************************Cap 25 Persistir na raiva é como segurar um carvão em brasa. Parte 2************************
Naquele mesmo dia, pouco antes do anoitecer, Saga e Geisty desceram ao Templo de Baco para dar início a mais um expediente do Templo das Bacantes, mas pouco antes dos frequentadores começarem a chegar um pequeno grupo de cavaleiros e amazonas se reunia no bar.
Nos bancos anexos ao balcão, em um cantinho mais discreto e aconchegante por conta da pouca iluminação, estavam Saga, Geisty, Marin, que já havia encerrado naquele dia as lições de grego que ministrava às bacantes, e Shina, que havia descido somente para atender ao chamado do Patriarca e ainda tinha o cabelo cheio de bobes.
Do lado oposto ao balcão, com a camisa branca ainda aberta, um amplo avental negro jogado sobre um dos ombros e seu inseparável paninho de limpeza na mão, Aldebaran olhava atento para o rosto sério de Saga.
— Vai chefe, fala logo. Eu já tô nervoso aqui... Tá me dando até suador! — disse o taurino levando o paninho à testa bronzeada para secar as gotículas que se formavam, enquanto era acompanhado da risada discreta de Marin.
— E eu ainda nem acabei de me arrumar. — resmungou Shina enquanto desenrolava algumas mechas de cabelo presas aos bobes, os deixando sobre o balcão conforme ia tirando.
— Certo. — disse Saga tomando fôlego — Serei direto, porque logo as bacantes começarão a descer e o assunto que temos a tratar com vocês é de caráter sigiloso.
— Opa! Agora fiquei curiosa! — exclamou Shina.
— Jesus, Maria e José! Lá vem bomba! — o taurino apoiou ambas as mãos sobre o balcão e arregalou os olhos castanhos, como para não perder nem um detalhe precioso daquele segredo.
— Como vocês três bem se lembram, eu pedi a mão de Geisty em casamento, então escolhemos por fazer a cerimônia o mais breve possível. Semana que vem.
— Ah moleque! Puta que pariu, cara! Mas que notícia boa! — exortou Touro, com um sorriso que mal lhe cabia no rosto.
— Sim. — Gêmeos sorriu contente — E uma cerimônia de casamento não estaria completa sem os devidos padrinhos...
— E é por isso que nós os chamamos aqui. Queríamos convidar vocês três para serem nossos padrinhos de casamento! Ficaremos muito felizes se aceitarem. — concluiu Geisty dando um sorriso amplo.
— Mas é claro que eu aceito! Pérae! Pérae! — disse Aldebaran se livrando do paninho e do avental enquanto já dava a volta no balcão para ir para o outro lado — Deixa eu parabenizar os noivos direito.
Dito isso, Touro se aproximou do casal para cumprimenta-los bem à moda brasileira, com abraços apertados e calorosos, chacoalhões e muitos tapinhas nas costas.
Em seguida foi a vez das amazonas.
— Ah, sua safada! Era isso então, né! — disse Shina descendo do banquinho — Eu bem que não aceitaria um cargo abaixo de madrinha não, heim! — agarrou a cabeça da amiga morena, com toda a delicadeza típica italiana, dando dois beijos estalados em cada bochecha — Estou muito feliz pelo convite, amiga. Ai de você se não o fizesse a mim!
— E sei. — respondeu Serpente dando um abraço apertado em Ofiúco — E não poderia me imaginar vivendo esse momento tão importante em minha vida sem que você estivesse presente.
Bem mais contida, Marin cumprimentou Saga com um aperto de mão solene e depois se voltou à Geisty.
— Meus parabéns, Geisty! Obrigada pelo convite. — disse estendendo a mão à amazona, mas esta abriu os braços e puxou a japonesa para um abraço triplo, entre amigas.
— Vem aqui, sua boba, me dá um abraço forte... Quanta formalidade! – disse a futura noiva sorrindo.
Após os cumprimentos Geisty reforçou a ideia da necessidade de se manter sigilo absoluto sobre a cerimônia.
— Bem, vamos à parte prática. A cerimônia será sigilosa, para poucos convidados. Não podemos correr o risco de sermos descobertos, então será algo bem simples. — disse Geisty.
— Exato. — afirmou Saga — Por agora, reforço a necessidade de se manter discrição. Ainda estou fazendo uns contatos para conseguir um local neutro e seguro para a cerimônia, por aqui mesmo, na Grécia, assim não levantaremos suspeitas com viagens rápidas para o exterior, e também porque não podemos nos ausentar do Santuário por um período muito longo de tempo. Falarei pessoalmente com cada um que desejo que esteja presente. Basicamente os mesmos que estiveram no nosso noivado, salvo Misty, ou criarei problemas com Afrodite, e obviamente Escorpião.
— Por mim não chamaria o porco do Camus também. Detesto o Aquário! — resmungou Geisty — Não faço questão nenhuma dele no nosso casamento.
— Eu também não, amore mio, mas já conversamos sobre isso. Sou obrigado a convidá-lo. Primeiro porque somos sócios, e segundo porque ele é a merda da nossa garantia de que a Vory v Zakone nunca saberá da sua gravidez, tampouco do nosso relacionamento... Se te conforta, e a mim também, tenho certeza de que ele não virá. Mas não podemos esconder isso dele.
— Atena te ouça! A presença dele estragaria todo o brilho da cerimônia. Além de me causar ânsias! — resmungou Geisty.
— Bem... então era isso. — finalizou Saga — Agradeço por vocês terem aceitado de bom grado. Máscara da Morte já abriu as portas, logo os frequentadores começarão a chegar. — levantou-se do banquinho olhando para a entrada do salão onde o cavaleiro de Câncer, junto ao de Capricórnio, abriam as portas para receber os primeiros frequentadores daquela noite.
— Falou chefe. Nos vemos mais tarde. — disse Aldebaran vestindo o avental preto.
— Eu vou subir e terminar de me arrumar. — disse Shina.
— E eu vou para o alojamento. Quero preparar umas aulas de reforço para a Fúlvia amanhã. Essa menina tem uma dificuldade com pronomes que por Atena! — disse Marin também descendo do banquinho.
Assim que todos dispersaram Saga e Geisty seguiram lado a lado para o centro do salão. Gêmeos iria para o escritório, e Serpente para o quarto que ocupava ali, mas no meio do caminho a amazona segurou no braço do cavaleiro interrompendo sua caminhada.
— Saga, espere. — ela disse quase num sussurro.
Gêmeos olhou para trás encontrando os olhos violetas atentos sobre os seus.
— O que foi?
— Enquanto falávamos com as meninas e o Aldebaran no bar eu senti um... perfume.
— Eu também senti. Devia ser alguma das bacantes passando pelo corredor do piso superior.
— Não. — disse a amazona — Eu olhei para a escadaria e vi Afrodite subir apressado.
— Afrodite? — Gêmeos perguntou curioso — Mas eu conheço o perfume de Afrodite. Não era ele. Até porque Afrodite só vem para o bordel bem mais tarde.
— Bem... O perfume de fato está diferente do típico, e enjoado, odor de rosas, mas era ele sim. Tenho certeza. — afirmou ela.
Gêmeos ainda divisou o olhar da amazona por mais alguns segundos e então correu rapidamente os olhos pelo salão. Não havia ninguém, somente Aldebaran no bar.
— Venha. Vamos subir. Já que ele está aqui pode ser uma boa hora para falar com ele. — disse o grego pegando na mão da amazona para conduzi-la até a escadaria que dava acesso ao segundo piso.
— S-sim... Ah, deusa! Vamos. Seja o que Atena quiser! — falou Geisty seguindo junto do amado para as escadas.
Juntos embrenharam-se no longo e acarpetado corredor de luzes douradas e vermelhas e só pararam a caminhada apressada quando chegaram em frente à porta do quarto do cavaleiro de Peixes, na qual Gêmeos deu dois toques leves.
— Afrodite? — disse Saga em voz baixa rende à madeira — Pode abrir a porta, por favor?
No interior do quarto, sentado na banqueta em frente uma luxuosa penteadeira em estilo vitoriano, o Santo de Peixes removia pacientemente as unhas postiças esmaltadas em rosa antigo quando o som dos toques na porta o trouxe de volta para aquela realidade.
Surpreendido, Afrodite congelou o movimento que fazia segurando a unha falsa do dedo anelar da mão direita com o indicador e dedão da mão esquerda, enquanto, de cabeça agora erguia, mirava com os olhos arregalados para seu reflexo no espelho logo à frente.
"Saga?"
Pensou ao reconhecer a voz do outro lado da porta, então girou o corpo para trás e correu os olhos rapidamente pelo aposento.
"Merda!... Que eu tinha que ter deixado o removedor de cola de unha aqui?"
Saltou da banqueta correndo até duas pequenas malas de viagem que havia largado no meio do quarto.
— Aquenda um segundo, Saga! — gritou apanhando as malas e as levando até o closet.
Quando voltou viu sobre a cama uma bolsa luxuosa de mulher, um lenço de seda com estampa floral e um chapéu Floppy Boho de feltro em tom rosa nude.
"Merda, merda, merda!"
Correu até o leito e apanhou os itens, apressando-se a leva-los também para o closet.
— Já estou indo! — outro grito.
Somente quando se livrou de todas as evidências que poderiam denunciar que havia acabado de chegar de viagem é que respirou fundo, ajeitou a camisa de seda amassada sobre o jeans surrado e procurando se acalmar caminhou lentamente até a porta. Tinha que fingir tranquilidade, normalidade, mesmo que o fuso horário da viagem até Moscou ainda lhe tivesse confundindo um pouco.
Segurou a maçaneta e antes de girá-la soltou um suspiro.
— Pois não, chefinho? — surpreendeu-se novamente ao ver a amazona de Serpente ali, ao lado de Saga. Quase nunca se cruzavam nos corredores, nem no salão, tampouco no Santuário — Hum, está acompanhado da sua senhora!... Qual e o Equê* dessa vez?
— Boa noite, Afrodite. — disse o geminiano sem tirar os olhos do rosto do sueco, mesmo que este não olhasse para si, e sim para Geisty — Nós queríamos conversar com você um instante. Podemos entrar?
— Agora? — perguntou o pisciano num misto de espanto e pouco caso — Deve saber bem que hoje o suínão peruquento do Praxédes reservou algumas horas comigo, e que desde já eu preciso de paz e silêncio para preparar o meu psicológico, que sempre fica desgraçado quando ele vai embora, Saga. Ah, tá boa? Quer conversar o quê? Não pode ser outra hora?
— Não. Tem que ser agora. — insistiu o grego — Ainda é cedo. Ainda temos algum tempo até o pulha do Prefeito chegar.
Ao lado do Patriarca, Geisty observava a tudo calada. Não apenas o cheiro de Afrodite estava diferente, mas também seu semblante, seu olhar. Manteve-se quieta apenas observando.
— Dadá, que escolha eu tenho! — revirou os olhos enfastiado, depois encarou Saga com firmeza — Para você vir pessoalmente falar comigo, e acompanhado da sua senhora, coisa boa não deve ser, né Saga. — disse, baixinho, e cedeu espaço para que os dois adentrassem o aposento — Anda, entrem. Sentem-se nas poltronas perto da janela. Estas estão livres de dejetos suínos.
Em silêncio o casal adentrou o quarto se acomodando nos lugares oferecidos enquanto esperavam o pisciano juntar-se a eles trazendo nas mãos a banqueta da penteadeira para se sentar.
Nesse curto espaço de tempo Saga não pode deixar de notar que Peixes estava bem mais magro.
Ficou preocupado.
— Você tem comparecido aos treinamentos físicos na Arena diariamente, Afrodite? Está mais magro. — disse o geminiano numa espécie de repreensão.
Peixes não esperava que logo Gêmeos fosse reparar nesse detalhe.
Saga era esperto demais, inteligente demais, e justo ele não poderia desconfiar de nada.
De fato estava perdendo peso. Não por questões de estética ou que estivesse deprimido, mas simplesmente porque tinha um disfarce a sustentar e não podia se dar ao luxo de algo nele dar errado.
Se passar por uma mulher implicava em atenuar suas formas masculinas o máximo que conseguisse, e isso incluía perder peso e tônus muscular. Achava que sua mudança física passaria despercebida pelos irmãos de armas apenas usando roupas largas, soltinhas, mas não para Saga.
Gêmeos o conhecia desde a infância, foi seu tutor, e dele nada passava despercebido.
— Confesso que tenho faltando a alguns, sim. — deu de ombros e respondeu após pensar um pouco — Mas não foi sobre o meu peso que você e sua senhora vieram falar, imagino.
— É... não, não foi. — disse Saga meneando a cabeça levemente, já Geisty não conseguia despregar os olhos das mãos de Afrodite, as quais ele mantinha sobre os joelhos dobrados. Isso porque ele usava unhas postiças esmaltadas em rosa antigo em apenas uma delas, a direta. As unhas da mão esquerda estavam perfeitamente cortadas rente à pele.
— Então desembucha, santa. — apressou o pisciano.
— Afrodite, Geisty e eu vamos nos casar... Semana que vem.
Peixes arregalou os olhos aquamarines, surpreso, mas também levemente aborrecido. Era ainda difícil para ele aceitar que tinha que se prostituir para sustentar a farsa de Saga e Geisty, mesmo que muita da culpa para sua atual situação fosse sua, de suas ações inconsequentes no passado e seu temperamento explosivo.
— Mas, já? Achei que fosse demorar mais... Bom, enfim, que bom para vocês. — disse com desdém.
— Ainda estou definindo o local, mas o fato é que estamos prestes a dar um enorme passo em nossas vidas e queremos tentar viver em um ambiente menos austero... Por isso eu vim até aqui para tentar resolver um problema que já se arrasta há algum tempo.
— E qual seria o problema?
— Esse clima ruim entre nós, essa nuvem negra que se instalou sobre nossas cabeças desde que rompemos nossa sociedade.
— Aaah! Alto lá, Saga! — o sueco ergueu ao ar o dedo indicador e depois o apontou para o rosto de Gêmeos — Desde que rompemos não, gata, desde que a senhora me destituiu do cargo!
— Não distorça a realidade, Afrodite de Peixes, nem tente me manipular. — repreendeu o geminiano — Você sabe muito bem que praticamente me obrigou a isso quando meteu três russos da Vory na porra do teu quarto e tomou uma surra deles. Se não fosse o Camus...
— Ah, claro... o Camus... — Peixes interrompeu —... Mas, você nem pensou duas vezes antes de me tirar da sociedade.
— E que outra escolha eu tinha? — Gêmeos se impôs no diálogo — Você me obrigou a isso. Você sempre me obriga a fazer coisas que eu não quero fazer, Afrodite... Como agora. Eu vim falar com você de coração aberto, porque eu sinto falta do meu amigo, e você está me obrigando a discutir e a te jogar verdades na cara que eu não gostaria de jogar. Se eu não tivesse desfeito nossa sociedade o Templo das Bacantes teria acabado na primeira semana de funcionamento, porque você e sua inconsequência mandariam tudo para vala... Vai negar?
Sem ter o que rebater, porque reconhecia que Gêmeos dizia a verdade, Peixes suspirou e olhou para Geisty, levemente envergonhado.
— O que você quer aqui, Saga? — disse, agora de guarda baixa.
— Bom... — continuou o grego — Esses anos todos, mesmo afastados e vivendo nesse clima tenso, de rancor e mágoas, saiba que eu ainda o considero o meu melhor amigo, Afrodite, e que sua lealdade para comigo e Geisty, e o nosso segredo, é reconhecida por mim. Eu sou muito grato a você.
— Hum. — murmurou Peixes revirando os olhos.
— Por isso, em nome dessa amizade que eu tanto prezo, eu queria te pedir para que volte a ser o meu sócio no Templo das Bacantes.
De tão surpreso Peixes quase caiu da banqueta.
— O quê?
— E também não quero mais que faça programas em troca dos acordos comerciais e das alianças políticas que firmo com nossos "colaboradores"... Já cancelei algumas parcerias, já neguei também novos contratos que exigiam você como moeda de troca, outros, mais insistentes, aceitaram que Misty o substitua... Vamos perder uma grana considerável, é bem verdade, mas dinheiro nenhum paga nossa paz de espírito.
— Eu... Tô... Sépia! — exclamou o pisciano levando ambas as mãos ao peito — É você mesmo quem está ai? Saga?
— Sim, sou eu mesmo. Sem influência alguma... — sorriu meio que envergonhado — Mas, como não podia ser diferente em se tratando da minha vida de merda, eu tenho uma pedra no meu sapato.
— Imagino que seja o peruquento.
— Exato. Praxédes. Por causa do maldito alvará não consegui convence-lo a escolher outra bacante ou abrir mão dos programas com você. Ele insiste nos programas com você e Geisty... Eu realmente estou fazendo tudo que está ao meu alcance. Não é o ideal, ainda, eu sei, mas é o que pode ser feito com as possibilidades que temos dado esse mar de lama no qual estamos mergulhados... Espero que isso, de alguma forma, possa amenizar todo esse desprazer que te fiz passar.
Peixes novamente direcionou o olhar à amazona, que ainda se mantinha calada apenas o observando em uma concordância muda.
— Nesses dois anos, Afrodite, você provou que posso voltar a confiar em você. Tem se dedicado à administração da casa, mesmo essa não sendo sua obrigação. Tem zelado pelas bacantes, botado para correr qualquer filho da puta que perturbasse a paz delas ou passasse dos limites, e, como disse antes, tem sido leal a mim em não revelar o meu segredo... Você me provou que posso voltar a confiar em você, e isso me deixa muito satisfeito e feliz.
— Está dizendo que não preciso mais trepar com os seus sócios suínos, tirando o peruquento? Oh! Quanta empatia, Grande Mestre! Quanto altruísmo! Devo agradecer à vossa benevolência? — ironizou.
Gêmeos estreitou os olhos.
— Sim, deve agradecer, já eu sou muito bonzinho! — Saga também ironizou — Meu novo voto de confiança é muito mais do que você merece, seu desmiolado. Você quase arruinou com tudo... — suspirou cansado.
— Hum...
— Mas agora estou te dando mais uma chance... A Vory ainda é uma constante em nossas vidas. Na minha, na da minha mulher e também na sua, independente da minha influência ou não. Por isso, mesmo voltando a ser meu sócio precisará fingir que ainda está fazendo programas, já que eles exigem isso de mim e de você. Nós estamos nas mãos deles, com uma dívida estratosférica a pagar... Eu sei que errei com você, e pelos deuses, como me arrependo, mas você também errou comigo, Afrodite, admita.
Peixes baixou os olhos evitando os de Saga e reconhecendo nas palavras dele a verdade que tanto gostaria de ter o poder para mudar. Se fosse no passado a pessoa que era hoje teria feito tudo diferente, mas não podia mudar o que já havia feito, e agora tinha que arcar com as consequências dos seus atos.
— Eu... sei. — falou quase num sussurro, enquanto enrolava uma mecha de cabelo em um dos dedos — E eu também... me arrependo.
— Quando abri essa zona eu te disse que se você tivesse uma ideia melhor, usando apenas das cartas que nós temos na manga atualmente, para nos livrarmos da influência da Vory, eu acataria, até te passaria o meu manto e o meu cargo de Grande Mestre, e você o que me disse?
Ergueu a cabeça e encarou os olhos jades de Saga sobre si.
— Disse que faria exatamente o mesmo. — falou o pisciano — Mas isso antes de descobrir que essa ideia de zona também serviria para salvar essa franjuda dos russos, né Saga. — deu uma olhada para Geisty, que se mantinha hirta na poltrona.
— Ela é a mulher que eu amo, Afrodite. Não podia, e não iria, deixa-la morrer... Agi por impulso, confuso e sem pensar tanto nas consequências... Com a minha mente me atormentando a cada dia, cada minuto, cada segundo...
— Ah, Dadá é mais! Não fala desse encosto! — repreendeu Peixes ao se benzer estalando os dedos diversas vezes.
— Você agora deve entender o que me motivou... Já que pelo visto o seu namoro com o Batman vai de vento em popa.
Peixes respirou fundo, fez um bico, olhou para Geisty, depois para Saga e fechou os olhos.
A simples menção do geminiano à Camus, mesmo não sabendo que essa era a verdadeira identidade do seu namorado misterioso, fez seu coração bater mais forte. Quantas também foram as provações que tinha aceitado passar para poder viver seu amor com o aquariano? Quantas mentiras aceitara contar? Tanto para proteger a si mesmo quanto para proteger ao homem que amava. Tantas que agora uma delas já fazia parte de sua essência. Era a Afrodite, amazona de Peixes, e a única referência "feminina" que tinha restado na vida de Hyoga.
Sim, agora entendia perfeitamente o que tinha levado Gêmeos a fazer tudo que fez.
Amor.
Sem dizer nada, Afrodite abriu os olhos, olhou para Saga, levantou da banqueta e caminhou até ficar em frente ao geminiano sentado na poltrona.
— Levanta.
Sem desviar a atenção do outro o geminiano atendeu ao pedido se pondo de pé. A seu lado a amazona erguia o olhar acompanhando toda a ação, mas sua atenção analítica era toda voltada ao pisciano.
— Diga, Afrodite, o que foi? — falou batendo as mãos nas coxas depois as espalmando no ar.
Então Peixes fez algo inesperado. Abriu os braços e abraçou Saga. Um gesto forte, firme, redentor.
— Eu te odeio, miolo mole. — disse, a voz abafada pela manga da camisa do geminiano, já que Peixes tinha o rosto colado ao ombro do cavaleiro — Mas dessa vez eu exijo um contrato assinado em cartório e reconhecido firma, assim quando você me tirar da sociedade de novo eu terei como ir atrás dos meus direitos.
— Que contrato, Afrodite? Este é um negócio ilícito, não há contrato. — disse Saga aos risos, também abraçando o pisciano.
— Hum... droga. — Peixes riu divertido, feliz com aquele momento, com o reencontro, quando de relance abriu os olhos e encontrou os de Geisty cravados em si. Ela tinha uma expressão blasé no rosto, pouco amistosa — Chega de abraço, né? — disse o sueco recuando um passo para olhar no rosto do geminiano.
Saga pigarreou também recuando um passo.
— Estamos entendidos então? — falou o grego.
— Eh... Eu sinto muito também pelos vacilos, Saga. Eu sei que caguei no maiô* com você e não foi uma vez apenas não, foram várias... Inclusive aquela do Cabo Sunion quando... — interrompeu-se, ponderando o que dizia —... Bem... Abafa... Esse papo ai de amor... Hoje eu entendo como funciona. — voltou seu rosto para Geisty e fixou seus olhos aos dela — Eu também amo muito uma pessoa e, por Atena, eu faria tudo por ela... Eu fiz e faço... tudo por ela... — deu de ombros — Parabéns pelo casamento. Pode não parecer, Varejeira de franja, mas eu torço muito por vocês dois. Espero que sejam felizes, como a vida permitir.
— Obrigada! — respondeu Geisty sem desmanchar a postura ereta e firme que mantinha desde o momento que entrou no quarto.
A amazona não se permitia a grandes aberturas com o cavaleiro de Peixes, contudo não pode deixar de notar o quão diferente ele lhe parecia em comparação ao sujeitinho arrogante e debochado de dois anos atrás.
O tempo todo durante a conversa ela o analisou minuciosamente. Afrodite não estava diferente apenas fisicamente, mas algo dentro dele parecia mudado. Não abandonara por completo o ar vaidoso e prepotente natos, esses ainda estavam lá, porém bem mais brandos, agora dando lugar a uma aura mais sensível, acolhedora e estranhamente empática.
No entanto, essa aura nova que parecia agora permear as palavras e gestos do sueco não eram o suficiente para conquistar a confiança da amazona. Longe disso, já que Geisty fazia jus à sua constelação e era desconfiada por natureza, especialmente agora que estava prestes a ser mãe e estava ainda mais cautelosa.
Pensando nisso, na segurança dos filhos, no bem estar de Saga, e por que não no de si mesma, Geisty levantou e aproximou-se de Afrodite lentamente.
Também queria uma trégua para si.
— Afrodite, eu também tenho algo a lhe dizer. — disse ela, capturando a atenção do pisciano que se virou ligeiramente para si.
— Manda, mosca franjuda. — respondeu Peixes cruzando os braços.
— No que diz respeito a você e eu... Nosso começo foi de ruim a péssimo. Não temos uma amizade a que reconstruir... Mas podemos tentar ter um convívio menos ácido, para assim podermos tentar viver em um ambiente menos pesado.
— Concordo... Apesar de que acho impossível fazer a Zen, viver livre, leve e solta, aqui, né meu bem!... Se fosse em Bora Bora até poderia tentar.
— Você entendeu o que eu quis dizer. Não se faça de bobo. — disse Geisty — Eu proponho deixar nossos desentendimentos, ofensas e acusações no passado e tentar começar do zero.
— Hum... Vai parar de me espionar, de me espreitar pelos cantos e fazer a cabeça das bacantes contra mim? Desde que aconteceu aquele... acidente, com a malassombrada da Mônica, você está doida para me jogar na fogueira que eu sei, Sucubo de franja, mas eu não fiz nada! — nervoso, levou uma das mãos à cabeça e enrolou os dedos em uma mecha de cabelo.
Geisty estreitou os olhos o analisando.
— Eu te acho perigoso... Isso não mudou. Só estava tentando proteger as meninas. — disse séria — Mas, como Saga, eu também quero lhe dar um voto de... confiança. — estendeu a mão no ar em um claro sinal de trégua.
Peixes não pensou duas vezes em aceitar o gesto, apertando a mão da amazona assim que ela lhe foi oferecida.
Estranhamente toda aquela marra e implicância do passado tinha se transfigurado em simpatia, e ele nem sequer se dera conta de quando isso tinha acontecido que ele não percebeu.
Mas não ia admitir tão cedo.
— Ah, e só mais uma coisa. — disse Geisty — Eu faço isso pelos meus filhos e meu futuro marido, Afrodite. Comigo não tem segunda chance. Eu não sou o Saga.
— Tá certo, varejeira. — Peixes sorriu, ainda apertando a mão da amazona — O dia que você fizer isso por si própria talvez a gente possa até sair para tomar um chá, ou ir ao Shopping de Atenas ver se a Tiffany & Co. está fazendo alguma liquidação, quem sabe. — desfizeram o cumprimento com tranquilidade.
Gêmeos, que tinha uma expressão mais aliviada no rosto pousou uma das mãos no ombro de Afrodite para ter a sua atenção.
— Bem, agora que já nos entendemos, eu acho que já posso te fazer o convite, Afrodite. — falou o geminiano.
— Convite? — perguntou surpreso o pisciano.
— Sim. — o grego sorriu, depois olhou brevemente para Geisty, que lhe meneou a cabeça num gesto afirmativo, indicando para que seguisse em frente — Eu conversei com Geisty e nós decidimos juntos... Além de excelente cavaleiro você sempre foi meu amigo, Afrodite, um grande amigo... Eu não poderia pensar em dar um passo tão importante na minha vida sem a sua presença ocupando um lugar especial, por isso, para coroar essa nova etapa em nossas vidas, eu me alegraria muito se você aceitasse ser nosso padrinho de casamento. Você aceita?
— E... Eu? — Peixes falou arregalando os olhos. Aquele pedido era tão surpreendente quanto óbvio. Sempre esteve presente na vida de Saga, desde os momentos mais tensos até os mais brandos, agora não seria diferente, mas, e Geisty? Sabia muito bem que a amazona não lhe topava. Seria essa abertura, então, já resultado da trégua proposta?
— Sim, você. — disse Gêmeos baixando a cabeça — Claro... Se você não aceitar eu vou entender, afinal eu te causei muito mal e não vejo como reparar tudo de ruim que eu te fiz de forma realmente justa e eficiente, mas...
— E quem disse que eu guardo rancor? A Lagartixa Cascuda não vale. Essa merece o meu cafuçu. — interrompeu o pisciano — O importante na vida é andar para o lado, e não para trás, não é mesmo?
— Andar para frente. Você quer dizer, a menos que seja um siri. — corrigiu Geisty, um tanto nervosa.
— Isso, para frente. — riu o cavaleiro de Peixes, depois novamente abriu os braços, mas dessa vez se meteu no meio dos dois os trazendo para um abraço triplo — Eu aceito sim! Ai pelo véu de tule e poás da consorte de Dadá, eu nunca fui padrinho de casamento! Nem sei o que vestir! — falava animado, empolgado, apertando os corpos dos noivos contra o seu.
— Para tudo tem uma primeira vez, amigo. — disse Saga enquanto apertava o outro em um meio abraço — Fico feliz de ter aceitado o convite.
— Sobre as roupas... — interveio Geisty, que tentava falar em meio ao abraço apertado e a cabeleira perfumada azul piscina que entrava em sua boca — Temos que ser rápidos, pois só temos uma semana. Amanhã de manhã vou me reunir com Marin, Shina e Mu para falar sobre isso, pesquisar algumas lojas... Você pode vir também se quiser.
Finalmente soltando a ambos, Afrodite deu um passo para trás animado.
— Eu vou sim!
— Ótimo! — arrematou Saga — Essa questão das roupas fica a encargo de Geisty. Até o que vou vestir deixo à escolha de vocês. Ainda tenho que arrumar um local discreto e seguro para a cerimônia e organizar uma pequena festa, mas tem algo que queria pedir a você, Afrodite. Sabe que quanto menos pessoas estiverem envolvidas com isso, mais seguros estarão meus filhos e minha mulher, portanto queria que você ficasse a encargo da decoração. Aldebaran se encarregará dos comes e bebes. Confio no seu gosto pessoal.
— Pode deixar, chefinho. Já até sei o que fazer! — deu uma piscadinha para a amazona que não soube como reagir.
— Bem, então estamos resolvidos. — disse Saga pegando na mão da amazona — Vamos, amore mio?
Dirigiram-se para a porta de saída acompanhados pelo pisciano. Ele a abriu e o primeiro a cruza-la foi Gêmeos, puxando a mão da namorada que se deteve por um instante antes de deixar o quarto, girou o tronco para o lado, inclinou-se levemente em direção ao sueco e sussurrou em seu ouvido:
— Percebi que mudou o seu perfume, Afrodite. Ou seria o seu próprio cheiro? — encarou os olhos aquamarines surpresos — Não sei qual foi o motivo, mas esse é bem melhor que aquele odor enjoado de rosas.
— Vamos, Geisty? — disse Saga dando um leve puxão na mão da amazona.
— Vamos. — respondeu ela em concordância ainda olhando nos olhos do sueco — Amanhã de manhã, Afrodite. Não se esqueça.
Quando finalmente o cavaleiro e a amazona deixaram o quarto, Peixes fechou a porta encostando as costas na madeira e deixando escapar um longo suspiro.
— Varejeira esperta! — meneou a cabeça dando um sorriso eloquente, depois fechou os olhos e concentrou seu Cosmo, reestruturando as toxinas presentes em seu sangue para o padrão fisiológico antigo, e na mesma hora o quarto todo ganhou um perfume de rosas único e inebriante — Já veio botar ovos no meu disfarce de amazona, essa mosca poedeira.
Voltou à penteadeira para terminar de retirar as unhas postiças. Estava feliz, de fato. Por Saga, por Geisty, e por que não por si próprio?
Naquela noite pensou que um dia, talvez, poderia ser ele a se casar com Camus...
Riu melancólico diante de tão absurdo devaneio.
Dicionário Afroditesco
Cagar no maiô – fazer algo errado, cometer um delito, um erro; fazer merda.
Equê – problema, confusão.
