Capítulo 25

Segunda-feira, 04 de novembro. Cinco da tarde, ala hospitalar.

Quando eu acordei, abri os olhos devagar e focalizei James, sentado na cadeira ao lado da minha maca, me fitando. Eu franzi o cenho e pisquei. Qual é, eu devia estar horrenda. E odeio que os outros me vejam dormir. Eu passei a mão pelos cabelos embaraçados até me lembrar que não tinha mexido neles desde o dia anterior e desisti. Eu até tinha pegado o espelho, quando Madame Pomfrey tinha me entregado, mas resolvi que só me deixaria mais irritada se eu visse o estado deplorável no qual eu me encontrava, então eu deixei o espelho de lado. Mas voltando para hoje de manhã, quando eu acordei... eu desisti de arrumar o cabelo e passei a mão pelo rosto, sentindo o lado direito do meu rosto sensível.

- James – eu murmurei mal-humorada. – O que é que você tá fazendo aqui a essa hora? Quer dizer... que horas são? – eu me sentei, percebendo que o céu ainda estava escuro através das janelas.

- Umas cinco horas, eu acho.

Eu arregalei os olhos.

- VOCÊ ENLOUQUECEU?

- Shh – ele pediu silêncio, olhando para um ponto atrás das minhas costas que eu sabia ser a Pâmela dormindo.

- Foi mal – resmunguei. – Você enlouqueceu? – eu repeti. - Cinco horas da manhã e você acordado?

- Ué, você também está.

Revirei os olhos.

- Muito bem observado, James – eu disse ironicamente. – É sério, o que você tá fazendo aqui?

- Queria conversar – ele respondeu, se recostando relaxadamente na cadeira.

- Ah, e não podia esperar? – eu perguntei entre divertida e cautelosa.

- Não, acho que eu já esperei demais, na verdade – ele falou, se desencostando e vindo mais pra frente.

Ops.

Eu me lembrei de toda a minha revelação da noite anterior, quando eu descobri que James nunca tinha me superado e tal. E da leve sensação estranha.

- Ah – eu sussurrei simplesmente, esperando.

- Lily, o motivo da briga foi aquele mesmo? – ele perguntou um pouco menos sério, uma das sobrancelhas levantadas em desafio.

Eu me senti aliviada por essa ser a pergunta. Revirei os olhos, não conseguindo evitar rir.

- Não, não foi – eu respondi, sabendo que ele não ia se contentar.

- E qual foi? Posso saber?

- Pode, mas não se anime – eu aproveitei pra deixar as coisas mais claras. – Eu estava discutindo com ela, como sempre. Na verdade, eu até estava provocando, mas foi ela quem começou – ele riu. – Mas tipo só provocando, normal. Aí ela começou a me ofender.

- Oh, coitadinha.

- Não, sério. Ela começou a falar que eu sou falsa, que eu fico me achando só porque sou monitora-chefe, que fico me agarrando com o Dough pelos cantos... falou que eu sou uma santa do pau oco!

- Sério? – ele riu, surpreso.

- Sério – fiz beiçinho. – E tá, né, eu respondi e saí. Mas ela é louca, tô falando, ela virou aquela jarra de ponche na minha cabeça! Aquela jarra imensa! E eu fiquei toda melada, foi nojento.

- Eu imagino – ele segurou o riso.

- Não é engraçado! – eu repreendi, mas também prendi o riso. – E, como se não bastasse, ela falou do meu cabelo! – eu estreitei os olhos.

- Ah, aí sim mexeu na sua ferida! – ele riu.

- Pois é. Foi aí que ela fez cagada – eu revirei os olhos. – Porque eu também tive que falar do cabelo dela, né - eu arrisquei uma espiada por cima do ombro. – Aquele cabelo horrendo... – voltei a olhar pra ele e fiquei quieta.

- E aí?

- Aí ela falou que o cabelo não tinha a impedido de ir pra cama com você – eu conclui. - Como se eu me importasse – acrescentei murmurando, desviando o olhar.

- E não se importa? – ele sondou.

Eu olhei pra ele de novo.

- Não, eu não me importo – eu falei, ignorando um desconforto estranho no estômago.

Achei que precisava comer alguma coisa, já que a última coisa que eu tinha botado pra dentro tinha sido aquele salgadinho de queijo.

- Hum – ele disse entre indiferença, descrença e curiosidade.

- Aí eu perguntei o que tinha a ver com isso – eu falei, cautelosamente.

- E?

- E ela disse que tinha tudo a ver, perguntou a quem eu estava tentando enganar – eu fiz uma pausa. – Disse que fico enganando o Dough e você, sem me importar com os seus sentimentos... – minha voz foi enfraquecendo à medida que a frase terminava e eu tinha certeza que o 'sentimentos' tinha quase sido inaudível. Eu baixei os olhos.

- E foi aí que você partiu pra cima dela? – ele disse, dando uma risada fraca.

- Foi – eu ainda olhava para o meu dedo quebrado, enfaixado na tala. – Porque não é verdade. Eu não engano ninguém – eu disse como uma criançinha que tenta explicar para a mãe furiosa o motivo por ter quebrado o seu vaso importado preferido, ou coisas assim.

'Só a si mesma, sua idiota', uma voz falou na minha cabeça e eu refreei o impulso de arregalar os olhos. Eu andava tendo revelações demais.

E, para o meu alívio, Madame Pomfrey veio até nós, com passos apressados.

- Que susto! – ela sussurrou, olhando de mim para James e dele de volta pra mim. – Senhor Potter, não são nem 6 horas da manhã ainda. Não acha que é meio cedo para visitas? – ela perguntou, confusa. – Bom, que seja. Srta. Evans, aqui estão suas coisas, você pegou no sono antes que eu pudesse te entregar - ela disse, entregando a mim as vestes típicas da ala hospitalar, uma toalha de banho, um sabonete, escova e pasta de dentes...

- Quanto tempo eu vou ficar? – perguntei olhando com desânimo para a toalha de banho.

- Acho que até amanhã.

- Amanhã! – eu grunhi.

- Não fui eu que me meti em brigas – ela respondeu simplesmente.

- Droga – suspirei. – Bom, acho que preciso de um banho – eu olhei criticamente para a minha roupa ainda manchada de laranja e o cheiro forte de álcool que estava impregnado no meu cabelo. E o cabelo! Ainda tinha o cabelo... eu teria que dar um jeito nele.

- Vai precisar de ajuda? – Madame Pomfrey me perguntou, olhando para o gesso na minha perna esquerda, que ia do pé até o joelho.

Eu tentei pensar em alguma coisa mais humilhante do que ter que contar com a ajuda de alguém pra tomar banho, quando você já tem 17 anos. Eu olhei pra James e consegui achar uma coisa: Ter alguém SABENDO que você precisava de ajuda. Isso com certeza era mais humilhante e eu não precisava disso.

Eu peguei a minha varinha na mesa de cabeceira.

- Impervius – murmurei apontando-a para o meu dedo imobilizado pela tala e, em seguida, murmurei de volta apontando-a para o gesso na minha perna. – Não. Acho que consigo sozinha, obrigada – sorri educadamente para Madame Pomfrey.

Eu me levantei e fui até o banheiro, a tempo de ouvi-la reclamando mais uma vez que era cedo demais para visitas.

A primeira coisa que fiz quando entrei no banheiro foi me olhar no espelho, mas me arrependi na mesma hora. Eu estava com um hematoma horrendo no meu rosto, incluindo o olho. Meu olho tava meio vermelho, mas tudo bem, o que me deixou enojada mesmo foi o fato de que era uma mancha enorme, que ia da minha sobrancelha até o nariz. E ainda tinha uns pedaços em que a macha se tornava amarelada. Mas isso, eu descobri mais tarde, era típico de hematomas, porque formava pus por dentro. Nojento. E eu tive que rir. Porque era óbvio que Pâmela não tinha nenhuma noção de mira. Primeiro porque ela queria acertar meu nariz e acertou o lado esquerdo da minha boca. Depois que ela mirou no olho e por pouco não errou, porque o osso do meu rosto doía mais do que o olho propriamente dito.

E tirando o tom de roxo amarelado, o hematoma estava inchado. Mas não era tanta coisa assim. Logo que eu me convenci que não estava tão ruim, eu arrisquei uma olhada no meu cabelo. Se é que eu podia chamar aquilo de cabelo. Porque era simplesmente um ninho. Um grande e revoltado ninho ruivo. Eu escovei meus dentes, evitando olhar muito no espelho e depois eu passei bem uns dez minutos testando feitiços de beleza no meu cabelo. Testei todos os que eu sabia. Todos os que sempre acabavam com nós e prometiam um cabelo liso. Mas aí eu cheguei à conclusão que eles só funcionam quando você tem nós no cabelo e não quando seu cabelo é um enorme e completo nó por inteiro. Então eu desisti e entrei debaixo do chuveiro. E acho que eu passei uns quinze minutos penteando o cabelo já molhado pra conseguir algum resultado. E mesmo que eu já tivesse quase ficado careca por causa daquela maluca, parecia que eu ainda podia perder MAIS fios. Depois ainda levou uns vinte minutos pra eu conseguir me lavar, já que eu me equilibrava numa perna só e tentava não esbarrar meu dedo em nada. Depois ainda teve a tortura que foi me secar e, por último, colocar aquela maravilhosa roupa verde: shorts largo e uma camisola que quase chega aos joelhos.

E eu nem preciso dizer que eu fiquei surpresa ao sair do banheiro e ver que James ainda estava lá, sentado ao lado da maca.

- Argh – eu suspirei pesadamente quando me sentei de volta na cama, que Madame Pomfrey já tinha arrumado, por sinal. – Por que não me disse que eu estava tão horrível assim? – eu perguntei rindo e apontando para o meu rosto.

Mas eu não devia ter perguntado, afinal. Porque de novo aconteceu aquela coisa de rolar um clima entre nós. E, tipo, isso estava se tronando chato, sabe. Principalmente porque eu tinha pegado o hábito de sentir uma leve falta de ar quando isso acontecia. E um calor vindo do pescoço. Qual é. Ele é James Potter, por que diabos eu tinha que começar a hiperventilar nessas horas?

- Porque eu nunca acho você horrível – ele respondeu calmamente, como se eu não estivesse me sentindo desconfortável o suficiente.

- Mas um hematoma amarelado no rosto pode ser um fator bem importante pra ser levado em conta - eu ri meio nervosa, tentando quebrar a tensão.

Mas na verdade eu não quebrei, porque sobreveio um silêncio bem chato.

Eu passei os olhos pelo lugar quando Pâmela soltou um grunhido enquanto dormia pesadamente. Olhei para a salinha de Madame Pomfrey e tudo lá dentro já estava escuro de novo.

- Lily – James me chamou novamente e eu me virei para encará-lo, me sobressaltando quando percebi que ele estava perto demais.

Ops de novo.

- James, o qu- - eu comecei a dizer, mas parei, espantada demais pra continuar.

Ele estava se aproximando de mim. Muito lentamente. Muito... muito não-James, se é que vocês entendem. Eu olhei bem nos olhos dele. Não que eu tivesse escolha, de qualquer maneira, porque o olhar dele era tão intenso que era difícil demais desviar. Mas foi o que bastou para os meus hormônios novamente tomarem conta de mim, e aí...

Você já pode imaginar o que aconteceu.

Pois é. Mas digamos que eu tenha que admitir (e eu nem ao menos faço idéia de porquê eu estou realmente fazendo isso) que aconteceu algo mais. Eu me entreguei no beijo, sabe, e eu sei que vai ser MUITO estranho botar pra fora, mas foi realmente o melhor beijo de toda a minha vida.

Tá, ficou mesmo estranho.

Mas é que, eu não sei se foi bem com essas palavras, mas eu tenho a vaga recordação de que eu já confessei uma coisa parecida, há algum tempo atrás. Na primeira semana de aula, quando eu fui tirar satisfações com James lá no dormitório, depois de ele ter me beijado à força e aí ele nos derrubou na cama e ficou tão grudado em mim que eu fui traída pelos malditos hormônios inquietos e deixei que ele me beijasse. Ou melhor, eu também o beijei. E naquela época, eu lembro que eu fiquei MUITO humilhada. Por mim mesma, o que foi pior. E depois só o que eu conseguia sentir era raiva. Uma imensa e terrível raiva de James. Pior do que a que eu sempre sentia, por ele me irritar profundamente e tal. E aí eu lembro que, naquele estado péssimo no qual eu me encontrava, totalmente despedaçada e sem dignidade, eu admiti que aquele beijo tinha sido a melhor coisa da minha vida.

Eu me lembro disso.

Mas eu estava errada, porque ESSE beijo de agora tinha sido bem melhor do que o outro. E eu não sei bem o que influenciou nisso, se foi porque a gente nem tava discutindo, se foi porque o clima tava BEM presente, ou se foi porque eu simplesmente olhei nos olhos dele, quando ele se aproximava todo fofo, e derreti totalmente, sem conseguir pensar em mais nada. Eu sinceramente não sei. Só sei que eu ainda estou muito confusa, mesmo que isso tenha acontecido antes de o dia clarear, mas isso não vem ao caso AGORA. Primeiro preciso terminar a história.

Como eu já disse, eu me entreguei no beijo, então, quando nós nos separamos, os dois estavam ofegantes demais pra falar alguma coisa. E só o que a idiota aqui conseguia fazer era encará-lo com uma surpresa gigante. Mas era mais um reflexo do que eu estava sentindo de MIM mesma, sabe, eu estava surpresa por ter gostado. Não do beijo em si, como daquela vez. Naquele dia eu tinha ficado totalmente furiosa com o fato de termos nos beijado, mas não deixei de admitir que o beijo tivesse sido bom. Mas agora, eu estava totalmente surpresa comigo mesma porque eu tinha gostado. Gostado não só do beijo, mas da... situação. Do jeito com que tinha acontecido.

Ele sorriu pra mim e no começo foi um sorriso diferente. Um sorriso que eu nunca tinha visto no rosto dele. E tipo, dois segundos depois, se transformou no típico sorriso de criança feliz que ele sempre exibia, com aquele ar malicioso que só os marotos têm.

E aí eu suspirei.

Assim, feito uma idiota. Como se fosse uma donzela suspirando de paixão. Pois é. Eu suspirei. Que idiota.

- Agora você tá me preocupando – ele riu baixo, desgrudando os olhos dos meus e olhando pela janela ao lado da maca.

Eu franzi o cenho.

- Por quê?

- Porque não está gritando – ele riu de novo. – Nem fazendo força para não gritar. Nem me batendo. Nem me azarando, nem pisando forte e soltando ameaças.

Eu corei levemente, tentando ver a graça que ele via. Mas eu não estava achando graça nenhuma, afinal.

- James – eu baixei a cabeça, tentando pensar coerentemente. Parte de mim me dizia que isso era loucura e outra parte dizia que eu devia estar sentindo culpa. Por Dough. Por James. Por mim mesma.

- Lily, escuta – ele se colocou o dedo embaixo do meu queixo e levantou meu rosto pra ele.

Eu queria fechar os olhos pra não ter que encará-lo, o olhar dele era profundo demais. Ele ficou um tempo em silêncio, só olhando nos meus olhos, e depois falou, a voz meio rouca:

- Eu te amo.

COMO SE EU JÁ NÃO ESTIVESSE TOTALMENTE CONFUSA.

Eu me forcei a piscar, desviando o olhar. Eu sabia que ele não esperava que eu respondesse que também o amava, mas também sabia que DEVIA dar uma resposta.

Eu só não conseguia, naquela hora.

Na verdade, eu não conseguia falar nada. Eu não conseguia pensar. Não conseguia respirar.

Eu fiz um barulhinho com a garganta, com a cabeça baixa. Ele se afastou um pouco e riu fraquinho da minha reação. Mas foi uma risada curta demais. Ele se levantou em seguida, ficando de pé na minha frente.

- Desculpa - eu murmurei na mesma hora, erguendo meus olhos para encará-lo.

- Pelo quê? – ele se assustou.

- Eu não sei direito – eu falei, sendo sincera demais.

Eu realmente NÃO sabia pelo que eu estava me desculpando, mas parecia que eu estava sentindo uma culpa imensa por ter permitido que isso fosse longe demais. Porque agora que eu sabia que ele nunca tinha me superado, então eu devia fazer alguma coisa que desse resultado, né, pra fazer ele me esquecer. E em vez disso, nós nos beijamos.

QUE LEGAL.

- Acho que é porque eu nunca dei bola pros seus sentimentos – eu disse e, na mesma hora, me espantei comigo mesma. Eu nem tinha pensado nisso direito e já tinha pulado pra fora da minha boca. – É porque eu descobri que você é muito legal por baixo de toda essa máscara aí – eu sorri de leve. – E...

– Eu não preciso de uma resposta, Lily – ele sorriu como se estivesse feliz só por ter me dito aquelas três palavras.

Eu apenas o encarei e ele continuou sorrindo enquanto fazia um gesto mudo para a porta. Eu ouvi os passos de alguém.

- Amor... – Dough sussurrou aliviado ao ver que eu já estava bem melhor. – Potter – ele terminou irritado.

- Oi – tentei agir normalmente, mas tenho certeza de que eu falei muito baixo. Tirando o fato de que eu nem conseguia olhar nos olhos dele.

Culpa. Eu sentia culpa. E agora era por ter traído meu namorado. Há um minuto atrás.

- O que é que ele está fazendo aqui, Lily? – Dough me perguntou, o tom de voz me indicava que ele estava prontinho para uma briga.

Como sempre estava quando se tratava de James.

- Ele veio ver como nós estávamos – eu menti ainda sem encará-lo nos olhos.

- A namorada dele está dormindo, pelo que eu percebi – ele me respondeu, cético, olhando desafiadoramente para James.

- Justamente – James se manifestou, levantando da cadeira. – É por isso que eu já estou indo - ele sorriu ironicamente para Dough e saiu, olhando rapidamente para mim, antes de acrescentar para Dough: - E é ex.

- Ele está me provocando – Dough disse entre dentes quando James deixou a ala hospitalar, sem nem mais olhar pra mim. Ainda bem. Acho que eu não ia conseguir suportar por muito mais tempo. Precisava ficar sozinha, precisava pensar.

Eu não consegui formular nenhuma resposta.

- Por que é que ele estava aqui, afinal?

- Porque ele é meu amigo, Dough.

- Amigo! – ele chiou – Qual é, Lil, o garoto te persegue!

- Ele perseguia, não persegue mais. E agora nós somos amigos, saiba lidar com isso - levantei ligeiramente o queixo, mas estava meio vacilante por dentro.

- O que eu sei é que ele veio aqui ver você.

- Tá. Ele veio, nós conversamos, você chegou e ele foi embora. Qual é o grande impasse? – eu perguntei meio cética.

- O impasse é que todos nós sabemos que ele não quer só ser seu amigo, Lily – Dough disse, se sentando do meu lado, me olhando meio apreensivo e meio chateado.

- Não me importa o que ele quer ou deixa de querer, Dough. Os sentimentos dele são só dele. O que importa é o que eu quero. São os meus sentimentos que valem aqui. E eu quero ficar com você, ponto final – eu reprimi a vontade de me xingar em voz alta.

Eu falo tantas besteiras sem pensar! Mas não era uma total mentira! Eu queria ficar com Dough, eu queria que a nossa relação desse certo, eu queria sentir o mesmo que ele sentia por mim. Eu queria continuar com ele porque era tão mais... fácil.

- Mas... amor, você já reparou no jeito que ele te olha? – ele perguntou e eu me senti ruborizar. Tentei controlar a culpa que arriscava transbordar pelos meus poros. – Sinceramente, não vou me desculpar por ter ciúmes. É tão estupidamente visível que ele quer você.

- E você quer que eu faça o quê? Eu não vou fingir que eu não sei que ele gosta de mim. Eu já entendi isso, demorei muito pra acreditar mas agora eu sei que é de verdade. Mas eu não posso fazer nada, Dough. Sério, eu não tenho culpa – suspirei. – Além do mais, mesmo gostando de mim, ele respeita as minhas decisões.

Dough piscou, surpreso.

- Como assim?

- Ué, ele sabe que estamos juntos. Ele sabe que eu quero ficar com você – bom, naquela hora eu já nem sabia mais, mas continuei meu discurso mesmo assim. - Ele respeita isso. E eu não posso impedi-lo de ser meu amigo! – eu acrescentei, tentando bloquear os pensamentos que me vinham, como por exemplo: "Mas poderia tê-lo impedido de te beijar há alguns minutos. Assim como poderia ter impedido a si mesma de ficar atordoada e abalada e..."

- Não parecia, naquela conversa.

- Que conversa?

- Na primeira semana.

Eu demorei um pouco pra entender. Ele estava falando da 'conversa' que eu tive com James, na primeira semana de aula, quando ele me beijou à força e eu fui tirar satisfações. E aí... bom, prosseguindo.

- É, digamos que nós ainda não tínhamos nos entendido naquela época – revirei os olhos. – Mas as coisas mudaram, Dough.

- Não acho que tenham mudado em relação à mim. Mas à ele... realmente – ele terminou em tom significativo.

Eu senti o sangue subindo... eu estava começando a ficar com raiva. Suspirei pesadamente e o encarei.

- Você poderia, por favor, falar o que você realmente QUER dizer? – eu perguntei exasperada. – É melhor do que ficar tentando lançar essas indiretas.

- Lils! – Lene entrou correndo pela porta, e nós ouvimos um 'shh' vindo da sala de Madame Pomfrey. – Como é que você tá? Aw, eu não consegui vir antes! Tudo bem? Bateu nela, né? Me diga que bateu, por f- Oh, oi Dough – ela se interrompeu quando viu que nós estávamos conversando. – Querem que eu volte uma outra hora? – ela perguntou.

- Não, não, Lene, imagina. Já estava indo mesmo e-

- Não estava não – eu o interrompi. – Pode falar, Dough.

- Bom, o que eu quis dizer é que é óbvio que você mudou seus sentimentos com relação à ele. Você está permitindo que ele se aproxime, Lily...

- Ah, tenha dó, Dough! – eu me indignei. – E desde quando ele não pode se aproximar de mim? Já disse que nós somos amigos!

- Você sabe que ele não quer ser só seu amigo, Lily!

Argh, eu fechei os olhos e respirei fundo. Qual é, ele não tinha outra coisa pra falar?

- Eu não ligo a mínima pra isso! – eu gritei, completamente irritada, tentando ignorar a voz que gritava cada vez mais alto na minha cabeça: 'Acaba logo com isso, Lily! Admita que você liga sim!'

- Lily! – ele deu uma risada sarcástica. – Quem é que você está tentando enganar?

- Argh – eu fiz uma careta. Tentei não transparecer culpa. E muito menos surpresa. Ok, isso já estava passando dos limites, agora a voz na minha cabeça insistia em dizer que ele já tinha percebido mesmo, era só admitir. – Dough, - eu suspirei. – me responde: Por que é que você acha que eu ligo?

Ele colocou a mão no queixo e fez cara de pensativo.

- Vejamos – ele começou. – Talvez seja porque você fica completamente estranha quando ele está por perto, ou talvez porque...

- Eu não fico completamente estranha quando estou perto dele!

- Fica sim, Lil. Ultimamente fica – Marlene disse e eu tinha esquecido que ela tinha chegado ali.

Eu fechei os olhos e respirei fundo mais uma vez. 'É mentira. É mentira deles', eu pensei.

- Lene, amiga, se importa de nos dar licença? – eu perguntei com a voz calma.

Ela me olhou como se me pedisse desculpas. Eu sorri fraco pra ela e ela saiu, atravessando a sala. Eu esperei até ouvir os passos dela se distanciando pelo corredor. Olhei uma vez para Pâmela pra constatar que ela ainda estava dormindo pesadamente.

- Lily – Dough me chamou.

- Não, Dough – eu meio que interrompi. – Agora eu falo, você escuta.

Ele olhou pra mim e eu sustentei o olhar.

- Essa não é a primeira vez que a gente discute sobre isso, mas espero sinceramente que seja a última. Eu não ligo para James. – Eu empurrei pra baixo o caroço que se formava na minha garganta. – Eu não ligo a mínima para o que ele faz ou deixa de fazer. Não me importa com quem ele namora ou quem ele leva pra cama. Eu já te disse isso muitas vezes e eu realmente não posso fazer mais nada, Dough, se você não acredita em mim.

- Eu só não acredito nisso, Lily, por um simples fato: nem você está convencida disso.

Eu pisquei atordoada. Eu tinha dado o melhor de mim. Eu tinha tentado ignorar a voz imbecil na minha cabeça. Eu não queria magoar o Dough, eu gosto dele.

- Eu te amo, Lily, você sabe disso, mas eu não posso continuar fingindo que acredito na nossa relação quando você está totalmente caída pelo cara mais idiota desse castelo.

- Dough! – eu gritei indignada. – Eu NÃO estou caída por ele! Eu estou namorando você, o que mais você quer? – eu o encarei, boquiaberta. – Se eu quisesse ficar com ele, você não acha que eu já teria ficado?

De repente, eu me vi com a mão na boca. Não por ter dito algo que não podia, mas porque eu fiquei surpresa por falar exatamente ISSO. Eu TINHA ficado. Há exatamente alguns minutos atrás. Mas tinha sido tão inesperado e... natural... que eu nem tinha me tocado quando eu falei isso pra Dough. E, bem, digamos que eu tentei baixar a mão e torci pra ele não ter visto, mas isso não passou em branco.

Ele me olhou com os olhos apertados.

Eu fiquei estática, não consegui fazer nada. Eu sou tão BURRA. Argh. Eu podia fingir que nada daquilo com James tinha acontecido e continuar a falar com Dough normalmente, mas...argh, por que é que eu fui meter a mão na boca? Demonstrando exatamente a surpresa que eu estava sentindo?

- Lily... – Dough estava quase tão estático quanto eu, mas no caso dele era a descrença que o impedia de falar claramente. – Você não vai me dizer que...

Eu só olhei pra ele. Tentei continuar encarando-o, por mais difícil que fosse. Difícil porque eu vi dor ali. Era culpa demais pra mim, mas eu não conseguia desviar o olhar.

- Eu não acredito! – ele berrou, e eu me encolhi na cama. – Você me falando todas essas coisas... COMO VOCÊ CONSEGUE SER TÃO FALSA? – ele gritou, o rosto muito perto de mim, contorcido de raiva.

Eu não conseguia abrir a boca. Ele era a segunda pessoa que me chamava de falsa em dois dias. Eu vasculhei minha mente na tentativa de achar algum fato que comprovasse isso, que eu era uma falsa de marca maior, que vivia enganando todo mundo... mas não consegui. Na verdade eu não consegui pensar por muito tempo, porque Dough pegou meu rosto com uma das mãos dele, levantando minha cabeça pelo queixo.

- Eu nunca pensei que me decepcionaria tanto com uma pessoa – ele disse baixo, olhando nos meus olhos.

Eu ofeguei de culpa e ele soltou meu rosto, saindo da ala hospitalar com passos fortes e largos. Eu fiquei encarando a porta por mais dois segundos, até cair no choro.

- Srta. Evans! – Madame Pomfrey vinha a passos rápidos até a minha maca. – O que foi que houve? Eu ouvi gritos e... cadê o seu namorado?

Eu pensei em dizer 'Ele não é mais meu namorado, Madame Pomfrey.', mas parecia que verbalizar isso iria tornar tudo mais real. Eu nunca pensei que ficaria realmente um lixo quando acabasse com Dough, sabe, porque eu sabia que mesmo gostando dele eu não o amava. Eu tinha deixado isso claro pra ele desde que nós começamos a namorar. E ele tinha aceitado. E eu achava que estava indo bem no meu namoro, minha vida parecia tão normal para uma garota de 17 anos... aí que eu me toquei que parecia normal demais pra mim.

- Ele saiu – eu disse entre soluços para Madame Pomfrey. – A senhora não poderia me dar um remédio pra dormir? – eu perguntei, olhando-a através das lágrimas.

- Oh, Srta. Evans, dormir não é um bom remédio. Você só vai adiar seu sofrimento... – ela passou a mão pelos meus cabelos. – Posso ajudar em alguma outra coisa?

- Amiga! – Lene atravessou correndo a sala e me abraçou. – Eu ouvi vocês gritando, e Dough saiu... – ela parou. – Oh, não! Ah, Lils! – ela me abraçou mais forte.

- Bom, com licença – Madame Pomfrey lançou um olhar de pena pra mim e voltou para a sua salinha.

- Lene! – eu botei pra fora no meio do bolo que era a minha garganta. – Eu sou tão medíocre! – eu podia sentir a culpa aumentando no meu peito. – Eu sou... sou tão asquerosa, Lene, como é que eu pude fazer isso? Com Dough! Argh, eu não deveria existir, eu magoei ele de verdade, vai ver é só isso que eu sei fazer mesmo... magoar as pessoas e-

- Shh, você não é nada disso – Lene se afastou e segurou meu rosto nas mãos. – O que foi que aconteceu?

- Eu... Lene, eu e o James... a gente, argh, a gente se beijou um pouquinho antes do Dough entrar...

- E ele viu? – ela arregalou os olhos.

- Não. Eu é que sou tão idiota que deixei transparecer... ah, Lene! Ele ficou acabado – a lembrança dele me falando que nunca tinha se decepcionado tanto ainda estava fresca na minha cabeça.

- Você não é idiota! – ela me repreendeu. – Você só é honesta demais pra ficar enganando ele.

- Não foi bem assim – murmurei. Eu estava com um pouco de vergonha de admitir que eu teria, sim, escondido dele. E aí quando eu percebi isso, foi a minha vez de arregalar os olhos.

- O que foi? – Lene se assustou com o meu gesto.

- Oh, meu Merlim, eu sou realmente tão... ui, Lene. Sou realmente medíocre.

Eu estava surpresa e enojada comigo mesma. Eu tinha ficado procurando na minha mente fatos que comprovassem que eu era, de fato, tão falsa quando Dough e Pâmela tinham dito e não tinha achado nada. E agora eu tinha percebido que além de falsa eu também era hipócrita, porque a verdade estava bem na minha cara: eu teria enganado Dough, se não fosse tão besta a ponto de deixar transparecer isso durante a conversa. Mas eu teria enganado, se não tivesse cometido esse deslize. Eu teria continuado com ele, mesmo sabendo que as coisas não eram mais as mesmas, que eu estava mais do que confusa com toda a coisa com James... mas eu pretendia continuar enganando-o. Eu era mesmo muito falsa.

- Dá pra parar de se xingar? – ela se sentou ao meu lado na maca. – Lils, amiga, você mesma não tinha me dito que não amava o Dough...?

- Não amar é uma coisa, né, magoar alguém assim é outra totalmente diferente – eu queria me enfiar num buraco negro e nunca mais voltar.

- Ah, não, Lils! – ela me balançou pelos braços. – Culpa não é legal, não comece a se sentir culpada, por favor.

- Eu sou culpada, Lene, eu o enganei.

- Você não o enganou, pelo amor de Merlim! Você e o James se beijaram, aconteceu, você não estava o traindo ou coisa assim!

- Claro que estava! – eu fiz uma careta.

- Lily, qual é. Nós duas sabemos que você não estava traindo seu namorado. Você não estava de caso com James, não planejou nada, não estava ficando com ele pelas costas. Vocês só se beijaram hoje...

- Lene, eu estou me sentindo péssima, sério – eu olhei meio reprovadoramente para ela. – Primeiro que eu estava, sim, o traindo, só pelo fato de ter intenção de continuar enganando ele. Segundo, eu n-

- Continuar enganando? – ela me interrompeu. – Lil, você só não ia contar isso, pronto.

- Lene! – eu choraminguei. – Eu... eu... ah, estou confusa!

Ela olhou bem pra mim e alguma coisa no meu olhar a fez compreender que a grande questão - o meu grande problema - não era ter acabado com Dough e sim ter o magoado e – ao mesmo tempo – ter percebido que eu era hipócrita, porque estava totalmente envolvida com James, por mais que eu não quisesse.

- Oh, você gosta dele agora. De James, não é? – Lene disse meio que balançando a cabeça pra pôr os pensamentos em ordem. – Você gosta bastante dele, agora.

Eu ri sem humor.

- Eu não tenho certeza – eu me sentia totalmente impotente. Eu queria poder fazer alguma coisa, tomar uma providência, tirar essa confusão de dentro de mim.

- Lily – Lene se virou para mim, séria. – Você primeiro tem que se entender com você mesma – ela disse quase como se pudesse ouvir meus pensamentos. – Ou você está apaixonada por James ou não está. Não é o tipo de coisa da qual você não tem certeza.

- Eu... sinceramente não sei. Não sei, Lene! Se isso for se apaixonar...então eu nunca me apaixonei por ninguém... nunca me senti assim antes, eu... – respirei fundo, deixando meus ombros caírem. – Eu não sei – terminei, fazendo bico.

- Mas você gosta dele – não era uma pergunta.

- Muito – eu respondi mesmo assim e logo em seguida arregalei os olhos novamente. Olhei pra ela, assustada. – Oh, Merlim, isso não é certo...

- Bom, pelo menos agora você já sabe – ela teve a coragem de rir.

- Nossa, suponho que isso resolva muita coisa –revirei os olhos.

- Não sei o que você vai fazer, mas nisso eu não posso te ajudar, você sabe – ela me olhou com uma mistura de pedido de desculpas com incentivo. – Mas pelo menos fiz você parar de chorar e de se xingar! – ela abriu um sorriso e eu sorri de volta pra ela.

- Obrigada, Lene – eu a abracei de novo. – Obrigada por me aturar. Te amo.

- Eu também te amo, Lils – ela sorriu e se levantou, mas antes de voltar a falar foi interrompida:

- Nossa, que lindo, vocês até formam um belo casal – a voz sonolenta de Pâmela ecoou pela ala hospitalar. Eu me assustei porque pensei que ela tinha ouvido a parte do 'eu e James, a gente se beijou', mas quando eu olhei pra ela, ela ainda estava abrindo os olhos, então eu supus que ela tinha acabado de acordar.

- Você já pode sair daqui? – Lene me perguntou, revirando os olhos.

- Acho que não – olhei para o meu tornozelo arruinado.

- Logo poderá, espero que essa seja a última dose – Madame Pomfrey chegou do nada ali, com um pouco de Esquelesce.

- Argh, eu também – fiz careta antes de tomar aquele troço nojento. Enquanto eu tentava controlar a vontade de vomitar, por causa do gosto daquilo, Madame Pomfrey também entregava uma dose de Esquelesce para Pâmela.

- Então ela vai poder ir embora hoje ainda? – Lene perguntou animada.

- Talvez... acredito que os ossos do tornozelo já estejam quase totalmente reparados.

- A senhora não tinha dito que eu sairia só amanhã?

- Bom, eu achei que fosse preciso... mas estava errada, você se recuperou muito bem. Acho que ajudou o fato de ter dormido bastante.

- E eu? – Pâmela perguntou esperançosa.

- Bom, como no seu caso não eram só ossos, eu acredito que a senhorita terá que ficar mais um dia ou dois... e ainda tem o fato de que você ficou acordada até uma hora da manhã, tentando fazer com que o Sr. Potter saísse do lado da maca da senhorita Evans e viesse para o seu lado.

- Oh, por favor! – Pâmela fez careta, com certeza ela não tinha gostado que Madame Pomfrey tivesse feito com que eu ficasse sabendo disso. - Não dá pra acreditar que vou ter que ficar mais dias! – ela gritou emendando, irritada. – Qual é, só foram alguns ligamentos...

- Pois é – Madame Pomfrey crispou os lábios. – Quem sabe aprendam a não sair no tapa da próxima vez - ela terminou em tom solene, arrancando algumas risadinhas de Marlene.

E depois disso, Pâmela resmungou por mais um tempo e Madame Pomfrey foi tomar café no Salão Principal. Lene ficou comigo na ala hospitalar, comendo na minha bandeja que os elfos tinham entregado e aí o povo todo chegou na ala hospitalar enquanto Madame Pomfrey ainda estava tomando café. E, bem, quando ela voltou não ficou nem um pouquinho feliz quando viu que Sirius estava imitando um patinador no gelo, com os pés enfiados naquelas comadres, e mandou todo mundo ir embora dizendo que eles estavam banidos dali. E quando Sirius fingiu não ter ouvido e puxou Madame Pomfrey e começou a dançar com ela, ela expulsou-os aos gritos dizendo que ia repensar o tempo da minha permanência aqui. Quer dizer que eu passei o resto do dia sem mais visitas. Eu fiquei frustrada com isso. Porque ficar sozinha significava não ocupar a mente e eu ia começar a pensar besteiras. Ou não exatamente besteiras, eu ia começar a pensar em coisas importantes, nas minhas confusões, nos meus sentimentos... Eu tentei evitar ao máximo começar a pensar nessas coisas. Eu cantei o hino de Hogwarts umas três vezes, até conseguir me lembrar direitinho de todas as palavras e entonações, e depois ainda cantei outras músicas, mas isso não adiantou por muito tempo e eu fiquei agradecida quando o almoço chegou e Pâmela começou a resmungar que ela não queria aquelas bistecas porque estava fazendo regime. E eu fiquei a provocando e ela - tão convenientemente - ficou retrucando e me fazendo rir com as besteiras que ela fala sem perceber. Só que aí ela se lembrou que Madame Pomfrey disse que dormir tinha influenciado na minha recuperação, virou de lado e começou a roncar instantes depois. Bem assim, como uma porca. Comeu e dormiu, fazendo barulhos horrendos. Então eu resolvi dormir também, mas não deu muito certo porque enquanto eu esperava o sono chegar eu meio que devaneava sobre o beijo de hoje de manhã, e sobre a briga com Dough.

E eu não queria fazer isso, de maneira alguma.

Em algum momento dessa minha batalha mental, eu dormi. Sei que quando acordei já passava das quatro da tarde, e Madame Pomfrey veio tirar meu gesso da perna e a tala do dedo. E passou mais uma vez aquela gosma no hematoma do meu rosto e me fez andar um pouco, pra ver como meu tornozelo se sairia. Eu fiquei toda sorridente quando vi que conseguia até dar uns pulinhos sem problema nenhum! E mexi minha mão, testando meu dedo, que estava em perfeito estado. Fui ao banheiro e aproveitei para prender meu cabelo num rabo de cavalo frouxo, e quando eu voltei Madame Pomfrey me fez tomar uma poçãozinha lá, que era pra tirar o leve inchaço que ainda deixava meu rosto meio estranho. Depois disso eu resolvi encarar meus problemas. Eu tenho que pensar? Então eu vou pensar. Diário, aí vou eu!

Bom, o primeiro problema (o maior de todos eu diria) se chama James.

Ele me ama, ele fez questão de me falar isso. Tornou a coisa toda tão grande que é quase como se eu pudesse sentir aquele troço aqui, do meu lado.

Eu descobri que gosto dele. Mas eu o amo?

Oh, Merlim, eu não deveria ter começado a pensar. Como assim "eu tenho que pensar? então eu vou pensar"? EU NÃO QUERO PENSAR.

Eu não amo James Potter, isso não é nem ao menos possível! É? É possível uma garota que sempre disse odiar uma pessoa descobrir que essa pessoa não é tudo aquilo que ela pensava, que a pessoa pode ser bem legal, pode ser divertida, pode fazê-la dar risada, fazê-la sentir bem... que essa pessoa pode ter um cheiro bem agradável, olhos impressionantes, ser romântico! Pode ter um jeito fofo, pode falar "eu te amo" sem esperar uma resposta e beijar incrivelmente bem...

Ai, droga.

Eu amo James. Amo James.

James Potter! Eu realmente o amo. COMO ISSO É POSSÍVEL? Como foi acontecer? MERLIM. Tenho que me acostumar com essa idéia, mas tudo bem. Então supondo que eu realmente o amo, eu tenho que decidir o que vou fazer. Porque bom, ele me ama, e acho que eu descobri que também o amo, então, argh.

Vamos pular essa parte, vamos para o caso Dough.

Dough terminou comigo. Ele saiu magoado, traído e decepcionado, como ele fez questão de me dizer. Ele me ama também, como ele sempre me dizia. E ele tinha me pedido em namoro mesmo sabendo que eu não o amava. Mesmo eu dizendo com todas as letras: "Dough, eu não sinto o mesmo por você. Eu te adoro, mas não posso te responder 'eu também' quando você diz isso pra mim". Eu não tinha sido cruel, só honesta. Honesta, pff. Se alguma vez eu fui honesta, com certeza não foi com Dough.

Eu sinto culpa e pesar. Sabe, eu me sinto terrivelmente culpada por ter magoado ele dessa maneira, por mais que eu já tenha pensado que - na verdade - ele foi tão enganado quanto eu mesma, já que eu nem tinha me tocado do quão hipócrita eu sou.

Mas a situação com Dough é muito mais fácil de ser resolvida. Eu acho muito difícil que ele queira falar comigo depois disso tudo, mas eu vou tentar. Nem que demore, eu vou conseguir olhar nos olhos dele e fazê-lo entender que eu realmente sinto muito. Que eu queria que desde o começo eu tivesse sentido o mesmo e que a gente pudesse ter dado certo.

Eu vou fazer Dough acreditar nisso, eu tenho que conseguir. E aí, talvez, minha culpa diminua um pouco.


N/A: Eu estou empolgada, HAHAH. quem sabe eu consiga escrever o capítulo 26 hoje. *-*

Respondendo as reviews:

Mila Pink: Até eu me senti orgulhosa dessa briga que eu escrevi! :D sirius tem coisas pra contar, sim. e dough vai se ferrar, sim. HAHAHAHAH obrigada, beijo!

Leeh: obrigada, muito bom ter leitores novos e saber que eles gostam da fic *-* beijos!