PURO ROMANCE
"O amor é o mais agradável
episódio do romance da vida."
Sophie Arnould
Capítulo 54
E continuaram ali, os dois, Mulder e Scully, abraçados, esquecidos do que os cercava... do seu trabalho, das complicações da vida, do mundo, enfim.
A chuva forte, benfazeja para o chão continuava a encharcar cada vez mais suas roupas.
E eles continuavam assim, tratando de deixar permanecer na sua mente somente os fatos interessantes e diferentes, como os daquele momento que estavam a usufruir do que a natureza pródiga lhes queria oferecer.
— Nunca você me abraçou tão fortemente como está fazendo agora, Mulder!
— Será mesmo? Estou tentando preservar a frente de sua roupa, colando você assim contra mim.
— Mas que diferença faz?
— Claro que faz! Você vai ficar com a roupa colada no corpo e aí... fica tudo à mostra.
— Ora, Mulder!
— Ora, por que? Você acha que vou deixar você ficar transparente na frente de qualquer um, lindinha?
Dana sorri, e encosta mais nele, suspendendo bem as pontas dos pés para poder assim, colocar o queixo no seu ombro.
— Scully, vamos voltar daqui mesmo?
— Sem ir até a fazenda, conforme convidou o homem?
— Hum, hum. - assentiu.
— Você é que sabe.
— Vamos voltar direto para o carro, onde o deixamos.
— Tá bom...
— Ok, lindinha! - falou assim em alta voz e ergueu-a nos braços.
— O que vai fazer?
— Não está vendo? Carregá-la.
Dana agarrou-se ao pescoço de Mulder e deixou-se levar.
Na torrencial chuva.
A água da chuva fazia escorrer pelo rosto de Dana os fios do seu cabelo despenteado.
Dez minutos de caminhada, já faziam Dana achar suficiente o tempo para Mulder carregá-la.
— Ah, não, Mulder! Eu quero continuar andando daqui. Me coloca no chão!
Ele fingiu não ouvi-la.
— Ah, vá Mulder! Me põe no chão!
Ele fitou bem o rosto da amada, conformado, e a colocou no solo.
Apressaram o passo para chegar logo até onde se encontrava o carro.
De mãos dadas. Sob a chuva. Molhados. Cabelos e roupas encharcados.
Alcançaram o carro. Mulder abriu a porta.
— Mulder... - balbuciou.
— O que?
— E as roupas?
Ele olhou a roupa molhada, grudada em seu corpo.
— O que tem ela?
— Mulder... vai molhar o carro.
— Ora, mas que bobagem!
Dana restringiu-se a menear a cabeça, desgostosa.
Num ímpeto, Mulder arrancou do corpo a camisa que vestia. A calça também.
— Mas que loucura! - exclamou Dana - Como é que pode você fazer isso? Estamos em via pública, Mulder!
— Via pública? Uma estrada deserta, a quilômetros da cidade?
— Tá. Você venceu. - ela disse, com ar desanimado, enquanto deslizava-se-lhe sobre a face as gotas da chuva forte que caia.
— Vem cá, Scully! - ele a apertou contra si, ardente.
Ficaram os dois ali, sob a chuva torrencial, deixando-se lavar pela límpida água que as nuvens despejavam lá do alto.
Que lhes importava a chuva? A roupa molhada? O frio querendo enregelar-lhe o corpo, se no seu interior a chama do amor os aquecia?
Que lhes importava, enfim, o mundo inteiro? Tinham um ao outro. Era somente com isso que se importavam.
— Mulder?
— O que?
— Veste a roupa. É melhor. Pode passar algum carro por aí.
— Eu explico que é moda aqui na região.
— Não brinca. Estou falando sério. - repreendeu-o
— E eu mais sério, ainda.
Continuou abraçado a ela, ardoroso. Como sempre.
— Mas não devemos ficar assim, Mulder! - reclamou, chateada.
— Tá. Então vamos dar um jeito. Entra no carro, Scully.
Ela fêz um ar de derrota, deixando os braços arriarem ao longo do corpo.
— Fazer o que? - foi só o que pronunciou.
Mulder ajudou-a a entrar.
Em seguida vestiu a calça e a camisa mesmo ali fora sob a chuva e em seguida entrou no carro, também.
— Não tem importância. Ao chegarmos em algum lugar, compraremos outras capas para os bancos.
— É... na verdade não deixa de ser uma solução, Mulder.
A cidade de modesto casario parecia um tanto acolhedora.
— Vamos naquela loja ali, Scully; tudo bem?
— É... tudo bem.
Na vitrine simples várias roupas expostas, mostrava haver confecções para homens e mulheres.
— Enquanto você vê o que quer, eu procuro uma roupa no outro balcão.
— Sim, Mulder.
Os olhos de Scully detiveram-se sobre um simples, mas simpático vestido de flores pequenas e suavemente coloridas.
Dirigiu-se à moça postada no balcão.
— Por favor, quero comprar aquele modelinho ali na vitrine.
A vendedora trouxe-lhe o número pedido do modelo que havia escolhido.
Após isso, Dana pediu-lhe calcinha e soutien a fim de escolher umas peças.
— E você, Mulder? - perguntou, dirigindo-se a ele.
Ele fez um sinal positivo com a mão, enquanto estava sendo atendido na outra parte do balcão por um rapaz.
Sairam ambos da loja com seus respectivos embrulhos.
Dirigiram-se para o local onde haviam visto uma placa, indicando ser um hotel.
O entardecer já havia chegado.
A chuva torrencial havia cessado. Apenas uma teimosa garoa insistia em cair sobre a pequena cidade.
Ainda com suas vestes ensopadas, dirigiram-se à entrada do hotel, no qual o recepcionista fora de extrema gentileza.
— Pode deixar, senhor, que o meu pessoal cuidará das capas do seu carro e logo, logo elas estarão secas. - respondera após saber dos desejos de Mulder.
—Assim espero. Obrigado.
Uma mulher empregada do hotel, levou-os a ocuparem um dos inúmeros quartos que formavam a hospedaria.
— Veja, Scully. Dá pro gasto, não?
— Nós estamos juntos, Mulder... o resto é nada...
Mulder sorri.
Ambos correm para o banheiro.
Precisavam tomar um bom banho e vestir as roupas novas e secas.
Mulder já havia deixado o banheiro, enquanto Dana ainda nele se arrumava.
Ele colocou-se diante do espelho do antigo guarda-roupa junto à parede.
— Scully! - chamou-a, olhando seu reflexo no espelho - Você vai gostar do que comprei!
— Já vou, Mulder! Estou saindo! - avisou lá de dentro.
— Não demora! Quero te v... - parou, embasbacado pela visão à sua frente.
Dana, no seu vestido um pouco longo e decote profundo, no tecido de lindo florido, parecia-lhe uma figura das que via em ilustrações de contos românticos.
— Você está linda, Scully!
— Não tanto quanto você, Mulder!
Ele parou para observá-la mais atentamente. Tomou-a nos braços.
— Você está simplesmente tentadora, Scully!
Permaneceram abraçados.
Ele a embalava, docemente, dentro dos seus braços. Aspirava o perfume que emanava dos cabelos dela.
Sentia-se feliz por estar ali, naquele lugar diferente e simples com a sua Scully.
— Dana...?
Ela afastou o rosto do peito dele para fitá-lo:
— Meu Deus! Acho que este lugar lhe deu inspiração...!
— Por que?
— Nunca me chama assim!
Ele a fez voltar a colocar o rosto contra seu peito.
Apoiou o queixo sobre seus cabelos; continuava embalando-a, com imensa ternura.
Dana beijava-lhe o pescoço de pele quente e veias pulsantes.
Ficaram assim, entregues às sensações singelas de um puro e infinito amor.
Entregues aos devaneios de inspirados pensamentos de amor que os levava a serem os protagonistas do mais puro romance.
— Mulder?
— O que?
— Fico pensando... e se um dia... algo nos separar...?
— Huum... não estrague este momento com tolices. Já tivemos uma vida inteira de indecisões, de incertezas... por que pensar nisso agora?
Ainda abraçados, chegaram até a janela de poucas dimensões existente no aposento.
Olharam para fora. O céu escurecido não tinha estrelas, indicando que a chuva ainda atrapalharia bastante naquela noite.
Ambos permaneciam calados, fitando a paisagem ante seus olhos.
Para que falar? Por que quebrar a doçura e o encantamento daquele momento?
Mulder alisava agora os cabelos de Scully e, de vez em quando, pousava neles os lábios.
Scully, pequena, alcançava com os lábios apenas seu pescoço e queixo, no qual dava pequenas mordidinhas, fazendo graça em seus carinhos.
— Venha, Scully.
— Até onde?
— Lá fora.
— Nem dá pra olhar as estrelas!
— Sim, mas o tempo pode ainda melhorar.
Ela concordou.
Sairam do pequeno hotel.
O chão de pedras irregulares havia secado um pouco da chuva que havia desabado horas antes.
Em todas as árvores as folhas brilhavam, molhadas pelas gotas da chuva que havia caído.
O som de um pássaro noturno fez-se ouvir naquele instante.
O casal caminhava, de mãos dadas, inteiramente entregue à delicia de se sentir, se tocar, apenas com as mãos, mas como se nelas estivesse o seu próprio coração.
"A linguagem do coração é universal;
só é preciso sensibilidade para entende-la."
Duclos
