tinham muito contato. – Por que o herdeiro da Sonserina abriria a Câmara se Salazar está morto?

Snape revirou os olhos. Blaise era absurdamente imbecil as vezes. Pansy já previa a reação do professor.

Como o Chapéu Seletor não previu que estava colocando um sem cérebro na Sonserina? – ele disse em tom agressivo. – Menino idiota! Espero não ter que tirar pontos da Sonserina por tamanha idiotice, senhor Zabini. A Câmara Secreta foi criada por Salazar Slytherin como o lar de um monstro, na intenção de acabar com todos os nascidos trouxas de Hogwarts.

De repente, todo mundo na Comunal parecia interessadíssimo no que Snape dizia. O professor pareceu ter se dado conta de que talvez tivesse falado demais.

Por que não voltam para suas tarefas e parem de querer saber sobre o que não lhes pertence? – ele disse com arrogância e se virou para se retirar do local.

Pansy estava curiosa. Sabia que Malfoy, por algum motivo estranho, tinha algum interesse ainda maior naquela história. Como queria ajudá-lo a descobrir, sabia exatamente o que fazer.

Professor. – ela chamou por Snape com a voz mansa e calma.

Snape parou e, calmamente, se virou para ela sem dizer uma palavra.

Será que você poderia nos contar mais sobre a Câmara Secreta? – ela pediu com delicadeza, dando a Snape um sorriso sincero.

Receio que não poderei fazê-lo, senhorita Parkinson… – ele ia explicando.

Não somos como os outros alunos! – ela disparou. – Não cochicharemos histórias por aí com os outros e nem deixaremos que isso percorra Hogwarts. Sabe que não somos exibidos como os grifos…

Snape suspirou e pareceu considerar a situação.

Está bem. – ele disse, ainda em tom zangado e se adiantou para perto da lareira, lançando um olhar furioso a Crabbe, que estava sentado em uma das poltronas. O garoto se levantou rapidamente e deu lugar ao professor, que se sentou e teve todos os olhares ao seu redor. – A Câmara Secreta foi criada durante os tempos medievais, por Salazar Slytherin, que não concordava com os demais fundadores de Hogwarts em relação à pureza de sangue. Com todos discordando de sua opinião contra a aceitação de nascidos trouxas em Hogwarts, ele deixou a escola. Segundo a lenda... – ele disse a palavra "lenda" enquanto revirava os olhos – Antes de sair, Sonserina criou a Câmara Secreta, que guardaria um terrível destino a quem não fosse sangue puro. No entanto, após a sua morte, diversos diretores buscaram por este local em todas as partes da escola, jamais sendo sucedidos na tarefa. Por isso, a Câmara Secreta tornou-se uma lenda e ninguém se atreveu a falar disso por muitos anos. No entanto…

Os alunos, extremamente interessados, não piscavam.

Ela foi aberta. – Pansy sussurrou para Malfoy e Snape lançou um olhar discreto à ela, parecendo surpreso por ver que a afilhada sabia.

A Câmara Secreta fora aberta há anos e essa foi a prova de que o mito era real. – a voz de Snape era acompanhada pela madeira crepitando na lareira. – Os estudantes daquela época consideraram que apenas o herdeiro de Slytherin seria capaz de abri-la, para terminar o trabalho que Salazar começou. Uma garota foi morta. Dentro da Câmara, segundo a lenda, morava um monstro.

Professor. – Malfoy chamou a atenção de Snape, que agora lançava um olhar desconfiado para o garoto. – Você acha que Potter é o herdeiro de Slytherin?

Todos os alunos presentes ficaram em um silêncio constrangedor. Snape parecia pensar na resposta. Independente do que sabia, Severus tinha uma ideia do que Malfoy poderia fazer com aquela informação. Pansy esperava que Snape fosse dar um fora em Draco; porém, para a sua surpresa, o homem sorriu de forma irônica.

Eu acho que vocês precisam tomar cuidado. – ele falou com seriedade, embora ainda sorrisse. – Estes petrificados tiveram sorte. Sei que a maioria desta casa possui o sangue puro, no entanto... – ele fez uma pausa misteriosa e olhou para Pansy. – Ninguém desejará estar no lugar errado, na hora errada.

A turma pareceu tremer com o aviso de Snape, mas a loura entendera que o recado foi exclusivamente para ela. Malfoy tinha a mania de fuçar onde não era chamado para encontrar maneiras de prejudicar Potter, sempre contando com a ajuda de Pansy; mas será que valeria a pena o risco quando a Câmara Secreta estava aberta outra vez?

Se algo assustá-los pelo corredor de Hogwarts… – Snape disse de forma sombria. – Evitem os olhos.

Todos se entreolharam, estranhando o recado. Quando um dos alunos levantou a mão, provavelmente para perguntar o que aquilo significava, Snape fora mais rápido.

Por que vocês não me poupam a paciência e vão para os seus dormitórios? – ele rosnou com irritação. – Se vazar qualquer informação daqui, o responsável não precisa nem voltar. E eu descobrirei quem foi sem esforços. – ele ameaçou com seriedade. – Vocês têm trinta segundos para sumirem da minha frente.

Ouviu-se um estrondo de alunos disparando para os dormitórios, afinal, ninguém pagaria para ver o que aconteceria com quem passasse mais tempo ali. Pansy sorriu para o padrinho antes de subir e, ao invés de sentir medo de toda aquela situação, sentiu uma adrenalina percorrer o seu corpo. Hogwarts a fazia cada vez mais feliz.

Pansy abriu os olhos. Suava mais do que nunca. O frio ainda estava ali e a sensação de desesperança também. Quando sentiu a pontada de infelicidade em seu peito, voltou a fechar os olhos. Ela não tinha culpa. Ela não merecia isso. Hermione deveria acreditar nela. E se não acreditasse? E se, por desilusão, voltasse para os braços de Weasley? Pansy arrancaria cada centímetro da pele daquele imbecil e, dessa forma, sim, mereceria estar em Azkaban. Agora, no entanto, estava ali por injustiça.

"Concentre-se…", dizia a voz de Snape em sua mente. Pansy sentiu a pressão em seu rosto e sabia que os Dementadores estavam se alimentando dela outra vez. Não podia deixar suas memórias felizes escaparem…

"Feche sua mente, Pansy", Snape sussurrava.

Feche sua mente.

Você está tirando com a minha cara, Draco? – Pansy dizia com irritação. – Você me abandonou a noite toda!

Eu não a abandonaria se você estivesse agindo como um par de verdade. – o louro disse com agressividade. – Por que não pode apenas dançar e ser uma menina normal, Pansy?

Eles estavam no Baile de Inverno. Malfoy utilizava um elegante traje a rigor e parecia um tanto acabado no fim da noite, enquanto Pansy permanecia impecável com o seu longo vestido verde de apenas uma alça, enfeitado por um broche prateado em formato de serpente, com pedras brilhantes na cintura. Seus cabelos louros e longos estavam soltos, apenas com uma mecha presa à cabeça com um grampo de pedrinhas que combinava com o broche. Pela sua aparência, Pansy sequer tinha se mexido a noite inteira, mesmo que a banda The Weird Sisters - uma de suas preferidas - estivesse dando um show no local.

Eu estou odiando este vestido! – ela rosnou. – E estes sapatos? Eu mal consigo ficar de pé sem sentir dor. Na verdade, eu odeio bailes. Mas isso não significa que você tenha que ser um péssimo par e ficar dando atenção para aquela… Aquela… Coisa.

Malfoy deu um sorriso maldoso.

Então isso tudo se trata de ciúmes? – a pergunta fora retórica. – Eu não seria um péssimo par se você parecesse uma menina, Pansy!

Cale a sua boca, seu imbecil. – ela tirou a varinha da bolsa jogada sobre a mesa e apontou para o garoto. – O que parece uma menina pra você? Aquele palito da Beauxbatons?

Olhe para ela, Pansy. – Malfoy disse com calma. – Veja como ela é… delicada.

Pansy olhou. A veela estava com um vestido prateado colado ao corpo e com uma abertura que pendia até o fim das costas, embora parte delas ficasse coberta pelos longos cabelos negros e lisos da menina. Ela era magra, tinha os olhos verdes e usava uma maquiagem carregada. Pansy não vira nada de especial nela, até se deparar com os olhos da garota. A situação fora estranha mas, de repente, a loura pareceu ter visto um charme na garota que não deixava Pansy desviar os olhos. Malfoy teve de chacoalhar Pansy para que ela acordasse de seu devaneio. Veelas eram realmente um saco!

Ela é linda, certo? – ele perguntou.

Pansy, ainda confusa, assentiu.

Você deveria ser como ela. Entende? – ele tentava explicar. – Graciosa e feminina. Você está até parecendo a sangue-ruim da-

Everte Statum!

Um raio de cor laranja irradiou da ponta da varinha de Pansy e acertou Malfoy em cheio, que foi atirado para um pouco mais longe dali, embora de uma forma não tão potente. O garoto, de olhos arregalados, começou a berrar, embora ninguém estivesse prestando muita atenção por causa da música alta.

VOCÊ ESTÁ MALUCA? – ele berrou.

Pansy deu de ombros.

Estou. De ter ficado com você! – ela rosnou.

Malfoy pegou a varinha e apontou para a loura; quando abriu a boca para pronunciar um feitiço, fora interrompido por alguém que chegara por trás dele.

O que pensa que vai fazer? – a voz sombria de Snape quase fez Draco dar um pulo de susto.

Eu… Eu... – o louro começou a gaguejar. – Ela começou! Ela me atacou e-

Eu não sou cego, Malfoy. – Snape disse com a expressão em fúria. – Quero saber o que você ia fazer?

Eu ia me defender e-

Se defender após ter ofendido uma garota? – Severus assentiu. – Que corajoso!

Pansy ficara calada até agora. Draco não se atreveu a dizer mais nada.

Detenção! – vociferou Snape. – Vocês dois. Na minha sala amanhã cedo.

Eu também? – Draco resmungou.

Você está me vendo falar com outra pessoa além de você e a senhorita Parkinson? – Snape parecia furioso.

Eu receberei detenção por ter sido atacado e-

Você receberá detenção por ser um covarde, Malfoy. – Snape deixou o rosto bem próximo ao do garoto, encarando-o com profundidade. – E não quero ouvir mais uma palavra.

O louro franziu o cenho. Pansy, até então, parecia indiferente. Snape se virou para se retirar, mas antes que o fizesse, vociferou uma última vez:

Por que vocês dois continuam parados como duas estátuas? Quero vocês na minha sala amanhã quando o sol nascer e, PARA ISSO, VOCÊS PRECISAM IR DORMIR AGORA!

Os dois deram um pulo de onde estavam e saíram andando depressa em direção à saída do Grande Salão, onde pegariam um atalho para as masmorras. Como Malfoy estava furioso por perder sua noite, acabou disparando na frente, enquanto Pansy rumava sem pressa. Assim que a distância entre os dois passou a ser grande, Snape alcançou a afilhada.

Você está bem? – ele perguntou com irritação. – Você teve sorte de estar em um baile! Ninguém prestou atenção em vocês. Mas imagine se Dumbledore ou McGonagall pegam você no flagra!

Eu já sei! – vociferou Pansy, tirando os sapatos na marra e segurando-os nas mãos. – Eu agi por impulso. Já sei.

O que Malfoy disse a você? – ele perguntou com mais paciência, notando que talvez tenha sido duro demais.

Me comparou a uma veela e… – a loura revirou os olhos. – Nada que me magoe. Não se preocupe.

Aquele covarde… – Snape ameaçou com fúria.

Draco é um imbecil. – Pansy revirou os olhos. – Ele já teve o que merece. Amanhã chegarei cedo a sua sala.

Snape assentiu. Ele claramente não sabia como reagir a situações amorosas problemáticas, mas parecia se importar o suficiente.

Boa noite, Severus.

Pansy deu um sorriso com o canto dos lábios e já ia se retirar, quando Snape a puxou para si e a abraçou. Era a primeira vez que abraçava o seu padrinho, já que nenhum dos dois era carinhoso. A capa de Snape a cobriu quase por inteiro e Pansy sentiu o corpo um pouco mais relaxado de toda a tensão enquanto o abraçava.

Me diga se ele machucar você. – ele sussurrou para a afilhada, que era um tanto mais baixa que ele. – Em todos os sentidos.

Pansy assentiu. Em seguida, após alguns segundos, eles ouviram alguns passos e logo se afastaram. Se alguém os visse abraçados, seria uma situação estranhamente difícil de explicar. Quem se aproximou fora Dumbledore e Snape não precisava disfarçar tanto na presença do Diretor.

Boa noite, senhores. – Dumbledore disse com educação, embora seu tom demonstrasse alguma angústia. – Indo embora tão cedo, senhorita?

A senhorita Parkinson deverá cumprir detenção comigo amanhã cedo por… mau comportamento. – Snape disse com seriedade. – Foi dispensada.

Sinto muito. – Dumbledore disse com sinceridade, embora não parecesse realmente prestar atenção. – Severus, precisamos conversar em particular.

Com licença. Boa noite, professores. – Pansy disse com educação, mas queria sair logo dali. Nunca teve muita paciência com Dumbledore.

Boa noite, senhorita Parkinson. – Snape disfarçou, enquanto apontava a varinha para os sapatos da garota e os transfigurava em um par de chinelos. – Calce-os. Está frio.

Pansy colocou os chinelos nos pés, sussurrou "obrigada" e rumou em direção à masmorra. Se não fosse por Snape, talvez sua noite teria sido muito mais infeliz.

Mais uma vez, estava difícil manter os olhos fechados. Pansy implorava mentalmente para que aquilo parasse. Por quanto tempo mais teria que fechar sua mente?

"Ainda não é o suficiente…", Snape sussurrou.

Pansy queria gritar.

"Não grite. Controle-se! Não seja fraca", ele disse mais uma vez. Pansy só queria morrer, mas tentou outra vez.

Pansy estava nas masmorras, na sala de Poções. Fora visitar Snape, mas já aguardava há pelo menos meia hora e ele não aparecera. Teria esquecido ou tido algum outro problema? Achava a situação estranha, pois a sala não estava trancada; isso significava que ele estava em Hogwarts. A noite estava escura e sombria, mas não chovia. Embora o tempo não estivesse dos melhores, clarões surgiam do alto como se fosse chover, sendo que não havia nuvens no céu. A loura também estranhou porque uma série de frascos estava sobre a escrivaninha de Snape, como se estivessem sendo preparados e, em seguida, abandonados às pressas. Pansy ficou estudando cada um deles, quando se deparou com um estranho bilhete entre eles.

"Está na hora", o bilhete dizia. Pansy não reconhecia a caligrafia. A loura fora até o andar acima das masmorras e permaneceu um bom tempo olhando através da janela, distraída com a visão do pátio. Entre um clarão e outro, a loura ouviu um estrondo alto, acompanhado de um raio de luz verde extremamente forte vindo do alto, que a fez pular para trás. Em seguida, enquanto se recuperava do susto, observou que um corpo despencava numa velocidade absurda e batia com toda a força contra o chão. A loura não identificou exatamente quem era, mas tinha certeza de apenas uma coisa: alguém foi morto. Ela procurou a varinha nas vestes e se deu conta de que deixara o objeto para trás, na sala de Snape, então correu em direção ao local.

Ao voltar para as masmorras, buscou rapidamente a varinha e se arrependeu por não ter aceitado praticar mais o maldito "accio varinha" apenas com o uso das mãos quando Snape propôs que o fizesse. Assim que ela achou o objeto entre as poções que havia fuçado, ela a guardou nas vestes, antes de levar um susto com a porta, que quase fora arrombada pela força com que Snape adentrara ali.

Ela encarou Snape com severidade. Ele parecia assustado.

Onde você estava? – ela disse com confusão. – Eu estou esperando desde-

Saia daqui! – vociferou Snape com fúria, demonstrando que Pansy era a última pessoa da face da Terra que ele queria ver naquele momento.

O quê? – a garota sacudiu a cabeça em confusão.

Eu tenho que ir! – ele disse com um tom angustiado. – Pansy, volte para a Comunal e não saia de lá!

Mas… Por quê? – a loura começava a ficar nervosa.

Dumbledore está morto. Os Comensais estão aqui. – ele disse depressa. – VOLTE PARA A SUA COMUNAL! É uma ordem.

Pansy sentiu o choque percorrer o seu corpo.

Draco… – ela gaguejou. – Foi ele que…

Não! – Snape rosnou, insistindo mais uma vez. – Pansy, saia daqui agora!

Severus, o que você fez? – Pansy perguntava com receio;

Snape não respondera. Pansy contornou o corpo do padrinho e se colocou de frente para ele, fitando agora os olhos do homem que via como pai.

Você… você fez… realmente? – ela perguntou mais uma vez.

Snape parecia não ter coragem de responder, porque evitava olhar nos olhos de Pansy. A garota, porém, apontou a varinha para o homem e sussurrou de forma rápida.

Accio varinha! – e o objeto voou para as mãos dela.

O que pensa que está… – Snape disse com a voz rouca.

Prior Incantato! – ela rosnou e a varinha revelou uma sombra no ar.

A sombra, porém, assumira a forma de uma luz verde e extremamente forte e, no meio da luminosidade, a sombra do rosto de Albus Dumbledore surgira.

Você o matou! – Pansy largou a varinha no chão. – Severus! Você matou Dumbledore.

O último inimigo a ser destruído é a morte… – ele sussurrou de forma fria e sombria. – Eu tenho que sair daqui. – Snape disse com pressa e, antes que Pansy pudesse dizer qualquer outra coisa, o homem pegou a varinha, disparou e fugiu, junto com os outros Comensais.

Pansy respirou fundo e sentiu que estava começando a ficar cansada. Os Dementadores pareciam estar vasculhando seu cérebro em busca de boas lembranças, enquanto ela tentava impedi-los.

Você viu o que você fez? Os Carrow vêm atrás de nós! Maldição! – Pansy vociferou para Blaise.

Os dois corriam em desespero sem direção, não sabendo exatamente para onde ir.

Você não devia ter insistido que viu Draco no Castelo. – Blaise revirou os olhos. – Ele teria avisado! Por que ele estaria aqui? Os Malfoy estão trancafiados na mansão há meses!

Porque… Potter está vindo! – Pansy disse em um sussurro.

E como você sabe? – o garoto arregalou os olhos.

Pansy suspirou.

Eu apenas sei.

De repente, ouviram-se vozes. Pansy empurrou Blaise com força e o garoto caiu atrás de uma enorme gárgula; Pansy fez o mesmo e se escondeu ali também.

Quem está aí?

Era a voz de McGonagall.

Sou eu – disse uma voz baixa.

Detrás de uma armadura, saiu Severo Snape. Pansy sentiu o coração acelerar. Seus cabelos negros e oleosos caíam como cortinas dos lados do seu rosto magro e seus olhos negros tinham uma expressão fria e sem vida. Não estava de roupas de dormir; vestia a capa preta de sempre e também empunhava a varinha, pronto para lutar.

Onde estão os Carrow? – perguntou, em voz baixa.

Onde você os mandou ir, imagino, Severo – respondeu a professora McGonagall.

Snape se aproximou e seus olhos passaram rapidamente por ela e o ar ao seu redor, como se tivesse visto que alguém mais estava ali.

Tive a impressão – disse Snape – de que Aleto prendeu um intruso.

Sério? E o que lhe deu essa impressão?

Snape ergueu levemente o braço esquerdo onde a Marca Negra estava gravada em sua pele.

Ah, sim, naturalmente. Esqueci que vocês, Comensais da Morte, têm um meio particular de comunicação.

Snape fingiu não tê-la ouvido. Seus olhos continuavam a sondar o ar ao seu redor e ele foi gradualmente se aproximando com uma expressão de quem não tem consciência do que está fazendo.

Eu não sabia que era a sua noite de patrulhar os corredores, Minerva.

Alguma objeção?

Não imagino o que teria tirado você da cama tão tarde da noite.

Pensei ter ouvido um barulho – respondeu a professora.

Verdade? Mas tudo me parece calmo.

Snape encarou-a nos olhos.

Você viu Harry Potter, Minerva? Porque se viu, devo insistir…

A professora McGonagall se mexeu mais rápido do que o garoto teria acreditado: sua mão cortou o ar e, por uma fração de segundo, Pansy pensou que Snape fosse desmontar inconsciente, mas a rapidez do Feitiço Escudo que o professor lançou foi de tal ordem que McGonagall se desequilibrou. Ela brandiu a varinha para um archote e o objeto saiu voando do suporte na parede. Labaredas formaram um círculo de fogo que encheu o corredor e deslizou pelo ar como um laço contra Snape... No momento seguinte não era mais fogo, mas uma grande cobra preta que McGonagall explodiu em fumaça, e tornou a se juntar e solidificar em segundos, transformando-se em um enxame de adagas que perseguiram Snape; ele só conseguiu evitá-las empurrando uma armadura à sua frente e, retinindo sonoramente, as adagas afundaram uma a uma no peito de metal…

Minerva! – chamou uma voz fina. Pansy, discretamente, viu os professores Flitwick e Sprout em roupas de dormir, correndo pela passagem ao encontro deles, com o enorme professor Slughorn ofegando em seu encalço.

Não! – guinchou Flitwick, erguendo a varinha. – Você não vai matar mais ninguém em Hogwarts!

O feitiço de Flitwick atingiu a armadura atrás da qual Snape se abrigara: com estrépito, ela ganhou vida. Snape desvencilhou-se dos braços da armadura que o esmagavam e arremessou-a contra os seus atacantes. A armadura colidiu com a parede e se espatifou. Snape fugia embalado, McGonagall, Flitwick e Sprout perseguiam-no em tropel: Snape se precipitou pela porta de uma sala de aula e, momentos depois, Pansy ouviu McGonagall gritar:

Covarde! COVARDE!

Que aconteceu, que aconteceu? – perguntou Luna Lovegood.

Pansy levou um susto com o surgimento repentino de Lovegood e Potter; nunca desconfiaria de que eles estavam ali. Harry ajudou-a a se levantar e os dois dispararam pelo corredor, arrastando a Capa da Invisibilidade atrás deles, e entraram em uma sala de aula vazia. A sonserina disparou de trás da gárgula em direção a uma janela e, de longe, avistou o vulto enorme de um morcego voando na escuridão, em direção aos muros que circundavam a escola. Blaise surgiu logo atrás dela.

Por Merlin! – Pansy disse em uma voz esganiçada. – Eles vão matá-lo se puderem!

Pansy! – Blaise puxou a amiga com força. – Você os ouviu! O Lorde das Trevas está a caminho! Temos que sair daqui.

ELES VÃO MATAR SNAPE! – a loura berrou com irritação. – EU NÃO VOU DEIXAR!

PANSY! NÃO SEJA IDIOTA! – Blaise berrou novamente. – Snape sabe se cuidar. VENHA!

A loura, com lágrimas nos olhos, assentiu e, em seguida, os dois correram em direção às masmorras.

O sentimento de pânico tomou o coração de Pansy e ela sentiu algo estranho na cabeça; uma sensação que se assemelha ao cérebro ser sugado vagarosamente enquanto se sente desesperança. Ela estava cedendo aos Dementadores. Não podia. Não mais.

"Pansy…"

"Você pode me ouvir?"

"Eles vão me tirar de você…"

A voz de Hermione sussurrada fazia com que o corpo de Pansy tremesse. Não sentia mais vontade alguma de retrucar. Estava cansada. Nunca sairia dali. Nunca seria libertada ou julgada. Weasley tinha vencido. Hermione poderia ficar com ele o quanto quisesse. Pansy não era boa pra ela, nem pra ninguém,. Jamais seria.

"Não me deixe ir…", Hermione sussurrou mais uma vez. "Você sabe o que fazer."

Pansy realmente soube o que fazer, porque deixou a raiva de tudo isso percorrer cada centímetro dos seus ossos. E, numa explosão, ela sentiu sua mente se firmar.

Snape estava de costas, diante de uma enorme janela no gabinete do diretor. Desde que o padrinho assumira a liderança de Hogwarts, Pansy quase não o vira mais. Não só porque ele quase nunca era visto, mas também porque a loura, de alguma forma, não sabia o que esperar de Severus. Ele já não era mais Comensal - e sabia o quanto os Parkinson os repudiava -, mas parecia ajudar Lord Voldemort a cada vez que tinha chance. A garota detestava Potter e os sangues-ruins, mas como apoiaria alguém que era cercado por pessoas detestáveis, como Avery? A loura encarava a sombra do homem diante dela antes de anunciar a sua chegada:

Estou aqui. – ela disse com a voz seca. – O senhor desejava me ver?

Snape se virou com suavidade. Pansy tomou um choque com o rosto abatido, magro e pálido do homem que já não via há alguns meses. Desde que matara Dumbledore, Snape nunca mais fora o mesmo.

Sim, Pansy. – ele disse com a voz rouca. – Desejo.

A garota assentiu. Estava pronta para ouvi-lo.

Eu… Não sei o que irá acontecer hoje. – Ele disse com toda a calma do mundo, embora seu tom de voz carregasse uma enorme carga de tristeza. – Potter foi visto em Hogsmeade.

Pansy assentiu mais uma vez.

Certo. – ela disse com indiferença. Não entendia o que Snape queria.

Ele provavelmente estará aqui em algumas horas. E… – ele respirou fundo, como se pensasse no que dizer. – Eu não sei o que será de mim.

Pansy engoliu em seco. Sentiu o peso daquelas palavras.

Do que você está falando? – ela sentiu o desespero começar a provocar-lhe.

Eu não vou voltar, Pansy. – ele dissera de uma vez. – Nunca mais.

A loura sentiu o coração gelar.

Você não vai morrer! – ela gaguejou. – Você é um bruxo extraordinário. O Lorde das Trevas até gosta de você. Severus, não fale uma coisa dessas!

A expressão dele era vazia, como se já não sentisse mais dor alguma.

Eu não tenho muito tempo. – ele a cortou com pressa. – Sei que não tem tido muita fé em mim, Pansy, e eu entendo. Mas eu juro… – ele estava ofegante. – Você vai compreender o que era preciso ser feito. Quando isso tudo acabar, você vai me entender. Eu só preciso que você fique salva!

Que conversa é essa? – ela sentiu as mãos tremerem. – Severus, você não vai morrer!

Pansy. – vociferou o padrinho, tocando suavemente os dois ombros da loura. – Me escute. O Lorde das Trevas saberá quando Potter estiver aqui. Fique longe dele!

A loura voltou a engolir em seco, ainda contrariada.

Apenas fique! Você não está segura. – ele disse com a voz embargada. – Não fale disso com ninguém! Nem com Draco, nem Zabini ou Greengrass. Não deixe que ele a veja!

Eu não sou uma covarde, Severus. – ela disse com a voz baixa. – Eu não vou fugir se-

VOCÊ DEVE! – a voz de Snape começou a assumir um tom desesperado. – Pansy, você é como uma filha e eu não posso perder... você... também.

Pansy deu uma pausa. Em seguida, sentiu os olhos arderem.

Está bem. – ela sussurrou.

A loura olhou para baixo e, pela primeira vez, não se sentiu pressionada a segurar o choro. Em seguida, lançou-se nos braços do padrinho e o abraçou com força. Nunca o fizera novamente desde o Baile de Inverno, quando tinha apenas 14 anos. Snape não disse nada, apenas a embalava nos braços com firmeza.

Não me deixe sozinha aqui, Severus. – ela sussurrou bem baixinho. – Não você.

Ele permaneceu silencioso. Não podia garantir isso à ela. Porém, ele fez questão de dizer:

Eu vou continuar com você, Pansy. Sempre. – ele engoliu em seco. – Eu prometo.

Ela ficou na ponta dos pés e lhe deu um beijo na bochecha. Pansy nunca fizera isso nem mesmo com seu pai. Snape era mesmo muito especial. Ele pareceu muito sem jeito, mas não a impediu. Em seguida, eles se afastaram.

Quem… Quem você perdeu, Severus? – Pansy arriscou, mesmo sabendo que talvez não fosse ganhar resposta alguma.

Snape, porém, olhava para fora da janela. No céu escuro, brilhava uma enorme caveira de um tom esverdeado com uma serpente saindo da boca. Pansy sabia bem o que aquilo significava.

Eu preciso ir. – ele sussurrou. – Pansy! Cuide-se!

Ele deixou um rápido beijo protetor na testa da garota e desaparatou na hora, deixando a afilhada sozinha. Na escrivaninha de Snape, havia uma chave velha e enferrujada, a qual Pansy, curiosa, pegou e colocou no bolso. Não teria tempo para examinar de onde era aquela chave, mas o faria assim que parasse de se esconder. A loura, antes de deixar a sala, deu uma última olhada no local que fora seu maior ambiente de aprendizado durante os últimos sete anos e sentiu seu peito apertar. Pansy amava Snape e, se ela ainda era feliz naquele ambiente hostil e ameaçado, era por saber que o tinha. A garota pegou um frasco de Poção Polissuco, Poção do Morto-Vivo e umas gotas de Amortentia, para caso precisasse durante a batalha e, em seguida, deu um longo suspiro, sussurrando "Lumos" e fechando a grande porta de madeira assim que ficou tudo escuro. Fora a última vez que viu seu padrinho.

A memória lhe doeu mais do que Pansy imaginava. Snape prometeu que não a deixaria, mas agora ela estava completamente sozinha, apenas com um bocado de magia que pertencia a ele. Uma magia que ela sequer poderia usar, pois Azkaban a impedia disso. Por quanto tempo a loura reviveria as mesmas lembranças dolorosas? O quanto ela aguentaria antes de enlouquecer? Já não importava, pois estava sozinha. Sem esperança e força, ela deu um último suspiro e fechou os seus olhos, entregando-se completamente a todos os Dementadores que estavam ali.


– Pansy! Pansy! Amor, por favor, acorde.

Pansy se mexeu um pouco, mas não tinha vontade alguma de abrir os olhos.

– Pansy! – Pansy sentiu um toque suave em seu rosto, mas levou um susto e abriu os olhos na mesma hora.

– Evite tocá-la, senhorita Granger. – Pansy ouviu uma voz masculina logo ao lado e, seja lá o que aquilo significava, a manteve afastada de…

Hermione?

Ao abrir os olhos, Pansy reconheceu o local em que estava: o hospital St. Mungos, em um quarto privativo. Ela tentou mover a mão direita para esfregar os olhos, mas não conseguiu e, ao olhar para baixo, notou que estava algemada à própria cama; um feitiço mantinha uma mão da garota presa à uma algema brilhante e verde, que a ligava a um dos suportes da maca. Em pouco tempo, começou a se mover e a abrir os olhos. Hermione estava diante dela, com a expressão preocupada e Pansy não se animou, afinal, aquele provavelmente era mais um dos seus devaneios idiotas. A loura olhou para a grifa com dificuldade, não parecendo reconhecê-la de início, embora só estivesse esperando que sua namorada sumisse a qualquer momento.

– Shhh, não precisa dizer nada. – Hermione se adiantou.

Pansy, mesmo assim, se ergueu um pouco da cama com dificuldade e sussurrou:

– Her...Mione? – ela disse com a voz rouca e trêmula.

Quando Pansy se sentou sobre o colchão, reparou que Hermione, que estava sentada logo ao lado da cama, fez uma expressão um tanto assustada, mas não se importou de verdade com aquilo. Sua garganta ardia ao extremo.

– Eu preciso de… água. Água. – ela sussurrou, enfiando a mão livre nas próprias vestes. – Cadê a minha varinha? – ela disse com irritação. – Accio varinh-

– Não! – Hermione disse em um sussurro.

Pansy sentiu uma dor repentina e insuportável percorrer o seu corpo inteiro e lhe tirando as forças, fazendo com que ela tremesse e fosse forçada a se deitar novamente. Sua expressão era de profunda dor.

– Sua magia está bloqueada! Não tente fazê-la, ou você vai sentir dor. – Hermione disse com a expressão triste. – Por favor, tragam água pra ela!

– Por que está fazendo isso? – Pansy disse de forma arisca. – Você é só mais um devaneio idiota! Saia de minha cabeça.

Hermione negou com a face e tentava falar.

– Amor, não… – ela sussurrou, – Sou eu. De verdade. Eu posso tocá-la.

O homem ao lado da cama, que vigiava as duas, pigarreou.

– Quero dizer, não posso, mas-

Pansy não estava nem aí. Esgueirou-se da cama, alcançou os lábios de Hermione e a beijou com desespero, sentindo uma forte corrente de dor percorrer o seu corpo inteiro novamente.

– Mas que merda! – ela rosnou. – Eu não posso fazer nada!

Ela se jogou na cama novamente e só então se deu conta.

– Espera. – ela engoliu em seco. – Eu… Eu senti você. Então…

– Você não está louca. – Hermione concluiu. – Você está fora de Azkaban, Pansy.

– Por enquanto… – o homem de terno ao lado da cama vociferou, um tanto rabugento.

– Cale essa boca! – Hermione, irritada, disse a ele! – Você não devia nem estar ouvindo a conversa!

– Foram ordens do Sr. Weasley, Granger. – o homem disse, ríspido. – Segurança máxima.

– Weasley. – Pansy sorriu com ironia.

Ela sentiu uma raiva percorrer seu corpo com fúria e teve a sensação de que poderia quebrar aquela algema mágica se pudesse usar só um pouquinho de sua magia, com o tanto de raiva que estava.

– Eu vou matar esse sangue-ruim asqueroso! – ela disse com nojo. – Eu o empalharei. Eu o matarei!

Sua voz era tão agressiva, que ela sentiu a garganta arder mais.

– Você não vai matar ninguém. Você precisa se arrumar e ir para o julgamento.

A última palavra fez Pansy arquear uma das sobrancelhas. Como assim julgamento?

– Fizemos de tudo para provar sua inocência. – a grifa explicou com calma. – Harry fez tudo o que podia no Ministério. Parece que ele é um tanto influente por lá, mesmo Ronald também sendo. Ele conseguiu convencer Arthur Weasley de ajudá-lo nisso e-

– Arthur Weasley? – Pansy arregalou os olhos. – Ele está contra-

– O próprio filho, sim, – Hermione deu uma breve pausa. – Ronald enlouqueceu. Foi por isso que ele estava trabalhando tanto ultimamente. Estava fazendo tudo o que podia para… prender você.

Pansy queria rir. Estava, porém, irritada demais pra isso. Ela só se jogou na cama novamente.

– Harry não conseguiu te libertar, mas conseguiu o julgamento. Conseguiremos livrá-la, Pansy! – Hermione sorriu com o canto dos lábios. – É uma promessa!

Pansy, porém, sentiu-se sem esperança. Ela estava cansada de falsas promessas.

– E eu peço desculpas por ter demorado tanto. – Hermione disse com a voz cansada. – Nós tentamos ser mais rápidos, mas é um processo difícil e-

– Um dia? – Pansy deu de ombros. – Ninguém morre por ficar um dia em Azkaban.

Hermione arqueou as sobrancelhas. Sua expressão ficara um tanto vazia.

– Pansy… – a garota disse em tom calmo. – Já faz duas semanas.

A loura sentiu um choque percorrer o seu corpo. Duas semanas? E todos os devaneios? Ela não os sentira apenas em um dia? E por que não enlouqueceu se ficou tanto tempo?

– Como… É possível? – a loura sussurrou para si mesma.

– Não sabemos como você resistiu tanto tempo. – Hermione engoliu em seco, sem saber se podia falar daquilo. – Segundo relatos, os Dementadores passaram a maior parte do tempo em sua cela. Todos eles.

Ela engoliu em seco. Em seguida, o relógio marcou nove horas, o que significava que era hora de se prepararem para o julgamento.


Pansy não precisou fazer muito esforço. Como fora considerada prisioneira perigosa, sequer teve a liberdade de se preparar sozinha. Teve que tomar um banho na presença de uma mulher e não teve muito tempo para se vestir. Além disso, levou um susto quando se olhou no espelho pela primeira vez desde a sua saída de Azkaban. A loura estava com o rosto magro e era possível ver os ossos em suas costelas, assim como seus braços estavam um tanto mais magros, quase sem pele alguma, apenas osso. Suas olheiras eram profundas, sua pele estava pálida e os olhos pareciam um tanto amarelos. Seus cabelos sem vida estavam em um tom branco e não mais os louro-prateados de sempre. Sua pele estava tão frágil, que as marcas de suas cicatrizes estavam ainda mais visíveis. Tinha certeza que assustaria todos no Ministério, afinal, estava com a aparência de uma criminosa.

Quando chegou ao Ministério, foi encaminhada para o Departamento de Execução das Leis Mágicas e, em seguida, para o Tribunal da Suprema Corte. Ao chegar, não se surpreendeu: a sala era enorme e ela fora encaminhada para uma cadeira cujos braços eram equipados com correntes, que logo a prenderam ali e não permitiam que ela movesse as mãos, os braços ou os ombros. Ao olhar para cima, se deparou com mais de cinquenta pessoas vestidas de roxo e não pareciam dar muita atenção à presença da loura, que se sentia um tanto cansada só de estar ali. No centro, Kingsley estava sentado e, diferente da maioria dos outros presentes ali, ele não tinha a expressão indiferente ou dura. Parecia preocupado de verdade com o que via. Ele não demorou a iniciar a sessão.

– Bom dia aos senhores. – Kingsley disse de forma elegante. – Podemos começar com a presença da ré.

Todos assentiram em silêncio.

– Audiência disciplinar do dia quinze de junho – anunciou Kingsley – para apurar violações ao Uso Impróprio de Magia das Trevas cometidas por Pansy Elizabeth Parkinson, enquanto estava na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

Após apresentar quase a corte inteira - enquanto Pansy só pensava em cochilar -, Kingsley finalmente deu início ao julgamento. Atrás de Pansy, estavam algumas pessoas as quais ela sequer conseguia ver, já que não podia se virar. Mas também não se importava com a presença delas.

– As acusações são as seguintes: A senhorita Parkinson, intencionalmente, deliberadamente e com plena consciência da ilegalidade dos seus atos, já tendo recebido anteriormente um aviso do Ministério da Magia por sua magia arriscada, executou por mais de trinta dias uma Maldição Imperdoável sem nenhuma justificativa aparente, o que constitui uma violação ao parágrafo B do Decreto de...

Pansy sentiu seus olhos pesarem, quando ouviu a voz de Kingsley um pouco mais alta, chamando por ela.

– A senhora é Pansy Elizabeth Parkinson, filha de Theodore e Elizabeth Parkinson, irmã da falecida Daisy Elizabeth Parkinson? – Kingsley perguntou com a voz de tédio.

– Sim. – ela revirou os olhos.

– A senhorita recebeu um aviso oficial do Ministério em relação ao risco da sua magia?

Ela deu de ombros.

– E ainda assim utilizou a maldição Imperius por inúmeros dias na senhorita Hermione Jean Granger? – perguntou Kingsley.

Pansy sorriu com sarcasmo.

– Claro. – ela assentiu com a face. – Eu realmente usaria uma maldição imperdoável para fazer alguém ser minha namorada. Excelente observação.

– Senhorita Parkinson… – Kingsley disse com paciência. – Não toleramos brincadeiras no Tribunal-

– Então você sabe que é uma brincadeira e que eu não a amaldiçoei? – ela disparou com a pergunta, deixando Kingsley um tanto sem graça.

Alguns bruxos e bruxas ao redor dele começaram a murmurar; alguns faziam sinais de

concordância, outros franziam a testa e sacudiam a cabeça.

– Um membro do Ministério, Ronald Billius Weasley, nomeado auror por mim, fez o reconhecimento de que a senhorita usara, sim, a maldição.

– E outro auror, Harry James Potter… – a voz de Harry soou forte no fundo da sala; ele era uma das pessoas atrás de Pansy – Reconheceu o erro do Sr. Weasley e pode provar que a referida ré não usara a magia descrita por ele.

Só após um tempo é que Pansy viu que o garoto ruivo e de olhar furioso estava sentado próximo a Kingsley, provavelmente como acusação.

– É realmente muito conveniente que o ex-namorado da vítima faça essa acusação. – Potter disse com a voz firme. – Não é, Ron?

O ruivo engoliu em seco, mas permanecia quieto em seu lugar.

– Basta, basta! – disse Kingsley, com uma expressão de tédio no rosto. – Lamento interromper a disputa de eficiência entre os dois, porém… Sr. Potter, a ré tem como provar que não utilizou o feitiço?

Pansy revirou os olhos. É claro que não tinha.

– Sim. – Harry disse com superioridade. – Além da capacidade mental de Hermione Granger, que é uma excelente oclumente, capaz de resistir à insistentes tentativas da maldição Imperius…

– Uma prova física, Sr. Potter, por favor. – Kingsley o cortou, embora claramente não quisesse ser injusto.

– Na realidade, temos não só uma prova física, compo uma testemunha de tal evento.

Kingsley encarou Potter por alguns segundos e assentiu com a face.

– Ah, muito bem. – retrucou Kingsley. – Qual é a prova e onde está esta pessoa?

– Pansy Parkinson é capaz de conjurar um Patrono. – Harry disse com maestria. – Um Patrono não corpóreo, mas firme o suficiente.

Kingsley assentiu, embora a maioria das pessoas na Corte não pareceu ter entendido.

– Bruxos que utilizam muito as Maldições Imperdoáveis acabam com a mente corrompida, incapazes de conjurar Patronos sem serem mortos. – Kingsley explicou.

– Sim, senhor. – afirmou Harry.

Finalmente as coisas começaram a ficar interessantes, embora Pansy sentisse uma leve sensação de que algo não daria certo.

– Se a testemunha estiver presente, por favor, permitam que entre. – Kingsley deu a ordem.

Do lado de fora, Aberforth entrou com certa impaciência e pressa. Provavelmente já comparecera a inúmeros julgamentos e sabia o quão chato era. Pansy arregalou os olhos; jamais imaginara que o professor iria testemunhar ao seu favor. Uma cadeira fora conjurada no centro da sala, à frente de Pansy e o senhor se sentou.

– Nome completo? – perguntou Kingsley em voz alta, embora já soubesse de cor quem era.

– Aberforth Dumbledore. – disse ele, impaciente. – Professor de Defesa Contra as Artes das Trevas em Hogwarts.

– Certo. – Kingsley assentiu. – E o senhor afirma ter visto Pansy Elizabeth Parkinson conjurar um Patrono não corpóreo firme?

– Sim. – ele fora simples e direto. – Na aula em que fora presa, instantes antes dos aurores chegarem para levá-la.

– Hum… – Kingsley analisou a situação com calma. – E a senhorita, Pansy Parkinson, seria capaz de conjurar um Patrono agora, diante de toda a Corte, se lhe fosse solicitado?

Agora o Ministro falava diretamente com ela. Ela engoliu em seco, mas já tinha o instinto natural de mentir para benefício próprio e respondera sem pensar:

– Sim. – ela assentiu com firmeza, embora seu coração começasse a disparar.

Kingsley levou alguns minutos olhando seus pergaminhos e, em seguida, disse com firmeza:

– Senhorita, se você for capaz de conjurar um Patrono agora, diante desta Corte, eu a julgo inocente de todas as acusações. Podemos simplificar este caso e sequer envolver a Senhorita Granger nisto. – ele propôs com paciência. – Senão…

– Isto é um erro! – Potter disparou. – Ela está claramente afetada após passar duas semanas na prisão, como foco de todos os Dementadores. Não será novidade para ninguém se eles não lhe deixaram nenhuma memória feliz para-

– Eu aceito! – Pansy exclamou de sua cadeira, cansada daquela moleza.

A corte toda começou a cochichar e a olhar com curiosidade para a garota, enquanto ela já não se importava se conseguiria ou não. Já não tinha esperança alguma de sair dali.

As correntes dos braços da cadeira logo deixaram Pansy livre para se movimentar e, diante dela, sua varinha não demorou a aparecer, flutuando no ar. Kingsley logo criou uma barreira de segurança ao redor dela, alertando-a para que não tentasse ultrapassar. Em seguida, deixou-a livre para tentar quando quisesse e, só então, Pansy sentiu o pavor de fazê-lo correr suas veias. Ela apontou a varinha para o alto e, com a mão trêmula e machucada, não conseguia mentalizar nenhuma lembrança feliz o suficiente. Além disso, ela só teria uma chance, isso se sua mente não fora corrompida pelos Dementadores enquanto estava presa. A loura sentiu o coração disparar ao notar que nada lhe fazia feliz o suficiente para tentar aquilo e, num ato de desespero, olhou para trás e se deparou com Hermione sentada logo ao lado de Harry, não só como vítima de tudo aquilo, mas provavelmente como testemunha a favor da sonserina. A grifa parecia extremamente preocupada e isso fez com que Pansy sentisse seu coração apertar, não lhe deixando escolha. Quando Hermione notou que estava sendo observada, sorriu com o canto dos lábios e os olhos cheios de lágrimas e, em seguida, sussurrou algo que fez o coração de Pansy quase sair de seu peito:

– Eu amo você.

A loura sentiu uma forte explosão de magia em suas veias e, aproveitando que seu peito se enchia de alegria por aquelas três palavras tão simples, apontou a varinha com firmeza para o centro e, em voz firme, tentou:

Expecto Patrono!

A varinha de Pansy tremeu em suas mãos e, enquanto ela só via o rosto de Hermione em sua cabeça, ela sequer notou que, da ponta do objeto, irradiava uma forte luz prateada que não demorou a iluminar todo o local. O monte de luz não só era suficientemente forte, como, em poucos segundos, começou a tomar uma forma muito familiar para todos que estavam ali: embora ainda deformada, era possível ver que, no ar, um animal de quatro patas caminhava suavemente. Pansy pareceu tão assustada com o que ela mesma acabara de conjurar, que logo perdeu a firmeza da varinha e o feitiço se desfez instantaneamente.

Hermione sorria de orelha à orelha. Harry parecia aliviado. Ron fuzilava com o olhar. Kingsley também sorria.

– Um Patrono corpóreo! – Kingsley exclamou. – Impressionante!

Todos cochichavam empolgados e um ruído bem alto começara com os burburinhos. Kingsley os cortou.

– Alguma objeção? – ele perguntou, como de costume.

O silêncio fora absoluto. Kingsley então bateu o martelo em sua mesa e fora bem firme:

– Inocente de todas as imputações. A sessão está encerrada.

O campo de segurança ao redor de Pansy sumira. Ela também sentira seu corpo mais forte, como se sua magia estivesse recuperada. Hermione disparou de onde estava e, sem se importar com todos que estavam ali - inclusive Ron -, se jogou nos braços de Pansy. Elas se abraçaram com força e se beijaram, enquanto Harry ia até Kingsley agradecê-lo pessoalmente, apertando as mãos.

– Que belo amigo você é! – Pansy ouviu Ronald Weasley rosnar para Harry, fuzilando-o com o olhar.

– Você estava sendo injusto! – Harry disse com impaciência. – Sabe que cometeu um erro!

– Como Hermione se apaixonou por essa…

– Ron, chega! – Harry o cortou. – Aceite. Hermione a ama. Você vai encontrar alguém. Deixe-a ir!

O garoto se calou. Aos poucos, a corte fora esvaziando, enquanto Pansy, Potter e Hermione saiam com calma. A loura não sabia muito bem o que fazer.

– Vamos para a república, então? – Hermione disse com calma.

– República? – Pansy arqueou uma das sobrancelhas. – E os N.I.E.M.s?

– Minerva pediu para que adiassem mais uma semana! Já que nós duas estaríamos ausentes por conta do caso e o próprio Aberforth teria de testemunhar. Você pode descansar na República durante esta e a semana seguinte.

Pansy deu de ombros. Não fazia diferença. Hermione a abraçou e eles finalmente se preparavam para aparatar, quando Ron disparou, furioso, da Corte. Quando viu que os três estavam ali, ele se colocou diante de Pansy e, com rispidez, vociferou:

– Santa Pansy. – ele quase cuspiu na cara dela. – Sempre se salvando. Por que não conta a Hermione o verdadeiro feitiço que você fez nela?

Pansy engoliu em seco e, antes que pudesse responder, Weasley a cortou.

– Conte a ela, Parkinson, o tempo que você deixou Hermione inconsciente por conta do seu feitiço tão perigoso quanto o Imperius? Conte como Hermione ficou mudada depois disso! – ele rosnava em fúria.

– O-o que? – Hermione gaguejou.

– CONTE, SUA NOJENTA! – Ron berrou. SEJA SINCERA COM A SUA NAMORADA. CONTE QUE VOCÊ QUASE A DEIXOU INCONSCIENTE PRA SEMPRE!

Hermione se afastou por um momento.

– Pansy? – ela disse com a voz embargada. – Isso é verdade?

A loura não sabia o que fazer. Na verdade, ela sequer processou de início o que o ruivo estava falando.

– Pansy! – Hermione repetiu com mais firmeza. – Você quase me matou?

Pansy sentiu o coração gelar. Pela primeira vez, um dos seus lados mais obscuros estava exposto diante de sua namorada. A sonserina estava prestes a quebrar o coração de Hermione e não tinha o que fazer para mudar isso.