O Voo do Passarinho
Capítulo XXV - Alianças
A sorte parecia estar ao lado do verdadeiro Rei de Westeros, Stannis Baratheon, desde o momento em que a sacerdotisa vermelha veio de Asshai para ajudá-lo em sua missão de destronar o seu suposto sobrinho, Joffrey Baratheon, que na verdade é um Lannister, pois de acordo com a carta que recebera de Lorde Eddard Stark, a antiga Mão de seu irmão, o Rei Robert Baratheon, os três filhos do antigo rei com a Rainha Cersei não eram de fato dele, tendo eles sido concebidos por Jaime Lannister, o irmão gêmeo da Rainha e membro da Guarda Real. Durante a sua vida, Stannis sempre teve uma boa relação com Ned e não havia razão pela qual desacreditar das palavras do mesmo, ainda mais quando o Protetor do Norte teria colocado os seus homens para lutar em prol da coroação do Senhor da Pedra do Dragão se infelizmente o bastardo real não o tivesse decapitado.
Entretanto, a sorte que Lady Melisandre lhe trouxera aos poucos parecia estar se tornando um grande azar. Stannis ao se proclamar o verdadeiro rei de Westeros acabou por se condenar dentro de uma guerra. Era sabido que o Senhor de Pedra do Dragão não era um senhor carismático, não tinha grandes aliados e nem ao menos possuía bens necessários para usar como moeda para pagar aos homens que desejassem se alistar em sua causa. A única virtude do irmão mais velho do primeiro rei Baratheon era seu senso de justiça que em um mundo como o atual valia quase nada. Mesmo com estes atributos, o autoproclamado rei conseguiu algumas famílias para lutar por ele e teria de fato conquistado o Trono de Ferro se o maldito do Duende, Tyrion Lannister, tio de Joffrey Lannister, não tivesse incendiado a baía do Blackwater, destruindo uma parte considerável da frota marinha de Stannis e aniquilando um número ainda mais severo de bons soldados.
Foi castigo por ter tramado a morte de meu irmão Renly. Pensou consigo mesmo quando viu o resultado de sua investida na capital em primeira mão. Stannis estava na frente de batalha e só com muito custo conseguiu dar a ordem de ataque depois de ver a água possuída por chamas verdes que queimavam até o osso em segundos todos aqueles que eram engolidas pelas mesmas. Deveria ter escutado Lady Melisandre, deveria tê-la trazido comigo. Mas não. O verdadeiro Rei de Westeros decidiu por ouvir as ordens de seu Capitão das Cebolas, um homem simplório, nascido na parte mais pobre da capital dos Sete Reinos que antes de ter conhecido Stannis durante a Rebelião de Robert não era nada além de um pirata... ou um contrabandista, como Sor Davos se auto nomeava.
- Eu preciso de mais homens... - Murmurou para consigo mesmo, apoiando a cabeça nas mãos que estavam com os cotovelos fincados na pesada mesa de madeira que exibia o mapa de Westeros talhado e pintado, dando o nome a sala de reunião do castelo de Pedra do Dragão.
- Depois que Renly fortuitamente veio a falecer as nossas tropas aumentaram - A Rainha Selyse que estava presente na reunião e sentada ao lado de Stannis comentou.
- Mas depois do desastre de Blackwater... - Lady Melisandre que estava sentada ao lado do rei começou, lançando um olhar acusador para Sor Davos, que estava sentado ao lado da mesma.
- Eu já disse para não mencionar este ocorrido! - Stannis bateu os punhos na mesa, trazendo a atenção deles para si - Antes de Blackwater eu possuía duzentos navios e agora tenho apenas trinta e dois. Antes eu tinha vinte mil homens armados e capacitados para a guerra, agora eu tenho um exército de quatro mil. Quatro mil! - Esbravejou, frustrado com sua condição atual. O Rei sabia que esse número era insignificante até mesmo para que fizesse uma proteção local e a cada dia estava sujeito a mais homens querer abandoná-lo. Nenhum instante Stannis podia se permitir ser fraco, pois sua demonstração de impotência seria a sua derrota.
- Se Vossa Alteza tivesse feito como eu sugeri, isso não teria acontecido - A sacerdotisa insistiu em tocar no assunto na intenção de atingir Sor Davos, o responsável pela estratégia do ataque.
- Eu não tinha como saber que eles usariam fogo vivo! Nem mesmo sabia que essa tática ainda era utilizada! - Defendeu-se a Mão do Rei e capitão do Black Betha - Pelo menos o meu Rei mostrou ser um homem corajoso estando a frente no campo de batalha, assim como o irmão mais velho dele o era. A sua sugestão de mandar a sombra do Senhor da Luz fazer o trabalho sujo não traria honra ao reinado do verdadeiro Rei!
- Basta! - Stannis se pôs em pé, massageando as têmporas. Lembrar da ideia de Melisandre fazia com que ele se recordasse da maneira a qual condenou o seu irmão caçula, Renly. Isso tudo é culpa dele! Sabia que os Deuses, independente se fosse os novos, os antigos, o Senhor Afogado ou o Senhor da Luz, todos eles não estavam satisfeitos com o seu fratricídio, mesmo que tivesse sido a sacerdotisa vermelha quem planejara tudo e fosse a sombra de R'hllor quem tivesse matado o rapaz. Stannis era tão - se não mais - culpado do que todos eles, pois ele desejara desde o dia em que Robert dera Ponta Tempestade para Renly e Pedra do Dragão para si que o rapaz morresse.
Stannis também estava cansado destas discussões que não levavam a lugar algum entre Sor Davos e Lady Melisandre. No fundo começava a pensar se não havia agido de forma precipitada ao dar o cargo de Mão do Rei ao Capitão das Cebolas. Talvez o mais sábio teria sido deixar Sor Davos Seaworth apodrecer nos calabouços ou talvez trancar Melisandre lá por um tempo. Esta última alternativa não seria algo tão ruim. Muitas vezes a sacerdotisa estendia a sua sombra por cima do Rei, fazendo-o se questionar se as suas ideias e ações eram completamente obras dele.
- Tem toda a razão, meu Rei - Selyse se colocara em pé e passara os seus braços longos e finos como uma serpente ao redor do marido - Não falaremos mais sobre essas coisas, não é mesmo, Mel? Capitão?
Ambos envolvidos na intriga se silenciaram temporariamente, cada um absorvido em seus próprios pensamentos.
- Se o sangue real for oferecido como sacrifício ao Senhor da Luz, lhe darei a certeza de que todos os seus desejos serão atendidos e a sua vitória será eminente. Não sei porque hesita tanto em entregar o garoto para o sacrifício - Lady Melisandre foi a primeira a romper o silêncio que se instalou após a repreensão.
Stannis se desvencilhou dos braços da mulher. Ultimamente Selyse o sufocava cada vez que o tocava, até mesmo o fato dela respirar o irritava. Essa reação estava totalmente relacionada com a chegada de Melisandre, fosse pela fé que ele adotou ou fosse pela sacerdotisa vermelha possuir mais atributos do que a própria esposa. Stannis não era um homem fraco para se entregar ao poder da carne, só tivera uma mulher em toda a sua vida e esta era a mãe de sua única filha, Shireen. Entretanto nos últimos tempos a razão perdeu lugar para os instintos e já não era mais homem de uma mulher só. Ele desejara e de fato chegou a possuir a adoradora de R'hllor, impondo a ela sua autoridade durante o ato sexual apenas para mostrá-la que a mesma não tinha poderes sobre ele, que ele era o Rei e que tudo que ele quisesse deveria ser obedecido. Ridículo, disse para si mesmo, incriminando sua atitude. Esta ação não condizia com quem ele era. Hipócrita, se condenou. Ele era o Rei Stannis Baratheon, o homem mais sensato que conhecera, até mesmo mais sensato do que Eddard Stark, que se rendera aos prazeres de uma mulher e a embuchara com o seu bastardo, levando desonra para a família. Stannis agora não era diferente do seu falecido amigo, as duas coisas que diferenciavam ambos era que sua esposa Selyse não tinha conhecimento de sua traição, mas em breve saberia se ele continuasse a evitá-la; e, também o fato de Melisandre não ter parido uma criança, apenas uma sombra que assassinou o seu irmão.
- Eu não sacrificarei Gendry - A frase veio entredentes. O rapaz podia ser um bastardo, mas era o único filho que se tinha notícias de Robert, sendo consequentemente o seu sobrinho legítimo. Não importava que nunca anteriormente o tivesse visto ou trocado correspondência com o mesmo, não importava que Gendry tivesse sido educado como um aprendiz de ferreiro e fosse tão cru com as etiquetas quanto um animal selvagem. O rapaz tinha o seu sangue e parecia ser um bom garoto, sendo fácil de domar pela ânsia de aprendizado que possuía. Gendry mesmo sendo ignorante com a vida na Corte deseja mais do que muitos nobres se tornar um cavaleiro. Stannis não podia simplesmente enviá-lo ao sacrifício mesmo que isso significasse a sua vitória. Ainda que não admitisse, o Rei havia se apegado no rapaz, talvez porque o seu sobrinho fosse a coisa mais próxima que teria de um filho varão.
- Ele é apenas um bastardo - Selyse rebatou, demonstrando mais uma vez a sua clara insatisfação sobre a questão de nascimento de Gendry.
- Ele é o meu sobrinho - No fim da frase o Rei rangeu os dentes. Sabia que era um costume feio que possuía, mas não conseguia evitá-lo por mais que tentasse.
- Isso lhe garantiria a sua vitória - A esposa retrucou - Não é de homens que o senhor meu marido precisa, é da vitória. Use o garoto, mande-o ao sacrifício. Mate-o para agradar ao Senhor da Luz.
- Não! - Stannis exclamou mais alto do que desejava, socando a mesa que tinha em sua frente.
- Renly também era de seu sangue, meu senhor - Selyse lhe informou, usando todas as artimanhas que conhecia para convencê-lo.
- Renly se levantou contra mim! - A lembrou. Stannis não tinha orgulho de ter condenado o irmão a própria sorte por intermédio de R'hllor, afinal de contas fora Renly quem se autoproclamou Rei retirando toda e qualquer autoridade que o seu irmão mais velho possuía sobre o Trono de Ferro. É tudo culpa dele, tornou a afirmar em sua cabeça de modo a defender sua inocência na situação.
- O rapaz também poderá fazê-lo - Lady Melisandre interveio em favor da amiga.
- Ele não o fará - Sor Davos entrou na convera. O Cavaleiro das Cebolas tinha o mesmo ponto de vista de Stannis nesta situação e em diversas outras e foi por esta razão que ganhou a liberdade de seu cárcere, recebendo ainda como recompensa o título de Mão do Rei. O Rei em questão se sentia mais humano na presença do cavaleiro ao conseguir enxergar as questões morais em meio a esta guerra que está sendo travada - Gendry é um rapaz simples da Baixada das Pulgas, assim como eu fui um dia, Vossa Graça. Se ele lhe desejasse o mal já teria demonstrado sinais disso.
- O mal não nasce com a pessoa, o mal é criado - A sacerdotisa vermelha rebateu - Mate-o agora antes que seja tarde demais para evitar uma tragédia.
- Você acha que ele pode se rebelar contra mim, o seu tio, no futuro? - Stannis perguntou com ceticismo.
- Não acho - Melisandre respondeu - Eu vi. Gendry tem sangue de Rei e o Trono pertence à ele mais do que a qualquer outra pessoa que respira sobre a terra, até mesmo mais do que vós, meu Rei. Você precisa do sangue dele, foi o meu Senhor, o Senhor da Luz quem me contou em suas chamas.
- Tem outra saída para isso, Vossa Graça - Uma ideia pareceu nascer na mente do Capitão das Cebolas pois o seu rosto cansado dos longos anos de trabalho em baixo do Sol se iluminou e ficou ainda mais jovem do que de fato o era - Case-o com a Princesa Shireen.
O silêncio dominou o ambiente junto com um ar de pura hostilidade. Era inaceitável esta ideia do homem, inacreditável o fato dele ter dito tais palavras em voz alta. Shireen é uma Princesa de sangue puro enquanto Gendry é apenas um bastardo que ganhou a vida sendo auxiliar de ferreiro no lugar onde toda a escória de Westeros estava localizada. Se a Princesa se casasse com o ferreiro, ela estaria se casando com um bastardo e este bastardo após a morte de Stannis se tornaria Rei, visto que apenas em Dorne as mulheres podem ocupar o papel de herdeira. E eu não posso legitimá-lo, disse para si mesmo. Se Gendry fosse feito um Baratheon todo o direito ao Trono de Ferro iria para ele. A guerra atual ganharia o mesmo destino que a Rebelião feita pelo direito ao Trono dos Blackfyre. Stannis não suportaria ser deixado para trás. A incredulidade do Rei foi tanta que até mesmo o seu vício de ranger os dentes pareceu ter sido curado.
- Como se atreve...? - Selyse se manifestou, com uma mão no peito e a outra de punho cerrado posicionado ao lado do corpo. Sua esposa estava tão ofendida que a respiração estava entrecortada, como se tivesse corrido por todo o castelo antes de responder.
- Eu não pretendia ofender a Vossa Graça - Sor Davos se defendeu voltando a ter o ar de sua verdadeira idade, talvez parecesse até mais velho do que antes de ter manifestado esta ideia - Como o Rei disse, o rapaz é um bom moço e tem sangue real, ele seria um bom esposo e jamais se voltaria contra Vossa família, pois seria a família da esposa dele também - Se Gendry fosse um nobre de uma Casa qualquer que estava aliada ao seu inimigo com toda a certeza esta teria sido a melhor decisão. Stannis não podia culpar o Capitão das Cebolas pela ignorância política que possuía. Caberia ao Rei ensinar estas questões à sua Mão se desejasse uma melhor assessoria no futuro.
- Não sei qual ideia é a pior... Casar a minha única filha com um bastardo e fazê-lo Rei dos Sete Reinos após a minha morte ou dá-lo como sacrifício para R'hllor - Stannis massageou as têmporas e voltou a se sentar na ponta da mesa de frente para a grande porta do Salão da Mesa Pintada - Eu preciso de homens, não de alianças inúteis.
- E quanto a Sansa Stark? - Sor Davos arriscou - O irmão dela tem muitos homens.
Com todas suas preocupações, Stannis dera pouca atenção a chegada de Sansa Stark. Quando Lady Melisandre pediu permissão para deixar Pedra do Dragão no Black Betha a mulher nunca o informara que traria para casa a filha mais velha do autoproclamado Rei do Norte, caso o contrário Stannis em pessoa teria ido ao encontro da garota. A única coisa que a sacerdotisa vermelha lhe disse é que ela tinha uma data e uma hora certa para deixar a ilha em busca da chave para a vitória do Rei e que no final acabou se revelando como Gendry Waters. Eu tenho a chave para a vitória e me recuso a utilizá-la, riu com a constatação da realidade. Talvez no fundo fosse Sansa esta chave. Lady Melisandre muitas vezes se precipitara em suas visões, não seria uma surpresa descobrir que ela estava mais uma vez equivocada em suas certezas.
- E estarão os nortenhos dispostos a darem suas vidas pela minha causa? - Stannis questionou.
- Se devolvê-la para a família, meu marido - Selyse sugestionou - Quem sabe não consiga até mesmo algum dinheiro?
- O Jovem Lobo já tem um custo muito alto para pagar pelos serviços de seus homens, ainda mais agora que já não é mais o Senhor do Norte - Melisandre respondeu.
- Os Starks podem ter perdido Winterfell, mas não o Norte. Robb Stark pode ter se casado com aquela mulher sem título algum e quebrado o acordo que foi feito com os Freys, entretanto ele ainda tem mais homens do que eu - Stannis respondeu, tornando a ranger os dentes. Aparentemente o vício não se curara como acreditou. A atitude do primogênito de Eddard demonstrava falta de caráter e desonra, coisa que não era comum encontrar em um Stark. Talvez fosse essa criança o verdadeiro bastardo de Eddard, pensou. Não seria a primeira vez que dois recém nascidos tivessem sido trocados, mesmo que um fosse ruivo e o outro tivesse os cabelos negros como carvão.
- Venda-a para os Freys, então - Selyse argumentou - Eles tem homens disponíveis que não servem mais aos Starks. O velho Frey adoraria casar a filha de Eddard com um de seus descendentes e ele teria muitos homens para barganhar.
- Não - Stannis tornou a responder de forma negativa - Eu devo muito a Eddard para entregar a sua filha única filha viva para um bando de homens desajustados e com a garota eles podem clamar o Norte depois da morte de Robb. Por mais que eu seja contra esta atitude do Jovem Lobo - Ironizou o apelido do rapaz - eu não consigo ver o Norte sem estar sob o comando de um Stark legítimo.
- Proclame Gendry como filho legítimo de Robert e o case com a garota Stark - A Mão do Rei sugeriu - Os Starks se uniriam aos Baratheons tanto em aliança matrimonial quanto em guerra.
- E aí ele junto à Sansa e ao irmão da garota viram-se contra mim e me tomam tudo pelo o que venho lutando!? - Exclamou, furioso com a insensatez - Você deveria me aconselhar, Sor Davos. Faça-o de forma correta! - O repreendeu.
- Sor Davos tem razão - Lady Melisandre sobressaltou a todos os presentes ao concordar com a ideia da Mão do Rei - Em certa parte, claro. Case a garota com um Baratheon.
- Gendry nunca será um Baratheon legítimo! Sansa não se casará com o bastardo, Melisandre, e o único Baratheon disponível é minha filha, Shireen, contudo ela é uma garota! - Selyse exclamou, com o rosto rubro de fúria, mesmo que esta raiva estivesse sendo direcionada a pessoa que ela tinha mais próxima de uma amizade.
- Eu estou falando de outro Baratheon - Os olhos rubros da sacerdotisa encontraram com os azuis de Stannis e no mesmo instante o rei compreendeu sobre o que ela estava falando.
Não! Desejou ter gritado a sua frase preferida, contudo as três letras não se uniram para a resposta. De fato, nenhuma letra se juntou para a formulação de frase alguma. Selyse estava presente no cômodo e parecia ter criado uma amizade com a sacerdotisa, então como a mulher vermelha tinha coragem de insinuar tal coisa sobre o marido dela? Algo tão grave que poderia por fim ao relacionamento entre eles? Não importa o fato que o casamento deles estivessem dentro de uma crise. Sansa Stark ainda era uma criança tão ingênua e curiosa, não parecia ter mais do que dezesseis anos, sem contar que os seus costumes do Norte inferiorizavam a sua educação formal aos olhos do Rei. Selyse tem mais atributos para ser minha rainha do que Sansa, concluiu. Contudo, Sansa era a chave para o Norte.
- Deixem-me - Ordenou, afundando o rosto nas mãos. O que parecia ser uma solução se revelou como mais um problema e não teria paciência para lidar com outras questões enquanto estas levantadas ainda não fossem resolvidas.
Acatando a ordem que receberam, Sor Davos, a Senhora Selyse e Melisandre deixaram o Salão da Mesa Pintada, porém a sacerdotisa vermelha ficou alguns passos para trás apenas para pedir que Stannis pensasse a respeito do que ela dissera.
Pensar a respeito... Se ele fosse como qualquer um dos irmãos, teria gargalhado das palavras da mulher. Stannis não era dado a sorrisos e gargalhadas. O mundo não era uma grande piada e por esta razão não deveria ser tratado como de forma leviana. Por mais irresponsáveis e ofensivas que foram as palavras de Lady Melisandre ela tinha razão em certo aspecto, assim como Sor Davos.
O último membro da linhagem masculina dos Baratheon precisava de homens capacitados para ajudá-lo a vencer esta guerra e lhe garantir o Trono de Ferro. Todos os homens que possuíam não eram o suficiente para se tornar uma ameaça, nem para o mais fraco autoproclamado Rei de Westeros até para todos os Reis juntos. Se em menos de um mês não conseguisse aumentar o número de soldados e conseguir as provisões necessárias para alimentá-los e armá-los a coisa mais sábia a se fazer seria escolher um candidato ao trono mais apropriado e dobrar os joelhos para o mesmo.
- Eu prefiro morrer! - Exclamou para si mesmo, preenchendo o vazio do salão com a sua voz rouca e o rangido de seus dentes.
Não havia candidato ao trono mais capacitado do que ele. Stannis recusava-se a pensar sobre isso. Todos os usurpadores mereciam a morte e os seus aliados de seus inimigos mereciam vestir o negro e juntar-se a Patrulha da Noite. Ele seria um rei justo, aquilo que Westeros precisava. Com o forte inverno que começava a bater nas portas de todas as casas dos Sete Reinos, muitos westerosi viriam a falecer antes do início da próxima primavera. E os Baratheon podem encontrar o seu fim antes do inverno chegar, comentou consigo mesmo.
Sansa poderia ser a salvação dele e de toda a sua família. A garota Stark embora fosse nova, já tinha idade suficiente para se casar. E talvez seja tão fértil quanto a mãe e encha o meu castelo de herdeiros, o que pode ser logo, já que ela até já floresceu. Recordou da vez em que a encontrou na porta do quarto da Princesa Shireen, curiosa para saber o que se passava lá dentro e por quê sua filha não estava presente no jantar. Depois de ter respondido as perguntas que a jovem fazia enquanto a levava até o quarto em que estava hospedada ele pôde reparar na mancha vermelha que ela tinha nas costas do vestido. Sangue da lua, não havia dúvidas nisso. Stannis estava acostumado com estes acidentes. Selyse muitas vezes quando colocava um pano muito fino dentro de sua roupa íntima para impedir que o sangramento mensal manchasse suas roupas era frustrada na tentativa. O mesmo deveria ter ocorrido com Sansa e não a condenava por isso. Neste momento, de fato, ele era grato por ter tido o conhecimento de que a donzela Stark era uma mulher e não mais uma menina. Mas será que ainda é uma donzela?, se questionou.
Lady Melisandre lhe contou as circunstâncias em que encontrou a garota Stark. Sansa estava acompanhada de Sandor Clegane, o Cão de Caça dos Lannister. em um naufrágio próximo a costa de Pedra do Dragão, e foi o homem que estava com ela quem a tirou de Porto Real. Um cavaleiro que ajuda uma donzela em apuros sempre cobra os favores de sua amada, todas as canções de cavaleiros e belas moças narram estes fatos. Stannis por ser um homem maduro não acredita nos dizeres das canções, todavia ele não pode simplesmente ignorar o que sai da boca destes cavaleiros nos bares e no campo de batalha, quando estão bêbados de vinho, de adrenalina e destes tais favores. O fato narrado e cantado é o mesmo, a única coisa que muda são os floreios que embelezam as palavras.
Se ela já tiver sido montada... Sentiu um enjoo na boca do estômago. O verdadeiro Rei de Westeros foi educado para contrair núpcias com moças virgens que fossem dignas de respeito. Que respeito uma mulher que se deitou com um Cão poderia ter? E ainda havia o agravante do pai da moça em questão ter sido acusado de traição e o irmão da mesma estar montando um cerco para que possa se declarar o Rei do Norte, passando sobre a autoridade do Rei de Westeros, quem quer que seja o Rei que no fim se sentará no Trono. Posso ordenar que a sacerdotisa verifique a pureza da menina Stark, sim, ele podia fazer isso. Normalmente era o papel de uma Septã, mas na ausência de uma em seu pequeno reinado, Melisandre serviria. Mas eu realmente desejarei saber?, se questionou. Se propusesse matrimônio a Sansa não seria pela pureza da mesma e sim pela conveniência de formar uma aliança com o Norte, ganhando soldados e suprimentos para a sua conquista. Stannis não a amava, nem se sentia fisicamente atraído por ela. Sansa era uma jovem muito bonita, porém a inocência dela na arte da guerra e na política fazia com que os seus interesses românticos não fossem despertos. E nem ao menos sei se desejo formar uma aliança com os Starks!, esbravejou. Se formasse esta aliança ele teria que se divorciar de Selyse, condenando a esposa a viver uma vida de exclusão social por ser uma mulher abandonada pelo marido a própria sorte, sem o direito de ver a filha, porque claro, Stannis ficaria com a Princesa Shireen e não importava quantos outros filhos viesse a ter, garantiria que a sua primogênita se sentasse no Trono de Ferro após a sua morte, indiferente do gênero de sua prole. Dorne aprovaria a sua ação, talvez até viessem para o seu lado, já que até o presente momento estavam neutros. Contudo, há a questão da morte de Elia e eles talvez não vejam o meu reinado como algo positivo. O melhor era manter Dorne do jeito que estava por enquanto.
- Não, Selyse não merece isso... - Comentou em voz alta, sentindo-se culpado pelos próprios pensamentos.
A esposa sempre o servira da melhor maneira que pôde, esforçando-se ao máximo para agradá-lo. Muitas outras mulheres cobrariam o romance de um relacionamento, não suportariam um homem que não risse e que se recusasse a dividir o leito com ela, mas não Selyse. Por mais feia, conservadora e vinda de uma Casa inferior, a mulher soube como chegar até ele durante todos estes anos e ainda lhe dera uma filha, mesmo que Shireen não fosse a Princesa perfeita, tendo sido abençoada com o escamagris na face.
- Mas eu preciso de homens... - Massageou as têmporas, sem saber o que fazer. Odiava os conflitos em que as decisões traziam um peso muito grande. Foi por esta razão que ele trouxe Sor Davos para ajudá-lo a governar.
Sor Davos sugeriu que eu deveria casar Sansa com Gendry. A ideia na segunda vez não parecia tão ruim. Gendry era o seu sobrinho, logo a aliança que formaria com o Norte seria entre Baratheon. Mas para isso preciso legitimar Gendry. O que era um risco, já que quando legitimado como filho de Robert o rapaz passaria a ter mais direito ao Trono de Ferro do que qualquer outra vivalma em Westeros e além mar. Sem contar que Robb Stark poderia ver esta aliança de forma negativa, visto que Gendry nasceu e foi criado como um pobre bastardo, com o acesso a Corte negado até alguns dias atrás.
Poderia casar o rapaz com Shireen, mas que benefício isso daria? Gendry era pobre e sem influência. Casá-lo com sua filha garantiria que ele nunca clamasse o direito do trono passando por sobre o seu tio, entretanto não traria soldado algum, muito menos suprimentos para a guerra. Nos dias atuais as guerras não eram ganhas por quem tinha mais direito e sim por quem podia pagar mais.
Casar-me com Sansa pode ser a única salvação para a minha causa. Stannis se pôs em pé. Horas haviam se passado desde que fora deixado só pelo seu pequeno Conselho e o Rei se encontrava tão confuso se não mais do que durante a reunião que tivera.
- Preciso encontrar-me com Melisandre - Disse, retirando-se do Salão da Mesa Pintada - Talvez ela possa ver algo em seu fogo que me guiará nas decisões - Stannis não acreditava cegamente no Deus Vermelho, mas sabia que havia alguma magia ali e esta magia já o beneficiara algumas vezes, o que o levava a acreditar que poderia fazer o mesmo agora.
O quarto de Melisandre no castelo de Pedra do Dragão ficava em um dos últimos andares subterrâneos da construção. Com a ausência de luz natural nas catacumbas, todo o corredor até onde a sacerdotisa se encontrava era iluminado por inúmeros archotes acesos com óleo de peixe, o que dava um aroma peculiar no ar que algumas vezes melhorava ou piorava dependendo da erva em que era adicionada a queima, sendo a desculpa para tal ação um feitiço específico para o dia de acordo com a vontade do Senhora da Luz.
Stannis apesar de não confessar nem mesmo para si próprio, sentia uma certa desconfiança a respeito de Lady Melisandre com o seu caloroso discurso religioso. Sendo uma pessoa estudada, que conhecera de perto o sofrimento e a perda, aprendeu que Deus ou Deuses era ou eram nada mais do que algo criado pelo homem para justificar as suas ações. Todavia, a sacerdotisa começava a devolver a crença para ele ao realizar feitos que no ponto de vista do Rei eram incapazes de serem criados pelos seres humanos, não importando quais truques utilizassem, o que levava Stannis a se questionar até que ponto ter a sua fé de volta era importante, se mesmo tendo virado as costas para as divindades ainda poderia ser abençoado pelas mesmas e se no fundo tudo fosse uma manipulação da mulher - como temia que fosse - quão condenado ele estaria. Contanto que a justiça seja feita... pensava na intenção de se conformar com a situação enquanto tivesse coisas mais importantes para se ocupar. Depois que tivesse sentado no trono, estes questionamentos que o preocupavam poderiam ser analisados de uma forma mais rígida e só então terem uma solução definitiva. Enquanto Melisandre o ajudasse em suas ambições, que o dedo dela estivesse presente no que quer que fosse, mas se ela falhasse com ele, bem, ele não teve problema algum em cortar os dedos de seu mais leal capitão e não hesitaria com ela só porque é uma mulher.
Após mais de uma centena de degraus esculpidos em pedras descidos e com os corredores com um aroma suave de rosas queimando no óleo de peixe, Stannis finalmente chegou no quarto da pessoa que mais desejava ver naquele instante. Sem desperdiçar o seu tempo com batidas corteses na porta, o Rei adentrou, como era típico em alguém que possuísse os poderes políticos e sociais que possuía para com ela.
Como esperado, a mulher vermelha que preferia não contar as horas do dia e sempre que estava atracada na ilha sentia prazer em passar longas horas em seus aposentos estava sentada em uma confortável poltrona feita em veludo vinho apreciando a lareira que durante todo o dia era mantida acesa, frequentemente alimentada por madeira nova. Stannis sabia que se em breve uma decisão não fosse traçada por ele, era capaz que precisasse plantar mais árvores ou não teria lenha para todas as poucas pessoas de seu reinado.
- Eu sabia que viria, meu Senhor - Melisandre comentou, sem se importar em desviar a atenção das chamas para olhar o seu soberano entrar no aposento.
- Viu minha chegada em suas chamas? - Perguntou, com indiferença, tratando de fechar a porta atrás de si.
- Não - A sacerdotisa se pôs em pé, quebrando o contato visual que fazia com o fogo - Não foi preciso. Era inevitável que viesse até mim - Deslizando como uma serpente que não possuía pés, Lady Melisandre se aproximou de Stannis e o homem sentiu que as chamas da lareira que ela assistia antes de sua chegada haviam sido capturadas pelos olhos da mulher que vermelhos como eram, estavam faiscando ao encará-lo - Andou pensando a respeito do que disse, não é mesmo? - O desafiou, com um pequeno sorriso ameaçando brotar nos cantos de seus lábios. Encorajada pelo silêncio culpado do homem, ela continuou com suas constatações que ressoavam como nítidas provocações - Vossa Alteza sabe o que é melhor para si. A Rainha Selyse não possui tantos homens para o seu exército, apesar do número de soldados juramentados aos Florent ter um número maior do que de qualquer outra Casa que se alinhou a Vós, já os homens do Jovem Lobo...
- Poderia mandar arrancar a sua língua por tramar contra a sua Rainha - O Rei a ameaçou.
- Não o fará - O informou com autoridade - Sabe que tenho razão, caso o contrário não teria se dado ao trabalho de vir ao meu quarto discutir sobre a ideia que lhe dei - Lady Melisandre o estudou por um momento e então se afastou, caminhando em volta de sua ampla cama de canela com cobertas de linho vermelho e dossel negro para chegar até o seu criado mudo onde se encontrava a sua jarra de vinho tinto com o cálice feito de vidro de dragão vazio.
- Ela é a chave para esta guerra... - Era difícil ter de admitir isto em voz alta e por esta razão pronunciou a frase o mais baixo que conseguia, temendo que as paredes tivessem ouvidos. Stannis era consciente de que haviam delatores de suas estratégias contratados por todos os reis usurpadores dentro de seu pequeno exército e não podia se dar ao luxo de caçá-los. Ele poderia utilizar esta vantagem ao seu dispor para enganar o inimigo com suas ações, mas não ao que dizia respeito a Sansa Stark e a Gendry Waters. Seus dois tesouros estavam bem guardados dentro do castelo tendo os seus passos limitados pelos seus homens de mais alta confiança e que temiam R'hllor acima de todas as coisas.
- Gendry é a chave - Lady Melisandre o corrigiu de forma que não se atreveria a fazer na frente de outras pessoas - Sansa é apenas uma... alternativa.
- O que quer dizer com isto?
- Aquilo que já disse anteriormente. Se sacrificar Gendry para o Senhor da Luz, Vossa Graça não precisará travar nenhuma batalha, não precisará de homens, nem de suprimentos, porque R'hllor providenciará tudo - Disse, enchendo o cálice da bebida espessa - Como se recusa a sacrificá-lo, Vós terás de traçar o caminho mais difícil e encontrará muito sofrimento e grandes perdas e é aí que Sansa Stark se torna uma alternativa ao casar-se com ela - Terminou o raciocínio levando o vinho ao seu Senhor.
- Sobreviverei neste caminho alternativo? - Questionou, recusando a bebida. Não estava se sentindo inclinado a alimentar um vício. Não era de álcool que precisava e sim de soluções para os seus problemas.
- Não inteiro, mas sim, sobreviverá - A sacerdotisa bebericou o líquido rubro, sem desviar os olhos de seu senhor.
- É um preço justo para poupar uma vida - Stannis massageou as têmporas. Desde que a Batalha de Blackwater ocorreu ele sentia terríveis dores na região da cabeça e sua mania de ranger os dentes piorara. Não importava o que quer que Lady Melisandre lhe oferecesse para curar estes males, eles sempre voltavam quando se encontrava estressado.
- Poderia poupar mais de uma vida se fizesse o que digo - A mulher o desafiou.
- Chega! - Exclamou, exasperado por sempre voltar ao mesmo assunto - Não discutirei mais o destino do meu sobrinho!
- Pois bem - Disse, apoiando a taça na penteadeira localizada às costas do Rei - Não falaremos mais sobre isto, embora eu continue achando que escolher a segunda alternativa é pior do que a primeira - As mãos espaldadas viciosas da mulher vermelha deslizaram por sobre os ombros do homem até o peito do mesmo - Discutiremos então o que fazer com Sansa Stark.
- Melisandre... - O Rei a repreendeu, fechando os olhos para apreciar a carícia que recebia e só após respirar profundamente conseguiu forças para se ver livre do abraço da sacerdotisa - Eu não posso condenar Selyse a esta humilhação. Me recuso a ser como meu irmão Robert e expor a minha Rainha ao ridículo ao persistir com estas... - A palavra lhe era clara, mas não ousava trazê-la para fora de sua mente - ...relações impróprias - Concluiu, de forma mais sutil - Nem pretendo fazer como Lorde Eddard Stark e plantar a semente de um filho bastardo em seu ventre - A informou com severidade, voltando-se para a direção dela. Agora ambos eram refletidos no espelho da penteadeira.
- Selyse não se magoará com o fato de eu trazê-lo para a minha cama. Ela ficará grata e entenderá que isso é a vontade do Senhor da Luz, indo além da relação homem e mulher - Lady Melisandre cessou a distância que havia entre eles e embora o peito de ambos se tocassem, não havia nenhum outro contato além deste - Por outro lado, não posso me responsabilizar pela reação que ela terá quando souber que Sansa Stark poderá a vir ocupar o lugar dela, ao lado do verdadeiro Rei de Westeros.
- Mesmo que esta união com o Norte me beneficie em inúmeras formas, eu não poderei realizar esta aliança, portanto a garota Stark não é uma ameaça para a minha Rainha - Stannis disse, desajeitadamente. A respiração da mulher fazia com que os seios da sacerdotisa levantassem e abaixassem e a cada vez que isto ocorria eles eram pressionados contra o seu próprio peito, lhe causando grande desconforto.
- E por que não, meu Senhor? - A mulher perguntou de forma inocente, algo que não condizia com a personalidade dela.
- Já sou casado. Mesmo que eu me divorcie de Selyse continuarei casado com ela até que ela morra - As leis de Westeros eram bem precisas. A poligamia era proibida e uma vez casado permaneceria nesta condição até que um dos cônjuges viessem a falecer. Brevemente a ideia de matar Selyse passou por sua cabeça, mas não ousaria fazer isto com a mulher. Por mais que não sentisse atração por ela, não negava que havia algo dentro de si que a respeitava como esposa e companheira de longos anos. Ainda assim, não hesitaria mais em trocá-la pela garota que se mostrava como uma alternativa para a sua vitória.
- Se engana - Melisandre o corrigiu mais uma vez - Vossa Graça é casado apenas pela fé dos Sete, mas quando aceitou o Senhor da Luz como Deus todos os enlaces feitos anteriormente pela fé de outro Deus foi apagado. Informei diversas vezes para que Selyse casasse com vós na graça de R'hllor e agora eu entendo porque isso não foi feito. O Senhor da Luz estava a preparar vós para algo maior - O rosto da sacerdotisa se ocultou nos peitos de seu rei, com os olhos direcionados para a porta - Há um fogo dentro de vós, Majestade. Ouço o crepitar das chamas em vosso peito e sinto o calor em vossa pele - Disse-lhe - O Senhor da Luz o abençoa e abençoará esta união que está para se formar. Há duas alternativas, a primeira envolve sacrifício e a segunda envolve união. Vós já fizestes a vossa escolha e digo-vos que ela foi abençoada. Case-se antes da virada da lua ou poderá ser tarde de mais.
- O que quer dizer com isto? - Stannis perguntou, desconfiado com as palavras de Lady Melisandre.
- A Lua Nova não trás bons presságios, nem forma uniões favoráveis. Antes de vós chegar eu vi em minhas chamas. O garoto Gendry é uma ameaça ao vosso reinado. Se desejas poupar a vida dele, o prenda em vossas masmorras até que a vossa união com os Starks seja realizada. - O rei sentiu que a mulher lhe ocultava algo, entretanto resolveu não insistir.
Stannis ponderou por alguns instantes antes de respondê-la. Não achava justo confinar o seu sobrinho a escuridão apenas poque Lady Melisandre viu algo em suas chamas. Sabia que com o garoto preso seria fácil da mulher encontrar meios de sacrificá-lo. E se assim fosse, não seria de minha total responsabilidade. Por vias das dúvidas, colocaria alguns de seus mais fiéis soldados que não aderiram a fé do Deus Vermelho para vigiar o filho de Robert.
- Pois bem, posso fazer isso, mas apenas enquanto eu procuro meios de me ver livre de Selyse e firmar esta nova aliança.
Ter Melisandre em seus braços era algo que ao mesmo tempo que lhe dava prazer também lhe dava medo, assim como tê-la ao seu lado lhe dava contentamento e fúria. Inconscientemente suas mãos deslizaram no meio daquelas madeixas vermelhas. A mulher não era tão alta, medindo um metro e meio, quarenta centímetros mais baixa do que ele. Era incrível como aquela mulher pequena podia causar uma sombra tão larga por todo o seu reinado. Stannis sabia que se a mandasse de volta para Asshai criaria descontentamento entre os seus homens, que não havia como mulher e sim como símbolo religioso. Devo estar louco, pensou consigo mesmo. As madeixas de sua sacerdotisa eram mais rubras do que a da garota Stark, sua futura esposa.
- Você deseja substituir o lugar de Selyse por outra mulher; nunca pensou em você mesma ocupar este lugar? - A questionou.
Lady Melisandre no mesmo instante afastou o seu rosto do peito de seu suserano, trazendo no rosto um sorriso de piedade. Delicadamente estendeu uma de suas mãos e tocou o rosto de Stannis, como se fosse uma criança que estivesse pronta para consolar.
- Nunca foi e nunca será o que eu quero, Vossa Graça - O informou - Eu trabalho para o Senhor da Luz e é ele quem decide o que eu devo ou não fazer. R'hllor é o caminho e é por ele que eu sigo.
Stannis sentiu o sangue ferver em suas veias. Ele era o rei de Westeros e ele ele enxergava a sua posição acima de todos os Deuses, fossem eles novos ou antigos. Nunca em sua vida se importara com que Deus as pessoas ao seu redor adoravam, contudo com Melisandre era diferente. Aos poucos começava a perceber que tinha ciúmes do Senhor da Luz de sua sacerdotisa e que não havia nada que pudesse fazer para afastá-la dele, ou melhor, não havia nada que quisesse fazer para afastá-la dele.
- Quando dividiu o meu leito, foi por que o Senhor da Luz mandou? - Sussurrou a pergunta entre dentes. Esta era a primeira vez que levantava a questão. Durante todo este tempo sentiu vontade de perguntar-lhe a verdade, mesmo já sabendo o que ouviria e estando consciente de que a realidade seria bem pior quando deixasse os lábios dela.
- Para que deseja se ferir tanto, meu Senhor? - Stannis desejou arrancar o sorriso de piedade dela com as unhas, precisando de muita calma interior para se conter. Com uma certa brutalidade afastou a mão dela de seu rosto e permaneceu segurando-a com mais força do que o necessário e hora alguma a mulher reclamou.
- Eu desejo feri-la - Confessou, forçando a sua presença para cima dela - Você brinca comigo como se eu fosse um camponês qualquer. Eu sou o verdadeiro Rei de Westeros e sou humilhado por uma feiticeirinha de Asshai.
- Vós sois muito sério, deveria se descontrair mais - O aconselhou.
- Como posso me descontrair se toda vez que está perto de mim me tenta ao pecado!? - Exasperou-se, tentando ao máximo manter sua voz baixa. Na presença de muitas pessoas o rei conseguia manter a sua postura de soberania, mas na presença de Melisandre quando estavam sozinhos a história era outra. Stannis não desejava trair Selyse, porém depois de o mal ter sido feito e agora ter se decidido a divorciar-se dela não havia mais nada que o separasse da mulher vermelha, exceto, claro, o Senhor da Luz - Eu a desejo, Melisandre - Inclinou-se para a frente para sussurrar no ouvido da mulher e depois da frase ter sido dita, encostou os seus lábios no pescoço da sacerdotisa, dando-lhe um grande beijo na área enquanto a empurrava até que ficou presa entre os braços dele e a penteadeira.
- Meu rei... - A voz da mulher saiu trêmula e esta foi a deixa que Stannis precisava para pô-la sentada sobre a penteadeira, com a mão direita afastando o vestido cor de carmim que ela trajava para tocá-la entre as coxas - Se me possuir a força, será amaldiçoado. Minha castidade é juramentada ao meu Deus - O aviso veio com severidade, por mais entregue que ela aparentasse estar aos carinhos que recebia.
Os desejos de um homem para uma mulher muitas vezes é superior a qualquer barreira moral, social e religiosa, e Stannis mesmo sendo um Rei não se encontrava sujeito a ouvir os avisos de seu objeto de desejos. Entretanto, os seus segundos de satisfação não durou muito tempo, pois sem perceber um par de sapatos silenciosos fez o mesmo caminho que ele trajara até os aposentos da sacerdotisa vermelha e com a mesma autoridade que ele possuía, a pessoa entrou sem adentrar no quarto, sendo surpreendida com aquela cena entre o rei e sua feiticeira.
- Stannis! - O grito estridente da Rainha Selyse ecoou no aposento e como um menino que estivesse fazendo alguma travessura, o homem afastou-se rapidamente da mulher que o tentava, girando sobre os calcanhares para encontrar a pessoa que o pegara no flagra.
Os olhos de sua esposa estavam marejados de lágrimas. O rei chegara realmente a acreditar que sua rainha não se sentiria ofendida por ele estar dormindo com Lady Melisandre e com um pouco mais de atenção a situação ele percebeu; ela não estava chateada por ele a estar traindo, mas sim por ele ter-lhe negado os prazeres carnais durante mais de um ano e estar tratando a sacerdotisa vermelha da forma que um jovem amante trataria o seu objeto de desejo. Selyse desejava que fosse ela quem estivesse em cima da penteadeira tendo as mãos do marido em suas coxas, mesmo que para isso ele tivesse que dormir com todas as sacerdotisas de R'hllor de todo Westeros e além do mar de Essos.
- Selyse... - Disse o nome da mulher e apenas isso. Nenhuma frase lhe vinha a mente. Nunca pensara que trairia a sua esposa, muito menos que seria pego em um momento de traição - ... Eu... - Sentia raiva de si mesmo. Deu dois passos para a frente, estendendo a mão para tocar em sua companheira, que recusou o gesto, dando a mesma quantia de passos para trás.
- Não me toque! - Pediu, com lágrimas escorrendo pelas maçãs do rosto.
Stannis não desejava tocá-la, apenas consolá-la e isto serviu para que se martirizasse ainda mais. Sinto muito. Era o que deveria dizer, mas ele não sentia. Minutos antes de agarrar Melisandre estava planejando o divórcio com sua esposa e tudo para que tivesse mais homens em seu exército. Maldito seja, Stannis! esbravejou consigo mesmo, recolhendo as mãos e abaixando os braços ao lado do próprio corpo. Em suas costas pôde escutar o barulho da sacerdotisa descendo de cima da penteadeira que ele a colocara.
- Por que você fez isso? - Selyse secava as lágrimas que aumentavam de quantidade com as palmas das mãos - Por que tinha que ser com ela? Ela é a minha única amiga... - Confessou a amargura que sentia e agora o soluço se fazia presente em seu pranto.
- Eu ainda sou a sua amiga, Selyse - Lady Melisandre interveio com a sua voz mais gentil, sem ousar em se aproximar da Rainha.
- Não! - A mulher traída exclamou - Você não é a minha amiga! Se fosse não me colocaria nestas circunstâncias! - Voltou-se para o marido com uma grande fúria dentro de si - Eu quero esta mulher fora de minha casa, longe da minha família! Mande-a embora! - Exigiu.
Mesmo que quisesse, ele não poderia fazer o que lhe era pedido. Melisandre era sua conselheira, ao lado de Sor Davos. Era ela quem trazia os poderes de R'hllor para o seu lado, não que ele acreditasse no Deus Vermelho, ele só não podia negar que havia magia ali e que até o momento estava sendo favorecido pela divindade.
- Eu não posso mandá-la embora! - Respondeu entredentes, sentindo que a raiva da esposa estava sendo transferida para ele.
- Se eu for, R'hllor irá comigo e a derrota será eminente - Disse Melisandre com severidade - É isto o que deseja? Garantir a derrota do seu Rei?
- Não! Nunca! - Selyse se defendeu. A mulher admirava muito o marido para lhe desejar qualquer mal que fosse para ele, mesmo ele a traindo com a sua única amiga. A culpa de tudo aquilo ela atribuiu a sacerdotisa vermelha por ser ela o corpo estranho dentro da sua família. Quando uma garota chega em idade de se casar ela é treinada para proteger a santidade do lar, aceitar as canalhices do marido e proteger a sua família com unhas e dentes, mesmo lhe causando humilhação e ofensas - Mas eu a quero fora de Pedra do Dragão antes do sol raiar! - Protestou.
Aquela não era a melhor hora para dar as novidades para a esposa, mas jamais haveria uma boa hora para o que ele tinha para dizer. Tomando uma dose generosa de fôlego, Stannis proferiu suas decisões.
- Você é aquela quem deve ir, Selyse - Tentou dizer da forma mais suave possível, contudo a sua suavidade ainda era rude em comparação com outras pessoas que conhecia - Eu quero o divórcio - Fora direto ao assunto com suas palavras. Pouparia a esposa de maiores detalhes, ela não tinha de saber tudo, somente o que lhe convinha.
- O que...? Você...? ... Divórcio... - A Rainha estava confusa com o que acabara de ouvir. A verdade a acertou brutalmente como uma flecha de um exímio arqueiro acertaria o inimigo, tirando-lhe a estabilidade e se não fosse a agilidade de Melisandre, ela teria estatelado no chão.
- Nosso casamento estava caminhando para isto - Stannis disse - Você está velha, Selyse, não pode mais gerar filhos e eu necessito de um herdeiro - Mentiu. Não precisava de um herdeiro, ele tinha Shireen e tinha plena consciência de que ela seria uma ótima Rainha, muito mais do que a mãe fora.
- Eu posso lhe dar um filho, Stannis! Eu ainda sangro, ainda que não seja todo o mês! - Selyse se desvencilhou dos braços de Melisandre que a mantinha em pé e se jogou ao chão aos pés do marido, agarrando a barra do gibão do mesmo - Por favor, eu sei que eu posso!
O desespero de sua esposa era digno de pena. Se retirasse o que disse muitos conflitos poderiam ser evitados, mas ele continuaria a ser apenas o Rei de Pedra do Dragão e não de todo Westeros como cobiçava em ser pelo seu direito sucessório. Perdoe-me, Selyse, desejou, do fundo do coração, mas ele faria o que tivesse de ser feito, pelo bem da filha que tinham juntos.
- Ponha-se em pé - Afastou a perna com um pequeno chacoalhão - Pare de se humilhar, Selyse, de nada adiantará. Já fiz a minha cabeça e não há nada o que possamos fazer para salvar este casamento. Pegue suas coisas, seus parentes e ponha-se deste castelo para fora - Exigiu, rangendo os dentes no fim do comando.
- Eu não posso ir... - A frase saiu entrecortada por lágrimas e soluços - Aqui é o meu lar... Mataria a minha Casa saber que eu fui rejeitada pelo meu marido... Trocada por esta estrangeira adoradora do Senhor da Luz... Não desmanche tudo o que construímos por causa de Lady Melisandre, eu lhe rogo, meu Rei... A Princesa Shireen não deve crescer longe do pai...
- E quem disse que Shireen crescerá longe de mim? - A corrigiu - Você deve ir com os Florent para longe daqui, mas a minha filha é uma Baratheon e se eu não tiver filhos varões ela há de ser minha sucessora e com ela formarei novas alianças para o meu reino.
- Você não pode! Enquanto ela ainda é uma criança, permita-me ficar aqui e cuidar dela, meu Senhor! Não afaste uma mãe de sua filha, eu lhe rogo! Até que ela se case, só até então, por favor! - Selyse em prantos tornou a agarrar a perna do marido.
- Já disse a minha palavra. Até o amanhecer, quero você e sua corja fora de Pedra do Dragão - Stannis tornou a afastar-se dela e dessa vez, querendo fugir de todo aquele escândalo e do aperto que intensificava em seu peito deixou os aposentos de Lady Melisandre, deixando a dona do quarto para trás junto com a sua ex-esposa.
Tinha certeza de que não tornaria a encontrar uma esposa tão boa quanto Selyse, que aceitasse as suas limitações e as vissem como virtudes de caráter. Sansa ainda era uma criança em seus olhos, apenas alguns pares de anos mais velhas do que a própria filha. Seria difícil dominar o gênio da futura noiva e não tinha nenhuma outra mulher em sua Corte que não fosse Lady Melisandre para aconselhá-la e a sacerdotisa era boa em questões de fé, mas não sobre matrimônio. A vantagem é que com essa missão de preparar a garota Stark para ser uma Rainha a sua altura e a guerra que estava travando, afastava os pensamentos dolorosos sobre a forma em que abandonara Selyse a própria sorte. Quando eu estiver sentado no Trono de Ferro farei questão de me redimir com os Florent. A sua ex-mulher poderia a vir perdoá-lo pelo laço de sangue que possuíam através da princesa Shireen, porém duvidava que os Florent seriam tão compreensíveis quanto ela.
Como havia solicitado, na manhã seguinte Selyse havia realmente deixado o seu reino, levando consigo uma grande quantidade de seus homens e todos os membros da Casa Florent que estavam em sua Corte e por mais estranho que parecesse, Stannis se sentiu mais aliviado com esta liberdade e um pouco menos tentado em informar Sansa Stark sobre a aliança que estava prestes a formar entre as Casas de ambos, contudo o Rei tinha a sua missão clara em sua mente: antes da próxima lua se erguer no céu em cinco dias ele deveria estar casado e para isto ele tinha urgência em fazer sua corte com a sua protegida. A forma que Sansa reagiria a notícia despertava a sua curiosidade e se tem algo que Stannis não suporta é ocupar espaço em sua mente com coisas tolas.
N/A: Antes que me perguntem quando é que a Sansa vai se encontrar com o Sandor eu já vou avisando que vai ser em breve, tenham paciência. Esta fanfic não é apenas romance, ela contém drama, aventura e amizade. Para oferecer algo de qualidade aos leitores é necessário colocar alguns conflitos na história e eu acredito que estou fazendo um bom trabalho, sem querer ser arrogante ou coisa do tipo. Enfim, espero que tenham tido uma boa leitura, comentários são mais do que bem vindos. ;)
Como ainda não pensei no título do próximo capítulo, só posso adiantar que será PoV da Arya.
Sobre a demora na atualização: eu sinto muito por tê-los feito esperar tanto tempo por um novo capítulo! Ocorre que este segundo semestre de 2014 tem sido muito corrido para mim. Estou dando aula de manhã, a tarde estou no meu curso de restauração (que chegou no fim do primeiro módulo, o que me deu um ar de 20 dias, só na teoria mesmo, porque estou aproveitando para pegar o máximo de aulas que eu posso a tarde para fazer o meu pé de meia) e também tenho o meu curso de artes visuais no período da noite, todos os dias da semana. Para melhorar, estou trabalhando como voluntária em dois projetos, um é uma oficina chamada Ensinando a Educar, vinculada ao curso vespertino, e o outro é uma revisão de uma apostila do curso, então sempre que eu tenho um tempinho eu ando lendo o material da revisão, o que não é pouca coisa e envolve uma área bem distinta da qual sou formada, mas que me dá muito prazer de aprender! Como ninguém é de ferro e nada dura para sempre, o ano está chegando ao fim e tenho um monte de ideias para a fic, então é provável que entre dezembro e janeiro eu esteja livre, leve e solta novamente para voltar ao ritmo de postar um capítulo por semana! rs.
Eu agradeço de verdade os leitores de todos os sites que eu publico a história pelo apoio, por não terem me abandonado e por me mandarem vários comentários carinhosos! Saiba que eu continuo aqui por vocês e tento o máximo que posso escrever algo que te encham de ânimo! Sou realmente muito grata pela compreensão!
Abraços.
Obs.: Últimas três mil palavras não revisadas. Perdoem os erros que encontrarem. ;)
