Capítulo 25

Abriu-se o forno incinerador, e as chamas ardentes dentro dele eram claras, porém eram as primeiras que não emanaram-lhe calor algum. Com o sinal recebido, o profissional ergueu a tampa do caixão, e os presentes puderam contemplar o bebê louro, que transpunha uma tranquilidade veemente em seu adormecer eterno. Mas não era uma tranquilidade que conseguia amenizar, nem um pouco que fosse, a dor do pai. Este, ainda com os olhos vermelhos e baixos, debruçou-se um pouco e depositou em sua testa um beijo doce, e durante este ato uma lágrima espessa pousou sobre a pele gelada da criança. Hyoga então se afastou, permitindo o caixão ser fechado e logo inserido na fornalha. E as chamas que ele assistia inflamar pareciam consumir tanto quanto consumiam o corpo de seu pequeno filho.

E foi quando a sentiu emaranhar seu braço ao dela e entrelaçar os dedos de ambos num gesto afetivo. A outra mão de Saori enxugou lhe as lagrimas de todo o rosto, e logo em seguida se pôs a massagear seu ombro, tudo em silêncio. Hyoga preferia assim, não importava o quão doces fossem as palavras, o silêncio parecia ser mais a eficiente forma de confortar.

E após um incontavelmente longo período, a fornalha em chamas perdeu o volume de seu interior, restando apenas algumas ultimas fumaças finas que diluíam-se no ar quente. Hyoga caiu de joelhos sobre o piso, desabando. Luka havia partido definitivamente.

...

Numa delicadeza incomum para si, abriu a porta de casa e adentrou devagar, e logo Mino surgiu no local. Os olhos dela eram puro compadecimento, e ainda mais ressentido foi o abraço que ela lhe deu ao recepciona-lo.

- Como ela está? - Num tom murmurante, ele perguntou após soltá-la. A morena deu os ombros com tristeza.

- As crianças me pediram para vir ficar com ela, mas não surtiu muito efeito. Falou pouco, se movimentou menos ainda, e não comeu nem um grão de arroz. Basicamente só fez chorar o dia todo, enfim... está destruída.

Hyoga assentiu, ciente daquilo que já esperava encontrar.

- E onde ela está?

- No quarto do Luka, também não saiu de lá nem por um instante.

- Certo... - Assentiu mais uma vez, ainda mais entristecido - ...Eu vou ficar um pouco com ela. Obrigado por tudo, Mino.

E em passos vagarosos ele seguiu para o quarto do filho, e Mino o acompanhou tão lentamente quanto. Chegando lá, encontrou as crianças do orfanato, e uma delas lia algum livro infantil enquanto o restante delas se espalhavam todas envoltas da poltrona de lugar único, acarinhando e dizendo coisas gentis àquela que ali se encontrava sentada, e ao mesmo tempo parecia não estar. Eiri não reagia de maneira alguma aos carinhos, mantinha-se estática no lugar onde antes costumava amamentar seu menino, e tendo seu olhar fixo no horizonte além das janelas onde o pôr-do-sol se fazia exibir.

Mas ela notou quando ele parou diante da porta, e o fitou. Nisso Mino adentrou no quarto e dirigiu-se as crianças.

- Pessoal, temos que deixar a Eiri descansar agora, tudo bem? Vamos para casa.

As crianças consentiram, e cada uma delas despediu-se da professora com abraços apertados e beijos no rosto, e Eiri lhe agradecia com doçura, num tom sussurrante de voz, mas ainda sem nem ao menos mira-los. O mesmo ocorreu na despedida da própria Mino.

E em poucos instantes os dois já estavam a sós em casa. Hyoga caminhou com lentidão até ela, e se sentou sobre o piso ao seu lado, ficando algum tempo quieto, procurando algo que pudesse dizer, mas não havia quase nada a ser dito a ela, assim como não houve nada a se dizer para ele também. Fitou-a de baixo, observando-a ainda de camisola de algodão e cabelos soltos, e os braços agarrados ao corpo, como se sentisse frio, ou a falta de algo neles.

- Insisto em dizer que devia ter ido, sei que Luka queria a mãe dele lá. - Ele murmurou, mas Eiri manteve-se imóvel - Eiri... - Hyoga não alterou seu tom brando e baixo, mas desta vez Eiri o olhou, com seus olhos distantes e inchados por chorar a madrugada inteira, tal como os dele. Continuou - Tudo parece tão trágico, mas Luka sem dúvidas está em paz agora, desfrutando dos jardins sagrados dos Elísios como uma pessoa com sua pureza merece. Por favor, não se entregue...

- Os Elísios... - Seus olhos retornaram para o entardecer da janela, e sua fala parecia um devaneio de tão longínqua - Cinco meses... Ele tinha acabado de ganhar um dentinho, um único dente! Iriamos viver tanta coisa juntos, eu iria ensinar tantas coisas a ele... pelos céus Hyoga, eu só quero meu bebê de volta...! - A voz de Eiri voltou a engasgar, e ela afundou a face nas mãos, mas estas não eram suficientes para sustentar tantas lágrimas. Sem coragem alguma de dizer algo mais, Hyoga a abraçou e permitiu suas lágrimas se unirem as dela.

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Surpreendeu-se ela, ao adentrar na sala e notar que esta não estava vazia como presumia. Teve um leve impulso de sair, mas este falhou ao tempo em que a atraída Freya o contemplou bem próximo a lareira acesa, sentado sobre o carpete grosso, utilizando um tamborete baixo e largo de madeira como sustento para sua máquina; foi o que ele avisara que faria após o jantar, lembrou-se a jovem. Dada também a concentração quase hipnótica dele em sua tarefa, Freya pensou não ter sido notada, portanto deu as costas poucos instantes após. Mas logo se virou novamente, ouvindo-se ser chamada por um tom brando de voz.

- Freya? - Hyoga a fitava agora, sem soltar as teclas, e seus olhos azuis possuíam agora uma coloração esverdeada conta da luz avermelhada das chamas - Precisa de algo?

- Bom, não, é... - Freya pigarreou, sem jeito - Eu só iria ler um pouco perto da lareira, enfim, não quis importunar.

- Mas não importunou. - O tom possuía quase uma indignação pela comentário dela, o que de certa forma amplificou um pouco seu desconforto.

- Tudo bem, eu vou ler em outro lugar, desculpe.

Virou-se mais uma vez para partir, mas Hyoga voltou a chama-la, desta vez largando a maquina e focando-se por completo na loura.

- Freya...

- Sim? - Ela o olhou por cima do ombro.

- Se incomoda em vir aqui um instante?

Freya não soube muito bem se de fato se incomodava, mas era certo que o fato de estar a sós com ele lhe trazia um sentimento estranho do qual ela queria fugir. Mas não fugiu, suspirou brevemente e firmando sua postura, logo adentrou e sentou no chão bem de frente a ele. E Hyoga acompanhou tudo com seus olhos que eram mais penetrantes do que Freya gostaria.

- O que deseja? - Perguntou a moça, transpondo uma falsa indiferença. E o homem de cabelos dourados por fim desviou seu olhar para o chão, e embora um sorriso fraco surgisse no rosto dele, suas expressões continham uma intrigante seriedade.

- Lembro que alguns dias depois de ter conhecido Hugo, ele me procurou e combinamos de exterminar quaisquer receios entre nós, afinal, não é muito justo que um pai e um filho sintam estranheza em se relacionar. - Hyoga então ergueu os olhos novamente para ela - O mesmo eu penso em relação a você, Freya. Eu não gosto da maneira com que nos evitamos, do receio que temos um com o outro; você é a mãe dos meus filhos e eu a terei para sempre na minha vida. Precisamos nos dar melhor, não acha? O que me diz?

Freya concordava, ainda mais sabendo do apego que os gêmeos haviam desenvolvido com o pai. Mas de forma alguma conseguia esquecer do passado, de Eiri e do filho, e de tudo o que sofreu com toda esta história; e depois, nem sabia a que pé andava a vida dele lá fora, se ainda vivia com ela, se Hugo havia causado algum conflito. Não sabia se podia ceder ao desejo de aproximação dele, não queria piorar as coisas.

- Só penso que este tipo de cumplicidade surge naturalmente, mas confesso que seria realmente muito saudável, em especial para as crianças, que nós dois desenvolvêssemos uma amizade.

- E isso significa que concorda?

- Eu não sei, como eu disse, as coisas dependem de espontaneidade, para que possam ser fortes. Vamos convivendo, deixar o tempo decidir se devemos nos unir mais ou não.

O semblante de Hyoga compadeceu-se após ele a ouvir.

- Eu não confio muito no tempo, sabe.

- Por que? - A loura franziu as sobrancelhas.

Os olhos dele desceram brevemente para o chão, e quando voltaram a se erguer, pareciam tristes, distantes. Freya intrigou-se com isso.

- O tempo se mostrou bem traiçoeiro comigo. O que deveria ter passado rápido perdurou até eu não suportar mais, ou até mais que isso. E o que deveria ter durado para sempre, foi levado num piscar de olhos.

Curiosa e estranhamente comovida, Freya permaneceu por instantes refletindo sobre a frase dele, enquanto fitava o desolamento que o rapaz tentava retardar em suas feições.

- Seria muito incomodo me contar o que aconteceu?

- Um pouco... - Depois de alguns segundos sem dizer nada, respondeu debruçando-se na maquina, fitando-a com mais densidade - Não quero soar oportunista, mas prometo te contar tudo quando você enfim me disser porque nunca procurou me contar sobre as crianças.

- Pois é... esta é uma ótima moeda de troca. - Freya comentou com mais leveza, abrandando o clima triste dos ultimas frases desta conversa. Hyoga sorriu para ela, iluminando sua face e o olhar dela. Freya sempre sentia uma sensação estranha quando ele sorria.

- Bom, está ficando tarde e amanhã teremos o exame. Eu vou me recolher. - Ele então ergueu-se do chão, e levou o tamborete até o lugar onde o encontrara, e apanhou sua datilográfica. Freya se ergueu logo após, observando com certa atenção os movimentos dele, tão suaves, como se tudo o que tocasse fosse de cristal. Mas mesmo com sua observação meticulosa, não conseguiu prevê-lo se aproximar e depositar um beijo muito leve em sua testa.

- Boa noite, Freya. - Ele disse ao se afastar, e Freya o acompanhou sair com o olhar impactado causado por esta doce demonstração de carinho. Ela praguejou em mente, lembrando-se mais uma vez de que havia a vida dele longe dali, a que ele lutara para conseguiu, e que ela abrira mão de muitas coisas para que ele a mantivesse. Não podia se deixar levar por um afago desse, um afago doce, caloroso e tranquilizador como este, um que ela por tanto desejou ter mais uma vez. Não, não podia se entregar.

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Era madrugada, exatamente a metade dela. Diante do espelho, quase estranhou a si próprio ao avistar seu próprio reflexo. A única cor que se destacava em meio a palidez intensa da face era o roxo longo de suas olheiras. Hyoga esfregou os olhos pesados e inchados, refletindo consigo que nem mesmo as piores das batalhas jamais haviam o deixado com feições tão derrotadas. Abandonou o espelho, lavou bem o rosto com água gelada abundante e logo após seguiu novamente para a cama, sentou-se, e de tronco erguido apoiado na cabeceira, fixou seus olhos na garota ali ao seu lado, suspirando devagar e com leveza, adormecida de forma profunda aparentemente. Ela bruscamente soltou um gemido, que fez com que o louro logo levasse temerosamente os dedos às têmporas, prevendo-as logo latejar. Hyoga não dormia a dias, o que trouxera-lhe esta terrível dor de cabeça que tornava-se mais insuportável a cada hora não dormida, e que também parecia querer pulverizar seu cérebro a cada grito estrangulado de Eiri que cortava a noite, este derivados de pesadelos sem fim.

Mas não eram apenas os berros em si que tiravam-lhe o sono, mas em especial o desespero incontrolável deles. Ele sabia perfeitamente o que poderia trazer a ela todo este temor, muito mais do que ter perdido o filho. Era ela, a maldita era quem estava a atormentar os pensamentos de Eiri, quem brincava com suas emoções e invadia seu sono com imagens horrendas. Imagens dela própria, ele sabia, ela divertia-se com um vigor imenso em meio a todo o tormento que assolava sua esposa desde a morte do pequeno Luka. O tormento, a ruína, o caos, era isso que a alimentava, e era isso que existia em demasia no coração de Eiri agora, e tornava o Icor maldito da discórdia cada vez mais espesso e poderoso dentro das veias dela.

Éris havia tirado a sorte grande.

E isso fazia Hyoga temer também. Sabia bem que, mesmo que este pouco sangue divino não tivesse poder para trazer uma nova guerra, tinha poder suficiente para destruir Eiri, exatamente como fazia agora, impedindo-a de se libertar desta dor terrível que só aumentaria mais e mais. E ele tinha que protege-la, em honra ao filho querido que um dia tiveram e a tudo o que já haviam compartilhado, ele tinha de protege-la.

O rapaz apertou os olhos, e a dor violenta nas têmporas surgiu implacável no mesmo instante em que a jovem loura soltou seus gritos longos e agudos e debateu-se na cama. Ele tapou os ouvidos num impulso, não suportando a dor de cabeça, e muito logo sacolejou os braços dela por alguns segundos. E então Eiri acordou, mirando fundo os olhos baixos dele e se pondo a chorar, como sempre fazia após despertar destes sonhos. Mas agora parecia pior, Eiri buscou o tronco de Hyoga com seus braços desesperados, como se sua vida dependesse de uma abraço dele. E ele, cauteloso, muito rapidamente respondeu ao gesto, acolhendo-a o mais próximo possível de seu corpo. Trêmula e pequena, ela parecia uma criança em seus braços, a qual ele não iria suportar ver sofrer desta forma por muito tempo.

- Fique calma, por favor... - Disse ele sussurrante, e beijou a testa dela.

- O pomo... o pomo brilhou e me engoliu... e me queimou por dentro... foi horrível... - Ela chorava e soluçava, e sua respiração descompassava-se.

- Mas acabou Eiri, agora eu estou aqui. Me abraça, só isso. - Apertaram ainda mais o abraço, e com um pouco de otimismo no tom, ele prosseguiu - Sabe Eiri, eu tenho rezado muito para que um dia voltemos a paz de antes, e eu tenho tido muitas esperanças. Tudo vai melhorar querida, vamos ter mais filhos...

Eir lançou um olhar que transbordava remorso.

- Me perdoe Hyoga, por favor... mas eu não quero ter mais filhos.

- O que...? - Ele se espantou, e tão logo se indignou - Por que?!

Eiri não soube responder naquele instante, cobriu o rosto com as mãos e deixou o choro ruir novamente.

- Eiri... - Hyoga insistiu. Queria a resposta, queria saber porque ela estava lhe negando que suas vidas seguissem.

- Ela me corrompe Hyoga, eu sei que ela me envenena. Deve inclusive ter deturpado o leite do meu peito, fazendo Luka morrer pouco a pouco. Por tudo que é mais sagrado, eu não quero matar mais nenhum filho nosso. Por favor, não quero dar este prazer àquela... - Ela voltou a aninhar-se nos braços dele, com seu choro aumentando consideravelmente a ponto de impedi-la de terminar. Hyoga a ninou, até que adormecesse de novo, e continuou vigilante esperando que Éris voltasse a sucumbir de horror os sonhos de Eiri. E enquanto não a ouviu gritar novamente, se permitiu, da maneira mais silenciosa possível para não acorda-la, chorar desmedidamente. A plenitude lhe foi arrancada mais uma vez.