Part XXV: Cinderella
Mal se deu o tempo para que Layla se acostumasse com a idéia de ter um empecilho chamado Sora em sua vida, que novos problemas, ou melhor, obstáculos, voltaram a aparecer em sua vida. Depois de refazer a peça de Romeu e Julieta, tamanho sucesso em todo o mundo, era a vez de Kalos apresentar-lhes o resultado de meses de estudo e preparação acompanhados por ambos de longe, que seria a peça Cinderela. Estava, sem dúvidas, ansiosa pela novidade. Tudo que haviam acompanhado até então lhe chamara interesse, fosse o figurino, o cenário, a trilha sonora, suas performances, o clímax... Exceto pela notícia que viria a seguir.
- Colocaremos os recém-admitidos desta vez - Kalos começou, enquanto juntava as plantas do palco do Kaleido na sua mesa, formando um bloco só - não quisemos colocá-los logo na peça de Romeu e Julieta por ser cedo demais, mas poderemos estreá-los para esta. E alguns deles terão papéis importantes.
E novamente, a imagem daquela garota desafiando-a vinha à sua mente. Desafiando e vencendo, ainda por cima. Não que não permitisse que alguém fosse melhor que ela, mas aquilo a instigava a tomar o seu trono de volta, não importava quanto tempo custasse. Aqueles pensamentos, entretanto, ficaram claros na sua expressão. Costumava escondê-los quando os percebia, mas por estarem tão fortes, Kalos não deixou de evitar perceber tal reação, prosseguindo com a conversa.
- Sei o que está pensando, Layla, e talvez em breve ela seja capaz de estar entre os principais do elenco como te disse, mas não será agora. Ela ainda precisará passar por alguns testes, além do que você propôs a ela, já cumprido. - dizia ele na voz séria de sempre, a qual arrancava um leve e imperceptível suspiro de Yuri, antes de prosseguir - Além disso, é o seu pai o maior patrocinador e colaborador para que esta peça aconteça de forma tão espetacular. Então devemos explorar todos os recursos que temos.
Aquela inquietação com relação à Sora permaneceu ao longo do dia, tanto nos treinos quanto nas conversas, e Yuri já podia perceber facilmente tais reações. Estava mais exigente, com ele e consigo mesma, estava mais rápida, fazia menos pausas, lutava para não se demonstrar instável, até que conseguia se estabilizar, e tentar conversar, ele sabia, seria mais do que em vão. Tinha a plena certeza de que Kalos poderia suspeitar de uma possível ameaça ao seu tão querido circo, e que, portanto, estava se prevenindo, para que caso algo desse errado com uma estrela, tivesse outra. Afinal, Layla estava sob as asas do pai, Sora não tinha nada tão forte assim sobre sua cabeça. Então, tudo o que precisava fazer era deixar Layla se encontrar e, caso parecesse precisar de ajuda, ele interferiria, assim como fez da última vez. Ajudaria Sora também, afinal, para que houvesse mais alguém naquele lugar que valesse a pena contracenar, já que tudo agora parecia tão fácil e tanto ele quanto Layla detestavam essa situação.
Como se não bastasse esses pensamentos tão fixos em sua mente, o real obstáculo estava só para começar para ela. Ao chegar na sua casa à noite, naquele mesmo dia em que discutiram com Kalos os acertos finais da nova peça, seu pai se encontrava em casa e com novidades para ela. Ao vê-lo ali, à sua espera, ficara contente, já que não imaginava tal aparecimento repentino, mas também sabia que aquilo só podia significar interesses dele - e de fato, eram.
- Fico feliz que tudo esteja correndo bem para você, Layla, mas não acha que já está na hora de evoluir um pouco? - dizia após uma conversa casual, iniciando o que ela temia, antes de recolher uma xícara da mesa de centro para tomar um gole de seu chá.
-... Não entendo o que quer dizer, papai. - respondia após um ou dois segundos de silêncio, mantendo a expressão "sem-expressão" que costumava ter perto dele, calma, porém sem demonstrar muitos sentimentos.
- Bem, está maravilhosa onde está, Layla, mas não acha que já ocupou todo o espaço que devia? Quero dizer, há lugares para expandir mais a sua estrela, como teatro e cinema. Dão muito mais prestígio que um simples circo. Não acha?
Estava sem ter o que dizer. Era como se algo tivesse sido arrancado de si e não soubesse dizer exatamente o quê. Obrigou-se a fechar levemente os olhos, já que fazia isso quando não queria que lessem seus pensamentos e sentimentos através de seus olhos, para enfim tentar responder. O problema, no entanto, era exatamente a resposta. Jamais queria decepcioná-lo, por mais que não concordasse com ele, então sempre media as palavras pelo menos dez vezes antes de voltar a respondê-lo e tudo o que acabava saindo era o contrário do que gostaria verdadeiramente de lhe dizer. O seu chá, por sinal, estava intocável.
- Sim, papai..
- Pois então, sei exatamente como te ajudar, minha filha - o ligeiro sorriso despontava por debaixo de seu bigode, satisfeito com o que ouvia vindo dela, como sempre. Curiosamente, era concordando com ele nas poucas vezes em que lhe perguntava algo que ouvia a palavra "filha". Era algo que sempre lhe incomodou muito, mas que também nunca teve coragem de lhe dizer. E era nessas horas que se considerava tão fraca e inútil, perto do mundo de coisas que era capaz de fazer "naquele circo", como dizia ele. Circo este que lhe trazia liberdade. - daqui a um mês, mais ou menos, promoverei uma festa a todos os sócios, empresários e colegas envolvidos à Hamilton Foundation. Gostaria que fosse para que eu lhe apresentasse algumas pessoas, incluindo produtores de filmes e cineastas. Eles se encantarão em conhecê-la. Quando a data estiver mais próxima, irei relembrá-la.
- Claro... - a resposta saía quase que automática, por mais que internamente passasse a se odiar por aquilo. Não queria abandonar o Kaleido Star, mas... Seria por isso que Kalos estivesse de olho em uma próxima estrela? Será que ele já sabia a respeito do que seu pai estava a lhe propor naquela noite? Esperava que não, mas provável que sim, infelizmente.
Paradoxalmente, nos dias que se seguiram, viu Sora se apresentar como um palhaço entregador de pequenas lanternas para crianças. Por um momento achou deprimente; noutro, pensou no que Kalos queria mostrar a ela com aquilo; por fim, pensou como que uma garota daquela, sofrendo tais condições, poderia mesmo ser a esperança do Kalos para alguma coisa. Estava confusa, afinal, pensando se realmente, daqui a algum tempo, sairia de tão fascinante lugar, se seria substituída de forma tão breve e se Yuri tornaria parceiro de alguém ou se desistiria dos palcos. Provável que não. Com certeza não, era o que pensava. Ele viera de muito longe para desistir só porque sua primeira parceira havia sido cretina a ponto de largar algo que supostamente amava em troca de mais fama e mais dinheiro. Ao menos eram esses os pensamentos que parecia que os outros, principalmente ele, teriam sobre ela, a partir do momento em que decidisse por seu pé para fora do Kaleido Star.
Yuri, por outro lado, observava-a minuciosamente, enquanto seus planos corriam por trás dos panos em busca da vitória que tanto procurava. Estava diferente, mais uma vez. Por três dias, olhou Sora de uma forma menos furiosa, enquanto para ele não houve mais um olhar direto feito por ela. Parecia evitá-lo, mesmo nos treinos, quando estavam sozinhos. Teria descoberto algo sobre ele? Impossível. Ele não viria de tão longe para que seus planos falhassem justo na mão da peça mais ingênua. Ao menos era o que pensava, mesmo sabendo que quem sempre estava por trás dela era o seu pai. E o Sr. Hamilton não era nem nunca foi flor que se cheirasse, então era sim alguém para se preocupar, já que estava diretamente envolvido com o Kaleido Star. O mínimo deslize poderia significar tudo a perder e isso ele não poderia permitir. Mas quanto à Layla, ao menos por enquanto, deixá-la-ia seguir sozinha, assim como pensara antes, ao menos até o ponto em que se mantivesse perfeita nos ares e ingênua quando tinha os pés no chão. Ao menos até que precisasse dela, mais uma vez...
Nota da autora: capítulo pequeno e mais de transição do que de qualquer coisa. Alguns serão assim, infelizmente. E já aviso que até o final do ano, devo postar mais uns 2 ou 3 capítulos, assim eu tenho tempo para recuperar o tempo que fiquei sem escrever. Serão minhas mais merecidas férias e terei tempo para isso! Então, por favor, não deixem de ler e fazer reviews à fic. Isso é muito importante para mim. Obrigada!
