Frozen e seus personagens não me pertencem.


"So crawl on my belly until the sun goes down
I'll never wear your broken crown
I can take the road and I can fuck it all away
But in this twilight our choices seal our fate"

- Broken crown, Munford and Sons


Capítulo 25

"Pronto, aqui estamos nós." Hans disse suavemente enquanto abria a porta do quarto real e guiava Elsa para dentro do amplo cômodo, seus olhos seguindo a figura da moça enquanto ela andava a passos muito curtinhos e vagarosos.

Assim que Gerda terminou de tratar seu braço, limpando a ferida com uma solução à base de ervas medicinais e cobrindo-a com um pano limpo, Hans saiu pelo salão a procura da Rainha, encontrando-a, minutos depois, parada bem próxima a uma das inúmeras janelas quebradas, mirando fixamente o pátio devastado do castelo. O rosto dela estava pálido, os olhos, enormes e assombrados, e os ombros, tão rígidos quanto uma barra de ferro.

Não era à toa que ela lhe dissera não se sentir bem. Porque ela não parecia mesmo estar nada bem.

"Que bom que o vendaval não quebrou a janela do seu quarto. Estava com receio de chegar até aqui e me deparar uma cena tão ou até mesmo mais feia do que a que testemunhamos no estúdio." Ele comentou, seus olhos percorrendo e avaliando todo o ambiente. Caminhando até a cama, puxou os lençóis e afofou os travesseiros, como se preparando a cama para Elsa se deitar. "Venha, Elsa, você precisa deitar e repousar um pouco. Pelo que vi lá no salão, o General parecia ter toda a situação sob controle e- Hmpf!"

O beijo que ela lhe deu foi repentino e violento e surpreendeu muito Hans, que não esperava por aquilo. Mas ela o beijou mesmo, pegando-o pelo colarinho da camisa, unindo os seus corpos e colando os seus lábios com tanta firmeza e com tanta necessidade que Hans ficou até sem fôlego. Sentiu as mãos dela pelo seu corpo; rápidas, ágeis e frenéticas, como se não conseguissem se decidir o que tocar primeiro e, por isso, tentavam tocar tudo ao mesmo tempo. Dedos finos apertavam seus músculos com força, beliscando e molestando a pele, e unhas compridas eram pressionadas com tanto vigor que ele até chegou a imaginar se elas deixariam marcas.

"Elsa!" Ele exclamou, ligeiramente ofegante, assim que conseguiu romper o beijo, embora seus rostos ainda permanecessem muito próximos, suas boca quase se tocando. "Não que não estivesse gostando, mas... uau! O que houve?" Perguntou, exibindo um sorriso ansioso e um olhar que era preocupado e confuso. Não conseguia compreender porque ela estava se comportando daquela forma.

"Shhh..." Ouviu-a sussurrar, o hálito fresco roçando-lhe o queixo e os lábios e fazendo-lhe sentir cócegas. "Não fale... apenas... não fale..." As mãos dela se firmaram em sua nuca, dedos afundando em seu cabelo, e ela o beijou de novo. "Por favor, Hans... eu... eu preciso disso... por favor, apenas não fale mais."

"Claro... o que você quiser."

Foi fácil ceder ao pedido de Elsa, relaxar sob o toque exigente e firme dela e se perder um pouco no prazer que aquele beijo lhe proporcionava, ainda mais quando a moça parecia colocar tanta energia e tanto vigor no gesto íntimo. Era algo bom, gostoso, ardente e muito excitante, e Hans já havia até começado a responder o beijo com aquele mesmo entusiasmo demonstrado por Elsa quando, de repente, o rapaz percebeu que havia ali algo além de desejo e furor.

Algo que não era bom.

Todavia, antes que Hans pudesse identificar o que exatamente era o 'algo ruim' que sentira, Elsa rompeu o beijo e o abraçou, afundando o rosto no peito dele. Sentiu as mãos dela em suas costas, os dedos delicados percorrendo toda a extensão da sua coluna e fazendo seus músculos dorsais se retesarem de leve.

"Nós teríamos sido ótimos juntos."

A princípio, não compreendeu totalmente as palavras dela, mas sentiu algo estranho brotar em seu íntimo; algo que era frio e, ao mesmo tempo, vazio.

Não gostou da sensação.

"Elsa...?"

Ela ergueu a cabeça e olhou para ele, um sorriso tenso presente naqueles lábios bonitos. "Mas nós não podemos ficar juntos, não é? Não, não podemos. Não iria dar certo... nunca daria certo." Ela fez uma pausa, e ele fechou os olhos e suspirou, abaixando o rosto e descansando a testa sobre a testa dela. "Há todo esse... ...passado entre a gente, Hans. E ele iria interferir. Sempre iria interferir."

"Eu sei." O rapaz conseguiu responder, sentindo o peito apertar e a garganta constringir tanto que ele temia sufocar a qualquer momento. Precisava concordar com ela, porque havia mesmo um passado entre os dois. Um maldito passado que era culpa dele, e dele apenas. "Eu sei."

"Eu gostaria muito de tê-lo conhecido sob diferentes circunstâncias..." O cantinho dos lábios dela tremeram um pouco e os olhos azuis brilharam. "...mas não o conheci." Devagar, a moça começou a desfazer o abraço e pousou uma mão de leve no rosto Hans. E fechou os olhos, esticando-se um pouco para beijar-lhe a bochecha. "Mas, apesar de tudo, eu quero que saiba que... que foi muito bom enquanto durou. Muito bom mesmo. E obrigada... por tudo."

Elsa se afastou dele, e Hans, ao vê-la se distanciar, fez menção de segui-la, de ir até ela, mas não conseguiu. Confuso por sua súbita e inesperada falta de mobilidade, piscou repetidas vezes e olhou para os próprios pés, apenas para ver que suas pernas estavam firmemente atadas por grossas correntes de gelo que o prendiam do tornozelo até o joelho.

Nem sequer percebera quando ela fizera aquilo.

"Elsa..." Havia alguma coisa na voz dele que nem ele mesmo conseguia identificar. Um pouco de torpor e incredulidade, talvez.

E decepção.

"Por que fez isso?"

"Sinto muito." Ela disse por cima do ombro, mas, depois, teve ao menos a decência de se virar para encará-lo nos olhos.

"Por quê, Elsa?"

"Tem algo que preciso fazer." Ela tentou parecer firme, mas foi traída pelos seus olhos, que estavam imensos e repletos de pavor, e que se desviaram do rosto dele e fitaram, rapidamente, a janela do quarto.

Hans seguiu o olhar dela.

"E fazer o quê, Elsa? Se atirar nessa tempestade? É isso o que precisa tanto fazer?" Ele não queria soar zangado, mas estava tão furioso que mal podia se controlar. Sentia-se traído e enganado e muito, muito desapontado. Não esperava que ela o ludibriasse dessa forma, mas foi exatamente o que ela fez. "Foi por isso que fez isso comigo? Para que eu não pudesse impedi-la de se matar?"

As costas de Elsa se enrijeceram e o rosto dela ficou mais pálido do que já estava. Quando respondeu, entretanto, sua voz soou resignada.

"Mais cedo ou mais tarde, a hora de nos despedirmos iria chegar."

Hans balançou a cabeça, sua raiva começando a dar lugar ao medo. "Não precisa ser assim, você sabe que não precisa." Ele engoliu em seco e apontou para as pernas atadas. "Me solte, por favor. Me solte agora, Elsa."

"Eu sinto muito." O suspiro que escapou dos lábios dela foi tão sofrido que Hans sentiu aquela dor latejar dentro do seu próprio coração. Sem ter mais coragem de encará-lo, Elsa deu meia volta e seguiu em direção à porta. "Sinto muito mesmo."

"Elsa!" Ele gritou e estendeu o braço na direção dela, numa tentativa louca e irracional de alcançá-la; tudo o que conseguiu, no entanto, foi se desequilibrar e cair no chão, um baque surdo medonho reverberando pelo quarto.

"Hans!" Elsa ouviu o barulho do corpo dele caindo e batendo contra o piso, e foi instintiva a forma como os olhos dela se arregalaram e se encheram de horror. Deu alguns passos rápidos em direção a Hans, mas parou antes de chegar na metade do caminho, cerrando os punhos e prendendo a respiração, controlando o seu corpo e obrigando-se a não se aproximar mais. Dando um passo para trás, começou a recuar.

"Por favor." Ele implorou, em pânico. Sem tirar os olhos de cima da Rainha, conseguiu se firmar sobre os cotovelos e começou a rastejar até ela. "Você não pode fazer isso. Você não pode lutar contra essa tempestade, Elsa."

"Mas eu posso tentar, e isso é mais do que fiz até agora."

Ela deu mais um passo para trás e Hans balançou a cabeça, rastejando um pouco mais e fazendo uma careta quando colocou muito peso sobre o braço ferido. Ao vê-la parar ao lado da porta, socou o chão com as costas do punho. "Por favor, não vá! Não faça isso..."

"Sinto muito." Desculpou-se pelo que deveria ser a milésima vez, e uma lágrima escorreu pelo rosto dela. "Sinto muito de verdade, mas isso é para o seu próprio bem." Ela tirou a chave da porta e a abriu, encarando Hans pela última vez. Tentou arrazoar com ele, provar que o que ela estava fazendo tinha sentido. Só que, para ele, não tinha sentido algum. "Por favor, não tente fugir. Você estará seguro aqui e... ...e o gelo vai derreter aos poucos, você vai ver. Logo estará livre."

E então, Hans sentiu tudo a sua volta parar: o tempo, o som, os seus pensamentos, a sua própria respiração. Como se tudo tivesse, de repente, congelado.

A cena que se desenrolava, para ele, era como um déjà vu bizarro e horrendo, só que, dessa vez, não era uma fraca e impotente Anna quem estava caída no chão, revirando-se em desespero e agonia. Esse alguém era ele! Da mesma forma que não era ele agora quem tinha o total controle da situação, visto que essa pessoa era Elsa.

Mas que ótimo dia para ser assombrado pelos erros do passado!

"Adeus, Hans." Ela fechou a porta sem ao menos esperar por uma resposta dele, e o rapaz bufou e rugiu e gritou quando ouviu o barulho suave da chave rodando na fechadura pelo lado de fora.

"Volte aqui, Elsa! Não faça isso! Essa não é a solução! Volte!" Vociferou, socando o chão e encarando a porta com olhos esbugalhados.

E o que ele esperava com aquilo? Que a porta abrisse? Que Elsa voltasse? Que ela finalmente percebesse que estava cometendo um erro?

Tolo...

Ela não iria voltar.

"Por favor, não tente fugir. Você estará seguro aqui e... ...e o gelo vai derreter aos poucos, você vai ver. Logo estará livre."

Não, ela não iria voltar. Mas ele iria tentar sim fugir e, depois que conseguisse escapar daquele quarto, uma tempestade de vento seria o menor dos problemas que Elsa precisaria enfrentar.

~ Frozen ~

"Volte aqui, Elsa! Não faça isso! Essa não é a solução! Volte!"

Elsa jogou a chave da porta no chão e se recostou contra a parede do corredor, conseguindo escutar muito bem a voz abafada de Hans. Algumas lágrimas escorreram pelo seu rosto e ela secou todas com rapidez, esfregando o rosto com as mãos trêmulas. Por um momento, sentiu-se fraquejar e olhou para a chave jogada no chão, mas logo balançou a cabeça e se obrigou a afastar qualquer pensamento que pudesse convencê-la a voltar atrás em suas decisões.

A sobrevivência de Arendelle dependia dela... e, por isso, ela não poderia voltar atrás.

Terminando de secar o rosto, inspirou profundamente e estufou o peito, seguindo pelo corredor, um passo firme após outro. Desceu as escadas até o salão e ficou mais aliviada ao notar que o primeiro piso do castelo estava mais vazio e que muitos moradores já tinham sido realocados para os andares superiores. Avistando o Duque de Grimstad, aproximou-se dele.

"Duque!" Exclamou, erguendo o queixo e estreitando os olhos. "Preciso que me faça um favor. Na verdade, eu lhe darei uma ordem, e espero que siga a risca o que lhe mandarei fazer."

"Majestade, o que pretende...?"

"Eu posso salvar Arendelle, General." Aquilo fez o Duque arregalar os olhos. "Sei o que precisa ser feito para salvar o reino, mas não conseguirei fazê-lo sem a sua ajuda. Posso contar com você?" Ele fez uma mesura curta, porém respeitosa, e gesticulou para que ela prosseguisse. "Quando eu chegar no pátio, preciso que tranque o portão principal e que o deixe trancado até segunda ordem. O acesso ao pátio ficará proibido a qualquer morador de Arendelle. Melhor, o acesso a todo o primeiro piso do castelo será proibido."

O militar engoliu em seco. "Tem certeza sobre isso, alteza? Pretende mesmo encarar esse vendaval? Sozinha?"

"Com certeza. Mas não se preocupe comigo, preocupe-se apenas com o povo de Arendelle."

"Se é isso o que quer."

"Sim, é isso o que eu quero. Não sei se o vento vai piorar, por isso quero todos afastados das janelas. E, em hipótese alguma... em hipótese alguma eu..." A garganta dela, de repente, travou, e foi muito difícil continuar aquela frase.

"Rainha Elsa...?"

"Eu não precisarei de ajuda. Logo, é terminantemente proibido que qualquer pessoa deixe o castelo para ir ao pátio tentar me ajudar, estamos entendidos? Não quero ninguém se arriscando à toa por mim, muito menos bancando o herói."

"E por acaso acha isso sensato?"

Ela o encarou com firmeza, seus olhos azuis sérios e decididos. "Se é sensato ou não, não vem ao caso. Mas essa é a minha decisão, essa é a minha vontade e, como Rainha de Arendelle, ordeno que siga a risca a minha vontade, General. Estamos entendidos?"

"Estamos, embora devo confessar que será contra a minha vontade que a obedecerei, majestade."

"Que assim seja." A Rainha, então, suspirou fundo e se aproximou do militar, seu rosto se suavizando, e seus olhos mais calmos. "Fernand..." Sentiu ele retesar quando tocou-lhe o braço e o chamou pelo primeiro nome. Nunca se referia ao Duque pelo primeiro nome. "...se algo me acontecer, quero que fique no comando de Arendelle até a minha irmã retornar de viagem."

"Elsa... não diga isso."

"Por favor." Ela suplicou. "Por favor, apenas diga que sim."

O homem abaixou a cabeça e cobriu o rosto com as mãos. "Está bem." Murmurou e balançou a cabeça. "E que Deus me perdoe por permitir que você cometa a loucura que está prestes a cometer, seja ela qual for."

Elsa teve vontade de acalmá-lo, de tranquilizá-lo dizendo que tudo ficaria bem. Mas não conseguiu. Ao invés disso, apenas o agradeceu.

"Obrigada, Fernand."

"Não me agradeça." Ele respondeu com pesar, mas logo em seguida ergueu o rosto e se forçou a sorrir. "E, Elsa... não sei que loucura tem em mente, mas quero que saiba que desejo-lhe sorte."

A Rainha também sorriu – um sorriso forçado e triste, mas um sorriso de qualquer forma – e lhe deu as costas, seguindo com rapidez em direção ao portão que a levaria ao pátio. Quando o alcançou, viu que ainda havia um cavalariço lá fora tentando controlar três cavalos bem agitados, um deles sendo justamente a sua égua de montaria.

"Geada!" Exclamou, o vento forte carregando suas palavras. Trançando o cabelo, prendeu-o no alto da cabeça com uma passadeira dourada e correu até o cavalariço. "Eu vou pegar essa garota emprestada, está bem?" Foi preciso gritar para que o rapaz a escutasse, já que o vento estava forte demais e fazia muito barulho. O cavalariço, um garoto loiro muito magrinho, se assustou um pouco ao ver a Rainha ali fora, mas entregou a ela as rédeas da égua, que relinchou feliz ao ver sua dona. "Há mais alguém por aqui além de você?"

"Não, só eu!" Ele gritou em resposta, se esforçando para segurar as rédeas dos outros dois cavalos. "E esses são os últimos cavalos!"

Elsa acenou em resposta e apontou para o portão. "Então se apresse! Entre logo! O Duque vai trancar o portão em breve!"

"Sim, senhora, majestade!"

A Rainha o ajudou a guiar os dois animais – que estavam bem assustados, por sinal – até os portões do castelo e, quando viu que todos estavam em segurança, montou em Geada e se afastou um pouco da entrada. O jovem cavalariço lançou-lhe um olhar preocupado, e Elsa o respondeu com um que era pura determinação.

"Duque!" Gritou contra o vento. "Feche os portões!"

E, como havia comandado, os portões foram fechados.

Com o coração batendo na garganta e a respiração forte e pausada, Elsa fez Geada dar meia volta, ficando de frente para o imenso muro que rodeava o castelo – e que era, agora, tudo o que havia entre Arendelle e o mar indômito.

"Agora, garota, estamos por nossa conta."

~ Frozen ~

"Espere até eu pôr minhas mãos em você, Elsa! Ah, sim! Você vai se ver comigo..."

Hans resmungou e gemeu e rosnou e cuspiu. Ainda tinha as pernas fortemente atadas pelas correntes de gelo e esforçava-se para rastejar pelo chão como se fosse um animal. Vez ou outra era obrigado a colocar um pouco o peso do corpo sobre o braço ferido, e aquilo o fazia contorcer-se em dor.

Rangia os dentes, fechava os olhos e suava frio.

E rastejava um pouco mais.

"Sua garota teimosa, onde estava com a cabeça...?"

Havia uma lareira no canto do quarto, e era lá que ele queria chegar. Tinha certeza de que as correntes derreteriam rapidamente se conseguisse acender o fogo e, assim, já teria resolvido metade do problema.

A outra metade, ou, mais especificamente, como faria para sair do quarto, ainda permanecia um grande mistério para o ruivo, mas ele não se preocuparia com isso pelo momento.

Já tinha coisas demais com as quais se preocupar.

"Se essa tempestade não a matar, Elsa, eu certamente o farei!" Cuspiu as palavras, tamanha era a raiva que sentia, e se arrastou mais, ofegando e suando bastante pelo caminho. E fechou os olhos, encostando a testa no chão e sentindo a raiva ceder lugar ao medo, que fez suas entranhas se revirarem. "Oh, por favor, não morra! Faça a estupidez que tiver de fazer, mas não morra!"

Foi quando que, de repente, ouviu alguma coisa e olhou para trás, curioso e muito ansioso.

Tinha certeza de que escutara alguém mexendo na porta do quarto.

"Senhor Hans! Mas o diabos lhe aconteceu?"

"Gerda!" Ele suspirou e riu e quase chorou de emoção e alívio quando viu a Governanta abrir a porta. "Minha heroína!"

~ Frozen ~

Não estava dando certo.

Nada do que fazia estava dando certo!

A princípio, Elsa julgara que seria uma boa ideia usar a sua magia para fortalecer a muralha do castelo, todavia, agora, compreendia com pesar que aquela ideia não tinha sido tão boa assim. Sabia, claro, que talvez não teria forças suficientes para revestir o muro todo com gelo, por isso, se encarregou de apenas vedar os buracos existentes e reforçar as partes mais fracas, mas aquilo de nada estava adiantando.

Apesar dos seus esforços, o vento permanecia forte e, do outro lado do muro, o mar continuava indômito, com suas ondas monstruosas e ferozes que, vez ou outra, venciam a altura da grande muralha, surpreendendo tanto Elsa quanto Geada, e obrigando-as a recuar com rapidez.

Infelizmente, elas nem sempre eram tão rápidas assim, e a força da água as atingia, o impacto inesperado quase derrubando a Rainha de sua montaria inúmeras vezes.

De repente, o vento pareceu se intensificar, ficando forte o suficiente para arrastar alguns galhos de árvores e os lançar de encontro a Elsa. Com um puxão forte nas rédeas, fez Geada sair do caminho dos galhos, mas, mesmo assim, a montaria acabou por se assustar um pouco e emitiu um guincho horrível, batendo os cascos no chão.

"Calma! Calma, garota! Está tudo bem!" Elsa tentou tranquilizá-la, debruçando-se sobre o animal e dando tapinhas de leve em sua lateral. "Calma, Geada. Não vou deixar nada de ruim lhe acontecer, garota!"

A égua ainda relinchou um pouco e bufou também, mas não estava mais tão agitada quanto antes, e um sorriso tremido brotou nos lábios de Elsa ao perceber que ela estava se acalmando.

"Isso... isso, Gê, muito bom..." Estava ficando sem fôlego já, e as palavras tornavam-se cada vez mais e mais difíceis de serem articuladas e pronunciadas; assim como estava cada vez mais difícil de respirar.

Engraçado... nunca imaginou que fosse capaz sentir falta de ar no meio de tanto vento.

"Estou cansando rápido demais." Comentou, baixinho, para si mesma, olhando para o muro remendado com placas de gelo.

Sim, ela estava cansada – exausta, na verdade – e a impressão que tinha era que tudo o que havia feito até então não adiantara de nada. Remendar o muro e fortalecê-lo com gelo não resolvera o seu problema e só servira para duas coisas: deixá-la mais cansada e fazê-la perder um tempo precioso. Analisando a situação com mais cuidado, percebeu com uma enorme tristeza que havia feito a mesma coisa que o Duque; ela usando a magia para reforçar a muralha, e ele, os pesados sacos de areia.

Mas remendar e reforçar o muro não salvaria Arendelle.

Pois agora, para Elsa, estava mais do que claro que só havia uma única maneira de salvar Arendelle, e essa maneira era extirpar o mal pela raiz.

Para salvar o reino, ela precisava dar fim naquela tempestade.

"Você não pode lutar contra essa tempestade, Elsa."

Não, ela sabia que não poderia lutar contra aquela tempestade. Não seria capaz de controlar nem o vento e nem a água do mar, porque nem o vento e nem a água eram os seus elementos. No entanto, ela poderia mudar um pouco aquela situação, não poderia? Se conseguisse, talvez, se aproveitar daquela tempestade e transformá-la em alguma coisa associada a gelo e neve, como uma grande nevasca, poderia, então, controlá-la? Seria ela capaz de brincar de tal forma com as forças da Natureza? Teria forças suficientes para começar tal feito? E, se tivesse, teria, então, forças suficientes para terminar o que havia começado? Ou deixaria Arendelle sucumbir ao poder da nevasca criada por ela?

Por um momento, sentiu-se fraquejar, e a dúvida cresceu em seu coração, mas respirou fundo e se obrigou a afastar todo o tipo de pensamento que a fizesse vacilar, pois não poderia se dar ao luxo de ter dúvida.

Naquele momento, a dúvida era fatal.

"Você não pode lutar contra essa tempestade, Elsa."

"Mas eu posso tentar..."

"Não. 'Tentar' não é uma opção para mim." Ela murmurou, desmontando de Geada e olhando para o céu. "Eu tenho que conseguir. E eu vou conseguir." Estendeu os braços bem acima da cabeça e fechou os olhos, concentrando-se somente na sua magia. Sentiu a temperatura ao seu redor mudar, cair, despencar, e sentiu um frio devastador a envolver. De repente, percebeu que estava gelada até os ossos, tanto que chegava a doer, mas não poderia deixar aquilo a incomodar.

Não poderia deixar que nada a incomodasse.

"Pois é, Geada." Disse, quase que ofegante, mas com uma sombra de um sorriso nos lábios. "Pelo visto teremos mais um inverno fora de época aqui em Arendelle."