07 de maio de 2011 – Segunda despedida
20 de abril de 2011
(Rachel)
Na semana seguinte do encontro com Shelby, na escola, estava como um trapo ambulante, remoendo tudo que tinha dado errado na minha vida. Tive vários solos negados pelo professor Schue, fui rejeitada por diretores de teatro de bairro, montagens amadoras, por todos os namorados que tive (Jesse, Finn e Noah), pela minha própria mãe. Tinha ânsias de vômito em pensar que a única pessoa que me desejava era Jewfro... ou melhor... Jacob Ben Israel. Era uma maldição?
Sei que para os outros integrantes do coral, inclusive para o professor Schue, o problema da minha depressão era apenas um coração quebrado. Não os culpo. Apenas os bons observadores conseguem enxergar o quadro todo e, para ser honesta, quem naquela escola tinha essa sensibilidade? Apenas Santana estava sabendo de tudo e ela se recusava a dizer qualquer palavra que fosse a respeito. Desde que saímos de Carmel naquele dia, as palavras "Shelby" e "mãe" passaram a ser proibidas entre nós. Era o jeito dela.
No intervalo entre o terceiro e o quarto período, recebi o telefone de Jesse para encontrá-lo do estacionamento da escola. Corri esperançosa para encontrá-lo, afinal, uma coisa boa deveria acontecer na minha vida depois da montanha russa emocional. Como fui ingênua ao pensar que Jesse faria as coisas melhorarem. Tudo que ele fez foi me atrair a uma tocaia em que o time principal do Vocal Adrenalina fez de mim alvo de uma avalanche de ovos. Meu ex-namorado ainda aplicou o golpe de misericórdia bem no meio da minha testa.
Todos foram embora satisfeitos com o triunfo de abalar psicologicamente o membro mais destacado da principal equipe adversária. E eu lá, parada, melecada de ovo, lutando para não chorar. Não voltaria para a escola só para passar por mais humilhação. Seria um regozijo para aquelas pessoas, na realidade. Olhei o horário. Papai estava em classe. Não tinha certeza quanto ao meu pai. Acredito que seria a folga após uma maratona de plantões. Por um segundo, pensei em ligar para ele. Pensei bem: meu pai ficaria tão irritado que seria capaz de processar Jesse, Shelby e toda Carmel. Melhor não.
Então mandei a mensagem para a única pessoa que restou:
"Jesse me machucou. Estou no estacionamento" – eu
Nunca vi Santana atender um pedido meu tão rápido. Quando ela me viu cobertas de ovos, chorando, não disse uma palavra. Não precisava. Abriu o porta-malas e pegou alguns plásticos e sacolas. Num trabalho rápido, forrou o banco do passageiro.
"Quem foi?" – perguntou séria.
"Vocal Adrenalina."
"Quer: Jesse!" – não respondi e Santana respirou fundo, pronta para socar o que visse pela frente, de preferência alguém do grupo adversário – "Só vou te deixar em casa, ok? Tenho que voltar logo" – ela falou naquele tom de voz sério de quando estava planejando fazer alguma coisa, mas não queria ser descoberta.
"Santy, não vá fazer besteira! Não vale à pena."
"Slushies são uma coisa. Uma equipe inteira se reunir para jogar ovos tem outra conotação".
"Eles retaliaram em cima de mim porque Noah e Finn furaram os pneus dos carros deles. Eu sou a capitã do coral, principal solista e ex-namorada de Jesse. Natural que eles tenham escolhido a mim para se vingarem".
"Esse papo não me convence".
"Olha aqui, Santana! Você não vai fazer nada!"
"Embora eu quisesse muito, Ray, não poderia! Não hoje. A competição nacional das cheerios é neste fim de semana. A treinadora Sue está tirando a nossa pele. Em especial a minha. Infelizmente eu não tenho como fazer nada, mas acho que você deveria contar o que aconteceu para os meninos do coral. Isso não dá para ficar impune".
"Não vou contar para ninguém! Passar por mais uma humilhação?"
"Se você não contar, eu conto e aumento a história. Isso está passando dos limites. Primeiro aquele afronte no auditório, depois o estrago na nossa sala e agora os ovos?"
"Ok, mas vai ser do meu jeito".
"Jesse precisa aprender. Nunca fui com a cara daquele arrogante prepotente".
Santana parou o carro em frente a nossa casa e eu saltei. Acreditei que ela não faria nada para revidar e secretamente agradeci por Sue Silvester estar arrancando a pele das cherrios. Santana não poderia se meter em confusão com as nacionais tão próximas. Jamais arriscaria ser suspensa depois de tudo que fez para ser a capitã do time.
O carro do meu pai estava em frente à garagem. Sinal de que deveria entrar em casa com o máximo de cuidado para não cruzar com ele. O barulho da água vindo do quintal indicou que ele talvez pudesse estar aproveitando a piscina. Subi as escadas com calma e entrei no banheiro, fiz o meu máximo para tirar o cheiro de ovo do meu cabelo, sequei-o, fui para o meu quarto, coloquei uma roupa velha e deitei na cama para curtir toda a minha miséria.
"Rachel? Hija?" – Meu pai entrou no quarto – "Por que está aqui a essa hora?"
"Santana me trajo" – respondi em espanhol. Ele gostava quando respondia na língua nativa dele sem que Santana estivesse por perto.
"Está enferma?" – sentou-se ao lado da minha cama e passou a mão no meu rosto para ver se estava com febre.
"Estoy bien... sólo um poco triste."
Ele se levantou e dois minutos reapareceu no meu quarto com um copo d'água e o colocou em cima do meu criado mudo.
"Gustaria hablar?"
"Ahora no."
"Me gustaría pedir una pizza... pero se puede preparar un delicioso almuerzo para ti. ¿Qué tal una ensalada verde con tomates, zanahoria y la piña picada y sazonada con salsa de mostaza y miel? Como toque final, de postre, bananas caramelizadas pueden hacer aquellos que usted ama."
"Seria muy bueno! Gracias!" – açúcar era tudo que eu precisava naquele instante. Sorte ter um pai médico e metido a gourmet.
O almoço beirou a perfeição. Ficamos os dois na bancada da cozinha saboreando a comida e conversando sobre pequenas trivialidades. Ele contou que tiraria três semanas de folga do hospital para que a nossa família pudesse viajar nas férias de verão. Meus pais cogitavam a Europa, talvez Londres. Ir para algum lugar da América Latina também nunca estava descartado em nossa família. Era sempre uma opção barata de se passar as férias e se sentir como um rei.
A lembrança mais forte que tenho na última vez em que estivemos no Chile, tirando o rasgo no pé por culpa de Santana, foi quando estávamos no sítio do primo de meu pai, numa vinícola a beira dos Andes onde a gente tomava caldos e vinhos enquanto ouvíamos Mercedes Sosa cantar "Gracias a La Vida" na varanda da casa enquanto abuela contava pela enésima vez como conheceu Violeta Parra. Aquela imagem casava perfeitamente com o meu estado emocional. Olhei com mais atenção para o meu pai. Ele parecia cansado também.
"Desculpe por ter ido procurar Shelby."
"Não a culpo por nada, mi estrella. Entendo que há coisas que eu e seu pai não conseguimos suprir, por mais que a gente tente."
"Não é verdade. Vocês fazem um trabalho maravilhoso. Eu não poderia pedir por pais melhores."
"Obrigado" – ele disse piscando para mim num perfeito charme latino.
"O senhor falou com ela depois disso?"
"Eu não deveria te contar, mas acho que é madura suficiente para entender certas coisas. Sim, eu e seu pai e nosso advogado nos encontramos com Shelby. Hiram estava disposto a processá-la por quebra de contrato..."
"Não pai!" – entrei em pânico.
"Posso terminar de falar?" – disse austero e eu silenciei – "Decidimos não fazer isso justamente por causa desse tipo de reação que teve agora. Levamos em consideração de que você não gostaria. Não tenho certeza quanto a Santana. E querer mantê-la longe de vocês também não fazia mais sentido. Então achamos melhor usar o bom-senso. Shelby foi autorizada a visitar as duas desde que vocês queiram e ela avise antes."
"Não acho que Shelby vá querer nos visitar."
"Shelby sempre foi um tanto confusa quanto ao que deseja."
"Como a conheceu?" – agora que eu sabia quem era a minha mãe biológica, achei por bem saber de mais detalhes sobre esta parte da história.
"Foi por causa da clínica de fertilização em Cleveland. Uma funcionária nos mostrou o arquivo de Shelby com currículo e foto, e decidimos marcar um encontro. Mas em vez de ser no escritório, como fazia parte da política da clínica, conseguimos burlar as regras e fomos até a lanchonete em que ela trabalhava. Shelby tinha 20 anos na época. Era uma jovem sonhadora, aparentemente doce. Em 15 minutos de conversa, percebemos que não era uma dessas coitadas. Era muito inteligente, interessante e esperta. Demais até. Hiram não gostou dela, mas eu insisti."
"Por quê?"
"Shelby era linda. Ainda é... Ela tinha um brilho nos olhos diferente. Mais ou menos como os que você tem quando fala do sonho de ir a Nova York."
"Então o papo de pesquisa minuciosa de uma mulher perfeita baseado em inteligência, talento e beleza..."
"Continua sendo verdade. Shelby é tudo isso. Olha só as filhas que ela gerou para nós! Você e Santana são lindas e perfeitas."
"Isso é engraçado e estranho."
"O que é engraçado e estranho?"
"Vendo o senhor falar assim dela, mesmo depois do que ela fez, parece até um apaixonado."
"Apaixonado?" – meu pai deu uma dessas risadas irônicas e nervosas de quando ele é surpreendido – "Não é isso, Rachel."
"Pai..." – procurei ser cautelosa – "Posso te fazer uma pergunta sobre uma situação hipotética?"
"Tenho certeza que vou me arrepender, mas sim, pode."
"Você trocaria papai por uma mulher?"
"Rachel, eu não sou um aventureiro, mas se um dia o meu casamento chegar ao ponto de não poder mais ser reparado, se eu encontrar outro alguém bom para mim, e este alguém for uma mulher. Por que não? A gente precisa continuar vivendo."
"Pai..."
"O quê?"
"O seu casamento já precisou ser reparado?"
"Rachel..." – ele ficou desconfortável. Era melhor não insistir.
"Deixa para lá."
"Relacionamentos são complicados, mesmo os mais duradouros. O que posso te garantir, mi estrella, é que seu pai e eu sempre colocamos você e sua irmã em primeiro lugar. Sempre vamos lutar para que a nossa família permaneça uma unidade sólida."
Papai chegou e nós três conversamos um pouco mais sobre coisas bobas enquanto assistirmos televisão juntos. Papai estava interessado em saber como estavam os preparativos para as regionais e se eu sabia que música ia cantar. Ficou empolgado com a minha última apresentação. Santana entrou em casa ainda molhada de suor e com o humor insuportável. Os treinos foram tensos. Era o primeiro ano que competiria como capitã do esquadrão e havia mesmo muita responsabilidade nos ombros dela. Quanto a mim? Simplesmente fui dormir ainda me sentindo miserável, ouvindo o irritante latir do cachorro do vizinho por causa de alguma bobagem. Peguei-me desejando que minha irmã poderia ter sido bem-sucedida na operação "vodca no cachorro" e tive pesadelos com frangos zumbis.
No outro dia eu contei o que aconteceu para o coral e professor Schue teve a melhor idéia de vingança da face da Terra: cantamos um funk e mostramos que não éramos autobots. Portanto, éramos superiores.
...
07 de maio de 2011
Santana, Brittany, Kurt e as cheerios venceram o campeonato nacional. Se isso não serviu como alívio no coral, ao menos o ambiente na minha casa ficou muito melhor. Agora Santana só estava irritada por Sue Sylvester ter declarado que acabaria conosco nas regionais. Todos nós estávamos. Nem mesmo a nossa incrível apresentação particular para a Carmel nos animou por muito tempo. Para a maioria dos colegas de coral, o que doía era a perda de um momento prazeroso, o fim de amizades e camaradagens inusitadas feitas ao longo do ano. Eu perderia uma chance a mais de fazer carreira, um meio de mostrar o meu talento para grandes platéias. Então uma constatação ainda pior me abateu: perderia os únicos amigos que fiz em anos.
Minha irmã disse uma vez que eu namorava porque são sabia conquistar amigos de outra forma. Foi um comentário ácido que fez pouco depois que ela soube que quase perdi a minha virgindade com Jesse. Não era verdade. É que temos perspectivas diferentes sobre o assunto. Para Santana, namorar é se jogar na cama em bases regulares. Para mim, namorar é a amizade e o companheirismo mais profundo, para só então vir a parte sexual. A amizade sempre vem em primeiro lugar, certo? Senão, Finn não seria mais aquele a me dar o maior incentivo mesmo que nós não estivéssemos mais juntos.
O coral me trouxe outras coisas importantes além de expor o meu enorme talento. É verdade que Kurt e eu éramos rivais, que Mercedes nunca falou propriamente comigo. Tina e Artie também não falavam comigo a não ser quando estávamos em grupo. Matt falava com Santana e eu só ficava junto. Não tinha certeza se Mike sabia sequer falar, embora seja grande admiradora das habilidades dele para a dança. As cheerios não contavam. Santana é minha irmã, eu conheço Brittany a minha vida toda e Quinn... pelo menos ela deixou de me torturar, o que foi um grande avanço no meu caderno. Noah deixou de me enxergar apenas como um alvo para arremessos de slushies ou a criatura incômoda que ele esbarrava sempre que chegava na minha casa, sem os meus pais presentes, para fazer sexo com a minha irmã.
De todos os meus "amigos", Finn era aquele que estava presente nos momentos cruciais. Foi ele quem me abriu os olhos e acreditar no potencial do nosso coral. Éramos poderosos juntos e poderíamos passar por cima de Sue Sylvester e do Vocal Adrenalina se realmente acreditássemos e nosso potencial. O professor Schue entrou em sintonia depois, mas quem levantou o meu ânimo foi Finn. No ensaio na escola, reconfiguramos "Don't Stop Belivin", o nosso clássico particular. Eu iniciaria o dueto com Finn, Santana e Noah passaram a fazer a segunda entrada, Artie reforçava o os vocais de Finn e Mercedes fazia as linhas finais. Foi um orgulho ver minha irmã pegar suas primeiras linhas de solo em uma competição importante como as regionais. Torcia para que isso fosse uma constante, desde que eu continue a ser a estrela.
Finn e eu ainda precisávamos ajustar "Faithfully" e por isso eu o convidei para fazermos alguns ensaios extras lá em casa, no salão da casa da piscina para não incomodar ninguém e por meu quarto, apesar do isolamento acústico, não é espaçoso o suficiente para praticarmos a dança. E deus sabe o quanto Finn precisava de vários ensaios extras nessa parte de coordenação com as pernas.
"Uau!" – ele disse assim que entrou lá em casa e se deparou com papai lendo o jornal na sala – "tinha me esquecido do quanto a sua casa é legal."
"Boa noite meu jovem" – papai tirou os óculos de leitura – "faz algum tempo que não o vejo. Seja bem-vindo."
"Obrigado senhor... Berry-Lopez."
"Hiram" – papai sorriu no canto do rosto, não ligando muito com o embaraço do meu amigo, ou seria namorado? – "Vão ensaiar na casa da piscina?"
"Sim" – respondi depressa – "As regionais são amanhã e não temos tempo a perder."
"Uau!" – Finn distraiu-se mais um pouco no ambiente – "não me lembrava daquela televisão gigante daquela sala. Aposto que é animal jogar Halo ali."
"Halo?" – papai ficou intrigado.
"O jogo Halo, senhor Berry... Hiram."
"Oh, não entendo muito de jogos eletrônicos. Mas as meninas brincam de wii fit às vezes."
"E Mario Kart" – Santana saiu da cozinha ainda mastigando pão com geléia e sentou-se ao lado de papai. Na certa eles iriam começar a ver mais um documentário sem-sal – "Então Finn... voltou as boas com a minha irmãzinha?"
"Eu... hum..."
"Finn e eu estamos nos acertando e isso definitivamente não é da sua conta."
"Meninas!" – papai suspirou um pouco mais alto – "Já não está muito tarde para as duas se confrontarem? Rachel, porque você e Finn não vão ensaiar logo? Já são seis horas e acredito que duas horas será tempo suficiente para os dois praticarem até a perfeição. E Santana, a senhorita não tinha feito um acordo comigo?"
Eu não sei de que acordo papai estava falando, mas pela expressão da minha irmã era algo sério. Claro que ia fazer de tudo para descobrir o que era. Mas depois. Tinha outras urgências a tratar. Puxei Finn em direção ao quintal porque não iria perder o meu tempo precioso com minha curiosidade.
"Finn e eu estaremos na casa da piscina, caso precisem."
O ensaio foi perfeito, como sempre. Havia um tempo que não fazia duetos com Finn, mas não perdemos a sintonia. Primeiro ensaiamos com o playback. Depois aprimoramos no piano, para atingir as notas com perfeição. Eu tinha um pouco de técnica como instrumentista o que era útil em ensaios sem profissionais. Dentro de casa, papai era o verdadeiro pianista da família. Ou, pelo menos, é quem melhor dominava o instrumento. Bubbee era professora de piano clássico. Ensinava crianças de famílias ricas enquanto zaide trabalhava como operário numa grande fábrica de tecido em Nova York. Antes disso, ela ajudava o pai dela a tocar em festas junto com bandas de jazz. Foi assim que eles construíram uma pequena fortuna. Papai contava que bubbee o obrigava a praticar no mínimo três horas todos os dias até quando ele fez 13 anos. É a idade que a pessoa torna-se responsável por suas próprias ações de acordo com a cultura judaica.
Papai largou o piano por muitos anos, para desgosto da bubbee. Ele disse que só voltou a fazer as pazes com o instrumento quando eu nasci. Por coincidência, foi nessa época que ele também voltou a falar com zaide desde quando saiu do armário para a família. O meu nascimento e de Santana ajudou o lado Berry em muitas coisas. Meus avós moram no subúrbio de Cleveland, numa casa bem maior do que a nossa. Construíram uma pequena fortuna quando decidiram arriscar a sorte em Ohio. A gente costumava celebrar o hanukkah todos os anos com eles e também os visitávamos esporadicamente. Apesar da maior distância, gostava da casa dos meus avós Berry. Zaide tinha a missão sobre a Terra de me estragar e de convencer Santana a seguir os passos dele. Bubbee era mais durona e seca, porém nunca nos negou ajuda quando precisamos.
"Rachel?" – Finn interrompeu meus pensamentos – "Você ficou longe. Está tudo bem?"
"Está sim. É que a minha vida familiar não anda fácil e a gente ainda tem todos os problemas do coral, você sabe, com Sue Sylvester no comitê julgador. Às vezes a minha mente divaga nas horas de concentração."
"Não se preocupe muito com essas coisas. Vai ficar tudo bem e eu estarei sempre aqui para te ajudar no que for necessário."
Finn sorriu de um jeito sincero. Ele tinha esse charme inocente, casto, que sempre me encantava. Houve um silêncio confortável antes de ele se aproximar e me beijar. Nossos lábios se tocaram e nos envolvemos na sensação prazerosa. Senti a língua dele passando pelos meus lábios, gentilmente pedindo permissão para entrar. Permiti. Era tão bom sentir os lábios deles nos meus. Era confortável, como sentar num sofá grande e dormir enquanto se assiste televisão.
"Rachel!" – nos separamos ao ouvir a voz de Santana – "Papai pediu para avisar que está na hora do nem-tão-Finnocence-assim se despedir. Temos todos de acordar cedo amanhã, não é mesmo? Além disso, papi chegou!"
Levei Finn até a velha caminhonete dele e me despedi com mais um beijo. Estávamos prontos para um relacionamento. Isso me deixava feliz.
Fiquei com insônia naquela noite. Tudo passava em minha mente ao mesmo tempo: as regionais, competir contra Vocal Adrenalina, contra Jesse e contra minha mãe, Sue Sylvester, o fim do coral caso a gente não avançasse às estaduais. Dormi apenas quatro horas e acordei como um trapo. Não falei com ninguém no café da manhã, e agi como se estivesse em piloto automático.
Santana e eu saímos com nosso carro para pegar Brittany e depois os vestidos na costureira. A confecção de nossas roupas atrasou e como capitã, coube a mim pegar a roupa de todo mundo cedinho antes de seguir viagem para Columbus. Finn e os outros integrantes do coral iriam de ônibus escolar junto com professor Schue e os garotos da banda. Combinamos de encontrar todos na porta do auditório da Ohio State University, onde aconteceria a competição. Era um lugar fácil de achar e eu tinha já memorizado percursos principal e alternativos no Google Maps caso o nosso GPS se danificasse por alguma terrível razão. Era sempre bom ficar precavido e diminuir a margem de erros e problemas.
Estava ansiosa para terminar tudo. Acreditava que Santana também. Foi a primeira vez que ela beijou Brittany na minha frente, assim, ciente da minha presença, e não disse uma palavra depois. As duas foram no banco da frente trocando carinhos ocasionais ao longo do trajeto. Eu teria achado a coisa mais adorável do mundo se não estivesse tão perdida em meus pensamentos enquanto observava os grandes prédios da cidade se aproximando no horizonte. Chegamos ao local primeiro que o resto do pessoal, mas isso estava previsto. Santana contatou Puck pelo celular. O nosso coral deveria chegar dentro de meia hora. Como a capitã registrada, eu tinha poder de reservar nossa sala de espera e camarins junto à organização do evento. Foi o que fiz para ir adiantando as coisas.
Novas Direções seria o segundo a se apresentar, por isso nos foi autorizado ocupar dois dos camarins imediatamente: um feminino e um masculino. Teríamos mais duas escolas entre a nossa apresentação e a do Vocal Adrenalina. A última era a high school que estava representando a cidade de Columbus. Pelo que estudei dos nossos concorrentes, nossa única ameaça era mesmo a Vocal Adrenalina. Estávamos falando da atual campeã nacional. O resto não representava ameaça. A competição era feita em duas partes. A primeira, no início da tarde, era mais rápida e servia para eliminar cinco das dez escolas concorrentes. A regra era apresentar um número mais tradicional, econômico em coreografias para um júri técnico. Escolhemos "Somebody to Love" para a primeira parte. A segunda parte, com as cinco escolas restantes, teria de ter números mais elaborados. O público pagante costumava chegar só para a última parte. Geralmente, apenas os pais e professores dos alunos é que compareciam nas eliminatórias.
"Os vestidos ficaram lindos! Por que a gente não pode usá-los para a competição da tarde?"
"Eles devem ser mostrados apenas para o grande momento, Britt" – Santana explicou.
"Isso estragaria a nossa surpresa" – disse arrumando as camisas azuis e as gravatas que usaríamos. Nós três, por exemplo, viemos de calça jeans e o All Star preto para otimizar alguns detalhes. Não tinha certeza quanto ao resto do coral.
"Meninas!" – Mercedes e Tina entraram no camarim, seguidas de Quinn, que parecia exausta por causa da gravidez avançada. Até onde sabia, ela poderia entrar em trabalho de parto a qualquer momento e isso me deixava sim preocupada com o estado de saúde dela. A primeira providência que tomei foi de fazê-la sentar – "Ainda bem que vocês já ocuparam o camarim! Hey, os vestidos chegaram inteiros" – Mercedes procurou na caixa o dela – "Uau! Isso ficou uma beleza."
"Uma pena que não teremos tempo para ajustes" – Tina analisou a peça que tinha o nome dela – "De qualquer forma, trouxe linha e agulha."
"Trouxeram as blusas e as gravatas?"
"Estão nas mochilas."
Tina abriu a dela e também Mercedes para tirar as roupas e pendurar dos cabides. A exceção seria Quinn, que se apresentaria de vestido azul marinho, do mesmo tom de nossas camisas, mas com a gravata e o all star. As coisas dela estavam juntas com as de Mercedes. Com a forma coletiva, arrumamos o camarim num instante, pendurando o restante das camisas, experimentando os vestidos para fazer pequenos ajustes. Tina e Kurt eram os mais habilidosos em pequenas costuras, mas não foi preciso fazer nada significativo. Um ponto aqui, um reforço acolá. Encontramos Finn, Noah e o restante do coral e da banda na sala verde, onde os corais ficam antes das apresentações para se concentrarem. Um grupo também estava lá passando o tempo, mas não tínhamos tempo para muitas socializações.
"Muito bem, pessoal" – professor Schue nos agrupou no canto da sala – "temos uma hora de almoço. Vamos ao restaurante aqui na vizinhança, mas nada de comer demais, ok? Priorizem salada" – e os meninos resmungaram. Claro que eles não iam seguir a recomendação – "Depois temos mais meia de descanso e podem fazer o que quiserem neste tempo, menos explorar a cidade. Aconselho um pequeno cochilo, se possível. A gente alugou um ônibus-leito para isso. Às 14h30 voltaremos todos para os camarins para a eliminatória da tarde. Somos os segundos a se apresentar. Como o intervalo entre um grupo e outro é de apenas cinco minutos, então vamos ser acompanhados apenas por Brad. Estamos entendidos?" – ninguém se manifestou – "A segunda parte começa às 19h em ponto com 15 minutos de intervalo entre cada apresentação."
"E se a gente não se classificar, professor Schue?" – Artie, sempre ele, levantou a mão.
"Nem penso nessa possibilidade."
Na saída do auditório, cruzamos com o Vocal Adrenalina pela primeira vez. Eles haviam acabado de estacionar. Todos vieram em seus carros particulares e três vans traziam os equipamentos. Minha mãe passou por mim e Santana. Ela nos cumprimentou educadamente, assim como também o professor Schue e todo o resto. Meu coração disparou, mas mantive a minha postura. Naquele momento, minha mãe era apenas a senhora Corcoran, diretora do nosso principal adversário. Ergui a cabeça e apenas um pensamento veio à mente: eu iria vencer.
Nossa apresentação de "Somebody to Love" foi perfeita. Brad deu um show particular ao piano. Os outros grupos foram medíocres, até mesmo Vocal Adrenalina, que fez uma apresentação burocrática, embora tecnicamente perfeita, de "All We Need Is Love". Não demorou muito até sabermos do resultado positivo: fomos classificados em segundo lugar atrás, justo, dos nossos rivais. Logo, os meninos da nossa banda começaram uma correria particular para instalar os instrumentos e fazer a passagem de som, enquanto ficamos reclusos nos camarins fazendo cabelo, maquiagem e nos concentrado para o grande final.
"Nossos pais chegaram" – Santana me mostrou a mensagem de texto pelo celular. Eles sempre estavam presentes nas competições importantes. Nem que fosse pelo menos um deles – "Vai falar com eles?"
"Melhor não. Prefiro ficar concentrada. E você?"
"Também não. Estou um pouco nervosa."
"Mesmo? Logo você, a badass Santana Lopez, capitã das cheerios campeãs nacionais de 2011?" – provoquei.
"Não enche, Ray. Não Enche!"
Minhas mãos estavam geladas e suadas ao mesmo tempo. O primeiro grupo fez medley com hit da Olivia Newton-John, que era uma das juradas. Pura jogada para levar vantagem, eu diria. Passaram os 15 minutos de intervalo, tempo em que um comediante entretém a platéia enquanto há uma correria danada no backstage para deixar tudo pronto. No caso, era a nossa banda que corria para plugar os instrumentos, se posicionarem, enquanto professor Schue corria com o técnico de iluminação que contratamos para ajustar as luzes. O Nova Direções se apresentaria em segundo, o que não era muito bom para nós. O Vocal Adrenalina fecharia a competição, o que era excelente para eles.
O tempo passou depressa demais e quando dei por mim, Finn e eu estávamos no hall de entrada do auditório, ouvindo o apresentador anunciar nosso grupo. Eu olhei para o meu namorado e sorri nervosa. A hora tinha chegado e tínhamos uma apresentação de cinco a dez minutos para cumprir. Era a nossa jornada. Na medida em que a música avançava, fui me soltando, ganhando confiança. Eu era Rachel Berry-Lopez, futura estrela da Broadway, e fui brilhante, assim como todo o resto do coral. Finn fez uma das melhores performances dele. Professor Schue foi muito feliz quando determinou que Noah fizesse algumas linhas, assim como Santana em "Don't Stop Belivin". Isso deu equilíbrio ao nosso time, pois mostrou que tínhamos várias peças valiosas.
Então veio a parte caótica. Logo após nossa apresentação, Judy Fabray, a mãe de Quinn, entrou na sala de espera. Eu não presenciei a conversa, só sei que logo em seguida, Quinn estava começando a entrar em trabalho de parto. Foi uma loucura. A Judy a levou até o carro junto com Mercedes e Noah. Santana levou mais gente no nosso carro e eu não tenho certeza como o resto do coral foi ao hospital. Eu decidi ficar. No mínimo, ou o diretor ou o capitão de cada equipe deveriam estar presentes no anúncio do resultado ou o coral seria desclassificado por atitude anti-esportiva. Gostaria de dar o meu apoio a Quinn, claro. Por outro lado, nãopodeia desconsiderar todo o esforço parar chegar até ali só para e perder de graça. Mandei uma mensagem de texto para Santana e pedi para que ela me deixasse informada de tudo. No mais, fiquei lá no fundo do auditório esperando nossos maiores adversários entrarem.
Logo nos primeiros movimentos de "Bohemian Rhapsody", suspirei. Era possível sentir que eles seriam épicos. E assim foram. Jesse não era Fred Mercury, mas tecnicamente ele fez um solo impecável. Também era a melhor coreografia que vi o Vocal Adrenalina desenvolver ao longo o semestre. Um trabalho brilhante feito por minha mãe e auxiliares. "Goodbye everybody, i've got to go/ Gotta leave you all behind/ And face the truth/ Mama, oh, i don't want to die/ i sometimes wish i'd never been Born at all".
Cruzei os braços, no final da apresentação, quando senti que Jesse havia me localizado no fundo do auditório e saí. Entrei na porta de acesso aos camarins e me tranquei naquele que estava reservado ao Novas Direções. Andei de um lado ao outro sem saber direito o que fazer, até que tive um impulso depois que os gritos de comemoração dos integrantes do Vocal Adrenalina tinha passado pelo corredor e agora estavam longe. De onde estava, vi o coral da Carmel comemorando na sala verde. Foi quando, sorrateira, consegui entrar no camarim deles, onde sabia que minha mãe estava. Encontrei-a preparando chá verde numa caneca com água quente.
"Parabéns. Vocês foram muito bem."
"Obrigada, Rachel" – disse sem olhar diretamente para mim, como se o saquinho do chá fosse mais interessante.
"Acontece que Jesse, por mais tecnicamente perfeito que seja, não tem muito coração. E você sabe disso perfeitamente" – disparei num fôlego só – "os melhores dias do Vocal Adrenalina ficaram para trás e é por isso que tenho uma proposta a fazer: venha para a McKinley. Você e o professor Schuester podem ser co-diretores e há tanto que pode nos ensinar... há coisas que só você pode me ensinar."
"Oh Rachel!" – ela suspirou profundo – "eu não quero mais essa vida. Eu estou cansada de dirigir corais. Eu quero uma vida de verdade! Foi preciso acontecer tudo aquilo conosco para eu me dar conta de todas as coisas que perdi. Preciso de uma casa, um jardim e um cachorro" – então ela me encarou nos olhos – "preciso de uma família! Eu perdi a minha chance contigo e Santana e não vou deixar que isso aconteça novamente."
Antes que ela continuasse a dizer qualquer outra frase que tivesse o poder de cortar a minha carne com a rejeição, em me virei para ir embora.
"Onde está o resto da sua equipe?"
"Estão no hospital" – abri a porta – "Quinn teve o bebê."
"Ela está bem?"
"Sim, está. Ela teve uma linda garotinha" – não tinha notícias do nascimento ainda, mas todos sabiam há meses qual era o sexo da criança e eu precisava dar uma resposta para não sair tão por baixo. Pelo menos, precisava manter as aparências até sair daquele maldito camarim.
Não era porque as pessoas me chamavam de rainha do drama, mas estava me sentindo morta por dentro. Era duro demais ter uma mãe rejeitar pela segunda vez. Corri para o nosso camarim e lutei para não chorar. Foi quando recebi a mensagem de texto de Santana: "Quinn teve o bebê. Estamos voltando". Tive de lutar ainda mais para segurar minhas emoções.
O time quase todo, exceto Noah e Quinn, lógico, voltaram à tempo de subir ao placo para ouvir o anúncio dos resultados. Primeiro o terceiro colocado, depois o segundo. As três equipes restantes permaneciam no palco para ouvir o nome do grande vencedor. Havia um pouco de sadismo neste tipo de formato, além de gerar expectativas na platéia.
Quando Sue anunciou Vocal Adrenalina como o grande vencedor das regionais, eu estava conformada. Tinha imaginado que eles levariam o título por causa da apresentação épica. Recolhemos nossas coisas num instante e nos arrumamos para ir embora o mais rápido possível. Era quase meia-noite, mas eu não ligava em pegar a estrada junto com Santana depois de um dia intenso apesar dos apelos dos nossos pais.
"Estou bem para dirigir papai!" – Santana estava com uma lata de Red Bull em mãos – "Rachel vai com vocês e eu deixo Britt em casa."
"Nem pensar, senhorita! Olha o estado de vocês duas. Mal conseguem manter os olhos abertos. Você e Rachel vão com Juan. Eu vou dirigindo o carro de vocês com a Brittany."
"Posso pegar uma carona, senhor Berry-Lopez?" – Mercedes se ofereceu – "Não estou animada para encarar o ônibus junto com o resto."
"E eu posso também?" – foi a vez de Tina.
"Claro! Tem vaga para as duas."
"Para três?" – Kurt também se ofereceu.
"Claro. Contigo temos carro cheio!"
As garotas ficaram felizes por ficarem uma hora a menos na estrada. Meus pais estavam certos numa coisa: no momento que Santana e eu entramos no confortável Honda, apagamos pelo cansaço. Acordei nos braços do meu pai, já subindo as escadas para me deixar no meu quarto. Com muito reluto, tomei um banho morno rápido, coloquei um pijama velho e apaguei novamente. Tudo que queria na vida era dormir por cem anos e esquecer tudo que tinha vivido naquele sábado.
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08 de maio de 2011
Acordei com o barulho suave de Santana nadando na piscina. Sempre era assim: quando ela queria parar de pensar em alguma coisa ou esquecer certas preocupações, ela ia nadar cedo. Dizia que não existe lugar mais tranqüilo do mundo do que debaixo da água. Eu? Minha cabeça não se esvazia nem na água e nem em lugar algum. É impossível seguir qualquer filosofia ou religiosidade de origem oriental. Mas admiro quem mantém a mente quieta e o coração tranqüilo por um tempo admirável. Vesti um top e um short, dei bom dia para os meus pais e fui direto para a piscina. Sentei na borda e coloquei os meus pés na água levemente aquecida. Vi a sombra de Santana debaixo d'água se aproximar e emergir ao meu lado.
"Milagre você se aproximar da piscina a ponto de molhar os pés" – aquele não era o meu lugar favorito da casa.
"Isso não dá certo pra você? Por que não para mim?"
"Porque eu sou um peixe e você é um gato que foge da água."
"Cuidado! Gatos comem peixes."
"Não os tubarões... ou os golfinhos" – Santana caiu na gargalhada com a analogia que eu não entendi.
"Eu sei que você é quase um gênio da matemática e das ciências exatas, mas claramente anda faltando muito às aulas de biologia que não tratam de botânica ou de sexualidade humana. Sinto-me, pois, na obrigação de explicar que, embora ambos tubarão e golfinho certamente se encontram no topo da cadeia alimentar marinha, estes são animais completamente diferentes entre si..."
Santana riu ainda mais forte, me fazendo perder a linha do meu pensamento, o que me deixou confusa. Num movimento rápido e preciso, ela segurou os meus braços e me puxou para dentro d'água. Odeio aquela água com cloro. Odeio! Tinha minhas razões para não suportar. Ainda tinha o aditivo de Noah limpar aquele tanque uma vez por semana e eu não confiava na eficiência dos serviços dele. Outro complicador é que aquela parte em específico da piscina quase que me encobria. E eu não sabia nadar.
"Que droga, Santana!" – lutei para alcançar a borda, mas a minha irmã me segurava.
"Relaxe, Ray. Não brigue com a água, ou comigo. Eu não vou deixar você se afogar."
"Você diz isso toda vez" – me agarrei a Santana como se minha vida dependesse disso. Quando dei por mim, meu corpo estava colado ao dela, com minhas pernas em volta da cintura e meus braços enrolavam o pescoço dela – "Isso é esquisito!" – me referi à sensação de conforto e segurança que senti depois que me acalmei mais.
"Eu só costumo ficar assim com Britt ou Puck, sabia?" – ela sussurrou no meu ouvido e deu um beijo no meu pescoço, me trazendo de volta para a realidade.
"Ew... ew... ew" – tentei me libertar, mas Santana me segurava.
"Deixe de besteira, Ray" – ela estava se divertindo comigo, isso era certo – "até parece que a gente nunca se beijou".
"A gente só dá selinhos fraternais e inocentes. Não chupões no pescoço."
"Que exagero. Só foi uma bicota" – ela revirou os olhos – "Agora tampe o nariz que a gente vai mergulhar."
"Nã..." – sempre achava a sensação de ficar embaixo d'água estranha e apavorante. Não podia evitar. Piscina não era o mesmo que uma confortável banheira. Havia o som mais intenso, a luz mais brilhante, toda a ondulação, a transparência... e a sensação de falta de ar. Foi um alívio quando emergimos – "eu juro que vou te matar!" – me agarrei ainda mais forte a ela.
"Por deus, Rachel, você está tremendo!" – ela andou até a escada da piscina, onde me deixou. Eu aproveitei a oportunidade e saí. Sentei encolhida na espreguiçadeira, deixando que o sol me esquentasse e me secasse um pouco. Santana também saiu da piscina. Pegou a toalha que estava largada no chão e foi em minha direção – "Pronto!" – ela colocou a toalha em volta das minhas costas e sentou-se ao meu lado na espreguiçadeira – "Como se sente?"
"Molhada e com frio!"
"Isso é óbvio" – deu uma pausa – "Como se sente?"
"Não já te respondi?"
"Agora estava me referindo às coisas que aconteceram ontem."
"Triste! O coral vai acabar porque perdemos... a vida na escola vai voltar ao mesmo inferno de antes com todos jogando slushies na minha cara, falando ainda mais coisas sobre mim, me dando apelidos e você não fazendo nada para me defender... fora a minha chance de alcançar a Broadway estar cada vez mais distante."
"Quanto drama!"
"É porque não é contigo. Você é popular, a poderosa capitã das cheerios. As pessoas têm medo de você. Eu tenho medo de você."
"Verdade!" – ficamos em silêncio por um tempo, até que Santana o rompeu – "Corcoran veio falar comigo ontem depois que anunciaram o resultado. Ela primeiro deu parabéns a equipe e pelas minhas primeiras linhas de solo em competições."
"E daí?"
"Ela perguntou se você estava bem e depois disse que eu deveria olhar mais por ti."
"Enquanto vocês estavam no hospital com Quinn, eu a procurei. Sem entrar muito em detalhes, Shelby disse que não coordenaria mais corais porque precisava de um lar e de uma família. Uma que naturalmente não incluía eu e você porque era tarde demais para nós."
"Ela disse isso pra você?" – a voz crescendo em revolta.
"A última parte, que a gente não estava incluída, ficou subentendida."
"Oh! Rachel..."
"Eu tinha de fazer uma última tentativa. Ela é a nossa mãe e eu não poderia deixá-la sair de nossas vidas sem aproveitar até a última oportunidade. Infelizmente ela continuou sem nos querer... sem me querer."
"É ela quem perde" – Santana passou o braço no meu ombro e me puxou para ficar mais próxima a ela – "não querer a companhia das incríveis irmãs Berry-Lopez? Sinal de que ela não nos merece e só pode ser maluca. Então a gente tem mais é deixar esse episódio lastimável para trás" – silenciou-se por um minuto – "Mas ela estava certa em um ponto: sendo a mais velha, eu tenho mesmo de cuidar mais de você."
"Como se 29 minutos fizessem diferença!" – revirei os olhos.
"Fazem toda!"
"Santana, eu não sei se é um segredo, mas que tipo de acordo você fez com papai?"
"Nada demais, Ray. Ele quer a mesma coisa que Shelby sugeriu".
Naquele momento o cachorro do vizinho passou por um buraco que exista debaixo da cerca de madeira que dividia o nosso quintal e o do vizinho. Sem a menor cerimônia, aquele beagle demoníaco fez cocô no jardim de papai e depois pegou um par do chinelo de Santana. Minha irmã saiu correndo atrás do bicho, que latiu muito antes de correr e passar debaixo o mesmo buraco cavado na cerca.
"Ok Ray, desta vez nós vamos colocar mais vodca na água desse cachorro miserável."
"Nós?"
"Alguém tem que olhar as minhas costas!"
