Oi, oi, pessoas mais queridas do mundo!
Iara, eu agradeço demais pelos elogios sua linda! Sabe isso que você citou sobre o Nietzsche... Sabe que eu sinto que com quem escreve é um pouco diferente? Não que não seja uma fuga da realidade, mas que a gente precisa fugir e se afastar dela primeiro pra depois escrever... é bem difícil escrever quando a gente está contaminado com a objetividade da vida, sabe? A gente se torna mais prático e menos poético, e, apesar de eu gostar muito de leituras práticas, não é assim que eu gostaria de escrever. E, claro, você não está sendo egoísta não, oras! Se é pra vocês mesmo que eu escrevo!
Lindíssimas que já respondi em pv: Mais beijos aqui ó: :-*
Esses dias, quis me distrair e li uma fic nova, não muito longa, pq o tempo tava curto... aí eu vi um desdobramento e comentei com a autora, que, por coincidência, também é fã da Luna! Pra quem lê em inglês dêem uma olhada na fic A Kiss for the Netherfairies. A Hermie dela é simplesmente maravilhosa! É pós guerra, (a Hermie voltando para concluir os estudos) e, num momento meio tenso o Snape ameaça ela com tirar pontos, detenção, sei lá... e a resposta dela, gentem! Juro que falei junto com ela "depois de enterrar meus amigos, de ser torturada, de passar fome, frio, medo por um ano inteiro, você vem me ameaçar com pontos e com detenção? Ah, não me faça rir!" Leiam, é linda demais! Aí, se quiserem, a gente fica conversando sobre nalgum canto por aí!
Voltando pra essa fic aqui: Gente, é chegada a hora das engrenagens girarem... Nossos heróis já se entenderam e estão se dando bem. Hora de suarem a camisa, de fazerem valer seus títulos. Lógico que não vão deixar de cuidar um do outro ou de terem seus momentos de proximidade, afinal estão juntos, não? Mas precisam trabalhar também... A parte mais difícil para a Hermie já passou, ou passará aqui - ai, pessoas, me desculpem mas eu morri de dó, vocês vão entender ao longo da leitura - e os cuidados com o Sev são muito mais medidas de longo prazo, um tratamento prolongado para um mal crônico, pode-se dizer... O surgimento de um novo Senhor das Trevas é questão de tempo agora. Basta um cara mais poderoso que a média se achar injustiçado e querer se banhar no sangue puro que a desgraça tá feita...
Então, sem me delongar ainda mais, vamos ao que interessa: Capítulo de mistério. (com uma inegável dose de romance, claro, porque logo, logo esses dois descobrem que não conseguem tirar as mãos um do outro.)
Divirtam-se.
Diferente do que ela imaginara, escolher o vestido não fora a pior parte. Ela ficara feliz ao descobrir que as bruxas que atendiam nos requintados ateliês londrinos eram praticamente legilimentes. Ela queria elegância, discrição e conforto, e foi o que lhe deram em um vestido fluido com mangas longas em tule e renda, e um requintado bordado na cintura. Optara por um buquê de jasmins e flores do campo brancas, mas pedira que um par de tulipas negras fossem acomodadas discretamente entre as elas. O perfume das flores agora tentava acalmá-la, enquanto esperava por sua querida Minerva para levá-la até o altar. Ou como quer que se chamasse um degrau de água sólida no meio do Lago Negro. Hermione sabia que tinha um débito com o local, afinal, fora onde ele a levara em seu primeiro encontro, há tanto e tão pouco tempo.
Por sugestão de Gina, escolhera um scarpin branco com pedrarias vermelhas no salto. Ficaria quase imperceptível contra a superfície espelhada à noite, mas ainda guardaria seu significado. Uma tiara de tranças e flores acomodava um véu delicado, enquanto o restante de seus cachos lhe caía pelas costas. Ela quis que suas poucas sardas aparecessem sob a maquiagem discreta. Gina não concordara com as meias. Segundo ela, o vestido longo não deixaria que ninguém as visse, e Snape só tomaria conhecimento delas no dia seguinte, quando recolhessem as roupas espalhadas pela casa. Hermione não pôde evitar que a imagem lhe corasse a face agora, ao se lembrar da amiga, madrinha de seu noivo.
Os convidados representaram apenas trabalho extra, não propriamente desafio. Mais de oitocentos malditos convites, dos quais Hermione tinha esperanças que ao menos um terço não desse as caras. Era muito perturbador ter tantos pares de olhos sobre si. Absolutamente todos os bruxos e bruxas que trabalhavam na Prince Poções, absolutamente todos os professores e funcionários de Hogwarts, os futuros colegas de trabalho de Hermione, os seus antigos colegas de Hogwarts e Beauxbatons além de seus respectivos familiares. Aqueles casais formados pelo Ministério entre bruxos da mesma orientação política foram cuidadosamente estudados e, desde que fossem de alguma forma relacionados aos outros convidados, também receberam o convite.
A equipe do cerimonial era solícita, paciente e atenciosa. Tudo fora perturbadoramente fácil de se escolher, é claro. Era trabalho, e não a realização de um sonho.
A pior parte era aquela espera. Queria terminar logo tudo aquilo, sentia-se fútil além da conta sob tantos mimos e atenções bem pagos. Seria uma socialite bruxa após aquela noite, precisava se familiarizar com a futilidade. Faria seu trabalho no Ministério para manter as aparências, em um segundo nível, receberia e seria recebida em bailes, jantares e festas. Manteria sua sanidade repousada no terceiro nível, sua missão de desmascarar os bruxos que lutaram ao seu lado e agora cada vez mais se aproximavam da tirania. E, naqueles momentos críticos, quando todas essas máscaras sobrepostas ameaçassem sufocá-la, refugiaria-se em seu amor por seu Severus. Não tinha como dar errado, certo?
A porta do salão se abriu, interrompendo sua linha de pensamentos e dando passagem à sua antiga e querida nêmesis, em uma maquiagem pesada e um vestido roxo bufante. Hermione sorriu ao reconhecer algumas marcas de idade em Rita Skeeter. Estava preparada para ela.
Na terça-feira, quatro dias antes do casamento, enquanto liam as enfadonhas colunas sociais dos jornais, Hermione se atentou para uma certa nota de casamento. O Grifinório Oliver Wood, craque do quadribol, elegante, belo e refinado, casara-se há duas semanas com uma sonsa sonserina nas palavras de Rita. Intrigada, Hermione procurou outras notas da jornalista para comparar e viu que ela fora bastante benevolente ao falar de Oliver Wood, o que era no mínimo estranho pois em todas as outras notas, o cônjuge da Sonserina era sempre enaltecido. Observou também que os elogios de Rita ao Puddlemore United, time de Oliver, eram recorrentes quando a jornalista tratava de esportes. Aquilo era bom demais para ser verdade, ela precisava conferir pessoalmente. Na seção de esportes do Profeta Diário do dia, buscou pelo próximo treino do Puddlemere United, que começaria dentro de menos de uma hora. Ela comentou o assunto com Severus, que, desagradado, concordou que não poderia acompanhá-la: chamaria muita atenção. Hermione subiu as escadas como um raio e, em seu quarto de infância, aplicou uma base um ou dois tons mais escuros que sua pele, delineou os olhos de preto sólido, puxando bastante os cantos, para amendoar o olhar e apagou e deu um pouco mais de volume aos lábios com um batom bege claro. Em seguida transfigurou um lenço azul celeste em um hijab com franjas, ciente de que a burca levantaria muito mais suspeitas. Vestiu um vestido preto e solto, de mangas longas, calçou sapatilhas baixas e enrolou sem muita habilidade o hijab na cabeça e pescoço, tomando o cuidado de ocultar completamente seus cabelos, sua marca registrada. Em uma bolsa de contas, colocou binóculos e orelhas mágicas, um antigo presente dos gêmeos Weasley. Estava perfeita para uma muçulmana.
Snape a observou descer as escadas um pouco insegura com novo visual. Foi até ela com um olhar divertido, tomou seu rosto entre as mãos e a beijou sem aviso prévio.
- Você não tem permissão para sair sem mim, mulher.
Ela estreitou os olhos teatralmente e sorriu em seguida.
- Volto em duas horas, no máximo.
E ao voltar, na verdade em menos de uma hora e meia, era a própria imagem da vitória:
Nas arquibancadas do campo de Quadribol, sentara-se próxima a um grupo de indianos, logo após certificar-se de que não eram os Patil. Rita, evidentemente na cabine de imprensa, não parecia atenta ao que acontecia no jogo, exceto quando a ação acontecia próxima aos aros defendidos por Oliver. A repórter mal se contivera quando Oliver, ao tentar evitar um gol, deslocara o ombro esquerdo. Ele fora levado aos vestiários para atendimento e fora substituído. Nada sério. Ao voltar-se para a cabine de imprensa, a garota vira que Rita não estava mais lá. Hermione, então, saíra do estádio e o contornara, procurando pelos basculantes do vestiário. E o que ouvira ali através da orelha mágica a fizera corar mesmo sob a maquiagem escura e pesada.
- Quem diria que a femme fatale adolescente, heroína de guerra de Hogwarts, se casaria com seu professor Comensal da Morte, não é mesmo? - disparou em uma voz estridente e atrevida, enquanto um par de câmeras flutuantes registravam a noiva continuamente de todos os ângulos possíveis.
Hermione deixou escapar um risada macia e gostosa. Tinha amadurecido com os anos, essas provocações não mais lhe diziam respeito.
- Você está luminosa hoje, Rita, querida! - ela respondeu com a voz doce e honesta enquanto posava para uma das câmeras - Venha, venha. Sente-se. Aceita um chá de hortelã? - em um aceno displicente sem varinha, a noiva serviu a bebida quente em um conjunto de porcelana requintada. - Oh. Meu. Deus! Seus óculos são lindos, meu amor. Posso fazer umas fotos com ele, por favorzinho? Vão quebrar esse branco monótono. Quem precisa de um rosto tão bonito quanto o seu com uma obra de arte destas, hein?
A jornalista, atônita com a reação imprevista de Hermione, não esboçou reação quando a garota tomou-lhe das mãos os óculos estreitos adornados com ametistas e quartzos rosados. Ela colocou os óculos e mandou alguns beijinhos para as câmeras, fazendo mil poses diferentes. Evidente que observou bem se as lentes não possuíam algum encantamento. Devolvendo o aparato à repórter, pegou uma câmera e fotografou a loira algumas vezes, deixando que a outra câmera registrasse a cena. Deu um beijo na lente depois de observar que as câmeras apenas continham feitiços de levitação e de funcionamento automático. Aquelas fotos se tornariam seu orgulho em seu álbum de casamento.
- Ah, me perdoe, meu bem! Tenho certeza que não está aqui para matar a sede, acertei? Vamos lá, dispare todas as suas dúvidas. - a noiva estufou o peito afetadamente, oferecendo um bom alvo para as munições de Skeeter, que demorou alguns segundos para se recompor.
- Ahn, bem... bem, vejamos... Você... sempre se interessou pelo seu professor, mesmo tendo um caso com O Escolhido?
Hermione se concentrou para manter-se dentro do personagem, era a sua deixa.
- Rita, eu pre-ci-so te dar um conselho, amiga: não perca seu tempo com esses meninotes. Se é menos de dez anos mais velho que você, não vale a pena. Veja bem, por exemplo, o Senhor Wood e o Oliver Wood: O senhor Wood é um homem feito, viúvo, elegantíssimo e refinado... - O rubor de Rita ao ouvir o nome do goleiro do Puddlemere quase rompeu a concentração de Hermione. Inclinando-se conspirativamente para a repórter, a noiva continuou em tom conspiratório - enquanto que o filho, meu bem, além de ter acabado de sair das fraldas, é casado, não é mesmo?
Hermione serviu mais chá para Skeeter, dando tempo para que ela se recuperasse do choque. A loira pigarreou e bebeu um pouco do chá antes que voltasse às perguntas.
- Bem... Arrãm... como você conseguiu notas tão boas nas outras matérias além de Poções? - Hermione sorriu quando Rita derramou um pouco do chá ao pousar a xícara no pires.
- Temos uma professora bem aqui, querida. Gostaria de perguntar a ela? - Hermione levantou-se a abriu a porta para uma Minerva muito, muito inquieta e ansiosa, que organizava seu vestido azul marinho com as mãos antes de bater à porta.
- Mas ora essa! Enquanto você bebe chá e joga conversa fora, seu noivo já está no altar, Senhorita Granger. - exclamou indignada. - Vamos logo que não há magia que dome a barba de Hagrid por tanto tempo, vamos.
- Só um instante, Diretora McGonagall. - respondeu a noiva, pegando um fio prateado com um pingente grande e eloquente de esmeraldas quase negras da penteadeira, abotoando-o sensualmente na nuca da jornalista, enquanto sussurrava em seu ouvido. - Pense nisto como suas credenciais de imprensa, meu amor. Eu devo dizer que combina maravilhosamente com os seus olhos.
Hermione, de braços dados com Minerva, despediu-se com uma piscadela maliciosa, deixando Rita Skeeter paralisada olhando para si mesma no espelho da penteadeira, enquanto o escaravelho verde-escuro caminhava pesadamente pelo seu cordão sob os flashes de suas próprias câmeras.
Hermione precisou da ajuda de Hagrid para embarcar tanto quanto o meio-gigante precisou da ajuda da garota para acalmar o choro.
- Minha menina... Minha menininha... Casando...
- Mais essa! - exclamou McGonagall indignada - Controle-se, Hagrid! O casamento ainda nem começou. - ralhou.
-Eu queria te dizer, Hermione, que eu me importo muito com você... Que você era uma aluna ainda quando ficou minha amiga... - ele falava aos soluços enquanto conduzia o barco - Eu lembro de você deste tamanho, dando comida pro Canino... e tomando chá comigo... Eu nunca vou esquecer o que vocês fizeram pelo Bicuço...
-Ah, Hagrid...! - Hermione murmurou em um sorriso emocionado.
- Sabe, ninguém nunca me respeitou tanto... e ao mesmo tempo, nenhum aluno nunca foi tão meu amigo... Quanto você... e os seus amigos...
Se aquilo continuasse, logo Hermione estaria chorando tanto quanto ele.
- E agora... agora você está se casando... não é mais a minha menininha...
Hermione, pulou nos braços do amigo desequilibrando o barco e fazendo Minerva agarrar-se ao mastro que portava o lampião.
- Você sabe o que Mme Maxime vai fazer com você se te ouvir falar assim, né, Hagrid? - ela o ouviu soluçar uma risada em seu ombro - Eu vou ser sempre a sua menininha, contanto que ela não saiba!
- ... vai mesmo?
- Claro! Quem mais vai me consolar quando o Draco brigar comigo de novo? Quem vai comer biscoitos comigo olhando a floresta refletida nesse lago? Quem vai impedir o Canino de lamber o meu rosto?
O meio-gigante deu uma risada gostosa.
- Eu lembro disso! Ele babou no seu cabelo todo e você disse...
- ... que o Canino era o único que conseguia alisar o meu cabelo.
Os dois explodiram em gargalhadas, enquanto McGonagall revirava os olhos.
- Ai, ai. - suspirou ela com o maxilar doendo de tanto rir. - Por tudo isso e por todas as milhares de outras coisas, seu bobo, não precisa ficar triste! Você também se casou, e nem por isso deixou de ser o meu Hagrid!
- T... Tem razão, Hermione! Como sempre! - duas lágrimas ainda molharam sua barba, antes que o meio-gigante conseguisse se controlar totalmente. Tentando tornar o tom um pouco mais sério, ele puxou-a para si e beijou-lhe a testa. - Olha, se algum dia, alguma vez, o Professor Snape te magoar, eu vou estar aqui pra você, Hermione. Você promete que vai me procurar se você precisar? A qualquer momento?
- Prometo! - respondeu, enlaçando sua mão ao dedo mínimo ao dele e sorrindo.
Seria injusto afirmar que Snape estava muito diferente do habitual, mas havia nele algo especial, algo que ela não conseguia apontar. Os cabelos negros e longos presos com uma fita de cetim lhe faziam parecer mais jovem. Suas vestes também, apesar de negras como sempre, eram menos pesadas e seu rosto, embora também como de costume, não sorrisse, parecia aberto e feliz. Quando Minerva lhe passou a noiva, Severus beijou-lhe a mão com elegância.
Pouco após o estabelecimento da Lei Matrimonial, surgira, a princípio timidamente, o costume de se convidar o Ministro da Magia para os casamentos. Afinal, de certa forma, ele era o responsável por aquela união. No fim do segundo ano de vigência da Lei, os convites já eram tantos que se tornara simplesmente impossível para o Ministro Kingsley Shacklebolt comparecer a todas as cerimônias. Mas para ver o casamento entre dois heróis de guerra, ambos condecorados com a Órdem de Merlin; ela, a Garota de Ouro, que lutou ao lado d'O Escolhido e por vezes sem conta, salvou sua vida com seus conhecimentos e poderes muito além de sua idade; ele, um dos mais poderosos bruxos da Inglaterra, acusado de assassinato, julgado como Comensal da Morte, enfim revelado agente da Órdem da Fênix infiltrado e insuspeito no mais íntimo círculo das Trevas; sim, para eles, o Excelentíssimo Senhor Ministro da Magia tinha algum tempo sobrando.
A cerimônia fora rápida, com o objetivo de não entediar os convidados "especiais" que haviam ido até lá unicamente pela festa. Eles precisavam permanecer animados e comunicativos até lá.
Harry levara a aliança que Snape colocaria no dedo de Hermione e ficara nervoso com a responsabilidade. Já Luna observava o piso de água sólida calmamente sorrindo com o interesse dos sereianos no evento. Eles conheciam, além da noiva e do padrinho de Severus, Fleur e sua irmã e tentavam acompanhá-los por baixo da camada sólida, curiosos e um pouco perturbadores.
As alianças eram duplas, ouro branco e amarelo entrelaçados, a de Hermione tinha dois discretos diamantes em cada aro e a de Snape fora trabalhada para parecer as escamas de uma serpente.
Mesmo se tratando de uma parceria de trabalho disfarçada em relacionamento romântico, Hermione tremeu enquanto lhe colocava a aliança. Quem diria que as mãos mais hábeis e impressionantes de Hogwarts algum dia usariam um anel com o seu nome gravado?
Após a cerimônia, o casal se dirigiu a uma cascata de água furta-cor, entrando sob sua queda. A cascata funcionava como uma lareira e estava diretamente conectada a outra cascata, esta em um amplo e bem decorado salão de festas na Londres bruxa. Severus ajudou a noiva, infeliz em seus saltos de mais de dez centímetros, a sair da lagoa mágica, ambos completamente secos pelos encantamentos contidos na água mágica. Os convidados os seguiram imediatamente.
Mas não houve trégua para os pés cansados dela durante a valsa, em que os recém casado trocavam de par, chamando os convidados para a pista de dança. Hermione cuidou de dançar com diversos funcionários importantes do ministério, sempre sorridente e simpática, sempre perguntando sobre a família e o trabalho. Não ouviu grandes revelações de nenhum deles, mas a festa estava apenas começando e ainda havia muito a se beber antes que as verdades pudessem sair; aquele era apenas um primeiro contato, uma apresentação inicial onde, no máximo poderia notar alguns pontos fracos. Christofer e Charllote Krumble, por exemplo, não pareciam felizes em seu casamento. Ele trabalhava no Departamento de Mistérios, um senhor de aproximadamente cinquenta anos que se casara muito antes da Lei Matrimonial. Phillipe Granard parecia galanteador demais para um recém casado, especialmente considerando que se casara com sua namoradinha de infância que conhecera na sala comunal da Grifinória, seis anos atrás. Ela notou Horace Slughorn portando um copo de uísque e um tanto perdido sem ninguém com quem conversar e o trouxe para a pista de dança. Foi impossível não olhá-lo com outros olhos, olhos mais carinhosos, talvez, após saber que ele havia impedido a expulsão do Snape adolescente. Não que ele tivesse feito mais que a sua obrigação, mas, por outro lado, quem cumprira se quer metade da sua obrigação com aquele garoto?
Às vezes o olhar dela cruzava com o de Snape enquanto dançavam com outras pessoas. Ele dava a ela um discreto erguer de sobrancelha e ela lhe sorria cheia de dentes, assegurando-o de que estava tudo dentro do esperado.
Após encherem a pista de animados convidados, Severus encontrou Hermione descalçando os saltos próximo à cascata-lareira.
- Não tire. Vai doer mais depois, quando você os calçar.
- Quer trocar? - disparou, fingindo-se de irritada - Aposto que ninguém vai perceber.
Estavam sendo observados, claro. Severus, sem meias palavras, a pegou a noiva no colo e a levou sob falsos e divertidos protestos para a sala ao lado, a qual o cerimonial utilizaria para as mesas e para o bolo. Não havia ninguém ainda, pois só seria aberta no momento do jantar. Os pratos ainda estavam sendo organizados, mas o bolo já estava lá, protegido de um eventual acidente com uma magia poderosa.
- Aqui você não corre o risco de pisar em um caco de vidro. - disse, colocando-a de volta no chão.
- Que exagero, Severus. A festa está só começando... De qualquer forma, obrigada pela carona. - ela pousou um beijo no ombro dele e foi em direção ao bolo. Mais íntimo da alta sociedade bruxa que ela, ele fizera todas as escolhas da festa, desde os convites até a despedida dos noivos. E isso incluía o bolo.
Ela se lembrou de uma das fotos do casamento de seus pais: Jean, com as mãos na cintura, tinha glacê na ponta no nariz e olhava para o noivo falsamente nervosa, enquanto ele apontava e ria. Eram raros os momentos de descontração que ela presenciara, ambos eram bastante sérios no dia-a-dia, por isso aquela foto era tão especial para ela. Agora nenhum dos dois veria a filha se casar. Tendo em vista todas as coisas horríveis pelas quais poderiam ter passado, ela se consolava ao pensar que tiveram uma morte instantânea nas estradas desertas da Austrália. Mas isso não preenchia o vazio que deixaram em seu peito.
Parecia um bolo de casamento comum. Luxuoso com seus quatro andares, com os desenhos na cobertura imitando a renda de seu vestido e flores de glacê semelhantes às do seu buquê, ainda assim comum. Entretanto, ao se aproximar, ela notou os noivinhos no topo do bolo. Snape se aproximou quando a viu limpar uma lágrima do canto do olho.
Ele segurou a mão dela e tocou-lhe o rosto, com sua forma toda especial de perguntar a ela qual era o problema.
- Foi você que escolheu? - ela perguntou em um sussurro.
Não era necessário ser um legilimente, tampouco ter duas décadas de experiência com espionagem para lê-la como leria seu periódico favorito. Afinal, fora sua intenção ao escolher os bonequinhos animados. Sobre o bolo, um homem de cabelos negros estava sentado em um sofá baixo e confortável, as longas pernas cruzadas displicentemente, o nariz aquilino metido em um livro, passando lentamente as páginas, enquanto acariciava, hora o rosto, hora o ventre da mulher deitada no sofá com a cabeça em seu colo, esta em um moletom confortável, as pernas dobradas e cruzadas, os pés descalços sobre o sofá, também concentrada em sua leitura. Os cabelos volumosos dela se espalhavam pela calça preta dele e às vezes ele enrolava um cacho dela nos dedos sem interromper a leitura. Vez por outra se olhavam, ela lhe sorria e então voltavam aos seus queridos livros.
O noivo original abraçou Hermione pelas costas, dando-lhe apoio sem tomar-lhe o espaço, sem pedir que engolisse sua emoção. De onde, em nome de Merlin, viera toda a habilidade daquele homem ao lidar com ela, ainda lhe parecia um mistério. Ele lhe beijou a têmpora e Hermione acariciou seus braços protetores. Podiam ser um só, sendo dois, assim como o casal sobre o bolo.
- Eu não tenho medo do nosso destino, Severus, seja ele qual for. - disse, ainda emocionada, ao se voltar para ele e esconder o rosto em seu peito - Mas eu tenho medo de não haver sofás ou livros pelo caminho. Você me promete que não vai deixar eu te fazer infeliz?
Ele tomou o rosto dela entre as mãos para olhá-la nos olhos. Talvez um dia ela viesse a saber o quanto sempre lhe impressionava a pureza da honestidade nos olhos dela.
- Se você me prometer que não vai deixar eu te ferir...
Ela o abraçou novamente, aos poucos controlando suas emoções. Tinham de comparecer a um casamento.
Foi algo divertido observar os olhares sobre ela quando saíram da sala. Ela esperava que a imaginação de seus convidados não prejudicasse seus apetites.
Hermione encontrou Will, elegante com os cabelos longos presos por uma fita de veludo, e, ao abraçar Fleur, retirou discretamente do decote a prometida mata-cão. Snape se aproximou e, discreto como uma serpente, fez perguntas ao Weasley, confirmando o que Hermione já verificara: as chances de que ele fosse um profeta eram mínimas. Por sobre o ombro de Fleur, Hermione viu George saindo do salão e indo pro jardim e, com uma rápida promessa de se falarem em breve, apertou o passo para alcançar George. Fazia tanto tempo que eles não se falavam...
Snape, ainda discretamente tocou o braço dela, estranhando a pressa. Ela disse, já se afastando, que gostaria de dar um beijo no George e ele que ele fora na direção do jardim. Severus assentiu e voltou-se para a conversa com Fleur e Will, mas alguns instantes depois, do alto de seus vinte centímetros a mais que Hermione sobre o salto, ele viu, lá no fundo do salão, George conversando animadamente com Minerva.
George já entrara no labirinto de cerca-viva, quando ela, temendo perdê-lo de vista, gritou seu nome.
Ela não poderia ter ficado mais surpresa quando viu que o homem que se voltou para ela era, na verdade, Ronald Weasley.
Em choque, ela se apoiou em um poste de luz.
- É, eu vim. Desculpa, eu precisava ver com meus próprios olhos. - ele acenou envergonhado por ser pego em flagrante - Agora que eu já vi, eu vou embora, não precisa mandar.
Ela hesitou por um instante, medo e raiva se misturando em seu peito.
- Ver o quê, Ronald? - gritou ela, para se assegurar de que seria ouvida - Ver que eu estou me casando com o Snape? - ela manteve a voz alta embora ele estivesse se aproximando - ver que estou me casando com o meu professor? Ver eu estou feliz e que ele também está? Que ele é mais que capaz de ser um perfeito cavalheiro?
Ronald estava a apenas uns poucos passos de distância dela. Perto o bastante para que ela pudesse olhá-lo nos olhos, e ele chorava. Um choro silencioso e sofrido.
- Não, Hermione. Ver que você não está se casando comigo.
Apesar de tudo, isso ela pode sentir. Ela se sentou em um banco do jardim próximo ao poste que a amparara durante os piores momentos do choque, e se sentiu realmente triste por ele. Mas não tinha jeito.
- Eu sinto muito... Ronald. Eu não podia mais... - ela disse em pouco mais que um sussurro.
Ele se aproximou mais, para ouvi-la, apesar do farfalhar da cerca-viva.
- Desculp...
- Eu não consigo, você me machucou demais Ronald. Eu sei que não foi sua culpa, eu sei. Mas não dá pra evitar.
- Hermione, por favor... eu só quero saber o que aconteceu. Só tinha o Monstro na casa e ele não abre a boca.
- Nada. Não aconteceu nada. - respondeu, um pouco rápido demais para ser crível - Nós brigamos, falamos o que não devíamos... nós dois saímos feridos de lá, irremediavelmente feridos.
Ela escondeu o rosto nas mãos. Perdido, Rony sentou-se no banco e levou a mão adiante, tentando tocá-la no ombro. Rápida e alerta, ela se esquivou do toque. Não tinha jeito.
- Não, por favor. Só... desculpa, Ronald. Eu não queria...
- Tudo bem, desculpa também... - ele respondeu sem-graça - O que eu quero dizer é... ao menos você está bem... Não está?
Ela forçou um sorriso por entre as lágrimas e assentiu.
Ronald lhe devolveu um sorriso semelhante.
- Que bom, Mione. Eu fico feliz... Mesmo. Apesar de não parecer agora... Er... Bom, eu já vou indo... seus convidados... - ele se levantou, pronto para seguir em direção à saída.
Mas Hermione precisava pará-lo. Estendeu os dedos em direção à mão dele, mas não conseguiu se obrigar a tocá-lo. Era demais para ela. Como alternativa, chamou por ele antes que se afastasse.
- É que... eu queria te perguntar uma coisa...
- Claro, Mione... - ele se voltou confuso - Pode dizer.
- V-você ainda tem a Mantícora?
- Presa em um jarro - ele respondeu, ainda mais confuso - onde não pode fazer mal a ninguém. Por que?
- Manda ela pra mim?
- Se você tem certeza disso... Mas por que, Mione? O que você quer com ela?
- Eu te devolvo no dia seguinte. - vendo a hesitação nos olhos dele, ela acrescentou - Por favor, é importante pra mim...
- Se você quer aquele bicho malvado, tudo bem. Só não tira ela do jarro porque ela ferroa doído.
- Ela te picou outra vez? - Hermione perguntou em tom casual.
- Tá louca? Ela nunca mais saiu do jarro.
Hermione não pôde evitar um riso breve ante à espontaneidade de Ronald. Talvez... só talvez... um dia pudesse voltar a chamá-lo de amigo.
Ronald sorriu ao vê-la sorrir, como fizera tantas vezes, há tanto tempo, e se levantou afastando-se um pouco dela como se a distância fosse tornar aquelas palavras mais fáceis.
- Eu não sei o que eu fiz, Mione, só que foi muito, muito grave. Eu não espero que você me perdoe, nem que volte comigo, porque parece que o Snape, não sei como, está te fazendo bem. Mas eu quero que você saiba que, se eu pudesse mudar alguma coisa na minha vida, seria aquela noite.
Hermione deu-lhe um sorriso triste e emocionado.
- Eu acredito em você. Ron-ald.
Ele sorriu de volta, os olhos azuis cheios de lágrimas. E quando se virou para ir embora, ela o chamou outra vez.
- Er... espera. Por que você não fica mais? Quer dizer, tá todo mundo aí e você ainda nem provou o bolo...
Ele sorriu desajeitado, incapaz de olhá-la nos olhos.
- Obrigado, Mione. Você é a mulher mais especial do mundo. O Snape tem muita sorte de ter você. - ele disse passando por ela e voltando à festa.
Hermione não teve forças para se levantar imediatamente, continuou sentada no banco, tentando encontrar algum conforto em seus próprios braços.
- Nisto eu tenho que concordar com ele. - disse Snape ao sair dos arbustos - Muita, muita sorte.
Ele sentou-se no banco e entrelaçou seus dedos aos dela. Talvez através do toque da palma de sua mão ele conseguisse explicar a ela o peso que ela lhe tirara dos ombros...
